Antes de mais queria agradecer a possibilidade que me foi acordada de me dirigir a esta plateia



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Serhii Wakúlenko

Universidade Nacional de Kharkiv

(Ucrânia)


Forma interna: um conceito interdisciplinar
Agradecendo a possibilidade que me foi dada de me dirigir a este público, queria comunicar algumas reflexões de outsider no quadro deste seminário organizado na Faculdade de Ciências de Lisboa pelo Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa.
É, designadamente, este nome – Faculdade de Ciências – mantido em Portugal, que me faz sentir como um outsider. Ele simboliza uma distinção tradicional e antiga entre as disciplinas que se ocupam do “macrocosmo”, isto é, da realidade material, preexistente à investigação e dita objectiva, e as disciplinas que se ocupam  de uma realidade imaterial e subjectiva e que, em larga medida, constroem o próprio objecto ao objectivar o conteúdo do “microcosmo”, isto é, da consciência humana, na forma de mais um “cosmo”, o assim chamado cosmo simbólico que é uma obra humana (objecto) material, posterior à reflexão enquanto tal. Sem ter acesso directo ao conteúdo dos microcosmos alheios, os adeptos destas disciplinas têm que se servir das manifestações exteriores, produtos destes microcosmos em forma de símbolos – e símbolos linearmente dispostos – para construir sistemas simbólicos não-lineares, pensados como reflexos de sistemas conceptuais que são partes do conteúdo “microcósmico”. Estes símbolos são vulgarmente conhecidos como “letras”, estando inevitavelmente a investigação intimamente ligada à escrita. Na classificação tradicional de várias disciplinas de estudo, as Letras contrapõem-se às Ciências. Na Universidade de Lisboa, esta oposição é tangível até fisicamente, pela distância que separa as Faculdades de Letras e de Ciências, inclusive no espaço.
Sendo eu das Letras (ou, se usarmos um termo mais largo, “símbolos”), o meu método de investigação pode ser qualificado – esperadamente – como “simbólico”. Atento ao uso dos símbolos, procurando descobrir nele o sistema conceptual subjacente que pertence ao “microcosmo” dos utilizadores de símbolos, para depois encontrar as regularidades comuns que governam os respectivos processos de simbolização, por um lado, linguísticos, por outro lado, psíquicos). Na minha opinião, faz parte intrínseca destas regularidades a migração de certos símbolos, e ao mesmo tempo dos correspondentes conceitos, de uma área do saber para outra. Para esta conferência escolhi um assunto ligado às migrações interdisciplinares de um conceito assaz antigo – há quem diga que é uma parte integral do pensamento ocidental desde a Antiguidade Clássica (o que equivale, para todos os fins práticos, a desde sempre) – mas que continua a ser utilizado nos ramos científicos mais modernos, o conceito de “forma interna”.
Também por esta minha escolha, creio ter razões para me sentir um outsider, desta vez na minha qualidade de estrangeiro, e sobretudo de representante de uma tradição filológica estrangeira que apresenta algumas particularidades em comparação com o padrão ocidental. Nomeadamente, na minha pátria, a Ucrânia, os estudantes de Letras – pelo menos aqueles que não negligenciaram os seus estudos – sabem o que é a forma interna. Foi um verdadeiro choque para mim descobrir, nas minhas primeiras viagens para o estrangeiro, que a grande maioria até dos meus colegas linguistas desconheciam-no completamente. Ao tentar explicar que a “forma interna” não é uma invenção nossa, que tinha sido o grande linguista alemão Guilherme de Humboldt a introduzi-la no uso científico, ouvia tipicamente a resposta: “Pois sim, Humboldt foi um grande, mas quem o lerá hoje?” Portanto, a minha tarefa complica-se um pouco pela necessidade de atestar, além das migrações explícitas do conceito de forma interna, a sua presença implícita em certos desenvolvimentos teóricos que têm acontecido na idade moderna.
Finalmente, para acabar com esta parte introdutiva, tenho de confessar um pecado: sou um ignorante – praticamente completo – no âmbito da maioria das ciências que vou mencionar. Quiçá se trata do vício original de todo estudo interdisciplinar: quanto mais interdisciplinar é, tanto mais modesta – inevitavelmente – será a competência do investigador em cada uma das disciplinas. Por isso limitar-me-ei, muitas vezes, a citar opiniões alheias sem dar qualquer avaliação do valor de verdade das mesmas. Também confesso que o meu método de trabalho dista longe dos padrões clássicos da filologia: a maior parte do material foi encontrada graças a uma pesquisa mais ou menos mecânica na Internet. Esta abordagem, além das claras vantagens que representa no que diz respeito ao alcance e à velocidade da busca, tem um defeito capital: o que se pode obter deste maneira são tipicamente fragmentos de texto isolados e um tanto enigmáticos, dado que o seu lugar na economia global do pensamento de tal ou tal autor fica – geralmente – para adivinhar. Por outro lado, não consigo imaginar um modo alternativo de fazer uma pesquisa deste tipo; um investigador que utilizasse os meios tradicionais, levaria anos, se não decénios, só a localizar as citas que contêm o termo em questão nos textos pertencentes a várias disciplinas.
Para a pesquisa, usei o motor de busca Google, indicando a expressão “forma interna” enquanto palavra-chave e restringindo o campo às páginas escritas em português. O número total de resultados atingiu 500, com uma proporção de aproximadamente 1 a 10 entre as fontes portuguesas e brasileiras. A título indicativo posso dizer que sem esta restrição linguístico, isto é, alargando o campo a outras línguas românicas, o número de resultados supera 15,000, ao passo que a expressão inglesa “internal form” dá quase 49,000 resultados, aos quais se podem juntar mais quase 10, 000 para a expressão “inner form” e 750 para a “inward form”.

