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LITERATURA - Módulo 01


Prof. José Ricardo

www.literaturaeshow.com.br
ANJO NEGRO

Nelson Rodrigues



O AUTOR
O maior teatrólogo brasileiro, nascido em Recife, PE, sendo por muitos considerado o criador de uma obra revolucionária, um verdadeiro divisor de águas para o teatro brasileiro.

Ainda muito jovem, Nelson Rodrigues iniciou-se no jornalismo, em o A Manhã e no A Crítica, jornais sensacionalistas de propriedade do seu pai, Mário Rodrigues. Uma tragédia familiar, o assassínio, na redação de A Crítica, de seu irmão Roberto, e a tuberculose, deixariam para sempre marcas profundas em sua personalidade e sua obra.

Estreou a primeira de suas peças, A mulher sem pecado (1942), escrita no ano anterior, e alcançou fama (1943) com a montagem de Vestido de noiva, por Ziembinski, quando passou a ser considerado pela crítica o fundador do moderno teatro brasileiro, constituindo-se como um demarcador do novo caminho teatral na segunda metade do século XX.

Outras de suas peças são Álbum de família (1946), Anjo Negro (1947), Senhora dos afogados (1947), Doroteia (1949), Valsa nº 6 (1951), A falecida (1953), Perdoa-me por me traíres (1957), Viúva, porém honesta (1957), Os sete gatinhos (1958), Boca de ouro (1959), Beijo no asfalto (1960), Bonitinha, mas ordinária (1962), Toda nudez será castigada (1965),



Anti-Nelson Rodrigues (1973) e A serpente (1978), muitas delas transformadas em filmes e também em especiais para a televisão.

Revista Época
Sua obra já foi vista em todos os formatos. No cinema, na televisão e, é claro, no teatro. Mas, até agora, nenhum texto de Nelson Rodrigues havia aparecido em uma versão tão pomposa. Com músicas de João Guilherme Ripper e direção de André Heller, Anjo Negro estreia no Centro Cultural Banco do Brasil com uma roupagem operística. “O universo da ópera era muito querido a Nelson”, comenta Heller, o idealizador do ousado projeto.

A vontade de combinar o polêmico teatro rodriguiano com boa música começou a pairar sobre a cabeça do diretor há 10 anos. “Escolhi Anjo Negro porque é uma peça que nunca recebeu o reconhecimento merecido”, explica Heller. Ele lembra que Nelson Rodrigues – talvez sem imaginar que uma de suas obras viraria ópera 22 anos após sua morte – escrevia observações em seus textos do tipo: “personagem fala com voz de contralto” ou “faz gesto de tenor”. Alusões explícitas ao mundo da música lírica.

Na época em que estreou no Rio de Janeiro, em 1947 (havia sido censurada um ano antes), a tragédia causou furor. Sempre tocando nas feridas da sociedade, em Anjo Negro Nelson trazia à tona um assunto até hoje muito controverso: o preconceito racial. A história do negro Ismael (Sebastião Teixeira) e da loiríssima Virgínia (Regina Helena Mesquita) deu pano para a manga. Os dois casam-se por obrigação e vivem um relacionamento cercado por taras, violência e preconceito. Fala da rejeição que o homem negro sente por ele próprio.

Segundo Heller, um assunto atualíssimo. “Passamos pela era do politicamente correto, que ignorava as diferenças, e agora devemos encará-las de frente”, sugere. Vivendo Ismael, o barítono mineiro Sebastião Teixeira faz seu début nos palcos na pele de um afro-brasileiro. “Já fiz índio e até papel de branco, mas nunca de negro”, comenta.

“Nem em sonho imaginava que um dia interpretaria um personagem de Nelson Rodrigues. É um marco, uma grande responsabilidade. Estou me entregando completamente ao papel”, confessa o barítono.

Mas Sebastião Teixeira revela que, apesar de negro, nunca sofreu na pele o preconceito racial. “Sou de Caeté, em Minas Gerais. Lá a maioria do pessoal é negro ou mulato. Aqui em São Paulo que comecei a ouvi falar de etnia”, afirma, com bom humor.



Anjo Negro, peça teatral de Nelson Rodrigues, foi escrita em 1946. Nelson ao perceber o preconceito de que o negro é alvo na sociedade brasileira e a existência de preconceito do negro em relação a outro da mesma cor, resolveu escrevê-la. Quis denunciar isso, tornando pública, por meio do teatro, a hipocrisia da sociedade brasileira que sempre disfarça a existência do preconceito racial presente desde aquela época.

