Antropologia personalista de Emmanuel Mounier



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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS

INSTITUTO DE FILOSOFIA E TEOLOGIA DOM JOÃO RESENDE COSTA

CURSO DE FILOSOFIA

ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA - II

PROF. LEONARDO LUIZ ESTEVES SEABRA

AS DIMENSÕES AUTOCONSTRUÍDAS PELO HOMEM PARA A COMUNHÃO COM A ALTERIDADE

EM EMMANUEL MOUNIER

GLEISSON KLEBERT DE MELO

4° PERÍODO – MANHÃ

BELO HORIZONTE, 01 DE NOVEMBRO DE 2002


Feliz de quem descobre


que, ao lado de descansos

físicos,


há descansos espirituais...

Sem dúvida,

quando o corpo se estende

na cama e adormece,

é tal a unidade humana

que o Espírito também

repousa...

Mas há descansos

específicos do Espírito

como o mergulho na

natureza,

a música, o papo com

amigos

e, quando se tem



a felicidade de ter fé,

o papo com Deus, que nem

precisa de palavras...

Se o descanso físico

repercute no espírito,

o descanso espiritual

revigora, e como revigora!

o irmão Corpo...



Dom Helder Câmara


SUMÁRIO
I – INTRODUÇÃO...........................................04
II – CONTEXTUALIZANDO MOUNIER............................05

2.1 – Vida.........................................05

2.2 – Obras........................................10

2.3 – O conceito de pessoa ao longo da história....11

2.4 – Mounier e o Personalismo.....................17

III – ANTROPOLOGIA DE MOUNIER............................20


3.1 – Existência incorporada...................... 20

3.2 – Existência encarnada.........................23

3.3 – A transcendência do homem....................47

3.4 – A vocação do homem...........................29

3.4.1 – Vocação aos valores....................30

3.4.2 – Vocação à liberdade....................31

3.4.3 – Vocação ao compromisso.................33

3.5 – O outro – Afirmação do eu no tu..............37


IV – CONCLUSÃO...........................................41
V – APÊNDICE.............................................43
VI – REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA...........................45

I - INTRODUÇÃO

“O melhor espelho para o olhar do homem é o olhar de um outro homem...Um novo ser entra no campo imediato de minha vida, e tudo é posto em questão unicamente por essa presença.”1



A intenção primeira que tive ao falar da Antropologia Mounieriana foi a de escolher como tema “O Homem em Mounier”, mas, no decorrer dos trabalhos e das pesquisas, foi surgindo uma nova perspectiva de tema devido ao desenrolar da dissertação que nos foi sugerindo a lapidar melhor a temática. Ao fim da dissertação chegamos a conclusão de que nosso trabalho se enveredaria pelo horizonte das “Dimensões autoconstruídas pelo Homem para a Comunhão com a Alteridade em Emmanuel Mounier”.

Para tal, iniciamos, após a contextualização de Mounier e do termo pessoa ao longo da história da filosofia, mostrando as dimensões do homem enquanto indivíduo particular. Apresentamos em seguida sua existência incorporada e encarnada que nega o dualismo corpo e alma. Estes estudos nos levarão a sua dimensão de transcendência horizontal na qual ele supera estas duas últimas dimensões. Em seguida, apresentamos a vocação do homem como a busca de seu lugar no mundo para ao final, chegarmos a sua comunhão com a alteridade: sua afirmação do “Eu” no “Tu”.




