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Introdução à História do Brasil

Instituto Cajamar

1989

INTRODUÇÃO À HISTÓRIA DO BRASIL

Instituto Cajamar

Abril de 1989

ÍNDICE


APRESENTAÇÃO

Esta apostila é uma introdução ao estudo da História do Brasil.

Tendo em vista a importância do período da ditadura militar, deixamos seu tratamento para uma segunda apostila, que deverá ser publicada durante o ano de 1989. Temos consciência de que este texto possui diversas falhas, que pretendemos corrigir nas próximas edições. Para isto contamos com as críticas e sugestões dos leitores. A primeira versão deste texto - bem como a revisão final - é de autoria de Ivan Antonio de Almeida, Hélio Costa e Paulo Fontes, membros da equipe de monitores do Instituto Cajamar. Participaram da discussão do texto, bem como do trabalho de edição, Rui Falcão e Valter Pomar.



Setor de Publicações do Instituto Cajamar

Abril de 1989.

CAPÍTULO I - O PERÍODO ESCRAVISTA (1530/1888)

A Descoberta do Brasil

A Europa vivia por volta de 1500 importantes transformações. A intensificação do comércio estimulava a produção artesanal e manufatureira, fazendo crescer as cidades e provocando modificações no campo. O mundo medieval, dividido entre senhores feudais e servos, se dilui.

Com a intensificação das atividades produtivas, comerciantes, artesãos, manufatureiros (mais tarde industriais) e assalariados vão alterar as relações sociais.

Em Portugal e Espanha, as lutas para a expulsão dos Árabes da Península Ibérica facilitam a união entre comerciantes e nobreza na formação de Estados Nacionais.

Comerciantes e Nobreza, associados, patrocinam a formação de companhias de comércio marítimos. Partiram a procura de mercadorias que, vendida na Europa, possam lhes trazer um alto lucro. Serão responsáveis pela descoberta da América (1492) e por um novo caminho para as Índias, pela costa atlântica da África ( 1498).

Em 1494, Portugal e Espanha, com a aprovação do Papa, fizeram um acordo dividindo o mundo a ser descoberto pelas potências européias em duas partes, através de uma linha imaginária que passava a 370 léguas a leste de Cabo Verde. As terras que ficassem à direita da linha seriam portuguesas; as da esquerda, espanholas. Dessa forma, as terras descobertas pelos portugueses seriam cortadas à altura da atual cidade de Belém do Pará, ao norte, e Santa Catarina, ao Sul. SÓ o conhecimento ou a suposição da existência de terras explica a insistência dos portugueses neste tratado, que altera outro do ano anterior, cuja linha divisória, 100 léguas a leste das ilhas de Cabo Verde, deixaria o futuro Brasil de fora. Isto é uma das evidências de que o Brasil não foi descoberto casualmente, como consta da versão oficial (carta de Pero Vaz de Caminha).

Por outro lado, os portugueses tinham estado, antes de 1500, nas costas americanas, ao norte do Brasil, pelo menos uma vez (viagem de Duarte Pacheco em 1496).

Durante os trinta primeiros anos da descoberta, Portugal não se interessa pelo Brasil. Os habitantes do Brasil vivem num estágio de comunismo primitivo no qual a produção agrícola (quando há) é apenas para o consumo. A baixa densidade demográfica não exige maior divisão do trabalho. Não havia qualquer mercadoria de grande valor que pudesse ser comercializada na Europa. Portugal prioriza o comércio com as Índias: as primeiras viagens chegaram a dar lucro de 4000%. O governo português manda ao futuro Brasil apenas algumas expedições de caráter explorador (havia expectativa de se encontrar ouro no interior) e punitivo (para combater outros países europeus que por aqui andavam com a mesma curiosidade).

Para pagar os custos da viagem fazia se o escambo, troca de produto por produto sem a intermediação de dinheiro. Em troca do trabalho de derrubar o pau-brasil (cuja madeira tervida resulta numa tinta vermelha usada para tingir panos) e embarcá-lo, os indígenas recebiam bugigangas, espelhos, colares de contas, favas, tesouras, panos de baixo valor etc.

A ocupação Portuguesa

A concorrência de outros países europeus (Holanda, França e Inglaterra) que seguiram os portugueses na rota do comércio Com o Oriente, o custo de manutenção das feitorias (depósitos fortificados de mercadorias) na África e nas Índias, e o temor de perder o território, cada vez mais frequentado por outros europeus (franceses, principalmente) fizeram com que Portugal decidisse ocupar o Brasil.

