Anjos e Demônios



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DAN BROWN
ANJOS e DEMÔNIOS
Publicado originalmente com o título:

Angels & Demons

Tradução

Maria Luiza Newlands da Silveira

NOTA


Este texto, originalmente escaneado por alguém não identificado, foi cotejado com a versão em espanhol por S.B. Além de uma revisão do texto, S.B. re-editou o texto, colocando os diálogos nos lugares adequados. Também acrescentou imagens presentes na edição em espanhol e que não foram incluídas pelo escaneador da versão em português. Desse modo, essa edição eletrônica pode ser chamada de versão 1.1.

Para Blythe...


FATO
O maior estabelecimento de pesquisa científica do mundo – Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire (CERN) –, na Suíça, recentemente conseguiu produzir as primeiras partículas de antimatéria. A antimatéria é idêntica à matéria física, exceto por ser composta de partículas cujas descargas elétricas são inversas àquelas encontradas na matéria normal.

A antimatéria é a mais poderosa fonte de energia conhecida pelo homem. Libera energia com 100 por cento de eficiência (a fissão nuclear é 1,5 por cento eficiente). A antimatéria não é poluente nem radioativa, e bastaria uma gota para abastecer a cidade de Nova York de energia por um dia inteiro.

Há, porém, uma ressalva...

A antimatéria é extremamente instável. Incendeia-se ao entrar em contato com qualquer coisa, inclusive o ar. Um único grama de antimatéria contém energia igual à de uma bomba nuclear de 20 quilotons – o tamanho da bomba que caiu sobre Hiroshima.

Até bem recentemente, a antimatéria tinha sido criada apenas em quantidades bem reduzidas (alguns átomos por vez). Agora, porém, o CERN começou a trabalhar com o novo desacelerador de antiprótons – um avançado aparelho que promete criar antimatéria em quantidades maiores.

Resta uma pergunta: será que essa substância tão volátil vai salvar o mundo ou será usada para gerar a mais mortífera arma de todos os tempos?

NOTA DO AUTOR


Todas as referências a obras de arte, a arquitetura, a túneis e a tumbas em Roma são inteiramente factuais (assim como suas localizações exatas). Essas obras e monumentos ainda podem ser vistos hoje. A fraternidade dos Illuminati também é factual.


PRÓLOGO
O físico Leonardo Vetra sentiu cheiro de carne queimada e sabia que era a sua. Levantou os olhos, aterrorizado, para a figura sombria que o dominava.

– O que você quer?

La chiave – respondeu a voz rascante. – A senha.

– Mas eu não...

O intruso curvou-se de novo para a frente, pressionando com mais força o objeto em brasa no peito de Vetra. Ouviu-se um chiado de carne grelhando.

Vetra gritou alto, agoniado.

– Não existe senha nenhuma! – E sentiu que mergulhava na inconsciência.

O rosto do homem encheu-se de uma fúria contida.

Ne avevo paura. Era o que eu temia.

Vetra esforçou-se para manter os sentidos, mas a escuridão envolvia-o pouco a pouco. Seu único consolo era saber que o agressor jamais obteria o que viera buscar. Um momento mais tarde, porém, o homem fez aparecer uma lâmina e ergueu-a diante do rosto de Vetra. A lâmina adejou no ar. Precisa. Cirúrgica.

– Pelo amor de Deus! – gritou Vetra.

Mas era tarde demais.

CAPÍTULO 1


Do alto da pirâmide de Gizé, a jovem riu e voltou-se para ele, lá embaixo, chamando-o.

– Ande, Robert! Devia ter me casado com um homem mais moço! – O sorriso dela era mágico.

Ele tentou acompanhá-la, mas suas pernas pesavam como se fossem feitas de pedra.

– Espere – pediu. – Por favor...

Enquanto subia, sua vista começou a turvar-se. Seus ouvidos latejavam. Preciso alcançá-la! Mas, quando olhou de novo para cima, a mulher desaparecera. Em seu lugar havia um velho de dentes estragados. O homem encarou-o, os lábios torcendo-se em uma careta melancólica. E ele deixou escapar um grito de angústia que ressoou pelo deserto.

