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A POLISSEMIA E A PERÍFRASE NA “CUPÓPIA”

Sílvio Vieira de Andrade Filho (Nucab – Uniso)



1. Introdução

No Caxambu, localidade rural do município de Sarapuí, Estado de São Paulo, Brasil, nasceu no século 19 uma comunidade negra que usava uma fala com um vocabulário de origem africana denominada “cupópia”. No começo do século 20, esta foi transportada para a comunidade vizinha do Cafundó através do casamento de Nhô Caetano do Caxambu com Ifigênia do Cafundó. O casal sempre morou no Cafundó que surgiu na época da Abolição (1888) num ponto que hoje pertence ao atual município de Salto de Pirapora, Estado de São Paulo, Brasil. O Caxambu já não mais existe como comunidade negra, mas os poucos caxambuenses mais velhos que estão espalhados na periferia de cidades vizinhas como Sorocaba, Salto de Pirapora e Votorantim ainda se lembram de algumas palavras e enunciados da “cupópia”. Do mesmo modo que os caxambuenses, há cafundoenses espalhados também na periferia das mencionadas cidades.

Os 80 habitantes do Cafundó atual, antes de tudo, são falantes de uma variedade do português rural. É na estrutura deste português que a “cupópia” se desenvolve. Contudo, a “cupópia” é usada apenas por 08 falantes e somente em situações especiais. Por exemplo, diante de estranhos quando os dialogantes não desejam revelar-lhes o conteúdo da conversa. O uso secreto de falas africanas foi muito comum no Brasil colonial.

O mundo dos objetos dos usuários da “cupópia” é maior que o seu vocabulário africano. Este mundo tem que ser expresso lingüisticamente por seus usuários. Como resolvem isto com um vocabulário tão pequeno? É o que este artigo procura responder através da focalização destes dois principais recursos usados pela “cupópia”: a polissemia e a perífrase (1). Estes recursos são empregados também por diversas falas de origem africana do Brasil (2).


___________________
(1) Este assunto foi tratado por Andrade Filho no capítulo O Repertório e a Criatividade (2000: 201-215) e no artigo O vocabulário e a criatividade da “cupópia” (2003: 168-179).
(2) In: Sílvio Vieira de Andrade Filho, capítulo Estudos Comparativos (2000: 238-248). Ali há estudos comparativos entre a “cupópia”, a “calunga” (Batinga: 1984) e a “língua do negro da costa” (Queiroz: 1984).

2. A polissemia
A “cupópia” tem um vocabulário de cerca de 150 itens lexicais, nomes na maioria. O fato de ter um vocabulário pequeno faz com esta coloque muitos significados em seus itens lexicais. Por isso, a “cupópia” serve-se da polissemia. Cada item lexical tem um primeiro significado e depois pode receber outros significados a este relacionados. A “cupópia” não cria novos itens lexicais, mas insere novos significados no item lexical já existente.

No exemplo (01), notamos que o item lexical “ingômbi” significa inicialmente “cavalo” e “boi”. Na zona rural do Brasil, o cavalo e o boi sempre foram excelentes meios de transporte. Desta maneira, não foi difícil o item lexical em foco receber também os significados de “caminhão”, de “ônibus” e de outros transportes modernos. Em (02), podemos perceber que, ao primeiro significado “fogo”, foram adicionados outros significados correlatos.


(01) Ingômbi

Boi, cavalo

Trator, caminhão, ambulância, ônibus, bicicleta, automóvel, veículo, transporte, etc.
(02) Andaru

Fogo


Raio, luz, vermelho, combustível, gasolina

3.1 A perífrase
Para evitar que no ato da fala um item lexical com dois ou mais significados como (01) possa trazer dificuldades de compreensão para o ouvinte, o falante tenta obter, quando solicitado pelo ouvinte, através de uma expressão restritiva, o único significado que deseja para tal item.

