Artista de circo



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Margarida Rebelo Pinto



Artista de Circo





© 2OO2, Margarida Rebelo Pinto

e Oficina do Livro-Sociedade Editorial, Lda.
Título: Artista de circo
Autoria: Margarida Rebelo Pinto
Revisão: Fernando Villas-Boas
Composição: Oficina do Livro,

em caracteres Aldine 401, corpo 11


Capa: João Figueiredo,

a partir de uma ilustração de Jessica von Helmolt

Fotografia: Alex Gandum / Expresso

Impressão e acabamento: Guide, Artes Gráficas, Lda. (Portugal)

1ª edição: Outubro, 2002 – 30.000 exemplares
ISBN 972-8579-90-X
Depósito Legal n.° 186932/02

Índice:

Artista de circo

A descida dos deuses

Addicted to love

Açúcar em pó

Almas gémeas

Andar ao contrário

Antes de


Aqui e agora

Balada dos monstros

Bigodes de gato lambido

Braço de ferro

Brown chocolate

Carregar pianos

Cinco contos por nada

Comédia romântica

Coração aconchegado

Conselhos e críticas

Correr devagar

Debaixo do braço

Deixa-te disso

Depois da solidão

Desculpa

Os ducheses da avó

Os comboios não sabem voar

É amanhã, meu amor

Em casa

Em playback



Encontrar a tristeza

Enterrar o coração

Esqueleto ambulante

Estar e ser

Estranha forma de vida

Estrelas à mão

A falta que faz

Fazer as malas

Férias na Cova do Vapor

Hello my love

Instantes perfeitos

O fio dos dias Irmãs

Jogar ao prego

A maior aventura

Maldito fado

Mesmo assim

Maria Lua

Mãos cheias

O mesmo caminho

Meu neto, meu amor

Mudar de vida

Não me sais da cabeça

O número mágico

Olhar o coração

Outro lugar

Palácios de lona

Na palma da mão

Poesia nocturna

Pois não, António?

Por um fio

Pukunina outra vez

Rica e fina

Só se vive uma vez

A subida do prazer

Talvez não

Tão fácil

Tirinhos e farturas

Três letras

Um avião chamado Kátia

Um caminho qualquer

Um eléctrico chamado desejo

Verde e azul

A volúpia de uma bica

Na terra dos sonhos

Ao meu filho Lourenço.

À minha Mãe e ao meu Pai.

A todos aqueles que, mesmo sem o saber, me fizeram escrever tantas histórias de amor

Yet each men kills the thing he loves, By each let this be heard, Some do it with a bitter look, Some with a f tattering word. The coward does it with a kiss, The brave man with a sword!

Some kill their love when they are young And some when they are old; Some strangle with the hands of Lust, Some with the hands of Gold: The kindest use a knife, because The dead so soon grow cold.

Some love too little, some too long, Some sell, and others buy;

Some do the deed with many tears, And some without a sigh:

For each men kills the thing he loves, Yet each man does not die.

Oscar Wilde,

The Ballad of Reading Gaol

Artista de circo

A vida são portas condenadas.

Portas que passamos, pensando que, ao as abrirmos, vamos descobrindo o mundo e arrumando o caos interno, mas afinal percebemos que à medida que os anos passam, elas se vão fechando uma a uma, nas nossas costas ou na nossa cara, batendo com uma veemência esmagadora que nos deixa de braços estendidos ao longo do corpo e a perguntar em surdina porquê.

A vida são portas condenadas, primeiro fecha-se a porta da infância, dos bolinhos de lama para o lanche das bonecas, tiram-nos as rodinhas das bicicletas e dizem-nos és capaz, tuia es capaz a partir daí a vida estreita-se num arame cada vez mais fino e ténue e é então que vamos percebendo que viver não é mais do que um precário equilíbrio, uma travessia solitária pelo arame traiçoeiro que nos há-de levar a um lado qualquer que é sempre do outro lado, onde está tudo aquilo que nos convencem que queremos ou que simplesmente escolhemos como objectivo para alcançar uma coisa qualquer a que gostamos de chamar tranquilidade.

