Antônio Skarmeta a boda do Poeta



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Antônio Skarmeta

A Boda do Poeta

Para Nora e Fabián Cristóbal


Um rico e boémio banqueiro austríaco, Jerónimo Frank, abandona tudo e instala-se numa pequena ilha do Adriático, onde reabre o Grande Armazém Europeu. Rapidamente se combina o seu casamento com a bela e jovem Alia Emar. Prevê-se uma boda espectacular.


No entanto, os noivos não partilham de forma alguma o júbilo popular. No ânimo de Jerónimo pesa a trágica lenda do antigo proprietário do armazém e da sua jovem esposa. No caso de Alia, é o amor de Esteban Coppeta - descendente de um herói mítico da ilha - o que lhe provoca incomodidade e desconcerto.
A magnífica boda vai terminar num acontecimento político e bélico terrível que ultrapassa todos os personagens e acaba por os levar do júbilo à tragédia.
A história de um amor lendário, num registo de intriga e humor, um olhar inteligente e satírico sobre a Europa do pré-guerra, mas também a crônica de uma estirpe de imigrantes que chega ao Chile nos princípios do século XX.
A causa imediata do levantamento foi o recrutamento à força ordenado no ano 6 d. C. por Tibério por motivo das invasões germânicas. Mas as causas mais remotas e gerais, é necessário ir procurá-las no sistema de opressão aplicado pelos romanos em todas as regiões ilírias, onde se construíram estradas com a única finalidade de subjugar e explorar despudoradamente os proprietários de terras.
Até então os maliciosos haviam-se mantido sossegados, mas quando Tibério marchou segunda vez contra os celtas, e Valério Massala, na altura governador da Malícia, recebeu ordens de formar um contingente com jovens em pleno vigor das suas forças, os maliciosos não hesitaram. Os chefes da insurreição eram anónimos, ou melhor, os historiadores romanos e helénicos não nos transmitiram os seus nomes.

ANTUN DAMIC


Breve História de Costas de Malícia
A procura do vinho de Gema durou até ao tratado comercial da Áustria com a Itália (1891), que estabeleceu a chamada cláusula do vinho. Por este acordo a Itália pôde exportar o seu vinho para os territórios austríacos em condições preferenciais. Isto teve imediatas repercussões no mercado e os preços baixaram.
As exportações desceram significativamente. Desapareceu o estímulo para a plantação de novas vinhas. O vinho produzido consumia-se quase exclusivamente em Costas de Malícia, e restavam grandes excedentes. Os navios ficaram imobilizados nos portos, sem outras receitas. E para a desgraça ser maior, a filoxera atacou os vinhedos maliciosos em 1894 e gradualmente aniquilou-os.
Devido a estas infelicidades, os camponeses, na sua maioria vinicultores, sofreram grandes perdas. Na sua desolação recorreram aos comerciantes ricos e aos grandes proprietários para que os ajudassem. Vendiam os seus escassos produtos a baixo preço e pelo dinheiro emprestado pagavam enormes juros.
Os empréstimos usurários empobreceram ainda mais o pequeno camponês. Como já não havia terra para outros cultivos, viram-se obrigados a emigrar. Assim a gente de Gema, que antes dava trabalho a outros, tinha agora de ir ela própria procurar trabalho em terras longínquas e estranhas.

ANTUN DAMIC



História da Ilha de Gema

Quantas coisas se agitam no coração de uma mulher que não são para se mostrar à luz do dia!

HEINRICH VON KLEIST

Pentesileia


PRÓLOGO
"Pelo que me contou o meu avô em Antofagasta, ele provinha de uma ilha tão pobre que o homem rico da região se considerava afortunado à maneira dos contos bíblicos, dos contos de fadas, ou das gigantomaquias que contavam os quinquilheiros que por lá passavam. Um desses contadores de histórias de cabelo desvairado e nariz da harpia, o Velhaco Yaksic, espalhara a notícia de que para lá de Itália, da França eterna, do indómito Atlântico e dos seus descomunais icebergues havia uma cidade onde em vez de árvores brotavam edifícios tão altos que subir as suas escadas levava três dias e três noites. Uma dama que conseguiu trepar ao cume do mais alto dos arranha-céus voltou ao cabo de um mês dizendo que tinha estado sentada à direita de Deus e que o Senhor era igual às figuras do criador pintadas nas igrejas das nossas aldeias.

