Angústia e dor de um jovem soldado alemão no romance: amar e morrer de erich maria remarque. Resumo



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ANGÚSTIA E DOR DE UM JOVEM SOLDADO ALEMÃO NO ROMANCE: AMAR E MORRER DE ERICH MARIA REMARQUE.

RESUMO: O romance Amar e Morrer de Erich Maria Remarque leva o leitor ao contexto da Segunda Guerra, em especifico ao front Leste no ano de 1944 da então União Soviética. A estrutura desse romance se pauta na dor e no sofrimento de um jovem soldado alemão, que está sendo consumido pela destruição da guerra. Frisa-se que o amor e a esperança constituem o pano de fundo desse romance. A narrativa de Amar e Morrer conduz o leitor ao seio da Alemanha, aos dramas e perplexidades do povo alemão, às esperanças e angústias de um homem e uma mulher que se amam. Portanto esse escrito busca através do romance, e de seu personagem analisar os questionamentos do soldado sobre a morte e a guerra e de sua relação com a Alemanha e o governo nazista.
Palavras chave: Guerra- Alemanha- Nazismo-Morrer-Soldado

ABSTRACT: The Love and Death of Erich Maria Remarque's novel takes the reader to the context of World War II, in specific the Eastern front in 1944 from Russia. The structure of this novel is guided in the pain and suffering of a Young German soldier, being consumed by the ravages of war. It is emphasized that the love and hope are the background of this novel. The narrative of Love and Death takes the reader to the heart of Germany, the dramas and perplexities of the German people, the hopes and anxieties of a man and a woman who love each other. So this writing search through the novel, and his character analyze questions about the soldier's death and war and its relationship with Germany and the Nazi government.
Keywords: War-Germany-Nazism-Die-Soldier

A Guerra no Front Leste
Antes mesmo de tornar-se o Führer da Alemanha nazista, em seu livro “Minha Luta”, Hitler expõe seus argumentos (convincentes ou não) para um futuro confronto com a Rússia. Apoiado em contestações históricas, vazias e sem fundamentos que partiam apenas de suas reflexões, ele afirma que na Rússia houve “sim um maravilhoso exemplo de eficiência como criadores de Estados, dos elementos germânicos no seio de uma raça inferior” (HITLER, 1920, p.608). Segundo ele, a infundada questão da raça e conseqüente superioridade cultural alemã possibilitaram que povos inferiores como a Rússia formassem e mantivessem, ao longo de séculos, sua formação política e cultural. Os responsáveis por usurpar e destruir essa cultura da Rússia teria sido os judeus mediante o movimento bolchevique. A Rússia estaria dominada por uma doença diagnóstica por ele como: judaísmo. Os russos seriam fruto de uma raça inferior, eram inábeis de se livrarem dessa maledicência que, desde a Revolução, consumia aquele país e que seriam incapazes de controlar o vasto império russo.

Mas o destino seria “piedoso” aos russos e colocaria a Alemanha no seu caminho para liquidar o mau judaico, e por fim ao domínio dos mesmos sobre a Rússia. Era o fim do Estado bolchevista e dos povos subjugados pelos nazistas. “Fomos escolhidos pelo destino para sermos testemunhas de uma catástrofe que será a mais formidável confirmação da verdade da teoria racial” (HITLER, 1920, p.610).

Conforme Mazower (2013), no principio dos de 1940, Hitler estava próximo de transformar em realidade, a visão continental delineada no início dos anos de 1920: no fim do outono de 1941, ele esperava que o Eixo fosse o senhor militar incontestado da Europa. A Alemanha controlaria em território que se estenderia do Atlântico ao Cáucaso (MAZOWER, 2013, p.180).

Hitler estava certo em uma invasão rápida e sem grandes prejuízos ao exército alemão, mas essa convicção da vitória fácil frente ao exército vermelho foi se esfacelando ao passar dos meses e anos com o rumo que a ofensiva tomou em território soviético. As tropas que até o inicio da invasão levavam consigo essa mesma idéia, ao passar dos tempos começaram a contestá-la em virtude de derrotas alemãs, assim como do enfraquecimento militar alemão.

Um diálogo em Amar e Morrer reflete essa argumentação, mesmo que entre os soldados alemães ainda existissem alguns, que acreditassem na vitória alemã e jurassem lealdade ao partido. As expectativas eram as mais terríveis possíveis entre a maior parte dos soldados.

[...] Nobre membro do partido, perguntou a Immermann trouxe nos comunicados a respeito da Rússia?