Entre os 500 resultados em português, uma parte considerável refere à expressão “de forma interna” no emprego adverbial, como sinónimo de internamente. Removidos estes, sobram as formas gramáticas nominais, entre os quais se podem seleccionar numerosos exemplos de natureza claramente terminológica, pertencentes a campos diversos.


Para começar, pela referir-me-ei a uma ciência moderníssima – a Informática. Não é (só) um gesto de gratidão ao ramo de pesquisa que tornou possível, entre inúmeras outras coisas, também o meu modesto estudo. Averiguou-se que, pelo menos em português, a pluralidade de usos terminológicos da expressão “forma interna” provém exactamente deste lado. Vejamos alguns exemplos mais esclarecedores.


  1. José António dos Reis Tavares (Universidade do Minho)

Geração de Configurações de Sistemas Industriais com o Recurso à Tecnologia das Restrições e Computação Evolucionária

[…] a restrição distância […] refere-se à medida de distância relativamente à periferia. Além disso, o código de cada uma destas restrições, na sua forma interna, corresponde à colocação do respectivo conjunto de restrições básicas […] 1


2. O sistema de tipos de dado do PostgreSQL

abstract data type (ADT) — Um tipo de abstração de dado onde a forma interna do tipo fica escondida atrás de um conjunto de funções de acesso.2
The PostgreSQL Global Development Group

Manual de Referência do PostgreSQL 7.2

função_de_entrada

O nome da função criada pelo comando create function que converte os dados da forma externa para a forma interna do tipo.



função_de_saída

O nome da função criada pelo comando create function que converte os dados da forma interna numa forma adequada para ser exibida.3


3. Sistema Transformacional Draco-PUC

O parser do domínio do programa fonte é utilizado pela Máquina Draco-PUC para converter o programa na forma interna utilizada pela máquina (DAST – Draco Abstract Syntax Tree).4


Com base nos exemplos 1-3 já se podem estabelecer umas características do uso da noção de “forma interna” na informática: opõe-se à forma externa enquanto adequada a ser utilizada dentro de um certo programa, exige um processo de conversão, corresponde à um princípio organizador no âmbito do programa que a utiliza, é encoberta e não susceptível de ser exibida.

O exemplo 4 descreve com mais pormenores o processo de geração das formas internas utilizadas pelo computador:


4. Text::Query - Estrutura para Processamento de Consultas.

Expressões de consulta são compiladas em uma forma interna quando um novo objeto é criado ou o método 'prepare' é chamado; elas não são recompiladas a cada busca.

A classe providenciada por este módulo usa quatro pacotes para processar a consulta. O analisador de consulta analisa a questão e chama o construtor de expressões de consulta (forma interna da questão). O otimizador é então chamado para reduzir a complexidade da expressão. 5
O mesmo assunto é tratado no exemplo 5 que concretiza a estrutura possível de uma forma interna.
5. Ana Paula Appel (Universidade de São Paulo)

Uma linguagem visual de consulta a banco de dados

utilizando o paradigma de fluxo de dados

A primeira ação que tem de executar ao responder uma consulta é traduzir a consulta para sua forma interna, que para sistemas de banco de dados relacionais é baseada na álgebra relacional. No processo de geração da forma interna da consulta o analisador sintético verifica a sintaxe da consulta do usuário e verifica se os nomes das relações que aparecem na consulta são nomes de relações no banco de dados. Uma representação da consulta em uma árvore sintática é gerada, e então traduzida para uma expressão algébrica relacional.6


A mesma forma externa (ou forma exibida) pode ter várias formas internas subjacentes, mais ou menos eficazes do ponto de vista funcional (exemplo 6).

6. Glossário e Dicas

Uma página A-4 gerada de um editor de textos de microcomputador ocupa aproximadamente 3KB. Essa mesma página impressa e depois captada por um escaner ocupará, no mínimo, dez vezes mais área de armazenamento, devido à forma interna de representação da informação.7
Finalmente, no fragmento 7 vemos uma aproximação – a melhor que me foi dado descobrir – ao que se poderia considerar como uma definição da noção de forma interna no caso de uma dada linguagem de programação. Este trecho contém igualmente um exemplo concreto de conversão de uma função para a forma interna utilizada na linguagem em causa.
7. Artur Miguel Dias (Universidade Nova de Lisboa)

Linguagens de Programação I (2004/2005): Sumários comentados das aulas teóricas

Representação interna das funções em OCaml

Por uma questão de regularidade de implementação, o OCaml só usa internamente funções anónimas com um único argumento. Uma função escrita com múltiplos argumentos acaba sempre convertida para um formato interno especialchamado forma interna – envolvendo apenas funções anónimas com um único argumento.