O meu nonno não acreditava nessas palermices e exageros, e até emigrar tentara achar a fórmula de um pesticida que acabasse com a praga da filoxera, um mal que apodrecia as videiras e arruinava as famílias camponesas. Com uma apetecível moeda de prata pediu aos charlatães que na viagem seguinte, em vez de Lhes trazerem mais notícias sobre essa urbe de tão magníficas urbes onde todos pareciam inchados qual macacos teimosos, tornassem com uma tonelada de química para atacar a peste das uvas e não as cabeças dos seus aldeãos, fartos de contos exóticos e ávidos de comida.

O célere jogral guardou o dobrão na algibeira e incurável acrescentou que em Nova Iorque as mulheres andavam com saias tão curtas que muitas vezes a deliciosa verdura da sua púbis se derramava ao sentarem-se nos bares, e os tecidos que cobriam os seus bustos eram tão transparentes que se viam os bicos dos peitos que nem medalhas de general prussiano.
Disse que as suas cabeleiras louras escondiam tisanas que enlouqueciam os homens, e que estes ao passar a seu lado tinham erecções tão significativas que loucos de vergonha fugiam tão rapidamente delas como se tivessem três pernas. Enfim, delírios que também nutrem com frequência a literatura dos nossos lares.

No tocante a Nova Iorque o homem mais rico da aldeia perderia as dúvidas quando o estaleiro Bizzarro terminara aquele navio capaz de rodear o Mediterrâneo e zarpar até à América. O meu avô exagera que um ano antes de emigrar, um navio trouxe um dia tal carregamento de madeira e metal para São Pedro que com esses materiais se pôde fundar uma cidade nova, dando assim trabalho a centenas de vítimas da epidemia.

Com consciência social vanguardista para a época, enfrentou dom Jerónimo, o rico, lançando-lhe à cara que o patriótico não era ir a Nova Iorque descocar-se no meio de rameiras e arranha-céus, mas ficar aqui e cuidar da adversidade dos seus conterrâneos.

O homem mais rico da ilha não tardou a replicar aos lamentosos argumentos do meu avô, com um texto acerado que ainda se pode ler nos arquivos ilhéus do Adriático, acessível em microfilme na Biblioteca Pública de Ancona. Resumo aqui apenas o que é pertinente a este romance, para evitar entrar na filigrana de ódios e rivalidades pessoais tão típicos da época e que se tornariam hoje triviais e incompreensíveis. A parte que nos diz respeito apresenta dois dados significativos para compreender o seu carácter e a repentina aluvião de acontecimentos que culminarão na actualidade, quando o leitor

destas páginas, espero que mais com tristeza do que com alívio, fechar o livro que tem nas mãos.

Com retórica populista e miserabilista, o senhor Skármeta fala-me da adversidade dos habitantes da ilha e pretende que o meu coração apare as suas lágrimas como se essa palavra Lhes pertencesse só a eles.

Adversidade, cavalheiro, é um conceito que deverá aplicar só a mim. Porque haveria eu de me ocupar da adversidade de uma massa organizada de seres preconceituosos e sibilinos quando são eles, os seus compatriotas, que me afastaram fanaticamente do casamento com algumas das suas filhas, após a dilacerante e trágica viuvez do meu antecessor, que até hoje é o cruel prato do dia nas sujas bocas de todas as aldeias e casais? Que culpa tenho eu do trágico desenlace de Marta Matarasso?

Que mal tem projectar emigrar para Nova Iorque, a cidade que já hoje é o futuro quando a superstição, a grosseria e a vingança contra o que tem mais porque trabalhou melhor

impediram que tivesse família nesta terra que amo, não por herança nem costume mas por orgulhosa decisão de forasteiro?

Crê que no dia em que eu morrer, algum destes seres na adversidade que menciona ajudará a deitar uma pazada de terra sobre o meu cadáver? Que filha ou filho tenho eu que vá baixar-me as pálpebras quando a morte me levar numa madrugada de fúria adriática?

