Artigo sobre o uso de cançÕes no ensino de efl



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O USO DE CANÇÕES NO ENSINO DE INGLÊS COMO LÍNGUA ESTRANGEIRA: A QUESTÃO CULTURAL
Prof. Dr. Luciano Rodrigues Lima

Professor Adjunto da UFBa

Professor Adjunto da UNEB

RESUMO

O estudo analisa alguns objetivos didático-pedagógicos na utilização de canções no ensino de línguas estrangeiras, especificamente em EFL, como listening and comprehension, aquisição de vocabulário, aspectos fonéticos e fonológicos nas letras de canções (lyrics), e a inserção cultural propiciada pela utilização de canções na sala de aula. Por último, apresenta-se uma proposta metodológica para o uso de objetivos culturais com canções, em turmas do nível intermediário e upper intermediate.

Palavras-chave: ESL (English as a Second Language) – EFL (English as a Foreign Language) – canções – objetivos culturais – vocabulário


ABSTRACT
This study analises some of the didatic and pedagogic aims for the use of songs in foreign language teaching, specifically in EFL, such as listening and comprehension, vocabulary acquisition, phonetic and phonological aspects in the lyrics, and the cultural insertion propitiated by the use of songs in English language classes. Finally, a methodological proposal for working with cultural aims in activities with songs, for intermediate and upper intermediate level students is presented.
KEY-WORDS: ESL (English as a Second Language) – EFL (English as a Foreign Language) – songs – cultural aims – vocabulary

DEFINIÇÃO DE TERMOS BÁSICOS


CULTURA - A configuração complexa de uma rede de relações sociais historicamente moldada, de obrigações, expectativas, normas e tradições
EFL – English as a Foreign Language (Inglês como Língua Estrangeira). O inglês como idioma estrangeiro, como ocorre no Brasil.
ESL – English as a Second Language (Inglês como Segunda Língua) O inglês em países em que o idioma é usado como segunda língua oficial, naturalmente nas relações sociais cotidianas, ou no sistema de ensino e na universidade, como ocorre no Paquistão e na Índia, ou ainda por imigrantes em países de língua inglesa.

“A TÍTULO DE WARM-UP”


Principio por relatar um episódio que me fez refletir sobre a importância da escolha correta dos objetivos, da metodologia e dos equipamentos a serem utilizados com canções em aulas de EFL.

Realizava eu um seminário rotineiro de atualização pedagógica, desses que todos nós, professores de língua inglesa, temos que freqüentar, periodicamente (geralmente em períodos de férias ou recesso). O seminário era ministrado por um professor norte-americano criativo e dinâmico, além de demonstrar prazer em suas aulas. O último tópico do programa anunciava: “Songs for the soul”, título imaginativo para o uso de canções no ensino de EFL. Aguardei ansiosamente por essa etapa. Esperava uma excelente demonstração metodológica. Tal, porém, não ocorreu.

O equipamento usado (um gravador portátil antigo, com fitas gravadas em baixo volume, com ruídos, e um microfone colocado junto ao gravador) mostrou-se inadequado. Ainda pior, porém, foi a escolha musical. Das cinco canções, apenas uma era conhecida dos participantes, e ainda assim em uma gravação não original. Eram canções românticas dos anos quarenta e cinqüenta, (ao estilo Bing Crosby, o que implica em escolha estética pessoal e, portanto, desvinculada de objetivos culturais contemporâneos) talvez lindas, porém sem grande significado para a realidade do mundo atual. A reação dos professores participantes foi de desapontamento, embora todos tivessem tentado participar da atividade. Lia-se nos olhos de cada um que se esperava mais daquela atividade final, em um seminário que havia sido bem ministrado. A metodologia proposta para o trabalho com as canções (guided fantasy), embora válida, pois estimulava inferências e criatividade sobre o conteúdo das letras, foi prejudicada pela inadequação cultural do material utilizado. Desse modo, o insucesso deveu-se à falta de clareza de objetivos (desvinculados do aspecto cultural) revelada na escolha inapropriada das canções e à má qualidade técnica do equipamento. A atividade encerrou-se antes do tempo previsto.

Eis como passei a prestar especial atenção às questões metodológicas e culturais no uso de canções em minhas aulas e a interessar-me pelas experiências de outros professores.

