Arnaldo Antunes



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Arnaldo Antunes


40 escritos
organização: João Bandeira


ILUMINURAS

Copyright ©

Arnaldo Antunes, 2000


Copyright © desta edição Editora Iluminuras Ltda.

Prefácio e organização João Bandeira

Projeto gráfico e capa Arnaldo Antunes

ISBN: 85-7321-139-3


2000


EDITORA ILUMINURAS LTDA.
Rua Oscar Freire, 1233

01426-001 — São Paulo — SP

Tel.: (11)3068-9433/Fax: (11)282-5317

e-mail: iluminur@dialdata.com.br internet: http://www.iluminuras.com.br


sumario

Outro um — João Bandeira. 5

1. Bom dia, década. 7

2. Dois poréns. 9

3. Dyonelio Machado. 11

4. A realidade também emburrece. 13

5. Consertos no casco do barco. 16

6. Tons. 18

7. Repetição do perigo. 12

8. Cabeça Dinossauro. 22

9. Banal. 23

10. Barulho e música. 25

11. ABZ do rock. 26

12. O desafio da facilidade. 27

13.Fatalidade. 30

14. Sentidos em todos os sentidos. 31

15. Sentidos simultâneos. 33

16. Olhar do artista. 38

17. Big Bang. 40

18.Marcianos. 43

19. Chuva. 44

20. Derme / Verme. 47

21. Riquezas são diferenças. 51

22. Canções. 54

23. 21 metas para a televisão do futuro. 57

24. Dorival Caymmi. 59

25. Ponto de contato. 61

26. Winterverno. 65

27. Poesia Concreta. 67

28. Era Tudo Sexo. 73

29. Isso (para Tunga). 76

30. O amor. 80

31. O receptivo. 81

32. Casulo. 84

33. Desorientais. 88

34.Singing Alone. 90

35. Caligrafias. 92

36. Entre. 99

37. Vida ou Vida. 101

38. Na Pressão. 103

39. Celebração do desejo. 106

40. De pedra. 109



Nota do digitalizador: O texto a seguir está “espalhado” pelas páginas, não seguindo uma formatação, mais ou menos na mesma disposição em que se encontra no livro impresso.

Outro um
João Bandeira


Riqueza de recursos e domínio técnico

não representam, por si, positividade criativa.

Nem tudo que se tem se usa.

Há tempos leio com gosto coisas assim

em textos que Arnaldo Antunes solta de vez em

quando aqui e ali. Gosto por esse modo de sintetizar em formulações originais o que tem a dizer

sobre determinado tema,

sobre um assunto qual ele quer,

contra o que muitos já estavam distraidamente de acordo,

para não chover no molhado, e

sem baratear a discussão

com essa maneira de não por assim dizer.

Indo direto ao x do problema.



Nenhuma grandiloqüência, nenhuma

profundidade explícita.

Arnaldo me chama para organizarmos uma seleção

de escritos esparsos — em páginas

de jornais, revistas,

catálogos de exposições, prefácios, releases,

além de um ou outro ainda mais avulso

— no formato livro e

diferente dos que ele havia lançado até então.

Para quem está chegando agora e

mesmo para quem já vem

acompanhando os artefatos dele em diversos midia, esse livro

esboça o mapa de um pensamento

em que se pode entrever

algumas o trânsito entre linguagens, uma injetando



suas particularidades na outra formações a urgência da criação

contaminada de vida, contaminando a vida recorrentes

o incomum dentro

do comum. Idéias sobre coisas

que ele conhece de dentro, porque tem

sempre lidado com elas.

Mas essa quase-auto-cartografia é em grande parte feita

de pedaços escolhidos em outros lugares. Porque

ninguém está imune ao olho do outro.

Aqui Arnaldo fala de música, poesia,

artes visuais, técnica ou comportamento, interessando-se

também pela maneira como tudo isso se dá

no trabalho de outros, abrindo-se a eles e

ensinando a abrir não só os olhos.

E em quem ou quê Arnaldo se fixa,

ligando os sentidos no que faz fazer



sentido, vai ficando mais fácil perceber

o quanto multiplicaram-se



os meios, os procedimentos e as formas de enfrentar

a questão da novidade frente à tradição.

