Anne Bishop Trilogia das Joías Negras 1 Filha do Sangue



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Anne Bishop – Trilogia das Joías Negras 1 – Filha do Sangue

Título original: Daughter of the Blood Autoria: Ann Bishop Copyright © 2006 Publicado originalmente nos EUA. Todos os direitos reservados. Tradução: Cristina Correia Composição: Saída de Emergência, em caracteres Minion 12 Design da capa e interiores: www.cortereal.net Impressão e acabamento: Rolo e Filhos, Lisboa l" edição: Outubro, 2006 ISBN: 9789728839772 Depósito Legal n". 207201/06 Saída de Emergência é uma marca registada das Edições Fio da Navalha, Lda. Av. da República, n°861. Bloco A, 5°, 2775-274 Parede www.saidadeemergencia.com

JÓIAS

Branca


Amarela
Olho-de-Tigre
Rosa
Azul-celeste
Violácea
Opala
Verde
Azul-Safira
Vermelha
Cinzenta
Ébano-Acinzentada
Negra

Ao realizar a Dádiva às Trevas, uma pessoa pode descer até ao máximo de três categorias relativamente à sua Jóia de Direito por Progenitura.

Exemplo: A Branca de Direito por Progenitura pode descer até à Rosa.
HIERARQUIA DOS SANGUE / CASTAS

machos


Plebeu — em qualquer das raças, os que não fazem parte dos Sangue macho dos Sangue — um termo geral para todos os machos dos Sangue; designa também todos os machos dos Sangue que não usam Jóias

Senhor da Guerra — macho que usa Jóias cujo estatuto é equivalente ao de feiticeira

Príncipe — macho que usa Jóias cujo estatuto é equivalente ao de Sacerdotisa ou ao de Curandeira Príncipe dos Senhores da Guerra - macho que usa Jóias perigoso e extremamente agressivo; o respectivo estatuto encontra-se ligeiramente abaixo da Rainha

FÊMEAS


Plebeia — em qualquer das raças, as que não fazem parte dos Sangue fêmea dos Sangue — um termo geral para todas as fêmeas dos Sangue; habitualmente designa todas as fêmeas dos Sangue que não usam Jóias

Feiticeira — fêmea dos Sangue que usa Jóias mas que não se encontra em nenhum dos outros níveis hierárquicos; designa também qualquer fêmea que use Jóias

Curandeira — feiticeira que cura ferimentos e doenças do foro físico; o seu estatuto é equivalente ao de Sacerdotisa e ao de Príncipe

Sacerdotisa — feiticeira que zela pêlos altares, Santuários e Altares das Trevas; testifica juras e casamentos; realiza dádivas; de estatuto equivalente ao de Curandeira e ao de Príncipe Viúva Negra — feiticeira que cura as mentes; tece as teias entrelaçadas de sonhos e de visões; é versada em ilusões e venenos

Rainha — feiticeira que domina os Sangue; é considerada o coração da terra e o centro moral dos Sangue; como tal, é o ponto central da sociedade

PRÓLOGO

Terreille
Sou Tersa, a Tecedeira, Tersa, a Mentirosa, Tersa, a Louca. Sempre que os Senhores e as Senhoras de Jóias dos Sangue dão um banquete, sou a diversão que se segue após os músicos terem tocado, os ágeis rapazes e raparigas terem dançado e os Senhores tiverem bebido demasiado vinho e exigirem que lhes seja lida a sina — Conta-nos uma história, Tecedeira — gritam, ao mesmo tempo que as suas mãos tocam as coxas das raparigas que os servem e as Senhoras observam os Jovens, decidindo quais os que terão o doloroso prazer de as servir na cama, nessa mesma noite.

Em tempos, fui parte deles, Sangue, tal como eles são Sangue.

Não, não é verdade. Eu não era Sangue como eles são Sangue. Daí ter sido quebrada pela lança de um Senhor da Guerra, tornando-me vidro estilhaçado que reflecte apenas o que poderia ter sido.

É extremamente difícil quebrar um macho de Jóias dos Sangue, mas a vida de uma Feiticeira está suspensa pelo fio do Himeneu e o que suceder na Noite da Virgem é crucial para determinar se ficará intacta para exercer a Arte ou se se irá tornar um receptáculo partido, restando-lhe o sofrimento eterno pela parte de si própria que se esvaeceu. Ah, alguma magia permanece, o suficiente para a vida do dia-a-dia e truques de salão, mas não a Arte, o sangue da vida para a nossa espécie.

No entanto, a Arte pode ser recuperada - se se estiver disposto a pagar o preço.

