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Entre a realidade e a imaginação: Suor, Jubiabá e Mar Morto.

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Alessandra Oliveira Araújo1

Heloísa Araújo de Araújo2

Isabela Santos Albuquerque3


“Sei, de um saber sem dúvidas, que de tudo quanto escrevi, milhares de páginas, só perdurará aquilo onde existir um sopro de vida vivida, o hálito do povo da Bahia. Dele tirei as matérias de minha humanidade, para ele criei e construí”. (AMADO 1987).


Um “diálogo” entre a geografia e a literatura, nas obras literárias Suor, Jubiabá e Mar Morto, do escritor baiano Jorge Amado, será aqui construído. O autor Jorge Amado remete a uma realidade histórica e cultural, enriquecendo o estudo sobre o urbano, pois utiliza o referido espaço geográfico, o Pelourinho4e toda a cidade, como cenário do lugar vivido e sentido, transmitindo uma visão reveladora das relações sociais presenciadas.

Ver esse novo Pelourinho, o “coração da cidade do Salvador”, observar e viajar nele, através das obras de Jorge Amado, foi essencial para o desenvolvimento deste artigo.  

Tratar-se-á aqui desse novo enfoque sobre a cidade, onde o urbano não representa apenas a transformação pelo capitalismo, do espaço em uma mercadoria, mas também envolve a memória, o cotidiano e o espaço vivido e seu lugar na compreensão da urbanização. As histórias da cidade não podem ser substituídas por outras, sem perspectiva de futuro. Precisa-se preservar o “caminhar da cidade”, por isso, “a forma do urbano, sua razão suprema, a saber, a simultaneidade e o encontro, não podem desaparecer” (LEFEBRVE ,1999, p.68).

A importância do Pelourinho, que também é a marca da cultura baiana, ficou caracterizada por Silva e Pinheiro (1997, p.1), quando afirmam:


El Pelourinho... tras conocer tiempos de esplendor y miseria, de indiferencia y abandono y, por último, de restauración de su grandeza histórica, la urdimbre del Pelourinho circunscribe un largo período que se inicia y confunde con el origen de la ciudad de Salvador, la más antigua aglomeración urbana brasileña, que durante 214 años fue la sede del gobierno colonial de Portugal (1549-1763) y durante tres siglos fue la ciudad más importante de la América portuguesa.


A busca da relação existente entre a Geografia e a Literatura não é recente, mas é, sobretudo, na década de 70, que essa área do conhecimento começa a ganhar mais força, através do desenvolvimento da corrente humanística da Geografia.

Foi nesta fase que Monteiro revela sua paixão e dedicação pela Geografia na Literatura, como fonte de informações que enriquece e colore seus estudos, chegando então mais próximo da compreensão do sentido do espaço vivido, segundo a identidade cultural e os valores encontrados nas obras literárias.


Trata-se, sem dúvida, de uma ousadia. Tenho aspirado, através de cerca de quarenta anos (...). Esta capacidade paradoxal encontrável na literatura ou a ela conferida pelo geógrafo, brota de um reconhecimento de que a essência ou a verdade do mundo transcende a interpretação de dados coligidos por geógrafos, historiadores e sociólogos. (MONTEIRO, 1988,p.2)
Tem-se como meta associar a geografia e a literatura ao contexto social, buscando analisar certas categorias fundamentais da Geografia, como o espaço geográfico e o território, dentre outras, em algumas obras literárias de Jorge Amado, verificando como este se apropriou do espaço para criar, escrever, denunciar e sonhar... Portanto, o romance se torna um veículo de comunicação, mediante o estudo interdisciplinar.

Morin (2005, p. 128) defende a necessidade de se reunir o conhecimento científico e as artes, a fim de estabelecer um saber transdisciplinar. ”É preciso conceber o sujeito como aquele que dá unidade e invariância a uma pluralidade de personagens, de caracteres, de potencialidades... Precisamos, portanto de uma concepção complexa do sujeito”.

O primeiro romance de Jorge Amado, O País do Carnaval, data de 1931, lançado quando tinha apenas 19 anos, surpreende o público com sua aguçada crítica política. Em plena militância na Juventude Comunista, publica também Cacau, Suor, Jubiabá, Mar Morto e Capitães de Areia, todos na década de 30. Relata como fonte de inspiração a realidade, “ainda hoje, as linhas mestras da minha obra literária repousam sobre esses anos de minha adolescência nas ruas da cidade da Bahia” (AMADO apud SANTOS, 1993, p. 73).