Deve ser por isso que sempre quis ser artista de circo, a travessia diária do arame dá-me medo e vertigem, o medo paralisa-me mas a vertigem chama-me e lá vou eu, um pé à frente do outro, a vara com a razão numa ponta e o coração noutra a atravessar a vida, sempre à espera que uma corrente de ar entre um e outro lado da tenda me façam parar para pensar. Ou então, porque não sei viver sem olhar para as estrelas, procurando nas alturas sonhos que se fecharam atrás de portas condenadas, imagino que sou uma trapezista com o cabelo cor de fogo e um maillot dourado bordado a lantejoulas e que cruzo o tecto do mundo em acrobacias da mais fina elegância, lançando-me no espaço com a mesma inconsciência com que corria no fio do muro do colégio ou empilhava cadeiras e mesas todas umas por cima das outras no ginásio deserto até sentir que via o mundo de cima, pequeno e distante.

As minhas pernas são musculadas, seguram-me na barra suspensa e dão o balanço certo antes do voo, o cabelo cor de fogo ondula ao ritmo da minha vertigem enquanto me balanço lânguida para a frente e para trás, preparando o momento exacto para executar o salto perfeito sem nunca olhar para baixo, porque a vida nunca me diz se tenho ou não rede para cair. E no instante perfeito em que te vejo do outro lado das alturas a piscar-me o olho e a chamar-me gorda má com aquele meio sorriso irónico que tão bem conheço - nunca fui gorda nem soube ser má - e um braço estendido enquanto o outro se agarra à corda, fecho os olhos e salto pelo ar, atravesso o tecto da tenda, lá em baixo as avós rezam e as crianças abrem a boca de espanto, e nunca sei se me agarras no último instante possível e me convences que afinal a vida não são só portas condenadas que o tempo também serve para abrir, ou se me deixas cair devagar, como fazemos com aqueles que amamos com medo de não ter nada para lhes dar.


A descida dos deuses




“Passei ao lado do mundo e tomei a história pela vida”

Jules Michelet

Há muito tempo que é assim, o torpor da rotina vai-me tomando os membros até chegar aos ossos, já não me lembro bem como era antes de ter mudado de casa para tentar mudar de vida, só sei que foi há mais de três anos e ainda não sei se consegui ou não, mas dizem que o tempo resolve tudo, por isso fico à espera, o que é muito fácil para quem aprendeu a não esperar nada dos outros.

Tu chegavas quase sempre tarde, depois da meia-noite, aquela hora que os místicos recomendam que não se ande na rua, porque é na mudança que marca a chegada de outro dia que as almas perdidas descem à terra e se apoderam dos distraídos, dos mendigos, dos solitários e de todos aqueles que, sabendo ou não, procuram a morte.

Eu fechava os olhos para te ver melhor, observava-te dentro do meu desejo, a descer a Calçada da Estrela até cá abaixo, o teu passo certo e sincopado ganhava a velocidade da luz quando subias as escadas do meu prédio em Santos. Do outro lado da rua rapazes e raparigas trocavam mentiras e bebiam cervejas na esplanada e quando tocavas à campainha eu já não estava dentro de mim, sentia o corpo amolecido e lânguido e se calhar era por isso que nem falávamos, tu empurravas-me contra a parede e tapavas-me a boca com a tua mesmo antes de conseguir fechar a porta da rua.

Lá fora as gargalhadas nervosas das raparigas da esplanada misturavam-se com os acordes do disco do Keith Jarrett, aquele que ele gravou com as canções preferidas da mulher quando soube que estava doente, lembras-te de me teres contado esta história, não lembras?

Às vezes gostava de apagar da memória o cheiro da tua carne e o peso do teu peito em cima do meu, esquecer os teus olhos que viajavam pelo meu corpo sempre à procura de mais prazer, das tuas mãos compridas que me agarravam as ancas e o cabelo. Mas a memória do prazer é autónoma e traiçoeira, vem de tudo e do nada e o pior é que só serve para nos distrair da realidade, nos arrancar dos outros para depois nos devolver o coração mutilado pela saudade. Mas quando me lembro de ti, também guardo a lição de uma forma diferente de amor. Foi contigo que aprendi a amar sem pensar se no dia seguinte me poderias trazer o pequeno almoço à cama ou levar o Brownie à rua. Contigo o amor nunca foi um acto de funcionalidade, mas apenas um jogo de sintonia.

Chegavas tarde, depois da meia-noite, a Lua inundava a cama imensa e sempre branca, parecia meio-dia, a claridade reflectida multiplicava-se em feixes de luz nos quais os teus olhos - enormes - se fixavam, quando percorrias com as costas das mãos os lençóis esticados e me tocavas com a ponta dos dedos na cara, desenhando-me as feições com pinceladas leves que me davam arrepios e me faziam sentir outra vez pequenina. E então, para que o acto de adormecer guardasse toda a magia do momento, cantarolavas baixinho as melodias que o Keith Jarrett reinventava ao piano, I loves you Porgy, Be my Love e a minha preferida Someone to Watch Over Me, até me perder na linha que separa o mundo do sono e nos leva a outro dia.