1 – O PROBLEMA: DESCONSIDERANDO A CANÇÃO COMO UM DADO CULTURAL

Na prática cotidiana, professores de EFL utilizam-se de canções em suas aulas visando alcançar objetivos lingüísticos voltados para as habilidades básicas: listening, reading, speaking e writing (essas habilidades, se consideradas fora de um contexto cultural 1 podem resvalar para a repetição de práticas mecanicistas). Contudo, não sendo o objetivo deste trabalho discutir a validade de tais “habilidades” ou “competências”, cabe registrar que muitos professores utilizam canções em suas aulas de EFL como atividade recreativa, sem objetivos pedagógicos e culturais claros. Assim, arriscam-se a transformar um dos mais poderosos recursos didático-pedagógicos no ensino de língua estrangeira em uma espécie de “passa-tempo” desvinculado dos objetivos gerais do curso. Resumindo, o problema remete a uma última questão: como compreender uma canção sem o seu contexto cultural?


2 – ALGUMA TEORIZAÇÃO


As pesquisas ( bem como as práticas) em lingüística aplicada se utilizam de uma fundamentação teórica diversificada, fornecida pela lingüística geral, psicolingüística, sociolingüística, neurolingüística, teorias da aquisição, análise do discurso, semântica, pragmática, etc. Além disso, podem servir de suporte aos estudos e práticas em lingüística aplicada ao ensino de línguas conceitos fundamentais da pedagogia, em suas diversas áreas, como didática, metodologia do ensino, avaliação e outras. Mais recentemente, os estudos culturais têm fornecido uma visão dos aspectos simbólicos envolvidos nos processos culturais e muitas questões levantadas pela lingüística aplicada. Nessa relação, esta última lidaria com uma manisfestação discursiva, de ordem empírica, dos estudos culturais.

Quanto à associação da lingüística aplicada aos estudos culturais, Ruth Wodak, em um artigo intitulado “Does Sociolinguistics need Social Theory?”, apresentado em 2000, no Simpósio de Sociolingüística, em Bristol, na Inglaterra, fala de uma “metateoria” da pesquisa em lingüística aplicada e mesmo de uma mesoteoria, capaz de prover uma compreensão mais profunda da situação social imediata.

Amplo e diversificado é o campo teórico que pode ser utilizado pela lingüística aplicada, considerada uma área interdisciplinar. O suporte teórico a ser utilizado pelo lingüista aplicado dependerá dos objetivos do seu estudo ou de suas práticas.

Os estudos sobre o ensino e a aquisição de língua estrangeira, por exemplo, integram aquilo que as universidades designam, imprecisamente, por lingüística aplicada. A imprecisão do termo “lingüística aplicada” se explica por não haver delimitações marcantes para a sua abrangência e natureza dos seus estudos. Em alguns departamentos acadêmicos, por exemplo, psicolingüística, aquisição da primeira e segunda línguas, compreensão textual, análise da conversação, análise do discurso político, gênero e linguagem, políticas de linguagem, neurolingüística, linguagem da mídia, etc, integram a lingüística aplicada. Note-se que, na heterogênea relação citada estão incluídas áreas de estudos sociais, intersecção de disciplinas, métodos de análise e objetos de teorização lingüística, como texto e discurso. Diante da diversidade de disciplinas por ela abarcadas, pergunta-se: a lingüística aplicada é uma ciência da cultura? Esta pergunta, visando melhor definir a natureza da lingüística aplicada, introduz um novo problema conceitual: qual a definição de cultura? , ou: existe uma ciência da cultura? (Observe-se que, muitas vezes, a definição de estudos culturais perde-se em uma vastidão semelhante ao conceito de ciências humanas). Vê-se, pois, desde o início, que as questões envolvendo linguagem e cultura são complexas e controversas, pois estes são dois eixos em torno dos quais giram diversos saberes.

Por outro lado, ainda em relação à abrangência da lingüística aplicada, em países como os Estados Unidos, esta corresponde aos estudos de aquisição de língua estrangeira e segunda língua. Demonstra-se assim que, muitas vezes, a organização acadêmica não possui respaldo na fundamentação científica.