Nos vinte anos abarcados por esses 40 escritos

Arnaldo se tornou um interlocutor importante

para muitos artistas

e o diferencial de sua atuação ficou evidente

para um número cada vez maior de pessoas.

Enquanto trabalhávamos nesse livro,

fiquei pensando

que talvez isso aconteça

porque embora se empenhe na conquista



de um sotaque próprio, ele está sempre

disposto a reaprender como se aprende a cair



depois que já se sabe andar. De minha parte, continuo

a aprender com ele sobre

o apuro em procurar clareza e a certeza de que tudo é impuro.

1 - Bom dia, década.


revista Almanak 80, 1980
Alguma coisa é desintegrar o branco da folha. Alguma coisa como um beijo.

Chove no mundo. No teto de todo mundo. Alguma coisa antiga.

Quando eu pensei no começo do fim da década de setenta que a maneira de se fazer as coisas importava mais do que a coisa feita eu não media as fronteiras de um beijo. Do bem imprevisível contra o mal instituído. Do bem possível dentro da maneira com que o mal. Beleza. Religiosidade contra religião. Eu ainda não sabia usar a palavra inerência, marca de baton no papel yes. Eu nunca soube. Coisas de mil novecentos e setenta e nove. Eu já tinha escrito isso:
Se você pegar o através

sentido atravessado do que vai

maneira crença com a qual se faz

você diz

é de dentro que se sai

você vê

que a água é um desenho a se formar

que tudo agora vai se desmanchar

jamais saímos do fundo do mar

você sim

que é de ser até o és

até o yes do ser

é de pegar o através

a paisagem fera da beleza

alteza morte de pernas abertas

a frase interrompida em horas certas.
quando eu li:

"A mentalidade chinesa não dá ênfase a 'o que' e sim ao 'como'.

Em outras palavras, os ocidentais usam o 'que' para personificar

e absorver o 'como'".

(Chang Tung-Sun)

e depois li:

"decididamente a favor do advérbio de modo" (Caetano)

Alguma qualquer coisa. Legal que as coisas aconteçam nessa ordem de convergência e dissolução. O imprevisto é a prova mais linda da ordem natural das coisas. E eu vou aprendendo a acionar meus ímãs no instante em que as coincidências se armam. Faíscas aos olhos.

Atlântida emerge a cada segundo lá do fundo.

Civilização líquida. Dúvida de existência. Maneira crença com a qual se faz: Certeza de sim.

E então andam acontecendo coisas assim - eu vir cantando uma música do ônibus à rua, da rua à porta, e entrar em casa com ela tocando no rádio. Flashs do destino. Tudo tão sem por querer, pensar nela e vê-la, depois de tanto. Sideralmente natural.

Outra coisa: "A fé é o guia da ação" (Waly Salomão). — Lido repetido repetido repetido cinco vezes em letras maiores. Provérbio de folhinha.

A palavra sim. Mantra. Alguma coisa de lúcias. Passos de pelúcia para não se acordar. Avalanches de anjos. Rock.

Como Cartola entrevistado pelo Fantástico: Perguntaram sobre a tristeza, porque ele é um compositor triste, e tal. Resposta: "Eu não sei o que significa essa palavra, eu nunca fui triste".

Cartola repleto de luz. Estórias dos anos setenta.

Caderno de receitas: A arte deve ser sempre a fonte rejuvenescedora, mesmo que fale de velhice. Força estranha.

Todo ser luminoso é um ser iluminado, porque todos os prantos, todos os mijos, todas as águas estão unidas por um mesmo mar de tudo, barriga da mesma mãe. Quem tiver olhos, que ouça.

Diário de bordo: Tudo está em movimento. Repouso = ilusão ótica.

Ver as coisas a pelo. Teu cabelo.

Através de um inseto: Lembrar sempre do pé da mesa convertido em coluna caminho continuidade do chão.

Tudo se move. As árvores e os relógios. Tudo água.

Caderno de escola: A eletricidade das garças.