II – CONTEXTUALIZANDO MOUNIER
2.1 – Vida de Emmanuel Mounier
“Emmanuel Mounier nasceu em Grenoble, na França, em 1° de abril de 1905, de família modesta. Até os dezenove anos, conviveu com seus pais, avós e uma irmã mais, Madeleine Mounier, em sua cidade natal. Desta origem e de sua infância, guarda uma grata recordação.
Infância vivida alegremente, plenamente. Mounier, sem dúvida alguma, era precocemente maduro, levado desde cedo à meditação. Desde jovem era capaz de perceber e viver, sem perder o equilíbrio e a alegria da juventude, a crueza da realidade: “...encontrar pessoas, isto era o que eu esperava da vida... e bem sentia o que isto queria dizer: encontrar o sofrimento”2.
Profundamente ligado ao caloroso ambiente familiar, era um adolescente precocemente maduro e votado à meditação, tanto mais que sua família era profundamente religiosa. Seus familiares perceberam estas suas características e quiseram, com muita afeição, mas sem a necessária clarividência, interferir na sua carreira. Orientaram-no para um estudo mais prático, a medicina, buscando compensar sua tendência à meditação.
Atendendo assim aos desejos dos pais, inscreve-se na Faculdade de Ciências. Contudo, sentia-se atraído pelas Letras e tal situação acabou por desgostá-lo levando ao desespero, seu primeiro sofrimento moral. Com efeito, foi num retiro espiritual que teve a revelação da “verdadeira humildade que eu ignorava, de minha vocação da qual duvidava”3.
Disposto a mudar de orientação, encontrou todo apoio da família; foi então apresentado pelo pai a Jacques Chevalier que, em Grenoble, ensinava filosofia. O jovem estudante visava estudar filosofia com vistas ao apostolado religioso. Entregou-se inteiramente ao estudo da filosofia sob orientação de Chevalier, ao qual se ligara por profunda amizade. Mounier considerou estes anos de 1924 a 1927 como “três anos fecundos mas muito lisos, não se estendendo à geografia de meu espírito”4.
Cristão convicto, durante estes anos de estudos filosóficos, engaja-se num apostolado leigo entre os estudantes, esclarecendo-os, sobretudo, quanto à crise da “Action Française”. Conheceu ainda Pe. Guerry, mais tarde arcebispo de Cambrai, e na ocasião, vigário de Saint Laurent, bairro operário de Grenoble. Com ele, visitou os bairros pobres da cidade tomando contato direto com a miséria. Isto o marcará para sempre recebendo talvez aí o seu “batismo de fogo da miséria humana”5.
Terminados os estudos em Grenoble, Mounier, com 22 anos de idade, parte, em 1928, para Paris, onde iria tentar o concurso oficial para o magistério. Em Paris, entra em contato com Jean Guitton, Jacques Maritain, assim como com o Pe. Pouget. Este era amigo e inspirador de Jacques Chevalier que lhe recomendava seus alunos ao partirem para Paris. Pe. Pouget, lazarista, era uma personalidade mística, um verdadeiro orientador espiritual em Paris nessa época. Foi o grande responsável pelo aprofundamento religioso de Mounier, bem como, por sua segurança teológica.
É aprovado no concurso, obtendo a segunda colocação logo depois de Raymond Aron. Recebe uma bolsa de doutoramento de três anos. Procura um assunto para sua tese aconselhando-se com seus novos mestres de Paris.

Pensa em temas como o pecado, mística espanhola, responsabilidade e ensino. Finalmente, decide, sob influência de Henri Delacroix, fixar-se sobre o tema da personalidade, tema para o qual convergirão suas preocupações futuras. No entanto, o problema da tese ficava de lado, em vista da preparação de um trabalho sobre Péguy, que, em colaboração com Marcel Péguy e Georges Izard, publicou em 1931: “La Pensée de Charles Péguy”, numa coleção lançada por Jacques Maritain.