Nunca sabia se no dia seguinte, quando a Lua se perdesse na luz da manhã, ainda estarias do lado esquerdo da cama com os olhos fechados e os braços enrolados debaixo da almofada ou já terias partido para um ponto incerto do globo. Dizias-me sempre não faço planos, nunca faço planos, deve ser por isso que foste para comissário, não ter destino certo era o melhor do teu trabalho e tornou-se a tua vida, e quando se vive assim durante alguns anos é difícil mudar o desassossego da alma.

Conheci-te num bar alternativo, eu ia com a Paula, que se tinha zangado com a namorada e me pediu que a acompanhasse para uma noite de copos e expiação de tristezas, e tu entraste com o Luís que trazia o coração ao peito do lado de fora para toda a gente ver. Sempre soube desde pequena reconhecer os sinais do desgosto nos outros, deve ter sido por ter passado dez anos a ver a minha mãe calada à espera que o meu pai voltasse de uma viagem ao Canadá. Nunca a vi chorar, mas o silêncio dói mais do que o choro e o olhar pode gritar muito mais alto do que a voz e se calhar é por isso que aprendi a não te dizer nada, nem quando partias e me votavas ao silêncio durante dias, nem quando regressavas com a naturalidade de quem esteve sempre perto, de quem só saiu para comprar pão ou passear o Brownie.

Durante as tuas ausências, o Brownie sentava-se à porta e suspirava como se tivesse bebido do ar a minha melancolia, a Paula vinha-me visitar e trazia-me chocolates e rapazes para eu conhecer. Eu comia os chocolates e enjoava-me com os rapazes, oferecia-lhes café acabado de fazer, eles convidavam-me para jantar e eu respondia talvez com a doçura velada de um não delicado para não os decepcionar. A Paula encolhia os ombros e voltava na noite seguinte, sozinha ou com a Filipa - a nova namorada - para troçar deles e rir-se comigo e às vezes de mim.

- Tens que sair mais, dizia, entre baforadas de Camel Lights e goladas minúsculas de vodka limão a vida são dois dias, é muito pouco tempo e tu perdes o tempo todo à espera do Pedro

Eu tentava explicar-lhe que o tempo nunca se perde, apenas se gasta melhor ou pior, que a solidão é o luxo sublime daqueles que sabem esperar, mas a Paula não me percebia e como todos os bons amigos aceitava a sua própria incompreensão, não como uma atitude normal perante o meu comportamento absurdo, mas como uma falha de entendimento e dizia: “não se fala mais nisso”. Depois a Filipa passava-lhe a mão pelos cabelos muito curtos e espetados e eu ficava com um bocadinho de inveja, uma inveja doce e pacífica de saber que as duas se amavam da mesma forma, acompanhando-se em tudo, trabalhando juntas na mesma livraria, repartindo contas e compras, dividindo a vida a meias dia a noite como duas siamesas.

Nunca vi um homem dividir o que fosse com uma mulher, se calhar tive azar, se o meu pai não tivesse desaparecido no rasto branco de um avião do outro lado do mar, talvez a vida me tivesse preparado de outra forma, mas quando à noite a minha mãe me lia os contos de Grimm que acabavam sempre da mesma forma, eu apertava os dedos uns contra os outros e apetecia-me rasgar o livro por me mentir tanto. E depois casaram, tiveram muitos filhos e foram felizes para sempre.

O que a vida me ensinou é que ninguém é sempre feliz, muito menos para sempre, que a vida é um fio monótono e repetitivo que nos vai levando para lugar nenhum, pontuada de momentos especiais, como naquela noite em te vi entrar no bar a amparar o Luís que foi meu colega no Liceu e que eu não via há quase dez anos. O Luís avançou com a timidez de quem já se habituou a viver com a tristeza, apresentou-te e sentámo-nos os quatro numa mesa alta à espera de trocar mentiras como a noite impõe aos profissionais do vazio.

Não sei porquê, mas foi logo naquela noite que vieste comigo para casa, sentia os teus olhos a agarrarem-me as ancas à medida que subia as escadas à tua frente e quando abri a porta e me empurraste contra a parede e me meteste a tua língua na minha boca mesmo antes de conseguir fechar a porta, percebi que me ias entrar para o sangue para sempre.

