Apresentação à Butler



Baixar 67.41 Kb.
Encontro02.03.2018
Tamanho67.41 Kb.

Aula Judith Butler na tela – maio/2012

Apresentação à Butler

- formação em filosofia, vai discutir “o saber”

- propõe uma crítica a certas noções do pensamento ocidental

- será vista como “fundadora” da teoria queer



Problemas de gênero

- discute basicamente aqui o gênero a partir da reflexão sobre a identidade “mulher”

- identidade “mulher” – não existe algo baseado no idem, na igualdade, no idêntico. A imagem de uma identidade mulher subsume outras diferenças. Faz essa discussão a partir da proposta teórica de Foucault. (do segundo Foucault, o da “genealogia” da Hist. da sexualidade vol I)

Gênero – não há uma identidade fixa, uma “mulher”, ou um “homem”, definido, dado, independente do lugar, do contexto, da dinâmica social. Identidade é conjunturalmente definida. (e aqui podemos lembrar também que “a identidade” nunca está acabada, é um processo constante)

Identidade pode ser um ideal normativo, que busca regular uma identidade feminina, como faz o próprio feminismo. (Assim como outros movimentos sociais o fazem, que cristalizam identidades como “negro”, “gay”, lésbica. Mas lembrem-se que essas cristalização de identidades é muito mais forte no movimento norte-americano. É depois ad Butler que parecem pessoas que se definem como “queer”, querendo escapar de uma definição de identidade sexual – gay, bissexual, lésbica - , ao mesmo tempo que negar a ordem heterossexual)

- Propõe em termos políticos a noção de coalizão (temporária) - não é mais possível pensar na política feminista tradicional, dos anos 70, que falava em “a mulher”. As coalizões são possíveis, porém temporárias, dadas as inevitáveis diferenças entre as mulheres. Ou seja, parte de seu problema vem também da própria divisão interna do movimento feminista, que no caso dos EUA, vem marcadamente pela diferença das mulheres negras e lésbicas.

- intersecção com hierarquias de classe, raça/etnia, sexualidade, etc.

- opõe a noção de sujeito transcendental a de sujeito contextualizado (nesse sentido, insere-se numa corrente que pode ser chamada de pós-moderna, ou mesmo pós-estruturalista)

Poder produz a estrutura binária do gênero, o que ela vê acontecer nos escritos de Beauvoir e Sartre (e o sujeito masculino do desejo, uma cultura masculinista em que a mulher é o mistério, o “outro”)

Pergunta-se então: “Que configuração de poder constrói o sujeito e o Outro, essa relação binária entre “homens” e “mulheres”, e a estabilidade interna destes termos?” (p. 8)

Fala de Foucault e sua necessidade de fazer uma genealogia para expor as categorias fundacionais de sexo, gênero e desejo como um formação específica de poder.

“A crítica genealógica recusa-se a buscar as origens do gênero, a verdade íntima do desejo feminino, uma identidade sexual genuína ou autêntica que a repressão impede de ver; em vez disso ela investiga as apostas políticas que designam como origem e causa categorias de identidade que, na verdade, são efeitos de instituições, práticas e discursos cujos pontos de origem são múltiplos e difusos. A tarefa dessa investigação é centrar-se – e descentrar-se – nessas instituições definidoras: o falogocentrismo e a heterossexualidade compulsória.” (9)

“A genealogical critique refuses to search for the origins of gender, the inner truth of female desire, a genuine or authentic sexual identity that repression has kept from view; rather, genealogy investigates the political stakes in designating as an origin and cause those identity categories that are in fact the effects of institutions, practices, discourses with multiple and diffuse points of origin. The task of this inquiry is to center on – and decenter – such defining institutions: phallogocentrism and compulsory heterosexuality.” (viii-ix) - p.9 no BR

Homem e Mulher – são termos relacionais, não estáveis

O texto se divide em 3 partes que fazem uma genealogia crítica das categorias de gênero em 3 domínios discursivos diferentes.

Cap 1 – “Sujeitos do sexo/gênero/desejo” - Considera o status da “mulher” como sujeito do feminismo e da distinção entre sexo e gênero. Desconstrói a noção de sexo como “natural”. Masculino / feminino – não estão colados em corpos de homens e mulheres (pensar como os sentidos e associação de masculino e feminino circulam, como propõe Strathern). Critica e desconstrói o que chama de “metafísica da substância”.

Cap 2 – “Proibição, Psicanálise, e a produção da matriz heterossexual matrix” - analisa alguns textos do estruturalismo, psicanálise e feminismo quanto ao tabu do incesto como o mecanismo que tenta reforçar identidades de gênero internamente coerentes e discretas dentro da estrutura heterossexual. Propõe (ou retoma, d ecerto modo) a noção de matriz heterossexual – transpõe um dimorfismo orgânico para um dimorfismo de gênero, e do desejo, um matriz que supõe coerência entre sexo-gênero-desejo.