A habilidade do autor, em transpor os limites do espaço apresentado e a genialidade de sua obra, foi expressa nos seus livros e fortemente influenciada por suas vivências, constatações e observações cotidianas.

Jorge Amado foi o romancista brasileiro com maior número de obras traduzidas em todo o mundo e quem descreveu, de forma mais perfeita, a Bahia. Ele conseguiu, sensível e habilmente, permear seus trabalhos de elementos geográficos. Nada nos seus livros é indiferente...Tudo “toca” o coração...

 Por tudo isso, tornou-se um “mito”, capaz de influir na realidade ao seu redor. Cavalcanti, de maneira acertada, afirma:


Grande guia da Bahia

Mostrou para o mundo inteiro

O que é que a Bahia tem

De mais puro, verdadeiro...

É ele o escritor do século

Virou lenda, virou mito,

Virou gênio, virou fábula

Por tudo que tem escrito...

(Cavalcante apud GOLDSTEIN, 2003, P.63)


Suor: Uma Viagem pelo Pelourinho

O espaço pode ser visto como obra resultante das relações estabelecidas na sociedade, sendo uma categoria de análise fundamental para a ciência geográfica. Santos (1996) aborda o espaço enquanto produto histórico, fruto de um processo que também é histórico. Infere que todos os espaços “são geográficos porque são determinados pelo movimento da sociedade [...] consistindo em uma realidade de funcionamento unitário, um mosaico de relações, de formas, funções e sentidos” (p. 61).

O livro apresenta um panorama que tem como ponto de partida e efervescência o prédio nº 68, situado na Ladeira do Pelourinho. Assim, o sobrado, como referência espacial, é apresentado pelo autor: quatro andares, subdivididos em 116 quartos que abrigavam, aproximadamente, 600 residentes, como input para desnudar a vida soteropolitana.
Um mundo fétido, sem higiene e sem moral, com ratos, palavrões e gente. Operários, soldados, árabes de fala arrevesada, mascates, ladrões, prostitutas, costureiras, carregadores, gentes de todas as cores, de todos os lugares, com todos os trajes, enchiam o sobrado. (AMADO, 1983, p. 11).
A história de Suor, articula paralelamente várias histórias, como a do mendigo Cabaça; do ex-palhaço Jujuba; da preta velha vendedora de mingau e contadora de casos; dos homossexuais Franz e Medonho; da prostituta Maria Cabuçu; da costureira dona Risoleta; de Linda e Álvaro Lima, protestantes acirrados; dentre outros personagens que viviam situações específicas num mesmo contexto. ”A fragmentação é uma outra marca de Suor” (DUARTE,1996,p.64).

A falta de higiene, a prostituição, o desemprego, a fome, a moradia mal estruturada, a mendicância, a discriminação social, o racismo, a exploração da Igreja Católica, a exploração dos trabalhadores pelos patrões, as doenças e falta de assistência (pelo menos para os pobres!), a sexualidade, a falta de lazer, as transformações no mesmo a partir dos seus anseios e necessidades. E segue com os movimentos migratórios e a saudade da terra natal, os movimentos grevistas, a falsa liberdade...isto tudo é Suor!

Os seres humanos se relacionam com o meio em que vivem e realizam... o espaço é, dessa forma, produzido e reproduzido, através das relações sociais, políticas, culturais e econômicas, estabelecidas pela sociedade, modelando a paisagem. Analisar as nuances presentes e omitidas nas paisagens é uma tarefa importante que favorece vislumbrar os discursos e forças ideológicas presentes nas mesmas.

Partir das vivências para fazer uma análise do espaço geográfico é uma tarefa interessante e fundamental para a Geografia, à medida que se cria base para conceber, produzir, transformar e interpretar o espaço, a partir dos desejos e reais necessidades de uma população. Yi-Fu Tuan (1980, 1983) desenvolve trabalhos na linha da percepção, despertando a importância das relações dos indivíduos com o espaço por envolverem sentimentos e relacionamentos advindos das experiências comuns e peculiares, através do tempo. Então, o convívio que as pessoas mantêm com o espaço é que vai conferir familiaridade ou não ao mesmo, configurando-o em um lugar. Se a relação for permeada por imagens positivas, pode desenvolver a topofilia que corresponde à afetividade e interação das pessoas com os lugares. Entretanto, se o contato for intensificado por imagens negativas, pode aflorar a topofobia, que é um sentimento de repulsa ao lugar.

