Animais, incluindo o homem, são capazes de modificar seu comportamento em função de experiências anteriores



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INSTITUTO PARA A EDUCAÇÃO EM MEDICINA E SAÚDE

UNIVERSIDADE DE CAMPINAS

CURSO DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA

EMC-015C: INTRODUÇÃO À HISTÓRIA DA NEUROCIÊNCIA



ADEMAR JOÃO PEDRON



A MEMÓRIA E SUA ESTRUTURA FISIOLÓGICA: BASE PARA O ESTUDO E A APRENDIZAGEM


BRASÍLIA, 2003.

INSTITUTO PARA A EDUCAÇÃO EM MEDICINA E SAÚDE

UNIVERSIDADE DE CAMPINAS


ADEMAR JOÃO PEDRON



A MEMÓRIA E SUA ESTRUTURA FISIOLÓGICA: BASE PARA O ESTUDO E A APRENDIZAGEM

Ensaio monográfico

Como requisito para o término e aprovação no

Curso de Extensão Universitária

Introdução à História da Neurociência

Do Instituto para a Educação em Medicina e Saúde da

Universidade de Campinas

Orientador: Dr. Renato Marcos Endrizzi Sabbatini.

BRASÍLIA, 2003.



Catalogação-na-fonte

PEDRON, Ademar João.


P372m A memória e sua estrutura fisiológica: base para o estudo e a

Aprendizagem/ Ademar João Pedron. Edição do Autor.

Brasília: 2003.

38 f.


Inclui il.
I. Memória

Pedron, Ademar João.

II. Título

III. Fisiologia

IV. Neurociências.
CDU-61

Memória é se lembrar sempre

daquilo que se esqueceu. (Pedron).

(Ex.: Aniversário de casamento, aniversário da esposa...)

Dedico esse ensaio a todos os

Colegas do curso de

Introdução à História da Neurociência.

Um agradecimento carinhoso e

Agradecido ao nosso Mestre Dr. Renato.

Que todos tenham um Feliz Natal e

Excelente ano de 2004.


SUMÁRIO


Histórico sobre o conhecimento da memória...................................................8

A contribuição dos estudos de dissociação: notas históricas.....................14

Sistemas de memória........................................................................................19

Tipos de Memória..............................................................................................20

Lembranças e Esquecimentos.........................................................................21

Os Mecanismos Cerebrais da Memória...........................................................22


Perda da Memória..............................................................................................23

Fatores que podem causar perda total ou parcial da memória.....................23

Como Melhorar a Sua Memória........................................................................25


Conclusão...........................................................................................................26

Referência Bibliográfica....................................................................................29

Anexo A – a memória........................................................................................32

INTRODUÇÃO


Até meados do século passado (1950) o estudo da aprendizagem e da memória era feito de acordo com os padrões da psicologia. Somente a partir dessa data é que se começou a estudar a memória segundo a fisiologia. Um dos primeiros a trabalhar com esse enfoque foi o famoso psicólogo Karl Lashley (BRANDÃO, 2001, p.108). Em 50 anos de pesquisa, ainda existem muitas interrogações a respeito da memória. Aprendizagem e memória costumam estar juntas, mas, didaticamente, se falará de modo separado tentando não entrar diretamente no estudo da aprendizagem.

PALAVRAS-CHAVES: MEMÓRIA, APRENDIZAGEM, ESTRUTURA FISIOLÓGICA.

ABSTRACT

Until middle of the last century (1950) the study of the learning and the memory he was done in accordance with the standards of psychology. To only leave of this date it is that physiology was started to study the memory according to. One of the first ones to work with this approach was the famous psychologist Karl Lashley (BRANDÃO, 2001, p.108). In 50 years of research, still many interrogations regarding the memory exist. Learning and memory be together, but, didactic, it will be said in separate way trying not to enter directly in the study of the learning.



WORDS-KEY: MEMORY, LEARNING, PHISIOLOGIC STRUCTURE.