De acordo com Gertraud Benke, da Universidade de Viena, em seu artigo “Applied Linguistics: a science of culture?” os lingüistas aplicados normalmente possuem uma formação básica em lingüística (fonética, fonologia, morfologia, sintaxe e semântica) e, no desenvolvimento dos seus estudos, progressivamente deparam-se com tópicos da sociolingüística, da antropologia cultural, teoria crítica, estudos culturais, etc. Isto leva o lingüista aplicado a considerar noções como textualidade e discurso, relacionadas com o social.

Alguns teóricos contemporâneos no campo da análise do discurso, em uma perspectiva cultural, podem ser citados, como: Teun Van Dijk, (1989) versando sobre aspectos do discurso preconceituoso, Ruth Wodak, (1998) explorando a construção das identidades nacionais e a discriminação residual presente nos discursos da mídia e da política, e Norman Fairclough (1999) a respeito das mudanças no discurso das políticas trabalhistas dos governos conservadores na Gran-Bretanha e suas obras encontram-se nas referências deste trabalho.

A ligação do objeto deste estudo às considerações teóricas apresentadas é que a canção incorpora diversos aspectos da noção de textualidade (bem como de intertextualidade e interdiscursividade), ligados à questão cultural. Isto implica em dizer que uma canção só pode ser compreendida em seu contexto cultural.

3 – O USO DE CANÇÕES NO ENSINO DE EFL: OBJETIVOS CULTURAIS
Diferentes objetivos podem ser propostos para o uso de canções no ensino de inglês como língua estrangeira. Dentre outros, podemos citar: listening, aquisição de vocabulário, compreensão de tópicos gramaticais e, secundariamente, leitura, expressão oral, produção de texto e ortografia. Além desses objetivos dominantemente lingüísticos, outros podem ser propostos, de natureza cultural.

As canções, como forma de expressão cultural, veiculam valores estéticos, ideológicos, morais, religiosos, lingüísticos, etc. Elas possuem, a exemplo de outras produções artísticas, as marcas do tempo e lugar da sua criação.

As canções produzem zonas de inserção cultural em sala de aula, pois, quando devidamente escolhidas (a escolha das canções implica em uma veiculação cultural), se constituem também em material autêntico no ensino de EFL.

A compreensão do espaço desempenhado pela língua como produto cultural é importante para a compreensão profunda dos textos em língua estrangeira. Isto porque a noção de textualidade somente se concretiza nas relações com a cultura, ou seja, os significados são construídos a partir dos aspectos culturais. Além disso, como será discutido adiante, é importante reconhecer que uma cultura, no sentido amplo, como, por exemplo, a “cultura anglo-americana”, é formada de diversas sub-culturas. O que uniria, então, essa vasta e imprecisa “cultura anglo-americana”? Talvez traços abrangentes como a língua inglesa, a religião cristã, a tradição greco-romana, o capitalismo liberal e a sociedade de consumo, disseminados a partir do processo de colonização. Ao mesmo tempo, contudo, um movimento contrário fragmenta e desune essa “hiper-cultura”, ou seja, as diferentes etnias, as classes sociais, as faixas etárias, as facções políticas, as opções sexuais, a questão de gênero, os grupos religiosos e outras “sub-culturas”.

Neste estudo, o conceito de sociedade multicultural, isto é, de diversas culturas convivendo com suas diferenças em um mesmo espaço, subsidia a noção de que o estudante de EFL deve conscientizar-se de que a socialização possibilitada pelo aprendizado do inglês lhe dará acesso a um mundo multicultural e de diversidade étnica, em que as diferenças culturais devem ser consideradas. Nessa perspectiva, o uso de canções em sala de aula deverá contemplar, por amostragem, tanto quanto possível, a diversidade cultural dos povos de língua inglesa, e até mesmo canções em inglês de países não falantes do inglês (world music), para efeito de comparação.

Por último, os objetivos culturais não podem estar dissociados dos objetivos lingüísticos. Quando se apresenta uma canção em inglês australiano, jamaicano, ou em qualquer outra variável lingüística, a língua, em si, já é um dado cultural.