Há muitas vezes mais angústia em esperar um prazer do que em sofrer um castigo, mas quando nos habituamos a viver assim, a espera torna-se na única existência possível e torna-se mais fácil uma pessoa afeiçoar-se ao silêncio do que a outra voz. Por isso, mesmo sem saber se vinhas ou não passei a esperar-te sempre depois da meia-noite, adivinhando no calor do vento ou no tamanho da Lua os teus regressos cada vez mais frequentes e cheios de prazer. E quando o momento se aproximava e eu sentia no pulsar do sangue a descida dos deuses, sabia que nos íamos amar durante toda a noite, esquecia os dias de tristeza e de solidão, trocava-os todos por aqueles instantes únicos, eternos e irrepetíveis que marcavam cada reencontro.

Abria-te a porta e antes de a fechares nas minhas costas já sentia a tua língua dentro da minha boca à procura do meu prazer. Não precisavas de procurar muito, a mão descia em grande velocidade e tocava-me o sexo que escorria de impaciência. Empurravas-me até ao quarto e atiravas-me para cima da cama. Com movimentos sábios tiravas-me a roupa, mordias-me as mamas, a boca, a barriga. Depois a tua cara descia e procuravas-me ainda, sabendo que já me tinhas encontrado, enquanto os teus olhos se abriam de espanto e os dedos se prendiam dentro de mim. Querias dar-me sempre mais e mais prazer por isso subias o teu corpo e entravas depressa, a tua boca colava-se à minha, as mãos entrelaçavam-se e os olhos trocavam de globos oculares, via-me com os teus olhos e tu com os meus, o ritmo era certo, seguro, eficiente, perfeito. Eu deixava-me ir, levitando contigo sobre os nossos corpos, escondendo a cara transfigurada no teu peito, as mãos cravavam-se na almofada quando me viravas de costas e me agarravas as coxas sedentas, fanáticas, obcecadas de prazer. Não paravas de falar comigo, tratando-me sempre com doçura, inventando a cada vez outros nomes e outras formas de me dizeres como gostavas de amar-me assim, toda, total, completamente entregue a ti. E as tuas palavras faziam-te ir sempre mais fundo, sentia-as como uma massagem no coração, o prazer multiplicava-se até à exaustação que nunca chegava a dar-se. Depois era eu quem descia, quem te aconchegava o sexo, agarrando-o com as duas mãos, tapando-o com doçura, sem pressa, demorando-me até ao momento final em que voavas num espasmo, me enchias de ti e te esvaías no limite do limite do prazer.

Nunca fiz sexo assim com ninguém nem nunca amei nenhum outro homem como te amei a ti e se calhar é por isso que quando me telefonaste do Brasil há mais de dois anos a dizer que tinhas trocado o trabalho de comissário da TAP pela gestão de um hotel junto à praia com doze quartos todos com vista para o mar, não te pedi o telefone nem chorei a tua ausência.

Nas noites raras em que os deuses descem ao corpo dos homens para os ofertar com o prazer fugaz da eternidade, é preciso deixá-los partir. Eles voltam sempre que quiserem.

Não sei ainda bem porquê, mas acredito que a distância aproxima as pessoas quando elas têm mesmo alguma coisa para dar às outras. O Brownie ainda não apanhou esgana nem raiva nem leishmaniose, mas já se esqueceu de te esperar deitado na soleira da porta e o ar foi ficando mais leve. A Paula e a Filipa vêm jantar todas as semanas à casa nova que tem lareira e vista para o mar. Outro dia trouxeram um rapaz de olhos grandes e barba à Cristo Redentor que decidiu tocar-me o coração antes de pousar as mãos no meu corpo e quando mergulha o olhar na minha boca, sinto o sangue outra vez a correr mais depressa como se tivesse subido as escadas da casa de Santos a correr, olho para a Lua espelhada em milhões de pontos de luz no azul muito escuro do mar, ponho o disco do Keith Jarrett - aquele mesmo, com que me embalavas em tantas noites brancas - a Filipa oferece-me livros de poesia e lemos O'Neill e José Agostinho Baptista em voz alta. Ainda não fui para a cama com o André, mas a temperatura das mãos dele já me disse que vai ser mesmo bom e como a pressa nunca foi aliada da perfeição, o André enrola um charro que acende e me passa com a solenidade própria que assumem os gestos dos homens quando pensam que estão apaixonados e eu encosto-me ao peito dele e sonho que se um dia voltares, se calhar vocês ainda se tornam bons amigos, tudo por causa do Keith Jarrett que toca Some thing to Remember You By.


