Antologias de ensaios e a identidade nacional: representaçÕes do brasil



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ANTOLOGIAS DE ENSAIOS E A IDENTIDADE NACIONAL: REPRESENTAÇÕES DO BRASIL

Luciana Cristina Ferreira DIAS1 (Professora Assistente Língua Portuguesa- UNICENTRO) e-mail: diaslucian@yahoo.com


PALAVRAS-CHAVES: análise do discurso, antologia de ensaios; identidade nacional; ensaios.

RESUMO: Considerando a problemática acerca da identidade nacional nos estudos de perspectiva discursiva (Pêcheux, 1990; Orlandi (1999), este trabalho busca refletir sobre a construção de sentidos sobre o Brasil, tendo em vista duas antologias de ensaios que foram publicadas em virtude dos 500 anos do Descobrimento do Brasil: Nenhum Brasil existe (João Cezar Rocha), Intérpretes do Brasil (Silviano Santiago). Neste trabalho trago para cena um exame das representações de sentidos dominantes construídas na discursividade das antologias de ensaios, numa relação entre texto e memória.



  1. Introdução:

Este estudo parte de uma preocupação com a construção de sentidos sobre a identidade nacional brasileira, tomando-se como base o espaço das discursividades de antologias de ensaios de múltiplos autores.

Ancorado na Análise do discurso de linha francesa (PÊCHEUX, 1998; 1990; ORLANDI, 1999; 2001; SERRANI, 1993), o trabalho volta seu olhar para um tipo específico de produção de conhecimentos, dentro da esfera acadêmico-intelectual, a produção de antologias ou volumes de ensaios2.

Em termos de estruturação, o artigo se divide em duas partes. Na primeira parte, será apresentado um panorama geral do campo da análise do discurso e alguns conceitos-chave para este estudo. Na segunda parte, prodecerei a uma análise acerca das representações dominantes de Brasil e cultura nacional construídas nas coleções de ensaios, tendo em vista as antologias escolhidas (cf, SERRANI, 2006: 98).


2. Método da Análise do discurso: antologias como material de análise
A fim de constituir um espaço de análise a respeito de produções do saber como as antologias, envolvi-me em um trabalho de levantamento de antologias ou coleções de ensaios de múltiplos autores produzidas na última década no Brasil (o período considerado foi de 1997-2007) a partir de pesquisas em bibliotecas e na internet. Embora o critério de delimitação esteja circunscrito às antologias de múltiplos autores, ainda assim foi levantado um número considerável de trabalhos dispersos em áreas diversas, em tamanhos diferentes.

Do material levantado, selecionei para o estudo dois trabalhos, a saber: Nenhum Brasil existe, organizada por João Cezar Rocha, Intérpretes do Brasil, organizada por Silviano Santiago.

Vale dizer que este trabalho se insere no quadro teórico da Análise do discurso desenvolvida na França a partir de 1960, que teve em Michel Pêcheux, seu maior representante. Este campo trouxe de especificidade ao trabalho analítico acerca das antologias a consideração de uma interdependência entre materialidade lingüística e interdiscurso, que, por sua vez, está estreitamente ligado à noção de memória discursiva.

Acreditamos que a memória histórico-cultural do país ganha corpo na textualidade (cf. ORLANDI, 2001), na formulação dos sentidos que constituem a textura dessas coleções. Outro autor que também nos inspirou na análise dessas discursividades é Foucault (1969:141). A partir das discussões propostas por esse autor, nos interessa compreender o campo de elementos antecendentes em relação aos quais a antologia, como conjunto de enunciados, se situa, aquilo que constitui seu passado, a define, mas que tem o poder de reorganizá-la, redesenhando aquilo o que a torna possível, segundo relações novas.

Em termos de análise, considero que a antologia se trata de uma construção discursiva que se ancora num eixo norteador. Também, trabalho na confluência dos eixos intra e interdiscursivo (PÊCHEUX, 1998) ou nos termos de Orlandi (2001) busco examinar a textualização da memória sócio-cultural brasileira na tessitura das antologias de ensaios.
3. Discussão:
A partir da interdependência entre intradiscurso (eixo da formulação, da ordem do texto) e interdiscurso (eixo da memória), o estudo tem como objetivo examinar os sentidos predominantes sobre o Brasil e sua cultura, tomando-se como base duas antologias de ensaios publicadas por ocasião dos 500 anos do Brasil.