Os conceitos articulados fornecem base para analisar a obra Suor (1934), do escritor Jorge Amado, que retrata o cotidiano de um importante espaço geográfico da cidade de Salvador no referido momento histórico: o Pelourinho. Jorge Amado escreve com a propriedade de quem conhece e fala sobre um espaço vivido e percebido, marcado por imagens e sentimentos topofílicos e topofóbicos. Tal assertiva pode ser constatada a partir da citação a seguir, na qual a escritora Alice Raillard ratifica suas impressões com relação à forma como o escritor transita por espaços (para ele, lugares!) da Cidade.
O passeio desta manhã, em que acompanhei a você e a Zélia, me causou uma impressão muito forte. Emocionou-me muito, ensinou-me muito. Como explicar? Primeiro o Pelourinho, onde fomos rever a casa em que você vivia antigamente - o sobrado de Suor, que desde então se tornou um hotel. (RAILLARD, 1990, p. 79).
Convém mencionar que, apesar de tantos entraves, o Pelourinho era o lugar de muitos personagens que se sentiam em casa, ao percorrer as ruas e conviver com o cotidiano efervescente. Assim, imagens topofílicas também eram criadas em função dos laços de afetividade estabelecidos.

É interessante observar como o livro Suor continua atual, pois muitos dos entraves abordados pelo autor continuam a ocorrer, até com maior abrangência, não só no bairro do Pelourinho, mas em toda Salvador. O Pelourinho é um “lugar mágico, no qual Jorge Amado declarou ter aprendido a acreditar em milagres, nos milagres do povo” (TARRÍO, 1997, p.59).

E neste lugar “santo”, para seus moradores, e mágico, para tantos outros, inclusive turistas, o Governo Estadual iniciou, em 1992, o Programa de Restauração do Centro Histórico de Salvador, CHS, com os objetivos formais de promover a recuperação e a restauração física da área, do se u potencial produtivo e da sua organização social (CONDER, 1995). Entretanto, este Programa continua a ser um desafio ao poder público, tendo em vista os insucessos nas relocações e indenizações dos seus moradores. Fato que impulsionou a ONU a fazer várias recomendações ao Governo Brasileiro sobre a situação dos moradores do Pelourinho. Dentre elas, cita-se: ao término da restauração, deve-se garantir o retorno dos moradores às casas restauradas; ampliar o número de escola; preservar a memória e a identidade cultural desta população; deve ainda exigir também a imediata suspensão de despejos e deslocamentos forçados; além de garantir a justa, lógica e necessária participação da população nas decisões da 7ª Etapa de Recuperação do Pelourinho. ( SAULE & CARDOSO, 2005)

Tudo isto remete a importância da História Cultural que tem também sido abordada por Pesavento (2003, p. 1) como:


 (...) um conjunto de significados partilhados e construídos pelos homens para explicar o mundo. A cultura é ainda uma forma de expressão e tradução da realidade que se faz simbólica, ou seja, admite-se que os sentidos conferidos às palavras, às coisas, às ações e aos atores sociais se apresentam de forma cifrada, portanto, já um significado e uma apreciação valorativa.

 


Os Sonhos e as Relações entre o Morro e a Cidade em Jubiabá


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Jubiabá, escrito em 1935, tem grande repercussão entre a crítica e ganha logo novas edições fora do país. É um romance que narra a vida de Antônio Balduíno, principal personagem da obra, que vive no morro da Capa Negro, no Pelourinho. Ele vivencia aos poucos a miséria do povo do morro, o racismo5, a prostituição6, a crença do povo com relação ao Candomblé7, a exploração da mão-de-obra, os baixos salários e o lento amadurecimento do protagonista rumo à consciência política.

No livro, vê-se também a importância do espaço urbano e da relação entre

a cidade e o morro, vivido pelo menino Balduíno, que tinha um vislumbre pela cidade que, de início, não a pertence. As histórias ouvidas do morro, por muito tempo, são referências para a construção de sua identidade. É nesse espaço do morro que a figura do Pai de Santo, Jubiabá, é respeitada e temida por todos.