HISTÓRICO SOBRE O CONHECIMENTO DA MEMÓRIA

Até a meados do século XX, a maior parte dos estudiosos do aprendizado duvidava de que as funções da memória poderiam vir a ser localizadas em regiões cerebrais específicas. Na verdade, muitos estudiosos do comportamento chegaram a duvidar de que a memória seria uma função distinta da mente independente da atenção, da linguagem e da percepção. A opinião de que o armazenamento da memória é amplamente distribuído por todo o cérebro contrastava de modo muito acentuado com a opinião emergente sobre a localização de outras funções mentais.


Desde 1861, Broca havia evidenciado que lesões restritas à parte posterior do lobo frontal, no lado esquerdo do cérebro (área de Broca), produziam um defeito específico da linguagem. Após essa localização da linguagem, não decorreu muito tempo para que os neurocientistas se voltassem para o problema da memória também poderia ser localizada. Durante a maior parte do século subjacente a opinião geral era a de que a memória seria uma propriedade geral do córtex cerebral como um todo. Na verdade, estudos recentes têm mostrado que a memória depende, realmente, de muitas regiões cerebrais. Não obstante, existem diferentes tipos de memória e determinadas regiões cerebrais são muito mais importantes para alguns tipos que para outros. Ainda mais, diferentes tipos de memória são armazenados em sistemas neurais distintos.
A primeira pessoa a conseguir evidência de que os processos da memória têm localizações específicas no cérebro humano foi Wilder Penfield, neurocirurgião do Instituto Neurológico de Montreal. Penfield havia estudado com Charles Sherrington, o neurofisiologista pioneiro. Na virada do século, Sherrington havia mapeado a representação motora no córtex cerebral de macacos anestesiados, pela estimulação cortical sistemática por meio de eletrodos, registrando a atividade nos nervos motores. Na década de 1940, Penfield começou a usar métodos idênticos de estimulação elétrica para mapear as funções motoras, sensoriais e da linguagem no córtex humano de pacientes submetidos à neurocirurgia, para tratamento da epilepsia focal. Visto que o cérebro, propriamente dito, não tem receptores para dor, a cirurgia cerebral é indolor, podendo ser realizada sob anestesia local em pacientes perfeitamente acordados. Desse modo, esses pacientes eram capazes de descrever o que sentiam, por efeito da estimulação elétrica aplicada a diversas áreas corticais. Ao saber desses experimentos, Sherrington, que sempre havia trabalhado com gatos e macacos, disse a Penfield: "Deve ser muito agradável propor uma pergunta à preparação experimental e obter uma resposta!"
Penfield explorou a superfície cortical em mais de um milhar de pacientes. Ocasionalmente, verificou que a estimulação elétrica produzia o que chamou de resposta experiencial, ou retrospecção, na qual o paciente descrevia uma recordação coerente de uma experiência anterior. Essas respostas, semelhantes a memórias, só eram produzidas por estimulação dos lobos temporais, nunca de qualquer outra região. Não obstante, essas respostas eram raras, até mesmo nos lobos temporais, só ocorrendo em cerca de 8% de todas as tentativas de estimulação.
Os estudos de Penfield não foram totalmente convincentes. Todos os pacientes estudados por ele apresentavam focos epilépticos convulsivos no lobo temporal e os locais de onde eram provocadas essas respostas experienciais eram próximos a esses focos. Desse modo, as respostas experienciais poderiam ser resultado de atividade convulsiva localizada. No início da década de 1950, o papel dos lobos temporais na memória ficou mais bem definido, como resultado dos estudos de um dos colaboradores de Penfield, Brenda Milenar, sobre os efeitos terapêuticos da ablação bilateral do lobo temporal em pequeno grupo de pacientes portadores de epilepsia temporal.
O primeiro e mais bem estudado caso dos efeitos sobre a memória da remoção de partes dos lobos temporais foi o de um operário de linha de montagem com 27 anos que sofria de crises epilépticas intratáveis por mais de 10 anos. Esse paciente, conhecido com H.M., era incapaz de trabalhar ou de levar uma vida normal. As crises ficaram muito reduzidas após a ablação da parte medial dos lobos temporais, nos dois lados do cérebro.
Imediatamente após a operação, H.M. passou a apresentar um devastador déficit de memória -- perdeu a capacidade de formar memórias de longo prazo. Todavia, conservava suas memórias para os eventos de sua vida que haviam precedido a operação. Lembrava-se de seu nome, conservava um uso perfeitamente adequado da linguagem e mantinha seu vocabulário normalmente variado e seu QI na faixa normal superior. Lembrava-se dos eventos que precederam à cirurgia e, vividamente, dos eventos de sua infância. Ainda mais, a memória de curto prazo de H.M. estava perfeitamente intacta.