Cap 3 – “Atos Corporais Subversivos”- discute Julia Kristeva, Foucault, Wittig e propõe a sua noção de performatividade, de gênero como um “ato” em construção. REPETIÇÃO: Sinal de que a materialização nunca está completa, os corpos nunca completam totalmente as normas. Exemplos das drag queens.

Conclusão – Da Paródia à Política

Cap 1


Feminismo – assume que há alguma identidade (Mulher) que não apenas inicia os interesses e objetivos do feminismo, mas que tb é sujeito da representação política que se almeja. Mas o sujeito mulher também se tornou problemático.

(citando Foucault) O poder jurídico “produz” inevitavelmente aquilo que ele diz apenas representar; a política deve tratar desta função dual do poder: jurídica e produtiva. (p. 19)

A crítica feminista precisa entender como a própria categoria “mulheres”, sujeito do feminismo, é produzida e constrangida (restrained) pelas mesmas estruturas de poder através das quais se busca a emancipação. [Ou seja, como a categoria “mulher” foi construída pelo feminismo, supondo que estava apenas representando “as mulheres”.] Pensar na construção política do sujeito.

Pode não haver um sujeito que existe antes da lei, esperando ser representado pela lei.

Há uma integridade ontológica do sujeito? Há uma suposição de um estado natural, uma fábula fundante que é constitutiva das estruturas jurídicas do liberalismo (p.20). Há uma imagem de um “antes” não-histórico, no qual se constitui uma categoria ontológica do sujeito – ou seja, como se houvesse uma pessoa, natural, que é dada antes da cultura, ou da sociedade, e que todas juntas fazem então um certo “contrato social” – imagem que há em Lévi-Strauss, assim como em Freud e Lacan – é a partir da noção de poder como na História da Sexualidade do Foucault que ela vai pensar a teoria, inclusive a teoria feminista. (é o que ela chama de “ficções fundacionistas”)

O termo “mulheres” denota uma identidade comum, mas desde certo tipo de feminismo, sabe-se que essa categoria geral e unificadora é problemática, GÊNERO NÃO EXISTE EM SI, FORA DE OUTRAS INTERSECÇÕES:

“Se alguém “é” um mulher, isso certamente não é tudo que esse alguém é (...) porque o gênero nem sempre se constituiu de maneira coerente ou consistente nos diferentes contextos históricos, e porque o gênero estabelece interseções com modalidades raciais, classistas, étnicas, sexuais e regionais de identidades discursivamente constituídas. Assim, tornou-se impossível separar “gênero” das interseções políticas e culturais que invariavelmente o produz e o mantém.” (p. 20, tradução minha)

[intersecções – Mulheres em condições variadas, discussões dentro do próprio feminismo, inclusive a partir da teoria que ela vai enfocar: a lésbica.]

Rebate a proposta de uma base universal para o feminismo – opressão universal.

A idéia de um patriarcado universal já está bem desacreditada, mas uma concepção geral de “mulheres”, como genericamente compartilhada, é bem mais difícil de deslocar…

Ver p. 21 – parágrafo que começa com: “Embora afirmara a existência...”

Ela sugere que a presumida universalidade e unidade do sujeito do feminismo é efetivamente minada pelos constrangimentos do discurso representacional em que funciona. A insistência num sujeito estável do feminismo, como uma categoria uniforme de mulheres, gera múltiplas recusas a esta categoria.

Mais ainda: será que a construção da categoria “mulheres” como sujeito estável e coerente é uma regulação e reificação das relações de gênero? Isso não vai contra os objetivos do feminismo? Até que ponto a categoria das mulheres só ganha estabilidade no contexto da matriz heterossexual?

Traçar as operações políticas que produzem e escondem o que se qualifica como sujeito jurídico do feminismo é a tarefa de uma genealogia feminista da categoria mulheres. (p. 23)

Distinção entre sexo e gênero pretende afastar a idéia da “biologia como destino” (p. 6), porque o gênero é culturalmente construído.

Se o gênero são os significados culturais assumidos pelo corpo sexuado, não se pode dizer que ele “decorre” do sexo. (p. 24)

Se gênero independe do sexo, então gênero se torna um “artifício” (mas não algo livre, veremos abaixo) – homem e masculino podem estar num corpo masculino, ou num corpo feminino (idem para mulher e feminino)

DEFINIÇÃO DE GÊNERO QUE PRETENDE ROMPER COM A LÓGICA: Sexo está para o gênero, assim como a natureza para a cultura. Pois o sexo é também culturalmente construído. Na verdade, talvez ele sempre tenha sido gênero, não há distinção entre sexo e gênero...