Antecipo o meu futuro com precisa melancolia: ficarei hirto entre as rochas, feito numa trouxa de algas, o mar virá desfigurar-me as feições e os cães encarregar-se-ão das minhas vísceras."
O jovem Skármeta ficou perturbado com estas linhas que pela primeira vez mostravam de dom Jerónimo algo mais que o sorriso de quando fazia rodar a manivela da sua caixa registadora para receber a nota que pagava as suas mercadorias. Ficou dois dias

de cama atacado pelo vírus da tristeza, pensando que em vez de argumentar contra os sentimentos do homem mais rico, escreveria um intenso mea culpa que se concluía com um apelo à piedade e fraternidade de todos os ilhéus. Elaborou então uma enternecedora carta aberta para a edição semanal do jornal.

Esta peça literária foi eficaz no reduzido ambiente de camponeses, pescadores, anarquistas e mineiros. Não há velho que não acredite que foi graças à pluma do nonno que se abriu a Jerónimo o caminho para a bela Alia Emar, personagem decisiva na ficção que aguarda a curiosidade dos leitores.
Nos anos setenta, a brutalidade de um ominoso ditador na minha pátria fez-me partir para a Europa, percorrendo ao invés o mesmo itinerário do meu avô. Durante anos vivi na Alemanha, inconveniente que se atenuou no Verão quando desci até Costas de Malícia, com a intenção de comer sol, peixe na brasa, e conseguir o artigo original do meu avô, em quem via o último gérmen possível da minha vocação literária. Privado do meu país, a vida quotidiana pareceu-me tão modesta quanto acolhedora, e no meu diário de viagem dei conta desta trégua:
O pastor sobe a montanha com as suas cabras. O poeta Nazor sobe à torre a pastar palavras. Os veleiros sulcam a baía no porto. As rugas sulcam o rosto de um avô. O tipo assa os peixes nas brasas. A avó tempera uma salada. As lentas nuvens do Sul aliviam O meu exílio em Costas de Malícia.

Anos depois, este país que me permitiu este último suspiro de ingenuidade entrou noutra guerra brutal que, em regiões não muito longe de Gema, dura até hoje. Vistas em grande, as conflagrações impressionam-nos como tragédias. Conhecidas em pequeno, há interstícios de comédia, sátira e melodrama.

Este último foi o género em que se distinguiu a minha avó à hora da sesta em Antofagasta. Todos dormiam menos ela, que com infatigáveis olhos azuis e o mau génio pacificado pela sintonia do receptor Philco, ouvia folhetins góticos e truculentos até concluir o tricotar de coletes, cachecóis e peúgas, que invariavelmente recebíamos de prenda pelos anos e onomásticos. A nonna teve sempre uma fina percepção do desenlace dos conflitos, intuições que hoje como escritor profissional ainda lhe invejo.

Nas pausas dos anúncios da comédia, a minha avó prognosticava com forte sotaque malicioso, fazendo rolar os erres, o que iria acontecer nos minutos seguintes à heroína.


"Deus vai ajudá-la e há-de recuperar a vista", (se era cega); "um senhor de boas famílias vai tirá-la do bordel e casar-se com ela"; "vão cortar-Lhe o dedo para lhe roubarem o anel de ouro"; "irá a Nova Iorque e um médico famoso vai curar-lhe a sífilis".

A Esteban Coppeta só o vi uma vez no Clube Social Malicioso de Antofagasta a perder uma partida de póquer numa precária mesa debaixo de uma ruidosa ventoinha. Creio que não lhe disse nada, mas lembro-me de que me fixou longamente quando o meu avô mostrou histriónico e triunfal um, full de reis, como se sugerisse que eu tinha contribuído para lhe armar uma ratoeira. Detenho-me neste pormenor, porque a única coisa que posso fidedignamente avalizar da narração seguinte é a vertigem desse olhar azul, ainda mais indefinível que todas as aproximações que se tentam na minha ficção.

No que a Nova Iorque se refere, confesso que compartilhei da mesma alienação com Reino Coppeta e ainda é a cidade que continua a subir-me à cabeça apesar das piadas dos meus amigos esquerdistas.

Durante muitos anos quis escrever esta obra, mas adiei-a esperando que se armasse sozinha. Como os meus assíduos leitores já sabem, as imprecisões lá se arranjam para se organizarem e constituírem esse tempo e espaço soberanos do romance.