Robert Langdon acordou sobressaltado do pesadelo. O telefone ao lado de sua cama estava tocando. Tonto, levou-o ao ouvido.

– Alô?

– Gostaria de falar com Robert Langdon – disse uma voz masculina.



Langdon sentou-se na cama e tentou clarear sua mente.

– Aqui... é Robert Langdon – e apertou os olhos para o mostrador do relógio digital. Eram 5h18 da madrugada.

– Preciso encontrá-lo imediatamente.

– Quem está falando?

– Meu nome é Maximilian Kohler. Sou um físico de Partículas Discretas.

– Um o quê? – Langdon mal conseguia se concentrar. – Tem certeza de que procurou o Langdon certo?

– O senhor é professor de Simbologia Religiosa na Universidade de Harvard. Escreveu três livros sobre simbologia e...

– Sabe que horas são?

– Peço desculpas. Há uma coisa que precisa ver. Não posso explicar pelo telefone.

Um resmungo conformado escapou dos lábios de Langdon. Aquilo já acontecera antes. Um dos perigos de se escrever livros sobre simbologia religiosa era o chamado de fanáticos querendo que ele confirmasse o último sinal que haviam recebido de Deus. No mês anterior, uma stripper de Oklahoma prometera a Langdon a melhor sessão de sexo de sua vida se ele pegasse um avião até cidade dela para verificar a autenticidade de uma figura cruciforme que parecera magicamente nos lençóis de sua cama. O sudário de Tulsa, como Langdon a chamara.

– Como conseguiu o número do meu telefone? – Langdon tentou ser amável, apesar da hora.

– Na Internet. No site do seu livro.

Langdon franziu a testa. Tinha certeza de que o número do telefone de sua casa não constava do site de seu livro. O homem obviamente estava mentindo.

– Preciso vê-lo – a voz do outro lado insistiu. – Vou pagar bem.

Agora Langdon estava ficando furioso.

– Sinto muito, mas eu...

Se sair agora, pode estar aqui por volta de...

– Não vou a lugar nenhum! São cinco horas da manhã!

Langdon desligou e caiu de volta na cama. Fechou os olhos e tentou adormecer novamente. Não adiantou. O sonho estava entranhado em sua mente. relutante, vestiu um roupão e desceu.
Robert Langdon perambulou descalço por sua casa deserta, uma construção vitoriana em Massachusetts, segurando seu remédio habitual contra a insônia: uma caneca de chocolate instantâneo fumegante. O luar de abril filtrava-se pelas janelas da sacada e formava desenhos nos tapetes orientais. Os colegas de Langdon sempre brincavam que o lugar parecia mais um museu de antropologia do que uma casa. As prateleiras estavam cheias de artefatos religiosos de todo o mundo – um ekuaba de Gana, uma cruz dourada da Espanha, um ídolo cicladense do Egeu e um ainda mais raro boccus de Bornéu, o símbolo da perpétua juventude de um jovem guerreiro.

Sentado em uma arca de latão maharishi e saboreando o chocolate quente, deu com o seu reflexo nas vidraças das janelas. A imagem estava distorcida e pálida... como a de um fantasma. Um fantasma envelhecido, pensou, sendo cruelmente lembrado de que o seu espírito da mocidade vivia dentro de um invólucro mortal.

Apesar de não ser propriamente bonito no sentido clássico, Langdon, com seus quarenta e cinco anos, possuía o que as colegas do sexo feminino classificavam de um encanto “erudito” – mechas grisalhas misturadas ao espesso cabelo castanho, perspicazes olhos azuis, uma voz grave atraente e o sorriso forte e despreocupado de um atleta universitário. Membro da equipe de mergulho da faculdade, Langdon ainda tinha um corpo de nadador, um metro e oitenta de boa forma, que ele mantinha cuidadosamente com 2.500 metros diários de exercício na piscina da universidade.

Seus amigos sempre o viram como uma espécie de enigma – um homem que pertencia a séculos diferentes. Nos fins de semana, viam-no andando pelo pátio da universidade vestido de jeans e conversando sobre computação gráfica e história religiosa com os alunos; outras vezes, aparecia com seu paletó de tweed e colete paisley nas páginas de importantes revistas de arte em aberturas de exposições de museus para as quais era convidado a dar palestras.