À falta de produtos que tornassem economicamente viável a ocupação, decidiu-se instalar aqui uma unidade produtora de uma mercadoria, o açúcar, que, exportada, desse lucro na Europa. A experiência nas ilhas atlânticas seria aproveitada e reproduzida em larga escala.

A ocupação iniciou-se com a expedição de Martim Afonso de Souza, em 1530. A costa brasileira foi dividida em doze partes, as Capitanias Hereditárias, começadas a distribuir a partir de 1534. Para recebê-las bastava fazer um requerimento e ter os meios para ocupá-las. Recursos para o transporte de equipamentos técnicos, animais, escravos, enfim, tudo aquilo que era necessário para a instalação de um engenho de açúcar.

O capitão donatário teria o direito de exercer a legislação civil e criminal sobre a Capitania. Poderia ainda doar sesmarias para quem quisesse nelas se instalar. A maioria dos donatários e beneficiários de sesmarias pertencia à pequena nobreza, geralmente funcionários do Estado português. Para se instalarem, dependiam de créditos holandeses ou de cristãos novos (judeus convertidos ao cristianismo para escaparem das perseguições).

O latifúndio escravista se concentra na zona da mata no nordeste, região apropriada para a produção açucareira, graças à qualidade de terra, ao clima e a maior proximidade da Europa. Este tipo de unidade de produção, baseada numa única mercadoria destinada à exportação, na utilização do trabalho escravo e no aproveitamento de uma grande extensão de terra, ficou conhecida como ''plantação’’.

A região de São Vicente (onde aportou a primeira expedição colonizadora em 1534) não oferecia maiores condições para a instalação de engenhos devido a estreiteza da faixa litorânea entre o mar e a serra. Não teria maior importância econômica até a expansão cafeeira no século XIX. São Vicente, por sua atividade de exportador de indígena para o Rio e o Nordeste, ficou conhecido durante muito tempo como "ponto dos escravos”.

A presença de "criminosos" como marca do início da ocupação do Brasil pelos portugueses não têm a mínima importância. Tais degredados de fato existiram, mas, em número reduzido. Adotaram os costumes indígenas, casando-se com diversas mulheres (para o espanto e inveja dos europeus que por aqui passavam) e fizeram vasta descendência.

O caráter de "criminosos" também é muito discutível. A legislação portuguesa (Ordenações Manuelinas) relacionava cerca de 200 infrações punidas com o degredo. Era uma forma compulsória de encontrar homens que preenchessem as funções necessárias à expansão marítima.

O Trabalho Escravo

Os motivos da utilização do trabalho escravo nas plantações vêm do isto de que nenhum homem livre iria querer trabalhar para outro com as possibilidades de acesso à terra que o Brasil possibilitava.

As tribos indígenas, além de não ocuparem densamente o território, tinham o ''direito', de serem exploradas exclusivamente pela Igreja. A Igreja, que aprovava a escravidão do africano, conseguira a proibição da escravização dos povos americanos por parte do Estado português e espanhol. Ainda assim, em caso de ''guerra justa'' (isto é, se tomassem a iniciativa do conflito) poderiam ser escravizados. No Brasil, há notícias de "guerras justas” até 1835. Até 1630, a maioria dos escravos dos engenhos eram indígenas.

A Igreja procurava destribuibalizá-los, através da cristianização e de sua concentração em ''reduções'' ou "missões" . Ali os índios eram organizados para o trabalho. Estas missões, organizadas a partir do século XVII exclusivamente pelos jesuítas, distribuibuíam-se por toda a América Latina e constituíam importantes unidades, isoladas do contato com as áreas de plantação. Na Amazônia, por exemplo, exportavam as "drogas do sertão'', cravo, canela, anil, guaraná, cacau, urucum etc. No sul, criavam gado.

Treze dessas missões, situadas ao longo do rio Paranapanema (atual Estado do Paraná), reuniam em 1628 mais de 100 mil índios.

Em época de crise de abastecimento de mão-de-obra africana, Como durante a ocupação das costas da África pelos holandeses (em 1641 por exemplo, ocuparam São Paulo de Luanda, Angola e São Tomé), o preço dos escravos subia a ponto de tornar lucrativo o negócio de apresamento de índios, particularmente os aldeados pelos padres. A concentração de índios facilitava a sua captura. Entre 1614 e 1639 estimavam-se em 300 mil os índios escravizados.