Simultaneamente no magistério, em 1931 e 1932, ensina filosofia em Sainte Marie de Neuilly e no Liceu de Saint Omer. A redescoberta de Péguy e um maior amadurecimento diante da própria vocação acabam levando Mounier a abandonar a carreira docente universitária.
Com decisão já amadurecida, funda, com um grupo de amigos, a revista “Esprit”, porta-voz de todo um movimento espiritual que pretendia lançar. O movimento “Esprit” aparece como um movimento de jovens a reclamar um novo alento de vida sobre a civilização ocidental.
O primeiro número de “Esprit” data de outubro de 1932. Entre entusiasmo e ameaças, “Esprit” avança sendo interditada contudo em 1941 pelo regime de Vichy, mas reabrindo-se em 1944 e continuando, até 1950, sob a direção pessoal de Mounier.
De 1933 a 1939, Mounier oscila entre Bruxelas e Paris. Em Bruxelas, leciona no Liceu Francês, tendo fixado residência nesta cidade e casado com Paulette Leclerq em 1935. A influência da comunidade familiar sobre seu pensamento é simplesmente admirável: tendo encontrado em sua esposa uma pessoa com quem podia comunicar-se plenamente, a família tornou-se o próprio modelo da comunidade selada no amor. Deste feliz matrimônio, Mounier teve três filhas, sendo que a mais velha foi atingida por uma encefalia aos sete meses de idade ficando totalmente inconsciente. A esta dura provação, o casal soube dar uma generosa e cristã significação.
Em setembro de 1939, com o eclodir da guerra, Mounier é mobilizado. Foi feito prisioneiro pelos alemães sendo finalmente libertado e desmobilizado em julho de 1940. Transfere-se para Lião; “Esprit” continua aparecendo na zona livre apesar de todas as dificuldades da censura. A revista mantém-se censurada, mas, a 25 de agosto de 1941, é finalmente interditada por suas tendências gerais. Mounier aproveita então para retemperar as energias e continua escrevendo suas obras. Mas a 15 de janeiro de 1942, é preso como suposto membro do movimento “Combat”. Posto em liberdade provisória a 21 de fevereiro, sob residência vigiada em Clermond-Ferrand, acaba sendo submetido a 29 de abril do mesmo ano a um internamento administrativo em Vals. Para protestar contra a medida, declara, com alguns companheiros, uma greve de fome que dura 12 dias tendo sido novamente libertado. Mas a 8 de julho, chega nova prisão até o julgamento do processo de “Combat” a 26 de outubro, quando foi então absolvido. Foi durante esta última prisão que Mounier redigiu grande parte do “Traité du caractère”.
Em 1944, com a libertação, volta a Paris, onde vive em comunidade com um grupo de famílias amigas. Em dezembro de 1944, “Esprit” reaparece, apoiado por velhos fiéis e novos amigos. É hora de pensar nas grandes questões do pós-guerra que atormentam a França, “mas sempre com a mesma preocupação de integrá-las numa perspectiva filosófica de conjunto que, em Mounier, torna-se mais explícita e mais estruturada”6.
Após a meditação forçada da guerra, Mounier volta à ação. Em dezembro de 1945, inaugura nova série de “Esprit”. A partir de então, Mounier viaja freqüentemente ao estrangeiro para organizar ou reanimar grupos ligados ao movimento. Sobra-lhe tempo para várias publicações: em 1946, aparecem “Liberté sous conditions” e “Introduction aux existencialismes”; em 1947, publica “Qu’est-ce que le personnalisme”; em 1948, “L’éveil de l’Afrique Noire” e “La petite peur du Xxème siècle”, e, finalmente, sua última obra enquanto vivo, “Le Personnalisme”, em 1949. Mas já durante este último ano, a saúde de Mounier até então bastante sólida, começava a dar alarme de enfraquecimento. Em setembro de 1949, sentira uma crise cardíaca que atribuíra ao excesso de trabalho. A ameaça se concretizou e a 22 de março de 1950, Mounier falece de um colapso cardíaco. Tinha então quase 45 anos de idade. Deixava preparadas várias coleções de artigos, publicados sob forma de volumes postumamente: “Feu la chrétienté”, “L’espoir des désespérés” e “Les certitudes difficiles”.
2.2 – Obras
Além de ser o fundador da revista “Esprit” lançada por ele em 1932, a qual nascia com o objetivo de denunciar a “desordem estabelecida” e propor um modo de enfrentá-la tendo assim sofrido grandes perseguições por parte da censura. Mounier desenvolveu uma grande obra em escritos, sua produção intelectual, que não é completa. A seguir daremos apenas a lista das obras de Mounier publicadas até um determinado momento:
OEUVRES COMPLÈTES. 4t. Paris: Le Seuil, 1961-1963.

-Tradução espanhola: Obras completas. 4 t. Salamanca: Ed Sígueme, 1988-1990. Publicadas pelo Instituto Emmanuel Mounier de Madri, Espanha.


TOMO I: Oeuvres, 1931-1939 (Paris, 1961)

1.1- La pensée de Charles Péguy escrito em colaboração com Marcel Péguy e Georges Izard (1931).

1.2- Révolution personnaliste et communautaire (1935).

1.3- De la propriété capitaliste à la propriété humaine (1936).

1.4- Manifeste au servi du personnalisme (1936). Tradução portuguesa: Manifesto ao serviço do personalismo (Lisboa: Morais, 1967).

1.5- Anarchie et personnalisme (1939).

1.6- Personnalisme et christianisme (1939).

1.7- Les chrétiens devant la paix.


TOMO II: Traité du caractère (1946).
TOMO III:Oeuvres, 1944-1950 (Paris, 1962).

3.1- L’affrontement chrétien (1944).

3.2- Introduction aux existencialismes (1947). Tradução portuguesa: Introdução ao existencialismo (Lisboa: Morais, 1963).

3.3- Qu’est-ce que le personnalisme? (1947).

3.4- L’éveil de l’Afrique Noire (1947).