No ato da fala, o emissor sempre deseja transmitir ao receptor um só significado e o receptor espera dele um único significado também. Se a primeira expressão restritiva não for suficiente para a compreensão do ouvinte, este vai pedir ao emissor uma nova restrição. As restrições só acabam quando o receptor demonstra entendimento do único significado pretendido pelo emissor.

Toda perífrase é gerada através do esquema A + B. No sistema perifrástico da “cupópia”, a expressão B é capaz de restringir o significado de A.

Na demonstração abaixo, percebemos que ao item lexical (01) da “cupópia” já visto anteriormente, foi adicionada a expressão restritiva B pelo falante, formando o todo a perífrase (03). A expressão restritiva B de (03) conseguiu eliminar para o ouvinte alguns significados de (01). Em (03), só permaneceram os significados referentes a veículos motorizados.


(03) Ingômbi do andaru

A B
Cavalo do fogo

Veículo a combustível

Ambulância, automóvel, ônibus, trator, caminhão, etc.


Como continua com muitos significados, (03) pode sofrer nova restrição. Assim, temos (04). A última restrição é sempre B. Tudo o que foi dito anteriormente é representado por A.
(04) Ingômbi do andaru que curima o túri

A B
Cavalo do fogo que trabalha a terra

Veículo a combustível que trabalha a terra

Trator
Se (04) ainda precisar de nova restrição, o falante preencherá o espaço vazio de B, gerando (05):


(05) Ingômbi do andaru que curima o túri ______________

A B
O contexto situacional é um grande auxiliar do falante que pode dispensar freqüentemente o sistema perifrástico da “cupópia”. No ato da fala, pode estar passando perto dos dialogantes um trator. Assim, ao invés de gerar (04) para o receptor, o emissor pode gerar apenas (01) e, assim mesmo, vai obter êxito em sua comunicação, pois o ouvinte vai entender apenas “trator”, eliminando todos os demais significados de (01). O falante, porém, pode gerar (04) por questão de clareza. Se o emissor desejar um outro significado que não o de (04), ele pode, por exemplo, gerar (06).


(06) Ingômbi do andaru que cuenda os tata pra curima no sêngui

Cavalo do fogo que leva os homens para o trabalho no mato

Transporte a combustível que leva os homens para o trabalho no mato

Caminhão
Assim, cada significado de (03) pode ser obtido com outras restrições. O sistema perifrástico da “cupópia” tem totais condições para isto.

A restrição pode realizar-se com de + o + nome (03), com que + verbo + complementos (04) e com de + verbo no infinitivo + complementos (07). A restrição pode ser feita também com um qualificador como podemos verificar comparando (08) com (09). Em (10), temos dois significados. Em (11), o único significado foi obtido graças a um outro tipo de restrição formado por em + o + nome.
(07) Injequê do andaru de curimá o variá

Recipiente do fogo de trabalhar a comida

Recipiente do fogo de preparar a comida

Fogão
(08) Injequê do andaru

Recipiente do fogo ou da luz

Lampião, fogão, forno, lâmpada


(09) Injequê nâni do andaru

Recipiente pequeno do fogo ou da luz

Lampião, lâmpada
(10) Injó de Jambi

Casa de Deus

Céu, igreja
(11) Injó de Jambi no túri

Casa de Deus na terra

Igreja
De um lado, o vocabulário africano da “cupópia” é finito. Por outro, o seu sistema gerador de perífrases a serviço da criatividade do emissor é responsável pelo número infinito destas que garantem a sobrevivência desta fala africana, permitindo que o emissor não saia da marca “africano”, fato que revela a sua identidade e a sua resistência cultural. Assim, é possível um significado ser expresso por mais de uma perífrase como atestam (12) e (13).
(12) Injó da anguara

Casa da aguardente

Bar
(13) Panga da anguara

Venda da aguardente

Bar
Objetos da modernidade podem ser expressos também na “cupópia” através de perífrases como (14), (15) e (16):
(14) Cupopiadô e coçumbadô do quilombo

