Antropologia do cinema



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CANEVACCI, Massimo. Antropologia do cinema: do mito à indústria cultural. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Brasiliense, 1990. 175 p. ISBN 8511220038.
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Antropologia do cinema.
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Glauber Rocha e a estética da fome

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Massimo Canevacci
ANTROPOLOGIA DO CINEMA
DO MITO À INDÚSTRIA CULTURAL
Tradução:

Carlos Nelson Coutinho


2º edição

revista e ampliada


editora brasiliense
Página 04
Copyright © by Massimo Canevaccim 1988

Título original em italiano: Antropologia del Cinema

Copyright da tradução brasileira: Editora Brasiliense S.A.

Nenhuma parte desta publicação pode ser gravada, armazenada em sistemas eletrônicos, fotocopiada, reproduzida por meios mecânicos ou outros quaisquer sem autorização prévia do editor.


ISBN: 85-11-22003-8

Primavera edição, 1984

2ª edição, revista e ampliada, 1990
Preparação de originais: Frederico G. Carotti

Copydesc: Francisco José M. Couto

Revisão: Maurício Bichara e Rosemery C. Machado

Capa: Ettore Bottini


Rua da Consolação, 2697

01416 São Paulo SP

Fone (011) 280-1222 – Telex: 11 33271 DBLM BR
Impresso no Brasil.
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Sumário
A ideologia, a hipo-estrutura e o cinema - 7

O “espírito” do cinema - 31

O gênero - 77

Antropomorfismo, fisionômica, cinecentrismo - 87

O riso - 109

O comportamento - 131

Conclusões: Pneuma mimético -157
Página 06: Em branco.
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A ideologia, a hipo-estrutura e o cinema
“Durante séculos, a humanidade preparou-se para Victor Mature e Mickey Rooney.”

Adorno-Horkheimer


Introdução sobre a arcaicidade e a historicidade da ideologia
Nos planos da especulação tanto metafísica quanto racionalista, houve sempre a obsessão de um controle forçosa- mente universal das camadas sociais antagônicas às classes dominantes, em cada oportunidade, assim como dos indivíduos singulares. Esse é o problema da ideologia, cuja essência mais íntima é freqüentemente mal-entendida: ou seja, a ideologia é geralmente considerada como uma consciência “falsa”, entendendo-se com isso uma concepção do mundo errada, equivocada e, portanto, “irreal”, sem nenhuma relação de verdade com a Concreticidade do próprio mundo. Ao contrário, o que havia de falso na ideologia — e ainda há — é a pretensão de universalidade, que tenta representar puras visões do mundo de toda a
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humanidade como algo socialmente realizado. Essa pretensão de absoluto, que de resto teve mais sucesso do que se pensa, pôde conquistar seu objetivo somente mediante a arte de esconder a sua intrínseca natureza de classe, ou, melhor, de parte. A ideologia é uma particularidade facciosa que tem a ambição de desenvolver uma hegemonia universal, a fim de exercer uma função de controle no terreno da cultura e de poder em face da totalidade das pessoas às quais se dirige, sem nenhuma exceção. Aliás, ela é obrigada a isso, na medida em que alcança uma plena satisfação, adequada ao seu conceito e à sua utilidade, somente quando realiza esse movimento dialético total e, ao mesmo tempo, quando o esconde com o máximo cuidado’.
Por isso, a ideologia — mesmo sendo “falsa” (e, aliás, precisamente por isso) — é prãxis concreta de classe e de parte, que, a partir do terreno das idéias, atua sobre as relações sociais e culturais em seu mais vasto significado antropológico. Essa relação social — a ideologia — tem uma origem material arcaica, que penetra do interior do pensamento mágico e mitológico; para compreender isso, é preciso que se deixe de confundir esse conceito de “material” com algo brutalmente físico, mas se estenda a noção ao conjunto das conexões histórico-estruturais e psicoculturais, também de tipo simbólico.
S é verdade que a origem do termo “ideologia” pode ser datada historicamente no interior da dinâmica da Revolução Francesa — e, em certo sentido, é seu resultado mais puro e “espiritual” —, isso não quer dizer que foi a era burguesa, nos locais e nos tempos de seu máximo heroísmo, que inventou, por assim dizer, essa questão 2 A ideologia, portanto, não é absoluta, como o pretendem muitos “materialismos” que a ligam apenas à burguesia, ou tantos “idealismos” que a consideram uma condição perene do ser humano: ao contrário, é algo que se transforma
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1. Como veremos mais detalhadamente em seguida, essa acepção do conceito de ideologia torna-a singularmente afim ao Conceito de máscara, tal como, em particular, esse último foi desenvolvido num interessante ensaio de Alessandro Fontana. Assim, a máscara ao mesmo tempo mostra e esconde, numa figura ambígua e inapreensível, o não-dito do discurso, o não-enunciável da história, aquilo que a razão nega, recusa ou rechaça” (“La scena”, em Storia d’Italia, vol. 1, Turim, Einaudi, 1972, p. 850).