Addicted to love

Sabe, senhor doutor, eu acho que até nem estou doente, mas foi uma grande amiga minha que me disse para cá vir. Foi ela que me convenceu que isto que eu tenho pode ter, como ela diz, um fundo patológico. Eu acho que não, senhor doutor, mas como ninguém é dono da verdade porque a verdade nunca é só uma nem única, até pode ser que a minha amiga tenha mesmo razão e eu não ande boa da cabeça.

Para ser mais exacta, não é na cabeça que reside o mal, isto sou eu só a pensar alto, que é para isto que uma pessoa cá vem, também me explicou a minha amiga que é sua paciente e que, por decoro, não lhe posso dizer quem é.

Ando nisto desde a segunda classe, que é quando uma pessoa entra na idade da razão. Até nem comecei muito cedo, já ouvi histórias de pessoas que revelaram sintomas com três ou quatro anos, mas a verdade é que embora me tenha dado o primeiro ataque na idade da razão até hoje nunca me perguntei porquê. A vida está cheia de ironias e uma delas reside nisto mesmo; se calhar estou doente há quarenta anos e nunca me apercebi disso. Mas há sempre um dia em que uma pessoa tem que enfrentar a realidade, sob o risco de ser engolida por ela e é por isso que cá vim, para ver se me ajuda a evitar essa contingência.

Primeiro foi o Paulo, que tinha cara de sonso e os olhos muito azuis. Parece-me que tinha cabelo oleoso e morava num bairro sinistro, mas desses pormenores só me lembro agora. Na altura andava era mesmo encantada com ele. Depois foi o João Pedro, que era primo de uma amiga e também tinha olhos azuis. E depois o João Carlos, meu colega do ciclo. E depois o filho do alfaiate, e depois o Miguel, um moreno de olhos grandes que morava no prédio em frente, jogava ténis e futebol e que não me ligava nenhuma. E olhe que ainda não tinha 14 anos quando o conheci. Não, não foram meus namorados; naquela época ninguém sabia como é que isso se fazia, não havia filmes nem essas coisas, dar a mão era um acto aventuroso, emocionante, que roçava a indecência, por isso o amor era sempre platónico e um sorriso cúmplice, um bilhetinho dentro do compêndio de matemática ou café tomado às escondidas no café da esquina eram o suficiente para alimentar meses de paixão ardente e silenciosa.

Eu achava que com a idade isto me passava, casei, tive dois filhos, separei-me quando o meu marido perdeu o interesse por mim e olhe, há dez anos que continuo nisto. Agora são os colegas da empresa, o meu vizinho do sexto esquerdo que a mulher deixou com três filhos, o meu advogado que também tem uns olhos grandes e joga ténis e outro dia, veja só ao estado a que cheguei, dei por mim a fixar o olhar no rapaz que é caixa no banco.

Devo mesmo ter uma doença, sou viciada em amor. Mas é um amor platónico, impossível, que quase nunca se concretiza. A minha amiga diz que já sofreu do mesmo mal e que o senhor doutor a tem ajudado e é para isso que estou aqui, porque nunca percebi se é o coração que manda na cabeça ou vice-versa e já agora gostava de tentar resolver esta dependência que me alimenta os sonhos e me impede de viver.

Açúcar em pó

Perder tempo e gastá-lo não é a mesma coisa, costumava dizer a Matilde do alto dos seus 23 anos, que é aquela idade em que se sai da faculdade com a cabeça cheia de sonhos e de ideias feitas, é tudo ou bom ou mau, sim ou sopas, preto no branco e os cinzentos não existem. A Matilde foi minha aluna em Economia Industrial e desde a primeira aula que fez o favor de se sentar na primeira fila e cruzar e descruzar as pernas numa repetição infinita e estonteante que me fazia divagar sobre o possível efeito nefasto da cerveja que bebera ao almoço. Como é habitual nos alunos da noite, a Matilde já trabalhava - marketing telefónico, dizia ela - e tinha o ar compenetrado de quem não desperdiça o precioso dinheiro da propina em jogatanas de cartas, nem o tempo que lhe sobrava entre a casa que cuidava com o afinco de uma doméstica de profissão e os cuidados com o pai, inválido e reformado, tentando compensar todo o conforto que a mãe lhe dava antes de se ter suicidado numa praia da Ericeira quando ela tinha apenas 18 anos. A Matilde nunca quis saber o que levara a mãe a cometer tal acto de insanidade e, como quase todas as pessoas a quem o destino inflige um sofrimento violento, inesperado e inexplicável, arregaçou os braços à vida e congelou o coração, não fosse este desfazer-se como um vidro ou um simulacro feito de açúcar, que é como fazem nos filmes de acção quando precisam de atirar um figurante ou o herói por uma janela, explicou-me numa noite de copos, atirando para o ar gráficas e perfeitas circunferências que me pareceram tão vazias como ela. Mas bastou uma noite de copos para criar a intimidade suficiente que me permitiu ler-lhe a alma mesmo sem lhe tocar o coração, o qual obviamente nunca encontrei.