- Por quê?

-Por que estamos na Rússia, e isso interessa a alguns de nós. Ao nosso camarada Graeber, por exemplo. O rapaz da licença.

Steinbrenner hesitou. Não tinha a mínima confiança em Immermann; porém triunfou a sua lealdade ao partido. Anunciou bem compassadamente:

“A retificação da frente oriental já se acha quase completa. Os russos mostram-se exaustos por causa das perdas gigantes que lhe temos infligido. Estão preparadas novas posições bem amplas para o contra-ataque. Já se ultimou o dispositivo estratégico das nossas reservas. Será irresistível a nossa contra-ofensiva com as novas armas.”

Fez menção de erguer o braço, mas não o ergueu, de todo nem tornou a dizer: “Heil Hitler!” Rússia e Hitler eram palavras que não se coadunavam muito bem. Aliás, era difícil dizer qualquer coisa animadora sobre o assunto todos sabiam por experiência própria o que se estava passando (REMARQUE, 1964, p. 40-41).

É interessante observar através da narrativa de Remarque o choque de gerações entre soldados que viveram a Primeira Guerra, e aqueles que não acompanharam de perto esse conflito. Essa carga de experiência que muitos soldados tinham em relação aos mais jovens fazia com que, possuíssem uma visão mais aguda sobre a guerra e suas conseqüências a Alemanha. Remarque salienta bem esse tema no diálogo entre um jovem soldado e um experiente. O tom da conversa era exatamente o porquê de persistir na guerra, ao Leste, já que a derrota alemã era eminente. Não se lutava por uma rendição digna, ao contrário os alemães propagavam o ódio, morte e quebravam todas as regras e leis humanas.

Jaziam enterrados como toras e troncos. Numa pequena colina atrás da aldeia, onde a neve não pudera tornar-se espessa, jogaram-na para longe com pás e abriram, em seguida, tumbas na terra propriamente dita. Trabalho árduo alias. Apenas enterraram os mortos alemães. Os cadáveres russos foram arremessados numa eira, ao acaso. E principiaram a cheirar mal quando o tempo melhorou. Tendo piorado o odor fétido, houve ordem de jogar-lhes algumas camadas de neve. Não era necessário enterrá-los, pois não se esperava que a aldeia permanecesse em mãos de alemães por muito tempo. O regimento achava-se com ordem de retirada. Os russos, que avançavam, que tratassem de enterrar seus mortos (REMARQUE, 1964, p.6).
A questão do por que insistir no front leste gera algumas teorias entre os soldados do romance, uma passagem em que dois personagens se questionam justamente sobre o porquê de prosseguir em algo fadado a derrota, nos chama muita atenção. Os soldados analisam a eminente derrota que está a ocorrer, antes de tudo, como algo que não lhe diz respeito, mas sim ao seu Führer onipotente e as pessoas a sua volta, que parecem pelo que retratam os personagens, corruptas, loucas e criminosas. Em momento algum esses soldados expressam opiniões sobre o Estado nazista, a ditadura, a perseguição e o extermínio de judeus. De fato há criticas e desconfiança em relação a algumas características pessoais das personalidades nazistas mais importantes, mas não há discussões políticas como debates sobre decisões e perspectivas, variedade de posições e diagnósticos. Este é um dos principais resultados do regime totalitário: a fabricação de um vazio de alternativas mentais e a total concentração com dependência em um líder carismático, onde a lealdade prevalece mesmo à derrota sendo eminente.
[...] Os S.S.- replicou Fresenburg com desdém. – A gestapo, os embusteiros, os fanáticos, os assassinos, os insanos... só por causa desses é que ainda estamos lutando. Para que possam permanecer no poder mais um ano. Só por causa disso e mais nada. Faz muito tempo que já está perdida a guerra [...] Toupeiras, eis o que viramos. E pior que isso são nossas almas excomungadas. Não resta duvida que fizemos um glorioso progresso (REMARQUE, 1964, p.45).
Portanto Amar e Morrer como romance tem um valor importante não só literário, mas também histórico. Ele leva o leitor a conhecer um pouco da realidade e contexto da guerra na Rússia como também da Alemanha no ano de 1944. O leitor pode conhecer as angustias e medos dos soldados alemães em solo russo e alemão. E entender que a luta em si é apenas um dos fatores da empreitada denominada guerra. As guerras não são como grandes rixas de bar, ou briga interna, que por algum motivo atingiram nações vizinhas. Na guerra, o confronto homem a homem se desenrola nas batalhas, além de provocar, claro, uma enorme ansiedade enquanto se aguarda que comece e termine.