Bom dia, década.

2 - Dois poréns


suplemento Folhetim, Folha de São Paulo, 28/04/85
1

Esse papo de dizer: "rock nacional", genericamente, como se os grupos de rock que têm surgido atualmente respondessem às linhas de um mesmo movimento estético está furado. Por aqui se ouve: Titãs Made in Brazil Ira Magazine Mercenárias Lulu Santos Ratos do Porão Capital Inicial Blitz Metrô Olho Seco Ritchie Ultraje a Rigor Telex Absyntho Legião Urbana Barão Vermelho Voluntários da Pátria Paralamas do Sucesso 25 Segundos Depois Sempre Livre Léo Jaime e os Melhores Lobão e os Ronaldos RPM Cólera Coqueluxe Grafite Brylho Biquíni Cavadão Inocentes Kid Abelha e os Abóboras Selvagens Celso Blues Boy Jerry Adriani Degradée Garotas do Centro Miquinhos Amestrados Cabine C Zoo Gang 90 Smack Zero Fevers Herva Doce Rádio Taxi.

É legal que as diferenças saltem com uma força muito maior do que qualquer sentido comum que possa haver entre essas bandas; que o futuro tenha muitas faces e que pareça velha e impossível essa história de um monumento que encaminhe a MPB para uma determinada direção.

O retorno dos grupos, no lugar de estrelas individuais é óbvio. A intensa campanha mercadológica em cima do rock também. Rock in Rio. Vídeo-clips. Danceterias. Mas é preciso cegueira para pensar esse fenômeno enquanto um movimento, como foi por exemplo a Jovem Guarda.

Outro mês, Décio Pignatari escreveu nesta mesma Folha de São Paulo que o "rock nacional" não acrescenta nada à MPB. Estava se referindo a quê?

Não existe "rock nacional". Existem brilhos esparsos. Novidades e velharia apontando para muitos lados.


2

Tem um tipo de pensamento que supervaloriza a complexidade, enquanto parâmetro de qualidade artística. Confunde precariedade com pobreza, sinteticidade com banalidade, acabamento com concepção. Os mais burros ficam julgando as canções conforme sua justeza a consciências ideológicas predeterminadas. O pavor de ser ludibriada quanto ao valor real de uma canção afasta a crítica da detecção de sua veia e ergue as máscaras de avaliações equivocadas. Diante de fraseados virtuosos e harmonias complexas, sentem-se seguros para qualificar. Mas como aceitar a potência das letras diretas, das melodias fáceis e das batidas primárias dos ídolos do AM?

Proliferam produtos bem acabados tecnicamente, mas aguados. Muita competência pra pouco desempenho. O gomo da criação está em outra casca. Riqueza de recursos e domínio técnico não representam, por si, positividade criativa. Esse limite tem sido enganador. Os índios só precisam de um tambor. A novidade pode habitar tanto seqüências harmônicas dissonantes quanto a repetição insistente do mesmo acorde. Nem tudo que se tem se usa.

Falta uma outra espécie de parâmetro que defina qualidade, no universo musical.Uns fazem canções, outros fazem som, alguns fazem barulho. "Música jovem em paisagem bárbara".

O valor de uma canção deve estar associado a suas

propriedades físicas sobre o corpo. O tato se liga diretamente aos canais dos ouvidos. O coração altera seu ritmo, o pé balança involuntariamente, a pele se arrepia. O corpo reage fisiologicamente a qualquer música. O rock restitui muito desse laço. E a análise crítica deveria levar em conta a maneira como aquele som atua no corpo, o tipo de emoção que ele constrói, que região do cérebro é despertada, de que maneira se pode dançá-lo, etc. Por que a melodia da trilha de um filme de faroeste classe c me arrebata tão profundamente? Por que essa canção não sai da minha mente? O que é um som quente?

A consciência crítica que ignora os efeitos físicos produzidos pela música no corpo, não compreende o couro dos heavy-metals, a auto-flagelação dos punks, as sutilezas dos efeitos das drogas sobre o som, e o som.
3 - Dyonelio Machado
Folha de São Paulo, 29/06/85
Quem disse que isso mata?