O que faltava a H.M. -- e faltava intensamente -- era a capacidade de transferir a maior parte dos tipos de aprendizado da memória de curto prazo, durando segundos a minutos, para a memória de longo prazo, durando dias ou mais. Quando aprendia uma nova tarefa, ele era incapaz de reter essa informação por mais de um minuto. Instruído a se lembrar do número 584, era capaz de repeti-lo imediatamente por muitos minutos. Contudo, quando era distraído até mesmo por breve instante, ele esquecia o número. Como resultado dessa dificuldade na transferência de informação da memória de curto prazo para a memória de longo prazo, H.M. era incapaz de reconhecer as novas pessoas a que era apresentado, mesmo quando as encontrava com freqüência. Também apresentava séria dificuldade em sua orientação espacial. Quando se mudou para uma nova casa, levou cerca de um ano para aprender a andar por ela. Essa deficiência foi descrita como o "esquecimento dos incidentes da vida diária tão logo aconteçam". H.M. não é o único. Todos os pacientes com lesões bilaterais extensas do lobo temporal apresentam deficiências semelhantes da memória.
Inicialmente, Milner pensou que o déficit de memória após lesões bilaterais do lobo temporal era aplicado de forma igual para todas as formas de aprendizado e de memória de longo prazo. Mas foi demonstrado não ser esse o caso. Muito embora os pacientes com lesões dos lobos temporais apresentem profundos déficits de memória, Milner verificou que eles são capazes de aprender e de se lembrar de determinados tipos de tarefas, como o fazem as pessoas normais, por longos períodos de tempo.
Essa capacidade residual da memória foi revelada pela primeira vez quando se descobriu que o paciente H.M. podia aprender normalmente novas habilidades motoras. Por exemplo, ele aprendeu a desenhar o contorno de uma estrela. Como as pessoas normais ao aprenderem essa tarefa, H.M. cometeu, inicialmente, muitos erros, mas seu desempenho atingiu nível sem erros após treinamento de vários dias. Subseqüentemente, outros pacientes foram testados e mostraram-se capazes de reter diversas formas de aprendizado reflexivo simples, incluindo a habituação, a sensitização, o condicionamento clássico e o condicionamento operante.
Todavia, os pacientes amnésicos não ficam limitados ao aprendizado de habilidades motoras. Também são capazes de melhorar seu desempenho em determinadas tarefas perceptivas. Por exemplo, têm bom desempenho na forma de aprendizado chamado de priming, no qual o reconhecimento de palavras e objetos é facilitado por exposição prévia das palavras ou de indícios visuais. Assim, os sujeitos podem relembrar melhor dos itens a que se referiam os indícios do que de outros itens para os quais não foram apresentados indícios. De modo semelhante, quando lhes eram apresentadas algumas das primeiras letras de uma palavra, que havia sido previamente estudada, os sujeitos amnésicos muitas vezes escolhiam, corretamente, a palavra que havia sido apresentada previamente, muito embora não se lembrassem de ter visto a palavra antes.
As tarefas que os pacientes com lesão bilateral do lobo temporal têm capacidade para aprender têm duas coisas em comum. Primeira, todas têm uma qualidade automática. Segunda, as tarefas não exigem o recordar consciente, nem capacidades cognitivas complexas, como as de comparação e avaliação. O paciente só precisa responder a um estímulo ou indício. Não precisa se lembrar deliberadamente de alguma coisa. Assim, quando lhe é dado um quebra-cabeça mecânico complexo, o paciente poderá aprendê-lo tão rapidamente como uma pessoa normal, mas, ao ser perguntado, não se lembrará de ter visto o quebra-cabeça ou de tê-lo realizado. Quando perguntado por que seu desempenho havia melhorado em relação ao do primeiro dia, após vários dias de prática, ele poderá responder: "Sobre o que está falando? Eu nunca fiz isto antes." (No Brasil, nós temos um caso, que está chamando muito a atenção dos estudiosos da estruturação da memória, com o cantor Herbert Viana, que teve uma parte de seu lobo lateral dilacerado: Ele se lembra de todas as músicas do passado, mas não consegue se lembrar de fatos recentes...).
Estudos em pacientes com lesão do lobo temporal têm evidenciado dois modos fundamentalmente diferentes de aprendizado, uma diferença que os psicólogos cognitivistas começaram a avaliar em seus estudos de sujeitos normais. Aprendemos sobre o que é o mundo -- adquirindo conhecimento sobre pessoas, lugares e coisas, que é acessível à consciência, usando uma forma de memória que é em geral chamada de explícita. Ou aprendemos como fazer coisas -- adquirindo habilidades motoras ou perceptivas a que a consciência não tem acesso -- usando a memória implícita. (Disponível em: <http://www.icb.ufmg.br/~neurofib/NeuroMed/Seminario/WORDDOCS/MEMORIA%20grupo2%202000%202.doc>. Acesso em: 25 set. 2003.)
Os animais, incluindo o homem, são capazes de modificar seu comportamento em função de experiências anteriores. Essa capacidade manifesta-se, no ser humano, de formas tão diversas como a datilografia, o relato de uma experiência da infância, a lembrança de um número de telefone enquanto a ligação é realizada, a aprendizagem de conceitos ou o uso da linguagem com suas regras.

