Aparição e apresentação



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Aparência pessoal na contemporaneidade

Renata Pitombo Cidreira

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia
Viver é ser visto; ser é aparecer (CAMUS, 2000, p. 41).

Resumo: O presente artigo procura explorar a idéia de que toda aparição só se efetiva através de uma apresentação e de que esta última diz respeito, de modo igualmente importante, ao modo de ser deste ser que é, existindo e coexistindo. As formas, as matérias, as cores que colorem e conformam o rosto e o corpo, não são, portanto, obstáculos à dinâmica do ser, mas ao contrário a manifestam de maneira decisiva, na sua condição radicalmente relacional. Elas são marcas evidentes – e constitutivas – de uma condição e de uma conduta que, apresentadas ao outro, expressam uma individualidade, uma presença, enfim, visível e incontornável. Partindo de tais considerações, vamos problematizar o estatuto da aparência na compreensão da existência, de modo a reinterpretar reflexões de autores como Tarde, Simmel e Merleau-Ponty, entre outros, acerca do papel do vestuário na vida humana, tendo em vista a rica diversidade das formas de vestir.
Palavras-chaves: aparência, corpo, aparição.
Abstract: This article seeks to explore the idea that all appearance is only effective through a presentation, and this presentation concerns, in a way equally important, the being´s way of being, that is to say, existing and coexisting. Therefore, the forms, materials, the colors that color and form the face and the body are not obstacles to the being`s dynamic, but contrarily, they manifest it  decisively in their radically relational condition. They are evident marks - and constituents - of a condition and a behavior that, before the other, express individuality, a visible and inescapable presence. Starting from these considerations, we will discuss the status of appearance in the understanding of existence in order to reinterpret ideas of authors such as Tarde, Simmel and Merleau-Ponty, among others, about the role of clothing in human life, in face of the rich diversity forms of dressing.
Key-words: appearance, body, presence.

Introdução

Muito já se falou sobre a importância do vestuário e da própria moda enquanto instâncias que expressam, revelam uma certa condição humana, circunscrita socialmente. A sociologia e a antropologia contribuíram de forma significativa para a apreensão dos aspectos sociais e identitários implicados nas escolhas e adoções vestimentares. Desde os relatos e comentários acerca das restrições e interdições vestimentares que muitos pesquisadores se debruçam sobre a capacidade de demarcação social inscrita pela roupa e, em última instância, pela indústria da moda.

Por um lado constatamos a hegemonia das reflexões que identificam a moda como resultante do processo de oscilação entre distinção e imitação, em que a preocupação com o aparecer é vista como disposição permanente para uma espécie de adoção de identidade social, consistindo em avaliar o ser mediante o aparecer, como atestam algumas das considerações de Georg Simmel, Gabriel de Tarde e Pierre Bourdieu. Como observa Simmel, por exemplo, a moda (...)
satisfaz, por um lado a necessidade de apoio social, na medida em que é imitação; ela conduz o indivíduo às trilhas que todos seguem. Ela satisfaz, por outro lado, a necessidade da diferença, a tendência à diferenciação, à mudança, à distinção, e, na verdade, tanto no sentido da mudança de seu conteúdo, o qual confere um caráter peculiar à moda de hoje em contraposição à de ontem e à de amanhã, quanto no sentido de que modas são sempre modas de classe. As modas dos estratos superiores diferenciam-se daquelas dos estratos inferiores, e são prontamente abandonadas quando os últimos passam a se apropriar das mesmas (SOUZA, Jessé e Oelze, Berthold, 2005, p.160).
Por outro lado, observamos uma tentativa de desvinculação do refrão da distinção social a favor de uma autopromoção estética, calcada no prazer individual, e respaldada no consumismo contemporâneo, como argumentam autores como Gilles Lipovetsky, por exemplo, quando afirma que cada vez menos se adquire objetos para obter prestígio social ou para se destacar de grupos de status inferior, pois o consumo tem deixado de ser uma atividade regulada pela busca de reconhecimento social para destinar-se ao bem-estar, à funcionalidade e ao prazer em si mesmo; tem deixado de ser uma lógica de apresentação classista, para oscilar entre a dinâmica do utilitarismo e do prazer individualista.