Sexta-feira, dia 21, deu na Folha. O cara se abaixou para amarrar os sapatos, levou um tombo e morreu. Epitáfio: "Autor d'Os Ratos. Amarrou os sapatos". Mas os caras não sabem quem era Dyonelio Machado. Deram a ele uns prêmios literários, mas os caras não se lembram dos ratos roendo todo o dinheiro em cima da mesa, aqueles barulhos estranhos.

Nem só na poesia há poesia. "Há poesia na dor, na flor, no beija-flor, no elevador" (Oswald de Andrade). Há poesia nos fatos. "Dyonelio sofreu uma queda em casa, dia 8, ao amarrar os sapatos. Isto lhe custou uma cirurgia dois dias depois, já que o colo do fêmur sofreu fratura. Logo depois da operação surgiram problemas com uma infecção respiratória, que acabou evoluindo para pneumonia". Se ainda a notícia mencionasse apenas a cirurgia e a pneumonia... Mas ele fora amarrar os sapatos. O que faz haver ou não haver poesia nas coisas.

Eu não li O Louco do Cati, Desolação, Eletroencefalograma, Passos Perdidos, Deuses Econômicos, Fada, Sol Subterrâneo. Eu só li Os Ratos e a notícia de sua morte. Mas me impressionou a coerência entre o livro e o fato; entre um fato e outro. Essa menção a um dos atos mais comuns — o de amarrar os sapatos — originando a morte, tem algo parecido com o tom de sua narrativa. Tragédia sem drama. O incomum dentro do comum, como o miolo do pão dentro da casca do pão. Nenhuma grandiloqüência. Nenhuma profundidade explícita. Tudo ali: os planos pra conseguir a grana, o café, as fichas sobre o número 28, o leiteiro, a esposa, o penhor. Uma estranheza que não é estranha ao normal de onde ela vem — como a repetição da última letra no nome de Naziazeno. Como a morte nos cadarços.

Em Os Ratos, as perdas de tempo, as faltas de assunto, as repetições da mesma preocupação não são omitidas. As insistências nos detalhes desfazem a expectativa de um leitor acostumado a receber apenas as informações vitais para o desenvolvimento da trama. Um dia como um dia, e seus abismos: "O dia continuou... O dia não parou..." (pág. 69 d'Os Ratos).

Quer dizer: ele morreu de um jeito parecido com o jeito do livro dele, que também tinha um jeito parecido com a sua pessoa

— isso detectado por Érico Veríssimo, em 1970, num depoimento ao extinto jornal gaúcho Folha da Tarde, intitulado "Dyonelio sem editor": "— E que pensa você do escritor Dyonelio Machado?

— Muito parecido com o homem, o que é outro sinal de sua inteireza..."

Um dos traços de modernidade riscados em Os Ratos é a ruptura dos limites entre o discurso indireto (do narrador) e o direto (do personagem) — procedimento que mais tarde marcaria a obra de Graciliano Ramos. A impessoalidade transparente do narrador vai se dissolvendo progressivamente no decorrer do romance. Nos últimos capítulos, quando o personagem Naziazeno imagina, de sua cama, os ratos devorando o dinheiro que havia deixado sobre a mesa da cozinha, essa ruptura assume tal radicalidade que o ritmo do próprio texto se altera. Inúmeras reticências passam a pontuá-lo, envolvendo a sintaxe na obsessão do personagem. Esse nível de envolvimento do texto com o objeto de sua referência, em Dyonelio, parece reflexo da dissolução de um outro limite — aquele em que viver (ou morrer) é diferente de escrever (ou de amarrar os sapatos).

"...Ponho de parte a minha condição de médico, que se veria no dever de encontrar razões somáticas para explicar a cessação de uma vida: a dor literária era tudo quanto bastava para fazer parar um coração sensível..." (Dyonelio, 18/10/44, sobre a morte de Mário de Andrade).


4 - A realidade também emburrece
Folha de São Paulo, 28/10/85
Notícias Populares, 18/06/85: "Titãs acusam TV de burrificar as pessoas em seu novo disco".