Na minha juventude, lutei contra esse último declive que leva ao Reino Distorcido. É preferível ser quebrada e manter a sanidade mental do que ser quebrada e ficar louca. É preferível olhar para o mundo e reconhecer uma árvore como uma árvore, uma flor como uma flor, a olhar através de uma névoa para formas acinzentadas e fantasmagóricas, vislumbrando claramente apenas os fragmentos de si própria.

Assim pensava, na altura.

Arrastando-me para o pequeno banco, luto para me manter nos limites do Reino Distorcido e para ver, uma última vez, o mundo físico.


Cuidadosamente, coloco a estrutura de madeira que segura a minha teia entrelaçada, a teia de sonhos e de visões, na pequena mesa junto ao banquinho.

Os Senhores e as Senhoras esperam que eu lhes leia a sina e eu sempre o fiz, não por magia mas mantendo os olhos abertos e os ouvidos atentos, transmitindo-lhes o que gostariam de ouvir.

Simples. Sem magia.

Mas hoje é diferente.

alguns dias que tenho vindo a ouvir um tipo estranho de trovão, um chamamento distante. Ontem à noite, rendi-me à loucura para poder recuperar a minha Arte como Viúva Negra, uma feiticeira das Assembleias da Ampulheta. Ontem à noite, teci uma teia entrelaçada para ver os sonhos e as visões.

Hoje, as sinas não serão reveladas. As minhas forças permitem-me que o diga uma única vez. Antes de falar tenho de me certificar de que aqueles que têm de ouvir o que vou revelar se encontram na sala.

Aguardo. Não reparam. Os copos enchem-se e voltam a encher-se ao mesmo tempo que me debato para me manter nos limites do Reino Distorcido.

Ah, ali está ele. Daemon Sadi, do Território denominado Hayll. É lindo, frio, cruel. Tem um sorriso sedutor e um corpo que as mulheres desejam tocar e pelo qual desejam ser acariciadas, mas é dominado por uma raiva gélida e insaciável. Ao falarem sobre o seu desempenho no quarto, as palavras que as Senhoras murmuram são "prazer excruciante". Não duvido que seja suficientemente sádico para misturar dor e prazer em partes iguais, contudo, foi sempre gentil para mim e é um diminuto raio de esperança que lhe envio esta noite. Ainda assim, é mais do que alguém alguma vez lhe ofereceu.

Os Senhores e as Senhoras demonstram inquietação. Habitualmente não demoro tanto para iniciar as minhas declarações. A agitação e o aborrecimento estão instalados, mas eu aguardo. Depois desta noite, não fará qualquer diferença.

Ali está o outro, no canto oposto da sala. Lucivar Yaslana, o mestiço eyrieno do Território denominado Askavi.

Hayll não tem qualquer afecto por Askavi, nem Askavi por Hayll, mas Daemon e Lucivar são atraídos um pelo outro, sem compreenderem a razão para tal, tão enredados estão nas vidas um do outro que não se podem separar. Amigos inquietos, combateram batalhas legendárias, destruíram tantas Cortes que os Sangue receiam juntá-los seja por que período de tempo for.

Levanto as mãos e deixo-as cair no meu regaço. Daemon observa-me. Nada mudou nele, mas sei que aguarda e ouve. E uma vez que ele está a ouvir, Lucivar também ouve.

— Ela está a chegar.

De início, não se apercebem que falei. Quando entendem as palavras, começam os murmúrios irritados.

— Cabra estúpida — alguém grita. — Diz-me quem irei amar esta noite.

— O que importa? — respondo. — Ela está a chegar. O Reino de Terreille será dilacerado pela sua própria e estúpida ganância. Aqueles que sobreviverem irão tornar-se servos, mas serão poucos os que sobreviverão.

Estou a afastar-me dos limites. Pela minha face caem lágrimas de frustração. Ainda não. Doces Trevas, ainda não. Tenho de o dizer.

Daemon ajoelha-se a meu lado, as suas mão sobre as minhas. Dirijo-me a ele e só a ele e, através dele, a Lucivar.

— Os Sangue de Terreille devassam os hábitos ancestrais, zombando de tudo o que nós somos. — Com um aceno de mão, indico aqueles que reinam actualmente — Distorcem os factos como lhes convém. Vestem-se elegantemente e fingem. Ornamentam-se com Jóias de Sangue mas não compreendem o significado de ser Sangue. Dizem que honram as Trevas, mas não é verdade. Não honram o que quer que seja, a não ser as suas próprias ambições. Os Sangue foram criados para serem os Protectores dos Reinos. Por isso foi-nos concedido o nosso poder. Por isso descendemos, ainda que nos encontremos separados, dos povos de todos os Territórios. A corrupção da nossa essência não pode continuar. Está a chegar o dia em que a dívida irá ser cobrada e os Sangue terão de responder por aquilo em que se tornaram.