A experiência da guerra, dos meses e anos passados entre o front, as trincheiras e os hospitais estratificou-se em corpos e mentes de soldados. A vivência do conflito criou a sensação de que não havia mais possibilidade de uma vida sem guerras, e a convicção de que está tirou aquilo que de mais valioso existe na vida de um jovem, a alegria de viver, a vivacidade e a esperança no futuro. A guerra foi vivida pelos soldados que a sofreram, convivendo diariamente com o medo e a angustia.

Foi dessa forma que o soldado alemão Graeber personagem central de “amar e morrer” estabeleceu a imagem mais comum de seu dia-a-dia enquanto soldado de tropas alemãs ao longo da Segunda Guerra. Era necessário se manter preparado com a constante tensão da perda de camaradas e da própria vida, o vilipendiar da condição humana, o constante deslocar-se de acordo com as vontades dos oficiais superiores. O medo era constante para aqueles que viveram na Era da Catástrofe1. Apresentava-se no exílio, no campo de batalha e no próprio lar.
A Guerra enxergada pelo “personagem” soldado Graeber
A guerra apresentada ao leitor por Remarque através de seu personagem principal o soldado Graeber, é repleta de dor, sofrimento e violência. Nada diferente do que conhecemos ou ouvimos sobre a Segunda Guerra Mundial. Evidenciamos por meio da história do jovem soldado alemão que a guerra diferente da paz, faz com que certas decisões e justificativas se tornem razoáveis, capaz de interferir nos critérios do que é certo ou errado. Nas percepções e interpretações das situações em que se encontram os soldados envolvidos no romance não seguem instruções aleatórias, mas operam muito especificamente vinculados a regras que possibilita apenas um espectro limitado de interpretações individuais.

Essa questão do certo ou errado na guerra é algo que gera muita discussão ainda hoje, devemos entender que a guerra forma o universo dos soldados. È desse viés que eles tratam os prisioneiros de guerra, as populações civis, os guerrilheiros, as mulheres destinadas a trabalhos forçados, em síntese tudo o que passa a frente deles. A violência da guerra abre uma lacuna de interpretação e ação, que não está presente na vida civil: pode-se matar-estuprar, ser opressor ou também clemente. Todas essas novas possibilidades remontam ao espaço de violência aberto e aos padrões interpretativos que se originam daí.

Certa passagem do romance quando Graeber desfruta de sua licença na Alemanha e, vai à casa de um antigo colega de infância Alfons e, conhece Heini um S.S que havia regressado do front Lest, que estava a beber junto a Alfons (um antigo amigo de Graeber). Nesse ínterim Graeber ouve desse S.S, o excesso da violência praticado contra a população civil russa, a qual tinha escutado falar no front, mas acreditava ser apenas boatos. Heini descreve para Graeber como ele e alguns membros da S.S executavam suas vitimas quando os morticínios caiam em monotonia.

- Vodca! ... – sussurrou Heini. – Nós a fazíamos correr em regatos. Depois a entornávamos pela goela abaixo dos animais e riscávamos fósforos, acendendo-a. Transformávamos os bichos em lanças chamas. Meninos, como era engraçado! Vocês morreriam de tanto rir! Belos tempos aqueles, Rússia!... (REMARQUE, 1964, p.180).


A consideração feita por Heini demonstra que o estado civil para o de guerra é primordial, muito mais que do que quaisquer visões de mundo, inclinações ou doutrinações. Estas se tornam importantes somente para regulamentar o que os soldados podem esperar o que consideram correto, irritante ou motivo de indignação, mas não para o que eles fazem. Com tudo o que os soldados alemães fizeram, pode soar como um lugar comum, mas a guerra estabelece uma cadeia de acontecimentos e ações na qual as pessoas chegam a fazer coisas que jamais fariam em outras condições. Nesse contexto ao qual o romance se passa soldados matam judeus, mesmo não sendo um anti-semita, e defendem seu país a unhas e dentes, mesmo não sendo nazistas. Devemos parar de enxergar o papel da ideologia como motivador e responsável por determinadas ações. O elemento ideológico pode apresentar motivos para uma guerra, mas não explica por que um soldado mata ou comete crimes de guerra.
- sujeito amalucado esse Heini, Hem? Comentou Alfons. Disse isso como uma criança que se referisse com mistura de horror e admiração a um chefe índio.