Não sei dizer ao certo quando é me apaixonei, se foi na noite em que me maravilhei com a perfeição dos efeitos do fumo no ar, ou numa tarde em que me convidou para lanchar em casa dela e me ofereceu bolinhos de manteiga envoltos em açúcar em pó. Há momentos mágicos que por uma qualquer razão desconhecida se gravam na memória e nos perseguem para toda a vida, como a imagem da Matilde a lamber delicadamente a cabeça dos dedos enquanto saboreava cada bolinho, numa provocação mais subtil que o cruzamento infernal das pernas na primeira fila do anfiteatro, mas igualmente sedutora.

Há muitos anos que dou aulas e por isso habituei-me a encarar os alunos como um todo, uma espécie de massa uniforme, esperando que os mais rebeldes ou inteligentes se destaquem por si e nunca, em quase dez anos de trabalho, caíra no cliché do romance professor/aluno que acaba sempre mal, nas pautas e na vida, mas a Matilde era demasiado bela para não a ver, demasiado esperta para não a ouvir, demasiado mulher para não a seduzir. Claro que agora, com o passar dos anos e as ameaças de outras Matildes que se sentam sempre na primeira fila, olho com complacência esse período conturbado e difícil da minha vida, dividido entre a ética e a vontade, o desejo e o dever, manipulado por uma rapariga que se calhar só queria saber o que era ter uma aventura com um professor, ou simplesmente a atenção de um homem mais velho.

Com ela aprendi a desconfiar das pessoas mais novas, porque percebi que, embora vivam com a mesma intensidade que nós, não dão aos actos o mesmo peso e aprendi-o da pior forma, quando de um dia para o outro fui trocado por um aluno do primeiro ano por quem, ao que parece, ela perdeu mesmo a cabeça e, quem sabe, talvez até tenha encontrado o coração.

Não, a Matilde não era boa aluna e merecia ter chumbado, mas a ideia de a ter mais um ano lectivo à minha frente a descruzar as pernas com a languidez de quem lambe a cabeça dos dedos era de mais para mim. Por isso dei-lhe um treze desejando-lhe assim toda a sorte do mundo e guardei o melhor dela, as suas máximas emblemáticas e os dedos cobertos de açúcar em pó, como são todas as memórias daqueles que já amámos.


Almas gémeas

Por causa da mania das almas gémeas é que ainda estou apaixonado por ti, Maria Cecília, depois de tantos anos de silêncio e separação, de espera e de abnegação e, te confesso, de uma tristeza que aos poucos foi sendo substituída por uma doce e serena melancolia à qual me habituei como uma segunda pele e sem a qual agora já seria um homem infeliz.

A vida tem destas coisas, está sempre a indicar-nos vários caminhos ao mesmo tempo e às tantas uma pessoa confunde-se, hesita, volta atrás, troca o tempo e o passo e quando dá por isso, zut, a oportunidade passou-nos ao lado e não vale a pena correr atrás dela, porque a vida vai sempre muito mais à frente do que nós pensamos, cada dia é uma nova dimensão que nos parece sempre a mesma e o tempo voa muito mais depressa que o nosso coração, por isso nem o vemos passar e quando reparamos nos cabelos brancos e começamos a afastar dos olhos as listas dos restaurantes para escolher entre o bacalhau e o lombo assado é que nos apercebemos do todo o tempo que já passou. Mas isso é só para nós, por que aqueles que amamos estão sempre na mesma e como vivemos dentro deles e mergulhamos pelos olhos, são só os olhos que vemos, passem meses, anos ou décadas. Deve ser por isso que quando me cruzei outra vez contigo na subida da Garrett, te vi com vinte e tal anos, antes de partires para Paris, antes de te casares com o meu primo Álvaro que tinha bom porte, melhores modos e uma ambição desmedida que o levaria ao topo da carreira. E foi assim que te perdi, por incompetência ou timidez, eu que era o primo doido, o pintor surrealista que se distraía horas a desenhar ratos e rãs com chapéus de palha, que lia o Buñuel e praguejava contra o regime e que por isso mesmo nunca arranjei nenhum tacho, muito menos uma carreira como o Alvaro, o menino bonito, formado em Direito com 17, que era o orgulho da família. Quando te conheci, namoravas com ele há um ano e gostavas muito de conversar comigo nos jantares de família. Eu tinha a sensação que o Álvaro nunca falava contigo nem de livros nem de música, nem de nada que te aquecesse o coração, mas era só uma impressão, afinal parecias feliz, convencida do teu papel de futura embaixatriz, sempre muito bem penteada, com uma bandelette que te deixava a testa e os olhos desenhados com grande nitidez e eu queria sempre mergulhar neles para te ouvir melhor, porque já sabia, embora nem quisesse pensar nisso, que te amava e que fazias parte de mim.