Mesmo sendo um professor rigoroso e muito severo quanto à disciplina, Langdon era o primeiro a acolher o que chamava de “a arte perdida de uma boa brincadeira” Apreciava os momentos de divertimento com um fanatismo contagiante, o que lhe valera uma aceitação fraternal entre seus alunos. Seu apelido no campus, “Golfinho”, era uma referência tanto à sua natureza afável quanto à sua lendária capacidade de mergulhar em uma piscina e confundir a estratégia de toda a equipe adversária em um jogo de pólo aquático.

Enquanto estava ali, sozinho, olhando distraído para a escuridão, o silêncio da casa foi quebrado novamente, dessa vez pelo toque da máquina de fax. Exausto demais para se incomodar, Langdon forçou uma risadinha cansada.

O povo de Deus, pensou. Dois mil anos de espera pelo Messias e eles ainda são de uma persistência infernal.

Entediado, deixou a caneca vazia na cozinha e foi andando devagar para seu escritório revestido de painéis de carvalho. O fax recém-chegado estava na bandeja da máquina. Suspirando, pegou a folha de papel e olhou para ela.

No mesmo instante foi tomado por uma onda de náusea.

A imagem na página era a de um cadáver humano. O corpo fora despido e a cabeça fora torcida, virada completamente para trás. No peito da vítima havia uma terrível queimadura. O homem fora marcado a fogo... com uma única palavra. Uma palavra que Langdon conhecia bem, muito bem. Ele olhou fixamente, incrédulo, para as letras desenhadas.




– Illuminati – ele gaguejou, o coração batendo forte. – Não pode ser...

Lentamente, temendo o que estava para presenciar, Langdon girou o papel 80 graus. Olhou para a palavra de cabeça para baixo.

E quase perdeu o fôlego. Era como se tivesse sido atropelado por um caminhão. Mal acreditando em seus olhos, virou a folha de novo, lendo a palavra nas duas posições.

– Illuminati – murmurou.

Aturdido, deixou-se cair em uma cadeira. Ficou ali por um momento, totalmente desnorteado. Aos poucos, sua atenção voltou-se para a luz vermelha que piscava na máquina. Quem mandara o fax ainda estava na linha... esperando para falar. Langdon contemplou durante longo tempo o ponto luminoso piscando.

Depois, trêmulo, levantou o fone.

CAPÍTULO 2
– Vai me dar atenção agora? – disse o homem quando Langdon finalmente atendeu o telefone.

– Sim, senhor, com certeza, agora vou. Pode explicar melhor?

– Foi o que tentei lhe contar antes – a voz era rígida, mecânica. – Sou físico. Dirijo uma organização de pesquisas. Aconteceu um crime e o senhor viu o fax.

– Como me encontrou? – Langdon mal conseguia se concentrar na conversa. Sua mente estava na imagem no fax.

– Já lhe disse. Na Internet, no site de seu livro A arte dos Illuminati.

Langdon procurou reunir seus pensamentos. Seu livro era praticamente desconhecido nos círculos literários convencionais mas tivera uma repercussão bastante significativa on-line. Ainda assim, a explicação não fazia sentido.

– A página não traz informações para contato – Langdon desafiou-o.

– Tenho certeza disto.

– No laboratório tenho gente que é especialista em extrair informações sobre os usuários da Internet.

Langdon ainda estava meio cético.

– Parece que seu laboratório sabe tudo sobre a Internet.

– Claro – o outro disparou –, fomos nós que a inventamos.

Algo na voz do homem dizia que ele não estava brincando. – Preciso vê-lo – insistiu. – Não é assunto para se tratar pelo telefone. Meu laboratório fica a apenas uma hora de vôo de Boston.

Na penumbra de seu escritório, Langdon analisou o fax que tinha em mãos. A imagem era estarrecedora, talvez representasse a maior descoberta epigráfica do século, uma década de suas pesquisas confirmada em um único símbolo.

