Arménio Vieira



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ARMÉNIO VIEIRA: AULAS MAGNAS DE ARTE POÉTICA

(a propósito do Prémio Camões)
por Simone Caputo Gomes (Universidade de São Paulo-USP-Brasil)


Cena 1: Um gato salta nas nuvens e o vate, olhos fitos no espaço, alcança as estrelas
Assim, embarco e sigo,

sem que eu saiba

em que ponto no rio ou mar

bifurca a prosa e, nítido,

se vê o poema.
Considero mais do que merecida a premiação do escritor Arménio Vieira com o “Camões” 2009. E, com ela, a homenagem à poesia, caboverdiana e universal, que sua obra cuidadosamente erige. Tomando como título, mote e epígrafes seus próprios versos, de modo a relembrar um pouco da sua MAIÚSCULA poesia, comemoro (com muitos, com certeza) a satisfação de um reconhecimento que já tardava para a maturidade do sistema literário caboverdiano e para a riqueza complexa da cultura do arquipélago, aberta para o mundo desde a sua nascença.

Arménio Vieira é um poeta que dá a medida do que leu. Pelas referências disponibilizadas nos textos, o leitor pode acompanhar a sua trajetória de erudição em vários campos da arte e do conhecimento.

Sua arte poética dialoga, explicita ou implicitamente, com criadores compatriotas como os claridosos fundadores, Ovídio Martins, Osvaldo Osório, Mário Fonseca, Tacalhe, mas também com os irmãos na língua como os brasileiros Dante Milano, Drummond, João Cabral de Melo Neto e o português Jorge de Sena; conversa, em variadas línguas, com irmãos na poesia de como Li T'ai Pó (Rihaku) traduzido por Ezra Pound, Omar Khayam, Sade, Pushkin, Tennyson, Maiakovski, Lautréamont, Max Jacob, Giuseppe Ungaretti, Rubén Darío, Reverdy, Jean Cocteau, Apollinaire; e com os grandes mestres, a quem repetidas vezes homenageia, como Homero, Virgílio (Publius), Catulo, Petrarca, Dante, Camões, Tasso, Góngora, Shakespeare, Quevedo, Victor Hugo, Edgar Allan Poe, Baudelaire, Mallarmé, Verlaine, Rimbaud, Ezra Pound, Juan Ramón Jiménez, Saint-John Perse, Whitman, Fernando Pessoa, García Lorca, Jorge Luís Borges, Pablo Neruda, entre outros.

Sua poesia viaja nas formas como “epopéia, canção de amor,  epigrama, ode moderna, epitáfio” (vide poema “Ser tigre”, In: Poemas), quadra, quinteto, haikai, elegia, poema experimental..

Passeia pelos vários tipos de arte como a música, a pintura, a arquitetura, a escultura, o cinema. E por vários tipos de discurso como o metapoético, o ideológico, o político, o religioso, o mitológico, o metalingüístico, o erótico, o filosófico, o bíblico, o teatral, a fábula, a parábola. Também pelos gêneros: lírico, épico, dramático (trágico ou cômico, resvalando pelo humorístico, irônico e satírico).

Tece redes, tendo “uma aranha como companheira”. E “alcança a nuvem, que nunca é a mesma”, em seu propósito de expressar e experienciar o diverso.



Cena 2: Depois é a conversão do touro/ em tela ou poema

são bem as marcas que o estar-no-mundo e a dor

feriram numa certa pedra.

E fora outra a sorte ou talvez o lugar e o tempo

e seria diferente o livro.
A vocação do texto literário produzido por Arménio para a universalização da arte poética (e também do discurso ficcional) atesta a maturidade de um sistema literário _ o caboverdiano.

Se tomarmos, por exemplo, o seu trajeto poético como um possível paradigma para uma leitura da série literária caboverdiana (embora o poeta nunca se proponha a paradigmas, autodenominando-se tão “vadio” quanto o Vagabundo Carlitos chapliniano citado no poema “Na morte de Charlot”), poderemos acompanhar o percurso das motivações de um sistema1 que se forma a partir do impacto de questões locais ou regionais e a busca de uma caboverdianidade literária2 voltada para o infinito, que se vai consolidando como linguagem autônoma, capaz de “introduz(ir) métrica nos teoremas/ e faz(er) da geometria um livro de poemas” (“Arte poética. In: Poemas, s.d.).

Embora em sua obra sobressaiam as “lições” ou aulas magnas de arte poética em que Vieira dá a medida do que leu e experimentou, o texto de Arménio não oblitera os paraísos do êxtase ou, mais veementes, os infernos existenciais, políticos, sociais caboverdianos e não só, que têm impactado o humano.