A vida é um eterno regresso a casa, vai dando voltas e voltas até nos pôr à frente aquilo que mais amamos ou tememos - e que é afinal tantas vezes a mesma coisa - e foi assim que te voltei a encontrar, já sem bandelette, mas com a mesma testa e os mesmos olhos e vê lá tu que me apeteceu logo mergulhar outra vez, porque como tudo se repete, também o amor sofre deste triste infortúnio, vai e vem muitas vezes no mesmo olhar e nunca morre, mesmo quando o tempo passa e nos traz outras vidas.

O Álvaro morreu há três anos, viveste no mundo inteiro, tens três filhos criados e uma casa na Lapa, contaste-me tudo na esplanada da Brasileira com o poeta esquizofrénico a beber as tuas palavras mesmo ali ao lado e pareceste-me mais velha, mais magra mas sempre bonita e foi como regressar outra vez a casa, depois de tantos anos de uma solidão povoada que nunca mais consegui matar.

Devia ter-te declarado o meu amor quando ainda usavas bandelette e ignorar a sombra do Álvaro, devia ter desafiado o destino e acreditado que te poderias apaixonar por um pintor pobre e trapalhão, mas tive medo, Maria Cecília, e não segui o caminho certo, havia demasiadas setas. Agora estás viúva, eu estou separado e o que me prende à vida está nas telas e nos livros dos outros, mas talvez ainda não seja tarde, Maria Cecília, talvez ainda vá a tempo de encontrar o caminho que me leve a ti e descubra finalmente se és ou não afinal a minha alma gémea.


Andar ao contrário

E às vezes, sem saberes porquê, tudo se desfaz por entre os dedos e assistes atónita e impotente à perda irrecuperável do teu amor: ele desfaz-se em gritos, insultos e estalos, tudo se perde no ar que fica pesado como chumbo e, mergulhada na prostração do absurdo, percebes que está tudo perdido, que as palavras e os gestos te atraiçoaram para sempre, que preferes morrer a enfrentar a realidade por ti criada, alimentada pelos teus medos e dúvidas, percebes que te fodeste para sempre, que nunca mais poderás recuperar tudo o que construíste, os sonhos estatelaram-se como copos que atiraste à parede e se desfizeram em mil cacos e de repente vês a tua vida em infinitos fragmentos de vidro iguais a nada, piores que nada, porque o nada é branco e tem um princípio e um sentido mas desaparece quando percebes o que te aconteceu e os vidros ficam ali no chão, à espera de te apanharem num movimento menos prudente e então vais buscar uma vassoura daquelas pequenas que parecem de brincar e uma pá a condizer e tentas apanhar os fragmentos infinitos e varres com cuidado mas totalmente absorta da actividade que executas como um autómato contrariado que de repente toma consciência de que o puseram a executar uma tarefa abaixo da sua expertie, mas mesmo assim varres tudo, sabendo que atrás da porta, ou junto ao rodapé, ou estranhamente projectado a mais de três metros, há um que te vai cortar mesmo o pé e, por mais que não queiras, por mais que fujas, vais mesmo sofrer.