4 - ALGUMAS PROPOSTAS METODOLÓGICAS PARA O USO DE CANÇÕES NO ENSINO DE EFL E ESL
Nesta seção, são descritas e comentadas algumas experiências e metodologias para o uso de canções no ensino de EFL sem objetivos culturais sistemáticos, com os respectivos créditos das fontes.

Suzanne L. Medina, da Escola de Educação da California State University, em um artigo intitulado Using Music to Enhance Second Language Vocabulary Acquisition, compara os benefícios do uso de canções na aprendizagem de vocabulário às histórias orais. Na sua parte teórica, o artigo explora os aspectos psicológicos da atividade com música em sala de aula, pelo aspecto propiciatório à memorização e levanta questionamentos sobre a interação de atividades lingüísticas e não-lingüísticas (como ilustrações). Em seguida, ela descreve a sua pesquisa de campo, realizada com um grupo de estudantes das séries iniciais do ensino fundamental, possuidor de limitado vocabulário em inglês, formado por imigrantes hispânicos na Califórnia..

Foi apresentada uma mesma história, a grupos diferentes, com vocabulário apropriado, em duas versões em fita de áudio: uma falada e outra cantada. No pós-teste, verificou-se uma maior eficiência da história em forma de canção como recurso didático para aquisição de novo vocabulário. A autora, então, recomenda que o uso de canções passe a fazer parte do núcleo dos currículos dos cursos de ESL, em vez de figurarem como atividade recreativa.

Em outro artigo de Suzanne L. Medina, intitulado Songs + Techniques = Enhanced Language Acquisition, publicado no MEXTESOL Journal, são apresentadas descrições de algumas atividades com o uso de canções no ensino de ESL, sendo algumas delas inovadoras, as quais resumimos a seguir.



  1. “Dance to the music”: com o fundo musical da canção a ser aprendida, os alunos discutem as coreografias para dançá-la. O objetivo desta atividade é proporcionar o aprendizado da melodia antes da letra, através de uma metodologia que não apresenta instruções explícitas pelo professor. Os próprios alunos discutem e escolhem as coreografias, através de votação.

  2. “Antecipation”: O professor distribui previamente uma pequena lista com vocábulos que estarão na letra da canção a ser apresentada. Os estudantes, em grupos de três, utilizam técnicas variadas de aprendizagem de vocabulário, como consulta a dicionários, consulta aos colegas, etc. Os grupos apresentam os resultados dos trabalhos em um rápido painel, de preferência expressando-se apenas em inglês, ou com a ajuda de figuras, realia, mímica, gestos, roleplay, etc.

  3. “Musical drama”: Distribuir previamente a letra da canção aos grupos de três ou quatro alunos, ( de preferência na aula anterior) com os vocábulos a serem introduzidos sublinhados. Cada grupo explicará um dado número de palavras à classe, apresentando-se. Após rápida reunião entre seus membros, para definição das estratégias, os grupos se apresentarão, explicando o significado das palavras através de dramatização. Enquanto os “atores” se exibem, a canção é tocada ao fundo.

Brian Cullen e Kazuyoshi Sato, respectivamente do Instituto de Tecnologia de Nagoia e do Nagoya College of Foreign Studies, no Japão, em Practical Techniques for Teaching Culture in the EFL Classroom, ensaio veiculado pela Internet, buscam atingir o que eles denominam de “cultural texture”, ou seja, o somatório de aspectos culturais necessários no ensino de EFL. Pode-se observar, aqui, que existem diferenças no distanciamento cultural entre o Japão e os paises de língua inglesa, e entre o Brasil e esses mesmos países. As técnicas de imersão cultural nas aulas de EFL incluem, por exemplo, recursos como vídeo, CDs, TV, leituras, Internet, estórias, jornais, realia, trabalhos de campo, entrevistas, palestrantes convidados, anedotas, fotografias, pesquisas de opinião, ilustrações, literatura e, o que nos interessa mais especificamente, canções.