3.5- La petite peur du Xxème siècle (1949). Tradução brasileira: Sombras de medo no século XX (Rio de Janeiro: Agir, 1958).

3.6- Le Personnalisme (1949).Tradução portuguesa: O personalismo (Lisboa: Morais, 1960).

3.7- Feu la chrétienté (1960). Tradução brasileira: Quando a cristandade morre (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1972)


TOMO IV: Recueils posthumes, correspondance. (Paris, 1963).

4.1- Les certitudes difficiles (1950).

4.2- L’espoir des désespérés (1953). Tradução brasileira: A esperança dos desesperados (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1972).

4.3- Mounier et sa génération (1954).

4.4- L’engagement de la foi. Textos recolhidos e apresentados por Paulette Mounier (1968). Tradução brasileira: O compromisso da fé (São Paulo: Duas Cidades, 1971).

4.5- Mounier et Maritain. Correspondance (Paris:Desclée de Brouwer, 1973).


2.3 – O conceito de pessoa ao longo da história

Já com os gregos, encontramos certo conceito de pessoa. A cidade e a família retiam o homem antigo "submetido a um destino cego, sem nome, superior aos próprios deuses."7 A escravidão não chocava nem mesmo os espíritos mais elevados da época. A preocupação dos filósofos era o pensamento impessoal e sua ordem regendo a natureza e as idéias. O surgimento da individualidade, do ser pessoal único, é, de certo modo, uma sombra na natureza e nas consciências.


Com os pré-socráticos, o homem é somente mais um caracter da natureza, da physis. Porém, com os sofistas, isto muda. Eles

"operaram um verdadeira revolução espiritual, deslocando o eixo da reflexão filosófica da physis e do cosmos para o homem e aquilo que concerne à vida do homem como membro de uma sociedade. É compreensível, portanto, que a sofística tenha feito de seus temas predominantes a ética, a política, a retórica, a arte, a língua, a religião e a educação, ou seja, o que hoje chamamos a cultura do homem. Assim, é exato afirmar que, com os sofistas, inicia-se o período humanista da filosofia antiga."8

"Aos discursos utilitários dos sofistas, opõe Sócrates o aguilhão da ironia, que, perturbando o interlocutor, o põe em cheque e aos seus conhecimentos. O 'conhece-te a ti próprio' é a primeira grande revolução personalista conhecida."9
Os estóicos deram grande ênfase à liberdade do indivíduo e às normas, surgindo neste contexto a palavra “pessoa”(do latim: persona, que, de acordo com seu significado original, designa a máscara de um ator de teatro). A palavra “pessoa”, neste contexto, significa papel no mundo dado ao indivíduo pela providência. Portanto, “pessoa” tem sentido ético. Ela significa tarefa na vida e o sujeito desta tarefa. Analogamente, é apresentado o sentido judaico que diz da pessoa: aquele sujeito que tem direito excluindo assim o escravo que nesse sentido não é pessoa.
Importante papel para o desenvolvimento do conceito de pessoa foi dado pela Teologia Cristã. O Cristianismo rompe de súbito, por entre leves toques, para se tornar o mensageiro de uma noção decisiva de pessoa. Nos tempos atuais, mal podemos aperceber o escândalo formidável que tal noção constituía para o pensamento e para a sensibilidade dos gregos.

"O indivíduo humano deixa de ser o cruzamento de várias participações nas mais gerais realidades (matéria, idéias, etc.) para ser um todo indissociável, cuja unidade, porque no absoluto assente (apoiado), precede a multiplicidade."10

Para o conhecimento do que chamamos dignidade da pessoa, foi sumamente importante a fé num Deus que se revela e que conta com a ajuda do homem em seu projeto salvífico.

"Já não reina a tirania abstrata dum Destino, duma constelação de idéias ou dum Pensamento Impessoal, indiferente a destinos individuais, mas um Deus que é ele próprio pessoal, embora dum modo eminente, um Deus que 'entregou a sua pessoa' para assumir e transfigurar a condição humana, e que propõe a cada pessoa uma relação única em intimidade, uma participação na sua divindade; um Deus que se não afirma, como pensou o ateísmo moderno, sobre coisas arrancadas ao homem, mas que antes lhe outorga uma liberdade análoga à sua, pagando-lhe em generosidade o que em generosidade for dado."11