Nestas incursões, os bandeirantes não deixariam de sofrer uma grave derrota, em Bororé, quando os jesuítas resolveram armar os indíge e contrata instru militaem 1641.

O contato dos índios com os europeus, a princípio pacífico (marcado pelo escambo), altera-se quando estes passam a se instalar no território, expropriando as terras dos índios e tentando utilizá-los como mão-de-obra escrava ou semi-escrava. A resistência chega, algumas vezes, à formação de grandes confederações indígenas (pouco conhecidas ou divulgadas, assim como todos os conflitos na história do Brasil, já que prejudica a versão oficial de uma história, “pacífica e ordeira"), como a chamada Guerra dos Bárbaros, quando índios do Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco resistem organizadamente durante 41 anos (1683 a 1724), nos sertões do Nordeste.

Mas era mesmo de origem africana a massa dos escravos que constituiu a base do trabalho no Brasil durante quatro séculos.

A valorização do escravo como principal mercadoria para os europeus, estimulou a luta entre os reinos africanos que, para sobreviverem, necessitavam de armas e munições, conseguidas em troca de escravos.

Capturados no interior da África, os escravos eram "estocados" nas feitorias, à espera dos barcos dos traficantes. Os traficantes, a princípio portugueses, dividiram com os comerciantes ingleses (até o século XVIII) o rendoso negócio. Nestas feitorias era feito o controle do pagamento dos 10% de impostos para a Coroa e de 5% para a Igreja. Havia portanto interesses concretos para que o escravo africano fosse preferido.

A Resistência do Escravo

Começava já na África a tentativa de impedir (ou pelo menos dificultar) a revolta dos escravos negros. Cristianizados, ou melhor, batizados (para não chegarem pagãos à nova terra), recebiam nomes portugueses, numa tentativa de tirar-lhes a identidade. Aqui, ao venderem a “mercadoria", procurava-se separar as famílias e misturar as etnias para que, falando línguas diferentes (só os da nação bantu falavam 182 dialetos) tivessem dificuldades de se comunicar. Ou ainda reunir nos diferentes ''lotes'' vendidos escravos de tribos inimigas.

Mas a resistência à escravidão também começava na África. Uma vez capturados, tentavam a fuga ou buscavam se libertar através do suicídio. Os navios negreiros eram verdadeiras tumbas, devido ao alto índice de mortalidade de negros durante as viagens. Do século XVI ao século XIX, estes índices oscilaram entre 20 a 10%. Os ''tumbeiros'' ingleses registram centenas de motins.

No Brasil, a resistência ia desde o assassinato do senhor, ou de feitores, até fugas e rebeliões. Desde os primeiros anos da escravidão até 1888, há notícias de formação de quilombos (concentração de escravos fugidos), o mais conhecido pela sua duração e resistência foi o de Palmares.



O Quilombo de Palmares

No início do século XVII escravos fugidos dos engenhos já procuravam refúgio na serra da Barriga (atual Estado de Alagoas). Em 1671, diversas aldeias (mocambos) reuniam cerca de 30 mil habitantes. Produziam cana, milho, banana, dedicavam-se à caça e pesca, ao artesanato e criavam pequenos animais. Entre eles também viviam mestiços e indígenas. Chegaram a estabelecer relações comerciais com brancos vizinhos, dos quais obtinham sal e algumas armas e ferramentas. Sua organização política seguia o modelo dos Estados africanos do século XVII, sendo os chefes eleitos. Além da massa de homens livres, havia escravos negros raptados aos brancos. Estes quilombos representavam séria ameaça à ordem escravocrata, não porque pudessem (ou quisessem) destruí-la, mas pelo exemplo da possibilidade de um outro modo de vida, pela alternativa de liberdade aos negros da região. Por isso, desde o início os escravocratas tentaram destruí-los. Os holandeses (que ocuparam o Nordeste de 1630 a 1654) organizaram duas expedições, em 1644 e 1645, sem sucesso (os palmarinos se retiraram sem oferecer combate, tática que usariam com frequência). Em 1667, outra expedição é organizada com o mesmo resultado. Entre 1671 e 1678 foram organizadas 25 expedições! Em 1675, Fernão Carrilho impõe pesadas baixas aos palmarinos, aprisionando dois filhos do rei Ganga Zumba e lhes oferece uma trégua em troca da deposição das armas. Nem todos a aceitam. Com a morte do Ganga Zumba (envenenado), Zumbi, chefe do macambo de Cacau e desde o início contra a trégua, assume a liderança total dos palmarinos.