Dedico-o em primeiro lugar aos meus avós, porque mortos e enterrados no Norte do Chile já não podem desmentir o que aqui se conta.
Era uma vez um tempo de abundância na remota ilha de Costas de Malícia. As uvas dilatavam-se sob o sol que mais pareciam luminosos sinos de igreja, a chuva era qual visita de um familiar que nos dá alegria quando chega e felicidade quando se vai embora e as jovens donzelas ternamente vetavam os fogosos noivos até que o casamento os fundisse. Marta Matarasso era a mais bela das suas filhas, e a ilha fazia conjecturas, às vezes sob a forma de apostas, acerca do homem que a desposaria quando cumprisse os dezassete anos. Ainda vivem nesse longínquo lugar netos de alguns que terçaram lanças por ela, dançarinos com sapatos de verniz, pescadores de pele acobreada, estudantes mais erécteis que proveitosos, burocratas de gravatas e bigodes enfatuados e outras espécies de difícil pormenor.

Tal como o bom Descartes proclamou que não há nada mais espalhado que o senso comum, aquela remota ilha era uma excepção. Os eflúvios primaveris costumavam ser tão intensos que os varões só se acalmavam quando chegava o Verão e os barcos traziam às praias farinhentas suecas e olheirentas britânicas que conferiam com liberal caridade o que as do lugar guardavam tecendo casaquinhos de crochet à espera do momento em que a pérola vermelha da sua honra coroasse triunfal a noite de núpcias, conforma rezava a letra de uma turumba que ainda hoje se ouve.


Embora a ninguém faltasse nada, todos tinham pouco, e para conquistar as raparigas os ilhéus não possuíam outro capital senão o engenho. Contudo, muitas coisas mudaram quando se abriu um imenso armazém europeu, ao estilo das grandes lojas do continente tipo Harrods, Gath e Chávez, Temperley e Thompson, menos para atender os nativos aldeões, que só sabiam aforrar caspa nos cabelos e fungos nos pés, do que para os distraídos consortes de suecas e inglesas que aí compravam os seus scotchs, havanos, champanhes e camisas de popelina italiana sem pagar nenhum tipo de imposto.

Assim beneficiavam só o dono do armazém e o Governo Central de que dependia aquela ilha, situação que levou alguns nativos rebeldes com ideias federalistas a erguer-se contra o governo.


Estes grupos chegaram a acumular inclusivamente uma dúzia de militantes. O primeiro deles teve grande actividade por alturas do fim do século. O seu líder José Coppeta foi recebido pelo Governo, onde o ministro da Terra e da Colonização lhe entregou logo um pergaminho pelo qual concedia de bom grado a autonomia à ilha Gema com todos os direitos de uma nação independente, poder para criar a sua própria bandeira e até, se quisessem, usar o dialecto local como língua oficial.

Diz uma testemunha que o ministro foi até junto do mapa do país que estava pendurado no seu gabinete, confeccionado em Paris, e pediu a Coppeta que Lhe indicasse onde ficava a nova nação. Com orgulho, o rebelde apontou para a ilha de Gema a uns dois mil quilómetros da capital, e o ministro só comentou "não é assim tão longe nem assim tão perto", frase sibilina que reflectia alguma intenção sem mostrar precisamente nenhuma.

A seguir pediu a Coppeta que lhe dissesse o seu nome e apelidos completos, e ditou ao secretário um édito, por meio do qual a partir dessa data nomeava Coppeta presidente do nascente país. Ao perguntar-Lhe que nome Lhe poria, o recém-designado presidente confessou com modéstia que manteriam o mesmo apodo da ilha acrescentando-lhe a expressão República Independente.

- República Independente de Gema - saboreou em voz alta o ministro. - Soa bem.

A autoridade sugeriu a Coppeta que ao cabo de um prazo prudente se fizesse eleger em eleições democráticas, já que os cargos designados arbitrariamente mais tarde ou mais cedo enfureciam os fanáticos da democracia, umas bestas que confundiam as estatísticas com a inteligência.

O presidente designado deu grande valor ao conselho, e pedindo desculpas pela falta de diplomacia, agradeceu os pergaminhos do fundo telúrico da minha pátria e comunicou ao ministro que tinha de abandonar rapidamente o gabinete porque senão perderia o barco que o levaria com a boa nova de regresso à sua terra. O funcionário não só desculpou a compreensível pressa do seu ex-súbdito, como pôs à sua disposição uma carruagem para o levar ao porto, e perguntou com cortesia, prometedora da maior consideração, o nome do navio que o conduziria à ilha. Coppeta sacou do bilhete e leu em voz alta o apelativo do navio: Caronte. O ministro sorriu abrindo com o seu gesto cada uma das peças da sua impecável dentadura, e disse a enigmática frase: "Um nome muito ad hoc".