SEXO já é uma categoria do gênero.

Gênero é o meio cultural/discursivo pelo qual uma “natureza sexuada” ou um “sexo natural” é produzido e estabelecido como se fosse “pré-discursivo”, ou seja, como se fosse anterior à cultura, como se fosse um superfície neutra sobre a qual a cultura age. Essa produção do sexo como se fosse pré-discursivo deve ser entendida como um efeito do aparato de construção cultural que chamamos de gênero. (p. 25)

“Assim, como deve a noção de gênero ser reformulada, para abranger as relações de poder que produzem o efeito de um sexo pré-discursivo e ocultam, desse modo, a própria operação da produção discursiva?” (p.26)



ESSE É UM PONTO CENTRAL DO SEU RACIOCÍNIO: não há um sexo natural, antes, pré-cultural, a partir do qual o gênero é construído, que exista fora dos discursos sobre a diferença sexual – como vimos com Laqueur, discursos de saber poder, como diria Foucault. Do mesmo modo, não há um sujeito antes da cultura.

Há um gênero que as pessoas possuem, ou um atributo essencial do que apessoa é?

Fala da construção do gênero, citando Simone de Beauvoir, pensando na idéia de construção, do determinismo e do espaço para vontade/escolha pessoal, livre arbítrio. – ver pp. 26 e 27 – em “não se nasce mulher, torna-se mulher”, o gênero é construído, mas há um agente implicado, um cogito que assume ou se apropria desse gênero. Mas a construção permite escolha? Quais os limites do gênero?

Não se trata de escolha pessoal, claro, há limites que são impostos pelos discursos culturais hegemônicos, baseados em estruturas binárias que parecem ser a linguagem da racionalidade universal. Há portanto constrangimentos marcados pela linguagem. [ou poderíamos dizer, nos nossos termos, os limites culturais, o que é visto como possível e aceitável, e o que ela vai descrever noutro texto como “corpos abjetos”, que saem da binariedade hegemônica aceitável, que saem da matriz heterossexual]

Ver p. 28, 2o parágrafo - Gênero como “marca da diferença biológica, lingüística, e /ou cultural

Algumas teóricas feministas dizem que o gênero é uma “relação” (Scott), um conjunto de relações e, não um atributo individual. Outras, a partir de Beauvoir, argumentam que somente o gênero feminino é marcado, o masculino se funde com a pessoa universal (neutra), que transcende seu corpo (ao passo que a mulher está presa ao seu corpo, e marcada desta forma)

(discute Beauvoir e Irigaray, que fala da linguagem falogocêntrica, na qual as mulheress são o irrepresentável.)

Metafísica da substância – concepções humanistas do sujeito tendem a presumir uma pessoa substantiva, portadora de atributos essenciais e não essenciais. Gênero como um atributo da pessoa. (ela quer se opor a uma noção de sujeito transcendental, e trata de um sujeito contextualizado, constrangido pela cultura, mas também em processo, nunca “acabado”).

Mencionando Joan Scott: teoria social do sujeito – ao invés de uma concepção universal da pessoa, gênero como uma relação entre sujeitos socialmente constituídos, em contextos especificáveis. (p. 29)

Beauvoir – p. 31 – sujeito masculino, universal, se opõe ao “Outro” feminino e corporificado, o feminino torna-se o seu corpo. Associações culturais entre mente e masculinidade X corpo e feminilidade, decorrendo da oposição binária corpo X mente.

Necessidade de pensar intersecções diferenciais para além da diferença sexual (p. 34)

Debates sobre essencialismo colocam noutra perspectiva a questão da universalidade da identidade feminina e da opressão masculina. Há uma categoria “mulheres” baseada em estruturas transculturais de feminilidade, maternidade, sexualidade ou de écriture feminine. E isso ela pretende discutir e problematizar, questionando assim parte da teoria feminista, trazendo a questão das intersecções das oposições de classe e raça.

Em vez de se falar numa identidade feminina universal, feminismo agora fala em coalizão (p. 35). Necessidade de uma abordagem antifundacionista da política de coalizões. (p. 37)

Q. da identidade – p.37 e seg.

Não dá para discutir-se identidade de modo anterior à identidade de gênero, porque as “pessoas” só são inteligíveis no gênero, em conformidade com os padrões reconhecidos de inteligibilidade do gênero. (p. 37)

Em que medida as práticas regulatórias de formação e divisão do gênero constituem a identidade, a coerência interna do sujeito, de fato, o status auto-idêntico da pessoa? Em que medida a “identidade” é um ideal normativo ao invés de uma característica descritiva da experiência?