Pode-se observar na obra o valor da ocupação do território no processo formador de raízes, identidade, opiniões... “pois um grupo não pode ser compreendido sem o seu território, no sentido em que a identidade sócio-cultural das pessoas estaria inarredavelmente ligada aos atributos do espaço concreto” (SOUZA, 1995, p.84). As diferenças reveladas pela cidade constituem-se na essência das relações sociais, nas percepções, vivências e memórias dos indivíduos.

A ficção produzida em interposição com a realidade da vivência do autor é reveladora de relações de poder, ”oposição entre morro / cidade e o fascínio desta última sobre o menino......de um jogo de imagens entre proximidade e distância, exclusão e inclusão, que será reiterado ao longo de toda narrativa” (SAMPAIO, apud CUNHA, 1996, p.126).

Considerando a cidade como lugar de memória, a preservação desta através da literatura fornece um sentimento de continuidade em relação ao passado. A construção dessa identidade pode ser entendida através da história e da literatura, existindo uma intensa ligação imaginário/memória, como afirma Pesavento (1999, p.08), “o imaginário, como sistema de idéias e imagens de representação aditiva, teria a capacidade de criar o real”.

No romance, Balduíno passa a viver nas ruas de Salvador, revelando toda a rebeldia do personagem e a exploração do espaço da cidade. Como o autor, poeticamente, descreve:
[...] Vivia a grande aventura da liberdade. Sua casa era a cidade toda, seu emprego era corrê-la. O filho do morro pobre é hoje o dono da cidade. Cidade religiosa, cidade colonial, cidade negra da Bahia. Igrejas suntuosas bordadas de ouro, casas de azulejos azuis, antigos sobrados onde a miséria habita, ruas e ladeiras, calçadas de pedra, fortes velhos, lugares históricos, e o cais, [...] tudo pertence ao negro Balduíno. Só ele é o dono da cidade porque só ele a conhece toda, sabe de todos os seus segredos, vagabundeou em todas as suas ruas [...] (AMADO, 2003, p.53).

Daí por diante, o livro passa a narrar as aventuras de Baldo, primeiro como chefe de meninos de rua, onde se destaca a religião afro-brasileira, o candomblé do Pai de Santo Jubiabá, depois como compositor de samba, boxeador, trabalhador rural nas plantações de fumo8 e atleta de circo. Baldo consegue um emprego de operário no cais e, com os operários, se envolve em uma greve: “Não teve luz e também não teve pão, ficou mudo o telefone sem ter comunicação. Durante a greve não houve jornal, também não teve bonde para nenhum ramal” (p. 318). A participação na greve faz Baldo descobrir o poder do povo que “é a verdadeira luta” (AMADO, 2003, p.319). Assim, ele é tocado pela conscientização e importância do trabalho no espaço vivido.

Mas o que é o poder? Segundo Foucault (2003, p.241), o poder nunca é absoluto “[...] há uma relação de poder, há uma possibilidade de resistência. Jamais somos aprisionados pelo poder, podemos sempre modificar sua dominação em condições determinadas e segundo uma estratégia precisa”. A questão do poder e da liberdade não se limita apenas no campo das estruturas: há uma concepção mecanicista da história onde as transformações econômicas determinarão as transformações de ordem política, jurídica e ideológica.

Através do personagem, Antônio Balduíno, o homem comum do povo, surge como o verdadeiro herói, na ficção brasileira... E o povo era representado pelo samba, cantado e pensado por ele. O romance soube captar esta transformação, de herói-malandro à herói-positivo, trabalhador. Surgiu, então e assim, a greve, que “é o ponto culminante do livro porque as antenas do escritor estavam ligadas no que era fundamental em termos das aspirações dos trabalhadores” (DUARTE, 1996, p.111). Balduíno, feliz e realizado com a vitória dos trabalhadores na greve, canta versos do samba.

O próximo romance do autor a ser correlacionado com a Geografia, trata-se do Mar Morto que, na sua visão, decorre de Jubiabá e está ligado a este que o antecedeu. Ou melhor, segundo ele mesmo, escoa de um de seus capítulos.

O Espaço Geográfico e o Território em Mar Morto


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A construção do espaço e do território são conseqüências da convivência da sociedade, num dado meio natural, onde as condições da natureza proporcionaram seu estabelecimento e organização. Dollfus (1982) escreve sobre a relação do homem com o espaço geográfico, conferindo a este uma funcionalidade, mas também uma afetividade, pois ao mesmo tempo em que precisa do espaço para desenvolver seu meio de sobrevivência, identifica partes que lhe são particulares na construção de sua personalidade, enquanto indivíduo componente de uma sociedade.