2. É óbvio que a lei da gravidade existia antes de Newton, assim como a lei da relatividade existia antes de Einstein.


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historicamente. Por um lado, é necessário dilatar sua invenção temporalmente, a fim de situar seus inícios no interior das formas mais arcaicas da cultura humana; por outro, seu uso atual se expande sociológica e psicologicamente, envolvendo vários estratos sociais, que não mais podem ser definidos somente com base em inserções específicas nas relações de produção. Finalmente, essa dilatação do tempo, no interior da dimensão histórica e pré-histórica da humanidade, e essa expansão no espaço, no interior da dimensão psicocultural da atual sociedade, têm canais subterrâneos de comunicação através dos quais o passado consegue influenciar o presente. O homem sempre teve necessidade de ideologias, desde quando — com a afirmação da consciência de si — contrapôs-se à natureza e aos outros homens, a fim de exercer sobre ambos sua própria dominação.
Assim, a ideologia — mesmo não sendo redutível a uma lei de natureza, apesar das ambições dos primeiros ideólogos (e dos últimos) — prolonga a motivação mais profunda da sua origem até a oposição entre o homem social, histórica, especificamente determinado, por um lado, e a natureza objetivamente dada, por outro. Natureza com angústia, como aquele “outro” irredutível que deve ser domado, controlado, tornado funcional aos interesses da civilização. Natureza que não é somente a objetividade externa, mas também a que é interior ao homem, o qual, em seus esforços para dobrar a natureza às suas próprias necessidades, dobra também a si mesmo.3 Desse modo, as raízes da ideologia mergulham até a mais arcaica mitologia, que pela primeira vez se colocou como tarefa a conexão entre explicação e dominação da natureza, e daí se transferem para a religião, a filosofia, as ciências humanas e sociais.
Nota de rodapé
3. Cf. o trabalho de A. Schmidt, ii concetto di natura in Marx, Bari, Laterza, 1969, Nele, a reconstrução não acadmica do pensamento de Mara sobre a natureza chega à conclusão de que a rção entre história e natureza, entre sujeito e objeto, não é uma relação entre entidades cindidas entre si, mas sim mediatizadas pelas práxis.

4. Urna importante análise histórica sobre esse tema, que vai das origens ao crepusculo dos idéologues, está em S. Moravia, Tramonto dell’Jlluminismo, Bari, Laterza, 1966. Bem mais penetrante, contudo, de um ponto de vista sociológico caracterizado por uma forte marca interdisciplinar, é toda a obra da escola de Frankfurt, para a qual o estudo da ideologia é uma constante difusa em toda Pesquisa ou reflexão, Mais sistemático é o capítulo sobre a ideologia das Lezioni di sociologia, do Instituto para a Pesquisa Social de Frankfurt, editadas por