Gêneros “inteligíveis” são aqueles que de algum modo instituem e mantêm relações de coerência e continuidade entre sexo, gênero, prática sexual e desejo. (Matriz heterossexual) (p. 38)

A noção de um “verdade” do sexo (como diz Foucault) é produzida pelas práticas regulatórias que promovem identidades coerentes. A heterossexualização do desejo requer a institui a produção de uma oposição discreta e assimétrica entre feminino e masculino, entendidos como atributos expressivos de ser mulher ou homem. (pp. 38-39) Ou seja, para ela é isso que produz, requer, regula o gênero como uma oposição binária.

p. 39 – matriz de inteligibilidade – heterossexualidade compulsória

Sexo – gênero – desejo (e prática sexual) – podem não ser coerentes.

Metafísica da substância – como se do sexo decorresse o gênero e o desejo, como se fossem coerentes, exigindo para tanto uma heterossexualidade estável e oposicional – ver p. 45

Mas, para deslocar a relação binária e a metafísica da substância, é preciso pressupor que as categorias de masculino e feminino, mulher e homem, são da mesma forma produzidas dentro da estrutura binária, como de certa forma faz Foucault. (23) Foucault sugere que a categoria do sexo é tb construída através do modo historicamente específico de sexualidade.

2º parágrafo, Pág. 48 DEFINIÇÃO DE GÊNERO – produzido performativamente:

(ler no texto) “(...) o efeito substantivo do gênero é performativamente produzido e imposto pelas práticas reguladoras da coerência do gênero (...) o gênero é sempre um feito [um fazer, um ato] mas não é obra de um sujeito que existe antes desse fazer [fato, ato]. Não há uma identidade de gênero por trás ou antes destas expressões de gênero, essa identidade é performaticamente constituída.

A noção utópica de uma sexualidade liberta dos construtos heterossexuais, uma sexualidade além do sexo, não reconhece as formas pelas quais as relações de poder continuam a construir a sexualidade para as mulheres, mesmo nos termos de uma heterossexualidade “liberada” ou do lesbianismo (p. 54)… (criticando Irigaray e Wittig…)

Assim como o Gênero, a sexualidade também é culturalmente construída [essa construção, na verdade, é conjunta nesta perspectiva] portanto não há também uma sexualidade “livre”, antes, fora, ou além do poder. Mas isso não significa que tenhamos apenas que repetir sem criticar as relações de dominação... (pp. 55-56)

Haverá formas de repetição que não constituam simples imitação e reprodução? (56)

Sim: Mesmo as convenções heterossexuais dentro de relações homossexuais podem desnaturalizar as categorias de gênero (LER pp. 56-7)

Para ela, é o caso de várias identidades sexuais – homo, gays, etc. – que permitem a desnaturalização e a mobilização das categorias de gênero. A replicação dos construtos heterossexuais em contextos não-hetero ressalta o status de construção do “original heterossexual” – ver p. 31, ou 57

Estas configurações culturais de confusão do gênero operam como espaços para intervenção, exposição, e deslocamento das reificações. Há “repetições subversivas”, que questionam as “ficções reguladoras”.

pp. 58-59: não há um agente, com posse de 1 gênero, antes do ato – gênero é construindo sendo feito, no corpo, nas relações sociais. Explica sua noção de performatividade.

Falara que o gênero é construído não é dizer que ele seja “artificial”

Mulher é um termo em processo, um tornar-se, um construção sem início e fim. (ler p. 59)

Cap. 2


Capítulo discutirá a questão da "lei", da proibição que institui o gênero.

Lévi-Strauss e Estruturas Elementares do Parentesco: Mulher - objeto da troca que institui o parentesco/aliança; objeto de valor, dom, termo de relação entre grupos de homens. As mulheres, na teoria de L-S, são lugar da permuta patronímica (explicar este termo, o nome do pai, de família)

Supõe uma lógica universal que estrutura as relações humanas.

Identidade masculina - troca de mulheres, mulheres como objeto de troca. Reciprocidade se dá entre homens, heterossexualidade exogâmica instituída pelo tabu, supõe não-reciprocidade entre os sexos.

Centralidade do tabu do incesto – tabu produz heterossexaulidade exogâmica, lei que proíbe incesto institui e regula a economia do parentesco.

Lévi-Strauss - naturalização da heterossexualidade e do agenciamento sexual masculino, pressupõe uma masculinidade heterossexual do sujeito do desejo - construções discursivas não assumidas, mas que são pressupostos do modelo estruturalista [semelhante ao que diz Gayle Rubin]

VER DEFINIÇÕES nas pp. 107 a 109:

Gênero como uma representação /atuação (enactment) que constitui performativamente a aparência de sua própria fixidez interior. (ler final da p.107)

Algumas partes do corpo são valorizadas (pênis, vagina, seios) como focos de prazer porque correspondem ao ideal normativo de um corpo gender-specific. Alguns prazeres servem as práticas legitimadoras de formação de identidade que se dão dentro da matriz das normas de gênero. (108-109)

Ela afirma que através da crítica genealógica ao fundacionismo de Foucault fez sua leitura de Lévi-Strauss, Freud e da matriz heterossexual, mas ainda falta precisar como a lei jurídica da psicanálise, a repressão, produz e prolifera o gênero que pretende controlar. (p. 72)

Cita o trabalho de Gayle Rubin (“the traffic on women…”, p.110) como ainda que não de forma explícita, já fazendo uma análise foucaultiana, que depois torna-se central no trabalho desta autora.

