Antes del Modernismo. Pintura Histórica Brasileira



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Modernismo Brasilero

Alicia Romero, Marcelo Giménez

(sel.1)

Antes del Modernismo. Pintura Histórica Brasileira

O termo se aplica à pintura que representa fatos históricos, cenas mitológicas, literárias e da história religiosa. Em acepção mais estrita, refere-se ao registro pictórico de eventos da história política. Batalhas, cenas de guerra, personagens célebres, fatos e feitos de homens notáveis são descritos em telas de grandes dimensões. Realizadas, em geral, sob encomenda, as pinturas históricas evidenciam um tipo de produção plástica comprometida com a tematização da nação e da política. Se os acontecimentos domésticos, o cotidiano e os personagens anônimos são registrados pela pintura de gênero, os grandes atos e seus heróis são narrados em tom elevado e estilo grandioso pela pintura histórica. O desafio pictórico colocado por essas telas reside na experimentação simultânea de diferentes gêneros artísticos: das paisagens e naturezas-mortas (nos panos de fundo e elementos do cenário); dos retratos e cenas de gênero (ensaiados na caracterização dos personagens e ambiências). A realização de telas com grande número de elementos, por sua vez, incita os pintores a procurarem soluções inéditas em termos de composição.

A pintura histórica adquire prestígio nas academias de arte, alçada ao primeiro plano na hierarquia acadêmica a partir do século XVII, com a criação da Real Academia de Pintura e Escultura em Paris, 1648. Verifica-se aí um estreitamento das relações entre arte e poder político, e uma associação mais nítida entre a instituição e uma doutrina particular. A paixão pela Antigüidade - revelada nos temas mitológicos e nos motivos históricos - associada à clareza expressiva e à obediência às regras definem o estilo que se converterá no eixo da doutrina acadêmica. A pintura neoclássica, que tem como centro a França do século XVIII, explora fartamente os temas históricos. Diante da Revolução Francesa, o modelo clássico adquire sentido ético e moral. A busca de um ideal estético da antigüidade vem acompanhada de ideais de justiça e civismo, como mostram as telas do pintor Jacques-Louis David (1748-1825). Os retratos dos mártires da revolução por ele realizados atestam a face engajada de sua pintura (A Morte de Lepetier, A Morte de Marat e A Morte de Bara, 1793). David é também o pintor oficial de Napoleão, como mostra a série sobre o imperador realizada entre 1802 e 1807, na qual se destaca a gigantesca Coroação de Napoleão (1805-1807). Antoine-Jean Gros (1771-1835), seguidor da forma austera de David, inclina-se às cores e vibrações dramáticas nas batalhas napoleônicas que executa - por exemplo A Batalha de Eylau (1808) -, o que faz dele um elemento central no desenvolvimento do romantismo francês.

Na Espanha, pinturas históricas são realizadas a partir do século XVI por diversos artistas. Cenas de batalhas são executadas pelos pintores da corte de Felipe IV, comprometidos com a representação da invencibilidade do exército espanhol em suas campanhas militares. Nesse contexto, Francisco de Zurbarán (1598-1664) realiza A Defesa de Cádiz e Diego Velázquez (1599-1660), A Rendição de Breda (1634-1635), ambas glorificando os triunfos do reinado de Felipe. Posteriormente, cenas históricas têm lugar no interior da variada produção de Francisco José de Goya y Lucientes (1746-1828), por meio das dramáticas telas sobre a ocupação francesa da Espanha (1808-1814), em que o pintor coloca a sua ênfase na revolta dos cidadãos de Madri contra os ocupantes (Fuzilamento, 1808). Com esses trabalhos de Goya, a dimensão heróica e celebrativa da pintura histórica encontra sua primeira contestação. Mas é na série de 65 água-fortes, Os Desastres da Guerra (1810-1814), que o pintor revela sua visão realista dos acontecimentos: as cenas de pesadelos e as figuras macabras falam das atrocidades da guerra, pelas quais são responsáveis franceses e espanhóis. A própria opção por uma "técnica menor", a gravura - procedimento que Goya dignifica -, revela o quanto a pintura histórica poderia estar comprometida com a apologia do poder.