Ao relativizar a idéia de que o desejo do consumo permaneça associado principalmente a um processo de distinção social, o autor enfatiza o valor dominante do prazer individual. “É cada vez menos verdadeiro que adquirimos objetos para obter prestígio social, para nos isolar dos grupos de estatuto inferior e filiar-nos aos grupos superiores” (LIPOVETSKY, 1989, p.172). As observações de Lipovetsky provocam e estimulam a pensar que para além das tentativas de compreensão da dinâmica da moda enquanto indústria, mercado (cuja preocupação reside na reiteração do consumo); o que interessa é compreender mais profundamente a forma-moda como um modo de estruturação, uma forma de manifestação de vida. É a admissão de que mais do que espelhar, revelar valores próprios de uma cultura, a forma-moda passa a conformar essa cultura.


Aparência

Essa discussão remonta a um problema clássico da filosofia: a oposição entre essência e aparência. Sabe-se que durante muito tempo se condenou a aparência, a imagem como instâncias falsificadoras, artificiais, enganosas, enquanto a essência sempre foi considerada sinônimo do ser, do natural, do verdadeiro. Um movimento inicial nos leva a observar como o tema da aparência comparece na tradição filosófica, ainda que brevemente.

Aparecer significa “deixar-se ver”, “manifestar-se”. Este significado sugere pelo menos três vertentes interpretativas: a) a aparência de uma coisa é o mesmo que sua realidade; a coisa é como aparece; isto é, se deixa ver em seu aparecer; b) a aparência é algum aspecto (da realidade) de uma coisa; c) a aparência de uma coisa é diferente de sua ‘realidade’, podendo até ocultar essa ‘realidade’. Este último significado acabou predominando na história da filosofia, o que levou à equiparação de aparência com coisa fingida. Kant, por exemplo, denominou sua doutrina, segundo a qual as aparências são consideradas representações e não coisas em si, de idealismo transcendental.

Outros filósofos, entretanto, enfatizaram que a ‘realidade aparente’ equivale a ‘aparência verdadeira’. “Para uma fenomenologia da ‘verdadeira realidade’ é complementarmente indispensável à fenomenologia da ‘fútil aparência´” (HUSSERL, Ideen, S151 apud MORA, Ferrater, 2001, p. 153-154). Na medida em que o fenômeno, o que se dar a ver é fundamental para a compreensão do mundo, a aparição ganha um estatuto diferenciado. É, portanto, na tradição fenomenológica que encontramos ingredientes para problematizar o estatuto da aparência na compreensão da existência, abordando as variadas formas de apresentação do corpo, através da sua relação com os modos de vestir.




Corpo

Como se sabe, o corpo já foi alvo de várias interpretações, seja no binômio biologia/medicina, na filosofia, na antropologia, na sociologia, na comunicação, entre outras abordagens possíveis. Ainda assim, considerando-se os diversos níveis de articulação que envolvem a compreensão do corpo, como instância significativa, acreditamos ser necessário retomar algumas dessas contribuições investigativas para tentar dar conta dos modos de experimentações e vivências corporais na contemporaneidade, sobretudo na sua articulação com a aparência.

No texto “Corpo e sensibilidade”, Monclar Valverde (2007) traça um quadro da “evolução” do papel que o corpo desempenhou em diversas matrizes intelectuais da civilização ocidental.
Em Platão, quando a filosofia começa a legislar sobre os desempenhos espontâneos da cultura, o corpo torna-se a sede do esquecimento, o sintoma de nosso afastamento do mundo das essências; (...). Num sentido semelhante, Pitágoras chegara a ver no corpo “o sepulcro da alma”. Aristóteles abandona essa abordagem do corpo como entidade subsidiária e reconhece que ele é dotado de forma própria, uma vez que se trata de uma realidade limitada por uma superfície (...). A filosofia cartesiana herda o sentido objetal (e um tanto abjeto...) do corpo como “coisa extensa”, mas adiciona-lhe um “espírito” imaterial, transparente a si mesmo e senhor de sua própria vontade. Nesse horizonte, o corpo não passa de um suporte material, um equipamento de navegação, digamos assim, de que o espírito se serve, na sua inspeção do mundo exterior. (...) Na filosofia de Kant, que é o filósofo dos filósofos, o corpo tem basicamente o mesmo sentido que no racionalismo cartesiano e no empirismo inglês e é concebido como a sede das sensações (...). Ele conquista alguma dignidade, mas não abandona o segundo plano. (...) Em nosso século, acostumamo-nos a conceber o corpo como o lugar das inscrições - da linguagem à disciplina do trabalho, do amor à moral - e ao mesmo tempo como meio de expressão de uma subjetividade enraizada no mundo simbólico (VALVERDE, 2007, p. 250- 251-252).
Mas é, sem dúvida, na filosofia, como observa Valverde, na sua vertente fenomenológica/hermenêutica que o corpo ganha novos contornos: é visto como sede da significação e dos processos simbólicos, como sede e verdadeiro meio da experiência.

