“Aprender a ler e a escrever é como ter uma criança pequena em casa, você não se dá conta que ela cresceu e só vai perceber q



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Encontro14.04.2018
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EM BUSCA DA ESPERANÇA E DOS SONHOS

NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS
Alfabetização de Pessoas Jovens e Adultas

Daniela Cristiane de Fávere

Mova/ São Carlos

“Aprender a ler e a escrever é como ter uma criança pequena em casa, você não se dá conta que ela cresceu e só vai perceber quando alguém de fora fala.”

(Sr.º Ataliba, Educando do Mova – Jockey Club)

Meu nome é Daniela Cristiane de Fávere, sou educadora do MOVA São Carlos e tenho uma sala no bairro Jockey Club que funciona de segunda a quinta das 7:30h às 9:30h em uma igreja evangélica, onde temos que colocar e devolver no lugar as cadeiras e carteiras todas às segundas, quartas e quintas feiras. A maioria dos educandos são mulheres: 5 homens e 15 mulheres.

A maioria dos educandos da minha sala, quando eram mais novos, deixaram seus sonhos para trás porque não puderam estudar e tiveram que trabalhar para cuidar dos irmãos, da família ou mesmo para o próprio sustento. Seus vários sonhos foram deixados de lado e quando perceberam já estavam sem motivação para continuar lutando por eles:
... “eu sou, pelo contrário, um ser da esperança, que, por “n” razões, se tornou desesperançado”...

(FREIRE, 1996, p.73)

Neste contexto de desesperança, surge o MOVA (Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos), e cada um volta a sonhar em aprender a ler e a escrever e quem sabe, em seguida, voltar a sonhar. Mas agora surge outro “problema”: a família. Como conciliar os afazeres de casa e a escola? Como driblar o preconceito da família, do marido e/ou dos filhos em relação à mulher quando os mesmo dizem: “Por que você vai estudar a essa altura da vida? Burro velho não pega marcha!” (cunhado de um educando). Ou então: “Por que você precisa estudar? Você já está velho e não vai entender nada!” (maridos de duas educandas) ou a filha da educanda fazendo-a desistir porque será muita coisa para a cabeça dela: cuidar da casa, do neto, estudar etc. Mas, tal filha não percebe que a volta aos estudos é muito importante para a mãe, pois isso faz com que ela volte a sonhar, recupere sua auto-estima e tenha motivação para viver, superando os obstáculos provenientes do fato de não saber ler e escrever. Neste sentido FREIRE (2003) aponta a importância da participação direta e indireta das pessoas ligadas aos educandos, desta forma:
... “Fazendo educação nos obrigamos, por coerência, a engendrar, a estimular, a favorecer, na própria prática educativa, o exercício do direito a participação por parte de quem esteja direta ou indiretamente ligado ao que fazer educativo”...

(p. 65)


São vários os motivos pelos quais os alunos voltaram a estudar: poder assinar o próprio nome (já que a situação de deixar as impressões digitais do polegar como forma de assinatura é, de certa forma, humilhante), pegar um ônibus sem pedir para que alguém leia o letreiro, ler a Bíblia, arrumar um emprego melhor, tirar carteira de motorista entre outros.

Atualmente no MOVA, grande parte dos educandos está contente, uma vez que já sabem escrever o nome, conhecem algumas letras, aprenderam a escrever com letra cursiva, conseguem pegar o ônibus sozinhos, lêem algumas palavras e melhoraram a leitura e a escrita. Porém, tais alunos relatam que ainda não aprenderam tudo o que gostariam, tirando por si só algumas conclusões do porquê desse fato. Entre alguns motivos pode-se citar: 1) a falta de óculos adequado juntamente com os problemas de visão, como por exemplo, a catarata; 2) as diversas preocupações com a família. Como disse um educando: “Ah! Minha cabeça já não ajuda mais, você fala agora, eu sei. Amanhã já não lembro mais nada.”

Apesar de tudo, eles garantem que o ensino de hoje é melhor que o de antes. Segue abaixo um diálogo, ocorrido em sala de aula, entre os educandos e feito a partir da pergunta: “O modo de aprender hoje é melhor do que o de antigamente?”
Educando 1: “Ah! Hoje é melhor porque antigamente era mais agressivo”.

Educando 2: “É mesmo, as professoras usavam a palmatória e a mão ficava inchada e ainda tinha que ficar de joelho no milho e na tampinha de garrafa”.

Educando 3: “As crianças apanhavam, mas também aprendiam, em 6 meses elas já sabiam muita coisa”.

Educando 1: “Aprendia porque era criança e tinha a cartilha, porque naquela época ficava 1 mês numa lição e só depois ia para outra, por isso que aprendia”.

Educanda 4: “Ah! Eu prefiro hoje porque se me baterem ou se deixarem de castigo nunca mais eu volto na escola”.
Apesar do bom andamento do projeto, os educandos opinam sobre futuras melhorias que o tornariam ainda melhor:


  • Aumento do tempo de duração da aula;

  • Que as aulas possam acontecer em um lugar próprio, com mesas e cadeiras altas, para que não precisem tirar e colocar do lugar tais objetos todos os dias;

  • Tamanho maior da lousa (já que, as vezes, por conta do tamanho reduzido da lousa, a professora a divide com diferentes lições o que dificulta a visão);

  • Auxílio médico para os educandos que, por exemplo, apresentam dificuldades de visão.

A partir dessa explanação, conclui-se que eles se sentem felizes por aprender mais a cada dia, conhecer novas pessoas, esquecer dos problemas e saber que mais e mais pessoas estão voltando a estudar.


BIBLIOGRAFIA
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 30.ª ed. – São Paulo: Editora Paz e Terra, 1996.
___________. Política e Educação: ensaios. 7.ª ed. – São Paulo, Cortez, 2003.

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