A proposta geral do trabalho, que não é descrita em detalhes, deixando assim o espaço para a criatividade do professor, baseia-se nos chamados “selling points” , fundamentados em aspectos/valores contrastantes entre a cultura do estudante e a dos diversos povos de língua inglesa, como por exemplo:


  1. atrativo x chocante

  2. similaridades x diferenças

  3. aspectos sombrios x aspectos alegres

  4. fatos x comportamentos

  5. tradição x modernidade

  6. idosos x jovens

  7. vida no campo x vida na cidade

  8. crenças arraigadas x comportamento atual

Os autores chamam a atenção para o fato de que, sem uma motivação e materiais eficientes, os estudantes não serão capazes de discutir ou emitir opinião sobre aspectos culturais de outros povos.

Sugere-se aqui, com base nos parâmetros do artigo em apreço, a escolha prévia dos objetivos culturais para o trabalho com canções, e uma prévia motivação através de material informativo, dando suporte ao aspecto cultural a ser abordado na letra, melodia, interpretação, arranjo, e efeitos especiais da canção a ser introduzida.

Um breve artigo de Duane P. Flowers (Teaching English with Songs and Music), apresenta técnicas simples para o trabalho com canções, algumas já amplamente utilizadas por professores brasileiros, como:

BLANKS – após a escolha prévia das canções, pelos próprios alunos, as letras são distribuídas com lacunas, para que os estudantes, durante a audição da canção, completem corretamente. Esta metodologia é ideal como auxiliar no estudo dos tempos verbais. Pode ser utilizada como atividade extra-classe.

STRIPS OF PAPER – Recortar a letra da canção em tiras (um verso cada). Dois grupos de estudantes tentarão montar o mais rapidamente possível a letra, após uma ou duas audições.

RELAXATION – Canções suaves como fundo musical. Apenas para relaxar e propiciar um bom clima de aprendizagem em sala de aula.

GUIDED FANTASY – Os estudantes estarão de olhos fechados. Coloque a canção como fundo musical e leia em voz alta a sua letra, que deve ser bem imaginativa. Os estudantes deverão expressar o que imaginaram com a apresentação da canção, livremente. Esta é uma atividade recomendável para um primeiro dia de aula.

O artigo de Duane Flowers se encerra com algumas observações sobre a escolha do nível de complexidade para as letras das cançoes, que devem sempre ser adequadas ao nível dos estudantes.

Isaiah Wonho Yoo, do Centro Americano de Línguas, da Universidade da Califórnia, no seu artigo Focused Listening with Songs, sugere que a atividade com canções deve partir de uma avaliação do grau de complexidade da letra em relação ao nível dos estudantes, em termos gramaticais e fonológicos. A atividade proposta deve durar de 10 a 60 minutos. Segundo Yoo, as letras das canções devem apresentar expressões relevantes e motivadoras, do tipo “you shoul have known better” ou “although it may seem impossible”. A estratégia proposta é estabelecer previamente uma discussão sobre o gênero de música a ser apresentado (pré-listening) e, durante a atividade, usar a técnica já descrita de “missing words”, associando listening à escrita, pois embora os estudantes devam ser capazes de, durante a audição, reconhecer as palavras omitidas na letra, eles terão de escrevê-las também.

Os procedimentos metodológicos com canções aqui citados são retirados de sites atualizados disponíveis na Internet e, em alguns casos, os autores dos artigos fornecem seus e-mails para troca de correspondência.
5 - OBJETIVOS CULTURAIS NO USO DE CANÇÕES NO ENSINO DE EFL: UMA PROPOSTA METODOLÓGICA

I – DEFINIÇÃO DE OBJETIVOS CULTURAIS


O professor deverá elaborar objetivos culturais, dentro de uma nova concepção da língua inglesa e da sociedade multicultural, em que as diferenças sejam tomadas em consideração, sem uma hierarquia valorativa entre as nações/culturas, geralmente arquitetada com base em preconceitos étnicos, históricos, etc.

Para tanto, a língua inglesa deve ser vista como instrumento internacional de comunicação, e não apenas como o idioma dos ingleses e norte-americanos. Nesse contexto, descabem antigas perguntas, do tipo: o seu accent é inglês ou americano? Atualmente, pode-se admitir, sem qualquer conteúdo depreciativo, o inglês fluente com sotaque indiano, jamaicano ou queniano, ou ainda o inglês fluente, como língua estrangeira, com sotaque brasileiro, espanhol, francês, etc. A comunidade anglofônica internacional deve estar apta para lidar com uma “babel” de sotaques, entonações, ritmos, etc, dos diferentes povos expressando-se e comunicando-se através da língua inglesa.