Falador e captador da distância grande

Falador e ouvidor de longe

Telefone
(15) Cupopiadô e coçumbadô da caméria

Falador e captador do rosto

Televisão

(16) Coçumbadô da caméria

Captador do rosto

Máquina fotográfica, filmadora, câmera de TV, espelho
Há perífrases que, de tanto serem usadas, fixaram-se na mente de todos os usuários da “cupópia” como (03), mas um determinado emissor pode fazer ao lado de um nome uma restrição que vai formar, conseqüentemente, uma nova perífrase nunca antes gerada por nenhum outro emissor. Por esta razão, a “cupópia” pode ter duas ou mais perífrases para um único significado, caso de (17) e (18).
(17) Tata do tuim

Homem da cadeia

Soldado
(18) Tata do chitungo

Homem da prisão

Soldado

3.2 O sistema perifrástico da “cupópia”
Seguem-se esquemas ilustrativos do sistema perifrástico da “cupópia”. Em cada esquema, os números indicam as perífrases da lista que vem logo abaixo. Quando a perífrase da referida lista tiver dois ou mais significados, estes significados entre parênteses são antecedidos por números indicadores da mencionada perífrase com nova restrição. O leitor pode utilizar o vocabulário “cupópia”-português que se encontra em 3.3.

bicuanga = pão, qualquer objeto sólido


1 2 3 4 5 6 7

1. bicuanga do avere (queijo)

2. bicuanga do ique (bolo)

3. bicuanga do túri (tijolo)

4. bicuanguinha curimado na macura (bolinho)

5. bicuanga do vava no nhoto (sabonete)

6. bicuanga do vava no nangá (sabão)

mucuá = cobra

1 2 3 4 5 6



7 8
1. mucuá do nangá 7: (linha) 8: (barbante)

2. mucuá do nhoto (lombriga)

3. mucuá da bugigança (lombriga)

4. mucuá do andaru (trem)

5. mucuá do cambererá do canguro (lingüiça)

6. mucuazinho do túri (minhoca)

7. mucuazinho do nangá ou mucuá nâni do nangá (linha)

8. mucuá vavuro do nangá (barbante)


orofim = árvore, pau, lenha

1 2 3 4 5 6



7 8
1. orofim da malara 7: (laranjeira) 8: (limoeiro)

2. orofim da mafone (bananeira)

3. orofim do andaru (vela)

4. orofim do cutaro (vela)

5. orofim do ique (cana)

6. orofim do pungo (pé de milho)

7. orofim da malara do ique (laranjeira)

8. orofim da malara nâni do ique (limoeiro)
tenhora = instrumento


1 2 3 4 5 6 7

8
1. tenhora da mucanda (caneta) (lápis)

2. tenhora da curima da mucanda (caneta) (lápis)

3. tenhora da curima do túri (arado) (enxada) 8: (vassoura)

4. tenhora do variá (colher) (garfo)

5. tenhora do nangá (agulha)

6. tenhora de curimá o maçuruco (pente)

7. tenhora de cuendá o lepo no maçuruco (tesoura)

8. tenhora da curima do túri no injó (vassoura)

cupópia = fala, conversa, voz, som, ronco


1 2 3 4 5 6 7 8 9

1. cupópia da muchinga (espirro)

2. cupópia do arambuá (latido)

3. cupópia do ingômbi (relincho) (mugido)

4. cupópia do vimbundo (fala do preto, fala africana)

5. cupópia do orofômbi (fala do branco, língua portuguesa)

6. cupópia do ramunhau (miado)

7. cupópia do chipuco (flatulência)

8. cupópia do adufo e do fole (música)

9. cupópia vavuro (verdade)




ingômbi = boi, cavalo


1 2 3 9

4 5 6


7 8


1. ingômbi da curima do túri (cavalo)

2. ingômbi da curima do túri que cuenda o lepo no túri (cavalo)

3. ingômbi do andaru (automóvel) 4: (caminhão) (ônibus) 5: (ambulância) 6: (trator)

4. ingômbi vavuro do andaru 7: (ônibus) 8: (caminhão)

5. ingômbi do andaru do injó do maiêmbi (ambulância)