Além disso, foi também importante para tal a fé de que em Deus há uma natureza em três pessoas e em Cristo há duas naturezas em uma pessoa. As disputas teológicas acerca dos grandes mistérios da Trindade e da Encarnação com suas possíveis soluções contribuíram de forma decisiva à formulação exata do conceito de pessoa.
"O primeiro exame rigoroso deste conceito foi realizado por Agostinho. A sua intenção é de encontrar um termo que se possa aplicar distintamente ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo sem correr, de uma parte, o risco de fazer deles três deuses e de outra parte, sem dissolver a sua individualidade. Ele mostra que os termos 'essência' e 'substância' não têm essa dupla virtude. Ela, pelo contrário, pertence ao termo grego 'hipóstase' e ao seu correlativo latino 'pessoa', o qual 'não significa uma espécie, mas algo de singular e de individual"12
A Idade Média foi permeada de longas discussões trinitárias e cristológicas da qual Boethius resumiu o resultado da seguinte maneira: “substância individual de natureza racional”.13 Memorável definição de pessoa! Sem dúvida a mais célebre de todas, muito completa e precisa na ótica ontológica.
Também neste período, Tomás de Aquino continuou na mesma linha dizendo que a pessoa é algo racional que subsiste em si.14

"O fundamento último da personalidade é dado, a seu juízo, pela autonomia no ser por parte de uma realidade racional, ou seja, pela posse de ato próprio de ser: graças a tal posse, a realidade humana se torna completa em si mesma e não pode mais ser comunicada, associada a outros. Portanto, quando um ato de ser, próprio e proporcionado a certa essência particular ou substância individual intelectiva, fá-la existir em si e por si, por isso mesmo é incomunicada e incomunicável, é pessoa. A pessoa, especifica Tomás, goza de tripla incomunicabilidade: antes de tudo, o indivíduo que é pessoa não pode comunicar-se com as outras coisas como parte, sendo um todo completo; depois, não pode comunicar-se como o universal se comunica com os singulares, porquanto a pessoa é algo de subsistente; enfim, não pode comunicar-se como algo de assumível porque o que é assumível ocorre na personalidade do assumente e não há mais uma personalidade própria. Não é, porém, contrária ao conceito de pessoa a capacidade de assumir. Por motivo da incomunicabilidade, a pessoa distingue-se nitidamente tanto da essência quanto da natureza. De fato, o conceito de pessoa afirma que se trata de algo distinto, subsistente, compreendente tudo que há na coisa; pelo contrário, o conceito de natureza abarca só os elementos essenciais."15

No período moderno da filosofia, o conceito de substância foi perdendo seu crédito. Aconteceu uma mudança para a subjetividade. Com isso, o conceito de substância passa para o nível psicológico da pessoa. Ser pessoa é comparado com a memória ou autoconsciência. Um novo conceito de pessoa já surge em Descartes. A pessoa não é mais definida em relação à autonomia do ser, mas com a autoconsciência. O homem tem a garantia de existir efetivamente, de não ser puro sonho, mas pura realidade, pois pensa a si mesmo: "cogito ergo sum!" Escreve Hume:

“A meu parecer a palavra ‘pessoa’ designa um ser pensante, inteligente, que possui razão e reflexão, e pode apreender a si mesmo, isto é, como a mesma coisa, que pensa em diversos lugares; fá-lo apenas por meio da consciência, que é inseparável do pensar e, como me parece, essencial a este”.16