O poeta Waly Salomão, no release desse disco: "... acontece que os Titãs são inteligentes, irônicos demais para encamparem a visão do fenômeno televisivo como encarnação do mal, a televisão enquanto Hidra de Lerna eletrônica".

Um jornal publicou, a partir do release: "... é uma visão do fenômeno televisivo como encarnação do mal, à base de muito humor...". Acontece. Há quem ouça mal e há quem entenda mal o que ouve.

Mas normalmente os burros tentam esconder a própria burrice — o que os diferencia dos chatos, que ostentam inevitavelmente a sua condição — seja na TV, nas páginas dos jornais ou na convivência diária.

A burrice cantada na primeira pessoa é, ao menos, diferente.

Tudo bem. "Televisão" (a música) soa claramente nas FMs, com sua burrice = anti-imunidade. Agora eu quero falar mais da Televisão (o aparelho), e desse preconceito-preservativo que a encara como o Monstro da Massificação.

Uma vez eu estava assistindo uma dessas novelas rurais da Globo, do horário das seis, na tevê coletiva de uma fazenda. Um dos colonos comentou que não gostava desse tipo de novela, porque caipira ele já estava cansado de ver ali todo dia. Ele gostava, sim, de novela que mostra as pessoas ricas da cidade. Já outros curtiam se identificar com os caipiras da novela. Outros, outras coisas.

A atração pela diferença, a busca de identidade, a indiferença, são apenas algumas das formas de se relacionar com a televisão. O cara que desliga a TV e sobe para o quarto de dormir não pode ver do mesmo jeito que o cara que acolhe a TV em seu quarto e dorme com ela ligada. Mas, na pior cegueira, todos os gatos são pardos. Titãs e Dominó.

A crítica da televisão que monstrifica o seu aspecto massificante exclui um elemento fundamental do processo, que é o telespectador. Se não exclui, menospreza sua capacidade de manipular o aparelho.

O cuidado em não se promiscuir com os raios catódico-emburrecedores é gerado pela preguiça de cavar uma maneira própria de se relacionar com o objeto. Mais cômodo é afastar qualquer possibilidade de contaminação. Mais asséptico. As pessoas se preservam do risco de envolvimento com a mediocridade televisada para repetirem a mediocridade universitária. Não podem apreciar a vertigem de um anúncio de sabonete, a graça patética de uma imagem da novela sem o som, ou a perda de tempo (Sombra Monstruosa do Monstro) de assistir um desenho animado em pleno horário comercial da segunda-feira.

Sabe-se que a televisão trabalha com a repetição de formas já assimiladas, com padrões estáveis e um baixo grau de novidade ou estranhamento. O tratamento da linguagem que exige um esforço de compreensão formal um pouco maior, para a comunicação de massa, é ineficiente. A renovação técnica é uma exigência constante, mas a linguagem tartarugueia (quando não carangueja). Se por um lado isso rebaixa seu valor criativo, por outro há a vantagem da televisão se tornar um objeto totalmente incorporado ao cotidiano — como uma janela.

Você olha a janela todo dia. O que você aprende do que o seu olho apreende? Do que a sua antena capta, o que você captura?

Um exercício interessante: inverter o atrativo da televisão. Assistir qualquer coisa tentando não compreender nada. Você vê as cenas, a seqüência das cenas, as pessoas, o que as pessoas fazem; ouve as vozes, a música, os ruídos. Mas você não entende o que está acontecendo ali. Cria uma estranheza, uma dificuldade intencional de seguir aquilo que se quer mostrar. Olhe por um momento a cara da sua mãe procurando não reconhecê-la.

Outro: ver televisão, apenas. Ver televisão com os olhos puros, entregando-se à sua banalidade. Esse exercício funciona como um aprimoramento da facilidade, da tolerância, da maleabilidade da mente e do espírito. Aula de culinária às onze da manhã.

Muita gente faz coisas escutando música. Pode-se também fazer coisas vendo televisão. Ela fica ligada enquanto você faz outra coisa qualquer. As vezes você olha para ela e se desconcentra daquilo que estava fazendo.