Entre os filósofos de tradição fenomenológica, Maurice Merleau-Ponty é seguramente a referência para a reflexão da temática do corpo. Na Fenomenologia da percepção (1994) o corpo aparece como a sede da percepção e, portanto, como meio da experiência. Ao invés de pensar o corpo como um objeto transparente, Merleau-Ponty vai concebê-lo como uma unicidade expressiva, implícita e confusa. A experiência do corpo próprio revela-nos esse modo de existência ambígua, em que o corpo é sempre outra coisa que aquilo que ele é, nunca fechado em si mesmo e nunca ultrapassado. “Engajo-me com meu corpo entre as coisas, elas coexistem comigo enquanto sujeito encarnado, e essa vida nas coisas não tem nada de comum com a construção dos objetos científicos (p. 252). “É por meu corpo que compreendo o outro, assim como é por meu corpo que percebo ‘coisas’” (p.253).

Ainda nas palavras de Merleau-Ponty, o nosso corpo próprio é “o registro onde estamos inscritos e continuamos a nos inscrever” (MERLEAU-PONTY, 1968, p. 16). O corpo é “o portador de um número indefinido de sistemas simbólicos cujo desenvolvimento intrínseco excede certamente a significação dos gestos ‘naturais’, mas que se desmoronam se o corpo deixa de pô-los à prova e instalá-los no mundo e na nossa vida” (MERLEAU-PONTY, 1968, p. 18). Este corpo não é uma coisa, mas um meio de comunicação com o tempo e o espaço (MERLEAU-PONTY, 1994, p. 246). Ele procura mostrar, assim, que o mecanismo pelo qual atribuímos sentido às coisas não é posterior e exterior à via corporal, carnal e comportamental, pela qual temos acesso a elas.

Reinstalado nas preocupações sobre o ser, o corpo cresce em importância e com ele a vestimenta, essa segunda pele, afinal, a experiência que temos do corpo na cultura ocidental é desse corpo vestido. O corpo é envolvido por roupas, adereços, cheiros, cores; é receptivo aos mais diversos artefatos e com eles se conforma. A verdade da máscara é que ela nos constitui. Acreditamos, intimamente, que cada um de nós já experimentou a sensação de algum tipo de interferência ou modificação corporal, em função do uso desta ou daquela veste. A indumentária, de fato, constrange, delimita, emoldura, enquadra o corpo, sugerindo determinados movimentos e não outros, provocando certas sensações etc. Funciona, muitas vezes, como uma verdadeira máscara fazendo-nos incorporar certos personagens, permitindo-nos uma certa atuação de acordo com o figurino escolhido.

Esta sutiliza de interpretação já havia sido explorada por Georg Simmel em 1989, quando o autor sugere a analogia entre a roupa e a máscara, referindo-se, especialmente, ao fato de que, em várias situações, pessoas sensíveis usam a indumentária para assumir um personagem que lhes garanta a preservação da sua ‘alma individual’. O uso da moda como máscara funciona como uma reserva consciente e desejada do sentimento e do gosto mais pessoal que o indivíduo alcança por meio da cega obediência à norma geral em todas as exterioridades. Através das observações de Simmel e também de McLuhan (1964) sobre a relação entre o corpo e a roupa, inferimos que o vestuário enquanto mídia possui um potencial configurador e definidor das possibilidades sensório-motoras do homem e que este corpo que poderia ser pensado como algo estático, definido identitariamente, é submetido a transformações múltiplas, através, inclusive, do simples ‘ato de vestir’ ou adornar.