Por exemplo, a função

let cAdd x y = x+y ;; é internamente convertida em:

let cAdd = fun x -> (fun y -> x+y) ;;

Repare como é engenhosa a ideia que está por detrás do esquema de tradução. Trata-se duma ideia matematicamente correcta que, ao mesmo tempo, está na base da implementação simples e regular do OCaml.8


Os excertos referentes à informática patenteiam duas acepções do termo “forma interna”: por um lado, trata-se simplesmente do “escondido”, do “invisível”, do que se passa no interior da máquina ou do programa; por outro lado, estão no jogo diferenças de cariz estrutural que permitem à forma interna, considerada como aquela que é mais “primordial”, de ser portadora da forma externa. Entre estas duas acepções, a segunda, naturalmente, é mais susceptível de consequências filosóficas de ordem ontológica e epistemológica.

A mesma situação reproduz-se nas outras disciplinas. A anatomia e um exemplo de ciência em que o termo “forma interna” é prevalentemente utilizado num sentido quanto mais literal:


8. Marcelo Vinicius

Taxionomia

[…] a Zoologia foi sendo desmembrada em áreas se interesse mais específico à medida que os biólogos foram se especializando em determinados aspectos do estudo de animais. Assim, surgiram subdivisões como a anatomia (que estuda a forma interna e externa), a fisiologia […], a embriologia […], a parasitologia […] 9


Claro está que certos órgãos, tal como o nariz, têm tanto uma forma externa como uma forma interna, e se num concurso Miss Universo é a primeira que conta, um médico será mais interessado na segunda, visto que as eventuais deformações podem obstruir a respiração e seriamente prejudicar a saúde. Porém, mesmo no âmbito desta disciplina materialista, concreta e espacial, há lugar para umas aberturas aos sentidos filosóficos da expressão “forma interna”. O fragmento 9 proporciona um bom exemplo de tal atitude:
9. Luiz Antonio Prantera Martin

Biocibernética Bucal

Óbvio que por referencial biológico, consideramos esse bio-lógico um processo integrado e integral do ser, em suas relações físicas, psíquicas e sociológicas, perante o meio físico e cultural a que ele está submetido, inserido e especificado, o que lhe confere um biotipo em função dessas relações, uma forma interna e externa de ser, em que todos somos deformados no sentido dessa forma própria de ser, seja ela física, comportamental, racional etc., até das relações dos dentes, que devem estar dentro de um limear de tolerância, daquilo que o padrão da espécie admite de deformação ou que o indivíduo possa suportar, embora ninguém precise ter forma perfeita para ter função perfeita, pois o indivíduo, sempre tem algo que o caracterize e o individualize perante o padrão básico da espécie.10

Nas citações 7 e 9, embora nada tenham a ver com a com a noção de beleza enquanto tal, está implícita uma avaliação estética subjectiva da forma analisada. De facto, é na área de estética que o conceito de forma interna encontrou – historicamente – o seu eldorado, desenvolvendo-se em vários sentidos e vulgarizando-se uso comum. O exemplo 10 reproduz um trecho proveniente de uma simples resenha de obras expostas numa galeria brasileira.
10. Wagner Malta traz ao MariAntonia uma escultura-instalação, feita em chapas de zinco e aço inox, com um interior em espuma. Wagner amplia ainda mais sua pesquisa com efeitos cromáticos no contexto da tridimensionalidade, nesse trabalho intitulado Tempo de dizer “um”, expressão que indica suas ligações com a literatura. O título foi extraído de uma fala de Hamlet 11 e a forma interna do trabalho, por sua vez, tem como referência A espuma dos dias, de Boris Vian.12
Na explicação proposta do sentido da obra plástica em questão é exprimida mais uma característica importante da forma interna: diversas formas externas (neste caso, uma literária, outra escultural) podem ter uma mesma forma interna subjacente. Mais do que isso, a transferência da forma interna do representado para a representação aparece como uma condicio sine qua non de toda arte. No fragmento 11 está relatada a teoria de Theodor Adorno, segundo a qual o modo de conhecimento próprio das obras de arte consiste numa reprodução não-idêntica, ou seja numa reinterpretação da forma interna dos conteúdos sociais de acordo com o princípio de negação determinada.
11. Luiz Hermenegildo Fabiano (Universidade Estadual de Maringá)

Adorno, arte e educação: negócio da arte como negação

Adorno busca na estética contemporânea a viabilidade de um resgate da percepção dos sentidos. O caráter de não-identidade e de não-imediaticidade da arte moderna é que Adorno vai diferenciar como traço de sobrevivência estética com relação aos fetiches totalitários inculcados pela indústria cultural.