Numa conversa informal e romântica que teve José Coppeta ao luar no Caronte com uma turista alemã de brilhantes olhos verdes chamada Anna Dickmann, mostrou-lhe os pergaminhos que proclamavam a independência da sua pátria e a sua nomeação

como presidente.

Mas na manhã seguinte, ou seja, a poucas horas da idílica sessão sob o plenilúnio, com infinita falta de delicadeza, o capitão do Caronte Piotre Kheftanovic convocou todos os passageiros das diferentes classes e expôs diante deles a cabeça de Coppeta separada do corpo por uma presumível cimitarra turca. Juntando de forma grotesca o pescoço às omoplatas do defunto perguntou se alguém conhecia este homem e se algum dos presentes assumia o afilado assassínio. Anna Dickmann, incapaz de conter o seu horror, e abalada de repentina viuvez, disse que nos encontrávamos perante os restos mortais do presidente da República de Gema e exigiu os pergaminhos que acreditavam a sua nomeação.

O almirante Piotre Kheftanovic pediu à bela dama que se aproximasse a bombordo, e mostrando-Lhe dois barquinhos de papel induziu a turista alemã a lançá-los ao mar.


No constante azul desse mar que havia cantado sem exagero Homero, as frágeis embarcações afundaram-se em poucos segundos.

- Receio que sejam os títulos presidenciais que lhe interessam, minha senhora.

Segundo confessou Fraulein Dickmann anos depois de ocorridos estes incidentes, Kheftanovic saíra-se na ocasião com a seguinte frase cujo sentido ela declara ter percebido tão bem que só deu esta informação após o funeral do almirante Kheftanovic dez anos depois.
"Imagino que, consciente da sua beleza, a Fraulein reconhecerá que a harmonia do seu magnífico corpo tem origem fundamentalmente na união da sua cabeça com as jugulares. Seria altamente melancólico para si e para os seus admiradores que estas peças ficassem desarticuladas na sua estética devido a uma inconfidência sua."

Fraulein Dickmann perdeu de súbito o tom acobreado que adquirira na primeira etapa do seu Verão malicioso; as suas requintadas e sensuais sardas pareceram oxidar-se de uma penada, e renunciou a essa, e a qualquer investigação posterior, com uma pragmática palavra germânica: Terstehel.

Este acontecimento teve para a psicologia dos rebeldes da ilha um valor exemplar. Na segunda grande rebelião contra o centralismo metropolitano, o encarregado de apresentar as reivindicações foi José East, um alfaiate judeu instalado em Gema por falta de cobiça e erudição em anarquismo, e também excitado assediador de Marta Matarasso, a quem pretendeu impressionar com um folheto de trinta páginas, publicado em três edições do jornal A República, sobre o sentido libertário dos Velhos Testamentos.

No porto principal do continente recebeu-o o mesmíssimo ministro das Terras e Colonização, que em vez de Lhe outorgar um ou dois pergaminhos, lhe deu um cheque em branco com a sua assinatura e uma recomendação para o bordel Gudiza, templo onde East proclamou com amoroso impulso a sua energia sexual e as ideias revolucionárias das escrituras no meio das arroubadas discípulas, que lhe deram uma despedida de marajá quando um mês depois confirmaram que o cheque tinha mesmo

cobertura.

Com sabedoria ancestral East absteve-se de voltar a Gema e os seus camaradas anarquistas escreveram nA República um artigo sobre o assunto que consistia só num título: "East ficou no West."


Com a auréola profética de East excomungada do horizonte, sentiu Stamos Marinakis, o primeiro dono do armazém O Europeu, que o candidato mais estridente a cortejar Marta Matarasso se auto-excluíra do papel de potencial noivo, e decidiu-se a exibir perante a belíssima donzela as suas virtudes económicas e os seus atributos físicos. As primeiras eram evidentes. Ninguém no Adriático, piratas incluídos, podia competir com a sua fortuna. Túlipas holandesas, ourivesaria da Costa do Marfim, esmeraldas brasileiras, chocolates vienenses, caviar iraniano, sapatos italianos, fonógrafos RCA Victor A Voz do Dono, foram alguns dos iscos com que despovoou o redil dos aspirantes, conseguindo correr pela humilhação da riqueza com meia dúzia deles.