Os objetivos culturais para o uso de canções no ensino de EFL somente fazem sentido se vinculados a concepções como aquelas acima expostas. Caso contrário, podem facilmente servir para, inconscientemente, reforçar preconceitos lingüísticos. Assim, os objetivos devem visar, preferencialmente, à divulgação da diversidade cultural do mundo anglofônico, através das canções escolhidas.

O uso de objetivos culturais proporcionará uma imersão do estudante em diferentes culturas de comunidades anglofônicas e, ao mesmo tempo, poderá ser associado a objetivos didático-pedagógicos secundários, direcionados às competências como listening, speaking, reading e writing, na mesma atividade com canções.


II – TRABALHANDO COM OBJETIVOS CULTURAIS: UMA PROPOSTA METODOLÓGICA

a) ADEQUAÇÃO


A proposta que se segue é adequada para classes dos níveis intermediário e upper intermediate, com, no máximo, vinte estudantes. A duração prevista é de cinqüenta minutos.
b) WARM-UP

Antes de apresentar a canção, mostrar um vídeo, foto, mapa ou texto sobre a comunidade de onde vem a canção que será apresentada. Fazer perguntas que agucem a curiosidade dos estudantes sobre o conteúdo da letra da canção. Apresentamos, a seguir, uma pesquisa sobre “Cultura e Música Reggae”, a qual pode ser utilizada, com as necessárias adequações, para a introdução do trabalho com a canção Kaya, de Bob Marley, aqui proposta.


O QUE É “CULTURA REGGAE”?

Inicialmente, deve-se observar que esta é uma denominação imprecisa, daí a colocação das aspas, pois envolve diferentes elementos culturais, inclusive religiosos. Há quem prefira falar de uma “cultura rastafari”.

A “cultura reggae” corresponde a uma forma alternativa de viver, envolvendo uma atitude de rejeição das práticas violentas, uma postura de simplicidade perante o mundo consumista e uma religiosidade que, na Jamaica, está ligada às crenças rastafari. Essas práticas religiosas, e melhor seria chamá-las de religião rastafari, se originaram na África e reverenciam o antigo imperador Haile Selassie, da Etiópia, como líder espiritual e, ao mesmo tempo, a encarnação de Deus para os africanos (O nome de Deus, para os rastafari, é Jah e observam o Antigo Testamento). A “cultura reggae” original é dominantemente negra e representa uma forma de afirmação de identidade e união do povo negro da Jamaica. Para um conhecimento mais aprofundado do significado da “cultura reggae, algo muito mais amplo do que a música reggae, considerada uma sub-cultura integrada à cultura jamaicana e, atualmente, às culturas de muitos países, inclusive o Brasil, principalmente em estados como Maranhão, Rio de Janeiro e Bahia, é recomendável acessar informações confiáveis, em sites autênticos, os quais divulgam a “cultura reggae”. Muitos deles possuem audição gratuita de música reggae ou de poesia dub. Existem sites de reggae japoneses, como o Old Rocking Chair, alemães, ingleses, norte-americanos, brasileiros, enfim, de todas as partes do mundo, o que confirma a universalidade do reggae. Sugerimos, aqui, alguns sites especializados, como o Dance Crasher, cujo endereço é <http://www.klix.freeserve.co.uk/archivenmemay81.html>, o qual contém uma coleção histórica de artigos de revistas e jornais sobre temas ligados ao reggae, como entrevistas com ídolos do reggae (Jimmy Cliff, Bob Marley, Desmond Dekker, The Wailers, Peter Tosh, Gregory Isaacs, Burning Spear e outros), comentários sobre filmes a respeito de festivais de Reggae, a exemplo do de Wembley, 1970, letras de músicas, etc.