O entendimento do qual se parte, tomando-se a acepção adorniana, é o de que a obra de arte não estabelece uma identificação imediata, mas de mediação com a realidade social que a produziu. Assim entendida, ela se corporifica na sua forma interna, de uma autonomia relativa com relação à realidade empírica sobre a qual se torna reflexão crítica e negação. É esse princípio de negação determinada, em que se condensam na obra de arte as antinomias e os antagonismos como antíteses da sociedade enquanto problema de sua forma interna, o elemento ao qual Adorno atribui dimensão epistemológica.

Se a vulgarização estética veiculada amplamente pela indústria cultural reflete a coerção do modelo econômico que nela se oculta, a estética, num sentido mais verdadeiro e conseqüente, tomado como uma categoria do conhecimento crítico da sociedade, não é apenas um conjunto axiomático de explicação do real. Em tais circunstâncias, ela se torna uma espécie de ultrapassagem dessa imposição histórica que, embora engendre sua forma interna deixando-lhe por herança as suas contradições, é por isso mesmo sua possibilidade de transformação.

Tal entendimento de que, na constituição estética de uma obra de arte, os conteúdos sociais são mediados, ao interpretar-se os seus elementos constitutivos, isto é, a sua forma interna, são os conteúdos históricos que se dizem.13
A mesma visão global do papel da forma interna está representada no fragmento 13, onde se trata da unidade da cultura Ocidental segundo o grande classicista do século XX, Werner Jaeger.
12. Olavo de Carvalho

OS mais excluídos dos excluídos:

O silêncio dos mortos como modelo dos vivos proibidos de falar

Tentando restaurar a comunicação com o passado da nossa cultura, ele [Jaeger] procurou fazer do ideal pedagógico dos gregos um modelo de valor permanente, subtraído aos desgastes do tempo. Mas isso exigia também, no seu entender, que ele fornecesse alguma prova da unidade da cultura Ocidental, e lhe pareceu que podia encontrá-la por intermédio da teoria aristotélica (mas também goetheana) da “forma interna”. O ideal do homem da filosofia de Platão seria, segundo Jaeger, a “forma interna” subjacente a todo o desenvolvimento histórico da nossa cultura. Eis um remédio que logo em seguida se revela mais perigoso do que a doença mesma. Aplicar às culturas o conceito de “forma interna” é dar-lhes uma unidade biológica, substancial, o que teria muito surpreendido ao próprio Aristóteles […] 14


O interesse, neste ponto, consiste no que foram mencionadas duas fontes concretas da teoria da forma interna, tratada como uma característica historicamente crucial do pensamento europeu. Cronologicamente, a prioridade deveria sem dúvida ser atribuída a Aristóteles, se não fosse pelo facto de faltar, nos seus escritos, a expressão literal forma interna. Alguns autores modernos, ao falarem neste assunto, tendem a colocar um sinal de igualdade entre a forma interna e o conceito especificamente aristotélico de entelequia.15 Ora, todos os autores antigos afirmam unânimes que o termo entelequia foi inventado pelo próprio Aristóteles. Quanto ao seu sentido preciso, existe uma pluralidade de interpretações. Uma das melhores, do ponto de vista filológico, saiu da pena de Pedro da Fonseca, o mais importante filósofo português do século XVI. Nos Comentários à Metafísica de Aristóteles, Fonseca, depois de ter analisado as explicações de Cícero, Simplício, Temístio, Hermolau Bárbaro, Alberto Magno e o cardeal Caetano, chega a conclusão:
13. Pedro da Fonseca

Commentarii … in Libros Metaphysicorum Aristotelis Stagiritæ

Há-de se afirmar … que Arisóteles não designou com o nome ἐντελέχεια, senão uma perfeição contraída (ἀπὸ τοῦ τὸ ἐντελὲς ἔχειν) a que se poderia chamar forma inerente, ou quase inerente, qual que ela seja, ou perfeita, ou imperfeita, ou até incoata; nome esse que Aristóteles usou muitas vezes para refutar as formas separadas que Platão introduzira.16


Além dessa acepção geral do termo entelequia, Fonseca admite outra, mais específica, que também possui a sua razão de ser no quadro da filosofia aristotélica:

14. Pedro da Fonseca



Commentarii … in Libros Metaphysicorum Aristotelis Stagiritæ

Porém, sendo a forma substancial a perfeição principal das coisas naturais, porque é a primeira, e essencial; não estarão errados os Peripatéticos ao usarem muitas vezes o nome ἐντελέχεια como designação apenas para a forma substancial; acima de tudo, porquanto lhe convém, igualmente bem, uma outra explicação do nome, dada por Filopono, segundo a qual a entelequia provém daquilo que é ἕν e τέλειον, e συνέχειν, isto é, do uno, do perfeito, e do que contém. Ora, unidade, perfeição, e a função de conter matéria são as marcas principais da forma substancial.17


Embora a noção de entelequia seja interpretada em ambos os casos como forma, está claro que tanto a forma inerente como a forma substancial diferem nas suas características, como as explica Fonseca, da forma interna enquanto algo oposto à forma externa.

