Amostra do mobral



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Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ

Centro de Letras e Artes – CLA

Faculdade de Letras

Departamento de Lingüística e Filologia

Programa de Estudos sobre o Uso da Língua - PEUL

Banco de Dados do PEUL/UFRJ


AMOSTRA DO MOBRAL


Falante: 04 Ild

Sexo: feminino

Idade: 43 anos

Escolaridade: MOBRAL

Bairro: Nova Iguaçu


Profissão: doméstica

Data de entrevista: 1976

E: Então, vamos começar. Você não quer um cafezinho mesmo não?

F: Num quero não, muito obrigada.

E: Você vinha outro dia, né?

F: Foi... segunda-feira, me arrumo, vim até a portaria, aí, quando cheguei na portaria, a chuva caiu. Falei... tava um pouquinho resfriada... eu falei: “Não não, num vô pegá essa chuva não, porque s’eu pegá essa chuva vai me... vai me trapalhá, porque vai me... vou piorá. Aí, voltei e já tinha marcado justamente. Falei, fique preocupada dela ficá esperando e tudo, mas tava chovemu, mas demorô um tempão. Eu esperando a chuva passá e não passô.

E: Olhando o tempo e sentindo que estava ruim mesmo.

F: É, choveu muito frio eu fiquei com um medo louco de pegá friage e depois piorá, porque a... a gripe é assim, a pe... a pri... a quando vem não é nada, agora, agora... como é que se diz? Quando... a volta que é frio, sã?

F: Já tava resfriada, sã?

E: A recaída.

F: É a recaída. A gente, na hora, não se lembra.

E: A recaída.

F: A recaída.

E: Você tá gostando de trabalhá com a Nelize?

F: Ih! Ela é ótima, ó... muito boa pra gente trabalhá com ela.

E: Como é que você está se sentindo?

F: Eu, pelo ao menos, num sei... a minhas... a minhas palavra se tá tudo damo tudo, agora quem deve sabê mesmo é ela, certo?

E: Acho que está sim.

F: Agora num sei se o que eu digo se... tá tudo certinho.

E: É a primeira vez que você participa de uma experiência assim?

F: É primeira vez, primeira vez qui eu tô...

E: Você nunca...

F: Nunca.

E: – É a primeira vez que é entrevistada.

F:- É a primeira vez.

E: E no Mobral, você é muito caxias?

F: Ih! Caxia é como?

E: Você nunca ouviu falar numa pessoa caxias não?

F: Não, não nunca.

E: ... estuda muito, que vai muito na aula...

F: Ah! Eu sô muito preguiçosa, sô preguiçosa prá estudá! Até que agora eu tô paganu, tô peganu muitas coisas, mas custa um pouco, sã? Tem dia queu tô assim um pouco nervosa, vez muitas coisa eu dô assim...eu escrevo certinho, outras coisa num escrevo. compreendenu nada, poxa Mas eu consigo algũa coisa, devagazim vô inu, sã?

E: Às vezes, encontra dificuldade?

F: Não, eu acho queu sô um pouco prequiçosa nos estudo, sabe? Porque eu acho que tamém... acho que tudo é...acho qué do... mesmo do... do... do esforço, né? Então assim quando... tem vez assim que me dá um... me dá vontade assim d’estudá, mas tem outra hora que já num dá porque causa, a gente vai estudanu... a minha vontade é... a minha vontade é logo aprendê logo depressa, né? Aí, num dá, né? Qué dizê que leva tempo. É mesma coisa que pessoal vai fazê um vestido, vai fazê um vestido... Eu sô assim, apré... eu tenho vontade de aprendê corte de costura, mas só em pensá em pegá no vestido e achá queu... tem que dá conta logo daquele vestido, porque s’eu ficá muito tempo côaquele vestido na mão, já... já acho que já num tá bão, tem que começá logo e fazê logo. A mesma coisa é o... é o estudá, eu ach... achava que dentro dum mês eu tinha que aprendê tudo, mas num consigo. Então, fico pensanu, quando chega na hora, num sei é nada, num aprendenu, num adianta nada.

E: Tira isso da cabeça...

F: Tem que sê devagar, né? pessoa... Eu, tem vez, que... tem dia queu... vez eu vô a aula, muitas vez, vez eu num vô. Ontem mesmo foi um dia. Ontem não, ante... foi segunda? Segunda-feira, num fui, ficô um pouquim tarde, aí, num fui. Vei perguntá: “Por causa de que que cê num foi à aula?” Falei: “Ah, não porque a professora hoje num foi”.

E: Quem que perguntou?

F: O... meus patrões. “Por causa de que que cê num foi a aula?” Falei: “Ah, porque num... num deu tẽ... a professora hoje num foi”. Quando chegô ontem, ela tocô prá lá: “Cumé? Cocê... A semana inteira a semana passada eu num fui a aula, né?” Num fui porque tava resfriada, mas eu podia tê ido. Mas a pessoa ca cabeça causa... com... preocupada... Eu andei me aborrecenu, queu tenho ũa garota, né? Preocupada, aí pronto, porque aí é que num entra nada na minha cabeça. Aí, eu não vô, o dia queu tô muito nervosa, aí num vô a aula, porquê eu vô es... ela dita ũa coisa, num vô es... num entra na minha cabeça, acho qué por causa do nervoso, num sei. Aí num vô, deixo de é.

E: Você faz igual a esses malandrinhos.

F: Faço igual criança, mata aula. Aí, ontem a... Dona Santa telefonô, né? “Comé? Você nũ... você num... vo... por causa de que que você num tem vindo a aula?” “Muito resfriada”. “Mas a... chuva num derrete não”. Aí, ontem, eu fui, sã? Aí, hoje, eu num fui não queu tinha que vim pr’aqui.

E: Seus patrões te apertam pra ir?

F: Apertas, quer sempre faz esforço deu estudá, sá? Exclusive, a mĩa garota, quando ela num vai a aula, ih! Briga muito com ela, sã?

E: Mora lá?

F: Mora, é criada com eles.

E: É?

F: É, criada com eles.

E: Te aborreceu, você ficou...

F: Na... a...a... sabe mocinha comé que é, né? Mocinha vai pá rua, vez demora e... vez faz malcriação, né? Ela tem dezoito ano, sabe? Mocinha de hoje em dia, sabe como e acha que né? Que ũa mãe vez vai falá ũa coisa e acha que num tá certo, então, as mãe sempre acaba aborrecenu, mas é aquele coi... aquela coisa de momento, né? mas nisso já deixa está que e gente já num deixa de num ficá nervosa, né? Aí, na hora, em estu... pelo meno, estudo a pessoa num pode... ainda mais ũa pessoa já... já um pouquinho cansada do... da memória, né? Aí, já sabe, num entra nada na cabeça, de jeito nenhum.

E: Sua filha estuda?

F: Estuda.

E: Onde?

F: Ela já fez o... ela fez o... fo... fez o primário aqui no colégio... no colégio... no... colégio... no... colégio... meu Deus, esqueci. No colégio ali, lá num colégio que tem na Barata Ribeiro, tinha na Barata Ribeiro que agora terminô e ela fez o ginásio no Colégio Melo de Sousa e agora tá fazenu um curso prá secretariado, três ano, ela tá no último ano, esse ano ela termina, ela...ela se forma.

E: Já está trabalhando?

F: Não, vai começá trabalhá esse ano quele tá vai terminá o curso, esse ano.

E: Tem muito tempo que você está na casa desses patrões seus?

F: Tem vai fazê... vai fazê vinte e cinco anos no ano que vem. Esse ano fez vinte e quatro.