Apresentação

Caluniam-se as aparências. Tomam-lhe invariavelmente por enganadoras. Sob o pretexto de que elas não dizem sempre a verdade – o que é verdadeiro -, lhe acusam de mentir sem cessar, mas as aparências revelam mais frequentemente do que enganam. Elas não têm nada a esconder, porque elas estão inteiras no visível. Podemos dizer que aprendemos com os gregos que isso a que nós chamamos de cultura é o inventário desordenado do visível, do dizível, do dizer e do mostrar, sem ter o objetivo de ir além das aparências, mas sim de conquistá-las, aprendendo a ver o que elas revelam. Em A gaia ciência (2001), Nietzsche declara sua reverência à sabedoria grega: “É preciso ser resoluto para ficar valentemente na superfície, se limitar ao drapeado, à epiderme, adorar a aparência a acreditar na forma, nos sons, nas palavras, em todo o Olimpo da aparência! Esses gregos eram superficiais... por profundidade!”(NIETZSCHE apud BOLLON, p. 163).

Cada um de nós já passou pela experiência de ao conhecer alguém, nos primeiros encontros, ter algumas impressões a partir de primeiros sinais. Esses sinais sempre revelam algo pertinente da personalidade, do modo de ser da pessoa, eles elucidam um perfil de cada um de nós, ou seja, um certo enquadramento, um recorte, que se mostra de acordo com as circunstâncias.

Como podemos constatar, embora marcada, desde Platão, pela oposição entre essência e aparência, a filosofia toca em noções que implicam no reconhecimento da importância da dimensão estética e cultural da aparência pessoal. Noções importantes, como a idéia de ser-no-mundo, trazem implícita esta condição de aparência de todo aparecer social. Problemáticas “aparentemente” menores, como as do vestuário e da própria moda, envolvem aspectos decisivos da existência, como a visão, a corporeidade e a intersubjetividade – temas caros a várias tradições de pensamento, entre as quais, particularmente, a fenomenologia.

Ao considerarmos a noção do corpo próprio, desenvolvida por Maurice Merleau-Ponty, constatamos, por exemplo, que na cultura ocidental, a experiência que se tem do corpo é sempre a do corpo vestido, coberto ou ornamentado. Dito de outro modo, a presença humana (o Da-Sein, o ser-no-mundo, a pré-sença, enfim) manifesta-se sempre através de uma aparência e esta é sempre construída, em função dos efeitos que pretende provocar.


Referências Bibliográficas

CAMUS, Renaud. Éloge du paraître. Paris: P.O.L. éditeur, 2000.


BOLLON, Patrice. A moral da máscara: merveilleux, zazous, dândis, punks, etc. Trad. Ana Maria Sherer. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.
BOURDIEU, Pierre. La Distinction. Paris: Éditions de Minuit, 1979.
LIPOVETSKY, Gilles. O Império do Efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. Tradução de Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1994.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Résumés de cours. Paris: Gallimard, 1968.
McLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. Tradução de Décio Pignatari. São Paulo: Editora Cultrix Ltda., 1964.
MORA, Jose Ferrater. Dicionário de filosofia. São Paulo: Edições Loyola, 2001.
NIETZSCHE. F. A gaia ciência. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
SIMMEL, Georg. Filosofia da la Moda In: Cultura Feminina y otros ensayos, 4ª ed., Epasa-Calpe, Argentina S.A. Bueno Ayres, 1944.
SIMMEL, Georg. Philosophie de la modernité: la femme, la vie, l’individualisme. Tradução de Jean-Louis Vieillard-Baron. Paris: Éditions Payot, 1989.
SIMMEL, Georg. Sociologie et épistémologie. Paris: PUF, 1981.
SIMMEL, Georg. La parure et autres essais. Tradução de Michel Collomb, Philippe Marty et Florence Vinas. Paris : Édition de la Maison des Sciences de l’homme, 1998.
SOUZA, Jessé e Oelze, Berthold (Orgs). Simmel e a modernidade. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2005.
TARDE, Gabriel de. Les Lois de L’imitation. Paris: Éditions Kimé, 1993.
VALVERDE, Monclar. Estética da Comunicação. Salvador: Quarteto, 2007.





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