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Os ideólogos franceses — les idéologues4 — afirmavam que se deveria aplicar também à ciência das idéias aquele mesmo rigor científico que, no século XVIII, estava sendo cada vez mais aplicado a qualquer ramo da ciência da natureza, para com isso realizar a mesma otimização de resultados “cientificamente objetivos”. A ideologia — para Destutt de Tracy, inventor do termo e um dos maiores idéologues — deve ser uma parte da zoologia e da botânica.5 Aplicando matemática e física aos produtos das idéias, pode-se finalmente chegar a uma objetividade universalmente aceita, que suceda à “superstição” religiosa. O aspecto progressista desse materialismo sensualista reside no fato de que, embora não faça distinções entre músculos, plantas e idéias, afasta essas últimas — ou pretende afastálas — da sua suposta origem metafísica. Desse modo, as idéias

— consideradas não mais divinamente criadas e, portanto, em certa medida, algo sempre incontrolável por causa da sua origem transcendente — tornam-se todas elas socialmente utilizáveis e fungíveis, sob a jurisdição da racionalidade laica. E, todavia, essa utopia zoológica (que, entre outras coisas, diz muito sobre os aspectos mais revolucionários do espírito burguês) foi vista com suspeita por aquele mesmo poder que, desembocando no bonapartismo, encarou como um perigo essa tentativa “objetiva” empiricamente projetada. Assim, por mais moderados que fossem os idéologues — com relação, por