Segundo Hume, o termo “ser” não indica nada de substancial; a identidade da pessoa através do tempo se situa apenas no âmbito da consciência. Christian Wolf, racionalista, assim defini a pessoa: “Pessoa diz-se do ente, que conserva a memória de si, isto é, lembra-se que é aquele mesmo ente, que antes esteve neste ou naquele estado.”17
Emmanuel Kant assumindo esta idéia a completa pensando a pessoa como um fim em si, não podendo nunca ser apenas meio para outra coisa. “Age de tal modo, que tu uses a humanidade tanto em tua pessoa quanto na pessoa de qualquer outro, sempre simultaneamente como fim, nunca apenas como meio.”18
Finalmente, chegamos ao século XX onde o problema da pessoa adquiriu importância totalmente singular. Lembremos de Emmanuel Mounier, a quem vamos abordar em nossa monografia, Martin Buber, Renouvier, Scheler, Marcel, Nédonalle, Guardini, Ricoueur, Heidegger, Brightman. Mesmo pertencendo a correntes filosóficas muito diversas, a preocupação com superar a visão intelectualista que prevalecera durante a época moderna, reúne-os e os mantém juntos. Em todos eles há a recuperação da singularidade do homem e da complexidade do seu ser, enquanto constituído não só de espírito, mas também de matéria; não só de alma, mas também de corpo.
2.4 – Mounier e o Personalismo
Personalismo é toda doutrina que sustenta o valor superior da pessoa em face do indivíduo, da coisa, do impessoal. O personalismo se opõe, portanto, tanto ao individualismo quanto ao impessoalismo. Sua idéia central é a de pessoa, na sua inobjetividade, inviolabilidade, liberdade, criatividade e responsabilidade, de pessoa encarnada em um corpo, situada na história e constitutivamente comunitária.
Enquanto fenômeno histórico, o personalismo nasceu na França com Emmanuel Mounier, que dizia ter o personalismo nascido da crise de 1929, a qual fez soar duramente o final da prosperidade européia e chamou a atenção para a revolução em curso. Este movimento se desenvolveu em torno da revista “Esprit”, fundada por Mounier, cujo primeiro número saiu em 1932.
Em nome da pessoa, o personalismo se apresenta como análise do mundo moderno e (segundo Mounier) impõe-se com protesto contra o seu “estado de putrefação avançada” e considerando “a derrocada de sua concatenação verminosa”, projeta uma saída para a crise através de uma “revolução personalista e comunitária”.

Como o movimento nasceu da crise de 1929 diante das inquietudes e desventuras que começavam, alguns deram explicação puramente técnica; outros, puramente moral para a desordem estabelecida. Alguns jovens porém acharam que o mal era em um só tempo moral e econômico e que a solução não poderia vir nem de uma revolução econômica que ignorasse os fundamentos morais e religiosos da crise, nem de uma revolução puramente espiritual desinteressada dos dramas tecidos pelos acontecimentos históricos efetivos, pois seu objetivo estava muito mais na teorização e na construção de uma “comunidade de pessoas”.


Tendo na raiz do movimento a intenção decidida de testemunhar a verdade em toda circunstância, o personalismo não podia se ligar, como não se ligou, aos particularismos táticos de um ou de outro partido. Ele nasceu e se desenvolveu como movimento, feito de idéias, críticas, estímulos, controvérsias e iniciativas, jamais pretendendo se esclerosar na forma de partido, bloqueado em uma ideologia fixa e aprisionado pela máquina burocrática. Isso mesmo nos permite compreender melhor a afirmação de Mounier no sentido de que “o personalismo é uma filosofia, não uma simples atitude; é uma filosofia, não, porém, um sistema”19.

Emmanuel Mounier estabelece algumas normas personalista no ensaio “O personalismo e a revolução do séc. XX”:



  • “Pelo menos como ponto de partida, uma posição de independência em relação aos partidos e aos agrupamentos constituídos faz-se necessária para a nova avaliação das diversas perspectivas, sem com isso se afirmar uma posição anárquica ou um apoliticismo de princípio. Ademais, onde quer que a adesão do indivíduo a uma ação coletiva deixe a esse indivíduo uma liberdade de ação suficiente, ela deve ser preferida ao isolamento”20.

  • “Como o espírito não é força absurda ou mágica, a simples afirmação dos valores do espírito periga ser enganosa quando não se acompanha de rigorosa delimitação da atividade e dos seus meios”21.

  • “A união estreita entre o espiritual e o material implica em que, em toda questão, deve-se levar em conta toda a problemática, que vai dos dados ‘vis’ aos dados ‘nobres’, com extremo rigor tanto em um como em outro sentido. A tendência à confusão é o primeiro inimigo de um pensamento de ampla perspectiva”22.

  • “O sentido da liberdade e do real nos impõe que, na investigação, nos libertemos de qualquer a priori doutrinário e estejamos positivamente prontos para tudo, inclusive a mudar de direção para permanecer fiéis à realidade e ao próprio espírito”23.

  • “A cristalização compacta da desordem do mundo contemporâneo levou alguns personalistas a definirem-se revolucionários (...). O sentido da continuidade histórica nos impede de aceitar o mito da revolução como “tabula rasa”, já que uma revolução nunca deixa de ser uma crise morbosa, que não leva automaticamente a solução. Ser revolucionário significa uma coisa muito simples, mas também significa que não se remedia o caos tão radical e tão tenaz do nosso tempo sem contramarcha, sem profunda revisão de valores, sem reorganização das estruturas e sem renovação das classes dirigentes”24.





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