O Brasil encontrava-se em um período de grandes modificações na organização do estado brasileiro, saindo de um período de bastante restrição ideológica e entrando num período onde reinava a esperança em um país desenvolvido e livre. Tem-se uma modificação evidente, um período conturbado na esfera social, modificações na maneira de governar.

Uma outra razão de Nelson Rodrigues escrever Anjo Negro foi a do seu inconformismo sobre a forma de apresentação do negro, invariavelmente representando no teatro apenas como o “moleque gaiato” das comédias de costumes ou por tipos folclóricos. Por isso, criou um personagem – Ismael – de classe média, inteligente, mas também com paixões e ódios, ou seja, “um homem, com dignidade dramática”, enredado em situações proféticas e míticas. O autor, em várias ocasiões, afirma ter escrito o personagem para seu amigo Abdias representar, pois, segundo ele, era o “único negro do Brasil” que assumia as suas raízes.

O protagonista de Anjo Negro, Ismael, é audacioso, e por isso Nelson não fez concessões. Sem paternalismo, concebe um personagem na contramão dos personagens negros que geralmente se conhece: não é moleque, malandro ou empregado subalterno, trata-se aqui de um homem cheio de ressentimentos e paixões, mas também de orgulho e sensibilidade, um vencedor, um cidadão bem-sucedido, que se transformará em arquiteto do seu próprio destino.

Nessa peça teatral, a questão racial é tratada de forma radical, em particular por evidenciar uma sociedade dominada pelo branco. Por conta disso, a única estratégia possível de inserção é a adoção da ética branca, dominadora e autoritária. É claro, dessa forma urge a necessidade do repúdio à sua cor e igualmente à sua origem. Ismael desfruta dos privilégios do branco: dinheiro, status, prestígio e uma mulher branca, símbolo maior dessa ascensão.

A peça é apresentada em três atos. Em sua primeira encenação, o cenário apresentou-se sem nenhum caráter realista: um pequeno caixão de seda branca ocupava o andar térreo da casa, onde dez senhoras pretas se postaram em semicírculo e formaram um coro, como no teatro grego. No segundo andar, duas camas, uma delas quebrada, ajudavam a compor o cenário. No primeiro andar, Ismael, o negro que representa o anjo, vestia um terno branco, engomadíssimo, e calçava sapatos de verniz. No andar de cima, Virgínia, sua esposa, branca, trajava luto. “A casa não tem teto, para que a noite possa entrar e possuir os moradores.

Ao fundo, grandes muros que crescem à medida que aumenta a solidão do negro” (p.125). (Editora Nova Fronteira)

É nesse cenário que se inscreve o drama, que também reproduziu cenas da infância do autor em Aldeia Campestre, Rio de Janeiro, onde morou. Quando criança, Nelson não perdia velórios. O drama humano o instigava: ora curioso por capturar o desespero de mães que choravam a perda dos filhos, outra vez curioso em “captar” a sinceridade ou não das viúvas que pranteavam a morte dos maridos.

O espaço no qual se desenrola a peça Anjo Negro é, pois, um local marcadamente diferenciado. A entrada de pessoas no lar é completamente restrita e coordenada pelo dono, o negro, o anjo negro, Ismael. Brancos não podiam se aproximar, eram afastados, não bem-vindos.

Na trama de Anjo Negro, “pulsa” a violência, nas suas mais diversas formas, das mais variadas naturezas, em constantes situações. As personagens são violentas entre si, sofrem a violência, vivem-na. Há vinganças recíprocas e intermináveis. Há o ódio dissimulado através do amor. E por vezes o próprio amor dissimulado em ódio. Noutras vezes somente um desejo que gera violência.

A história de Anjo Negro apresenta-se, assim, como uma rede truncada de muito inconformismo pelas condições existenciais dos protagonistas.

Apesar de ser formalmente bem mais semelhante à tragédia clássica, é difícil organizar Anjo Negro dentro dos padrões trágicos. Ismael também é movido por amor, e esse exagero do sentimento maior, incorre em erros ainda mais graves, como o assassinato da filha; mas seu maior erro é o preconceito com relação à sua cor.