Em termos de análise, busquei examinar a macro-estrutura das antologias (SERRANI, 2006) a partir do estudo tanto do título das coleções (gestos de nomear as antologias) quanto das partes, dos ensaios introdutórios, dos posfácios, de notas bibliográficas e dos apêndices.

A respeito da primeira antologia analisada Nenhum Brasil existe, é válido considerar que a antologia como construção discursiva traz como representação dominante sentidos de que o Brasil é vazio, na medida em que nenhum brasil existe. Tal frase nominal uma ressoa o tempo todo na antologia e de forma contraditória convoca sentidos de que essa não-existência é traduzida em volumes alentados de ensaios (o que garante uma concretude ao país). .

a antologia Intérpretes do Brasil de Silviano Santiago mobiliza sentidos de que o Brasil é visto por um conjunto polifônico de vozes variadas que atribuíram sentidos ao país. Tal multiplicidade de vozes que compuseram a produção de saberes sobre o Brasil se constitui numa dispersão de vozes que ao mesmo se representam como unidade. Uma dispersão que busca compreender a complexidade nacional significada pela formulação Brasil, nosso claro enigma, uma contradição que encerra os sentidos do país.

Nesse sentido a antologia textualiza desde o título tal memória de discurso sobre o Brasil, considerando representações predominantes de discurso ensaístico nacional marcado pela heterogeneidade, pela dispersão de textos e de autores. De todas as formas, não somente o título da antologia apresentado no plural reforça tal sentido de intérpretes do Brasil, de multiplicidade de visões e perspectivas, como também a confluência clássicos/ novos pensadores e intelectuais nacionais (que interpretaram esses clássicos) permitem a construção de uma representação predominante de discurso antológico enquanto aquele que agrupa vozes diversas.

Outra representação dominante da antologia Intérpretes do Brasil diz respeito ao fato de que a antologia emerge como memória esquecida ou como lugar do “fazer injustiça”. Muitos autores injustiçados, ilustres desconhcecidos são lembrados, pois foram esquecidos. Dessa forma, para que os autores sejam lembrados, outros são excluídos do espaço da memória sócio-cultural.




  1. Considerações finais:

Duas questões relativas à memória do dizer merecem destaque. Primeiro, é válido destacar que as representações de sentidos dominantes construídas nos discursos antológicos sobre o Brasil e nossa identidade nas coleções analisadas neste estudo apontam para pontos de equivocidade no/do jogo do texto e da memória a partir de sentidos contraditórios que significam o Brasil como ausente/presente, vazio/permeado pelo outro, Brasil claro enigma.

Segundo, é possível dizer que a memória sócio-cultural brasileira que ganha corpo nas antologias é constituída por lembranças e esquecimentos: ou autores são relembrados e outros esquecidos no espaço antológico, ou sentidos outros (o Brasil não tem essência, o Brasil é incógnita que atordoa, o Brasil que em nome do progresso torna-se máquina de matar), Brasil que pode e deve ser visto pela ótica do trágico são trazidos à baila como possibilidades de sentidos que precisam ser lembrados, ouvidos e resignificados.
6. Referências bibliográficas:
FOUCAULT, Michel “A Arqueologia do Saber”. Trad. Luiz Baeta Neves. Rio de Janeiro: Forense - Universitária. 1987 (1ª. Ed. 1969)

ORLANDI, E. “A Linguagem e seu Funcionamento”. As Formas do Discurso. Campinas, Pontes. 2ª ed. rev. e aum, 2007

ORLANDI, E. “Análise do discurso”: Princípios e procedimentos. Campinas: Pontes, 1999.

PÊCHEUX, M. “Semântica e Discurso”. Uma Crítica à Afirmação do Óbvio. Trad. Eni P. de Orlandi et alii. Campinas: Editora da UNICAMP, 1988

SERRANI, S. “A linguagem na pesquisa sociocultural”. Um estudo da repetição na discursividade. Campinas: Editora da UNICAMP, 1983

SERRANI, S. Identidade e representação do Brasil em antologias poéticas bilíngües. In: Coracini, M, Grigoleto, M e Magalhães, I. “Práticas identitárias em Lingüística Aplicada”. São Paulo: Parábola, 2006.




1 Doutoranda em Lingüística Aplicada pela Unicamp sob a orientação da Dra. Silvana Serrani e professora assistente na área de Língua Portuguesa, na Universidade Estadual do Centro-Oeste (Guarapuava-PR).

2 O trabalho ora apresentado é parte das discussões desenvolvidas na tese de doutorado Embates, debates e rebates de idéias e visões sobre o Brasil em antologias de ensaios: identidade, memória e leitura.






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