Adorno e Horkheimer, Turim, Einaudi, 1966, pp. 147-166 (ed. brasileira: M. Horkheimer e T. Adorno (orgs.), Temas básicos da sociologia, São Paulo, Cultrix, 1973, pp. 184-204).
Nota de rodapé
5. Destutt de Tracy, Eléments d’idéologie, Bruxelas, 1826; cf. AdornoHorkheimer, Lezioni di sociologia, op. cit.: “O termo ‘ideologia’ deve-se a um dos maiores fdéologues, Destutt de Tracy. Vincula-se ao empirismo filosófico, que atomiza o espírito humano para esclarecer o mecanismo do conhecimento e relacioná-lo com os critérios da verdade e adequação do pensamento, mas a intenção de Destutt de Tracy não é nem gnosiológica nem formal: ele não busca no espírito as simples condições de validade dos juízos, mas quer chegar até a observação dos próprios conteúdos da consciência, até os fenômenos ideais, decompô-los e descrevê-los tal como se faz no caso dos objetos naturais (como, por exemplo, um mineral ou uma planta). A ideologia — escreveu ele, de certa feita, com formulação intencionalmente provocativa — é uma parte da zoologia” (ibidem pp. 208-209). E ainda: “A sua ciência das idéias — a ideologia — deve alcançar certeza e segurança semelhantes ás da matemática e da física; o rigor metodológico da ciência deverá pôr termo, de uma vez por todas, à arbitrariedade e à variabilidade indiferente das opiniões” (ibidem).
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exemplo, ao radicalismo dos “iguais” —, também eles foram postos fora da lei.6
A miséria da burguesia reside nisto: ela conseguiu chegar aos conceitos de liberdade, justiça, igualdade, a usá-los para seus próprios interesses de classe (ou seja, de absoluta parcialidade), mas foi imediatamente obrigada a bloquear aquele movimento histórico-social que, de sua parte, levara a sério esses conceitos, pretendendo sua imediata realização material. A paralisia e a posterior reprivatização dos conceitos de liberdade, felicidade, etc., obrigou assim tanto o pensamento quanto o Estado burguês a fazerem um acordo com as formas pré-capitalistas da ideologia, em particular com a religião. Com efeito, essa é uma forma de ideologia mais complexa do que a propriamente burguesa, na medida em que tem uma elasticidade interior que lhe permite adequar-se a modos de produção muito diversos entre si (especialmente quando é depurada de seus próprios “peca- dos” temporais), qualidade que provém em grande parte do fato de ter resolvido, mais do que qualquer outra ideologia, a questão universal da morte, que o materialismo se obstina em liquidar como um dado inelutável e “normal”. Além disso, a religião desloca a conciliação entre conceito e realidade para o Apocalipse, ou, mais banalmente, para o Reino dos Céus: por isso a felicidade — negada explicitamente neste mundo — pode continuar a existir no outro. E, precisamente por causa dessa defasagem, a ideologia burguesa — cujos interesses são todos profanos — conseguirá inicialmente quebrar a hegemonia religiosa. Por isso, é “lógico” que a clareza terminológica e projetual da ideologia nasça somente na era da revolução burguesa, e que
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6. Diz Napoleão, numa passagem citada por Pareto: “É à ideologia, essa tenebrosa metafísica que, investigando com sutileza as causas primeiras, visa a fundar a partir delas a legislação dos povos, ao invés de adequar as leis ao conhecimento do coração humano e às lições da história, que se devem remontar todas as desgraças sofridas pela nossa bela França. Esses erros deviam levar — e efetivamente levaram — ao regime dos sanguinários. Com efeito, quem proclamou o princípio da insurreição como um dever? Quem aduloú o povo, proclamando- lhe urna soberania que ele é incapaz de exercer? Quem destruiu a santidade e o respeito pelas leis, fazendo-as depender não dos sagrados princípios da justiça, da natureza das coisas e do ordenamento civil, mas apenas da vontade de uma assembléia composta por homens alheios aos conhecimentos das leis civis, criminais, administrativas, políticas e militares?” (cit. em V. Pareto, Tratatto di sociologia generale, Milão, Comunità, vol. II, S 1793, nota).
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sua aporia insolúvel resida em tornar pública a verdade (como a igualdade) e, imediatamente depois, reprimi-la. Desse modo, não realizando a utopia de universalidade objetiva segundo suas intenções, a ideologia regride cada vez mais a ser justificação, terminando por se aliar com a mais velha e desgastada religião.
O destino da ideologia será o de não ser jamais completamente verdadeira, nem, ao contrário, completamente falsa. Isso significa que não é certamente falso o conceito de liberdade, mas também que não é certamente verdadeira a sua realização histórica. As ideologias “podem ser verdadeiras ‘em si’, como o são as idéias de liberdade, de humanidade, de justiça, mas não são verdadeiras na medida em que têm a pretensão de já serem realizadas” 7.
Em conclusão, a essência da ideologia deve ser estendida e articulada com o conjunto das conexões histórico-sociais e psicoculturais, que não se referem apenas à dimensão ontogenética do indivíduo singular, biológica e socialmente determinado, com suas articulações dicotômicas relativas à estrutura de classe, às relações de produção, à divisão do trabalho, mas também com a dimensão filogenética (pouco materialisticamente ignorada pelo materialismo), relativa à gênese da espécie, à dialética sujeito-objeto, assim como esta se constituiu desde a mais arcaica humanização do homem, quando se cindiu e se contrapôs ao resto do mundo animal.8 Aliás, pode-se definir a pergunta sobre a origem do homem, a sua finalidade e o seu fim como a pergunta das perguntas, que se reproduz em cada geração, independentemente dos diversos modos de produção, e que coloca todas as
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7. Adorno-Horkheimer (eds.), Lezioni di sociologia, op. cit. p. 221. E mais: “a ideologia, com efeito, éjusqficação” (ibidem p. 212). O grifo é dos autores.

8. “Se quiséssemos datar mais especificamente a gênese do homem, escolheríamos o momento em que, entre os mamíferos, a família dos homínidas distingui-se das outras famílias da ordem dos primatas. Essa separação dos caminhos genéticos assinala um ponto do qual não mais se retrocederá. Para os homínidas, ela eliminou a possibilidade de se tornarem hylobatidae (por exemplo, gibões) ou pongidae (por exemplo, orangotangos, chimpanzés, gorilas). Uma vez que os progenitores dos homínidas superaram essa bifurcação (e a superaram tomando precisamente o caminho dos homínidas), restaram-lhes apenas duas alternativas:

ou se tomavam humanos ou não conseguiriam sobreviver. Com efeito, o ónico gênero da família dos homínidas que sobreviveu foi o gênero homo, e, no interior do genus homo, a única espécie que ainda sobrevive é a do homo sapien’ (A. J. Toynbee, Mankind and mother Eatrh, Oxford University Press, 1976; trad. italiana, II racconto dell’uomo, Milão, Garzanti, 1977, p. 32).
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condições com base nas quais qualquer resposta dada não pode deixar de ter uma forma ideológica.9 Isso significa que a ideologia não é determinada somente pelo capital, a partir do momento em que — conquistado o poder — ele tem de controlar o trabalho assalariado: ao lado dessa origem, sob ela e, em parte, dentro dela, pode-se entrever como algo cada vez mais autônomo e essencial a ideologia originária, ligada tanto aos modos de produção pré-capitalistas quanto à mais ampla relação homem-natureza, que se realiza como dominação sobre a natureza, sobre os outros homens e sobre o próprio si mesmo, Os sedimentos mágicos, mitológicos e rituais dessa extensão da dominação chegaram, com toda a sua carga subversiva-regressiva, até nossos dias, transfigurados na e pela moderna ideologia.
Talvez os próprios Marx e Engels tenham liquidado de modo muito apressado e otimista aquela reprodução de ideologias que continua a ocorrer dentro desse modo de produção, mas cuja origem — estando fora dele — remete àquela relação homem-natureza que é mediatizada, mas não anulada, social- mente. Por isso, as questões colocadas pela morte (que tinham sido enfrentadas pelo materialismo antropológico de Feuerbach) ou pelo sexo (que o serão pela psicanálise de Freud) não são determinadas apenas pelo sistema de produção. Nem mesmo “em última instância”. O homem “natural” não é reassumido pelo homem “social”, segundo o esquematismo sociológico imperante, assim como tampouco ocorre o inverso, apesar das fixações de algumas escolas etológicas.
Com relação aos problemas com que nos defrontamos nesta sociedade tardo-capitalista, deve-se rechaçar a ilusão — também ela ideológica — segundo a qual a ideologia seria o reflexo, ou “imediato” ou “dialético “, dos vários modos de produção. Uma vez descoberto o truque — de resto, tão banal —, as massas teriam de sair facilmente da “pré-história” para re

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9. Sobre essas questões, cf. Robin Fox (cd.), Biosocial anthropology, Association of Social Anthropoiogist of Commonweafth, Londres, 1975, trad. italiana, Antropologia biosociale, Roma, Armando, 1979. Deve-se ressaltar, em particular, o conceito de “imprinting”, segundo o qual o organismo humano parece ter penodos críticos para aprender certas coisas em determinados momentos e não em outros. E ainda, C. S. Coon, The siory of mim, 1954 (trad. italiana, Storia dell’uomo Milão, Garzantj, 1956), em particular a sua explicação do mito de Pandora em relação à consciência da morte (pp. 78-79).
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tomar em suas mãos o próprio destino. Ao contrário, isso não ocorreu e jamais ocorrerá, porque as coisas são mais complicadas: qualquer pessoa de escolarização recente é capaz de pronunciar uma filípica contra a manipulação de massa com a mesma seriedade ritual com que outrora recitava o ato da dor. E, todavia, a manipulação continua a se difundir hierarquicamente sem obstáculos.
A denúncia apenas histórico-estrutural da ideologia é, por sua vez, ideológica. Trabalha astuciosamente para reforçar a dominação que se tornou cada vez mais complexa e difusa em comparação com a clareza dicotômica do tipo “operário e capital” de oitocentista memória (se é que alguma vez o foi).’° A indignação contra a manipulação é o último “scoop “patrocinado pela ideologia.’1 Por isso, o confinamento prescrito para as ideologias no limbo das superestruturas — como se elas recusassem tanto o status de carne somente pecadora quanto o de alma inteiramente santa — deve ser considerado sempre como destino definitivo, de onde é presumível que não deverão jamais sair materialisticamente purificadas, e, menos ainda, espiritualisticamente. E isso porque a superestrutura jamais foi apenas superestrutural, assim como a estrutura nunca foi apenas estrutural. Essa verdade é ainda mais evidente na era da unificação pós- industrial. Assim, a afirmação segundo a qual somente quando se realizar a socialização da produção será possível falar de libertação e de felicidade é a mais vulgar das ideologias que a esquerda “histórica” produziu, e que conseguiu, com pleno êxito,
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10. M. TronO, Operai e capitale, Turim, Einaudi, 1966, p. 33. Essa análise é interessante no que se refere à justiça da regressão ideológica do movimento operário (“Marx não é a ideologia do movimento operário: é sua teoria revolucionária”, p. 34); mas esquece de dizer que foi precisamente Lênin quem usou o conceito (e não apenas a palavra) de ideologia em seu significado à Destutt de Tracy, o qual se estendeu depois a todo o pensamento “terceiro-internacionalista”. Em segundo lugar, esquece que a ideologia como mistificação e justificação está presente tanto nas formas de produção pré-capitalistas como no corpo da classe operária. Cf. Lênin, Chefare?, Roma, Editori Riuniti, 1968, em particular p. 73 (cd. brasileira: Que fazer?, in Lênin, Obras escolhidas, São Paulo, Alfa Omega, tomo 1, 1979), onde o editor, numa nota de rodapé, na tentativa de solucionar a aporia leniniana, agrava-a ainda mais.