E: Já virô dona de casa.

F: Mas ou menos, são muito bons, pessoal muito bom, sabe?

E: Você foi pra lá mocinha, né?

F: Fui, fui prá lá nova.

E: Você trabalhô noutros lugares, antes de ir prá lá?

F: Trabalhei, tra... qué dizê, trabalhei assim acho que dando mais trabalho os outro, do que trabalhanu, né? Geralmente, todas garota que vai trabalha assim acho que dá mais trabalho do que trabalha, né? Porque tem que tomá conta e... faz é muitas coisa trapalhanda, porque num sabe fazer, né? Qué dizê que tá ainda... tá ainda aprendenu, né? Aí de... trabalhei nũas duas ou três casa, aí depois passei pra essa casa.

E: Você já tava... cobra? Já sabia fazer tudo?

F: Seu já sabia fazê tudo? Nã... não. O queu aprendi mesmo, aprendi justamente com... com a minha patroa, sá? Aprendi tudo queu sei, eu aprendi cum ela.

E: Então ela é muito boa, né?

F: É. Também a... eu acho assim... A pessoa quando tem boa vontade de aprendê, quando tem boa vontade de aprendê, pessoa aprende. Agora, quando a pessoa num tem vontade de aprendê, num aprende. Queu também eu sô dessas, né? Sô de... eu num minto. Quando eu cheguei quela perguntô. “Cê sabe cozinhá?” Falei: “Eu sei fazê comida necessária. Assá ũa carne, assá um... fazê um macarrão, ũa galinha assada, um feijão, essas coisa fácil”. Ela falô: “Não, por isso não, queu posso te ensiná, se você tivé boa vontade, você aprende”. Aí pronto, entrei e hoje em dia num me atapalho em nada sei tudo.

E: Você que toma conta da casa inteira?

F: É, sou eu que tomo conta da casa, quela trabalha fora, todos eles, eu que fico em casa, tomanu conta da casa.

E: Qual outra profissão que você gostaria de ter?

F: Qual outra profissão? (faz um gesto mostrando as unhas)

E: Que?

F: Unha.

E: Ah, é?

F: Unha e cabelo.

E: Por quê? hem?

F: Eu tinha von... eu tenho vontade de aprendê manicure e... corte de costura, porque também eu acho muito importante, é tão bonito a gente vê um... ũa fazenda assim, botô em cima da mesa... Acho lindo, vê ũa fazenda assim, comprô, bota em cima da mesa, entô, fez o vestido, eu acho bonito. Então, eu vô fazer esforço ainda ver... vê s’eu faço esse corte i aprendê. E vô vê s’eu faço o curso de manicure que é mais fácil.

E: Não precisa de aprender ler, prá costurar precisa, né?

F: É, pra custurá... eu acho que preci... precisa sim, né? E eu tô fazenu esforço justamente... porque quando eu penso nisso, eu falo: “Agora, eu tem que fazê esforço, porque senão não vai”.

E: Você vai largar seus patrões?

F: Nããã... eu acho que... num sei, eu acho que nũ se... ah, mas ela se a gente melhorá, í craro que a pessoa arrumou ũa profissão assim melhó, até minha patroa, ela é muito minha amiga, ela acho que... se é prá melhorá, ela vai achá que estô certa, né? Não vô achando ná-la, qualqué coisa que precisá de mim, tô sempre servinu, vô lá, ajudo, em algũa coisa, precisá de arrumá ũa outra boazinha arrumo prá ela, quela foi muito boa pra mim ótima, então, eu acho que... num vô tamém querê prejudicá, aprendê ũa profissão e abandoná-la, porque é bonito, né? Pessoa tê ũa... ũa outra profissão.

E: Sua patroa parece ser muito boa.

F: Ah, ela é ótima! Muito boa mesmo, boa mesmo. Aliás, tanto ela como a... filha e o... meu patrão, sã? São gente muito boa.

E: São três pessoas só em casa?

F: Não, são três, é... não são quatro com a velhinha, com a mãe dela, são muito bons.

E: Não dão muito trabalho pra você não, né?

F: Não, não porque é tudo adulto, né? Exclusive, na sexta-fê... quinta-feira, casô ũa filha, que é até minha comadre, sã? É mocinha da minha garota casô na quinta-feira. O casamento foi muito bonito, ainda tá na lua-de-mel ainda, sã?

E: Como é que foi o casamento?

F: Ah... Toda vestida de noiva, linda! Com’eu adorei vê ela vestida. Fico tão bonitinha, ela. Foi lindo! O casamento foi lá naquela igreja lá da... lá ná... foi na Gávea, ũa igrejinha que tem la? Foi ali naquela igreja. Ũa igrejinha que tem. Ela tava linda ela.

E: É como uma filha, também, né?

F: Ah! (inint.) eu gosto muito dela, sã? Ainda ontem, ela telefonô, eu falei com ela. E a minha garota chorô, porque ela foi bem dizê criada com ela, né? Ela des quando nasceu só dormia ali, junto com ela, junto com ela. É muito amiga. Quando ela tinha que desabafá, se desabafava com ela, e ela cum... madrinha com é... cõa minha garota e minha garota com ela, aquela coisa, né? Então, o dia do casamento, como ela chorô! Ela casanu e ela choranu. A pessoa acostumado, né? É tanto qu’ela taqui pra Bo... tá praqui tamém pra Botafogo pra casa da sogra dela, vei ficá cõa sogra, e ela acho chega sábado. (inint.) nós brincnãũ junto, eu e ela.

E: Como é que foi a festa do casamento?

F: Ah, foi muito boa, hum... teve ótima. Muita gente, hum... Três hora, ela tava em cima de mim: “vai fazê o cabelo, vai fazê o cabe...” Eu tô venu que você num vai em meu casamento! Eu falei: “Calma, queu vô ao casamento. Hoje num tem... num tem movimento no cabelereiro”, qué dizê, dá muito tempo deu fazê o cabelo, porque o casamento foi às sete, né? Nós saimos de ca... saimos de casa às sete horas... O casamento foi às sete, nós saimu de casa às sete hora, nós chegamos atrasado, né? Aí, ainda deu tempo. “Se tu num fô em meu casamento, eu nem sei não”. Qu’ela gosta tamém de mim e eu gosto muito dela, sã? Nós brincnãũ junto. Às vez... cinco hora, eu andava correnu, depressa cũo serviço, cum jantar pra... cinco hora nós... nós brincá. Ia brincá de pique se... cumé? Pique será descondê, sá? Na vila, tinha ũa vila, então nós brincava. E tinha lá garota, colega dela, sâ? Aí nós íamu brincá.

E: Onde era essa vila?

F: Ãh?

E: Onde era? a vila?

F: Vila Isabel. Aqui em Vila Isabel. Na terra de Noel Rosa.

E: Noel Rosa é de lá?

F: É Noel Rosa, da rua Teodoro da Silva. Aliás, a minha garota fez entrevista, também, na terra do Noel Rosa, falô cum... num sei se é irmã dele Noel Rosa, Dorica. Tinha Dorica e o... e a... ũa outra também, tinha duas irmãs. Era irmã dele. Fez a entrevista tamém por lá... cum... na terra de Noel Rosa. Então, quando chegava Carnaval, eles enfeitava aquela rua Teodoro da Silva todinha ali, de... ocasião de... de... de Batalha de Carnaval. Que de primero tinha, né agora que num tem.

E: Como é que é?