Certamente essas habilidades dependem de alterações na estrutura e função de células nervosas e suas conexões, em diferentes regiões do sistema nervoso. Mudanças na organização de conexões sinápticas têm sido associadas aos processos de aprendizagem e memória em uma diversidade de espécies de invertebrados e vertebrados, o que favorece interpretações sobre a ubiqüidade destes mecanismos nos processos de arquivamento de informações. No entanto, embora os mecanismos celulares e moleculares básicos em grupos tão distantes de animais como, por exemplo, moluscos e primatas, possam ser similares, há consenso entre os neurocientistas de que pelo menos neste último grupo de animais os processos de plasticidade sejam controlados e modulados pelo funcionamento integrado de diferentes regiões do próprio sistema nervoso. Não surpreende, portanto, que parte substancial das pesquisas sobre memória se direcionem à identificação dessas regiões.

Essa tarefa não é simples pois além da partição da memória na dimensão temporal, incluindo as distinções entre memória de curta duração, de duração intermediária e de longa duração, a contribuição relativa de cada região para o processo parece depender da natureza da informação processada, levando à distinção entre tipos de memória e à proposta da existência de múltiplos sistemas de memória.

O estudo de correlatos anátomo-funcionais envolvendo processos de memória vem se beneficiando do conceito de modularidade das funções de memória, isto é, da noção de que memória compreende um conjunto de habilidades mediadas por diferentes módulos do sistema nervoso que funcionam de forma independente, porém cooperativa (XAVIER, 1993). O processamento de informações nesses módulos dar-se-ia de forma paralela e distribuída, permitindo que um grande número de unidades de processamento influencie outras em qualquer momento no tempo e que uma grande quantidade de informações seja processada concomitantemente.

Embora muitas das evidências relevantes para o estabelecimento de correlações entre funções de memória e módulos do sistema nervoso tenham derivado de dificuldades de memória observadas em pacientes com danos cerebrais identificáveis, o refinamento nas técnicas de neuro-imagem, incluindo a tomografia de emissão de pósitrons (PET) e ressonância magnética (MRI), e de registro de potenciais evocados (ERPs) (ver apêndice no final do capítulo), vêm permitindo investigar essas unidades funcionais em indivíduos normais, durante o desempenho de tarefas que envolvem o engajamento dos diferentes módulos de memória, trazendo informações mais precisas sobre as regiões e processos cerebrais envolvidos nessas funções. Além disso, a utilização de modelos animais (MISHKIN E COL., 1982; SQUIRE E ZOLA-MORGAN, 1983) vêm permitindo identificar estruturas e conexões cerebrais que, quando seletivamente danificadas, produzem alterações no funcionamento normal dos diferentes tipos de memória.