— São estes os Sangue que reinam, Tersa — diz Daemon, tristemente.

— Quem resta para cobrar esta dívida? Escravos bastardos como eu?

Estou a afastar-me rapidamente. As minhas unhas cravam-se nas suas mãos, até fazer sangue, mas não as retira. Baixo a voz. Esforça-se por me ouvir. — Durante muito, muito tempo as Trevas têm tido um Príncipe. Agora, a Rainha está a caminho. Pode levar décadas, até séculos, mas está a caminho. Com o queixo, indico os Senhores e as Senhoras sentados às mesas. — Nessa altura, serão pó, mas tu e o eyrieno estarão cá para a servir.

Os seus olhos dourados enchem-se de frustração. — Qual Rainha? Quem está a caminho?

— O mito vivo — murmuro. — Os sonhos tornados realidade. O choque é substituído por um desejo intenso. — Tens a certeza?

A sala é um turbilhão de névoa. Só Daemon se mantém definido com nitidez. Mas ele é a única coisa de que preciso. — Eu vi-a na teia entrelaçada, Daemon. Eu vi-a.

Estou demasiado cansada para me manter no mundo real, mas, obstinadamente, continuo a agarrar as suas mãos para uma última revelação

— O eyrieno, Daemon.

Olha de relance para Lucivar. — O que é que tem?

— É teu irmão. Os dois são filhos do teu pai.

Não conseguindo aguentar mais, mergulho na loucura apelidada de Reino Distorcido. Vou caindo por entre os fragmentos de mim mesma. O mundo rodopia e desfaz-se em estilhaços. Nos seus fragmentos, vislumbro aquelas que foram minhas Irmãs precipitando-se das mesas, aterrorizadas e decididas, e a mão do Daemon estendida, fortuitamente, destruindo o frágil fio de seda de aranha da minha teia entrelaçada.

Não é possível reconstruir uma teia entrelaçada. As Viúvas Negras de Terreille podem passar ano atemorizado após ano atemorizado a tentar, mas será em vão. A teia não será a mesma e não conseguirão ver o que vi.

No mundo cinzento, lá em cima, posso ouvir-me a rir, como se uivasse. Lá muito abaixo, no abismo psíquico que faz parte das Trevas, oiço outro uivo, mas este é repleto de alegria e de dor, de raiva e de celebração.

Não é mais uma feiticeira que está a chegar, minhas tolas Irmãs, é a Feiticeira.

CAPÍTULO UM

1/Terreille

Lucivar Yaslana, o mestiço eyrieno, observava os guardas que arrastavam o homem em soluços para o barco. Não sentia qualquer compaixão pelo homem condenado que comandou a revolta fracassada de escravos. No Território denominado Pruul, a compaixão era um luxo a que nenhum escravo podia aspirar.

Tinha-se recusado a participar na revolta. Os cabecilhas eram bons homens, mas não possuíam a força, os alicerces ou a coragem para fazer o que era necessário. Não gostavam de ver derramamento de sangue.

Não tinha participado. Apesar disso, Zuultah, a Rainha de Pruul, tinha-o castigado.

As pesadas grilhetas à volta do pescoço e dos pulsos já tinham roçado a pele de tal forma que se encontrava em carne viva e as costas latejavam com a dor causada pelo chicote. Abriu as asas negras e com membranas, numa tentativa de atenuar a dor que sentia nas costas.

De imediato, um guarda espicaçou-o com uma clava, recuando logo de seguida, amedrontado pelo débil silvo de raiva emitido por Lucivar.

Contrariamente aos outros escravos, incapazes de ocultar a aflição ou o medo, os olhos dourados de Lucivar não demonstravam qualquer expressão, nenhuma pista psíquica de emoções com as quais os guardas poderiam jogar ao mesmo tempo que forçavam o homem em soluços a entrar no velho barco, com espaço somente para um homem. Não estando já em condições de navegar, o barco apresentava grandes buracos na madeira apodrecida, acrescentando valor ao seu propósito actual.

O homem condenado era pequeno e meio-esfomeado. Contudo, foram necessários seis guardas para o meter no barco. Cinco deles agarraram-lhe a cabeça, os braços e as pernas. O sexto guarda untou os órgãos genitais do homem com gordura de toucinho fumado antes de colocar uma tampa em madeira que encaixou perfeitamente sobre o barco. Apresentava orifícios talhados para a cabeça e para as mãos. Logo que as mãos do homem foram agrilhoadas a argolas de ferro na parte exterior do barco, a tampa foi fechada de forma a que ninguém, a não ser os guardas, a pudesse remover.