Eis aqui mais alguns sites recomendados, todos em língua inglesa:


1 – Rasta Dictionary: (dicionário de termos do inglês jamaicano, antes chamado preconceituosamente de creole)


2 Reggae-Riddims.Com < www.reggae-riddims.com >
3 - King in the Arena - (com audição de CDs de reggae)
4 – Jamaican Music (Christian Reggae Music) < http://www.jamaicans.com > (com audição de CDs)
5 – Tapir’s Reggae Label Discographies, site que contém a discografia de expoentes do reggae.
BREVE HISTÓRICO DA MÚSICA REGGAE
A música jamaicana, no sentido amplo, possui cerca de trezentos anos de história e evolução contínuas. A tessitura que compõe a música jamaicana é de origem européia e africana, mas as suas características híbridas são únicas. As origens mais remotas remetem à música folclórica, em suas várias manifestações, como a música da Igreja Pocomania, o digging, a música de flautas e tambores de Junkanoo, a música das “quadrilhas” européias e os cantos dos trabalhadores nas plantações. O primeiro tipo de música a ser gravado na Jamaica, na década de 50, chama-se “mento”, que aglutina as influências das expressões musicais populares citadas, tanto na forma do canto quanto dos instrumentos. O “mento”, de origem rural, se distingue claramente do calipso e ainda hoje funciona como um referencial para os compositores jamaicanos. Os predecessores mais diretos do reggae, no entanto, são o ska e o rock stead, do primeiro originando-se a configuração rítmica e do último o instrumental eletrônico.

Com o processo de urbanização da Jamaica, populações rurais migraram para a periferia de Kingston, formando favelas, como a conhecida Trenchtown (citada na música Alagados, dos Paralamas do Sucesso). Essas comunidades, de maioria negra, em fase de conscientização política e de construção da auto-estima, na busca de uma expressão musical mais contundente que o “mento”, (música um tanto associada a exibições folclóricas para agradar turistas) assimilando, também, aspectos da música negra norte-americana como o rhythm and blues, cria a música reggae e a poesia dub (poesia de cunho social declamada com fundo de música reggae instrumental), a ela associada, ambas com forte conteúdo social e político, signos de resistência contra a exclusão social.

Nos anos 60, o ska, ritmo jamaicano, cuja batida já possuía configuração própria, embalava os bailes e festas de rua, através da música de nomes como Laurel Aitkin, Owen Grey, Clue Já e The Blue Busters, além do já citado Don Drummond. A identidade do reggae advém da batida sincopada, “fora do tempo”, isto é, com o tempo forte parecendo estar atrasado. Um importante nome dos primórdios do reggae é Don Drummond, músico de jazz e blues, com experiência em música caribenha e da América do Sul. Juntamente com outros bons músicos da Jamaica, Don Drummond fundou a banda Skatelites.

Em meados dos anos sessenta, a “nova música” explodiu nas rádios, nas gravadoras e clubes noturnos. É importante notar que esses músicos precursores do reggae, como Bob Marley, Jimmy Cliff, Ken Boothe e Toots Hibbert, tentaram preservar da exploração comercial, em maior ou menor grau, o trabalho que realizavam. É dessa época o início da influência dos cânticos religiosos rastafari, com sua batida de percussão sincopada e seu estilo mais agressivo nas letras. Além da música rastafari, o rock steady, devido à forma de dança mais arrojada, conquistou a juventude, inclusive a classe média urbana. Assim, dessa fusão, ska – rock steady – música rastafari surge o reggae, desde o início com diferentes tendências. Com forte influência do rock steady pode-se citar músicos como: Bob Marley, Ken Booth, Alton Ellis, Heptones e Slim Smith.

Logo cedo, o reggae passou a influenciar o trabalho de músicos do mundo inteiro. Sucessos de canções como Poor me Israelite, de Desmond Dekker, My boy Lollipop”, na voz de Millie Small, e Wonderful Worl, beautiful people, de Jimmy Cliff, ganharam o mundo. No final da década de sessenta, a música de raízes de Bob Marley, com forte sotaque jamaicano, penetrava profundamente no meio musical da Inglaterra, influenciando intérpretes e compositores como Eric Clepton, Cat Stevens e mesmo Lennon e MacCartney.