A contribuição dos estudos de dissociação.

No final da década de 50, em estudos para avaliação da memória, voluntários recebiam uma lista de palavras não relacionadas e, em seguida, tinham que lembrá-las. As primeiras e as últimas palavras apresentadas eram mais bem lembradas que as intermediárias. Se, no entanto, a evocação fosse retardada por alguns segundos e uma tarefa distratora fosse introduzida nesse intervalo (contar, por exemplo), os voluntários lembrar-se-iam principalmente das primeiras palavras apresentadas; a lembrança das últimas palavras estaria tão prejudicada quanto a das intermediárias (BROWN, 1958; PETERSON E PETERSON, 1959). A interpretação deste tipo de resultados foi que as palavras apresentadas por último eram armazenadas num sistema de memória de curta duração (STM), enquanto as apresentadas no início, num sistema de longa duração (LTM).

Nesta ocasião, houve um marco nas pesquisas sobre memória: H.M., um paciente submetido à remoção bilateral de parte do lobo temporal medial, incluindo o giro parahipocampal, córtex entorrinal, amígdala e dois terços anteriores do hipocampo, numa tentativa de controlar os ataques associados com a epilepsia, passou a exibir uma profunda incapacidade de formar novas memórias (amnésia anterógrada). A acuidade de sua memória para eventos ocorridos pouco antes da cirurgia também estava severamente comprometida (amnésia retrógrada); esse comprometimento, no entanto, tornava-se progressivamente menor para informações adquiridas até 3 anos antes da cirurgia de tal modo que informações adquiridas anteriormente a este período eram lembradas normalmente (SCOVILLE E MILNER, 1957). Diversas outras funções estavam intactas. Por exemplo, H.M. era capaz de conversar normalmente, desde que não fosse distraído, (PRIBRAM, 1986), sua atividade intelectual estava normal (SCOVILLE E MILNER, 1957), sua memória de curta duração estava preservada (MILNER e col., 1968), seu desempenho em testes de percepção era normal (MILNER e col., 1968; SCOVILLE E MILNER, 1957), assim como sua capacidade para adquirir novas habilidades motoras, perceptuais e cognitivas (COHEN, 1984). Não obstante diversas estruturas tenham sido removidas no paciente H.M., os efeitos amnésicos foram atribuídos à lesão hipocampal. De fato, pacientes com perdas celulares restritas às células piramidais do campo CA1 do hipocampo, em decorrência de isquemia cerebral transitória (ZOLA-MORGAN, SQUIRE E AMARAL, 1986), e pacientes com anormalidades hipocampais decorrentes de encefalite viral (PRESS, AMARAL E SQUIRE, 1989) exibem uma síndrome amnésica similar.

Pacientes amnésicos portadores da síndrome de Korsakoff (com lesões diencefálicas bilaterais nos núcleos talâmicos mediais, corpos mamilares e cerebelo, e atrofia cortical), também preservam suas capacidades intelectuais e para adquirir novas habilidades (COHEN, 1984), associado a um severo quadro de amnésia anterógrada. Diferentemente dos pacientes hipocampais, no entanto, sua amnésia retrógrada pode estender-se a décadas, não estando claro se esse fenômeno é uma decorrência secundária da amnésia anterógrada associada a um lento desenvolvimento da síndrome.

É notável, portanto, que esses pacientes sejam capazes de adquirir novas habilidades motoras, perceptuais e cognitivas, e de, como pessoas normais, reter esse tipo de informações por prolongados períodos de tempo: a retenção da habilidade é evidenciável em testes realizados mesmo um ano após a aquisição original, apesar dos pacientes não serem capazes de lembrar da experiência de treino. Também o efeito de pré-ativação (facilitação inconsciente ou viés no desempenho em decorrência da exposição prévia às informações utilizadas no teste: "priming’, em inglês), encontra-se preservado nesse tipo de paciente amnésico. Além disso, a STM, ou memória operacional, como prefere Baddeley (1992), parece intacta (BADDELEY E WARRINGTON, 1970). Este último resultado é particularmente interessante pois permite descartar a possibilidade de que haja problemas de percepção (ou registro), de aprendizagem de regras ou prejuízo em alguma outra função cognitiva que impedisse a aquisição da informação. Portanto, sua principal dificuldade parece ser a de reter determinados tipos de informação por prolongados períodos de tempo.