Foucault fala da lei produtiva sem postular um desejo original – e aqui, o tabu do incesto não reprime portanto uma disposição primária, mas cria a distinção entre disposições “primárias” e “secundárias” – e esta distinção descreve e reproduz a distinção entre heterossexualidade legítima e homossexualidade ilegítima (como afirma Rubin).

Citando Rubin (à pág. 111): O tabu do incesto pressupõe um tabu anterior (menos articulado) sobre a homossexualidade. A proibição sobre certas uniões heterossexuais supõe um tabu contra as uniões não-heterossexuais. Gênero não é apenas uma identificação com um sexo, mas também acarreta que o desejo sexual seja dirigido ao outro sexo.

Mas, então, Rubin fala que antes que um macho ou fêmea biológicos tornem-se homens e mulheres no gênero, cada criança contém todas as possibilidades sexuais. Ou seja, ela se esforça em trazer uma sexualidade “anterior à lei”, uma bissexualidade primária. Mas Butler diz que se aplicarmos a crítica Foucaultiana, então a lei produz tanto a heterossexualidade sancionada como a homossexualidade transgressiva. (p.112) – Ambos são EFEITOS, em termos ontológicos e temporais, posteriores à lei, e a ilusão de uma sexualidade anterior à lei é criação da própria lei.

Portanto, o ensaio de Rubin mantém-se preso à distinção entre sexo e gênero, sendo o primeiro anterior.

Começa a falar de Foucault e A História da Sexualidade vol. 1 (pg. 75, 114), e seus 2 argumentos: (1) a “lei” estruturalista pode ser compreendida como uma formação de poder, uma configuração histórica específica, e (2) a lei pode ser vista como produzindo ou gerando o desejo que, afirma-se, ela busca reprimir.

O desejo é produzido e proibido como um gesto simbólico ritual através do qual o modelo jurídico exercita e consolida seu próprio poder.

O problema é supor que o tabu do incesto opere da mesma forma em toda parte (sua universalidade) – p.115

A teoria psicanalítica reconhce a capacidade produtiva do tabu do incesto. Neste contexto, não só se cria a heterossexualidade, mas a homossexualidade emerge como um desejo que deve ser produzido para permanecer reprimido. A heterossexualidade precisa, para se manter intacta como forma social distinta, da concepção inteligível da homossexualidade.

Assim, a bissexualidade não vem antes, não está fora do simbólico, mas é uma construção de seu discurso constitutivo – o que se mantéme como “impensável” e “não dito” nos termos de uma forma cultural existente não é necessariamente o que é excluído de sua matriz de inteligibilidade; ao contrário, é o que é marginalizado nela. O “impensável” está portanto totalmente dentro da cultura, mas totalmente excluído da cultura dominante. (pp. 115 a 117 )

[ela está preparando o terreno para o último capítulo, que vai falar de performance e subversão…]

Cap. 3

Foucault, Herculine e a política da descontinuidade sexual

Revê o que considera uma ambigüidade de Foucault na sua análise dos diários de Herculine Babin, o seu “limbo feliz de uma não identidade” (p. 141). Com Herculine, Foucault parece vislumbrar uma sexualidade “antes da lei”, pré-discuriva, porque deslocada, confusa, de difícil caracterização. Mas é possível na matruz foucaultiana ver uma sexualidade fora da lei? (p. 144)

Corpo hermafrodito de Herculine – difícil descrever as características primárias do seu corpo e relacioná-las com sua identidade de gênero (que muda) e a direção e os objetos de seu desejo. (147)

Problematiza como a biologia classifica os sexos através dos genes, como os traços masculinos são vistos como “ativos” (cita Fausto-Sterling). Literatura sobre a determinação sexual – feminilidade é considerada como ausência do fator masculino, ou presença “passiva” deste fator. (158)

As pesquisas sobre determinação sexual são estruturadas e orientadas por pressuposições culturais sobre o status relativos de homens e mulheres, sobre a relação binária do gênero – assim torna-se dificílimo distinguir o “sexo” do gênero. Linguagem da biologia participa de outras linguagens. (160)

A categoria do sexo pertence a um sistema de heterossexualidade compulsória, que opera através de um sistema de reprodução compulsória. Para Wittig, masculino e feminino, macho e fêmea existem unicamente no âmbito da matriz heterossexual, são termos naturalizados.