O texto em momento algum trata Virgínia como heroína, temos uma estrutura similar à de seu marido; seu erro seria o mesmo, é o preconceito da cor, mas depois do casamento, ele se torna repugnante a ela que, por ódio, mata seus filhos. Mas eles não cometem seus erros sem ter consciência de que os estão cometendo, é eticamente inadequado discriminar alguém por sua cor e eles sabem disso; contudo é difícil considerá-los personagens maus, pois a sociedade em que estão inseridos é fortemente racista o que quase os impele ao erro.

Então, volta-se a ter o dilaceramento entre o individual e o social. O indivíduo, no caso Ismael, sabe que tem a mesma capacidade que os brancos, mas a sociedade não acredita nisso. Ismael se embate nesse conflito e para provar que é capaz, forma-se em Medicina, e ainda para se valorizar, não busca a valorização de sua cor, mas a negação dela; ele passa a sentir-se branco e agir como tal, discriminando os negros; dessa forma, ele nega o individual para dar lugar ao social.

Essa estrutura formal provoca um estranhamento grande, pois não se formam duas forças de igual valor moral; uma é o funcionamento normal e equivocado da sociedade; outra é a valorização de uma cor tão boa quanto todas as outras. O destaque que Ismael recebe também reforça esse estranhamento, mostra o quanto ele é capaz, mas mesmo assim discriminado por ser negro. A presença do coro de mulheres negras que amaldiçoam o negro que casou com a branca também mostra que há discriminação pelos dois lados, as duas cores tentam desvalorizar a outra a fim de valorizar a sua, isso fica evidente quando o coro afirma que Virgínia tem o útero fraco.

Todavia, Nelson Rodrigues usa muitos aspectos formais clássicos, como o uso do coro, com a função de trazer para o palco a opinião do senso comum sobre a situação apresentada; nesta peça ele é feito por um grupo de senhoras negras, como já visto, que rezam no velório dos filhos do casal. Também tem-se a perfeita unidade de espaço, só existe a casa de Ismael e Virgínia, não há mundo exterior. O tempo já é mais extenso, tem-se o nascimento e crescimento de Ana Maria, que não é totalmente apresentado, isso faz com que se perca também a unidade de ação; obviamente, sem que isso prejudique a qualidade da peça.

A condição de Ismael enquanto homem superior é bastante delicada, ele é um excelente médico, o que lhe garante grande prestígio social, também é esforçado, venceu por meio de seus próprios esforços às adversidades que a vida lhe trouxe, mas renegou a família e faz de sua esposa uma prisioneira, além de ser cruel com todos à sua volta. Também não tem uma posição de liderança, ele só se impõe à esposa. Mas o seu erro também foi o motivo que lhe trouxe prestígio. Ele erra por ter vergonha de sua cor, mas ele também se esforça e vence na vida por isso mesmo. Ele quer compensar sua cor com qualidades que quase só os brancos têm nesse momento histórico. Ele tem a trajetória do herói trágico, durante a peça, passa da fortuna ao infortúnio. Na morte do filho, no primeiro ato, ele é um homem de prestígio apesar de marcado pela tristeza da perda de todos os filhos. Já no final acabam, só ele e a esposa, partindo para uma morte em vida, após os dois terem matado seus filhos; ela, os meninos e ele, a menina.

Virgínia, sua esposa, assassina por afogamento, um a um os filhos que trazem em si a marca da mestiçagem e odeia a filha, fruto do adultério com o cunhado Elias. Ela não quer que haja descendência do negro, seu marido. Ismael é testemunha dos crimes da mulher e acreditava que esses crimes os uniam ainda mais. Isso fica claro quando, próximo ao final da peça, Ismael diz a Virgínia saber ser ela a assassina dos filhos e que, mesmo assim, nada fez para impedir o ato. Ambos recusavam a mestiçagem, os traços negros na pele. Tal qual na tragédia grega, a maldição atinge a descendência. A mãe de Ismael o teria amaldiçoado por este repudiar a própria cor e ele a culpa por ser negro, problema que tentou disfarçar tornando-se um médico competente e rico. Acreditava que, alcançado status, poderia encobrir o fato de ter a pele negra.

Ismael, por sua vez, rejeita sua cor. A inveja que sentia de seu irmão branco, de criação, Elias, leva-o a cegar o mesmo, ainda na infância, através de uma engendrada troca de remédios. É também pelas mãos de Ismael que Elias morre, num ato de vingança pela traição sofrida, uma vez que Elias cedeu à sedução de Virgínia. O médico negro atira no próprio “meio-irmão”.