Além da entelequia aristotélica, mais um conceito antigo tem sido frequentemente identificado por autores modernos com a forma interna. Trata-se do célebre termo ἔνδον εἶδος, encontrado nas Eneiadas de Plotino (I, 6, 3, 6 10). O filósofo grego pergunta, o que é que pode levar um arquitecto a achar bela uma casa que corresponde ao ἔνδον εἶδος de uma casa que ele próprio tem? E continua: não será o facto de a casa externa, isto é, uma massa de matéria externa, participar do ἔνδον εἶδος, o que equivale à manifestação do indivisível na diversidade?

Ora, é bastante comum traduzir-se o ἔνδον εἶδος de Plotino pela “forma interna”. Na realidade, do ponto de vista puramente lexicográfico, esta tradução averigua-se como uma das possíveis, ainda que – de modo nenhum – a única, dada a polissemia notória da palavra εἶδος. Mesmo que seja aceitada, ficará o facto de que a oposição, em Plotino, se institui entre matéria externa e forma interna (ou ἔνδον εἶδος), ao passo que a oposição moderna concerne duas formas: uma externa e outra interna. No fragmento 15, faz-se uma tentativa de integrar este conceito de Plotino na teoria estética de Friedrich Schleiermacher.

15. Gunter Scholtz



Schleiermacher y la Música

A esta tradição [antiga – S. W.] pertence também o conceito de Schleiermacher de “arquétipo”. “Arquétipo interno”, – “imagen interna” – é uma reformulação da noção de Plotino de endon eidos, de forma interna. Esta é a “forma da essência”, não o conceito contraposto à figura exterior, mas ao material exterior, à matéria. Forma interna é o princípio de organização mediante qual as partes de uma obra de arte se unificam num todo com sentido; uma estrutura de sentido, por assim dizer.18

Infelizmente, é-me impossível datar com precisão o primeiro registo, no espaço cultural europeu, da expressão “forma interna” que agrupe exactamente estas duas palavras num termo uno. Num estudo especial consagrado à forma inteira de Reinhold Schwinger,19 depois de mencionados os conceitos de entelequia e de ἔνδον εἶδος, indica-se o nome de Shaftesbury como o pensador que introduziu a noção de forma interna no uso filosófico do século XVIII. Segundo Schwinger, Shaftesbury conhecia mediata e imediatamente tanto as fontes antigas como as doutrinas escolásticas concernentes as formas substanciais e acidentais. É com base nestes conhecimentos que o termo inglês inward form aparece, em 1714, no 3.º tomo da sua obra Características dos Homens, das Maneiras, das Opiniões, dos Tempos. Porém, é certo que foi precedido de ao menos vários decénios pelos escritores escolásticos. A ocorrência mais antiga que pude decobrir encontra-se no livro do franciscano polaco Marek Korona, entitulado Preceituário, ou antes Introdução ao entendimento dos termos dos elementos lógicos e filosóficos, dos quais passamos à formação de silogismos e de diversas demonstrações. Na explicação da categoria aristotélica de qualidade, Korona observa:

16. Marek Korona



Directorium

O quarto género da qualidade é: forma e figura. Entre estes dois termos, pode-se ver uma pequena diferença, distinguindo-se a forma da figura, ou do talhe, apenas pelo que a forma imita a delineação interna da natureza, o que se pode descrever de modo seguinte: Uma forma é uma delineação da natureza, nas coisas naturais providas de quantidade, que imita a forma interna e predispõe o sujeito a tal ou tal acção, a tal ou tal hábito, como a forma de bípede predispõe o homem a andar. Quanto à figura, só diz respeito à arte, à posição e ao modo artístico, ao pincel, como uma estátua de César, e pose ser descrita de maneira seguinte: Uma figura é, nas coisas artificiais providas de quantidade, um prolongamento externo ou delineação artística que não confere uma essência ao seu sujeito, como uma casa.20


O pequeno livrinho de Korona, com apenas 90 páginas, foi concebido como um manual elementar e não tinha nenhumas aspirações teóricas. E dificilmente imaginável que o autor quisesse integrar nele quaisquer novidades terminológicas, o que sugere uma vulgarização prévia da noção de forma interna. Até o ano da publicação do seu livro não proporciona nenhuma certeza quanto a datação, já que se trata da reimpressão de uma edição anterior.21 A oposição entre forma interna e figura, segundo Korona, parece estar em correlação com a oposição entre as coisas naturais e as coisas artificiais.

Maior incidência teórica tem o uso da noção e do termo forma interna pelo autor ucraniano Teofan Prokopovyč, na sua monumental Teologia Cristã Ortodoxa, um curso dado na Academia Eclesiástica de Kiev no limiar dos séculos XVII e XVIII. Aqui estão apresentadas duas acepções teóricas do termo em questão, ambas providas de definições.