F: Na... dum... um sábado, uma semana antes do Carnaval, eles enfeitavãũ toda rua e então vinha aqueles bloco todo naquela rua. Ũa semana antes do Carnaval. Então qué dizê quera por causa de Noel Rosa, é tanto que muitas escola de samba desfila em Vila Isabel na Teo... na... na 28 de setembro, porque lá é terra do Noel Rosa. Todas escola desfila ali. Eles desfila na cidade e desfila lá também.

E: Então o Carnaval lá é muito animado?

F: É! Animadíssimo muito animado lá.

E: Você gosta?

F: Hum... poxa, eu quando era mais novinha, como eu gotava! Qué dizê, ainda gosto, hem! Ainda gosto muito de apresiá, e de vez em quando, a coroa tamem dá uns... uns passozim, num tá fazenu nada, num está fazenu nada, então dá uns passozim pra tirá os ferruge. De vez em quando, dá uns passinhos prá... prá passa o tempo, prá tirá os ferruge prá vê...prá vê... se fica... fica em forma.

E: E sua filha gosta também?

F: Ah, gosta. Ainda esse ano no... na Portela, ensaio da Portela, conhece a Escola de Samba Portela?

E: Conheço.

F: E então aqui no... Mourisco, né? Nós todo sábado vinha, né? Exclusive, amanhã tem diz que de quinze em quinze dia vai tê agora, ensaio da escola de samba... a... Portela. Então, todo sábado, nós vinha, todo Sábado. A... exclusive agora no... no Carnaval, ele tavãu cobranu vinte conto cada... cada dama. Eu falei: “Ah mas é por causa disso queu vô deixá de i, não. É muito bom. É um... lugazim... é um lugar assim... muito... ũa escola assim... ũa escola que a gente gos... que a gente vê que é... ambiente num é carregado, porque têm muitas escola, por exemplo, a escola da Mangueira, Escola da Mangueira ali só dá aquele pessoal deli do morro, né? E muita gente que... muito ladrão, muito... sai... pessoal que num... num serve, sã? Tudo ali naquele ensaios. Exclusive, eu fui lá ũa vez, eu num sei como é queles conseguiru tirá minha carteira. Eu cõa carteira dinheiro dentro da bolsa. Eu passe... eu tava cõa carteira de dinheiro e aí eu passei na quadra, vi a minha carteira de dinheiro na... no... já ia passanu, no meio da... do... – Escuta, gente, sabe que esta carteira é minha? Mas aí eu num... eu num tô cum ela agora na bolsa, a... minha carteira tem a... o...a inicial todinha do meu nome, né? Aí eu olhei, eu falei, eu mostrei a minha colega: “Mas num é possive minha carteira aqui, menina. Cumé quessa minha carteira, pois seu tô cõa bolsa, cum é que minha carteira vai pará aqui?” Menina, já tinhãũ met... meterá a mão na... Aí panhei, panhei a carteira e botei dentro do bolsa, né? Já sem o dinheiro, que já tinhãu (inint.) panharãũ a cartera, tiranũ o dineiro... mas eu fui esperta, quandeu cheguei tirei, deixei só dez conto na cartera, e tirei a metade do dinheiro e... samiei na bosa, samiei na bolsa e fiquei. Aí tirei a... vi a cartera, panhei, meti na bolsa. “Mas que coisa, meu Deus do céu! que mão leve é essa?” Cumé que conseguirũ tirá... me tirá a cartera e... e... a... não vi. Liguei não, passei a mão na bolsa botei dentro da outra bolsa, fiquei quieta. Aí, quando chegô noutra dia... chegô no... noutro dia, não já era quase de manhã, quase que os ensaio termina tarde, então nós vinha pro ponto mais minha colega... eu... fomos ũa... ũa turma de colegas, pra pegá o táxi, tão no ponto, queu meto a mão dentro da bolsa, cadê dinheiro? Cadê minha cartera de trabalho? Falei... Eu já botei a mão na cabeça. Falei: “Ih, Lindaura! Comé queu vô fazê? Minha ca... o dinheiro né?” Nada porque o dinheiro... o. dinheiro... a gente arruma outro agora o negócio é a docu... a minha carteira de trabalho, paga INPS e tudo, né? Tava na carteira. Falei: “Comé queu vô fazê?” Aí voltei, voltei lá, falei cum o moço lá do... do... do que tomá conta lá da escola, aí voltei falei com ele. Ele disse assim: “A senhora a... senhora faz isso... Se tivé aqui... s’eles não levarum é a... nós panhamos... s’eles não levaru eles deve tê jogado a cartera por aí, jogaru a cartera por aí s’ele... se tivé por aí a gente... a senhora aparece aí que nós lhe entregamos a cartera”. Aí, eu botei a mão na cabeça, eu falei: “Meu Deus do céu, se perco essa cartera, eu vô ouvi pra chuchu!” Aí, quando chegô na segunda-feira, me tocaru que... tinha encontrado a minha cartera na quadra, minha car... minha cartera de trabalho. Eu falei: “Bonito... Aí, eu dei graças a Deus, né? Já pensô na hora que meu patrão pedi essa carteira?

E: É

F: Mas também pessoa pode tirá outra, né?

E: Pode.

F: Pode... Mas aí já ia dá novo trabalho outra vez.

E: Deu muito trabalho para você tirar a primera?

F: Não, a cartera de trabalho, não, agora a cartera... a cartera identidade dá muito trabalho, que a pessoa... é tanto papel pra tirá um... dentro de cinco minuto tirá ũa cartera, né? É muito papel demais

E: Onde que tira a cartera de trabalho?

F: No INPS. INPS, lá na rua tem.

E: Tem muito tempo que você fez sua documentação?

F: Já um bocado de tempo. Agora cartera profissional tirei tem um... em setembro de setenta e qua... setenta e três, aquela ocasião que tinha que i... todas empregada tinha de andá de cartera assinada, aí eu fui tirei m... mas outros documento eu já tinha tirado, um... muitos anos.

E: Então você paga o INPS desde 73?

F: Desde 73 pago. Mas a... sabe quisso aí eu... é ũa coisa emgraçada, eu num... num acho isso, eu acho isso bobage, né? Eu acho bobage.

E: Por quê?

F: Não porque eu... é bom num... num ponto, né? Porque amanhã ou depois, quando ficá mais de idade... prá... aposentá, né? Agora negócio de médico eu acho que num é grandes... grande vantage não.

E: Por que que você acha?

F: Ah, eu acho que não. Não porque... eu já vi quantas colega minha que já... queu já vi fazenu tratamento no INPS, que sela vão prá lá melhozim quando... quando ela pensa que não, elas tão morrendo. Falei: “Ah, não! Num dá. Eu nunca fui. Nunca fui”. Falei: “Ah, não eu já vi qu’esses médico de lá acho que acaba é matanu... num vô não”. Nunca fui. É tanto que nem a carterinha do INPS ainda num tirei não.

E: Você consulta aonde?