Um dos guardas escrutinou o homem aprisionado e abanou a cabeça, com uma falsa consternação. Dirigiu-se aos outros, dizendo: - Deveria ser-lhe servida uma última refeição antes de ser largado ao mar.
Os guardas riram. O homem gritou, suplicando por ajuda. Um a um, os guardas foram enfiando comida, zelosamente, na boca do homem, encaminhando depois os outros escravos, como um rebanho, para os estábulos onde estavam instalados.

— Hoje à noite irão ter diversão, rapazes — gritou um guarda, às gargalhadas. — Lembrem-se disso da próxima vez que decidirem deixar de servir a Senhora Zuultah.

Lucivar olhou por cima do ombro para, logo de seguida, desviar o olhar.

Atraídas pelo cheiro da comida, as ratazanas enfiaram-se pêlos buracos abertos no barco.

O homem no barco gritou.

As nuvens deslocavam-se rapidamente sobre a lua, mantos cinzentos que ocultavam o luar. O homem no barco não se moveu. Os seus joelhos eram feridas abertas, ensanguentados devido ao pontapear contínuo na cobertura do barco, num esforço para manter as ratazanas à distância. As suas


cordas vocais ficaram destruídas de tanto gritar.

Lucivar ajoelhou-se atrás do barco, com movimentos cuidadosos para abafar o som das correntes.

— Não lhes revelei nada, Yasi - disse o homem, com a voz rouca. — Tentaram obrigar-me a falar, mas eu não o fiz. Restava-me essa honra.

Lucivar levou uma taça aos lábios do homem. — Bebe — disse, a sua voz não mais do que um murmúrio, misturando-se na noite.

— Não — gemeu o homem. — Não. Começou a chorar, um som seco e gutural arrancado à sua garanta arruinada.

— Não fales agora. Não fales. É para ajudar. — Apoiando a cabeça do homem, Lucivar levou a taça aos lábios inchados. Após o homem ter bebido dois goles, Lucivar pousou a taça e afagou-lhe a cabeça suavemente com as pontas dos dedos. — É para ajudar. — Trauteou.

— Sou um Senhor da Guerra dos Sangue — Lucivar ofereceu-lhe novamente a taça e o homem bebeu mais um gole. À medida que a sua voz se tornava mais forte, as palavras começaram a perder clareza. — Tu és um Príncipe dos Senhores da Guerra. Porque nos fazem isto, Yasi?

— Porque neles não existe qualquer honra. Porque neles não existe qualquer lembrança do que é ser Sangue. A influência da Sacerdotisa Suprema de Hayll é uma praga que se tem vindo a espalhar pelo Reino durante séculos, consumindo lentamente todos os Territórios que toca.

— Então, talvez os plebeus tenham razão. Talvez os Sangue representem o mal.

Lucivar continuou a afagar a testa e as têmporas do homem. — Não. Somos o que somos. Nem mais, nem menos. O bem e o mal existem em todos os povos. Actualmente, quem domina é o mal que existe entre nós.

— E onde estão os bons entre nós? — perguntou o homem, com sonolência.

Lucivar beijou o homem na cabeça. — Foram destruídos ou escravizados. Ofereceu a taça. — Bebe até ao fim, Irmãozinho e tudo terá terminado.

Logo que o homem bebeu o último gole, Lucivar usou a Arte para fazer desaparecer a taça.

O homem no barco riu-se. — Sinto-me bastante corajoso. Yasi.

— Tu és muito corajoso.

— As ratazanas... Já não tenho tomates.

— Eu sei.

— Chorei, Yasi. Perante todos eles, chorei.

— Não importa.

— Sou um Senhor da Guerra. Não deveria ter chorado.

— Não lhes revelaste nada. Encontraste coragem na altura em que foi necessária.

— De qualquer maneira, Zuultah matou os outros.

— Irá pagar por isso, Irmãozinho. Um dia, ela e os outros como ela, irão pagar por tudo. — Lucivar massajou suavemente o pescoço do homem.

— Yasi. Eu...

Foi um movimento repentino, acompanhado de um som agudo.

Lucivar recostou cuidadosamente a cabeça desfalecida, pondo-se em pé lentamente. Poderia ter-lhes dito que o plano não iria resultar, que o Anel de Obediência poderia ser ajustado o suficiente para detectar um chamamento interior de força e resolução, alertando o seu possuidor. Poderia ter-lhes dito que as gavinhas perniciosas que os mantêm escravizados já se alastraram a territórios demasiado longínquos e que, para os libertar, seria necessária uma selvajaria mais apurada do que aquela de que o homem é capaz. Poderia ter-lhes dito que, para manter um homem obediente, existem armas mais cruéis do que o Anel, que a sua preocupação uns com os outros seria a sua destruição, que a única forma de escapar, mesmo que por pouco tempo, é não se preocupar com ninguém, é estar sozinho.

