Análise sobre as personagens femininas das obras machadianas



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ANÁLISE SOBRE AS PERSONAGENS FEMININAS DAS OBRAS MACHADIANAS
Letícia Brumati Peres – leticiabrumatiperes@yahoo.com.br

Luis Felippe Biazetto Henrique – luis_feh@hotmail.com

Paula Lucia Zuanon – paulinhazuanon@hotmail.com

Paulo Sérgio Fernandes – paulo_sergiof@hotmail.com



RESUMO
A importância das obras machadianas na Literatura Brasileira é sempre destacada por todos. Machado de Assis, maior nome da Literatura Brasileira, vem sempre sendo discutido, não apenas por críticos literários, mas também por qualquer pessoa que tenha algum interesse pela literatura e pelas suas obras. O presente trabalho visa mostrar uma visão das mulheres nas principais obras machadianas, ou seja, destacar como as mulheres eram vistas na época de Machado de Assis, quais suas características, diferenças e semelhanças com as mulheres de nossa época. Esta análise permite ao leitor ter uma visão diferente das obras machadianas, ampliando seus horizontes literários.
Palavras-chave: Literatura Brasileira. Machado de Assis. Mulheres.

INTRODUÇÃO
Dono de uma das Literaturas mais ricas do mundo, a Literatura Brasileira abriga uma das maiores coleções de livros de diversos autores de diversas épocas e é sempre estudada por alunos, professores, críticos ou por pessoas que querem ter o simples prazer de uma leitura. Cada um destes busca estes livros para diversos fins, o que faz com que cada um veja determinadas obras de maneiras diferentes. Isto é de importância vital para que as obras sejam mais valorizadas por quem as lê e apenas as torna mais ricas do ponto de vista crítico.

Pode-se analisar estas obras dando destaque às mulheres, elas que são muito bem exploradas por Machado de Assis receberão um foco especial neste artigo, pois seus personagens principais são sempre homens, em sua maioria homens com problemas interiores, solitários e que não tem um final feliz em suas relações amorosas.

O objetivo do presente trabalho é fazer uma análise das mulheres das principais obras de Machado de Assis para idealizarmos como as mulheres eram vistas e tratadas naquela época por seu escritor e entender a visão do autor sobre o universo feminino.

Para que tal objetivo fosse atingido, foi realizado um estudo da obra.



1 VIDA E OBRA DE MACHADO DE ASSIS
Joaquim Maria Machado de Assis é considerado até os tempos atuais um dos maiores escritores que a Literatura Brasileira já teve o prazer de acolher em seus braços. Menino mulato, nascido no ano de 1939, Machado viveu e cresceu à sombra de uma infância muito pobre, onde quando criança vendia doces para ajudar a sustentar sua família.

Na sua juventude ele já dava mostras de uma crescente em sua vida, primeiro virando caixeiro de uma livraria e depois tipógrafo, tornando-se assim, mais tarde, jornalista, profissão esta que o levou, enfim, a literatura. A vida de jornalista não lhe rendia salário necessário para seu próprio sustento, por isso Machado tornara-se também funcionário público, onde fez carreira como oficial de gabinete de ministro, depois diretor de órgão público e mais tarde, em decorrência da Proclamação da República em 1889, teve sob seus cuidados a Diretoria do Comércio da cidade do Rio de Janeiro.

Apesar de sua vida como funcionário público, sua carreira como escritor também contou com outra base sólida: seu casamento com a portuguesa Carolina de Novaes, casamento este que só ajudou a fazer crescer a carreira de Machado, uma vez que a esposa era grande incentivadora de seu trabalho, havendo inclusive quem diga que há nos escritos machadianos resquícios da influência dela. Após a morte de sua esposa, houve um período no qual as pessoas diziam não reconhecer o Machado de Assis alegre e extrovertido de outrora. É o que Eugênio Gomes diz quando cita:
Machado de Assis, depois que lhe morreu a mulher, viveu em completo isolamento. Os antigos habitantes do bairro ficariam surpresos, se ouvissem falar nos invisíveis visitantes do solitário habitante do número 18. daquela casa saía e entrava diàriamente um homem que não conhecia os vizinhos, que se esquivava aos cumprimentos, com receio de que lhe dirigissem a palavra (GOMES, 1967. p. 180).

Segundo Coutinho, na duração de uma atividade literária ininterrupta que teve início no final do século XIX, “Machado de Assis representou no Brasil o primeiro e o mais acabado modelo de homem autêntico dedicado à arte de escrever”. (COUTINHO, 2004 p 151).

As obras de Machado de Assis podem ser divididas em duas épocas: o pré e o pós-Romantismo, e é neste pós-Romantismo que Machado de Assis adquiri a sua chamada “maturidade artística”, iniciada então após a escrita de Memórias Póstumas de Brás Cubas e que se consolidou mais tarde com Quincas Borba e Dom Casmurro. Estas três obras, em especial, demonstraram o quão hábil Machado tornou-se em criar e escrever prosas realistas, distanciando-se assim de sua fase romântica e também dos exageros científicos dos outros autores do Realismo-Naturalismo.