O espaço geográfico é um espaço percebido e sentido pelos homens em função tanto de seus sistemas de pensamento como de suas necessidades. À percepção do espaço real, campo, aldeia ou cidade, vêm somar-se ou combinarem-se elementos irracionais, míticos ou religiosos. (DOLLFUS, 1982, p. 52).


Dollfus (p. 52), em outra análise feita sobre o sentimento místico do homem, em relação ao espaço, aborda que: “[...] A água está pejada de significação; há fontes e lagos sagrados, mas a idéia de coisa sagrada pode associar-se à utilização precisa de um elemento do espaço. [...]”.

É notória a preocupação do autor em demonstrar como a sociedade compreende, vivencia, sente e se apropria do espaço, de acordo com as suas necessidades. Mesmo um espaço sagrado pode ter uma utilidade específica associada, o que não retira sua identidade sagrada.

É o que se nota na obra Mar Morto, escrita por Jorge Amado em 1936. Para os personagens de Mar Morto, o mar é este espaço sagrado, recheado de significação, mas é, ao mesmo tempo, utilizado como meio de sobrevivência pois “o oceano é muito grande, o mar é uma estrada sem fim, as águas são muito mais que metade do mundo, são três quartas partes e tudo isso é de Iemanjá”. (AMADO, 1987, p. 67/68)”.

Para Souza (1995), o conceito de território revela a importância das relações dos indivíduos com o espaço natural e o construído, onde sua apropriação por um determinado grupo social tende a gerar um envolvimento afetivo, a ponto de originar sentimentos de identidade num espaço.

Pode-se perceber, no desenvolvimento dos enredos, a preocupação em estabelecer localizações geográficas precisas em relação aos caminhos percorridos pelos personagens e sua perfeita noção e apropriação do espaço e do território, onde o conceito geográfico está presente. Nota-se, então, a originalidade da obra de Amado e sua extrema proximidade com a realidade e com a utilização do espaço geográfico. Até mesmo ao se passear pelas ruas de Salvador é possível identificar locais por onde seus personagens caminharam.

Mar Morto conta o romance de Guma e Lívia - ele marítimo, que ganhava a vida cortando a baía de Todos os Santos, e ela, temerosa por sua vida, pois sabia que o mar é a vida e a morte de todos eles. Mostra também a analogia das pessoas que vivem no cais, tanto dos marítimos que trabalham no mar, quantos daqueles que os esperam em terra. Suas relações com o mar são tão fortes e seu destino é tão intimamente ligado que não enxergam outro futuro a não ser viver e morrer no mar, como diz ao longo de todo o romance: “É doce morrer no mar” (AMADO, 1987, p. 20).

A obra tem como cenário um importante espaço geográfico para a cidade de Salvador no período contemporâneo em que o autor escreveu: o cais ligado por uma rampa ao Mercado Modelo, local de grande efervescência comercial do período. Isto pode ser comprovado pelo testemunho do autor em entrevista sobre o livro aqui comentado. Apresenta a vida daqueles que estão diretamente ligados ao cais9. Conta a história dos marítimos que estão atrelados ao mar, na vida e na morte, totalmente dependente e que não enxergam - ou não conseguem se libertar – para outro destino, a não ser viver do mar e nele morrer.

O homem da beira do cais só tem uma estrada na sua vida: a estrada do mar. Por ela entram que seu destino é esse. O mar é o dono de todos eles. Do mar vem toda a alegria e toda a tristeza porque o mar é mistério que nem os marinheiros mais velhos entendem [...]. (AMADO, 1987, p. 19).

Muitas situações aconteciam ao mesmo tempo no cais, resultado de um contexto sócio-econômico, voltado para a exploração das classes menos privilegiadas. Porém, a ligação com o mar e a total entrega de suas vidas a Iemanjá fazia com que os moradores da beira do cais aceitassem com resignação os seus destinos, a pobreza, a falta de perspectiva para si e para seus filhos. Enfim, a miséria na qual estavam inseridos.

Perante o exposto, pode-se dizer que o romance Mar Morto é uma obra lírica, em forma de prosa, ao mesmo tempo preocupada em denunciar e refletir sobre a situação sócio-econômica da população que habitou e habita a beira do cais.