A preocupação com o passado e com as origens, assim como a interferência no tempo presente marcam a visão de mundo romântica. O impacto da Revolução Francesa e o mito napoleônico se refletem nos temas históricos e nas cenas de batalhas, explorados pelos pintores. Théodore Géricault (1791-1824) retoma a história em telas como A Jangada da Medusa (1819). O quadro trata de um acontecimento contemporâneo (um naufrágio ocorrido em 1817), narrando, em tom épico, o embate entre vida e morte, assim como as relações hostis entre o homem e a natureza. Eugène Delacroix (1798-1863) se detém sobre a história política desde o início de sua carreira (O Massacre de Quios, 1824, A Grécia Sobre as Ruínas de Missolongi, 1827). Mas é o célebre A Liberdade Guia o Povo (1850) que evidencia o compromisso do pintor com a história de seu tempo; a tela, registra a insurreição de 1830 contra o poder monárquico. A liberdade, representada pela figura feminina que ergue a bandeira da França sobre as barricadas, converte-se em alegoria da independência nacional.

Marcas neoclássicas e românticas se fazem sentir na pintura histórica exercitada pelos pintores acadêmicos brasileiros. A produção inscrita no interior da Academia Imperial de Belas Artes- Aiba possui fortes vínculos com o governo imperial de Dom Pedro II (1825-1891), para o qual os artistas criam uma iconografia nacional (A Coroação de D. Pedro II, de Porto Alegre (1806-1879)). Os nomes de Pedro Américo (1843-1905) e Victor Meirelles (1832-1903) associam-se diretamente à pintura histórica no país. Pedro Américo, tem no desenho, e na preocupação com a execução das figuras, um dos traços característicos de sua pintura. A Guerra do Paraguai serve de modelo para as narrativas épicas de suas telas, por exemplo, aquelas realizadas em 1871: Batalha do Campo Grande, Batalha do Avaí e Passagem do Chaco. Nota-se aí uma atenção aos detalhes, minuciosamente descritos: os trajes militares, os cavalos, a fisionomia dos personagens. O uso de fotografias como apoio para realização de suas telas históricas revela a preocupação de Pedro Américo em diminuir a distância entre uma arte celebrativa e a documentação histórica. Victor Meirelles também se deteve no registro da história nacional, na representação do império e na guerra do Paraguai. Do ponto de vista da composição, observam-se afinidades de sua pintura com o espírito romântico. Dentre suas principais obras estão: A Primeira Missa no Brasil (1860), A Batalha dos Guararapes (1879), Passagem do Humaitá e Combate Naval do Riachuelo (ambas de 1882). A expressividade da cor e a atenção às paisagens estão entre as marcas do pintor. O tom grandioso e o ímpeto da ação aparecem como elementos fortes de suas narrativas visuais, que, longe de assinalarem a crueldade da guerra, visam enobrecê-la.


Victor Meirelles de Lima

(Nossa Senhora do Desterro, hoy Florianópolis SC, 18 de agosto, 1832-Rio de Janeiro RJ, 22 de fevereiro, 1903)


Pintor, desenhista, professor. Inicia estudos artísticos por volta de 1845 com o professor argentino Marciano Moreno. Em 1847 transfere-se para o Rio de Janeiro, ingressa na Academia Imperial de Belas Artes- Aiba, onde cursa desenho e pintura histórica com Correia de Lima (1814-1857). Entre 1853 e 1856, com o prêmio viagem à Europa, estuda em Roma nos ateliês de Tommaso Minardi e de Nicola Consoni. Aperfeiçoa-se com Léon Cogniet, na Escola de Belas Artes de Paris, e trabalha sob orientação de Andrea Gastaldi. Durante esse período no exterior mantém correspondência com o pintor Porto Alegre (1806-1879). Retorna para o Brasil em 1861 e no ano seguinte é nomeado professor de pintura histórica e de paisagem na Aiba, cargo que exerce até 1890. Entre seus alunos destacam-se Antônio Parreiras (1860-1937), Zeferino da Costa (1840-1915), Henrique Bernardelli (1858-1936), Rodolfo Amoedo (1857-1941), Belmiro de Almeida (1858-1935), Oscar Pereira da Silva (1867-1939), Almeida Júnior (1850-1899), Modesto Brocos (1852-1936) e Eliseu Visconti (1866-1944). Realiza pinturas históricas sobre a Guerra do Paraguai. Em 1879, seu quadro Batalha dos Guararapes é apresentado na Exposição Geral de Belas Artes, ao lado de Batalha do Avaí, de Pedro Américo (1843-1905). A comparação entre os dois quadros suscita polêmica na imprensa e no público. Em 1889, recebe medalha de ouro pelo Panorama do Rio de Janeiro na Exposição Universal de Paris.