Mas isso leva a pensar que o sexo e gênero não precisam ser coerentes – a categoria “mulher” não decorre necessariamente do corpo feminino. (163)

Distinção entre sexo e gênero – corpos sexuados podem dar ensejo a gêneros diferentes – então o próprio gênero é uma espécie de devir ou atividade, gênero não deve ser concebido como substantivo, mas como ação repetida e incessante. Gênero pode se proliferar para além dos limites binários impostos pelo aspecto aparentemente binário do sexo. (163)

Inscrições corporais, subversões performativas

Categorias de sexo verdadeiro, gênero distinto e sexualidade – pontos de referência estáveis para política feminista. Construtos de identidade como pontos de partida epistemológicos para o feminismo.

Mary Douglas – p. 188 – Discursos sobre as fronteiras do corpo, como os limites do socialmente hegemônico. – corpo simboliza sistemas delimitados, fronteiras representam as fronteiras sociais ameaçadas. Por isso, poder e perigo.

Tabu do incesto e tabu anterior contra a homossexualidade – como “momentos generativos da identidade de gênero, como as proibições que produzem a identidade nas grades culturalmente inteligíveis de uma heterossexualidade idealizada e compulsória. Essa produção disciplinar do gênero leva a efeito uma falsa estabilização do gênero, no interesse da construção e regulação heterossexuais da sexualidade no domínio reprodutor. A construção da coerência oculta as descontinuidades do gênero, que grassam nos contextos heterossexuais, bissexuais, gays e lésbicos, nos quais o gênero não decorre necessariamente do sexo, e o desejo, ou a sexualidade em geral, não parece decorrer do gênero – nos quais, a rigor, nenhuma dessas dimensões de corporeidade significante expressa ou reflete outra. (194)

Denuncia-se assim o ideal regulador como norma e ficção.

Atos, gestos e desejo produzem o efeito de um núcleo ou substância interna – produzem na superfície do corpo. Gestos e atuações são performativos, pois representam uma suposta identidade ou essência que são fabricações.

O fato de o corpo com gênero ser marcado pelo performativo sugere que ele não tem status ontológico separados dos vários atos que constituem sua realidade. (194)

A verdade interna do gênero é uma fabricação – travesti, drag revelam esse mecanismo de fabricação – ver citação à p. 195-6

p. 196 – noção de uma identidade original ou primária do gênero é freqüentemente parodiada nas práticas culturais do travestismo, da drag, e nas estilização das identidades butch/femme das lésbicas.

Performance da drag brinca com a distinção entre a anatomia do performista e o gênero que é performado. São 3 dimensões contingentes da corporeidade significante: sexo anatômico, identidade de gênero e performance de gênero.

Ao imitar o gênero, a drag revela implicitamente a estrutura imitativa do próprio gênero – assim como sua contingência. (196)

Imitações deslocam os significados originais. Não há uma identificação original como causa determinante, a identidade de gênero pode ser reconhecida como uma história pessoal/cultural de significados recebidos.

Paródia não é subversiva em si mesma.

O corpo não é um “ser”, mas uma fronteira variável.

Gênero... como um estilo corporal, um “ato” por assim dizer, que tanto é intencional como performativo, onde “performativo” sugere uma construção dramática e contingente do sentido. (199)

“como estratégia de sobrevivência em sistemas compulsórios, o gênero é uma performance com consequências claramente punitivas. (199)

“Os vários atos de gênero criam a idéia de gênero, e sem esses atos, não haveria gênero algum, pois não há nenhuma “essência” que o gênero expresse ou exteriorize, nem tampouco um ideal objetivo ao qual aspire, e porque o gênero não é um dado da realidade.” (199)

O gênero é uma construção que oculta a sua gênese, e que obriga á sua adequação, pois quem não se adéqua é punido, ele compele, obriga, a nossa crença em sua necessidade e naturalidade.

Ação do gênero requer uma performatividade repetida que mantém, e que visa manter, o gênero na sua estrutura binária. Não porque algum sujeito o obriga, mas porque o gênero consolida e funda o sujeito. (200)

Gênero não é uma identidade estável ou um lócus para ação, é uma identidade tenuamente construída no tempo por meio de uma repetição estilizada de atos. (200) (e não um modelo substancial de identidade) Há uma aparência de substância que é uma identidade construída, uma realização performativa na qual a plateia e os atores creem.

Gênero é uma norma que nunca pode ser completamente internalizada. (200)



Os atributos de gênero não são expressivos, mas performativos, constituem a identidade que pretensamente expressariam ou revelariam.