Por outro lado, SHALLICE E WARRINGTON (1970) descreveram uma síndrome oposta num paciente capaz de reter apenas 2 dígitos de informação, portanto com um severo prejuízo da STM, sem qualquer lembrança das últimas palavras de uma lista, que tinha sua LTM completamente normal. Essa dupla dissociação (ver abaixo) sugere que os sistemas de arquivamento de STM e de LTM são distintos e não funcionam de forma serial, como havia sido proposto por Atkinson e Shiffrin em 1968. Além disso, se a STM fosse necessária para a formação da LTM, como seria possível explicar que pacientes com problemas na STM podem aprender e ter uma vida quase normal?

É importante mencionar, neste contexto, que o desempenho de indivíduos normais também varia em função das características da informação processada. Por exemplo, BADDELEY (1966a) mostrou que palavras com sons similares são pior lembradas pela STM que palavras fonologicamente diferentes, mesmo que com significados semelhantes. Por outro lado, este padrão se reverte quando LTM é requerida (BADDELEY, 1966b), sugerindo que, pelo menos em relação a palavras, a STM depende da acústica, enquanto a LTM favorece a codificação semântica. Por outro lado, em tarefas concorrentes, em que voluntários devem desempenhar um raciocínio gramatical ao mesmo tempo em que repetem continuadamente de 0 a 8 dígitos, aumentos na quantidade de dígitos concorrentes aumentam o tempo de processamento, mas não prejudicam a precisão do desempenho (BADDELEY, 1986), indicando que a capacidade de manter a atenção para o raciocínio gramatical é independente da retenção dos dígitos na STM. Resultados similares foram obtidos em testes de compreensão e de lembrança livre, em que uma carga de dígitos concomitante impediu a LTM mas manteve a lembrança dos últimos itens experienciados intacta. Como poderiam os sujeitos continuar resolvendo problemas mesmo com a STM cheia de informações? Por que não houve prejuízo na lembrança dos últimos itens experienciados apesar da tarefa concorrente? A conclusão foi que a memória operacional também pode ser dividida em sub-componentes (BADDELEY, 1992).

Essas dissociações, i.e., prejuízos no desempenho de algumas tarefas em contraposição a um desempenho normal em outras tarefas, são apontados como evidência da existência de diferentes sistemas de memória. Mencione-se que alguns autores tentaram interpretar essas dissociações como decorrentes da sensibilidade diferencial das tarefas utilizadas. De acordo com este ponto de vista, os pacientes amnésicos exibiriam dificuldades em tarefas cuja demanda seria maior e seu desempenho estaria preservado em tarefas cuja demanda seria menor (MEUDELL E MAYES, 1981). No entanto, como apontado por XAVIER (1993), esse "raciocínio não se aplica ... quando os resultados experimentais apontam para a existência de uma dupla dissociação. Isto é, quando lesões em determinados sistemas neurais resultam em prejuízos no desempenho de uma dada tarefa ‘1’, deixando intacto o desempenho uma segunda tarefa ‘2’, enquanto um segundo tipo de lesão produz o resultado inverso, ou seja, prejuízo na tarefa ‘2’ e desempenho normal em ‘1’." (p. 66).