Atualmente, diversas tendências convivem na música reggae, a exemplo da Christian Reggae Music jamaicana. Na música reggae internacional, elementos culturais diversos (língua, ritmo, dança, temas, instrumental, etc) são incorporados, de acordo com as características de cada país ou região.


c) PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Para melhor demonstrar os procedimentos sugeridos, apresenta-se uma proposta concreta de trabalho com a canção KAYA, de Bob Marley. A escolha se deve ao fato da cultura popular da Jamaica ter influência sobre muitos países, inclusive o Brasil, devido à grande divulgação da cultura reggae. Além disso, os alunos têm uma motivação adicional devido à gravação recente de uma versão da canção, por Gilberto Gil.
Warm-up: mostrar fotos de ídolos do reggae e perguntar: who are they? ou what is reggae music? Introduzir rápidas informações sobre o tema para a classe.

Importante:os estudantes não recebem a letra da canção.



  1. Perguntar à classe antes de tocar a música: what is the song about?

  2. Executar a música uma vez.

  3. Repetir a pergunta e discutir com a classe durante cerca de três minutos.

  4. Solicitar aos estudantes que copiem, pela ordem, toda palavra, expressão ou verso que possam captar. Tocar a música de novo.

  5. Solicitar aos estudantes que leiam as palavras entendidas e copiadas.

  6. Solicitar aos estudantes que copiem a canção verso por verso. Tocar a canção de novo, interrompendo após cada verso, ou, às vezes, frase musical, com o auxílio do recursos pausa e search, do CD player, (ou do DVD, pois o uso da imagem tem se constituído em um fator de motivação a mais no uso de canções, no ensino de EFL). Em caso de dificuldades generalizadas na compreensão, auxiliar a classe com algumas palavras-chave.

  7. Perguntar à classe quais foram os aspectos culturais (diferenças, semelhanças, aspectos lingüísticos, etc) observados na canção (e no vídeo clip,se for o caso, pois estes são, às vezes, densamente culturais).

  8. Anotar no quadro as observações pertinentes.

  9. Explicar o significado de Kaya, que quer dizer ganja, ou erva, ou ainda maconha, na linguagem de rua em Kingston. Explicar o significado religioso de kaya na cultura rasta e o papel do reggae como expressão da população negra em sua resistência contra o preconceito e a exclusão social, em seu próprio país.. Sugerir alguns sites sobre a música e a cultura jamaicanas, como o “Words of Bob Marley” (http://www.bobmarley.com/songs/songs.cgi?kaya) Explicar, de modo rápido, as formas agramaticais na letra da canção, como “turn I loose”, em face do inglês jamaicano, preconceituosamente denominado de “creole”. Indicar sites como o Jamaica Glossary of Terms (www.jamaicans.com/speakja/glossary.htm) ou o Complete Jamaican Glossary with Rasta and Reggae Words, (www.speakjamaican.com/glossary.html) para um conhecimento mais aprofundado do inglês jamaicano. Isto deve ser exposto para a classe à luz da sociolingüística, registrando as variantes da língua inglesa como formas válidas, histórica e culturalmente respaldadas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS


Cada vez mais se exige do professor de língua inglesa uma atitude consciente em relação às variáveis lingüísticas do inglês. Para se tratar deste assunto, é necessário falar em diversidade cultural. Nesse contexto, o uso de canções no ensino de EFL é um recurso insuperável para a introdução de questões culturais associadas aos temas lingüísticos. Ao elaborar objetivos culturais para a utilização de canções, o professor deverá preparar material informativo e de apoio à atividade. A metodologia sugerida neste trabalho pode ser adaptada a diferentes realidades e níveis, requerendo, para tanto, especial atenção ao aspecto da adequação do nível da classe, na escolha do grau de complexidade da letra.

Por último, o ensino de língua estrangeira deve ser encarado na esfera de objetivos pedagógicos mais amplos, que envolvem questões de natureza ética, ideológica, política, etc, e não apenas como o aprendizado de habilidades e competências observáveis.


NOTAS


1 – O termo, ao longo do trabalho, refere-se a cultura como uma configuração complexa de uma rede de relações sociais historicamente moldada, de obrigações, expectativas, normas e tradições.
REFERÊNCIAS
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WOJAK, Ruth. “Does Sociolinguistics need Social Theory? New Perspectives in Critical Discourse Analysis. Paper presented at the Sociolinguistic Symposium. Bristol, 2000. Disponível no site: http://www.cas.umn.edu/wp934.htm, Acessado em novembro de 2003.



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