Artigo 20 do Código Civil



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Passeando por

Paulo Leminski
Domingos Pellegrini


REPRODUÇÃO PERMITIDA
d.pellegrini@sercomtel.com.br

(A CONTRADIÇÃO QUE O CONGRESSO NÃO RESOLVE: )

Constituição Federal:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: (...)

IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;

IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;

X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação.

Artigo 20 do Código Civil:



Art. 20. Salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da justiça ou à manutenção da ordem pública, a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais.

Parágrafo único. Em se tratando de morto ou de ausente, são partes legítimas para requerer essa proteção o cônjuge, os ascendentes ou os descendentes.

(CONTRACAPA: )


Pinheiro do Pilarzinho
Paulo Leminski, passei

pelo Pilarzinho

Tomei o velho caminho

fui até a tua casa

A vida tem suas leis

que nós chamamos destino

Madeira vira carvão

como o carvão vira brasa

agora vira memória

a vida vira história

mas não tem nada não

aquele pinheirinho

virou um pinheirão

(EPÍGRAFE: )
Toda jóia um dia

foi lava, todavia

condensou-se

e lapidada

cada faceta irradia

sua luz poliedra:

pedra que se fez poesia

FACETAS:

O Poliedro

O Mestiço

O Noviço

O Anfitruão

O Polivivente

O Polinguista

O Anarquista

O Estrategoista

O cerebrelétrico

O Estóico

O Mito


O POLIEDRO
Em 1964, em Londrina, um rapazola lê com espanto e encanto artigo de um tal Paulo Leminski na revista concretista Invenção.

Alguns anos depois, o londrinense conhecerá o curitibano Leminski e, depois de algumas rusgas e rugas, serão amigos, tratando-se como Polaco e Pé Vermelho.

Pé Vermelho novamente se espantará com Leminski, ao saber que ele é mistura de polonês com mulata, neto de negro e índio e português. E também se encantará com sua poesia, mistura de cult e pop, truques concretos e resquícios românticos, artifícios formais e caprichados relaxos coloquiais, doce amargura e cáustica alegria, erudição e simplicidade, maluquice e mágica.

Polaco e Pé Vermelho se encontrarão muitas vezes, em Florianópolis, Curitiba, Londrina e São Paulo, amarrando uma amizade de três décadas e dezenas de garrafas. Mas Pé Vermelho deixará de procurar o Polaco quando passar por Curitiba, não mais conseguindo ver como ele foi destiladamente se matando.

Então Pé Vermelho estará em Porto Velho, Rondônia, e verá Leminski na tevê do restaurante. Que será que o Polaco está inventando, pensará, aumentando o volume para ouvir que ele consumou o que chamara de “minha última obra”.

Pé Vermelho fica com raiva do Lelé, como também chamava o Polaco. Um ano depois, em mesa redonda no evento Perhappiness, homenagem a Leminski em Curitiba, Pé Vermelho não conseguirá falar e passará todo o tempo chorando, para espanto de Haroldo de Campos a seu lado.

Duas décadas e meia depois, uma editora convida Pé Vermelho para escrever biografia de Leminski, e imediatamente o fantasma do Polaco aparece:

- Biografia é muito convencional, eu não mereço algo melhor?

Pé Vermelho então lembra daquele primeiro artigo que leu de Leminski, uma misturança de gêneros e gênesis, idiomas e gírias, signos e sacadas. Como ele era mistura de raças. Como sua literatura era mistura de erudição e sacação, Português e Inglês, tensão e relaxo, carne e espírito.

Pé Vermelho dorme pensando nisso, e sonha que faz uma sopa com Leminski. Acorda, liga ao editor:

- Biografia do Polaco já foi feita. Outro livro sobre ele tem de ser mistura de informação e romance, erudição e conversa, realidade e sonho, água e pedra, história e festa, uma lifestory!

O editor discorda, Pé Vermelho diz que assim mesmo fará o livro desse jeito, desliga o telefone e pensa em voz alta:

- Espero estar certo, Polaco.

Ribomba um trovão, tremelicam os copos da cristaleira, Pé Vermelho entende:

- Não gostou, é? Então me ajuda!

Daí olha sobre a mesa uma pedra catada em riacho há décadas, concavamente cinzeiro rústico usado apenas por raras visitas fumantes. Mas Leminski fumava, e gostava de pedras, tratou delas em vários poemas. E toda pedra é, mesmo que rusticamente, um poliedro, multifacetada como foi o poeta do Pilarzinho. Pé Vermelho resolve que o livro será um passeio pelas facetas poliédricas de Leminski. Então, como ele fazia, rabisca num guardanapo: “toda jóia já foi pedra um dia”...

O Polaco, lá quando leu o primeiro livro de poesia de Pé Vermelho ainda nos anos 70, um volume mimeografado na onda da chamada “geração marginal” (Conversa Clara, 1974), sentenciou:

- Não está ruim, mas você faz uma poesia aforismática.

- Pois é – Pé Vermelho retruca 40 anos depois – E o livro que vou escrever sobre você, cara, começará com uma poesia aforismática...

Começa a escrever enquanto cai a tempestade, lembrando do amigo a olhar pela vidraça alisando os bigodões:

- Acho lindo tempestade, é o tempo em alta voltagem!

Como foi Paulo Leminski.



O MESTIÇO
Ego sum Paulo Leminski, nome de santo e de imigrante polonês, mestiço até nisso, e acabo de fazer levantar da cama um amigo que não vejo desde que viajei para virar mito, para me fazer mais uma vez renascer, quando o danado já estava pensando em abandonar o navio, jogar a toalha, pedir arrego, dexistir, virar excrevedor de mim,

mas eu lhe apareci de novo em sonho e falei não, os galos garganteando como se falando por mim, nãããããoooo, cara, nããããããããoooooooo, você vai levantar, ligar aquela sua maquininha que eu nunca tive o sortilego de usar, e ligar principalmente esses seus velhos neurônios que estão precisando brincalhar e, sem nem tomar café como eu fiz tantas vezes, tocado só pelo fogo da criação, antenado nas estrelas para falar de uma estrela,

você vai dizer, entredantes, que eu não tenho culpa de ter/em me transformado em estrela, como ninguém de nada tem culpa nem desculpa para não fazer o que manda o coração e a alma comanda, obedecer a voz da vocação como quem segue um mestre de milênios, sorteado pela loteria genética com todas as delícias e os martírios do que chamam de dom, palavrinha que também está em Dominus, Senhor, Deus, palavreta inventada para expressar nossa estuperplexidade diante dos mistérios do Infinito, da Eternidade e do seu momento mais gostorioso, que é a existência de vida num planetinha coberto de água mas chamado Terra, portanto mestiço também,

e os invejosos, os maldosos, os raivosos, estes sim carreguem a culpa de seus suicidegos, pois quem inveja mata a própria vida, quem amaldiçoa a si mesmo se peçonha, quem com raiva fala é se mordendo, mas tristinsistem em falar que o povo-pop me endeusa demais (como se pudesse ser de menos o que vem de Deus), que não tenho realmente leitores mas fãs, no inútil e deblátil afã de diferenciar trigo de pão,

como se pudesse também haver um povo-cult, um best-povo a quem eu criticalizado me dirigisse reverente e cordeirizado em sacrifício ao certo, ao útil, ao bem, ao correto e ao moderado também, em vez de me dirigir ao grande público que sempre me ouviu, que sempre me orientou e me aplaudiu, e que é essa multidão em mim, os mil egos que sumus, como bem disse Mário, eu sou mil, sou mil e quinhentantos, todos esses eus em uníssumus que, desde eu menino poetando já aos oito, sempre me garantiram que eu estaria certo de seguir seus concilhos, como quem se encilha e investe tudo em si, de modo que investi todas as fichas em ser único e, enfim, virei o que desde o começo Deus quis fazer de mim, já a partir de meu mestinascimento.

Linhás (é um aliás noutra linha), só pra ilustralegrar, um dia alguém me disse que, conforme a antropologia, os mestiços são a raça do futuro, o que me fez proclamar em voz alta como sempre:

- Então eu já nasci futurista!

Agora, se importa ou abre alguma porta o dia em que nasci, 24 de agosto de 44 (para viver também 44), aí está a data, como carimbo astrológico para dizerem que sou Virgem ou Macaco, o que me faz rir lembrando de você, Pé Vermelho palhaço que um dia me disse não acreditar em signos porque isso é próprio de Leão, então

vamos em frente para trás, lembrando que meu pai me deu seu nome, Paulo Leminski (Filho, que eu graficivilmente degolei) e também me deu sua mansa compreensão para minha estrelação. Fique este ponto aí a significar o dia, a hora e o minuto em que minha mãe Áurea (já mestiça de português com negro e carijó, e com esse nome a reluzir como miçanga de português para encantar índio) encontrou-se com aquele filho de poloneses pobres (outro pleonasmo imbecil, pois que polonês rico veio para o Brasil?),

encontraram-se na Rua XV, no centro de Curitiba, onde tanto me encontrei rabiscando poemas em guardanapos e dando de encontro comigo mesmo em divagações a esmo, encontraram-se como se saídos de um labirinto genético, ela filha do português Fernando Pereira Mendes, que teve três filhas com minha avó Inocência, nome de romance do Visconde de Taunay, que governou Curitiba seculantes e criou o Passeio Público, veja como a vida é um novelo,

e, como eles se conheceram passeando pela Rua XV, preassumo que, antes da afeição, foi pela feição que se atraíram, como em química opostos se atraem, o europeu sentindo o genético chamado negríndio para uma fusão forjando material mais resistível, o polonês resistente e o índio flexível, entre eles o negro entrando com a forçancestral da mais antiga das raças, que porém não me legaria traço nenhum na pele branca e nos cabelos lisos, mas no suor um cheiro inconfundível, a marcar vidafora quem, como eu, herdou de algum macaco muito arbóreo um desgosto por água e seu antropilógico derivado, o banho.

Acredito que o nascimento é cósmico, regido por todos os acasos, circunstâncias, coincidências, imprevistos, desastres e detalhes que se orquestraram em diferentes tempos, como numa multifonia, num enredamento de acontecimentos confluentes para que um dia, numa hora e num ponto do planeta, alguém nasça filho de quem é e quaquaneto de quem foi, inegavelmente portador de um ego mas herdeiro de uma multidão, instintivamente tanto dependente de si como culturalmente descendente de tantos, a quem deve servir com seu dom, senhor de si mesmo e escravo da Humanidade, essa prisão de semelhanças aberta às diferenças.

Esclareça-se, aclarando essa fusão de raças, que minha mestiçagem não é só de sangue, mas também de mente, pois desconfio que herdei do avô Fernando Pereira Mendes a chama da poesia, que ele escrevinhava em redondilhas em contraponto à reta profissão de capitão do Exército, enquanto meu pai também era militar, sargento do mesmo Exército brasileiro que tanto combateu o nazismo como massacrou Canudos, militariedade que, de certa forma, renasceu em mim, tão apaixonado pela arte marcial como pela chamada arte da guerra, a trama de táticas e estratégias que tanto se parece com a arte da escrita, com sua trama de alinhavar sintaxe em eixo narrativo,

embora essa mentalidade não me tenha impedido de manter os pés no chão, olhar em volta mesmo diante do mais belo poente, ouvir comumente a fala da gente comum, o batuque do samba e o ritmo do rock, herança negríndia que nunca rejeitei nem escondi, de modo que, escrevaí, sou etnicamente correto nesta incorreção genética, talvez tenha direito a alguma bolsa-mestiça, não?

O humor, de quem a gente herda o humor? O meu talvez venha não só herdado mas também adqui-rido, com perdão do trocadilho, que Bernard Shaw dizia ser a forma mais indigente de humor, mas ele era inglês e os ingleses, você sabe, conseguem gostar de torta de rim e jogar cricket apaixonadamente.

Talvez afanei meu humor dos poemas-piada de Drummond e Bandeira, e afinei com os de Osvald, que me revelaram ser a poesia brincável, em vez de apenas solene como tantos poetofres fazem, poesia de quem sofre para quem gosta de sofrer. Poeta pra ser bom tem de sofrer, escreveu Vinicius, mas sofrimento na vida a gente não precisa pedir nem esperar, vem e acontece como chuva chove, enquanto alegria é roupa que se veste como se despe por querer.

Tia Luiza lembra, na biografia que o Toninho fez de mim1 (veja nota de rodapé), que o primeiro desenho que lhe mostrei era de um fogão que chamei de Miséria, porque sem lenha e com panelas vazias. Ainda bem que não me enfiei por essa trilha de ver o pior do mundo como se isso pagasse alguma dívida, esse sentimento de culpa que tantos intelectuais cultivam e que em mim, dali por diante, passou como a chuva a resvalar pelas penas dos pássaros, sem penetrar nem impregnar, três tocs no pinho. Tanto que meu primeiro poeminha, lá pelos nove anos, diz a tia que tinha o título de O Sapo, a lembrar o ironicoso poema de Bandeira e, também, a prenunciar minha paixão pelo haicai, a partir de Bashô e seu famoso sapo que na lagoa pula e o silêncio ondula2..., considere uma onda cada pontinho da reticência.

Certo é que quando Pedro, meu irmãozinho, começou a engatinhar pela casa, me refugiei no alto do guarda-roupa, meu primeiro refúgio de tantos que fiz, erguendo-me em torres de silêncio lendo, procurando cantos onde me enfurnar em mim, em contraponto ao falador que também me fiz, famoso por filosofar em voz alta até arfar, filosarfando portanto, o que me fazia suspirar tão fundo que confundiam com ansiedade, não era, era só e já saudade de tudo que eu quis ser e sabia que não ia conseguir vivendo tão pouco, em medida de tempo, como vivi, embora em medida de vida acredito que tenha excedido.

Mas eis que, junto com Pedro, bato continência a nosso pai quando o sargento Leminski sai de casa fardado para o quartel, sinal explícito de minha tendência para a disciplina, esteio da minha construção.

E, para essa construção de mim, que é que somou o sargento ser transferido e a gente ter morado em Itapetininga? Talvez apenas o indício de meu futuro caminho, já nesse nome tupi-guarani, “ita” significando “pedra”, que tantas vezes aparece em minha poesia, e “petininga” sendo “caminho seco”, trilha entre as pedras secas, como a que percorri, com minha poesia enxuta e minha prosa compactadora de palavras.

Também que importa o sargento Leminski ser novamente transferido e a gente morar em Santa Catarina, num posto militar chamado Quilômetro 34? Mas eis que ali fui matriculado em escola pública, aos cinco anos, indício de mais um ingrediente no meu bolo mitobiográfico, a precocidade (tem fã que jura ter seu avô me ouvido falar Latim já nessa época, o que obviamente não é verdade, como não é crime crer...).

Certo novamente é que ali naquele posto militar eu continuava a buscar refúgios, me punha no alto de árvores ou em sótãos, porém atento ao chão do cotidiano, como depois lembraria num de meus poemas mais pés-no-chão: “Minha mãe dizia: / - ferve, água! / - frita, ovo! / pinga, pia! / E tudo obedecia”.

Também anote-se que ali no Quilômetro 34, nome prosaico e quilométrico como seria minha prosa no Catatau, vi que meu pai fazia o que depois eu repetiria em alta dosagem, beber uma água ardente tão apreciada pelos poloneses como pelos negros e índios que em mim observavam aquilo esperando vez. E pronto, já rabiscando poeminhas em papéis soltos como faria vidafora, lá estava eu mestiçamente nascido e encaminhando para minhas artes, ofícios e sacrifício, quando o pai foi novamente transferido, de volta a Curitiba, em Tupi “terra de muitos pinhões”, das pinhas que caem da árvore em forma de taça, como em taças e copo e no gargalo eu tanto beberia ali.

E aqui e por enquanto, Pé Vermelho, te passo agora o bastão neste cultorneio de revezamento para contar minha história de vida, ou contar com vida minha história, alertalhando que história de vida é pleonasno, pois história pressupõe vida como vida pospõe-se em história, então que seja um pleorgasmo duplo, dever e prazer de gozar juntos sem intenção nem plano, só intuição, ação e pronto, pegue o bastão com as duas mãos e o coração.
Em junho de 2013 em Curitiba, o editor Samuel Ramos Lago convida Pé Vermelho para escrever biografia de Leminski, no mesmo Mabu Hotel onde Pé Vermelho e Leminski um dia beberam o frigobar olhando da janela a copa de um pinheiro com pinhas. Pé Vermelho fica de pensar na proposta, o editor se vai e ele fica lembrando daquele dia, quando falou que belo pinheiro – e Leminski imediatamente corrigiu cortante:

- Não é um pinheiro! É uma pinheira! Se tem pinhas, é pinheiro fêmea, pinheira. O machismo atinge até a botânica!


Pé Vermelho volta para Londrina com aquilo rodando na cabeça, um livro sobre Leminski, quem diria. Em casa, sonha com Leminski, falando e gesticulando enquanto caminha meio de lado por causa do fígado inflamado pela cirrose, como no poema-testamento Dor Ambulante: “um homem com uma dor / é muito mais elegante / caminha assim de lado / como se chegando atrasado / andasse mais adiante”.

Pô, diz Pé Vermelho no sonho:

- Você vai se matar até morrer, né?

- Mas conto com você, cara, pra escrever que eu não morri de tanto me matar, morri de tanto viver, lembra?

Pé Vermelho acorda, tateia o criado-mudo, acha a caneta, mas cadê papel. Levanta e vai à cozinha pegar papel e novamente escreve em guardanapo, enquanto um galo canta na vizinhança, como que alertando, e o olhar pousa no calendário na parede, que então ele olha e... vê que é 7 de junho, o dia da morte de Leminski!

Mas o que isso quererá dizer? Que deve aceitar a proposta de reviver Leminski, escrevendo sobre sua vida, ou será sinal para deixar o morto em paz? Pé Vermelho volta para a cama, não consegue mais dormir pensando nisso, lembrando cenas de Leminski que começa a anotar. Mas escrever o que sobre a vida dele? Já teve uma biografia bem feita, já virou mito, já teve exposição na mídia e até em museu3, o Catatau foi reeditado, Toda Poesia virou best-seller, VIDA, seu quadrivolume de biografias será reeditado, o que mais escrever sobre Leminski?!

Na noite seguinte, Pé Vermelho volta a sonhar com o Polaco. Na casa no Pilarzinho, cozinham no piso da sala, fazendo sopa num caldeirão sustentado por três pedras sobre um fogareiro a álcool (tudo simbólico, verá Pé Vermelho depois: pedras, que aparecem tantas vezes na poesia de Leminski, daonde virá a idéia de escrever sobre suas facetas feito poliedro; e um fogareiro a álcool...).

Pé Vermelho mexe a sopa com colher de pau, vendo que é sopa de legumes com cogumelos e costelinha de porco defumada, coisa eslava. Leminski bica copo de vodka e brinca enxugando com os dedos os bigodões:

- Álcool serve até pra cozinhar, hem... Na campanha da Rússia, os alemães passaram fome porque as rações congelavam e eles não tinham fogo.

- Onde você leu isso? Ou tá inventando agora?

- Eu?! – batendo as mãos no peito, depois suspirando tão fundo que os bigodes ruflam com o jorro de ar – Eu não minto, cara, eu recrio!

Riem. Leminski diz que, para a sopa não ficar rala, também é preciso criatividade.

- Vamos botar pinhão aí.

Descascam pinhões cozidos mas, frios, é difícil descascar. Leminski diz que é assim mesmo:

- O difícil é sempre melhor.

Picam os pinhões descascados sobre uma tábua, despejam no caldeirão fumegante, e Leminski saca do bolso um papelote, Pé Vermelho reage:

- Guarda isso, a gente vai comer!

- Não é o que você pensa, cara! – Leminski sorri matreiro – É páprica!

Despeja o pó vermelho na palma da mão e, com dois dedos, vai polvilhando na sopa.

- Pra sopa pop, tempero fino!

Pé Vermelho acorda, suado na noite fria. Que diabo quis o Polaco dizer com aquilo? Leminski salta da memória proclamando:

- Pra Freud tudo é sexo, pra Jung tudo é símbolo, então prefiro Jung pra analisar meus sonhos, porque sexo eu mesmo faço!

Então Pé Vermelho tenta analisar simbolicamente o sonho. A sopa é a história da vida de Leminski, que devem escrever juntos, o escritor e seu fantasma, como juntos faziam a sopa no sonho. Os legumes são o trivial, a vida do dia a dia de Leminski, o menino a brincar de poeta, o poeta a brincar de menino.

Costelinha defumada é ingrediente eslavo e negro ao mesmo tempo, a parte do porco que os nobres rejeitavam por ter ossos, assim ignorando o gosto delicioso por isso mesmo. (Mas porque costelinhas defumadas? A simbolizar toxicidade? O a trucagem de embutir na carne o gostinho e o cheirinho da madeira ancestral? Trucagem, claro, há de ser uma história criativa, ou não será de Leminski).

Os pinhões, claro também, são o Paraná, os pés na terra, no aqui, no barro que pode tomar a forma que a gente quiser; como os pinhões também são a língua do povo, as raízes na forma de frutos, Deus em tudo, a plantação da nossa vida em nosso chão.

E aquele pozinho, a páprica, tempero tão pouco usual na cozinha popular, seria o que? Pirlimpimpim! A dar gosto na sopa, a injetar mágica no caldo! As pitadas de erudição, o charme na carne, o Latim no latão do caldeirão!

Pé Vermelho abre o Catatau e relê o começo em Latim: Ego sum...

Amanhecendo ainda, liga a um amigo e conta:

- Acorda e abre os ouvidos. Vou escrever um livro sobre o Leminski. Mas não vai ser uma biografia, nem mesmo um livro convencional. Sem isso de começo, meio e fim enfileiradinhos certinhos feito soldadinhos de letras. Vai ser pra qualquer caboclo entender, mas vai ter o tempero da invenção, da criação, da trucagem e da brincadeira, como ele gostava, ou melhor, como ele gosta. Que é que você acha.

Acho que vou continuar dormindo, diz o amigo desligando.

Alguns dias depois, pescando no lago urbano de Sertanópolis, vem a Pé Vermelho um haicaipira:

Pensamentos vem

e vão – ventos

também, não?

Vê que esqueceu caneta, não há como anotar. Cata então uma pedra e escreve o haicai na terra, para lembrar de memorizar entre um gole e outro do vinho à espera dos peixes. Com a pedra na mão, lembra de Leminski, que tantos poemas tem tratando de pedras ou por pedras passando. Pedras. Todas foram lava um dia, lava que se condensou, fragmentou, virou pedra, ou melhor até, virou esmeralda, ametista, turmalina, água marinha, mas, para resplandecer, teria um dia de ser lapidada e... Saltou da pedra o título do primeiro capítulo a escrever sobre Leminski: Poliedro.

Vento espaventa as árvores na beira da lagoa. Pé Vermelho entende:

- Nem precisava agradecer, cara, você fez por merecer.




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