Estudos de dissociação levaram COHEN (1984), SQUIRE E ZOLA-MORGAN (1991), E SQUIRE (1992) a propor a distinção entre memória declarativa (ou explícita) e memória não-declarativa (ou processual ou, ainda, implícita), ambos considerados como sistemas de memória de longa duração. Memória declarativa refere-se à retenção de experiências sobre fatos e eventos do passado, i.e., o indivíduo tem acesso consciente ao conteúdo da informação, sendo adequada para o arquivamento de associações arbitrárias após uma única experiência. De acordo com esses autores, memória declarativa seria flexível e prontamente aplicável a novos contextos e é exatamente o tipo de memória prejudicada nos pacientes amnésicos. Em contraposição, não haveria possibilidade de acesso consciente ao conteúdo da memória não-declarativa, que seria evidenciável apenas através do desempenho. Este tipo de informação seria adquirido gradualmente ao longo de diversas experiências, estando fortemente ligada à situação de aquisição original; seria, portanto, inflexível e pouco acessível a outros sistemas. A memória declarativa é adicionalmente sub-dividida em memória para fatos (ou semântica) e para eventos (ou episódica), sendo esta última auto-biográfica, e a memória não-declarativa em habilidades e hábitos, pré-ativação, condicionamento clássico simples e aprendizagem não associativa, incluídas aqui habituação e sensibilização (SQUIRE E ZOLA-MORGAN, 1991). Essa taxonomia dos sistemas de memória foi, posteriormente (SQUIRE E KNOWLTON, 1995), associada a diferentes estruturas do sistema nervoso; lesões nessas estruturas resultariam em deficiências no processamento de informações por aqueles sistemas. De acordo com essa proposta, memória declarativa (tanto para fatos, como para eventos) estaria associada às estruturas do lobo temporal medial e diencéfalo, habilidades e hábitos ao estriado, pré-ativação ao neocórtex, condicionamento clássico simples relacionado à amígdala nas respostas emocionais e ao cerebelo nas respostas da musculatura esquelética, e aprendizagem não-associativa à vias reflexas.

Já de acordo com Tulving (1995), é possível identificar pelo menos 5 categorias principais de memória humana, ou sistemas de memória, com algumas sub-categorias. Os sistemas processuais se expressariam através de (1) habilidades comportamentais e de procedimentos que independem de qualquer cognição; são, por exemplo, os preponderantemente envolvidos em equilibrar uma bandeja na mão ou no ato de ler (não incluindo a atribuição de significado ao que é lido). Em contraposição, os sistemas cognitivos seriam representacionais, i.e., as mudanças que resultam da aprendizagem podem ser caracterizadas em termos proposicionais, que mediam mudanças na cognição ou pensamento; estes seriam os sistemas que guiam o comportamento manifesto. Eles incluem (2) pré-ativação, (3) memória semântica ou conhecimento geral sobre o mundo (que permite a aquisição e retenção de informações factuais, que proporcionam material para o pensamento, para as operações cognitivas de aspectos do mundo, que fogem da percepção imediata), (4) memória primária (também referida como memória de curta duração ou memória operacional - que registra e mantém informações de uma forma altamente acessível, por um curto período de tempo após sua aquisição) e (5) memória episódica (que permite lembrar o passado num contexto biograficamente específico). Segundo Tulving (1995), a evocação nos sistemas 1, 2 e 3 é implícita, i.e., a expressão da memória ocorre sem consciência de sua aquisição no espaço e no tempo, enquanto a evocação nos sistemas 4 e 5 seria explícita, quer dizer., refere-se à expressão do que o indivíduo reconhece como consciência pessoal. Essa seqüência numérica refletiria as relações postuladas entre os sistemas, como as operações dos últimos dependeriam e embasar-se-iam nas operações dos primeiros. Finalmente, de acordo com Tulving (1995), a codificação da informação nos sistemas de memória cognitiva dar-se-ia de forma serial, o processo de armazenamento seria paralelo, e o processo de evocação seria independente.



SISTEMAS DE MEMÓRIA

A idéia de que a memória humana não é uma entidade unitária, mas que se compõe de múltiplos sistemas independentes, porém interativos, parece atualmente consensual. Sistemas distintos de memória implicam em: (1) diferentes funções cognitivas e comportamentais, e diferentes tipos de informações e conhecimentos por eles processados; (2) diferentes leis e princípios regendo suas operações; (3) diferentes circuitos, estruturas e mecanismos neurais; (4) diferenças na aparição onto e filogenética; e (5) diferenças no formato das informações representadas (51).