Poderia ter-lhes dito.

Todavia, quando se aproximaram, timidamente, cautelosamente, sôfregos por questionar um homem que se tinha libertado uma e outra vez ao longo dos séculos, mas que continuava escravizado, tudo o que disse foi:

— Sacrifiquem tudo. — Foram-se embora, desapontados, incapazes de compreender que o que disse foi sentido. Sacrifiquem tudo. Mas existia algo que não queria - não podia - sacrificar.

Quantas foram as vezes, após se ter rendido e ter sido novamente aprisionado por aquele implacável anel de ouro à volta do seu órgão, que Daemon o tinha encontrado e encostado a uma parede, irado, chamando-lhe louco e cobarde por se ter entregue?

Mentiroso. Mentiroso melífluo e experiente nos assuntos da corte.

Em tempos, Dorothea SaDiablo procurou Daemon Sadi desesperadamente após o seu desaparecimento de uma corte sem deixar rasto. Para o encontrar foram necessários cem anos, tendo perecido dois mil Senhores da Guerra ao tentar recapturá-lo. Poderia ter usado aquele pequeno e sel-


vagem Território que tinha ocupado e conquistar metade do Reino de Terreille, poderia ter-se tornado uma ameaça tangível à usurpação e à absorção que Hayll provocava em todos os que tocava. Ao invés, leu uma carta enviada por Dorothea, que lhe chegou pelas mãos de um mensageiro. Leu-a e entregou-se.

A carta dizia apenas: "Entrega-te até à lua nova. Cada dia que passar para além disso, arrancarei um pedaço do corpo do teu irmão como pagamento pela tua arrogância."

Lucivar sacudiu-se, tentando expulsar os pensamentos indesejáveis. De certa forma, as memórias revelavam-se piores do que o chicote, visto conduzirem a pensamentos de Askavi, com as montanhas altaneiras a cortar o céu e os vales repletos de burgos, quintas e florestas. No entanto, Askavi já não era tão fértil como fora pois tinha sido devassado durante demasiados séculos por aqueles que tiraram mas que nunca retribuíram com o que quer que fosse. Ainda assim, era a sua terra, e os séculos de exílio em escravidão provocavam em si um desejo ardente pelo cheiro do ar puro da montanha, pelo sabor de um riacho fresco e doce, pelo silêncio dos bosques e, acima de tudo, peias montanáas soórevoacàs peà raça eyrièna.

No entanto, encontrava-se em Pruul, esta terra árida, quente, deserta e estéril, ao serviço dessa cabra Zuultah, por não conseguir ocultar a aversão que sentia por Prythian, a Sacerdotisa Suprema de Askavi, por não conseguir dominar o suficiente o seu temperamento para servir feiticeiras que desprezava.

Entre os Sangue, os machos deveriam servir e não dominar, "jamais tinha desafiado essa ordem, apesar de ter morto várias feiticeiras ao longo dos séculos. Tinha-o feito pois seria um insulto servi-las, ele era um Príncipe Eyrieno dos Senhores da Guerra que usava Jóias Ébano Acinzentadas e que se recusava a acreditar que servir e ser servil eram sinónimos. Sendo um bastardo mestiço, não acalentava qualquer esperança de atingir uma posição de autoridade numa corte, apesar da categoria das suas Jóias. Sendo um guerreiro eyrieno experiente e possuidor de um temperamento explosivo mesmo para um Príncipe dos Senhores da Guerra, tinha ainda menos esperanças de que lhe fosse permitido viver fora das correntes sociais de uma corte.

E fora capturado da mesma forma que todos os machos dos Sangue são capturados. Havia algo no seu interior que os fazia ansiar ardentemente por servir, que os impelia a interligarem-se, de alguma forma, a uma fêmea de Jóias dos Sangue.

Lucivar contraiu o ombro e inspirou através dos dentes no preciso momento em que uma ferida infligida pelo chicote voltou a abrir-se. Ao tocar cautelosamente na ferida, a sua mão ficou encharcada em sangue fresco.

Sorriu amargamente, revelando os dentes. Como é aquele velho ditado?


Um desejo oferecido com sangue, é uma prece às Trevas.

Fechou os olhos, ergueu a mão em direcção ao negro do céu e iniciou a interiorização, descendo ao abismo psíquico na profundidade das suas Jóias Ébano Acinzentadas para que o desejo se mantivesse secreto, para que ninguém na corte de Zuultah pudesse ouvir a transmissão do seu pensamento.