17. Teofan Prokopovyč

Teologia Cristã Ortodoxa

A causa formal das coisas é a própria forma das mesmas, ou a própria razão essencial. […] A forma externa é a ideia, ou o arquétipo que preexiste na mente Divina, a regra, segundo a qual Deus fez todas as coisas e cada coisa singular. […] Quanto à forma interna, ou é uma, comum ao mundo todo; e portanto não é outra coisa senão uma junção coerente de todas as coisas, feita de modo mais belo, e uma concórdia tendente à conservação e à propagação das espécies, a outros fins singulares e ao arranjo geral das coisas, logo, a uma beleza admirável. […] Ou é também forma interna, mas singular e própria das coisas singulares, a perfeição singular da essência das mesmas […] 22


Como se pode ver, a acepção da forma interna singular em Prokopovyč é bastante próxima da interpretação, dada por Fonseca, da entelequia como “perfeição contraída”; por outro lado, a concepção de uma forma interna comum ao conjunto das coisas que compõem o cosmo parece não haver tido antecedentes.

Em comparação com a clareza das formulações de Prokopovyč, a obra de Shaftesbury fica bastante para trás. De facto, o 3.º tomo das suas Características … contém um ensaio entitulado, em inglês, A Notion of the Tablature, or Judgment of Hercules. Shaftesbury explica que está a usar a palavra tablature, inexistente em inglês, para designar uma obra de arte que seja una, apanhada numa só olhada, formada de acordo com um entendimento único e inteiro, que constitua um verdadeiro todo graças à relação mútua e necessária das suas partes – a mesma que existe entre os membros de um corpo natural. Como exemplo, serve-lhe a narrativa da Escolha de Hércules.23 Consta que Hércules se encontrou com duas deusas, a Virtude e a Depravação, exortando-o ambas a seguir um certo caminho na vida; elegeu Hércules a via apontada pela Virtude, preferindo os suores desta aos prazeres passageiros daquela. Ao imaginarmos uma tablature (ou quiçá retábulo em português) que represente este acontecimento histórico, a Virtude teria por modelo a Palas, e a Depravação a Vénus, como estão habitualmente retratadas. Logo depois Shaftesbury acrescenta:

18. Anthony, Earl of Shaftesbury

Uma noção de Retábulo, ou a Escolha de Hércules

De todas estas circunstâncias da história e da acção, que acompanham esta figura importante, a dificuldade do projecto manifestar-se-á suficientemente àqueles que julgam para além da mera Forma, e são capazes de considerar o carácter da Paixão a que ela está sujeita. Pois, onde um carácter real é marcado, e a forma interna descrita peculiarmente, é necessário que a externa [outward] recue. Quem espere ver a nossa figura da Virtude na exacta aparência de uma fina conversadora, subtil na sua escolha da acção, e formando a segundo o decoro usual e o movimento apropriado de uma dama formosa da nossa época, estará decerto muito longe da ideia e do génio desta obra.24
O livro de Shaftesbury teve muitas reimpressões durante o século XVIII e influenciou realmente a vida intelectual europeia da época. Um outro autor inglês, James Harris, também contribuiu consideravelmente à vulgarização do conceito de “forma interna”, embora usasse uma denominação diferente: não inward form, como em Shaftesbury, mas internal form. Esta noção ocupa uma parte importante na sua famosa obra Hermes, ou Inquérito Filosófico Concernente a Gramática Universal, publicado pela primeira vez em 1751. Em particular, Harris sustenta:

19. James Harris



Hermes or Philosophical Inquiry Concerning Universal Grammar

Suponhamos que um homem qualquer olhe pela primeira vez uma obra de arte, por exemplo, um relógio, e, depois de tê-lo mirado suficientemente, se vá embora. Não guardaria ele, quando ausente, uma Ideia do que tinha visto? — E o que será, guardar tal ideia? — Será ter uma Forma interna correspondente à externa; apenas com a diferença de que a Forma Interna carece de matéria; ao passo que a externa é unida com ela, vista no metal, na madeira, e assim por diante.

Ora, ao supormos que este Observador mira muitas destas máquinas, e não simplesmente mira, mas examina cada uma das suas partes, para compreender como todas funcionam para um mesmo fim, poder-se-ia dizer que ele possui uma espécie de Forma inteligível, pela qual não só teria apreendido e concebido os relógios que tinha visto, mas também todas as obras do mesmo género que poderia ver depois.25


Tendo identificado a forma interna com a forma inteligível, Harris passa a precisar as relações de prioridade/posterioridade entra as formas interna e externa:
20. James Harris

Hermes or Philosophical Inquiry Concerning Universal Grammar

E mais — se estas máquinas não são o trabalho do azar mas de um artífice, elas têm que ser o trabalho de alguém que sabia o que pretendia. E o que será trabalhar e saber o que se pretende? — É ter uma ideia do que se esta a fazer; possuir uma forma interna, correspondente à externa, servindo a interna de Exemplar ou Arquétipo da externa.26


Em seguida Harris transfere esta deliberação para o mundo natural, provando desta maneira a necessidade da existência de formas arquetípicas imutáveis no intelecto divino. Aplicada à linguagem, a noção de arquétipo, ou de exemplar, leva-o a afirmar que as ideias particulares elaboradas por diversos povos se transformam no génio das suas línguas, enquanto um signo (notemos que uma língua é para ele um sistema de signos arbitrários) deve absolutamente corresponder ao seu arquétipo. Para ilustrar estas teses, Harris tenta uma análise comparativa do carácter de várias línguas (inglês, línguas orientais, latim e grego).