6. ingômbi do andaru que curima o túri (trator)

7. ingômbi vavuro do andaru que cuenda os tata pr’ambara (ônibus)

8. ingômbi vavuro do andaru que cuenda os tata pra curima no sêngui (caminhão)

9. ingômbi do avere (vaca)

tata = homem

1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22



1. tata da cupópia vatema (advogado)

2. tata da curima do palulé do pelotão (futebolista)

3. tata camanaco (moço, jovem)

4. tata cucuerado (homem casado)

5. tata do injó do mafingue (irmão)

6. tata do injó do maiêmbi (médico) (enfermeiro) (farmacêutico)

7. tata do injó do maiêmbi do nangá avere (médico) (enfermeiro) (farmacêutico)

8. tata do sêngui (macaco)

9. tata do tuim (delegado) (soldado)

10. tata do viçó vavuro (homem do olho grande, homem invejoso)

11. tata jocorocoto do injó (pai, avô, etc.)

12. tata que cuenda o lepo no maçuruco da caméria (barbeiro)

13. tata que cuenda o lepo no orofim do sêngui (lenhador)

14. tata que cupopeia a cupópia de Jambi (padre) (pastor) (curandeiro)

15. tata que curima a açória (dentista)

16. tata que curima o ingômbi do andaru (mecânico) (motorista)

17. tata que curima o nangá do palulé (sapateiro)

18. tata que curima o túri (lavrador)

19. tata que curima o viçó (oculista)

20. tata que curima vavuro a tenhora da mucanda (jornalista) (professor) (escritor)

21. tata vavuro na mucanda (professor) (jornalista) (escritor)

22. tata vavuro no túri (fazendeiro)
3.3. Vocabulário “cupópia”-português
açória = rosto, dente, etc. adufo = pandeiro, tambor ambara = cidade arambuá = cão avere = leite, branco bugigança = barriga camanaco = criança cambererá = carne canguro = porco chipuco = nádegas, ânus cucuerado = casado cuendá = ir, levar, andar, vir, pôr, trazer, correr, chegar, etc. cutaro = reza fole = sanfona injó = casa ique = doce, açúcar jocorocoto = velho lepo = qualquer objeto cortante como lâmina, faca, enxada, machado, etc. macura = gordura, óleo, manteiga maçuruco = cabelo mafingue = sangue mafone = banana maiêmbi = remédio malara = laranja, limão mucanda = escrita muchinga = nariz nangá = roupa nâni = pequeno, pouco, sem nhoto = corpo palulé = pé pelotão = bola ramunhau = gato sêngui = mato variá = comida vatema = forte, bravo vava = água vavuro = grande, muito viçó = olho

REFERÊNCIAS
ANDRADE FILHO, Sílvio Vieira de. Um estudo sociolingüístico das comunidades negras do

Cafundó, do antigo Caxambu e de seus arredores. Sorocaba, SP: Secretaria da Educação e Cultura,

2000
_______ . Papia. Brasília, n. 13, 2003, Editora Universidade de Brasília.
BATINGA, Gastão. Aspectos da presença do negro no Triângulo Mineiro-Alto Paranaíba. Uberlândia:

Indústria e Comércio Ltda., 1994.


QUEIROZ, Sônia M. M. A língua do negro da Costa: um remanescente africano em Bom Despacho

(MG). Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo

Horizonte, 1984.



Sites:

http://paginas.terra.com.br/educacao/cafundo

http://www.cafundo.jex.com.br

http://www.cupopia.hpg.com.br

http://www.jornalexpress.com.br/cafundo
Endereço do autor:

Rodovia Raposo Tavares, km 92,5

CEP 18023-000

Sorocaba, SP



E-mail: vieira.sor@terra.com.br


Notas que não estão no artigo
(I) O artigo acima foi publicado em dezembro de 2005 na Revista de Estudos Universitários, Universidade de Sorocaba, volume 31, número 02, p. 157-167, Edições Loyola, São Paulo
(II)  Este artigo pode ser utilizado desde que citada a fonte





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