– É urgente – a voz pressionou-o.

Os olhos de Langdon estavam fixos na queimadura. Illuminati, ele lia sem parar. Seu trabalho sempre se baseara no equivalente simbólico dos fósseis – documentos antigos e boatos históricos –, mas aquela imagem diante dele representava o hoje. O tempo presente. Sentia-se como um paleontólogo que dá de cara com um dinossauro vivo.

– Tomei a liberdade de mandar um avião buscá-lo – disse a voz. – Vai estar em Boston dentro de 20 minutos.

Langdon sentiu a boca seca. Uma hora de vôo...

Por favor, desculpe minha impertinência – continuou o homem. – Preciso do senhor aqui.

Langdon olhou outra vez para a imagem no fax – um antigo mito confirmado em preto-e-branco. As implicações eram assustadoras. Levantou um olhar ausente para as janelas. Os primeiros vestígios da aurora insinuavam-se por entre os galhos das bétulas dos fundos de sua casa, mas a vista de alguma forma parecia diferente naquela manhã. À medida que uma estranha mistura de medo e animação ia tomando conta dele, Langdon percebeu que não tinha escolha.

– O senhor me convenceu – falou ele. – Agora me diga onde encontrar o avião.

CAPÍTULO 3


A milhares de quilômetros dali, dois homens encontravam-se.

O aposento era escuro. Medieval. De pedra.

Benvenuto – disse o encarregado. Estava sentado nas sombras, fora de visão. – Foi bem-sucedido?

Si – respondeu o vulto. – Perfectamente. – Suas palavras soavam duras como as paredes de pedra.

– E não haverá dúvidas quanto à responsabilidade?

– Nenhuma. – Excelente. Trouxe o que pedi?

Os olhos do assassino brilharam, negros como petróleo. Pegou um pesado aparelho eletrônico e colocou-o sobre a mesa.

O homem nas sombras pareceu satisfeito.

– Você se saiu bem.

– Servir à fraternidade é uma honra – disse o assassino.

– A fase dois vai começar logo. Procure descansar um pouco. Esta noite vamos mudar o mundo.
CAPÍTULO 4
O Saab 900S de Robert Langdon saiu do túnel Callahan no lado leste do porto de Boston, perto da entrada para o Aeroporto Logan. Verificando o endereço, Langdon encontrou a Aviation Road e dobrou à esquerda depois do prédio da Eastern Airlines. Na estrada de acesso, uns 300 metros adiante, um hangar surgiu na escuridão. Pintado nele, um grande número “4”. Langdon parou no estacionamento e saiu do carro.

Um homem de rosto redondo vestindo um uniforme azul de vôo saiu de trás da construção.

– Robert Langdon? – indagou.

A voz era amigável, com um sotaque peculiar que Langdon não conseguiu identificar.

– Eu mesmo – respondeu ele, trancando o carro.

– Cálculo perfeito – disse o homem. – Acabei de aterrissar. Venha comigo, por favor.

Ao rodearem o prédio, Langdon sentiu-se tenso. Não estava acostumado a receber telefonemas enigmáticos nem a marcar encontros secretos com estranhos. Sem saber o que esperar, envergara seu traje habitual de dar aulas – calças de algodão, camisa de gola rolê e um paletó de tweed. Enquanto caminhavam, pensou no fax no bolso de seu paletó, ainda incapaz de acreditar na imagem que apresentava.

O piloto pareceu perceber a ansiedade de Langdon.

– Voar não é problema para o senhor, ou é?

– De jeito nenhum – Langdon replicou. Corpos marcados a fogo é que são. Voar não é nada. O homem conduziu Langdon até o outro lado do hangar. Contornaram um dos cantos e saíram na pista de pouso.

Langdon estacou, boquiaberto diante da aeronave estacionada na pista.

– Vamos nisso aí?

O homem sorriu.

– Gostou dele?

Langdon ficou parado olhando algum tempo.

– Dele? Que diabos é isso?