- faz de louco diante de gente que não pode defender-se- redargüiu Graeber.

Ele tem uma anquilose no cotovelo, é por isso que não serve no exército regular. Resultado de uma briga numa cervejaria com os comunistas, em 1932. Eis o que o torna bárbaro. Rapaz tornou-se famosa essa história de pira de madeira e gente! – Alfons sugava agora um charuto apagado que acendera minutos antes quando Heini estava contando suas anteriores façanhas na Rússia. No entusiasmo da conversa o deixara apagar-se, - primeiro uma camada de madeira, de pois uma camada de gente que era obrigada a preparar o seu tabuado e deitar se nele, sendo então morta com tiros na nuca. Formidável, não?

- formidável sim.

- E as mulheres! Você fará idéia do que ocorria com elas?

- faço sim. Você gostaria de ver-se lá?

- com as mulheres?

- Não, com os outros. Diante das fogueiras e dos pinheiros repletos de enforcados... Ou junto de metralhadoras ceifando gente?...

Alfons refletiu um momento. Depois meneou a cabeça.

- Creio que não. Se bem me lembro, apenas assisti a isso uma vez. Não tenho temperamento para essas coisas. Sou muito romântico [...] (REMARQUE 1964, p. 181-182).

Mesmo com toda violência descrita pelos soldados “personagens” e, do conhecimento acerca dos fuzilamentos coletivos e do tratamento dado aos prisioneiros de guerra,2 soldados como Heini tem a sensação de serem “bons rapazes” ou como disse Alfons “sou muito romântico”. Ora, a ética do decoro nazista se mantém, sobretudo da proibição do enriquecimento individual, como também de qualquer vantagem pessoal obtida por meio de crimes e assassinatos, estupros, saques etc.; tudo isso só poderia ocorrer se fosse feito em prol de um objetivo maior. Atitudes como a descrita por Heini, que na concepção da moral-crista-ocidental, são tidas como perversas podem ser justificadas por meio dessa ética do decoro ou mesmo integradas na própria imagem moral como peças imprescindíveis. Essa forma da moral nazista, que prevê inclusive que as pessoas podem muito bem sofrer por fazerem esse “trabalho sujo” de assassinar os outros- possibilita que se mate alguém sem precisar se incomodar com isso, ao menos no sentido moral.

O grande tema do registro literário de Erich Maria Remarque ligado à guerra e o soldado, é a falta de importância do elemento ideológico e dos “grandes” objetivos da guerra. A característica central de todos os soldados de Amar e Morrer são, o desinteresse e a irrelevância pela causa de sua situação. Essa afirmação não leva em conta apenas o estado decadente, em que os soldados se encontram no front. Vale até quando os combatentes são bem sucedidos em suas operações, seja em vitória rápida, ou uma aldeia tomada, que prevalece na percepção dos soldados, não é algo abstrato como a “conquista do espaço oriental”, a “contenção dos bolcheviques”. Tais idéias são apenas o pano de fundo da guerra e das ações de combate vinculados a ela, dificilmente será o motivo concreto para as interpretações e ações de cada um dos soldados nas situações em que realmente se encontram. Portanto a grande marca psico-social da guerra presente na figura de Graeber, que o leitor pode observar é a desilusão, ao se constatar que sob as “tormentas de aço” nos campos de guerra de exaustão não há espaço para o heroísmo nem para a ideologia.


A Morte
A Segunda Guerra mostrou à violência em várias faces, seja no corpo dos mutilados, da simples agressão ou da violência sexual contra mulheres, em seu último estágio na morte. Morte essa que se resume em uma crueldade horrenda e de cadáveres privados das atenções habituais, cadáveres desaparecendo no inominável, que se tornam dejetos repugnantes, mas que ainda conservam vestígios de homens. E a última imagem do morto, muitas vezes esfacelado pela fúria inimiga, que ficam estabelecidas de maneira aguda nos textos e memórias de sobreviventes, imagens que nunca se apagam por completo.

Pois bem, Remarque tem a imagem da morte viva em seu escrito. Ela não se restringe somente ao soldado e o front, se volta também à população civil da Alemanha. E a cada passagem que o soldado encara a morte, tem uma reação. Nessa perspectiva, Graeber em sua licença do front estabelece busca desenfreada a sua família, em decorrência dos ataques inimigos, que colocaram por terra sua residência. Na ânsia de encontrar seus entes, Graeber passou por conjunturas que ao leitor parecem cotidianas a quem já esteve no front, no que diz respeito à morte.