Nasce em Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis e vai para o Rio de Janeiro em 1847, onde estuda na Academia Imperial de Belas Artes- Aiba. Em 1852, obtém o prêmio de viagem ao exterior da Aiba. Em Roma, é orientado pelos artistas Tommaso Minardi (1787-1871) e Nicola Consoni (1814-1884) e entra em contato com a pintura "purista", na qual o desenho é mais tênue e delicado que o da tradição neoclássica e as cores são suavizadas. Estuda as obras dos mestres italianos, em especial os artistas da Escola Veneziana, dentre estes Ticiano (ca.1488-1576) e Paolo Veronese (1528-1588), por quem manifesta especial interesse. Consegue uma renovação do pensionato e estuda em Paris, a partir de 1856, com o artista Léon Cogniet (1794-1880) e posteriormente com Andrea Gastaldi (1826-1889). Durante o tempo em que reside no exterior, mantém intensa correspondência com o Porto Alegre (1806-1879), pintor e escritor, que é diretor da Aiba entre 1854 e 1857. Após mais de oito anos de ausência, retorna ao Brasil em 1861. No ano seguinte é nomeado professor de pintura histórica e de paisagem na Aiba, cargo que exerce até 1890.

Durante a permanência em Paris, pinta o quadro A Primeira Missa no Brasil (1861). O crítico Gonzaga Duque (1863-1911) comenta esta obra, ressaltando sua importância histórica: "... A primeira missa não poderia ser senão aquilo que ali está. Devia ser, forçosamente, aquele conjunto, isto é, um altar, um padre oficiando, um outro servindo de acólito, a guarnição da armada portuguesa assistindo ao ofício divino, o gentio aproximando-se, cauteloso, admirado, imitando o que via fazer. É isso o que narra a história e só". O quadro retrata a primeira missa, da maneira como é descrita na carta de Pero Vaz de Caminha. O documento, publicado somente em 1817, assume um papel primordial na História do Brasil. No momento em que o quadro é pintado, a temática indianista está presente na literatura romântica e nas artes plásticas. Destaca-se o sentido poético de organização dos grupos que participam da cena e a gama cromática, com sutilíssimas passagens de tons. A cena principal estende-se ao longe e o olhar do espectador é direcionado para a cruz, no alto. No plano de fundo, abre-se a paisagem serena, banhada por uma luz suave, na qual está presente a vegetação tropical. O quadro tem uma atmosfera contemplativa. Meirelles cria assim uma imagem da história que dificilmente pode ser esquecida e que para muitos setores da intelectualidade do século XIX foi a primeira grande obra de arte brasileira.

A tela Moema (1862) inspira-se no canto VI do poema épico Caramuru (1781), de frei José de Santa Rita Durão (1722-1784), que, como outros textos literários do período, trata do tema indianista ligado ao imaginário nacional. O poema narra a desventura da índia que, abandonada pelo português Caramuru, atira-se ao mar e segue o navio no qual ele está partindo. No quadro, o corpo nu, banhado pelas ondas na praia, é exposto em primeiro plano, o rosto revela uma beleza exótica. O pintor cria uma imagem sensual e que, ao mesmo tempo, causa estranheza. Revela um sentimento poético na representação da paisagem.

Ao longo da carreira, recebe várias encomendas de quadros oficiais, entre estes, a Batalha de Riachuelo (ca.1882), no qual, com a técnica naturalista da representação, explora o triunfo e a destruição associados ao combate. Na Exposição Geral de Belas Artes, em 1879, são apresentadas as telas A Batalha de Guararapes, de Victor Meirelles e a Batalha do Avaí, de Pedro Américo (1843-1905), duas telas que marcaram época na pintura brasileira. É criada uma polêmica na imprensa, em relação a estas duas telas, consideradas antagônicas.

Com a Proclamação da República, modifica-se a direção da Aiba, que passa a se chamar Escola Nacional de Belas Artes - Enba. Surgem propostas de renovação no ensino das artes e os antigos professores, como Victor Meirelles, são exonerados. Este passa a ser marginalizado, por ser identificado como o pintor oficial da Monarquia. Desde 1885, procurando uma alternativa à pintura historica e às encomendas oficiais, cria uma empresa de panoramas da cidade do Rio de Janeiro. No fim da vida, sobrevive das exibições públicas de seus panoramas e, melancólico, lamenta que o público tenha esquecido de seus quadros. Do primeiro panorama, exposto em Bruxelas e em Paris, em 1889, foram preservados apenas seis estudos. Nestes, a paisagem é representada com equilibrada distribuição de tons, e o olhar do espectador é convidado a percorrer a variedade de passagens, da semi-obscuridade da vegetação à luminosidade da atmosfera.

Vitor Meirelles tem um papel importante na formação de vários artistas, na segunda metade do século XIX, devido a sua longa carreira como professor. Destaca-se, sobretudo, pelas qualidades de sua pintura: o desenho primoroso e a requintada combinação tonal em telas trabalhadas com sentimento e poesia.



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