Diante das dificuldades em submeter Palmares às autoridades, contrataram um bandeirante paulista, Domingos Jorge Velho, especialista no massacre e submissão de grupos indígenas. O caráter do bandeirante, responsável pelo assassinato não só de índios como de brancos, pode ser ilustrado por uma de suas proezas. Mandou degolar 200 índios pelo simples fato de se recusarem a acompanhá-lo na luta contra Palmares. Seu prêmio seria a venda dos negros capturados, sesmarias na região conquistada e o perdão pelos seus crimes.

A primeira expedição, de cerca de 1000 homens (800 dos quais índios), foi destroçada no ataque ao mocambo do Macaco. No ano seguinte, 1693, nova tentativa, também fracassada. Em 1694, nova expedição, desta vez com 9 mil homens e artilharia (4 canhões). Foi o maior exército do período colonial. Para se ter uma idéia do que significava, os holandeses conquistaram o Nordeste com7 mil homens. Foram necessários vários ataques e um cerco de 22 dias para quebrar a resistência palmarina. No dia 16 de fevereiro de 1695, o principal reduto, o dos Macacos, está destruído. Poucos foram os prisioneiros. Os homens foram degolados. Muitas mulheres preferiram morrer pela fome e matar seus filhos a serem reduzidas a escravidão. Zumbi, no entanto, conseguira escapar. Emboscado, será morto a 20 de novembro de 1695.



As Formas de Exploração da Colônia pela Metrópole

Portugal ocupou o Brasil através da implantação de uma unidade produtora de uma mercadoria que dava lucro na Europa, para enriquecer a metrópole, enriquecer Portugal.

A transferência da riqueza não se dava apenas através dos impostos. Toda relação entre colônia e metrópole exigia que a colônia comercializasse apenas com sua metrópole. Os latifundiários escravistas podiam vender suas mercadorias apenas para Portugal. Como único comprador, Portugal poderia impor um preço baixo. As colônias eram proibidas de produzir manufaturas (a não ser pano grosso para os escravos). As classes dominantes da colônia tinham assim que gastar o que ganhavam com exportação, importando manufaturados (panos e ferramentas) e escravos. Pagavam altos preços, pois só tinham um vendedor, os comerciantes da metrópole.

Este monopólio do comércio associado à proibição da produção dos manufaturados é o pacto colonial que garante a transferência para a metrópole da riqueza aqui produzida pelos escravos.

Até o século XVII, Portugal era um simples intermediário da Holanda, que financiava, refinava e distribuía o açúcar pela Europa. Mais tarde, da Inglaterra, que, em troca de suas manufaturas, recebe de Portugal ouro, algodão e outras mercadorias.

A riqueza que vai parar nos países europeus produtores de manufaturados, principalmente a Inglaterra, contribuiu para o acúmulo de capital que resultará na Revolução Industrial inglesa nos fins do século XVIII.

Apesar de pioneiros na constituição do Estado Nacional e nas navegações, sua condição de intermediários explica o atraso do desenvolvimento do capitalismo em Portugal e Espanha.

A Estrutura de Classes na Colônia

Nos dois primeiros séculos da colônia temos já esboçada a estrutura de classe que vai marcar a história do Brasil até a Abolição.

Da Bahia a Pernambuco concentraram-se os engenhos. Os senhores de escravos de maiores posses os instalam nas melhores terras da costa. Os demais, sem recursos para a instalação de engenhos, mas proprietários de escravos, utilizam os engenhos em troca de parte do açúcar produzido.

Agregada ao latifúndio, uma classe de homens livres pobres produz bens de consumo, permitindo aos escravos se concentrarem na atividade mercantil. Ela vai se tornando cada vez mais numerosa e vai substituindo o escravo com a decadência da produção canavieira. Apesar de uma certa hostilidade aos proprietários escravistas, pela exploração a que são submetidos, é entre estes agregados que os latifundiários vão recrutar os elementos encarregados de reprimir os escravos ou para servir de jagunços nos conflitos entre setores da classe dominante.

O sertão nordestino, imprestável para a produção açucareira, vai ser refúgio de escravos, mestiços e homens livres pobres. Alguns chegam a tornar-se proprietários de enormes latifúndios de criação extensiva de gado. Outros tornam-se vaqueiros. A maioria transforma-se em sitiantes produtores de bens de consumo, farinha, milho, fava, feijão, contribuindo com os agregados da Zona da Mata para o abastecimento de gêneros alimentícios do engenho.