Com o advento do controle remoto, inauguraram-se novas possibilidades de brincar com a televisão. A simultaneidade dos canais se tornou mais tentadora. As interrupções, mais freqüentes. Flashes.

Eu quero é mais: tevês de bolso, tevês descartáveis, telas circulares, novas possibilidades de alteração da imagem e do som, maior número de emissoras, programação constante sem interrupção de madrugada, salas com muitos aparelhos, para ligá-los ao mesmo tempo em canais diferentes — como em O Homem Que Caiu na Terra, ou como os mendigos que assistem as pilhas de televisores ligados nas vitrines das lojas.

A televisão ensina muitas coisas; até mesmo no telecurso.

Não adianta conversar com a sua avó sobre os novos modelos de computador. Você vai ter que falar de outras coisas (ou falar de outro jeito sobre os computadores). Se você não se permite isso, vai ficar conversando só com o pessoal da IBM. Ou com os próprios computadores.

Agora você pode querer aprender outras coisas. Você olha a janela para quê?


5 - Consertos no casco do barco
Folha de São Paulo e Jornal do Brasil, 3/01/86
quem?

mim-

guém?
Eu devo ser um pouco bandido, se tanta gente me viu com esse olho. Eu devo ser um pouco bandido, um pouco louco, um pouco coitado, um pouco perigoso, artista, otário.

Porque ninguém está imune ao olho do outro.

Mas nada disso se chama Arnaldo. O cara que sentou na tinta fresca. Flagrante. Vida íntima devastada, para a visitação pública. Motivo de estúpida apologia ou' condenação das drogas. Exemplo de perigo. Pretexto para mentiras. Prometeu com as vísceras expostas às rapinas de furos para as páginas policiais.

E quero falar de tudo isso um pouco. No jornal.

Que não vi o sol nascer quadrado, vi com luz elétrica. E espelhos eram proibidos, então eu ficava sendo comigo só o que é. Sabia como estava a minha cara depois, pelos jornais. Reconhecia esse cara.

E não escrevi nada nas paredes tão reescritas. Nem meu nome.

O tempo dilatado da cadeia.

No primeiro sábado em que estive preso apareci também no Chacrinha. Achava engraçada essa ubiqüidade entre as duas jaulas. Na cela e na tevê.

Exercício constante de lidar com a diferença. Policiais e presos. Clareza interior somada à adaptabilidade externa.

Fazer daquele um local suportável, mas não agradável. Era preciso mantê-lo inóspito (saber a todo momento que não tinha nada a ver comigo), mas era onde eu estava, então nem tanto e por isso mesmo. Procurava o ponto de equilíbrio entre o desejo de sair e a capacidade de me relacionar com aquilo.

Cartas eram bem-vindas, flores foram postas na água.

Agradecimento profundo a quem viu a minha pessoa, em vez de ver a invasão de uma droga perigosa no mercado nacional, ou o mito da necessidade de transgressão do artista, ou a figura do roqueiro como marginal, ou o código penal, ou o que quer que fosse.

Contra os que me usaram de lente através da qual os monstros se mostram.

Nem a droga da prisão, nem a droga da droga, nem a droga da piedade, da miséria ou da glória que possa inspirar tudo isso — diminuem ou aumentam o valor do meu trabalho com a linguagem. Clareza. Falem claro. Dois olhos sabem ver mas não são faro.

Se eu estava ali era pra eu não estar em nenhum outro lugar. Então eu ficava ali, tentando manter essa reverência para com a minha condição — compreendendo como um privilégio a oportunidade de ter esses conhecimentos.

Agora, que a discussão se faça. Condenem ou defendam publicamente (leis, costumes, drogas, aspectos sociais, físicos, espirituais) — mas sem me usar como exemplo de uma coisa ou de outra. Símbolo de nada. Defesa ideológica de coisa alguma.

Eu me situo unicamente na violência arrebatadora do real. Uma coisa sem graça. Uma piada de que ninguém riu.
6 - Tons
Folha de São Paulo, 04/05/86

O tom é o sal da mensagem.