Na verdade, o que o leitor encontra não é um soldado acostumado com a violencia e a morte, mas sim um soldado que foi embrutecido pela guerra. É evidente que os soldados se bestializam por meio da experiência com a violência e da confrontação com os corpos destruídos, companheiros mortos, ou como na guerra extermínio, com homens, mulheres e crianças assassinados em massa. Através da busca de Graeber e das situações a qual passa ao longo do romance, observa-se que a brutalidade da guerra tirou a dignidade do homem, a morte foi banalizada pela violência desse conflito. Rostos rasgados, gargantas cortadas, corpos pulverizados, profanação de cadáveres em diversas situações, uma matéria qualquer; escudos descartáveis, objetos de trabalho e prazer até mesmo.

[...] os cadáveres mais mutilados acham-se lá dentro. Olhou bem para Graeber e esclareceu: É preciso coragem para ver o estado a que ficaram reduzidos. Mas o senhor é soldado já se deve ter habituado. Graeber não fez nenhum comentário. Tinha visto tantos mortos em situações horrendas que não achou nada de extraordinário naqueles. Nem mesmo pelo fato de serem civis, e de haver muitas mulheres e crianças. Vira disso também, diversas vezes; corpos franceses e de holandeses não menos hediondamente mutilados do que os faziam lá dentro da capela. Tinha mesmo a impressão de que certos cadáveres congelados durante o inverno russo, em adiantado estado de decomposição e esquartejamento, inclusive cinqüenta enforcados com cabeças, e peitos e pernas tumefactos, olhos gelatinosos, bocas abertas com línguas de fora, eram mais horríveis do que aqueles cadáveres recolhidos à capela. [...] (REMARQUE, 1964, p. 145)


Circunstancias que fazem parte da situação natural da guerra e dos soldados, como matar, morrer e ferir-se podem ser sentidas pelo leitor em “Amar e Morrer” sem se quer precisar mencionar a todo instante. Percebe-se que todos os soldados deste romance não gostam de falar da morte. A causa certamente está na relação de proximidade e de espera que mantém com ela. A morte estava muito próxima dessas pessoas; assim como Graeber os demais soldados já tinham a vista bem diante de seus olhos até com freqüência, outros, pelo menos uma ou outra vez.

Ter medo da morte ou de matar, ter piedade do inimigo ferido e, sofrer pelo amigo morto em combate são sentimentos que não combinam com a realidade do front. Mas na obra de Remarque essas características fazem parte da personalidade do soldado Graeber. Este mesmo foge a está regra diante da atmosfera que o cerca. Para este a morte era uma prática decorrente apenas no front, longe dali a morte, os feridos e toda a violência da guerra não existia. Acreditava que no instante que partisse para a Alemanha encontrar-se-ia uma vida desprovida de mortes, como aquele que deixou ao partir para guerra, uma verdadeira utopia no atual momento de sua vida.


[...] A morte! A morte! A morte! Já estou saturado da morte! Por que voltei? Não foi com a idéia de me convencer de que mesmo nestes ermos destroços ainda havia vida? [...] Após aqueles anos a beira da morte o vinho agora não era apenas vinho, a bandeja de prata não era apenas prata e a música que invadiu a sala vindo de qualquer recanto não era apenas música- e sim eram símbolos daquela outra vida, da vida sem morte e sem destruição, da vida com sentido essencial de existência que se tornara quase um mito um sonho vão. [...] (REMARQUE, 1964, p.172)
A morte no romance está condicionada a guerra, logo a vitimização do soldado em uma guerra em que não se vê quem se mata, mas sim quem tomba ao lado. Evidenciamos com base na leitura de “Amar e Morrer” que a Segunda Guerra abalou os princípios do discurso patriótico de consolação que a fim de transformar a morte em algo pensável e admirável torna obscura o horror que está por trás dela. A morte na guerra é tida como a origem indigesta dos consecutivos lutos que irão se abater sobre o soldado Graeber.
Os crimes de guerra e a culpa alemã
O nazismo arrastou a Alemanha a seu naufrágio. A rígida estrutura do Terceiro Reich, com o recuo de suas tropas em Moscou e a sacramentada derrota em Stalingrado decretou-se o fim do nazismo. Dessa potência exterminadora que havia se expandido até o Nilo e o Volga, com a derrota eminente, as ruínas e uma imensa podridão começam a tomar forma na Alemanha.