F: Eu tenho um médico lá... lá da... Santa Crara. Trata, trata de mim e trata da minha garota, sã? Desde pequenininha a... um bom médico. Eu sô difícil i a médico, i a coisa mais difícil. É o... eu fui... o... ũa vez ele foi em casa, só porque eu tomei um pouco de leite de onça, me fez mal, porque eu num tem costume de bebê, né? Bebida assim alcoólica. Aí, tomei leite de onça aquilo me fez mal. Noutro dia, manheci passanu mal. Conclusão: foi preciso de i médico em casa. Aí quando ele chegô lá, ele disse assim: “Escuta aí, você bebeu, num bebeu?” Eu falei assim: “Não, eu bebi um pouquinho. Foi assim um pouco de leite de onça e não sei a... foi inté um noivado queu fui, um noivado queu fui então tinha leite de onça queu nunca tinha bebido, tinha cravo, tinha canela, tinha tudo muito quente e tinha um tal, num sei se...” Se a senhora já viu... falá na tal cal... calcinha de nylon, né? Acho queeu misturei o leite... leite de onça com... cõa calcinha de nylon, tomei aquilo e noutro dia passei mal. Acho que mais foi por causa da canela, essa coisa quem... tinha até amendoim no leite de onça, aquilo pronto. Aí, foi aonde quele foi em casa me vê. Nunca mais fui a médico, coisa mais difícil. Minha patroa diz: “Poxa, cê... benza Deus, cê tem ũa saúde de ferro. Quanta gente toma remédio...” Eu falo: “Graças a Deus!” Num tem coisa melhor do que a saúde, né? Pessoa pode trabalhar à vontade, tem prazer pra tudo. Tiranu um resfriadozim que atrapalha a í o colégio (riso), medo de pegá chuva... e essas coisa é coisa passageira mesmo, né?

E: Estou curiosa pra saber o que que é calcinha de nylon.

F: Não, é bebidazinha queu também não sabia não. É ũa bebidazinha que faz... faz em casa, faz em casa, Tem ba... a bati... eles faz... tem pessoas que faz batida em casa, faz de maracujá faz de... limão. Então eles inventô essa calcinha de nylon, eu... nem sei comé que faz, mas deve sê igual batida. Então tomei o leite de onça com isso, pronto. No outro dia... mas eu acho que o que me fez mal mesmo foi o tal leite de onça: amendoim, canela, cravo, isso é ũas coisa tudo quente, pronto, estragô tudo, me deu dor de cabeça, me... estrago o fígado. Então já sabe, no outro dia foi certinho, chamá o médico. Tamém... nunca mais... nunca mais fui a médico. Então é... por isso queu digo, INPS pra mim é bobage, porque eu quase num preciso de médico, graças a Deus.

E: E a sua menina, você não gosta muito com ela não?

F: Não, só quando ela era pequena, agora apanhô saúde, graças a Deus. Ela, quando era pequenina, era muito... muito assim... doente, sã? Doente assim um modo de dizê, né? Dava ũa cocerinha. Ela foi tratada no... o... médico durante um ano, né? Todo mês levava ela ao médico, tinha um médico certo, até o doutor Milton aqui do... era... ele no... nós morava em Vila Isabel. Aí, todo mês, levava ela ao médico pra controlá a comida, a... comidinha dela, mamadera, a quantidade de mamadera essas coisa, né? Aí, depois então, mudamos justamente pra esse doutor Mário, quan... quando nós mudamos praqui, aí viemos... aí mudamos pro doutor Mário, que é médico dela e médico meu. Ele é médico de adulto e lá era criança, mas como a gente não sabia de médico aqui, aí bati lá porque num sabia, cabô ele ficanu tratanu dela.

E: Cafezinho novo agora não?

F: Aceito.

E: (inint.)

F: Mas como tem chovido, né? Nossa Senhora! Na semana passada, foi quase a semana intera, né? Choveu do... domingo... fez agora oito dia que chove tamém, que foi um temporal, que foi ũa coisa horrível. Até sábado eu tinha tratado de i num aniversário até com ũa colega, sã? E eu num fui por causa da chuva, mas foi um temporal, mas um temporal que num deu nem prá mim i ao cinema. Só saltá a rua e i ao cinema, num deu. Pruque ali a Raimundo Correia e... cõa Nossa Senhora de Copacabana, quando chove um bocadim fica logo... cheio, né? Qué dizê que num deu, mas choveu, mas choveu que num foi brincadera quando chegô domingo, domingo a mesma... dois domingo e dois sábado a seguir chovendo, quer dizê que num... num dá prá pessoa sai.

E: Praia acabou...

F: Praia... não, mas eu acho queinda vai esquentá porque hoje tá quente, né? Hoje tá muito quente. Até sai cum...cum brusa...manga comprida porque tá... dentro de casa queu tô ass... achanu assim um pouco frio. Falei: “Aca... é bem provave lá na rua tá... tá frio”. Falei: “Sai de... Ainda bom que ela num é quente”. Ainda bom que ela num é quente, é seda, sã?

E: Ah, é fresquinho, né?

F: Mas mã... mas manga comprida tô até (inint.) Manga comprida cum um calor desse.

E:... de manhã fez um pouquinho de frio...

F: É

E: De dia esquentô...

F: É. E... E... foi quando? Segunda- feira, né? Também que choveu de manhã e... de noite deu ũa noite até muito bonita, ontem a noite eu pensei de chove, não choveu, ao contrário, deu ũa noite inté muito bonita, céu estrelado, quando eu vim da aula, eu olhei assim, falei: “Mas que noite linda!” E hoje tamém pela mesma coisa, pensei tamém... hoje, ia chovê, que nada! Acho quinda vai esquentá, ainda vai fazê bem inda bastante sol ainda, sã? Agora vô lhe contá, quando começar o frio, não vai ser fácil não.

E: Será que não?

F: Ah, acho que não, acho que vai, num vai se... num vai sê mole não porque o... o... calor começô feio, ainda vai havê muito calor aí ainda e quando começá o frio, eu acho que tem desconfiança que vai sê muito... muito frio, muito frio mesmo. Ũa coisa queu tenho pena é esse pessoal no frio, esse pessoal que dorme na rua, hem? Que coisa triste! A gente dentro de casa, a gente dentro de casa, dorme cum cobe... lençol, cobertor, cum todos agasalho, e ainda sente frio, quem dirá esses pobre coitado na rua, né? Com criança que tem... às vez, ũa pessoa possa aquela porção de criança, tudo deitado. Fico com ũa pena, Deus me livre!

E: Dá vontade de trazer pra casa, né?

F: Mas num é? Todinho, eu fico com tanta pena! Será queles num ã... eu... fico pensanu: “Será qu’essa gente num tem lugar pra... num tem casa assim pra ficá, num tem a casa deles pra ficá não?” Porque num é possive, meu Deus do céu... será que é prazer? Ou, então, com certeza, traz criança, com certeza, traz pra ele fica pedinu com certeza, né? Que outro dia eu inda tava passe... tava passanu lá na... tava passanu tava tomanu um chope ali na... na Avenida Atrântica, bem ali perto do... na Santa Crara. Passô ũa senhora cõa criancinha desse tamanzin assim, criancinha podia. Tê o quê? Uns três anos, chupetinha na boca e a... aí chegô perto do... chegô perto, chegô perto de nós, disse assim: “Qué...” oferece, oferece bala. Ou então com rosa. Eu falo: “Coitado! De pesim no chão, tudo sujinha, ũa criancinha tão bonitinha”. Eu falei: “Ah, que pecado! Isso é maldade, fazê isso com ũa criança judiaria”. Qué dizê, tá exploranu as criança. Um frio, em vez de tá em casa cõa criança, a mulhé gorda, podemu trabalhá. Ah... eu num posso vê ũas coisa dessa, me dá vontade logo de falá: “Vá! Enfrenta lá um... enfrenta um tanque de roupa, deixa de tá judianu das criança!” São pessoas que num qué trabalhá, cada mulher forte vendenu rosasa noite e botanu a criancinha pra tá... pra tá vendendo rosa. Fico fula, sã? Ih! Quantas... quantas senhoras rosa, fico fula, sã? Ih! Quantas quantas senhoras que... quantas senhoras forte, forte: “Hã, tem dinheiro aí prá né dá?” Falei: “Senhora, senhora num qué trabalhá não?” Pergunto logo: “Num qué trabalhá?” “Não, num gosto de trabalhá.” “Então, minha filha, num tem dinheiro não tá?”

