Arte e Ciência de Roubar Galinha



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João Ubaldo Ribeiro


Arte e Ciência

de Roubar Galinha


Crônicas

3a Impressão



© 1998 by João Ubaldo Ribeiro


Direitos de edição da obra em língua portuguesa adquiridas pela

Editora Nova Fronteira S.A.

Rua Bambina, 25 — Botafogo

22251-050 — Rio de Janeiro — RJ — Brasil

Tel.: 537 8770 — Fax: 286 6755



http://www.novafronteira.com.br

e-mail: novafr2 @ embratel.net.br


Equipe de produção

Leila Name Regina Marques

Michelle Chao

Sofia Sousa e Silva

Marcio Araujo
Revisão

Pedro de Moura Aragão
Editoração eletrônica FA

Editoração Eletrônica

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE

SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ


R369a Ribeiro, João Ubaldo, 1941—

Arte e ciência de roubar galinha : crônicas / João Ubaldo Ribeiro. — Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1998
ISBN 85-2090969-8
1. Crônica brasileira. I. Título.
98-1685 CDD 869.98

CDU 869.0(81)-8





http://groups.google.com/group/digitalsource

Contra Capa

A gente tem a tendência de pensar que só o que nós fazemos é difícil e complexo, cheio de sutilezas e complicações invisíveis aos olhos dos “leigos”. Isto, naturalmente, é um engano que a vida desmascara a todo instante, como sabe quem quer que já tenha ouvido com atenção qualquer homem falar de seu trabalho, que sempre, por mais simples, envolve atividades e conhecimentos insuspeitados.

Assim é, por exemplo, roubar galinha. Tenho um amigo aqui na ilha que é ladrão de galinha. Chamemo-lo de Lelé, como naqueles relatos verídicos americanos em que se trocam os nomes para proteger inocentes. Só que, naturalmente, a nossa troca se faz para proteger um culpado, no caso o próprio Lelé. É bem verdade que todo mundo aqui sabe que ele rouba galinha, mas não fica bem botar no jornal, ele pode se ofender...

(da crônica “Arte e ciência de roubar galinha”)


Orelhas do Livro

A arte narrativa de João Ubaldo Ribeiro, já bem conhecida do público graças às inúmeras edições de seus livros no Brasil e no exterior, e que o insere no rol dos maiores escritores contemporâneos, mostra-se mais uma vez nas crônicas aqui reunidas.



Arte e ciência de roubar galinha traz algumas das melhores crônicas de João Ubaldo, publicadas na imprensa, em torno da ilha de Itaparica. Com sua consagrada versatilidade literária, que o habilita a lidar com o gênero com a mesma maestria com que lida com o romance, João Ubaldo descortina para o leitor as suas memórias de infância e juventude, o seu dia-a-dia na ilha, os casos e conversas com personagens locais, representantes reais da gente brasileira.

O orgulho dos itaparicanos pela expulsão dos holandeses em 1647; a alta radioatividade da ilha, cujo efeito atinge apenas os moradores homens e tem sido injustamente confundido com mera preguiça; o amigo Cuiúba, que atribui a ignorância do escritor sobre as coisas fundamentais da vida (como ter um cágado em casa, por exemplo) ao tempo desperdiçado na leitura de tantos livros; os hábitos gastronômicos dos itaparicanos, de um ecletismo que inclui comedores de baiacu, sarigüê, morcego e faz evocar os saudosos tempos em que se podia comer “um holandês gordinho daqueles” — estes e outros acontecimentos e histórias colhidos na memória, no largo da Quitanda, no Mercado, e narrados no melhor estilo, proporcionam ao leitor o prazer do entretenimento aliado à boa literatura.


Sumário


A boa arte de furtar galinhas e 147

A Europa abaixadinha 167

A extraordinária musicalidade 95

A Igreja Católica Apostólica Americana 71

A ilha na vanguarda da gastronomia 143

A problemática da radioatividade 139

A raiz de mandioca da Viúva Monção 46

A sossegada convivência 67

A vida natural 19

Alô, massa tijucana! 155

Arte e ciência de roubar galinha 54

Colhendo os frutos da glória 91

Como ganhamos o bicampeonato no Chile 135

Dolores e Daniel 38

Dunga GR. CH., melhor da raça, 107

Encontrei todos bem 22

Envelhecendo com graça e elegância 127

Este, na verdade, não é o título 59

Fazendo a madrugada com o Ferreirinha 123

Ferreirão das Louras mostra o seu valor 131

Leite de porca é bom e faz crescer 99

Malvadezas marinhas 171

Martírio e glória do pai de fia feme 30

Mistérios da produção e do consumo 159

No pasarán! 42

Noble na peixarada 151

Nota do editor 8

Notícias de quirópteros, 63

O dia em que meu primo e eu 83

O dia em que o diabão levantou 119

O escritor da cidade 26

O fim do jegue 15

O porco ibopeano e 115

O quê? Vocês não têm um cágado em casa? 75

Os alegres mortos da nossa ilha 111

Os comedores de baiacu 34

Os pequeninos ajudantes 163

Outras retumbantes glórias atléticas 79

Padecendo no inferno mesmo 9

Questões gramaticais 87

Saudades do jejum 12

Solvitur acris hiems 175

Um professor ensina amor em Itaparica 50

Voltando aos velhos ares 103




Nota do editor

João Ubaldo Ribeiro dispensa maiores apresentações. Além de romancista de grande fôlego, há anos também presenteia semanalmente o público brasileiro com o melhor de sua lite­ratura, através das crônicas publicadas no jornal O Globo. Nelas está presente o incontestável talento do romancista, seu refinado humor e apurado senso de observação.

Com o lançamento de Sempre aos domingos, em 1985, a Editora Nova Fronteira iniciou o projeto de reunir em livros as crônicas de João Ubaldo. Com este novo lançamento, estamos editando, a partir de seleção feita pelo autor, algu­mas de suas melhores crônicas escritas em Itaparica ao longo de seis anos. Desta ilha do Recôncavo Baiano, João Ubaldo Ribeiro olha o mundo e — por que não? — faz o mundo vol­tar-se para Itaparica, para sua gente e sua história, criando ao mesmo tempo metáforas brilhantes sobre o Brasil.
Agradecemos ao jornal O Globo, do Rio de Janeiro, que gentilmente nos permitiu o acesso ao acervo das crônicas de João Ubaldo Ribeiro, e autorizou a sua publicação.

Padecendo no inferno mesmo

Eu o conheço pouco. Ou talvez o conheça muito, embora não saiba de muitas coisas sobre ele. Ele tem seis filhos. Sei disso porque, no tempo em que eu andava solteiro e solitário por esses bares daqui, carregando dementemente um livro para ler numa mesa geralmente mal-iluminada, ele apareceu numa noite de quinta-feira e, desde essa noite, a gente sempre se via e batia papo. Na segunda dessas quintas-feiras, ele estava pre­ocupado, exatamente porque ia nascer o sexto filho.

— Que bobagem — disse eu. — Ainda se fosse o primei­ro, está certo que você ficasse preocupado. Mas o sexto, rapaz, vocês já são muito veteranos.

— Aí é que você se engana — disse ele. — Toda vez eu sou calouro. É sempre uma novidade.

— Claro — falei eu, imaginando que estávamos prestes a entrar num desses papos poéticos a que os cachaceiros em geral são habituados. — Sim — falei, caindo imediatamente no clima, pois sou de boa paz — é sempre uma experiência nova, a vida nunca se repete, é sempre um milagre novo. Mas o que eu queria dizer é que, apesar disso...

— Não é nada disso — suspirou ele. — Eu entendo tudo isso, não é nada disso. Eu atribuo esse negócio à televisão. Quer dizer, pelo menos parcialmente eu atribuo.

— O que é que você atribui à televisão?

— Esse negócio de eu nunca estar preparado para o nascimento do filho. Cada um é diferente, quer dizer, o nasci­mento é diferente e o que se faz depois é diferente, eu não agüento mais, estou um farrapo nervoso, é isto o que eu es­tou: um farrapo nervoso!

E, de fato, ele parecia um farrapo nervoso. Até a pessoa que nunca viu um farrapo nervoso reconhece um, quando o encontra. Mas ele tinha razão. O primeiro filho dele — con­tou — se chama Marcus Vinícius (foi da geração Marcus Vinicius — esclareceu ele —: no dia em que ele nasceu, nasce­ram mais quatro Marcus Vinícius no mesmo andar da ma­ternidade). Marcus Vinícius nasceu de parto programado. Naquele tempo, estava tudo muito tecnológico e as pessoas consideravam um resquício de barbarismo esse negócio de as mulheres esperarem a calada da madrugada para sentir contrações, sair às carreiras para o hospital e assim por diante. Então programaram tudo, tacaram a anestesia, fizeram a coisa toda muito cientificamente.

— Mas aí ela mudou bastante — disse ele. — Eu notei quando ela deu para não raspar as pernas, nem raspar debai­xo dos braços, e deu para andar com umas saias de pano es­quisito, umas saias rodadas. Acho que foram umas reporta­gens que ela viu, ou então essas baianadas mesmo, isto aqui é uma praga, a verdade é esta. Atribuo muito dessa coisa tam­bém a essa baianada, esta é que é a verdade.

— Mas isto influenciou o nascimento do filho seguinte?

— Filha. Lua Jaciara. Claro que influenciou! Ela resol­veu ter parto completamente natural, queria parir em casa, a menina nasceu que parecia mais um esqueleto, por causa da macrobiótica que ela fez. Felizmente que eu não vi nada, por­que desmaiei. Eu tive de ficar de mãos dadas com ela e aí desmaiei, com os urros que ela dava. Acho que isto também contribuiu para ela mudar de idéia. Quando ela ficou grávida de Serguei, já estava decidida a fazer parto sem dor.



— E Serguei nasceu bem?

— Nasceu, nasceu! Só não nasceu sem dor, tenho de reconhecer. Acho que ela não fazia a respiração direito, deve ter sido porque eu ficava tonto na hora de acompanhar a res­piração dela, às vezes também desmaiava, como na vez do parto natural. Felizmente, quando ela ficou grávida de Alessandra, eu não tinha mais que segurar a mão ou respirar junto, eu tinha mesmo era de ajudar a filmagem, porque ela queria guardar um filme do parto, foi no tempo em que todo mundo filmava parto. Foi meio chato, porque eu não tenho equipamento, nem sei filmar, e então foi uma confusão de gente na hora do parto e até hoje eu não tenho uma cópia desse filme e o desgraçado que filmou pegou essas cenas e botou num curta sobre a seca do baixo São Francisco, numa simbologia do renascer da terra, não sei o quê, e todo mundo que vai ver esse filme vê minha mulher parindo e eu lá com cara de besta, de bonezinho de médico e tudo.

— E daí em diante você teve de mandar filmar todos os partos?

— Não. Huamac-Tupã nasceu com ela acocorada. Esse foi o pior, ela ali acocorada e o médico dizendo “não tenho nada com isso, desse jeito eu não faço”, isto porque nós está­vamos veraneando e o menino resolveu nascer antes do previsto, talvez de tanto ela se acocorar para treinar, e então tive­mos que fazer o parto com o médico do posto mesmo, mas Maquinho — o apelido dele é Maquinho — nasceu direito. Quase cai de cabeça no chão, mas nasceu.

Naquela quinta-feira, ele estava uma pilha, porque o próximo filho ia nascer no escuro (aliás, já nasceu e se chama João Paulo), com o acompanhamento de dois médicos: uma ginecologista amiga da mulher dele (que dizia que não ga­rantia nada) e um obstetra amigo dessa ginecologista (que dizia que nunca tinha feito, mas garantia).

E hoje, quando o encontro por acaso numa barraquinha de cerveja e caranguejo aqui na praia da Pituba, ele me cum­primenta quase trêmulo. Vai ter o sétimo filho daqui a três meses. Parabéns, digo eu. Ah, diz ele, desta vez o menino vai nascer dentro d’água. Uma coisa eu lhe asseguro, diz ele, meus filhos sempre nascem na última moda. Neste sentido, nunca vão ter razão de queixa. Se for homem vai ser Charles, se for mulher vai ser Diana, diz ele.


(05-04-81)

Saudades do jejum

Hoje não tem mais nem Semana Santa como antigamente. Principalmente as Semanas Santas que passei, quando era menino em Aracaju. Isto já faz mais tempo do que eu gosta­ria de admitir, mas, de qualquer forma, não faz tanto tempo assim. Faz o suficiente, é bem verdade, para eu ficar escandalizadíssimo com as Sextas-Feiras Santas de hoje em dia. Não está direito.

Desde o começo da Semana Santa, a gente escutava umas aulas de catecismo tristíssimas, tão tristes que às vezes a professora chorava e todo mundo chorava, de maneira que, na Sexta-Feira Santa, o clima já estava preparado. Não preci­sava nem da missa, com o padre todo de roxo e falando uns latins que a gente estava sentindo que era coisa tristíssima, porque todo mundo já amanhecia triste. Se alguém ligasse o rádio (estava na cara que era meio pecado, mas às vezes a gente facilitava e ligava — tudo tentação do Cão, é claro), só ia ouvir música clássica. Não precisava ser sacra: podia ser a Heróica, podia ser até a abertura de Madame Butterfly. Mas tinha de ser clássica, coisa séria, para mostrar respeito, e en­tão às vezes a gente escutava aquela música e ficava mais triste ainda. Também não se podia falar alto, dar muita risada e sair correndo por aí, como se fosse um dia normal. Futebol, nem pensar, as pernas podiam ir mirrando, mirrando, até Deus castigar de vez e o sujeito passar o resto da vida de muletas.

O que salvava a Sexta-Feira Santa, naturalmente, era a perspectiva do Sábado de Aleluia. Algumas famílias davam até presentes às crianças. A minha não dava, mas, já na sex­ta-feira de noite, a gente podia sentar no sofá e arriscar umas risadinhas, porque, quando a mãe reclamava das risadas, a gente falava que era porque amanhã Cristo ia ressuscitar e aí a mãe achava justo. Aliás, geralmente achava tão justo que começava uma risadaria sem fim, todo mundo se torcendo de rir uns dez minutos. Era bom.

No sábado, a molecada toda se reunia junto aos postes de ferro para começar a fazer barulho assim que o sino da igreja de São José tocasse. Tocava mais ou menos às dez ho­ras e aí a gente batia com pedras e martelos nos postes, até que toda Aracaju era uma aleluia só. Mais tarde, deixavam as crianças ficar acordadas noite adentro, para assistir à queimação de Judas, precedida da leitura de um testamento em versos, em que alguém sempre herdava um penico enferruja­do e todo mundo achava engraçadíssimo. Uma vez eu herdei esse penico e, pensando bem, meu patrimônio não se ampliou muito além disso até hoje.

A Semana Santa também se caracterizava pelo rigoroso jejum que a gente observava. Comer carne, principalmente a partir da quarta-feira, o mínimo que dava era a pessoa ficar a noite em claro, achando que ia morrer estuporada. Pelo me­nos pereba dava, era fato conhecido. Então, já na segunda-feira, minha mãe não facilitava, não existe nada pior do que menino perebento. Ela anunciava, na hora do almoço:

— Esta semana, jejum completo!

Era um grande sacrifício. Com a família toda reunida em volta de uma mesa gigantesca, a gente enfrentava: uma moquequinha de curimã; um escaldado de curimã, para os meninos enjoados, que não comiam moqueca; uma salada de bacalhau, para meu avô português, mas todo mundo me­tia a mão; curimã frita, para os meninos ainda mais enjoa­dos, que não comiam nem moqueca nem escaldado; um ver­melho assado, que minha mãe não deixava de fazer, senão meu pai reclamava e dizia que era muito, muito infeliz, e en­tão minha mãe enchia meu pai de vermelho assado; feijão de leite; feijão normal, para os meninos enjoados e meu pai, que não comíamos feijão de leite; um ensopadinho de camarão, para o caso de chegar alguém e a gente poder passar vergo­nha; arroz, chuchu, maxixe, abóbora, tomate, macaxeira, fruta-pão, inhame, pão (para meu avô português), macarrão, manga, abacaxi, caju, melancia, mamão, pitomba, gravatá, marmelada, goiabada, compota de caju, doce de leite, baba-de-moça, biscoito rico, queijo de bode, requeijão, manteiga de garrafa, bolachão, suspiros e sequilhos, além de mais umas vinte coisas, que a memória me falha nestas horas. Na verdade, o jejum lá de casa era conhecido e vinham amigos e parentes de longe, só para jejuar com a gente. Sempre foram recebidos, não davam trabalho algum, bastava acrescentar uns cinco pratos ao cardápio e reforçar o tira-gosto, que co­meçava a sair às dez horas da manhã de terça-feira e só para­va domingo de noite, pelo menos que eu saiba.

Hoje, não. Hoje ninguém mais jejua, é ou não é? Principalmente aqui no Nordeste. Deve ser o desgaste do espírito religioso de nosso povo. Aqui no Nordeste se passa muita fome, mas nunca que é a mesma coisa.
(19-04-81)

O fim do jegue

Em Salvador terá havido, segundo eu soube, uma reunião entre técnicos do governo e abatedores de jegues. O jegue so­fre. Até mesmo o nome honesto que recebe — afinal um jegue é um jegue — é considerado, geralmente, indigno de sair na imprensa nordestina, pelo menos nas matérias mais formais. Escreve-se “jumento”, às vezes até “asno”, mas jegue só para fazer graça. E, agora, diz-se que o governo está preocupado, porque as oito milhões de cabeças que havia no Nordeste es­tão reduzidas a mais ou menos três milhões. E que, coisa in­concebível em minha infância, a carne do jegue agora virou importante produto de exportação. Segundo ouvi, é vendida principalmente para o Japão, onde se transforma em comida de cachorros. Não tenho certeza quanto a isso, não sei se, nes­te mundo louco, o Japão exporta latas com a carne dos jegues nordestinos para os cachorros americanos, mas a verdade é que, passando de companheiro e trabalhador a mercadoria de consumo, o jegue se tornou tão importante que os exportado­res alegam crise, se o abate, que se propõe limitar às fêmeas em geral e aos machos antes de uma certa idade, for restrin­gido. Hoje, que coisa mais estranha, um jegue nordestino não pode ficar pastando como sempre pastou, com a paciência estóica que sua honrada espécie preserva desde que chegaram aqui seus ancestrais, aproveitando tudo e não dando despesa ao dono pobre, não pode mais ficar pastando ao pé de uma estrada qualquer porque — há denúncias aqui neste jornal — será seqüestrado e transformado em artigo de ex­portação, morto nos matadouros de Senhor do Bonfim, esta­tística positiva na balança comercial. Prevê-se a extinção breve do jegue, ainda nesta década que mal começa. Diz-se que vão defendê-lo, mas não deve ser verdade exata. O jegue vai perder.

Não pretendo ser hipócrita e santimonial quanto a ma­tarmos bichos e nos servirmos deles. Quase todos comemos carne, quando podemos, e passamos a vida a nos alimentar dos cadáveres dos outros animais. Sem eles, não existiríamos. Sem a galinha, tão humilhada, coitada, provavelmente a hu­manidade não sobreviveria, como não sobreviveria sem, de uma forma ou de outra, todos os bichos que Deus fez. Mas, não querendo discutir (porque é impossível), a verdade é que a gente se consola em saber que, quando se matam certos bichos, é para comer, e que um comer o outro é coisa que a natureza estabeleceu desde o começo, coisa válida não só para galinhas ou baratas como para nós mesmos, que, para come­çar, somos verdadeiros zoológicos ambulantes, jardins de bi­chinhos e plantinhas (sem alguns dos quais morreríamos ou seríamos muito doentes, mas a maior parte dos quais sim­plesmente nos tem como meio ambiente e fonte de comida) e, para terminar, somos comida dos vermes de Augusto dos Anjos. A gente faz distinção. Eu mesmo guardo fundo remor­so, uma coisa indelével em minha alma, um pecado que às vezes envenena os instantes raros em que me encontro con­tente comigo mesmo, porque, quando era menino, fui cúmplice do ato estúpido de jogar água fervente nas costas de um velho sapo de jardim. Foi uma coisa rápida: algum dos meni­nos sugeriu, todos aceitaram, ferveu-se a água, matou-se o sapo cruelmente. Mas lembro também que, ao contrário de outras ocasiões quando fizemos besteiras, os meninos da nos­sa turma ficaram sem graça depois de tudo, o autor da idéia não ganhou status, antes o oposto. E, uma vez, fui falar dessa memória, já homens feitos e pais de família ambos, com um dos co-autores e ele me disse, levantando-se, mudando de as­sunto e passando a examinar com interesse detido os livros de uma prateleira, que também pensava sempre nisso, que não gostava de pensar nisso, que às vezes percebia o fantasma daquele sapo, disfarçado entre seus muitos pesadelos.

O jegue eu tenho visto desde a infância, carregando caçuás e garajaus e barricas e tantas outras coisas, em suas cangalhas de paus lisos e forradas de palha. Tenho-o admira­do enquanto, com seu andar estólido e sua grande visão triste, puxava, em rodas sem fim, as moendas de dendê. Tenho vis­to os aguadeiros da ilha de Itaparica conversar na orelha de seus jegues com carinho, tenho visto os jegues trabalhar sem descanso ou mais recompensa do que essas conversas, tenho visto jegas prenhes trabalhando até o dia de parir, jegas com seus jeguinhos peludos recém-nascidos e saltando no pasto, tenho visto os meninos catando suas grandes bostas verde-escuras para pôr nas plantas e as fazerem florescer. Recordo que, ainda quando havia terrenos com capim grosso em Itaparica, um amigo me disse, diante de um jegue que, silen­ciosamente, babava diante da grama, sem conseguir comer em sua hora de almoço, que aquele jegue tinha dor de dentes. Disse esse amigo que, se déssemos coentro e hortelã ao jegue, a dor de dentes melhoraria — e me lembro com que emoção demos coentro e hortelã ao jegue e vimos com alegria que ele melhorou, pastou e andou embora. Porque foi impossível es­quecer aquele bicho com sua dor de dentes silenciosa e é im­possível esquecer, quando menino, a solidariedade que conseguimos ter com um bicho, pois é como a sensação que se experimenta ao regar plantas ou ao ver o ar da manhã e pô-lo para dentro — uma sensação de que temos importância na natureza.

Lembro que, nestes dias tão metidos a sebo, achamos que as máquinas fazem todo o nosso serviço, mas isto não é verdade, pois até as estatísticas mostram que a contribuição das bestas de carga e trabalho, hoje mesmo, é responsável por uma produção de bens e serviços superior a todos os tratores e motores a diesel. Na Índia um elefante, no Nordeste um jeguinho, pisando duramente o chão ingrato, o couro escovado pela cangalha, o lombo derreado pela carga, o rosto manso re­fletindo paciência e resignação. E ainda há as mulas e burros, que o jegue fabrica com as éguas e que, aqui como em todas as Américas, puxaram arados e canhões, deram comida e revolu­ções, levam notícias e livros aonde o homem quer ir e as máquinas não podem.

Pode dar-se que tudo isto sejam razões sem razão, como as de Sancho Pança, rei da ilha de Baratária, que cavalga seu jumento pela nossa História, sempre marcada por um fidalgo e seu leal escudeiro. Ou como as minhas próprias, as de quem perguntava às mulheres e sábias, que, depois de trabalhar tan­to o dia todo, arrepanhavam as saias em torno dos meninos para contar histórias de Trancoso, por que haviam chamado, naquele mesmo dia, à entrada da casa, o “jumento, nosso ir­mão”. Ah, dizia a velha senhora, ajeitando o torso na cabeça com as palmas das mãos e se preparando para falar muito e brilhantemente, é porque o jumento, naquele tempo, carre­gou Nosso Senhor Jesus Cristo e carregou Nossa Senhora. — Naquele tempo... — começava a velha. Então eu acho que todos temos o dever e o direito de exigir que parem de matar os jegues e que deixem a nossa História em paz e dignidade.


(23-08-81)

A vida natural

Talvez o distinto leitor ou a irresistível leitora sejam naturais, caso em que me apresso em esclarecer que nada tenho contra os naturais, antes pelo contrário. Na verdade, alguns dos meus melhores amigos são naturais. Como, por exemplo, o festejadíssimo cineasta patrício Geraldo Sarno, que é baiano e é na­tural — pois neste mundo as combinações mais loucas são possíveis. Certa feita, estava eu a trabalhar em sua ilustre com­panhia, quando ele me convidou para almoçar (os cineastas, tradicionalmente, têm bastante mais dinheiro do que os escri­tores; deve ser porque se queixam muito melhor). Aceito o convite, ele me leva a um restaurante que, apesar de simpáti­co, me pareceu um pouco estranho. Por que a maior parte das pessoas comia com ar religioso e contrito? Que prato seria aquele que, olhos revirados para cima, mastigação estóica e expressão de quem cumpria dever penosíssimo, um casal co­mia, entre goles de uma substância esverdeada e viscosa que lentamente se decantava — para grande prejuízo de sua já emética aparência — numa jarra suspeitosa? Logo fui escla­recido, quando meu companheiro e anfitrião, os olhos cinti­lantes e arregalados, me anunciou:

— Surpresa! Vais comer um almoço natural!

A velhos amigos perdoa-se tudo, ou quase tudo. Não sa­quei da peixeira. Sorri hipocritamente, lembrando o dia em que me tinham levado a um restaurante macrobiótico em Sal­vador e, sentado entre almofadas orientalóides, medonhos bafos de fumaças almiscaradas certamente letais e rodadas mortíferas de bolinhos e papinhas inquietantes, tive uma cri­se nervosa e fui obrigado a retirar-me. É bem verdade que a crise só começou na hora em que um senhor de catadura espectral e ar de quem havia morrido três dias antes me dis­tinguiu com uma conversa sobre a excelência daquela alimentação e sobre as doenças que, com o uso persistente da massamorda ora servida aos presentes, ele enfrentara e vencera. Eram todas as doenças, aliás, inclusive algumas que eu não conhecia. À medida que ele falava, eu ia desenvolvendo os sintomas descritos. Contou-me mais ainda como eu estava envenenado e como teria de comer a dita chanfana diaria­mente, para atingir o estado de saúde perfeita que ele agora me exibia. Fui-me sentindo cada vez pior e saí precipitada­mente, para morrer em paz em outra freguesia. Com tão tris­te memória na cabeça, inquiri, fingindo calma, se se tratava de um estabelecimento do mesmo gênero.

— Não, nada disso! É a mesma coisa que a comida co­mum, só que natural — explicou-me Geraldo com vivacidade. — Que é que você está com vontade de comer?

— Um filé? — falei hesitante, com a mesma sensação que a gente tem quando acaba de dizer alguma coisa e nota que deu um fora irremediável.

— Um filé? Você vem a restaurante natural e quer co­mer um filé?

Pensei em explicar-lhe que eu não tinha ido a um res­taurante natural, para lá houvera sido traiçoeiramente con­duzido por um amigo sem sentimentos, mas preferi a resignação. Ele me explicou que existia um certo bife feito de vege­tais, à base de soja, que era das coisas mais deliciosas sobre a face da terra e que, de olhos fechados, ninguém o distinguiria de um bife de carne. Muito bem, eu comeria o bife, ele preferiu uma estonteante combinação de vegetais exóticos, prato que eu designaria com o nome lisonjeiro de inferno verde, mas que o fez ficar tão feliz quanto uma preá numa horta. Quanto a mim, entrei em funda depressão.

— Agora compreendo por que você falou em “olhos fe­chados” — disse-lhe eu. — Realmente, de olhos fechados faci­lita a gente rezar.

— Ah! — exultou ele. — Você acha que este seu prato é de comer rezando?

— Para pedir misericórdia — respondi.

E, dessa época em diante, a situação vem tendendo a agra­var-se, pois todos os dias alguém nos doutrina sobre a naturali­dade e eis que tomar uma aspirina pode até render inimizade. Certos naturais, como se sabe, gostariam de naturalizar abso­lutamente todas as pessoas e ficam revoltados quando alguém não se submete a suas convicções. A questão dos remédios assume proporções radicais e as pessoas explicam que re­médio com base em planta não faz mal, porque é natural. Isto não deixa de ser interessante, quando lembramos que Sócrates morreu depois de tomar uma taça de cicuta, um chazinho de cicuta, suponho. Para não falar (por que, em portu­guês, “para não falar” significa “para falar” e “pois não” signifi­ca “pois sim”?) numa porção de outras. Tem uma que dá uns trevinhos bonitinhos, usados para fabricar digitalina, uma dro­ga usada contra certas doenças cardíacas. Só que, se o camara­da não for cuidadoso e não tomar o negócio nas quantida­des mínimas receitadas, o coração enlouquece e pifa. E as que dão estricnina? E quem é besta de morder uma mandioca acabada de arrancar? Imagino que é uma coisa natural a pes­soa tirar um pedacinho de uma folha qualquer e mordiscá-lo. Experimentando, contudo, tal procedimento com um pedaci­nho de folha de comigo-ninguém-pode, essa pessoa notará que a língua inchará e daí a pouco, entre sintomas dos mais desagradáveis, não vai mais poder respirar.

Contudo, insiste-se em que as plantas não contêm “pro­dutos químicos”, o que não quer dizer nada, porque tudo o que existe é “químico”. Quase não há, por exemplo, vida sem cloro, que é veneno se respirado puro. E, de qualquer forma, existe uma dose fatal para tudo, inclusive água e oxigênio. Se alguém fizer uma lista dos possíveis efeitos colaterais da inalação de oxigênio, é bem possível que muita gente con­temple deixar de respirar, pelo menos por uns tempos. Mas tudo bem, vivam as plantas, vivam os naturais. A única coisa que me chateia é que não acho natural que me queiram obri­gar a ser natural. Até mesmo porque tudo tem limites, pois outro dia vi no jornal as declarações de um natural, aborrecidíssimo porque encontrara uma lagarta na alface natural de um restaurante igualmente natural. Não achei coerente. Nada mais natural do que uma lagarta numa folha de alface.
(05-12-82)



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