Essa é a Alemanha de 1944, ano em que Graeber presencia a guerra, um país em ponto morto, onde o fascismo similar a combinações químicas instáveis decompõe-se em elementos distintos: reação, niilismo, mistificação, superstição e ignorância; é uma Alemanha cujas indagações e questionamentos sobre o futuro ainda não tomou forma. Graeber com o temor de retornar ao front e consciente da situação que o rodeava se questiona da culpa alemã, dos maus cometidos a seu ver em vão contra pessoas inocentes e, o principal de sua cumplicidade frente a toda devastação que a Alemanha praticava.

[...] na linha de frente muitas pessoas têm morrido sem que nada tenham feito de mal. Depois de reacomodar-se na cadeira, Poklmann perguntou:

- Ao falar em crime você se refere à guerra?

- Refiro-me a tudo que nos levou à presente situação. Refiro-me às mentiras, à opressão, à injustiça, ao uso da força. E refiro-me à guerra. A guerra é a maneira pela qual a empreendemos com campos de escravos, campos de concentração e o assassínio em massa de populações civis.

[...] E Graeber prosseguiu: - Vi muitas coisas e estou ciente de outras muitas. Sei também que a guerra está perdida. Sei que ainda estamos combatendo para que o governo, o partido e as pessoas que nos levaram a isto possam permanecer mais algum tempo no poder criando miséria ainda maior (REMARQUE, 1964, p.191-192).


Execuções, agressões e estupros de pessoas na condição de civis, não possuem relações com as ações bélicas, tudo isso faz parte da rotina da guerra, como também o bombardeio de alvos civis em desacordo com as normas internacionais até mesmo o terror promovido contra populações inteiras. Executar prisioneiros de guerra não era um feito exclusivo das tropas alemãs; o mesmo foi praticado por unidades soviéticas e norte-americanas.

A afirmação de Graeber quanto ao conhecimento de crimes e atrocidades, não causa espanto algum em vista que a maioria dos soldados alemães sabia dos crimes e dos excessos cometidos pelo nazismo. Não eram poucos os que tinham envolvimento direto, mas esses acontecimentos não ocuparam nenhum espaço privilegiado dentro do marco referencial de Graeber e dos soldados do romance.

Portanto para Graeber e os demais soldados alemães era mais importante a própria sobrevivência, a próxima licença junto à família, por isso não havia importância, sobretudo aqueles que eram definidos no quesito racial como “inferiores”. O essencial na percepção dos fatos era o destino pessoal de cada um. E o personagem central do romance não foge a está máxima, mesmo que a sua percepção aponte para um fim trágico a Alemanha, Graeber sabe da sua culpa e de seu povo em ter alimentado as idéias do nazismo. Mesmo que não mencione sabe que a História ao longo do tempo condenará o povo alemão pelos atos cometidos na guerra, resta a ele buscar o perdão divino o único e capaz de absolver sua culpa frente aos maus cometidos pelo nazismo.
[...] - Sim Deus Dave saber. Do contrário não haverá pecado original. O pecado original. O pecado original significa o que? A cumplicidade estendendo-se ao longo de milhares de gerações. Mas, onde principia a responsabilidade pessoal? Nos não podemos desculpar dizendo que estamos obedecendo a ordens. Ou podemos?

- Trata-se de coação e não propriamente de ordens. Graeber ficou muito atento, Poklmann disse ainda, embora com certa hesitação: - Os mártires do cristianismo não se submetiam à coação.

- Não somos mártires. Mas onde começa a cumplicidade? Perguntou Graeber. Quando é que aquilo que comumente se chama heroísmo se torna assassino? Quando não acreditamos mais nas razões aduzidas nem na finalidade do que fazemos? (REMARQUE, 1964, p.193).

Através desse diálogo Graeber nos mostra a encruzilhada que os alemães se encontram; viver alheio as acusações, na esperança de que o tempo curasse as feridas; ou repensar os acontecimentos e assumir as devidas responsabilidades, principalmente por terem deflagrado uma guerra indesejável. Não há na narrativa apontamentos que escolhessem um desses dois lados, como vimos apenas questionamentos sobre o futuro sombrio da Alemanha. É uma questão que fica no ar.



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2 Ao decorrer do romance há conversas entre os personagens principalmente quando estão no front sobre assassinatos de prisioneiros, além de boatos de extermínio de civis. Como dissemos Graeber encontra veracidade nesses boatos, através da história contada por Heini. Os capítulos dois e três do livro trazem alguns diálogos relacionados ao temas.



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