“O fato de a realidade do gênero ser criada mediante performances sociais contínuas significa que as próprias noções de sexo essencial e de masculinidade ou feminilidade verdadeiras ou permanentes também são constituídas, como parte da estratégia que oculta o caráter performativo do gênero e as possibilidades performativas de proliferação das configurações de gênero fora das estruturas restritivas da dominação masculinista e da heterossexualidade compulsória.” (201)



Conclusão – Da paródia à política

Ponto de discussão aqui, para concluir, é a relativização da noção de sujeito filosófico – não há para ela uma “eu” que exista antes da cultura, antes do discurso. Não há um sujeito transcendental, um “ego” antes do contexto cultural em que se insere. De onde decorre a noção típica da epistemologia ocidental do eu/outro, sujeito/objeto.

Se o sujeito é formado pelo discurso, ele também já é formado marcado pelo seu gênero. No entanto, ela não quer dizer que é totalmente determinado pela cultura, já que o lugar de agência estaria, portanto, nas performances que deslocam o masculino e o feminino de corpos sexuados de fêmeas e machos.

O agente se constrói nessa ação, não precisa estar “pronto” antes.

Ver p. 205 – raciocínio fundacionista da política de identidade – primeiro há uma identidade para que os interesses políticos possam ser elaborados.

Meu argumento é que não há necessidade de existir uma “agente por trás do ato”, mas que o “agente” é diversamente constituído no e através do ato.” (205)

É preciso compreender a identidade como uma PRÁTICA SIGNIFICANTE.

(Ver pp. 209, 210, 211)

Judith Butler – Bodies that Matter

Introdução

Tentativa de responder às críticas feitas a Gender Trouble em dois sentidos: (1) em pensar mais a materialidade do corpo, já que o livro havia desconstruído o sexo como matéria pré-social; (2) explicar melhor sua noção de performatividade de gênero, garantindo que se entenda que ela não está dizendo que são escolhas “livres” ou individuais, como parece que alguns leram o livro anterior, principalmente nos exemplos das drag queens.

Nessa introdução, retoma e explica vários pontos de Gender Trouble.

Começa perguntando:

“Há uma maneira de ligar a questão da materialidade do corpo à performatividade do gênero? E como categoria de “sexo” figura dentro desta relação?” (p. 1)
A categoria de “sexo” é desde o início, normativa, um ideal regulatório nos termos de Foucault. Funciona como norma e é arte de uma prática regulatória que produz os corpos que governa. Sexo é um ideal regulatório que é obrigatoriamente materializado ao longo do tempo, num processo de reiteração das normas. O fato de que a reiteração é necessária é um sinal de que a materialização nunca é completa, que os corpos nem sempre estão completamente de acordo com as normas.

Como a noção de performatividade do gênero se relaciona a este conceito de materialização? A performatividade não deve ser entendida como um ato singular e deliberado, mas sim como uma prática citacional e reiterativa através da qual o discurso produz os efeitos que ele nomeia. (p.2)

“... as normas regulatórias do “sexo” trabalham de um modo performativo para constituir a materialidade dos corpos e, mais especificamente, para materializar o sexo do corpo, materializar a diferença sexual a serviço da consolidação do imperativo heterossexual.” (2)

Não se pode assim entender o “gênero” como uma construção cultural imposta sobre uma matéria – seja ela um corpo ou um sexo dado. Ao invés disso, uma vez que o próprio “sexo” é entendido em sua normatividade, a materialidade do corpo não pode ser pensada de modo separado na materialização da norma regulatória.
Nesta reformulação da materialidade dos corpos estão em jogo os seguintes pontos:

(1) a recolocação da matéria/da questão dos corpos (the matter of bodies) como o efeito de uma dinâmica do poder, de tal modo que a matéria dos corpos será indissociável das normas regulatórias que governam sua materialização e a significação desses efeitos materiais;

(2) a compreensão da performatividade não como o ato pelo qual o sujeito traz à vida o que ela/ele nomeia, mas sim como o poder reiterativo do discurso de produzir o fenômeno que ele regula e constrange;

(3) a construção do “sexo” não mais como um dado corporal a partir do qual a construção do gênero é artificialmente imposta, mas como uma norma cultural que governa a materialização dos corpos;

(4) um repensar do processo pelo qual uma norma corporal é assumida, apropriada por um sujeito, mas sim que o sujeito, o “eu” que fala é formado por ter passado por este processo de assumir um sexo; e

(5) uma ligação entre este processo de “assumir” um sexo com a questão da identificação e com os meios discursivos através dos quais o imperativo heterossexual permite certas identificações de sexo e proíbe outras. (pp.2-3)


Esta matriz exclusiva através da qual os sujeitos são formados requer portanto a produção simultânea de um domínio de seres abjetos; aqueles que ainda não são “sujeitos”, mas que forma o exterior constitutivo do domínio do sujeito.