O avião era enorme. Lembrava um pouco o ônibus espacial, exceto pelo topo, que parecia ter sido raspado fora, deixando-o perfeitamente plano. Estacionado ali, parecia uma cunha gigantesca. A primeira sensação de Langdon foi a de que estava sonhando. O veículo dava a impressão de ser tão capaz de voar quanto um Buick. As asas praticamente não existiam – apenas dois atarracados estabilizadores verticais na traseira da fuselagem. Um par de pequenos lemes dorsais erguia-se na ré. O resto do avião era apenas casco – cerca de sessenta metros de ponta a ponta –, sem janelas, nada mais além de casco.

– Pesa 250 toneladas com o tanque de combustível cheio – adiantou-se o piloto, como um pai se gabando do filho recém-nascido. – Movido a hidrogênio. O casco é feito de um molde de titânio com fibras de carbureto de silício. Arremete com um coeficiente de empuxo de 20:1; a maioria dos jatos só chega a 7:1.0 O diretor deve estar com uma pressa danada de encontrar o senhor. Ele não costuma mandar o possante assim à toa.

– Essa coisa voa? – espantou-se Langdon.

O piloto riu.

– Se voa!

Conduziu Langdon pela pista na direção do avião.

– Chega a assustar, eu sei, mas é bom ir se acostumando. Daqui a cinco anos, é só o que se vai ver – os HSCT, High Speed Civil Transports (Transporte Civil de Alta Velocidade). Nosso laboratório é um dos primeiros a ter um.

Deve ser um tremendo laboratório – pensou Langdon.

– Este é um protótipo do Boeing X-33 – continuou o piloto –, mas existem dezenas de outros: o National Aero Space Plane, o Scramjet dos russos, o Hotol dos ingleses. O futuro está aqui, só vai levar algum tempo para chegar ao setor público. Pode ir se despedindo dos jatos convencionais.

Langdon examinou o avião com ar desconfiado. – Acho que teria preferido um jato convencional.

O piloto apontou para a escada de embarque.

– Vamos subir, por favor, senhor Langdon. Cuidado com os degraus.


Minutos depois, Langdon estava sentado dentro da cabine vazia. O piloto instalou-o na primeira fila e encaminhou-se para a frente do avião.

Surpreendentemente, a cabine em si parecia-se com a de um grande jato comercial comum. A única exceção era o fato de não possuir janelas, o que incomodava Langdon bastante. A vida inteira fora perseguido por uma leve claustrofobia, vestígio de um incidente de infância jamais superado por completo.

Sua aversão por espaços fechados não chegava a atrapalhar, mas sempre fora causa de algumas frustrações. Manifestava-se de formas sutis. Ele evitava a prática de esportes de quadras fechadas, como o squash, e pagara de bom grado uma pequena fortuna por sua casa vitoriana, arejada e com pé-direito alto, embora houvesse pronta disponibilidade de moradia mais econômica para professores da universidade. Às vezes, suspeitava que sua atração pelo mundo da arte desde muito jovem devia-se ao seu gosto pelos amplos espaços abertos dos museus.

Os motores roncaram sob os seus pés causando um estremecimento profundo que percorreu todo o corpo do avião. Langdon engoliu em seco e aguardou. Sentiu o avião começar a taxiar. Acima de sua cabeça espalhou-se suavemente o som de música country com instrumentos de sopro.

Um telefone na parede a seu lado tocou duas vezes. Langdon pegou o fone e levou-o ao ouvido.

– Alô?


– Está confortável, senhor Langdon?

– Nem um pouco.

– Procure relaxar. Vamos chegar lá em uma hora.

– E onde exatamente é lá? – perguntou Langdon, percebendo que não tinha noção de para onde estavam indo.

– Genebra– respondeu o piloto, acelerando os motores. – O laboratório é em Genebra.

– Genebra – repetiu Langdon, sentindo-se um pouco melhor. – No norte do estado de Nova York. Tenho parentes perto do lago Sêneca. Não sabia que havia um laboratório de Física em Genebra.

O piloto deu uma risada.

– Não é a Genebra de Nova York, senhor Langdon. Estamos indo para a Genebra da Suíça. A palavra demorou um longo momento para ser assimilada.

– Suíça? – O pulso de Langdon acelerou-se. – Mas você não disse que o laboratório ficava só a uma hora de viagem?