Por uma vez que fosse, gostaria de servir uma Rainha que pudesse respeitar, alguém em quem realmente pudesse acreditar. Uma rainha poderosa que não temesse a minha força. Uma Rainha a quem pudesse também chamar amiga.

Friamente divertido pela sua própria tolice, Lucivar limpou a mão às calças folgadas de algodão e suspirou. Infelizmente a declaração de Tersa, enunciada há setecentos anos atrás, não tinha passado de uma mera e louca ilusão. Por algum tempo, foi a sua fonte de esperança. Demorou muito até perceber que a esperança é amarga.

“01á! “

Lucivar olhou em direcção aos estábulos onde os escravos estavam alojados. Em breve, os guardas efectuariam a ronda nocturna. Desfrutaria da aragem nocturna durante mais um minuto, mesmo que pairasse no ar um cheiro quente e poeirento, antes de regressar à cela imunda com a cama feita de palha, suja e infestada de bichos, antes de regressar ao fedor a medo, a corpos sujos e a dejectos humanos.



“01á! “

Lucivar voltou-se lentamente, desenhando um círculo, os sentidos físicos vigilantes, a mente a investigar a origem daquele pensamento. A comunicação psíquica podia ser difundida a todos numa determinada área — como gritar num quarto cheio de gente — ou restringida a uma única categoria de Jóias ou restringida, ainda mais, a uma única mente. Aquele pensamento parecia dirigido directamente a si.

Não existia nada ali para além do que seria de esperar. O que quer que fosse, tinha desaparecido.

Lucivar abanou a cabeça. Estava a tornar-se tão assustadiço como os plebeus, aqueles que não pertencem aos Sangue de cada raça, com as suas superstições sobre o mal que surge furtivamente na noite.

— Olá!

Lucivar rodou sobre si próprio, as asas negras abertas para manter o equilíbrio, colocando os pés numa posição de combate.



Sentiu-se ridículo ao ver a menina que o olhava espantada, com os olhos esbugalhados.

Não passava de uma magricela, com cerca de sete anos. Descrevê-la como comum seria considerado amabilidade. Contudo, mesmo ao luar, possuía uns olhos extraordinários. Traziam-lhe à memória o céu ao crepúsculo ou um lago profundo da montanha. As roupas eram de boa qualidade, certamente melhores do que as usadas por uma criança pedinte. O cabelo louro estava penteado em canudos indicativos de carinho e cuidado, mesmo que parecessem ridículos a ladear a sua pequena face pontiaguda.

— O que estás aqui a fazer? — perguntou abruptamente. Entrelaçou os dedos e encolheu os ombros. — Eu... Eu ouvi-te. P... Pediste um amigo.

Ouviste-me7. - Lucivar olhou-a fixamente. Como é que, pelo Inferno, ela o tinha ouvido? De facto, tinha enviado o desejo para o exterior, mas por um fio Ébano Acinzentado. Era o único Ébano-Acinzentado no Reino de Terreille. A única Jóia mais escura que a sua era a Negra e a única pessoa que usava essa Jóia era Daemon Sadi. A não ser...

Não. Aquela menina não podia ser.

Nesse preciso momento, os olhos da menina saltaram de Lucivar para o homem morto no barco e de volta para ele.

— Tenho de ir — murmurou, afastando-se.

— Não, não tens. — Dirigiu-se a ela, deslocando-se com destreza, como um caçador a perseguir a sua presa.

A menina esquivou-se.

Em segundos, tinha-a apanhado, indiferente ao barulho das correntes. Enrolando uma corrente à volta dela, envolveu-lhe a cintura com um braço e levantou-a do chão, soltando um gemido quando ela lhe bateu com o calcanhar no joelho. Ignorou as tentativas para o arranhar e os pontapés,


embora o magoassem, não constituíam motivo para o deter como poderia acontecer com o tipo de pontapé dado no sítio certo. Quando começou a gritar, tapou-lhe a boca com uma mão.

De imediato, cravou os dentes no dedo de Lucivar.

Lucivar engoliu um grito e praguejou baixinho. Caiu de joelhos, levando a menina com ele. — Não faças barulho — murmurou furiosamente. — Queres que os guardas nos apanhem? — Provavelmente era o que ela queria e Lucivar esperava que a menina lutasse ainda com mais alento, sabendo que a ajuda estava por perto.

Ao invés, ficou petrificada.

Lucivar encostou a sua face à cabeça da menina e inspirou. — És uma gatinha assanhada — afirmou com serenidade, lutando para manter o riso afastado da sua voz.

— Por que é que o mataste?

Seria da sua imaginação ou a voz dela tinha-se alterado? Continuava a parecer a voz de uma rapariguinha, mas nessa voz estavam presentes trovões, cavernas e os céus da meia-noite.