No que toca aos atributos corporais, não se pode negar que na época Stamos Marinakis cultivava um cabelo com uns caracóis sobre a testa que lhe davam um terno aspecto de propaganda láctea para bebés, e que ocultavam às mil maravilhas as profundezas do seu apetite. Uma amostra deste, de que foi inventor o próprio burgomestre de Gema, cidadão de alma gentil e estilo epistolar lacrimogéneo que salvaria da sua solidão vinte anos depois Jerónimo Franck, é a da competição na arte de deglutir ostras, em que Stamos não se contentou com ter feito o serviço a cento e vinte unidades, e se pôs a comer a última da bandeja com concha e tudo. Os seus dentes tremularam conforme rezava um artigo de Mar e Futuro, mas animado de uma ferocidade jactanciosa succionou a pétrea cobertura do molusco deixando pálidos os seus rivais.

A partir de então, os ilhéus alcunharam-no carinhosamente de Abre-Latas. Vestido qual gladiador romano, camisas de peitilhos alegrados com incrustações de filigranas e um

fuminho de veludo que sabia levantar com graça a sua maçã-de-adão, Stamos apresentou-se perante Marta Matarasso como um ser solar e prepotente, um empresário grego a quem a fatalidade pusera à frente de um imundo barracão, e cujo único consolo nesta terra seria que a bela colmada de virtudes e regalos aceitasse casar-se com ele e fundar uma família que desse progresso e glória à ilha dos nossos antepassados.

Em termos práticos, explicaram as tias à bela órfã, estavam a oferecer-Lhe ser a rainha de Costas de Malícia e recomendaram-lhe que evitasse pôr-se com melindres porque os comboios expressos só param uma vez na estação e nunca mais voltam.

Tanto as suas pragmáticas tias, que tinham feito grandes sacrifícios para a criar, como os vizinhos desejosos de assistir à boda do século, fizeram ouvidos de mercador à informação que Mote Vranicic, guarda-livros da Escola Rural Ade Faride, pusera a circular na mesma noite em que o Gema Express empatou a dois golos com o Turim de Itália, graças a Tadeo Moulian ter defendido um penalty aos oitenta e cinco minutos à equipa visitante.

O match fora tão intenso que apesar dos barris de cerveja vertidos para a bexiga ninguém se dispôs a sair para os sanitários e quando o árbitro deu a apitadela final os tifosos desbocados precipitaram-se para os urinóis praticamentecorrendo de membro no ar. Mote Vranicic, tal como o resto dos espectadores, não tinha outro desejo senão esvaziar e fechou os olhos diante da parede carcomida de urinas gozando do prazer elementar da evacuação. Já a meio caminho, e sob os efeitos da urgência superada, só ergueu as pálpebras para descobrir o Abre-Latas, que com os olhos velados e em posição de êxtase, lançava um jorro turbulento e eterno.
Não a mariquice, mas simples curiosidade, levou a vista do Mote da catarata ao órgão que a emitia, e ao ver o seu comprimento e grossura sentiu que o resto do líquido se lhe aconchegava na garganta. Com aquela ferramenta, filosofou, Stamos Marinakis seria capaz de partir ao meio não só uma ostra mas também um tanque.

Nessa mesma noite pôde comentar o incidente. O empate com uma equipa de tantos pergaminhos trouxe os ilhéus à glória e os tifosos do Gema às tabernas, onde uma rodada de slivovitz cortada com cerveja levou o Mote a contar o que acabava de ver com os seus próprios olhos, narrando-o com a sua língua realista mágica. Para sublinhar as frases tapava as pálpebras com as duas mãos e abanava a cabeça como se quisesse livrar-se de um pesadelo. Os paroquianos retiveram esse dado, e embora ao princípio atribuíssem o relatório a uma alucinação do guarda-livros, não puderam evitar nos dias seguintes que acompanhassem as suas compras no armazém O Europeu com sub-reptícias olhadelas de soslaio para a braguilha de Stamos.



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