E: Responde assim?

F: Re... respondẽ, como respondẽ! São horrível. Né? Pra gente fazê bastante malcriação? Num dá raiva?

E: Dá raiva.

F: Ũma pessoa com mais corpo do que eu, ũ... ũ pedimu, pedimu esmola! Eu digo: “Ah, vá trabalhá!”

E: E esse pessoal do morro?

F: Vá trabalhá – digo logo. Num tira farinha não. Trabalhá, num querenu trabalhá e... fica pedinu. Mais engraçado foi um dia, sã? Eu tava sem... nós tava... eu tava sentada na praia, eu e ũa outra coléga, nós tava até conversando, aí... passô né? Esse pessoal aqui no Rio tem cada esperteza! Aí eu... possô, nós tá sentada, aí passô o casal, né? Passo o casal e... me pediu seu tinha um dinhero pra passage que ia pra Niterói, ia pra Niterói, seu podia dá... arrumá pra ela in... os dois conto pra i pa Niterói Falei: “Não senhora, eu num tenho”. Não, eu não... num disse assim não. Aí olhei, aí fa... aí olhei pra minha colega, disse assim: “Coitada! Vô dá sim, capaz dela num tê dinhero mesmo pra passage”. Era um casal: a mulher e o marido. Falei: “Coitada! Vô dá assim uns dois conto a ela, coitada, quem sabe ela tá assim... tá cum fome... e vez mermo num tem dinhero da passage...” Aí virá minha colega disse assim: “Deixa de sê boba, cê num tá vendo... cê num tá vendo queles... eles tão cum esperteza ele qué pegá dinhero seu aqui, quando chegá ali adiante pega de outros... chega mais adiante vai peganu de outros, deixa de sê boba, cê num tá vendo?” Falei: “Não coitado, mas pode sê que vez... vez nem tem dinhero mesmo, tá até cum vontade de tomá um café, come um pão”. “Ah, cê num tá venu?” Aí fiquei quieta, sã? num dei não. Aí, quando chegô... eles... continuanũ andá, né? Aí, passô um casal, eles... paranũ. Aí, já´não pediu dois conto, já pediu foi cinco conto e eu atrás, com minha outra outra colega. “Cê qué vê ũa coisa?” Aí, fomos atrás, né? Só olhamu. Eles dum lado e a... nós do outro. Aí, eu só olhamu. Aí, che... quando chegô mais adiante, passou um casal... “Será que o senhô tem cinco conto aí pra... Senhô pode me arrumá, porque eu tô sem dinhero da passage, preciso de i prá Niterói, porque num sei o quê...” Aí, o moço acho que tamém negô, num deu não. E um casal forte, ia... ele ia na frente e a mulhé ficava atrás mancanu, sã? Aí, minha colega falô assim: “Cê tá venu? Tá venu a esperteza deles, Marta? Cê precisa deixá de sê boba, deixá de negócio da pessoa tá pedinu e você tá danu! Mas eu num sei, prá mim eu acho que a pessoa tá cum fome, sã? Ou mesmo vez num tem, vez muitas pessoa justamente estraga... estraga... a pessoa vez num dá, é por causa disseo, porque ficãũ pedinu de viço, de viço. E a mesma coisa foi um... senhor, outro dia, ele... eu tava conversanu cũa colega e ele... eu vi aquele moço, ele então: “Ai!” – Mexenu a barriga – “Ai!” – ainda gritanu. Então quand’ele vê que a pessoa tá cum dinhero, ele grita: “Ai que dor na barriga, que fome!” Então, falô em fome assim me corta o coração, né? “Aí que fome! Tô que num posso!” Aí eu parei, olhei, falei: “Coitado! Capaz de tá cum fome mesmo”. Eu tava cum dinhero, passei a mão nuns cinco conto, dei a ele. Falei: “Senhô... senhô, tá cum fome, senhô vai ali no botequim toma um café... um café cum pã, toma cinco conto”. Aí, deu esse cinco conto a ele, aí veio um senhô e disse assim: “Senhora fui bobo”. Falei: “Mas será o Benedito!” A senhora foi muito boba, senhora qué vê comé quele vai passá... vai passá outra pele ele vai... ele vai gritá mais do que gritô agora? Foi dito e feito, o moço veio passanu e ele: “Ai, ai, ai” - ficô gritanu ... “aí, aí,aí... quê dô na ba... no estomago, tô cũa fome!” Eu falei: “Mas né possive, comé que pode!” Aí o... o moço tirô dois conto e deu a ele. Eu falei: “Bom, aí nessas alturas ele já tá cum sete conto”. Aí tornô a pessá outro, quando já ia passanu outro: “ai, ai” gritô outra vez: “Aí que dô!” Falei: “Mas, Mas é verdade!” Por isso é que muita gente vez deixa de dá por causa disso. Que vez tem muita gente que vez tá cum fome mermo, num dá por isso. Eu ainda dei, esse senhô deu, né? Porque ele pensava que é verdade mermo, quõ chega na hora, que nada! Que fome nenhuma ele tava era juntanu o dele. Ele falô: “Ah, minha senhora, deixa de sê... a senhora... a senhora qué sabê dũa coisa esse pessoal assim tem mais do que a gente, tá?” Tem mais do que a gente, porqu’eles ficãũ fazenu esses troço aí na rua, vai vê queles tem casa, tem... vez... tem tudo Falô: “Ah... ué azá o dele, a gente dá em boas tenção, né?” Com boas tenção, pensanu que é verdade, né? Agora se tivé de cas... Deus se tive de castigá castiga eles num é a gente, a gente tá fazendo o que a gente acha que deve de fazê, se pode, pessoa serve a pessoa. Agora s’eles tão bancanu... comé que se diz, meu Deus, bancanu o... o senvergonhos, comé... safadeza, né?

E: Malandros.

F: É ma... é malandro sim, bancanu o malandro, então, Deus castiga eles, num é a gente, gente tá fazenu benefício prá eles, certo?

E: Tem muita gente assim, careta, né?

F: Careta, gente careta, pessoal assim. sã?

E:... num fuma não?

F: Eu... o que eu tenho de num... num gostá de fumá, minha garota adora. Hum! Diz ela que selas fica sem o cigarro, fica quais doida. Acho que... eu... num sei, eu num... eu nunca gostei. Mesmo vez quando tô no meio das colega, vez eu boto cigarro assim, mas depois eu sinto que num... num... sei lá fica um gosto do cigarro na hora qué dizê que aquilo mĩenjoa, aí num consigo botá mais cigarro na boca.

E: Você não importa que sua filha fuma não?

F: Não, porque queu acho que cada um, cada um tem um... serviço, né? Eu num tem porque eu fui costumada assim, é mas ela foi constumada cũas colega e tudo, né? Só digo a ela: “Num fumá muito”. Porque num... se fumá muito faz mal, né?

E: Depois que a gente acostuma prá deixá...

F: Deve sê horrível.

E: Tem uns que bebem outros fumam e...

F: E ela só fuma desse.

E: É

F: É desse cigarro aí qu’ela gosta.

E: Esse é mais fraco.

F: É mais fra... diz que o cigarro quanto mais caro é mais... é mais... mais fraco, né? Engraçado devia sê o contrário? É devia sê o contrário, proque o mais caro devia sê o mais forte e o... ao contrário, o mais forte é o mais barato. O pessoal de primero fazia, tinha uns cigarro que fazia na hora, né? Fumo de... de rolo, né? Porque tem uns maço tamém assim pra pessoa na hora quando passava no papel fazê e tem o... fedorente mesmo é esses cigarro de... esses... esses... esses fumo de rolo, né? Rolo não, é um... um negócio, é preto, um negócio preto, roliço, pessoa corta aquilo miudim, aí bota no... no... porque na roça fuma muito isso, cachimbo... bota aquele fumo no cachimbo (riso) acho horrível.