— Estava em sofrimento.

— Não o podias ter levado a uma Curandeira?

— As Curandeiras não se interessam pêlos escravos — soltou com brusquidão. — Além do mais, as ratazanas pouco deixaram para curar. — Encostou-a com mais força ao seu peito, na esperança de que ao aquecê-la com o seu corpo, ela parasse de tremer. Parecia tão pálida em contraste com a pele castanho-clara de Lucivar e ele sabia que não era simplesmente por ela ter a pele clara. — Desculpa. Fui cruel.

Quando a menina começou a lutar contra o seu abraço, levantou os braços para que pudesse deslizar sob a corrente entre os seus pulsos. Correu atabalhoadamente para longe do alcance de Lucivar, girou sobre si própria e caiu de joelhos.

Analisaram-se mutuamente.

— Como te chamas? — perguntou finalmente.

— Chamo-me Yasi. — Riu-se ao vê-la torcer o nariz. — Não me atires as culpas. Não foi escolhido por mim.

— É uma palavra ridícula para alguém como tu. Qual é o teu nome verdadeiro?

Lucivar hesitou. Os eyrienos eram umas das raças de longevidade prolongada. Ao longo de 1.700 anos, tinha adquirido a reputação de ser inexorável e violento. Se ela tivesse ouvido alguma das histórias sobre ele...

Respirou fundo e deixou sair lentamente:

— Lucivar Yaslana.

Não houve qualquer reacção, exceptuando um sorriso tímido de aprovação.

— Como te chamas. Gata?

— Jaenelle.

Esboçou um largo sorriso. — É um nome bonito, mas acho que Gata também te fica bem.

Emitiu um som animalesco.

— Vês? — Hesitou, mas tinha de perguntar. A diferença entre Zuultah supor que Lucivar tinha morto aquele escravo e a certeza absoluta seria determinante quando estivesse esticado entre os postes onde seria vergastado.

— A tua família está de visita à Senhora Zuultah?

Jaenelle franziu as sobrancelhas. — Quem?

De facto, parecia uma gatinha a tentar calcular a forma de atacar um bicho grande e saltitante. — Zuultah. A Rainha de Pruul.

— O que é Pruul?

— Aqui é Pruul — Lucivar acenou com a mão, indicando a terra à volta deles, praguejando em eyrieno quando as correntes chocalharam. Engoliu a última obscenidade ao reparar no olhar intenso e interessado de Jaenelle.

— Visto que não és de Pruul e que a tua família não está de visita, donde és?

— Ao vê-la hesitar, inclinou a cabeça em direcção ao barco. — Sei guardar um segredo.

— Sou de Chaillot

— Chai... — Lucivar engoliu outra obscenidade. — Compreendes eyrieno?

— Não — Jaenelle sorriu ironicamente. — Mas agora já sei algumas palavras em eyrieno.

Deveria rir ou estrangulá-la? — Como chegaste aqui?
Afofou o cabelo e franziu os olhos ao contemplar o chão rochoso entre eles. Por fim, encolheu os ombros. — Da mesma forma que me desloco para outros lugares.

— Viajas pêlos Ventos? — guinchou. Jaenelle ergueu um dedo para testar o ar.

— Não me refiro a brisas ou a lufadas de ar. — Lucivar rangeu os dentes.

— Os Ventos. As Teias. Os caminhos psíquicos das Trevas. Jaenelle animou-se. — Então é isso que se chamam? Conseguiu deter-se a meio de uma obscenidade. Jaenelle inclinou-se para a frente. — És sempre assim tão cretino?

— A maior parte das pessoas considera-me cretino, é verdade.

— O que é que isso quer dizer?

— Não importa. — Escolheu uma pedra afiada e desenhou um círculo no chão entre eles. — Este é o Reino de Terreille — Colocou uma pedra redonda no círculo. — Esta é a Montanha Negra, Ebon Askavi, onde os Ventos se juntam. — Desenhou linhas rectas da pedra redonda até à circunferência do círculo. — Estas são as linhas de orientação. — Desenhou círculos mais pequenos dentro do círculo. — Estas são as radiais. Os Ventos são como uma teia de aranha. É possível viajar nas linhas de orientação ou nas radiais, mudando de direcção onde as mesmas se cruzam. Existe uma Teia para cada categoria das Jóias de Sangue. Quanto mais escura for a Teia, maior a quantidade de linhas de orientação e radiais e mais rápido é o Vento. Podes viajar numa Teia que seja da tua categoria ou numa mais clara. Não podes viajar numa Teia mais escura do que a tua categoria de Jóia, a menos que estejas a viajar numa Carruagem conduzida por alguém suficientemente forte para se deslocar nessa Teia ou que estejas a ser protegida por alguém que possa deslocar-se nessa Teia. Caso tentes fazê-lo, podes não sobreviver. Percebido?