Machado de Assis também foi um dos fundadores da renomada Academia Brasileira de Letras e acrescentado às suas outras grandes obras literárias, isto fez com que se tornasse um dos maiores, quiçá o maior, nomes da Literatura Brasileira de todos os tempos. Sua morte ocorreu no ano de 1908 onde recebeu honras fúnebres de chefe de estado. Machado inspira até hoje as pessoas no seu modo de escrita e inspirou outros grandes nomes da Literatura Brasileira.



2 AS PERSONAGENS FEMININAS MACHADIANAS
As obras de Machado de Assis pós-Romantismo são inseridas na cidade do Rio de Janeiro do final do século XIX e tem como personagens de destaque cidadãos da burguesia vigente da época. As principais obras de Machado são contadas por narradores-protagonistas masculinos, o que nos mostra que a mulher é mostrada sempre através de um ponto de vista masculino. As mulheres da época de Machado não tinham toda a liberdade que é tão comum nos dias atuais, pois eram tempos de patriarquismo, assim sendo, fica evidente o fato de que a figura da mulher era submissa ao homem daquela época, e por tratar-se de um narrador masculino, não é de se estranhar o fato de as mulheres possuírem uma visão negativa nos contos machadianos, cita-se, por exemplo, as belas e astutas Capitu, Virgília e Sofia.

Com a ingressão dos novos tempos há uma alteração no cenário político e isto acarreta em uma mudança na vida da mulher, fazendo com que ela ganhe mais liberdade ao mesmo tempo em que tem de desempenhar novas funções dentro do cenário familiar, passando a ter de se ocupar com o lar, cuidar dos filhos e do marido, além de ser sua companheira na vida social.

Toda essa visão sobre as mulheres nos revela um lado mau-caráter por parte das mulheres dessas obras machadianas; mostram-se mulheres interesseiras, que tem um cenário inicial difícil na vida desfavorável, com dificuldades e encontram a salvação de suas vidas em casamentos de interesse onde esta é a única forma para sua ascensão social. É o caso de Virgília em Memórias Póstumas de Brás Cubas e havendo a dúvida a respeito de Capitu em Dom Casmurro.

3 O PAPEL DA MULHER NA OBRA MACHADIANA
Há um grande destaque para as mulheres nas obras de Machado de Assis, mesmo que às vezes venha com traços de mau-caráter a mulher é muitas vezes tratada como personagem dotada de cultura e inteligência. Cita-se como exemplo as ambiciosas Marcela, Virgília e Sofia que claramente são capazes de tudo para satisfazer suas vontades e anseios pessoais. No caso de Virgília, sua prioridade era o interesse por uma boa classe social, amor e casamento não misturavam-se, quase casou-se com Brás, mas devido ao aparecimento de Lobo Neves, um grande nome do cenário político da época e mais rico e bem sucedido do que Brás, não hesitou, foi bem decidida, interessada em status e dinheiro optou pelo homem que lhe daria uma ótima posição na sociedade e que prometeu fazê-la marquesa, Lobo Neves.

Ao fazer esta escolha, Virgília mostra-se egoísta, movida pelo desejo de sobressair-se na sociedade, mas, apesar disso, não conseguia esconder seu amor por Brás Cubas. Após casar-se com Lobo Neves envolve-se novamente com Brás e entregam-se ao pecado do adultério, e assim, mantém a seus pés o marido e o amante. Pelo fato de Virgília não ser muito religiosa e não ir sempre às missas, não se sentia tão culpada por ser adúltera. Como é dita em Memórias Póstumas de Brás cubas (1965, p. 102) “Virgília era um pouco religiosa. Não ouvia missas aos domingos, é verdade, e creio até que só ia às igrejas em dia de festa, e quando havia lugar vago em alguma tribuna”.

Quando há a notícia de que Lobo Neves mudar-se-ia para outra cidade e Virgília iria junto com ele, e ela tem de escolher entre seu amor e sua vida de conforto, sua vida de conforto foi colocada como prioridade.

Marcela, uma mulher bonita, ambiciosa e interesseira com que Brás envolveu-se. Ganhava vários presentes caros de Brás onde gastou todo o seu dinheiro e o de seu pai para agradá-la.

Brás não dizia em nenhum momento que Marcela amava os presentes, as jóias que ganhava e que não o amava, ela era falsa, pois se queria algo caro e Brás não tivesse condições de dar, para não demonstrar tanto interesse dizia que o amor deles não precisava de tanto.“Assim foi que um dia, como eu lhe não pudesse dar certo colar, que ela vira num joalheiro, retorquiu-me que era um simples gracejo, que o nosso amor não precisava de tão vulgar estímulo.”

No caso de Sofia, ela, mulher bonita e sedutora, atrai Rubião para desfrutar de seu prestígio e sempre lhe dá esperanças de que um dia possam ficar juntos, mas assim que se dá conta de sua ruína ela abandona-lhe. Pode ser citado também uma personagem da fase romântica de Machado: a formosa Helena, do romance homônimo, que aproxima-se de Estácio fingindo ser sua irmã com o intuito de receber parte da herança. Este é outro claro exemplo de uma personagem feminina de Machado de Assis que se aproxima de um personagem masculino pura e simplesmente por interesse.