– E fica, senhor Langdon. – Ele deu mais uma risadinha. – Este avião voa a Mach 15.

CAPÍTULO 5
Em uma movimentada rua européia o assassino deslocava-se de maneira sinuosa através da multidão. Era um homem vigoroso. Moreno e forte. De uma agilidade dissimulada. Seus músculos ainda estavam tensos pela emoção do encontro.

Correu tudo bem, disse a si mesmo. Embora seu empregador não tivesse em nenhum momento mostrado o rosto, o assassino sentia-se honrado por estar em sua presença. Fazia realmente apenas 15 dias que haviam feito o primeiro contato? O assassino ainda lembrava cada palavra da conversa...

– Meu nome é Janus – dissera a pessoa que telefonara. – Estamos de certa forma ligados pelos mesmos laços. Temos um inimigo comum. Soube que se pode contratar seus serviços profissionais.

– Depende de quem você representa – replicou o assassino.

O interlocutor disse um nome.

– Não acho graça nessa brincadeira.

– Vejo que já ouviu falar de nós – observou o homem.

– Claro que sim. A fraternidade é lendária.

– E mesmo assim noto que você duvida que eu seja um membro genuíno.

– Todos sabem que os irmãos foram reduzidos a pó.

– Um ardil para desviar a atenção. O inimigo mais perigoso é aquele que ninguém teme.

O matador mostrou-se cético.

– A fraternidade ainda subsiste?

– Mais às ocultas do que nunca. Nossas raízes estão infiltradas em tudo o que você vê... até na fortaleza sagrada de nosso inimigo mais declarado.

– Impossível. Eles são invulneráveis.

– Nosso braço é longo.

– Nenhum braço chega tão longe.

– Logo você vai acreditar. Uma demonstração irrefutável do poder da fraternidade já veio a público. Um único ato de traição e de prova.

– O que vocês fizeram?

O homem contou-lhe.

O matador arregalou os olhos.

– Uma tarefa impossível.

No dia seguinte, os jornais do mundo inteiro estampavam a mesma manchete. O matador passou a acreditar.

Agora, 15 dias depois, a fé do matador consolidara-se além de qualquer sombra de dúvida. A fraternidade subsiste, pensou. Hoje à noite eles virão à tona para revelar seu poder.

Caminhando pelas ruas, seus olhos negros brilhavam, cheios de expectativa. Uma das fraternidades mais ocultas e temidas que já haviam existido neste mundo convocara seus serviços. Escolheram com sabedoria, refletiu. Sua reputação de saber guardar segredo só era superada pela de infalibilidade.

Até ali, servira-os nobremente. Fizera a execução e entregara o objeto a Janus como fora solicitado. Agora, cabia a Janus lançar mão de seu poder para providenciar a instalação do objeto.

A instalação...

O assassino se perguntava como Janus realizaria aquela tarefa tão assombrosa. O homem certamente tinha contatos lá dentro. Os domínios da fraternidade pareciam ilimitados.

Janus, pensou ele. Um codinome, sem dúvida. Seria uma referência, ocorreu-lhe, ao deus romano de duas faces... ou à lua de Saturno? Não que fizesse qualquer diferença. Janus exercia um poder insondável. Dera provas irrefutáveis disso.

Enquanto andava, o assassino imaginava seus próprios ancestrais rindo para ele. Ele estava lutando a mesma batalha deles, era o mesmo inimigo contra o qual haviam lutado durante séculos, talvez desde o século XI... quando os exércitos dos cruzados haviam começado a pilhar suas terras, violentando e matando seu povo, declarando-o impuro, despojando seus templos e deuses.

Seus antepassados haviam formado um pequeno mas mortífero exército para se defender. Esse exército tornou-se famoso na região, seus membros eram vistos como protetores – hábeis carrascos que percorriam o país trucidando o inimigo onde quer que o encontrassem. Eram afamados não só por seus extermínios brutais, como por celebrá-los entregando-se ao entorpecimento causado pelo uso de drogas. A droga escolhida era uma potente substância inebriante a que chamavam de hashish, o haxixe.



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