Jaenelle mordiscou o lábio inferior e apontou para um espaço entre os filamentos. — E se quiseres ir ali?

Lucivar abanou a cabeça. — No ponto que se encontrasse mais próximo, terias de abandonar a Teia de volta ao Reino e viajar de qualquer outra forma.

— Não foi assim que aqui cheguei — protestou.

Lucivar estremeceu. Não existia um único filamento fosse de que Teia fosse ao redor do complexo de Zuultah. A sua corte estava instalada deliberadamente num desses espaços em branco. Para aqui chegar directamente pêlos Ventos, a única forma é abandonar a Teia e deslizar às cegas pelas Trevas, o que, até para os melhores e mais fortes, era algo muito arriscado. A não ser...

— Chega aqui, Gata — disse delicadamente. Quando ela se deixou cair à sua frente, colocou-lhe as mãos nos finos ombros. — Costumas vaguear com frequência?

Jaenelle assentiu, baixando e levantando a cabeça lentamente. — As pessoas chamam-me. Tal como o fizeste.

Tal como ele o fez. Mãe Noite! — Gata, ouve. As crianças são vulneráveis a muitos perigos.

Havia uma expressão estranha nos seus olhos. — Sim, eu sei.

— Por vezes, um inimigo pode usar a máscara de um amigo até ser demasiado tarde para escapar.

— Sim — sussurrou.

Lucivar abanou-a gentilmente, forçando-a a olhar para ele. — Terreille é um local perigoso para gatinhas. Por favor, volta para casa e não voltes a vaguear. Não... não respondas àqueles que te chamam.

— Mas, assim sendo, não te voltarei a ver.

Lucivar fechou os olhos dourados. Uma faca cravada no coração não seria tão dolorosa. — Eu sei. Mas seremos sempre amigos. E não será para sempre. Quando cresceres, irei procurar-te ou tu irás procurar-me.

Jaenelle mordiscou o lábio. — Com que idade é que se é crescido?

Ontem. Amanhã. — Digamos, dezassete. Parece uma eternidade, bem sei, mas não é assim tanto tempo. — Nem Sadi inventaria uma mentira melhor do que esta. — Prometes não vaguear?

Jaenelle suspirou. — Prometo não vaguear em Terreille.

Lucivar ajudou-a a levantar-se e virou-a. — Há algo que te quero ensinar antes de partires. Dará um bom resultado se um homem tentar alguma vez agarrar-te por trás.

Após terem repetido a demonstração as vezes que Lucivar entendeu como suficientes para que Jaenelle soubesse o que fazer, beijou-a na testa e afastou-se. — Vai-te embora daqui. A qualquer momento, os guardas devem passar ronda. E lembra-te - uma Rainha nunca quebra a promessa que fez a um Príncipe dos Senhores da Guerra.

— Lembrar-me-ei. — Hesitou. — Lucivar? Estarei diferente quando crescer. Como me reconhecerás?

Lucivar sorriu. Dez anos ou até cem, não faria qualquer diferença. Iria sempre reconhecer aqueles extraordinários olhos cor de safira — Eu saberei. Adeus, Gata. Que as Trevas te envolvam.

Jaenelle sorriu e desapareceu.

Lucivar fitou o espaço vazio. Teria sido uma tolice o que lhe havia dito? Provavelmente.

O barulho de um portão despertou-lhe a atenção. Rapidamente apagou o desenho dos Ventos e deslizou de sombra em sombra até alcançar os estábulos. Atravessou a parede exterior e instalou-se na sua cela no momento em que o guarda abriu o postigo com barras da porta.

Zuultah era suficientemente arrogante para acreditar que os seus feitiços dominadores impediam os escravos de fazer uso da Arte para atravessar as paredes das celas. Era desconfortável atravessar uma parede enfeitiçada mas, para Lucivar, não era impossível.

Deixai a cabra ficar perplexa. Quando os guardas encontrassem o escravo no barco, haveria de suspeitar que Lucivar lhe tinha partido o pescoço. Desconfiava dele sempre que algo de errado acontecia na sua corte – e tinha boas razões para tal.

Talvez oferecesse alguma resistência quando os guardas o tentassem amarrar aos postes. Uma zaragata mantê-la-ia distraída e as emoções violentas cobririam o rasto psíquico que ainda perdurasse da menina.

Ah, sim, conseguiria manter a Senhora Zuultah tão entretida que nunca se iria aperceber de que a Feiticeira já caminhava no Reino.




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