11. Cf. o astucioso sucesso, com quatro Oscar, de um filme vulgar como Rede de intrigas, que não casualmente realizou o verdadeiro objetivo para o qual fora “imaginado”, com reapresentaçóes non-stop em todo o sistema de redes de televisão norte-americanas, graças ao seu altíssimo “índice de audiência”.


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fazer com que se tornasse herança da esquerda “nova”. Tal afirmação é mais reacionária — em seu determinismo positivista — do que as piores metafísicas, as quais, pelo menos, continuam a se enganar na ilusão de que algo diverso deverá de qualquer modo existir além dessa vida. Na era da comunicação de massa, a ideologia perde aquela sua essência, que era característica de seu significado e de sua função nos anos progressistas da burguesia, inclusive graças à facilidade irrisória com a qual os mass media (em particular o cinema) penetram na psique humana, posta na condição mais literal de espectadora.
A ideologia se petrifica. Sua moldura utópica cai progressivamente; a adequação às condições de existência dadas é a única possibilidade prevista, exceto os desvios, que são ou suportados ou domesticados. Essa adequação não é mais buscada pelas classes dominantes mediante a dominação explícita, porém cada vez mais — na medida em que isso seja compatível

— tentando conquistar a psique das subjetividades que se coloca em oposição através da difusão de novas formas “conciliadoras” da “espiritualidade burguesa”. O exercício do controle indireto alia-se facilmente às zonas mais secretas do id (contra o qual, outrora, dirigia-se apenas uma função repressora), através da organização eficiente do agente do comando social dentro do indivíduo que é o superego. Na sociedade contemporânea, o superego torna-se cada vez mais ambíguo, como se fizesse um duplo jogo: por um lado, como a tradição, pressiona o ego a reprimir o id, por outro, induz à libertação de instâncias incontroláveis para melhor dominar o próprio ego. Segundo Reimut Reiche, algumas tendências repressoras de dessublimação, que nascem do superego coletivo e alienado, estabelecem uma “execrável aliança” com algumas inundações pulsionais: “A situação que é assim proposta, pelo menos em parte, é bastante inédita tanto para a psicanálise teórica e prática quanto para a luta política. o superego alienado e fragmentario se une com as unidades infantis do id, para criar uma frente única contra o ego, uma frente diante da qual este rapidamente terá de ceder”2

12. R. Reiche, Sessualitá e lotta di classe, Bari, Laterza, 1969, pp. 202-203. O texto, Infelizmente esgotado há tempos, tem ainda notável importância para a investigação da práxis sexual no capitalismo avançado.



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