E: Você tem experiência de vida de roça?

F: Eu... sabe, cê sabe queu gosto de roça? Eu gosto, assim, bom prá ficá lá (riso) prá ficá lá... é a... quando eu vô na... lá na casa da minha irmã eu Austi, hum! É bom assim prá pessoa passá o dia, ficá lá, pessoa vem cõa cabeça fresquinha, é gostoso, tem aquele cheirinho de mato, isso é ũa maravilha, mas prá ficá lá a vontade, naquelas escuridão mei do mato, cobra passa, faz: (inint.), mã a gente tá co... ah não, não... a gente tá costumada aqui na... tá costumada aqui na cidade, é fogo! Bom assim só prá ficá com a cabeça... refrescá as idéia, tomá um ar diferente, né?

E: Você nunca morou em roça não?

F: Já! lá em Nova Iguaçu onde nós moravãũ era um... era mei roça, agora que tá mais pá frente Nova Iguaçu. Porque Nova Iguaçu agora tá bonitinho, no centro mermo de Nova Iguaçu, tem muito movimento, mas lá pra dentro mesmo, é um... é roça, é chácara. O pessoal faz plantação, muita laranja, manga, tangerina...

FIM DO LADO A




LADO B



E: Pegar manga fresquinha, né?

F: Ah... e... eu... eu quando eu era pequenina eu era triste, Nossa Senhora! Eu num podia vê um... um pé de goiaba assim queu tinha de trepá no... aliás, quando eu era pequenina, eu era magrinha, eu trepava em tudo quanto era árvore, era pe... nã... era pá panhá tangerina, pã panhá goiaba. Uma vez, eu cai do pé de goiaba (gaguejo) enfiei ũa... ũa... ũa felpa de bambu, sã? Dentro da minha perna. Minha madrinha mandô depressa na casa da minha... da minha vó sã? Prá panhá inté lá... nem sei o quela mandô panhá, eu sei quela mandô depressa. Quando eu passei assim na beirada do caminho tinha... tinha... tinha um pé de goiaba, com ũa goiaba lá em cima, madurinha! Eu olhei assim, falei assim: “Pera aí queu vô pegá aquela goiaba”. Mas só vício de passa, trepá no pé de goiaba. Aí passei eu trepi no pé de goiaba. Mas o pé de goia... a... onde eu trepei, o galho quebrô, quando quebrô eu bati em cima dũa felpa de bambu.Aqulo enfiô em tanto assim prá tirá aquilo ali foi gritanu: “Uai,... uai... uai... u... A minha madrasta: “Eu num te mandei você panhá... eu num mandei panhá... panhá goiaba, eu mandei você na casa da mamãe! Que era na casa da minha avó, né? Mas primero, eu tinha que fazê arte primero, pá podê segui a viagem, mas, aí, esse dia quebre... quebrei a cara. Eu falei: “Pronto”. Ainda apanhei ainda por cima, queu fui fazê arte, né? Aí, ela botô esse... cumé? Mercúrio, né. Aquilo ardeu que foi ũa coisa louca, aí queu dancei na corda bamba falei: “Nossa Senhora!” Mas eu tinha mania. Quando eu era pequena, eu era magrinha, mas eu era triste. Era pé de tangerina, era manga, pé de manga, trepava a altura que fosse eu ia, té lá na ponta, só prazer. Eu era ũa coisa, igual macaco.

E: Eu também já subi muito em árvore.

F: Ah... mas coisa boa a gente quando é criança, né? Que a pessoa num pensa... num pensa... num pensava nada.

E: Fazia o que bem entendia...

F: Ah... maravilha!

E: Levava uns beliscões de vez em quando.

F: Ah! Coisa.

E: A mãe da senhora era muito brava?

F: Não que a minha mãe... minha mãe me deixô com a idade de cinco anos, ela me... ela morreu, resguardo quebrado, sã? Resquardo quebrado, qué dizê, quela me deixô com a idade de cinco ano fui criada cum a minha madrinha, tia e madrinha, sã? Fui criada com ela e com meu padrinho. Aí, depois, meu pai casô outra vez, aí, fui prá casa do meu pai. Quando fez um ano, quela casô... quando fez um ano que a minha mãe morreu, ele casô outra vez, aí, quando eu tava com treze ano, ele quis que nós fosse... nós erãũ treze, três irmão, aí fomos fomo todos prá casa, ele quis que nós fosse pra casa, ele que acabô de criá nós.

E: Aí cedo você começou a trabalhar, né?

F: Aí cedo comecei trabalhá, mas é bom, né? O trabalho é tão bom, que a pessoa interte, num... num tempo assim tá pensanu... pensanu bobage, né? Queu fui criada mermo no se... no trabaio mesmo, sã? A minha madrinha, quando... quando eu era pequena, ela saia... porque de primero usava, esse pessoal usava muito a... parteleira, né? parteleira mesmo, de cima embaixo, panela de ferro, mas aquilo era um... era igual ũa... um espelho, né? Areava aquilo até, a pessoa olhava assim via a pa... a panela clarinha, então acabava de fazê comida eu ia... ia pá... lá arrumá a cozinha, aí, depois ela ia vê se as panela estava limpa, aí se num tivesse lavado direito, ih... Nossa Senhora! O pau comia, Mas é bom acostumá... Eu acho ótimo a pessoa acustumá a criança desde pequenino, assim, com o esforço de trabalho, né? Porque eu acho que... a pe... a... acho que a criança num senu criada com esforço de trabalho, eu acho que num... mais tarde, eu acho que num... trabalha, mas num tem aquele... aquele esforço mesmo, sã? Que a... por exemplo, eu sô ũa pessoa que de hoje em di... de hoje em dia, eu num estranho nada, porque a mesma coisa amanhã ou depois eu melhorá, eu num... num estranho porque o pior, como já se diz, a pessoa já passô, né? Por exemplo, eu faço o curso manicure, quer dizê, vô trabalhá, quer dizê, é a mesma coisa pra mim eu... pior, tudo já passei, quer dizê, tudo a gente... o ruim, tudo eu já experimentei, apesar deu... tenho coragem pra enfrentá qualqué trabalho, né? Tanque de roupa, um ou... ou então... lavá, passá cozinha e... aqui... es... espécie de trabalho. Qué dizê queu sô pessoa queu tenho coragem prá enfrentá qualqué espécie de trabalho e a pessoa quando eu acho quando num é criada assim, por exemplo, a minha garota, a minha garota num é criada assim, Ela não, ela faz, num resta a menor dúvida, se fô precisa assim ela vai prá cozinha faz um... faz um mas ela num... num é esforçada assim dizê... um serviço assim é craro quela vai querê o serviço da profissão dela, certo? Ela já num é... garota assim prá dizê enfrenta um tanque de roupa, queu sei que a criação dela mesmo já num foi prá isso, né? E eu não, já fui... eu já fui criada mermo assim, quer dizê que num tem medo, trabalho nenhum.

E:... Trabalharam mais, tinha resistência, né?