O livro de Harris era conhecido (e apreciado) de Guilherme de Humboldt,27 o linguista alemão cujo nome está fortemente associado ao estabelecimento definitivo do termo forma interna (em alemão, innere Form) como parte integrante do referencial conceptual básico da linguística. Paradoxalmente, nos escritos do próprio Humboldt, esta expressão só aparece raras vezes, e não esta provida de nenhuma explicação, conservando sempre um carácter assaz enigmático e susceptível de diversas interpretações. Aliás o próprio termo forma linguística interna parece ter sido acrescentado ao texto humboldtiano, como o título de um capítulo, pelo seu editor Heymann Steinthal,28 que deu também uma interpretação desta noção que pretendia ser “ad mentem magistri”:


21. Heymann Steinthal

A origem da linguagem, em ligação com as questões últimas de todo o saber

A forma linguística interna só é entendida […] como um conjunto de significação dos elementos linguísticos, das palavras e das formas gramaticais. Constitui um sistema de conceitos e de formas do pensamento, em quanto estão significados por meio da forma fónica.29


Por ser bastante enigmática mesmo esta paráfrase generalizadora da teoria humboldtiana, Steinthal aplicou-se à análise e explicação da noção da forma linguística interna no espírito do lema por ele mesmo proclamado de “defender Humboldt do próprio Humboldt”,30 isto é, de superar a contradição, presente na sua doutrina, entre a pesquisa prática e as especulações teóricas, graças a uma transposição de toda a problemática linguística do terreno metafísico para o terreno psicológico. O seu entusiasmo interpretativo levou-o, porém, a exageros, acumulando-se, na obra dele, uma variedade assombrante de “esclarecimentos” que correlacionam a forma interna ora com a imagem sensível, ora com o sono, ora com a significação, ora com a representação, ora com o conceito, ora com a autoconsciência, ora com o uso, ora com o intelecto, ora com a forma lógica, etc. Se existe, entre as múltiplas variantes propostas por Steinthal, uma que poderia ser considerada como “a principal”, a escolha caía, com muita probabilidade,31 na seguinte:
22. Heymann Steinthal

Uma caracterização dos tipos principais da estrutura linguística

[…] em geral, a forma linguística interna é uma imagem, ou apercepção de qualquer conteúdo possível detido pelo espírito, um meio para manifestar este conteúdo a si mesmo, para conservá-lo e reproduzi-lo, e, ademais, um meio para receber ou até para criar um novo conteúdo.32


A largueza desta definição permite, em princípio, de interpretar a forma linguística interna – como se ecoando a distinção de Prokopovyč entre a forma interna comum ao mundo todo e a forma interna singular – tanto nos termos de “mundividências” inteiras, gravadas de modo diverso em diversos sistemas linguísticos, como nos termos da relação semântica presente num signo linguístico tomado a parte (por exemplo, na palavra).33

Esta segunda possibilidade foi aptamente teorizada na obra de Moritz Lazarus, um colaborador e amigo próximo de Steinthal. A sua definição da forma interna e bem mais estrita e concreta:


23. Moritz Lazarus

A Vida da Alma

À relação unilateral de uma coisa multifacetada para com o homem, fixada pela linguagem, pela denominação, chamámos forma linguística interna. […] Logo, a forma linguística interna consiste no que uma imagem, construída com várias percepções, é fixada na alma por meio da sua ligação com a palavra, mas de tal maneira que a palavra, se bem que significa a coisa integralmente, exprime só uma percepção, isto é, uma propriedade da mesma; portanto, a imagem è fixada do mesmo modo e com a mesma orientação, como foi percebida, pelo que aquela uma percepção sobrepuja as outras e representa a imagem inteira.34


Uma das teorias mais pormenorizadas de forma interna foi elaborada pelo linguista ucraniano Oleksander Potebniá, cuja concepção é mais consoante com a definição de Lazarus, e não com a de Steinthal. Já se reflecte isto ao nível terminológico: se Steinthal fala da forma linguística interna (innere Sprachform), abreviando de vez em quando esta expressão à forma interna (innere Form), Potebniá usa alternadamente as designações forma interna da palavra (que se traduziria para o alemão como innere Wortform) e simplesmente forma interna. Conformemente, entre as várias deliberações de Humboldt sobre a forma interna que penetra o inteiro organismo linguístico, Potebniá escolhe aquelas que dizem respeito ao tertium comparationis que intervém entre o som e o conceito: por exemplo, a representação do “tomar” (Nehmen) na palavra Vernunft (‘intelecto’), do “estar de pé” (Stehen) na palavra Verstand (‘juízo’), do “surgir” (Hervorquellen) na palavra Blüte (‘florescência’),35 ou a representação do elefante no sânscrito ora como “aquele que bebe duas vezes”, ora como “bidenteado”, ora como “manco”.36