Embora seja difícil precisar o início dos debates sobre a existência de múltiplos sistemas de memória em humanos, foi a partir da década de 50 que essa idéia passou a ser defendida mais enfaticamente. SCOVILLE E MILNER (1953), por exemplo, descreveram o famoso paciente HM, amnésico em decorrência de uma neurocirurgia para controle de crises epilépticas na qual foram retirados, bilateralmente, dois terços anteriores do hipocampo, giro parahipocampal, córtex entorrinal e amígdala (1953). Os autores relataram uma densa amnésia anterógrada e uma amnésia retrógrada temporalmente graduada: embora suas funções intelectuais e lingüísticas estivessem preservadas, bem como sua memória imediata, o paciente era incapaz de adquirir novos conhecimentos relativos a acontecimentos posteriores a cirurgia, mas conservava lembranças remotas de sua infância e de fatos ocorridos até dois anos antes da operação. O mesmo HM foi objeto de estudos subseqüentes nos quais se verificou a preservação seletiva de certas modalidades de aprendizagem frente a seu quadro geral de amnésia: ele podia aprimorar, através da prática, habilidades motoras, tais como desenhar em espelho, sem que, no entanto, tivesse recordação dos episódios específicos de treino nem se soubesse possuidor da capacidade (60).
Este tipo de constatação empírica estimulou o desenvolvimento conceitual sobre as dissociações entre memória de curta duração e de longa duração enfatizando sua dimensão temporal, por um lado, e sobre dissociações entre sistemas particulares da memória de longa duração enfatizando a natureza da informação processada, por outro. (Disponível em: <http://www.ib.usp.br/~gfxavier/XavNitri.html>. Acesso em: 11 nov. 2001.)
Tipos de Memória

“Pense na diferença entre memorizar a data de aniversário de alguns amigos versus aprender a andar de bicicleta. As diversas coisas que aprendemos e lembramos não são processadas sempre pelo mesmo mecanismo neural. Existem diferentes categorias de memórias, entre elas estão:



memória declarativa (memória para fatos e eventos), por exemplo, lembrança de datas, fatos históricos, números de telefone, etc.

memória processual (memória para procedimentos e habilidades), por exemplo, a habilidade para dirigir, jogar bola, dar um nó no cordão do sapato e da gravata, etc.

A memória para datas (ou fatos históricos e outros eventos) é mais fácil de se formar, mas ela é facilmente esquecida, enquanto que a memória para aprendizagem de habilidades tende a requerer repetição e prática”. (CARDOSO, Silvia Helena é psicobióloga, com doutorado pela Universidade de São Paulo e pós-doutorado pela Universidade da Califórnia em Los Angeles. Pesquisadora associada do NIB/UNICAMP).



Lembranças e Esquecimentos

Você acaba de ouvir o telefone ditado por alguém, mas em poucos segundos é incapaz de se lembrar de parte ou de todos aqueles números. Por que?

Existe uma memória que é temporária, e que é limitada em sua capacidade, sendo armazenada por um tempo muito curto no cérebro, da ordem de milisegundos a poucos minutos. Esta memória é chamada de memória de curta duração.

Para que ela se torne permanente, ela requer atenção, repetições e idéias associativas. Mas, através de um mecanismo ainda não conhecido, você pode se lembrar subitamente de um fato esquecido, como aquele número de telefone que havia esquecido. Neste caso, a informação foi armazenada na memória de longa duração, a qual é mais permanente e tem uma capacidade muito mais ampla. O processo de armazenar novas informações na memória de longa duração é chamado de consolidação.

Uma elaboração do conceito da memória de curta duração que tem sido feita nos últimos anos é a memória operacional (um termo mais genérico para o armazenamento da informação temporária). Muitos especialistas consideram memória de curta duração e memória operacional como a mesma coisa. Entretanto, uma característica chave que distingue uma da outra é, não somente o seu aspecto operacional, como também as múltiplas regiões no cérebro onde o armazenamento temporário ocorre. Isto implica que nós podemos não ser conscientes de todas as informações armazenadas ao mesmo tempo na memória operacional, nas diferentes partes do cérebro. Tomemos o exemplo de dirigir um carro. Esta é uma tarefa complexa que requer diversos tipos de informações processados simultaneamente, tais como a informação sensorial, cognitiva e motora. Parece improvável que estes vários tipos de informação sejam armazenados em um único sistema de memória de curta duração.



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