F: Muito mais. E eles trabalhavãũ... diz que de primero o... o pessoal... que... eles trabalhavãũ em lavoura, sã? Capinando, capinanu café, né? o tempo deles, o meu avô sempre contava, capinava muito café, mi... milho não, milho também num pode dizê queu já capinei muito milho; milho, feijão, de vez em quando, eu cortava o pé de feijão. Aquilo era quando tava em casa, meu pai prantava, sã? prantava milho, então dá aquele capim assim, ele mandava a gente capiná, feijão... Mas de primero era lavouras mesmo, dava o... dava esses côco, esses cacho de côco, m_é esses côco que tem a´gua não uns côco todo cheio despinho, a minha madrinha sempre contava que dá palmito, senhora conhece?

E:... o palmito já tirado, nunca vi a árvore.

F: Não já vi a árvore. É um... ũa um mato, é um pé de... de... de côco todo cheio d’espinho, aí, a pessoa acho que corta e depois tira o palmito, da ponta, mas dá uns côco, uns côco, uns côco pequenimim com cacho, sã? Mas num é esses côco de água não, uns outro cocô pequeno de cacho. Acho que da... dali que sai justamente palmito. Quer dizê, isso quera... diz... de primero diz quera lavoura mesmo, lavoura de café, justamente que tem tangerina, tangerina e... palmito, café, tem tudo isso, sã?

E: E o pessoal enfrentava aquela dureza toda.

F: Então, como enfrentavãũ! chuva... Nossa Senhora! De vez em... a cobra ia no pé de café .

E: Você tem medo de cobra?

F: Eu? Não, tenho medo... não, tenho medo, mas... mesma hora, eu tenho medo e na mesma hora, eu volto prá matá. Queu sô assim, eu ũa vez eu ia passanu assim na beirada dum caminho, a... foi té um correm... um co... correntim, ũa cobra que tem que se chama Correntino, sabe? Fez assim: (imitação) no meu pé, fez assim no meu... na minha... no capim, no capim aí eu já ia passanu, aí, escutei aquele barulho, quando eu olhei assim era um Corretinho, essas cobra grande, sã? Aí, eu olhei, falei dei aquele grito e corri, sã? Quando corri... eu corri, passi... passi... procurei um pé... um bom pedaço de pa... ũa vara! pedaço de pau não queu num vô matá cobra com pedaço de pau, porque a pessoa com ũa vara, né? Ũa vara forte, dá lhe um... uma... uma... uma varada na bum... porretada lá no mei, aí depois acaba de matá, porque a gente tem que descaderá primero a cobra, né? Pra depois então matá ela, pela... na cabeça, né? Porque tamém se machucá só... Diz que a pessoa matá cobra... matá cobra... machucar a cabeça e deixá, diz quela fica ali trainu a pessoa toda vez, pode passá o anos que fô, se a pessoa passá ali que aí elas... ela morde. Ũa coisa queu num sabia, foi sabê outro dia, sã? Eu falei: - Vivemu e aprendendo. Me disseru que... ũa cobra, ũ... por exemplo tem ũa cobra num buraco, né? Aí que tampá aquela cobra ali fica secanu dentro do buraco seca dentro do buraco, diz que a pessoa pode passá o anos e anos que fô, quando passá ali aquela cobra morde e mata a pessoa. Eu não sabia disso.

E: Mas a cobra num seca?

F: Diz que seca, mas diz que a cobra a... quela... ela tá ali, né/ mas diz quela fica tão danada, fica ali curtinu, né? Aquela raiva ali dentro daquele buraco porque num pode sair, né? Então diz que num pode fechá. Eu falei: “Mas ũa, eu morria sem sabê disso”. Não sabia. Porque a ũca coisa queu sei é que num pode machucá cobra, sempre quando... eu tinha a máxima atenção, quando matava cobra eu procurava jeito de dá logo ũa mesmo pra escaderá, pa podê matá, pra machucá eu não, largava pra lá. Seu viaqueu num ia... seu num ia matá ela mesmo, largava ela prá lá, num machucava não, agora essa queu fui sabê essa semana, em conversa com ũa colega queu fui descobri isso. Cumé que pode ũa cobra dentro do buraco a pessoa... pessoa... toca ela ali dentro, soca ela...ali onde ela tivé e fi... a pessoa pode levá anos e anos sem passá ali e quando passá quela marde, diz quela...

E: Num entendi como que ela pode reconhecer a pessoa.

F: Diz que tá com todo veneno, quela tá secando, mas diz que tá com todo veneno ali.

E: Eu já vi falá também esse negó...

F: Agora, eu queria sabê se i... se é... será que é verdade mesmo, eu fiquei assim em dúvida, falei: “Meu Deus, né possíve, será? Porque né po... cobra ali só po... deve morrê.

E: É também acho.

F: Ela deve de morré ali dentro daquele buraco. Porque se... tapa a cobra ali. Só se ela vai morrenu aos pouquinho, né? Porque dentro do buraco. É cumé que diz que tem cobra de... tem ũa cobra que só anda debaixo do chão, tal de cobra vidro diz que essas cobras são as piores, e num morre.

E: E as de duas cabeças?

F: Eu falei: “Poxa, eu morria sem... sem sabê isso”.

E: E as de duas cabeças?

F: Diz que essas são as... as piores também.

E: É porque já me falaram que cobra de duas cabeças não morde.

F: Pois eu já ouvi o contrário, diz que morde. Diz que morde. Tem cobra de vidro.

Nelize. Tem cobra de duas cabeças?



F: Tem, tem cobra de duas cabeças, sim. Tem cobra d’água.

F: Tem. Eu num sabia qu’esse... qu’esse... esse bicho... cum é meu Deus do céu? Esse bicho que anda... é... eu num sabia que ũa dentada daquilo, a pessoa morre. É...

Nelize. Escorpião?



F: Escorpião. Eu num sabia. Eu não sabia da... de... eu vim sabê disso lá pouco tempo.

E: Tem uns que são mais venenosos e outros menos.

F: Nossa Senhora! Eu... e... e... senhora sabe aquilo dá muito assim lugá... lugá molhado, né? Tenho um medo daquelo louco, é aquilo ainda tem facilidade de... de... de dá qualqué lugar, lugá assim molhado.E vem mesmo pelo ralo. Ũa vez pareceu um lá no meu banheiro. Ma... era... subiu... era... ele deve tê subido pelo cano, Eu dei um pulo! Falei: - Ah, não! Só o pavor, só em sabê Falei: - Ah não! Eu num sabia dessa não.

E: Que dá no pé de chuchu, ũa verde, senhora já viu?

F: É cobra d’água, né?

E: Num sei.

F: Diz que a ũa que num é braba. Olha, eu quando era pequena, tinha um... um reberão é reberão, pessoal tratava reberão. Aí eu tinha mania de gostá de pescá, tamém em desde essa vez queu tomei pavô. Eu tinha mania de... de... de pescá, idéia de criança mesmo. Aí, minha madrinha saiu, foi levá almoço pro meu padrinho e eu fiquei em casa. Fiquei em casa, aí ela mal saiu, panhei a peneira, porque na... na roça pessoal pesca de peneira, né? Aí, passei a mão fui pro tal reberão que passava assim perto de casa. Aí tinha acabado de almoça aquela hora, criança num pensa mesmo nada não, Deus que me livre! Aí, passei a mão na peneira, fui pescá, quando eu enfiei a peneira assim, que eu via comé queles pescava, botava sentindo, enfiei a peneira assim na... no meio daqueles mato assim dentro da água, eu dentro da água, junto com a peneira, puxei assim, veio ũa cobra d’água, larguei tudo... (riso) eu larguei aquilo tudo prá lá e sai correnu Falei: “Ah, não”. Aí, minha madrinha, aí minha madrinha, minha ainda madrinha calhô que ela já... ela... ela voltô, qu’ela voltô, dei tanto azá esse dia, quando eu fui cheganu minha madrinha já tava em casa: “Ah, onde cê estava que já está toda molhada?” “Madrinha, eu fui... fui pescá, eu fui pescá peguei fui ũa cobra”. “Mas minha Nossa Senhora, menina! Você... você cê num tá venu que você acabô de almoçá agora menina, oncê tá com essa cabeça?! Onde cê está com essa cabeça. Cê num tá venu que ocê podia tê ũa coisa depois do almoço, entrá dentro da água? Bem feito! Você devia tê pega... você devia tê pegado era um feixo de cobra”. Ainda apanhei. Que pessoal de primero, eles tinhãũ mania de prendê a gente entre as perna, assim e metê o chinelo Ainda levei foi ũa boa surra ainda. Eu era muito... eu era muito artera. Deus me livre!