Jorge Amado recebe, com Mar Morto, o Prêmio Graça Aranha, da Academia Brasileira de Letras e, no mesmo ano, sofre sua primeira prisão - o então socialista Jorge Amado - é detido no Rio de Janeiro ao participar do levante ocorrido em novembro do ano anterior, conhecido como “Intentona Comunista”.



Transcender entre a realidade e a imaginação

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A organização do espaço estudado e vivenciado pelo autor consolida a importância das relações mantidas com a sociedade, onde são produzidos laços de afetividade, identidade e poder. O elo existente entre a geografia e a literatura, aqui analisados, permitiram perceber que Jorge Amado vai muito além da narrativa, pois está fortemente inserido na história que produziu através da realidade vivenciada, e que se constitui no lugar de memória.

Nas obras Suor, Jubiabá e Mar Morto o autor aborda seu modelo romanesco e de realismo social, com críticas contra a sociedade capitalista que começa a se instalar no Brasil. Todas as suas obras da primeira fase (1931-1956) são romances de protesto e denúncia, nos quais trata de problemas do povo baiano, como os baixos salários, a prostituição precoce, a miséria, a crença do povo, a religiosidade, a descrença no governo e o desprezo com os negros.

Através de seus personagens, Jorge Amado protagoniza um lento amadurecimento rumo à consciência política, abraçando as causas operárias e dos trabalhadores em geral, na resistência à miséria e à injustiça. Participa como interprete do povo sofrido numa sociedade classista de explorado e exploradores.

Os livros aqui analisados são exemplos da preocupação, que merece ser sempre copiada no cotidiano, por condições de vida dignas para todos – independentemente da sua classe social – o que irá se refletir no desenvolvimento de enredos fundamentados na luta por liberdade e dignidade.

Nesta perspectiva, pode-se inferir como proposta de Jorge Amado, para a construção dos seus livros e personagens, que eles nasceram do vivenciado pelo autor:- as obras permitem “experienciar” o espaço mais próximo da realidade. Por isso, Delmo (1987, p.26), poeta Grapiúna, reflete: “Se não vigiarrmos a vida eles escreverão a história e o futuro poderá neles acreditar. Ainda bem que existe o artista que canta o povo: suas dores e suas alegrias, seus temores e sua fé.”

Viajar no tempo, no espaço e nas palavras do autor foi essencial para sentir que Geografia e Literatura podem se complementar e desvendar mundos fictícios. Assim, é na literatura como define Morin (2005, p.49), “ que o ensino sobre a condição humana pode adquirir forma vívida e ativa, para esclarecer cada um sobre sua própria vida”. Deste modo, realizar esta reflexão foi um desafio que possibilitou praticar uma análise interdisciplinar entre a Geografia, através dos seus conceitos basilares; a Literatura, que por meio de um panorama romanesco-social favoreceu uma viagem pelo fictício, e também a História, que forneceu base para compreender o contexto em que as obras foram produzidas.

Referências Bibliográficas

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DOLLFUS. Olivier. O Espaço Geográfico. São Paulo: DIFEL, 1982.

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FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2003.

GOLDSTEIN, Ilana Seltzer. O Brasil Best Seller de Jorge Amado. São Paulo: Senac, 2003.

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SAMPAIO, Aluysio Mendonça. Jorge Amado, o romancista. São Paulo: Maltese. 1996.
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TUAN, Yi – Fu. Espaço e Lugar: A perspectiva da Experiência. São Paulo: Difel. 1983.

  • Selecionado: Próxima Edição Visões Imaginárias da cidade da Bahia.

11, 2 e 3 Mestrandas - Curso de Pós-graduação em Geografia da UFBA.

2


3


4 Localizado no Centro Histórico de Salvador e tombado pelo Patrimônio da Humanidade pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura).


5 Para Malcolm em Jubiabá : o conceito de harmonia racial , tradicionalmente manipulada pela elite

(branca) do Brasil..



6 Foi a partir de 1930 que essa forma de atividade se instala definitivamente no Pelourinho.

7 Cerimônias religiosas de origem nagô em que as divindades são os orixás.

8 O fumo foi plantado inicialmente nas terras arenosas dos tabuleiros litorâneos, na região do atual município de Cachoeira, e expandiu-se depois para Muritiba, Cruz das Almas e São Gonçalo.

9 Apesar da aparência depressiva, o cais era um lugar onde os personagens se sentiam estreitamente ligados, como se não apresentassem tamanhas dificuldades para os que habitavam aquele local.





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