É duro engolir uma comida sem sal.

Nada a ver com o tom no sentido técnico, usado na música (dó ré mi fá) ou na pintura (as diferentes tonalidades de uma cor). Estou falando de "tom" no sentido vulgar do termo. Quando se diz que algo tem um tom nobre, ou pesado, suave, ácido ou agressivo, ou foi dito em tom de brincadeira, ou parece algo muito antigo, ou soa com severidade, ou frieza, etc.

Ela disse que não agüentava mais ver a minha cara, num tom amistoso demais. O que isso significa?

A frase que eu digo não será a mesma frase se sair da sua boca. Ou se eu a disser dentro de outro período. Ou com outra ordem das palavras. Ou se houver uma trilha sonora ao fundo. Ou se mudarmos a trilha sonora. Ou se ela for escrita numa letra trêmula. Ou em tipo composto num jornal. Ou como letreiro de uma loja. Ou se dita só para testar o eco desta sala. Ou se for mentira. Ou se tiver uma platéia escutando.

Essas variações geram diferentes tons. Mas onde eles se localizam exatamente? Até que ponto são intencionais?

Contrabando de tons — Personagens de ficção científica falando como monges zen. O que chamam de pós-moderno?

A lingüística e a filosofia da linguagem custaram a ver o contexto de enunciação como parte constituinte do discurso, e relevante em suas detonações de sentido. A situação, a voz que emite, o jeito como o texto é impresso. O discurso indissociável da sua práxis; impossível de ser estudado fora dela. A linguagem e seu uso — acima de significante e significado.

E as gramáticas normativas caíram no descrédito.

Claro que há mensagens mais ou menos transitivas em relação ao seu contexto. Mas a questão é que a tevê, o rádio, o discurso coloquial, os out-doors, a arte de vanguarda, o jornal, o gibi, os enganos telefônicos, a música pop e a vida moderna em geral trouxeram consigo uma crise do sentido. Do mundo dicionarizado. Da correspondência unívoca entre uma palavra e aquilo que ela representa.

Essa crise não significa obscurecimento, ou ineficiência comunicativa. Apenas a clareza de uma mensagem depende agora, mais do que nunca, de um uso apropriado. Estamos mais perto de Zelig do que da incomunicabilidade.

É legal que algumas gírias possam dizer algo numa dada situação e dizer exatamente o oposto, em outra. Coisas como "Só!", "Falou!", "Qualquer coisa", "Tudo bem", "Podes crer" — têm positividade/negatividade relativas. Dependem inteiramente do uso. E aí eclodem os significados virtuais. O sentido substituído pela sugestão de sentidos. Paradoxalmente, isso não obscurece a mensagem. Não há ambigüidade no uso de uma gíria.

Há até expressões que podem ser empregadas em mais de uma função sintática, como "puta", que cumpre não só o papel original de substantivo, como o de adjetivo ("Ganhei uma puta grana", "Fizeram um puta som"), sendo também usada como interjeição (pode-se dizer "Puta!" como se diz "Oh!").

Mensagens transparentes, como as que Humpty Dumpty usava. Só que funcionam perfeitamente no processo comunicativo.

Alice compreenderia.

O "tom" diz respeito à linguagem em sua efetivação concreta, dentro de um contexto lingüístico e situacional. Está presente não só nos elementos que compõem a mensagem em si (escolha das palavras, organização sintática), como no gesto que a acompanha, na intenção que lhe é dada, no papel em que foi impressa, no desejo de quem escuta. É como o cheiro, que habita tanto o objeto de onde provém, quanto o ar que o cerca.

Um livro não pode ser lido da mesma maneira em sua primeira e em sua qüinquagésima edição. O cheiro é diferente.

E duro engolir uma comida sem cheiro.

A crise do sentido é também uma crise da verdade. Um fato é a intersecção entre suas versões, ou apenas uma delas? Ou nenhuma delas? Entender e sentir são sinônimos? Para meio entendedor boa palavra basta?

Mix, Jones, Jobim, Sawyer, Waits.

Tons.
7 - Repetição do perigo


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