Até então, as relações entre moradores e proprietários não passavam pelo assalariamento. Eram relações pré-capitalistas. A existência de certas relações como o cambão (pagamento da renda da terra em dias de trabalho), por exemplo, levou alguns historiadores a confundi-las com relações feudais.

Quando surgem as usinas (fábricas rurais movidas por máquinas a vapor que vão substituir o engenho no fabrico do açúcar) depois de 1880, os proprietários estendem seus canaviais pelos antigos sítios de moradores, tirando-lhes as terras para produzir. Começa a se impor o trabalho assalariado.

No sertão, ainda hoje, a pequena propriedade camponesa constitui-se em importante fornecedora de mão-de-obra assalariada para as cidades. As relações capitalistas custam a penetrar nesta região. As cidades, pequenas e litorâneas até o século XVIIl (quando a exploração aurífera estende a urbanização para o interior), surgem em torno das atividades de importação e exportação e como centros administrativos. O comércio externo e interno é dominado por comerciantes portugueses.

Mesmo nas cidades, os escravos são a base do trabalho. O trabalho, aviltado pela escravidão, é mal visto pelo homem livre. O número de escravos continua a medir a riqueza do seu proprietário. O dinamismo da vida urbana, no entanto, cria uma ampla camada intermediária constituída por funcionários da Coroa, militares, artesãos (escravos, ex-escravos e homens livres) e uma massa de homens livres pobres.

Em 1580, Portugal, por um problema na sucessão do trono (o parente mais próximo do soberano falecido era espanhol) e com a conivência da nobreza portuguesa, passa para o domínio espanhol (até 1640). A Holanda, em luta com a Espanha, viu ameaçados seus interesses nos negócios do açúcar brasileiro. Tratados de paz adiaram o conflito inevitável. A partir de 1630, o comércio, a finança, a manufatura e a aristocracia holandesa associados, através da Companhia das Índias Ocidentais, iniciam a ocupação das fontes produtoras de açúcar no Brasil e dos territórios fornecedores de escravos na África. A região ocupada, de Sergipe ao Rio Grande do Norte, respondia por metade da produção da colônia.

Após curta resistência, a presença holandesa no Nordeste brasileiro (1630-1654) foi aceita pelos latifundiários escravistas, até que deixou de atender as suas necessidades: um bom preço pelo açúcar, financiamento para a importação de manufaturados e escravos. O processo de expulsão dos holandeses, em dificuldades na Europa (onde estavam em guerra com a lnglaterra), começou quando eles resolveram executar as dívidas contraídas pelos latifundiários (o que significava perderem as propriedades).

Terminada a guerra, a economia da região entrou em crise. Muitos engenhos estavam destruídos. Centenas ou milhares de escravos tinham aproveitado para fugir (Palmares cresce neste período).

Os holandeses, agora instalados nas Antilhas (região próxima do Golfo do México), vão fazer concorrência ao açúcar nordestino.

A Idade do Ouro

As expedições organizadas pelos paulistas para o interior da colônia visavam, além da captura de índios, a descoberta de minas de ouro e pedras preciosas (obsessão perseguida desde a descoberta). Só serão bem sucedidos por volta de 1693 ou 1695. É neste final do século XVII que se inicia uma corrida para a região das minas.

A descoberta de ouro na região das Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás altera a geografia da colônia. A ocupação se dera até então apenas no litoral.

Nos primeiros anos do século XVIII, esta corrida do ouro provoca crises de fome na região. Uma galinha chega a valer, em 1710, 3 ou 4 oitavas de ouro (uma oitava de ouro equivalia a 3,586 gramas); cinco quilos de açúcar custavam mais de uma oitava de ouro.

A circulação de ouro ampliou o mercado consumidor. A região, além de ter os escravos ocupados na produção aurífera, não contava com boas terras.

Rotas terrestres serão abertas para abastecer a região das minas. Tropas de burros e mulas chegam do Rio Grande do Sul para facilitar o transporte. Sorocaba será um importante entroncamento deste comércio. Outros caminhos trazem mercadorias e aventureiros do litoral da Bahia e do Rio de Janeiro.