Capitu é um caso que demonstra com excelência a presença da mulher na vida do personagem principal. Conhecia Bentinho desde sua infância, era uma menina pobre de sua época que como qualquer menina de sua classe social procura ascender de vida e encontra em Bento Santiago sua única salvação para essa elevação de nível de vida. Para conseguir isto, usa de seus principais atributos: é dissimulada, sedutora, calculista, dona de um corpo alto, forte, moreno, olhos claros e grandes – de cigana oblíqua – nariz reto e comprido.

Um dos atributos que mais chamam atenção em Capitu são seus olhos, olhos estes que recebem uma atenção especial por parte de Bentinho durante toda a estória. Seus olhos são um mistério indecifrável para Bentinho ou para os leitores que dificilmente podem afirmar se ela é honesta ou não, sabe-se apenas sabe-se que ela é uma figura envolta de enigmas sutis com opções a favor e contra o seu possível adultério. Capitu é, sem dúvidas, a principal personagem feminina nas obras de Machado de Assis. Seus olhos mostram o que desejamos ver por meio deles. Através de seus olhos de cigana oblíqua saía bem de situações difíceis, exemplos dessas situações podem ser vistas como na situação da inscrição no muro:


Capitu estava ao pé do muro fronteiro, voltada para ele, riscando com um prego. O rumor da porta fê-la olhar para trás; ao dar comigo, encostou-se ao muro , como se quisesse esconder alguma cousa. Caminhei para ela; naturalmente levava o gesto mudado, porque ela veio a mim, e perguntou-me inquieta:

- Que é que você tem?

- Eu? Nada.

- Nada não,; você tem alguma cousa.

Quis insistir que nada, mas não achei língua..

(ASSIS, 2008. p. 34).


Nota-se que desde a adolescência Capitu já preparava o salto social que desejava e faz isso por meio de manipulação e sedução. A comparação dos olhos de Capitu com olhos de ressaca é devido ao fato de ambos atraírem pelo perigo, é o perigo que atrai e aterroriza suas vítimas através do fascínio:
Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluído misterioso e enérgico, praia nos dias de ressaca. (ASSIS, 1998 p 80-81).

Nota-se também que os protagonistas das principais obras realistas de Machado não mostram muito interesse por personagens que não tem a atração que o perigo causa, a simplicidade não atrai os personagens masculinos. É o que encontramos no caso de Eugênia, a flor da moita e Brás Cubas. É o que diz Alfredo Bosi neste trecho. (2000, p. 71) “Eugênia, a flor da moita, tem um caráter altivo que falta às amantes, ricas ou pobres, de Brás Cubas”.



CONCLUSÃO

Os romances realistas machadianos, em especial Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas, são narrações contadas pelos protagonistas que vivem flashbacks de suas vidas. Ambos na casa dos cinquenta anos, solteirões e que passam durante o decorrer do livro, lembrando suas memórias. Pode ser observado como exemplo o caso de Capitu onde o narrador mostra traços da mulher voltados para a “arte” de dissimular e releva quão esperta e quão capacitada a mulher é para sair de situações complicadas e embaraçosas, até mesmo quando usa de suas táticas para enganar os homens – caso este semelhante ao de Marcela em Memórias Póstumas de Brás Cubas, quando ela diz amar o protagonista mas o amor acaba assim que o dinheiro do protagonista também acaba, e caso idêntico ao da também interesseira Sofia em Quincas Borba, ou seja, isto mostra a visão que Machado de Assis tinha em relação às mulheres em seus romances realistas; é algo parecido com “as mulheres não são figuras confiáveis”. No caso de Capitu, não há como saber se ela realmente era essa figura que é pintada por Bentinho, uma vez que ele não se mostra uma pessoa equilibrada psicologicamente e isto nos deixa em dúvida quanto a o que é verdade e o que é inventado pelo personagem. Já Sofia é uma das personagens de Machado de Assis menos sujeitas a uma possível idealização. Como pessoa é claramente cruel, egoísta e ambiciosa, mas como ideal de Rubião, como uma possível embora inatingível solução para seu problema mental, Sofia representa o papel simbolizado pelo seu nome – Sabedoria, Sofia.

Para concluir, é necessário que se compreenda o motivo de Machado de Assis ter criado seus contos neste modo de escrita. Machado conta seus contos através de personagens masculinos para que suas opiniões, pensamentos e mostrar exclusivamente uma visão masculina acerca do universo feminino.

REFERÊNCIAS
ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. São Paulo: Klick Editora, 1998.
ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Cultrix, 1965.
BOSI, Alfredo: O enigma do olhar. São Paulo: Ática, 2000.
COUTINHO, Afrânio. Machado de Assis. In: A literatura no Brasil. São Paulo: Global, 2004.
GOMES, Eugênio. O enigma de Capitu. 1.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1967.


Universitári@ - Revista Científica do Unisalesiano – Lins – SP, ano 2, n.5, Edição Especial, outubro 2011




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