Segundo Potebniá, a forma interna é aquele traço no conjunto de traços constituintes de uma imagem sensível que determina a designação da coisa, ou seja, “a relação do conteúdo do pensamento à consciência”, o qual demonstra “como está representado ao homem o pensamento que ele tem”.37 A diferença entre a forma interna e o conteúdo pode ser exemplificada pelas palavras жалованье, annuum, pensio, gages, que dizem respeito ao mesmo conceito (“salário”), mas representam-no de modo bem diverso, significando annuum em latino ’os alimentos para um ano’, pensio ‘o peso medido’, gages em francês ‘o resultado de obrigações mútuas’, жалованье em russo ‘um acto de bem-querer’.38 Vale a pena notar que Potebniá agia muito reflectidamente, desejando “aplicar a uma palavra isolada” a distinção entre ργον e νέργεια que Humboldt postulou para “a língua inteira” 39 – foi uma tentativa de valorizar a concepção humboldtiana da língua como um organismo coeso (demasiado complicada para ser usada na sua primeira versão global), graças a uma fragmentação do objecto da pesquisa e à passagem às análises da motivação inerente em palavras tomadas uma a uma.40

Porém, na linguística ulterior foi a versão “mundividencial” da forma interna que gozou de melhor recepção na linguística posterior. Os textos escritos em língua portuguesa são, neste respeito, bem típicos.

Neste sentido, Márcio Seligmann-Silva dá uma avaliação do papel histórico da noção de forma interna não só para o estudo da linguagem, mas também para a teoria do conhecimento:


24. Márcio Seligmann-Silva (Universidade de Campinas)

Do gênio da língua ao tradutor como gênio

Para Johann David Michaelis (1717-1791), no seu De l'ìnfluence des opinions sur le langage et du langage sur les opinions, de 1762 (na verdade uma auto-tradução com acréscimos do original alemão de 1760) lemos, por fim:



Todos os objetos apresentam-se ao nosso espírito sob um certo aspecto; e é sob esse aspecto que sempre são regrados os nomes que nós damos a eles e as descrições que nós deles fazemos.

São as opiniões do povo e o ponto de vista sob o qual ele observa os objetos que dão forma à linguagem.

Essas palavras de Michaelis já deixam entrever a "virada copernicana" do conhecimento que significou também a sua virada lingüística. Wilhelm von Humboldt (1767-1835) com o seu conceito de "forma interna das línguas" desenvolvido no início do século seguinte já estava montando seus prédios conceituais com uma matéria prima muito parecida com a nossa. Essa "forma interna" significava para ele o resíduo – intraduzível – de cada língua, o que escapa ao conceito, e que ao mesmo tempo a constitui […] 41

A mesma concepção da forma interna como a parte intraduzível da língua (em oposição à teoria de Husserl, para o qual uma tradução equivalia a uma simples transcodificação mecânica) aparece nas reflexões de Pedro Alves acerca da fenomenologia da comunicação:
25. Pedro M. S. Alves (Universidade de Lisboa)

Para uma fenomenologia da comunicação:

Linguagem e mundo comunicacional na fenomenologia de Edmund Husserl

[…] alcança Husserl uma posição sobre a idealidade das significações que assegura a universal transparência e transferência do sentido. Se o sentido de uma expressão não reside na representação subjectiva correspondente, mas é uma unidade ideal-idêntica, qualquer significação pode ser indiferentemente vertida numa ou noutra língua, ser uma e outra vez retomada em actos diferentes por sujeitos diversos sem que isso afecte o seu conteúdo. Este é uma unidade que pode sempre instanciar-se em actos múltiplos, sem que esteja determinado pelas circunstâncias psicológicas, históricas ou culturais que envolvem os actos do significar. Assim, uma proposição como, por exemplo, o Teorema de Pitágoras, pode ser indiferentemente expressa em grego, alemão ou em português, pode ser uma e outra vez visada pelo mesmo ou por diferentes sujeitos ¾ em qualquer dos casos é sempre o mesmo conteúdo ideal de sentido que está presente, sem que as condições concretas da expressão o possam alterar no seu teor.

Esta concepção da linguagem permite assegurar a transferência e partilha do sentido, pois a diversidade real das línguas e das culturas não surge aqui como um óbice a esta comunhão num sentido que aparece, relativamente a elas, como um seu ingrediente ideal comum. Não há nada como uma forma interna da língua, que, na esteira do pensamento de Humboldt, permaneça como um elemento intraduzível.42
A noção do intraduzível não podia deixar de ser correlacionada a uma série de outros conceitos vagos, mas bem enraizados: por exemplo, “o génio da língua” e, como corolário deste, “o génio do povo” que fala tal ou tal língua – ambos amplamente tematizados na época do Romantismo. Em termos mais sóbrios, fala-se neste contexto de uma mundividência linguisticamente mediada, isto é, um “mundo linguístico” que está no meio entre o sujeito cognoscente e a realidade objectiva. Este aspecto é oportunamente sublinhado por Mattoso Câmara.
26. Mattoso Câmara



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