Mudanças administrativas seguem-se a essas alterações econômicas. A capital, Salvador, escolhida devido a sua posição central em relação a litoral, vai ser transferida para o Rio de Janeiro (1763), mais bem situada para fiscalizar a saída do ouro de Minas Gerais.

As necessidades da produção aurífera (e de diamantes) provocam um aumento de preços do escravo, que chegam aos milhares da África e mesmo do Nordeste, onde a crise estimula os latifundiários a vendê-los. O século XVIII vai ser o apogeu do tráfico de escravos.

Forma-se no interior da colônia uma sociedade urbana. Enquanto cidades como Salvador não passavam de 20 mil habitantes no século XVIII, Vila Rica, em Minas, alcança mais de 30 mil na mesma época.

A urbanização promove a instalação de inúmeros serviços urbanos, lojas, bodegas, armazéns, hospedarias, depósitos etc. Em numerosas oficinas trabalham artesãos de todo tipo, a maioria negros e mulatos, escravos e libertos.

As características da produção aurífera levam alguns senhores de escravos a permitir que estes acumulassem alguns recursos (além da coerção, prêmios podiam estimular o escravo a achar mais ouro), para comprar a própria liberdade. Em 1735, negros e mulatos forros representam 1,4% da população; em 1786, 35%.

A Crise do Sistema Colonial

O esgotamento das minas, em fins do século XVIII, coincide com importantes modificações na conjuntura mundial. Na Inglaterra ocorre o apogeu da produção manufatureira e o início da Revolução Industrial. Resulta de um longo processo de "acumulação primitiva" do capital (acumulação que não tem origem na exploração da mais valia do assalariado), para a qual contribuíam os povos americanos como vítimas do saque ou da espoliação através do Pacto Colonial.

A produção em larga escala coloca em primeiro plano a necessidade da venda das mercadorias produzidas.

A Inglaterra, que fora grande traficante de escravos, a riqueza de Manchester , uma das primeiras cidades inglesas a se industrializar, provém justamente do tráfico), passa a liderar a luta contra o tráfico e pela abolição da escravidão. É que os capitais gastos com a compra de escravos por parte dos proprietários poderiam ser transferidos para a compra de mercadorias inglesas. O fim do trabalho escravo exigiria a importação de força de trabalho européia, contribuindo para atenuar o problema social na Europa (onde o avanço do capitalismo proletarizava milhares de camponeses e artesãos) e para ampliar, através desses trabalhadores assalariados, o mercado consumidor na América, em particular no Brasil, o maior mercado para os produtos ingleses na América.

O comércio indireto (ou através do contrabando) com as colônias alheias já não era suficiente. É preciso quebrar o Pacto Colonial. A Inglaterra é pioneira na pregação do ''livre comércio'', que preconizava a abolição de todas as práticas comerciais protecionistas. Estas idéias serviam à indústria inglesa que, graças a sua maior produtividade, competia em vantagem com outros países. Nesse mesmo período, na França, as idéias iluministas - que negam os privilégios da nobreza e afirmam a legitimidade popular das leis e instituições - se constróem na luta contra o Estado absolutista feudal e preparam a Revolução Francesa (1789).

Apesar das proibições, as notícias sobre as transformações mundiais e as “subversivas idéias francesas” penetram na América Latina e encontram receptividade nas camadas médias e mesmo em setores da classe dominante (muitas das classes dominantes latino-americanas vão estudar na Europa e se entusiasmam com as mudanças provocadas pela Revolução Industrial na Inglaterra e pelas idéias iluministas). Os proprietários de terras e gado (e de escravos, no caso brasileiro) estavam insatisfeitos com O Pacto Colonial, especialmente agora quando o livre comércio lhes abria possibilidades de comprarem manufaturados a preços mais baixos e de conseguirem melhores condições para a venda de seus produtos. As metrópoles, através de políticas fiscais mais opressivas e de reformas administrativas que excluíam a classe dominante nativa da participação da administração colonial, tentaram aumentar a arrecadação, contribuindo para criar as bases materiais da receptividade às novas idéias.

Para as camadas médias (homens livres pobres das cidades), a crise econômica era uma limitação a suas possibilidades de ascensão. Já as mudanças poderiam representar uma melhoria na sua condição. O sucesso da Revolução Norte-americana (que se inicia em 1776) reforça o ânimo dos simpatizantes de mudanças. Era a primeira vez que uma colônia se tornava independente.

Foi dentro deste contexto que ocorreram as lutas de independência na América Latina.




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