“Toti Cadabra”, momento antológico de partida (poemas de 1971 a 1974) que dialoga com o macrossistema das literaturas de língua portuguesa na intertextualidade com Morte e Vida Severina (equação que Arménio inverte no subtítulo “Vida e morte Severina”), opera a mímesis criadora3 do universo caboverdiano centrado num “ser marginal”, “cadáver antes da morte”, de “vida macabra”, “cadabra”, de “grogue, fome, larva”. Para o poeta caboverdiano, leitor do João Cabral de Melo Neto dos “Poemas da cabra” e do texto Severino4, a união entre grotesco e belo, a animalização do homem (“Bicho-gente” é outro poema de Arménio), a ambiência maneirista shakespeareana do apodrecimento e dos vermes que proliferam na campa ou na vida constroem, no jogo da linguagem, o “inferno” de um cenário caboverdiano que se assemelha ao brasileiro em tempos de opressão política e desprezo do humano.

Tanto em Arménio quanto em Cabral, a mímesis não se confunde com reflexos de um cenário ou situação, mas cria, na teia da linguagem, uma visão do pesadelo em tempos de exclusão. Ambos são mestres da representação criadora, como o demonstra o caboverdiano no poema “Die welt als wille und vorstellun” (Mundo como vontade e como representação, segundo Schopenhauer), de Mitografias.

Arménio é o cantor dos outsiders, como os emigrantes caboverdianos do poema “Lisboa – 1971” (dedicado aos poetas Ovídio Martins e Osvaldo Osório), retratados “no coração do Império”, como “o gado mais pobre/d´África trazido”, “transidos e perdidos/no meio de guardas e aviões da Portela”.

Com figurações do antimito, do antipoema, das mitografias, o humor cáustico dinamita mundos apolíneos:

A Vénus de Milo está gorda

e fez cesariana
Apolo tem rugas

e usa lunetas


Cupido cresceu

E sofre de hérnia.


O canto dionisíaco do poeta que, como o espírito do gato (poema “Um gato lá no alto”), “não atende nem escuta a ordem de ninguém”, soou mais alto e “saltou para as nuvens”. Com ele, a “anti-moral da fábula”, o louvor aos que andam “vestidos pelo avesso”, “furtam chapéus, roubam sapatos”, andam “descalços e descobertos”.

Como costumo sempre dizer, o caboverdiano é vergado e açoitado pelo vento, mas nunca se dobra. Mesmo sob o peso da dor, sobretudo “quando a chuva não chove”, “um homem não chora” e “nunca dobr(a) a espinha”5. A denúncia, a revolta, a resistência, o inconformismo são atitudes relevantes depreendidas da lira iconoclasta de Silvenius:

ardente vento revolta venta (...)

berra cabra resiste gente

aguenta urra luta agarra

agreste sílaba sibila silva

Pedra-vento

vento-pedra

merda medra range ruge.
Do “seco barro terra seca”, “pedra-vento” caboverdiano reverberam, aos quatro cantos do mundo, os protestos da natureza e do homem.

Cena 3: Estrela. Pedra. Consoante. E cotovia.

um pássaro,

completo e canoro,

sobe no ar e canta (...)

porque somente nos poemas

se encontrar aves que ainda cantam


Descansando por breve espaço de tempo a sua “harpa eólia”, o “pássaro livre” Arménio Vieira, pleno d’esta espécie de loucura/ Que é pouco chamar talento (“Fernando e eu/um novelo, só um”) precisa agora resolver questões do mundo prosaico que não costumam fazer parte de seu universo de liberdade despojada: pensa, na iminência da cerimônia de recebimento do Prémio Camões, se o Conde Silvenius usará fato6, se comprará “uma bicicleta”, “um cavalo” ou “um caracol”... talvez, neste momento, mimetizando a ação do/no poema “Cinefilia”, um gato “cercado por labaredas” salte para o céu e o “poeta vadio olh(e) para as nuvens/a ver se algum anjo deixa cair o cigarro”.

1 Conceito proposto pelo brasileiro Antonio Candido.

2 Por meio da posse de uma língua e de uma tradição literária herdadas do colonizador e transfiguradas pela maleabilidade plástica da cultura crioula, como afirma Gabriel Mariano em seu Cultura caboverdeana: ensaios.

3 Transfiguração de uma certa imagem do real pelo fingimento literário, segundo o teórico brasileiro Luiz Costa Lima.

4 Novamente evocado no livro Mitografias, na seção “Dez poemas mais um”, dedicados ao poeta brasileiro.

5 Mosaico composto por títulos de poemas de Arménio.

6 Sinônimo de terno, aqui no Brasil.


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