E: A senhora teve uma infância boa, né?

F: Mais ou menos.

E: Ah, fez muita arte, menino que num faz arte...

F: Acho que toda criança é artero mesmo, sabe? Ã... ã... todo... a pessoa... a... a criança quando num faz arte, eu acho que é doente também, sã? Acho que é doente, porque a criança que num... tem saúde, gente num pensa nada pra fazê. Ia pro colégio brigava. Hum... Nossa Senhora! Hum. Aí, como eu era triste! Magrinha, eu era sequinha, sequinha, o queu tinha de seca, tinha de levada

E: Brigava Machucava...

F: Me bati... me batiãũ também, hum! me batia eu também batia, eu num queria nunca levá, leva´ a pior né? Me batia, eu batia também, num perdia tempo.

E:... Se a gente brigasse na rua a hora que chegasse em casa...

F: Ah, minha filha, apanhava, eu apanhava. Eu apanhava, mas num m’importava, porque já tinha batido também. E o pessoal de primero era tão engraçado, num deixava a gente brincá cum... pelo meno a... a minha... minha madrinha de noite assim, vez a gente ia brincá, né? (inint.) ũa fazendinha, quer dizê, que to... juntava ũa porção de garotas, garotos, tudo brincanu, mas o pessoal de primero num gostava que ga... garota brincasse cum garoto não. Ih, não! o... A... minha madrinha me avisô duas vezes: “Olha, num quero que você brinque cum... cum garoto”. Ãh... o... entrava... entrava aqui saia cá. Aí, eu brincava, os garoto... ah... a gente ia brincá, brincá de... de... de cobra... cobra ce...

E: Cobra-cega.

F: Cobra-cega. Levava cada tombo. Aí, marrava... a... ũa... de vez em quando a hora de cobra- cega, minha madrinha vai lá... vai lá vê seu tava brincanu com garoto... Num era eu só não, o pessoal de primero quera fogo mesmo, sã? Aí, ela ia vê se tinha... o... eu tava brincanu com garoto, eu tava dai um bacadim ela só vinha assim em minha orelha assim. Me agarrava pela orelha assim e ia me levanu prá dentro de casa. “Num quero que o cê brinque com garoto”. Eu falava: “Mas num é eu só que tô brincanu. Todo mundo tá brincanu”. Mas quando eu falava assim, ó, tapa comia na boca. Eles num dava licença de... da gente respondê não. É por isso que eu digo, a mocidade de hoje em dia é que tá com muita facilidade. Responde pai e mãe, porque primero não tinha essa sopa não. Filho falô... respondia... pau comia.

E: É os tempos mudam, né?

F: É mais eu acho... não, cê sabe que eu... eu... eu acho... eu acho assim... eu acho... bonito as... o pessoal de primero também era um pouco meio... atrasado, sã? Era, era muito atrasado, qualqué coisa falavãũ, vez, falava vez certas coisa que num devia, vez num era nada daquilo, mas erãũ... trasados. mão as... as coisa agora tá... melhor, muito me... porque tá tudo mais pá frente, porque de primero o pessoal era tudo (gaguejo) há pouco tempo (inint.) Escuta aqui, a senhora ainda é do tempo que namorava pelo buraco da (riso) “Ah, não num sô” ( risos )....

E: A menina da senhora?

F: Não a minha... a minha patroa, sã? Eu falei: “A senhora ainda namorava pelo buraco da...” Falei: “Eu não, só se é na tua terra”. Falei (riso): “E a nossa (riso) namorava pelo buraco...”. Não... que diz que de primero as moça... as moça quando ficava encalhada... (riso) Diz quando as moça de primero ficava encalhada, né? diz que o... já os pais era muito severo, eles num deixavũ as moça namorá, né? As filha... Então, que os namoro, os namoro era tudo pelo buraco, então aquelas moça... a... a filha mais velha que tava encalhada dentro de casa, que chegava no buraco dizia assim: “Uh! É você fulano?” – “Sô eu mesmo” (riso) “Ocê tá boa, eu tô bom”. Que namorava pelo buraco. Então, pessoa diz que só ia se vê dia do casamento. Então, dia do casamento, tocava aquela moça mais velha que tinha coitada, que tava encalhada, né? pa casá. Quando chegava lá, pensanu que vei... o rapaz pensava que era ũa moça, era ũa velha. (riso) Cada... cada coisa! Que contava isso muito era a minha... a minha... a minha tia e minha avó. Agora vê só se podia arrumá namorado pelo burraco... (riso)

E: Uma arrumava, a outra casava.

F: Aquela que tivesse encostada, as mais velha mesmo dentro de casa, botô pra a... botô pra casá. Agora veja só... cada atraso!

E: Diz que existia mesmo.

F: Com... diz que existia sim. Não , ó... ó... olhá eu tenho há pou... olha... há pouco... poucos anos, a minhas tia namorava assim, namorando lá o pai no meio... e ela lá, só chegava acho que... dize que chegava perto do namorado só o dia que ia casá, o... i... o pai num saia de perto quando saia largava ũa criança Inda contava que... ũa vez as criança ficava... mandava: “O fulano, cê num qué ũa bolinha, vai buscá ũa caneca d’água pra mim criança num ia não”. (riso) Ficavãũ doi... diz que ficavam doido prá criança i buscá a´gua, que nada! Criança saia dali nada, se já tava mandando já.

E:... dá um dinheirinho, aí ele só pode mais um tiquinho...

F: É... é... se mandãũ. Ah, mas o negócio é assim mesmo, acho que... acho que tudo deve de sê pá frente, cê sabe? Ah! Isso é atraso. Agora tem ũa coisa, de primero existia mais casamento do que hoje em dia existe. Existia muito mais casamento, agora de hoje em dia, muito raro, nenhuns rapaze qué nada cum casamento. Tem tanta coisa aí. Cõa facilidade boa pra eles, pra que queles qué casá? Casá prá que? Experimenta ũa hoje, experimenta outra amanhã, pronto vai levando. É... Novinhas, garotas novas, pra que casá? O que dá certo eles ficãu.

E: Num dá, manda prá frente

F: Oh! Num tá venu que casamento de hoje em dia é casamento? Casamento, pessoa casa num deu certo, manhã de... manhã ou depois já tá desquitanu, qué dizê, antigamente, num existia isso, né?

E: Principalmente a mulher, né?

F: Agora o... eu acho o... os homens sempre... sempre... sempre são mais vantajoso do que a um... do que... a próprias... mulheres, sabe? Porque o homem vai pra rua, pinta o canecão, mulhé tá sempre em casa, quietinha, né? Agora na... na mulher... já sabe que pega, né? Neles... eles pode tê... longe da família, ele pode tê... tê ũa duas ou três... chego em casa, ele é o mesmo. Agora, na mulher não, mulher já...

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