A singularidade de Ismael contrasta com a grande galeria de homens e mulheres rodriguianos, nos quais em determinado momento da ação, os personagens retiram as máscaras e se apresentam, inesperadamente, na mais completa nudez psíquica. O que faz uma pessoa renegar a própria cor? Esse é o grande questionamento rodriguiano expresso pela voz de Elias.

Decidido a “se tornar branco”, Ismael executa, com êxito e sem remorso, sua estratégia. Com formação superior, era um “médico de mão cheia, de muita competência, o melhor de todos”; casou-se com uma mulher branca e muito linda e renegou a mãe negra, causadora de sua desgraça.Vestia-se sempre de branco, impecável. O início da peça apresenta

Virgínia e Ismael casados, eles tiveram três filhos negros, mas todos foram mortos por ela.



Roteiro
Tendo sido violentada por Ismael, obrigada a se casar com ele e encarcerada dentro de casa, Virgínia aguarda o momento da vingança definitiva: gerar um filho branco. Enquanto transcorre o velório do terceiro filho, chega à casa Elias, o irmão de criação de Ismael, branco e cego, trazendo a maldição da mãe negra. Seduzido por Virgínia, Elias, é, em seguida, morto por Ismael. Ela engravida e dá à luz uma menina branca.

Ismael, durante meses, se debruça sobre o berço para que a menina não esqueça sua cor e, completando seu plano, um dia pinga ácido nos olhos dela, cegando-a. Assim, Ana Maria jamais saberia que o pai é negro. Pai e filha desenvolvem uma paixão desmedida. Ela acredita que o pai é branco e que todos os outros homens são negros e perversos.

Dezessete anos depois, Ismael constrói um mausoléu para viver com a filha, onde nenhum desejo de branco pudesse alcançá-la, mas Virgínia enlouquece vendo-se substituída pela filha e consegue convencer Ismael a abandonar Ana Maria sozinha no túmulo de vidro.

Juntos continuam, Virgínia e Ismael, a gerar filhos negros que serão mortos. Os três infanticídios, os dois cegamentos, o assassinato, a impressão de Virgínia de estar sendo violentada ao ter relações sexuais com o marido, além do confinamento de Ana

Maria num mausoléu – engendrado por Virgínia e Ismael ao final da peça – delineiam a trama de Anjo Negro.
Conclusão
Ismael não consegue disfarçar nem superar as contradições de um corpo marcado insistentemente pelo efeito da voz que, em seu ato complexo de vocação e invocação, reproduz o efeito do olhar, inscrito historicamente por um passado escravista. Paralisado, ele não consegue alçar à condição de realizador, sujeito este capaz de sustentar suas escolhas, com todas as particularidades que uma posição assim nos revela e nos exige em termos de renúncia.

O que, na peça, é fadado ao silêncio? O que não pode ser mostrado e, ao mesmo tempo, é explicitado no texto? Nelson aponta para a problemática racial em que, certamente, se articulam os subsídios para uma teoria social do Brasil, onde se destaca a violência como fator de base dos fundamentos estruturais do modelo étnico-social brasileiro.

A peça explicita a vivência de amor/ódio num casal inter-racial e a ambiguidade diante de sua linhagem mestiça. O estilo poético-realista de Nelson Rodrigues revela, de maneira perturbadora, temas adormecidos no inconsciente. Ele revolve esse universo profundo do espectador trazendo à consciência o recalcado e se utiliza da tragédia para falar do racismo.

Assim, remete-nos ao drama grego: a tragédia, pois somente o trágico daria conta de desvendar essa realidade brasileira relegada às trevas – o racismo. Algo da ordem do trágico, tal qual é explicitado no drama grego, pode estar muito próximo de nós, se considerarmos que, enquanto humanos, vivenciamos as emoções que o perpassam.


O EFEITO CATÁRTICO EM NELSON RODRIGUES
Embora, a dramaturgia de Nelson Rodrigues se religue em alguns traços com o teatro grego, na sua totalidade teatral se caracteriza como moderno. A peça que dá origem a essa nova concepção teatral é Vestido de Noiva, escrita e encenada em (1943). Sua temática não se limita simplesmente a fatos do cotidiano, mas abarca uma série de reflexões sobre a condição humana em relação à vida, tendo como foco principal, a eterna luta vã que o homem debilmente e inconscientemente trava contra o que sabe ser inevitável, a morte. Assim, segundo Magaldi:
Quando as nossas peças, em geral, se passavam nas salas de visitas, numa reminiscência empobrecedora do teatro de costumes, Vestido de Noiva veio rasgar a superfície da consciência para apreender os processos do subconsciente, incorporando por fim à dramaturgia nacional os modernos padrões da ficção. As buscas da memória são outras coordenadas da literatura do século XX que Vestido de Noiva fixou pela primeira vez entre nós. (MAGALDI, 1992, p. 218).
Partindo então, de uma linguagem totalmente voltada aos processos do subconsciente, Nelson

Rodrigues apropria-se de características das tragédias gregas e de arquétipos universais para divulgar de certo modo o vazio da existência humana, almejando que por meio da catarse, o homem descubra-se, para então, convencendo-se de que ninguém pode libertá-lo de si próprio, assuma a responsabilidade por sua existência não só individual, mas, universal.

Assim, por meio de um processo que leva do simbólico e do subjetivo para o consciente, o individuo tem a possibilidade de buscar novas identificações sobre si.

Para que esse processo se torne possível, o dramaturgo utiliza-se da figura do grotesco, fazendo presente em suas peças personagens que representam primordialmente os arquétipos do

“bem e do mal” e as diversas nuances e enraizamentos que possam a vir representar. As personagens de Nelson Rodrigues vestem máscaras monstruosas, e vivem como monstros em um mundo no qual tudo é possível e aceitável, onde as vontades individuais prevalecem sobre o coletivo, e o crime, por mais horrendo que seja, é passível de perdão e aceitação. Nietzsche assevera que “todas as grandes coisas devem começar usando máscaras amedrontadoras, para poderem ser gravadas no coração da humanidade.” (NIETZSCHE, 2007, p. 102).

Tais máscaras representam e procuram escandalizar as diversas faces maléficas que o homem esconde, por meio de outras máscaras, no convívio social. Por meio do teatro, Nelson Rodrigues procura então mostrar à sociedade que ninguém é “bom” o tempo todo e que todos escondem uma face horrenda, uma face do “mal”, considerando ainda que o que é “bom” para alguns pode ser o “mal” para outros, pois analisando a história da sociedade, pode-se perceber que, o que atualmente é tido como conceito de “mal” pela sociedade judaico-cristã-ocidental, foi perfeitamente aceitável em outras épocas, exemplo disso é prática da antropofagia em algumas sociedades pré-colombinas na América.

Segundo Maria Lúcia Pinheiro Sampaio (2003), as personagens de Nelson Rodrigues, são criaturas acima do bem e do mal e que não são julgados pela sociedade. Considerando que, segundo Aristóteles (1984), a arte é tida como uma representação do homem e da sociedade pode-se então, dizer que as dualidades presentes na obra rodriguiniana são pura e simplesmente a representação das ambiguidades humanas. Além das personagens pérfidas, inescrupulosas e grotescas como as personagens Ismael e Virginia da peça Anjo Negro, que parecem ser a personificação do mal, na mesma obra pode-se encontrar a representação do puro, do belo e do sublime, nas personagens Elias e Ana Maria.

Para explicar a concepção de grotesco e de sublime tratadas, cabe aqui uma citação de Victor Hugo:


[...] o grotesco, este germe da comedia, recolhido pela musa moderna, teve de crescer e ampliar-se desde que foi transformado para um terreno mais propício que o paganismo e a epopeia. Com efeito, na poesia nova, enquanto o sublime representará a alma tal qual ela é, purificada pela moral cristã, ele representará o papel da besta humana. O primeiro tipo, livre de toda mescla impura, terá como apanágio todos os encantos, todas as graças, todas as belezas;[...] O segundo tomará todos os ridículos, todas as enfermidades, todas as feiuras. Nesta partilha da humanidade e da criação, é a ele que caberão as paixões, os vícios, os crimes; é ele que será luxurioso, rastejante, guloso, avaro, pérfido, enredador, hipócrita; [...] O belo tem somente um tipo; o feio tem mil. [...] (VICTOR HUGO, 2004, p. 35- 36).
O grotesco em Anjo Negro aparece de forma sutil e latente, não estando explicito nas descrições das cenas, mas sim, oculto nas ações das personagens e no resultado dessas ações. O autor mescla, de forma astuta, concepções da tragédia clássica e da comédia adaptadas ao contexto nacional contemporâneo, dando à peça uma forma única, onde se tem impressão de que cada elemento está exatamente onde deveria estar.