O abjeto designa as zonas “não habitáveis” da vida social. (p. 3) O sujeito é constituído através da força de exclusão e abjeção , que produz o que está fora do sujeito, um exterior abjeto – mas que está afinal dentro do sujeito também como seu repúdio fundante.

A materialização de um dado sexo concerne a regulação das práticas de identificação – de tal forma que a identificação com a abjeção do sexo é sempre desaprovada. Essa abjeção desaprovada ameaça revelar os pressupostos fundantes do sujeito sexuado; esta ameaça e disrupção é um recurso crítico na luta para rearticular os próprios termos da legitimidade e inteligibilidade simbólica.

Des-identificação com certas categorias de sexo é tb crucial para rearticulação da contestação democrática.


DA CONSTRUÇÃO À MATERIALIZAÇÃO

Retoma a relação problemática entre os termos natureza e cultura, a relativização do termo natureza (ver p. 4)

Se Gênero é o sentido social que o sexo assume, gênero emerge como um termo que desloca e absorve o “sexo”, o dessubstancializa. (p. 5, final do 1º parágrafo – acho que está retomando GT aqui)

Ver tb último parágrafo – se sexo é absorvido por gênero, “sexo” torna-se algo como um ficção.

Vai tentar entender o problema do construtivismo - “quem” constrói? (p.6)

É preciso ter um “eu” ou “nós” que constrói? Mas não há um “eu” que não tenha sido submetido ao gênero , já que o gênero é, entre outras coisas, as relações diferenciadoras pelas quais os sujeitos que falam se constituem. O “eu” nem precede nem resulta desse processo de gendering, mas emerge apenas dentro e como a matriz das próprias relações de Gênero. (7)

Outra objeção – a construção exclui a agência e o sujeito enquanto agente? Mas afirmar que o sujeito é produzido por uma matriz de relações generificada não é acabar como sujeito, mas perguntar sobre as condições de sua emergência.

A matriz de relações de gênero é anterior à emergência do “humano” – ex – do ultrassom e do processo de feminizar o feto. (final da p. 7) Ao se dar um nome de menina está se criando um limite e tb uma inculcação repetida da norma.

O que é mais fácil de ver pelos seres abjetos que escapam da norma, que parecem não humanos.

O debate entre construtivismo e essencialismo perde o ponto da desconstrução – que não é que tudo é construído discursivamente. Dizer que há uma matriz de relações de gênero que institui e sustenta o sujeito não é afirmar que há uma única matriz que age de uma única forma determinista. (8)


Quer tirar a noção gramatical de sujeito da noção de construção.

A construção não é nem um sujeito, nem um ato, mas um processo de reiteração através dos quais os “sujeitos” e os “atos” aparecem. Não há um poder que age, mas apenas atuações reiteradas que são o poder em sua persistência e instabilidade.

Quer propor voltar a noção da matéria (matter) – não como lugar ou superfície, mas como um processo de materialização que se estabiliza ao longo do tempo para produzir o efeito de fronteira, fixidez e superfície que chamamos matéria. (p.9, final)

Através de quais normas regulatórias o sexo é materializado?

A construção é um processo temporal que opera através da reiteração de normas; o sexo é tanto produzido como desestabilizado nesse processo. (p.10)

Não há uma referência a um corpo puro que não seja ao mesmo tempo a contínua formação desse corpo.


PERFORMATIVIDADE COMO CITACIONALIDADE

Materialização como um processo de sedimentação, um tipo de citação, aquisição do ser através da citação do poder que estabelece uma cumplicidade originária com o poder na formação do “eu”. (p.15)

Reformulação da performatividade (para não parecer uma “escolha”)

a) Performatividade de gênero não pode ser teorizada separadamente da prática forçada e reiterativa dos regimes regulatórios sexuais;

b) o relato da agência condicionada por estes mesmos regimes de discurso/poder não podem ser confundidas com voluntarismo ou individualismo, e muito menos consumismo, e não supõe um sujeito que escolhe;

c) o regime da heterossexualidade opera para circunscrever e limitar a “materialidade” do sexo, e essa “materialidade” é formada e mantida através de e como uma materialização das normas regulatórias que são em parte aquelas da hegemonia heterossexual;

d) a materialização das normas requer aqueles processos de identificação através dos quais as normas são assumidas ou apropriadas, e estas identificações precedem e permitem a formação de um sujeito, mas não são performatizadas por um sujeito;

e) os limites do construtivismo são expostos nos limites da vida corporal onde corpos abjetos ou deslegitimados não contam como “corpos”.


Hegemonia heterossexual – materialização da norma produz corpos viáveis, e tb um domínio de corpos abjetos.

Quer pensar que desafios o reino do abjeto e excluído produz para a hegemonia simbólica





Compartilhe com seus amigos:


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal