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Encontro07.06.2018
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Memórias da gripe de 1918
Nós possuímos dois tipos de memória. A primeira é a da nossa mente, onde guardamos as lembranças de nossas experiências mentais. São as lembranças do primeiro beijo ou das noticias de ontem. A segunda memória é imunológica. Lá estão guardadas muitas das experiências de nosso corpo. Guardamos a lembrança de termos sido imunizados contra o sarampo ou de termos sido expostos a diferences cepas de vírus da gripe. Apesar de inconsciente, esta memória é extremamente eficaz e é devido a ela que muitas vacinas, uma vez aplicadas na infância, nos protegem por toda a vida. O sistema imune “lembra” do vírus e quando somos infectados novamente o sistema “puxa” de sua memória a capacidade de produzir anticorpos que neutralizam o vírus. Por incrível que pareça compreendemos melhor como a informação é mantida na nossa memória imunológica do que como nossas experiências mentais são guardadas em nosso cérebro.
As memórias mentais da pandemia de gripe que matou milhões de pessoas em 1918 são lembradas pelos sobreviventes e imortalizadas em livros. Mas será que é possível resgatar a memória imunológica de pessoas que foram infectados por este vírus no inicio do século XX? Um grupo de cientistas foi capaz de isolar e reconstituir estas memórias imunológicas.
Tudo começou quando o DNA do vírus de 1918 foi isolado de cadáveres de vítimas enterradas em regiões muito frias. A partir da seqüência deste DNA foi possível recriar o vírus (veja meu artigo “Brincando de deus com a gripe de 1918” publicado em 26/10/2005). A partir do vírus “ressuscitado” um grupo de cientistas isolou a capa do vírus, aquela proteína que induz a resposta imunológica que é posteriormente “lembrada” pelo nosso sistema imune. Primeiro os cientistas coletaram sangue de centenas de pessoas e descobriram que nenhum de nós possui no sangue anticorpos capazes de reconhecer a capa do vírus de 1918. Isto é esperado uma vez que o vírus desapareceu e ninguém nascido desde 1920 foi infectado. Em outras palavras não temos memória imunológica deste vírus.
Num segundo passo foram identificadas 32 pessoas que hoje têm entre 91 e 101 anos e eram crianças durante a epidemia. Estas pessoas foram escolhidas por terem convivido com casos da doença ou terem perdido pais ou irmãos na pandemia de 1918. O sangue destas pessoas foi coletado e foi possível demonstrar que elas, 90 anos depois, ainda possuíam anticorpos que reconheciam o vírus de 1918. Suas memórias imunológicas estavam intactas.
Num terceiro passo os cientistas isolaram do sangue destes idosos as células que produzem estes anticorpos, ou seja, o local onde esta memória está guardada. Estas células foram modificadas para crescerem fora do corpo, em tubos de ensaio, e linhagens celulares permanentes, capazes de produzir grande quantidade destes anticorpos foram desenvolvidas.
Finalmente os cientistas infectaram camundongos com o vírus de 1918 ressuscitado. Quando isto é feito grande parte dos animais more rapidamente. Mas, quando os anticorpos que fazem parte da memória imunológica dos velhinhos são injetados nos camundongos infectados com o vírus, eles são capazes de matar o vírus antes que o vírus mate o camundongo. Eureka! Um soro capaz de curar este tipo de gripe foi produzido a partir da memória imunológico dos velhinhos sobreviventes. Esta é mais uma arma que poderemos usar caso o vírus de 1918 venha a reaparecer.
Mais informações em: Neutralizing antibodies derived from B cells of 1918 influenza pandemic survivors. Nature vol.455 pag.532 2008
Fernando Reinach (fernando@reinach.com)

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