O teatro de Nelson Rodrigues revolucionou o perfil do teatro brasileiro, que até então se limitava praticamente a peças voltadas para a encenação, sendo estas dotadas de muitas rubricas, no entanto, pobres em figuras de linguagem. Segundo Magaldi (1992), as peças rodriguinianas ampliaram as possibilidades do texto do teatro brasileiro ao conferir-lhe um caráter literário, sendo que a temática universal encontrada em suas obras coloca o teatro nacional no mesmo patamar das grandes obras da nossa literatura.

Em Anjo Negro, a tragicidade do texto é baseada no efeito do preconceito racial sobre o comportamento humano. A peça de Nelson Rodrigues, censurada na época e mais tarde liberada, atinge a moral da família burguesa e traz a tona o mal disfarçado racismo brasileiro. Como nota-se no trecho em que Ismael conversa com Virgínia:

ISMAEL (enchendo o palco com sua voz grave e musical de negro) – Mas eu, não. Quando vi que era uma filha, e não um filho, eu disse: “Oh, graças, meu Deus! Graças!” Queimei os olhos de Ana Maria, mas sem maldade – nenhuma! Você pensa que fui cruel, porém Deus, que é Deus, sabe que não. Sabe que fiz isso para que ela não soubesse nunca que sou negro.(num riso soluçante) E sabes o que eu disse a ela? Desde menina? Que os outros homens – todos os outros – é que são negros, e que eu – compreendes? – eu sou branco, o único branco (violento) eu e mais ninguém. (baixa a voz) Compreendes esse milagre? É milagre, não é? Eu branco e os outros, não! Ela é quase cega de nascença, mas odeia os negros como se tivesse noção de cor... (RODRIGUES, 2003, p. 174 - 175).

A questão é tratada de forma aparentemente paradoxal. O negro Ismael, por odiar a própria cor, repudia tudo o que possa estar associado à sua raça - da religião aos hábitos culturais. Sua mãe o amaldiçoa depois de ele cegar Elias, o irmão de criação branco. Casado com a branca Virgínia contra a vontade dela, Ismael se torna cúmplice da mulher, que assassina os próprios filhos por serem negros. Virgínia sente pelo marido um misto de repugnância e paixão. Ao nascer Ana Maria, filha branca de Virgínia com Elias, Ismael a cega para que ela nunca veja a negritude paterna. Vendo ali o início de uma relação incestuosa, Virgínia, sempre com a cumplicidade do marido, acaba por matar a filha, quando esta se torna adolescente.

A linguagem da composição trágica rodriguiniana traz a tona as máscaras e os coros, consubstanciando as históricas propriedades do gênero trágico, aclimatadas, agora, à cultura brasileira.

O coro, formado por mulheres negras, representa a sociedade brasileira e o preconceito mascarado por meio das convenções sociais. Como percebe-se no trecho a seguir:

SENHORA (doce) – Um menino tão forte e tão lindo!

SENHORA (patética) – De repente morreu!

SENHORA (doce) – Moreninho, moreninho!

SENHORA – Moreno, não. Não era moreno!

SENHORA – Mulatinho disfarçado!

SENHORA (polemica) – Preto!

SENHORA (polemica) – Moreno!

SENHORA (polemica) – Mulato!

SENHORA (em pânico) Meu Deus do céu, tenho medo de preto! Tenho medo, tenho medo! (RODRIGUES, 2003, p. 125).
Em suas peças o risível se apresenta em forma de diálogo vivo, preciso, satírico e irônico ao revelar a verdade oculta numa expressão farsesca. Nesse mundo da farsa, a mesma finitude humana, o trágico do dia a dia, a quotidianidade cruel, o festim da dor alheia recebem um tratamento discursivo diferenciado ao da tragédia e demais gêneros elaborados e aclimatadas pelo autor.

Em Anjo Negro a ação da personagem Ismael provoca as emoções do espectador. Ismael mata Ana Maria (sua filha de criação, nascida da relação de Virgínia, mulher de Ismael, com Elias, irmão de criação de Ismael) para continuar seu relacionamento com Virgínia. Pelo fato de Ismael ser muito próximo à Ana Maria e ter por ela grande afeto, a morte da menina provoca no espectador um sentimento de aversão, uma espécie de repulsa moral, e terror. Destarte, o espectador cria de modo subjetivo, um tipo de balança moral, colocando de um lado os valores positivos, e de outro, tudo aquilo que faz de ruim, negativo, para alcançar um objetivo maior. Do resultado dessa equação origina-se a catarse. O terror causa o arrependimento, levando à purificação do ser.



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