Ou então, depois da batida da porta que te ecoa no cérebro como uma bomba-relógio com a contagem ao contrário, vais mesmo ao armário e retiras de lá todos os copos, um a um atira-los contra a parede, o movimento do teu braço é como o de um atleta das olimpíadas a lançar o dardo, apetece-te furar o mundo em mil e um buracos, o efeito a plástico do vidro é admiravelmente acompanhado por um ruído estridente, um estertor de uma morte que não consegues realizar, a banda sonora perfeita para a tua alma, ou aquela merda que carregas no peito e que te alimenta ao mesmo tempo que te mata, toda partida, rebentada, desfeita e mil pedaços de memórias que não queres esquecer mas não podes lembrar e é então, quando o chão de madeira parece um tapete de faquir em fase embrionária que percebes que não és nenhum atleta, que não podes voltar atrás, rebobinar o filme e evitar a conversa, os insultos, os gritos, os gestos desmedidos e absurdos, os maus tratos de quem ama de mais e não sabe viver de outra maneira e é então que te perguntas porquê.

E os dias passam, comendo a luz que te dói nos olhos e na alma e vêm as noites, e o tempo continua a perseguir-te com o vazio de um dia igual ao outro e ao outro e outro e tu só queres desistir, dormir, perder o juízo e a lucidez e voltar ao momento exactamente anterior à dor, ao vazio e à tristeza, mas é sempre tarde, é sempre demasiado tarde para voltar atrás.

Só o mundo é que anda ao contrário dos ponteiros do relógio.

Antes de

A última vez que me deu para arear pratas foi na noite em que a minha avó Henriqueta morreu. Para poupar a tristeza nunca consegui até hoje fixar a data, sei apenas que foi em Outubro, num daqueles Outonos quentes e dourados que nos fazem pensar que o Inverno nunca há-de chegar. Lembro-me que estava sol tal como durante todo o Verão durante o qual ela caiu e partiu a bacia num golpe de pouca sorte e foi imediatamente internada. Depois, seguiram-se incontáveis doenças infecciosas às quais a minha avó Henriqueta resistiu estoicamente e, durante dois meses, num fio lúcido de vida que me deixava ver o seu sorriso imaculado e os seus belíssimos olhos azuis, nos foi alimentando esperanças de vida que sabíamos falsas. No dia em que morreu, aceitei a notícia com a racionalidade própria destas situações: tinha caído, já tinha mais de 8O anos, seria muito difícil que recuperasse com o vigor dos corpos jovens. E a minha avó Henriqueta não era diferente das outras pessoas.

O dia arrastou-se de forma ordenada até à noite em que, sozinha em casa depois de ter adormecido o meu filho, me deu para arear as poucas pratas que tenho, numa fúria dorida e autista, convencida que o esforço de aplicação em brios e reflexos me aliviaria do vazio que ela me deixava.

Não trato por tu a morte, sou daquelas pessoas a quem nunca morreu ninguém que vivesse ao meu lado e é por essas e por outras que me acho das com mais sorte na vida. De modo que a morte da minha avó não me apanhou de surpresa, intuí-a no dia em que soube que tinha caído e a morte é muitas vezes piedosa quando traz como arauto a doença ou o acidente, para que nos habituemos a ela.

Mas a avó Henriqueta era dos quatro avós a única de quem eu gostava. Era linda, com um porte de rainha, de uma simpatia esfuziante, coquette e vaidosa, cabelo loiro e a cor de azul nos olhos que o meu filho num reverso de ironia genética guardou. Tinha o chic típico das senhoras da sua geração, do qual a minha mãe e a minha tia guardaram alguns traços, adaptados à nossa época. Usava um casaco de vison comprido, pérolas e pulseiras de ouro, guarda-chuvas com cabeça de osso em forma de pato, levava os netos de férias para um hotel de cinco estrelas no Algarve, dava-me dinheiro nos anos e no Natal, comprava-me colares e roupa, levava-me ao cinema ao fim de semana e encharcava-me de bolos com creme a seguir. Claro que nunca foi minha confidente nem fazia a mínima ideia do que me passava pela cabeça, mas mesmo assim, ou talvez por isso, era uma óptima companhia, ao contrário do meu avô que sempre me olhou com uma desconfiança mesquinha e judia, abanando a cabeça como quem diz “Esta pequena é diferente dos outros”.

Talvez ele tivesse razões para me achar diferente e para desconfiar que a minha vida não seguiria nenhuma rota traçada por qualquer outra pessoa que não eu, mas a diferença é que a minha avó não me julgava. Preferia trocar comigo informações úteis sobre champôs, cremes de pele e outras pequenas insignificâncias que enchiam os seus dias ociosos e felizes.

Depois da sua morte todos sobrevivemos, incluindo o meu avô, que se manteve por um fio improvável de vida e que já estava doente quando ela caiu, e na casa onde viviam as fotografias dela ainda falam connosco quando íamos lá visitá-lo. Mas eu prefiro mergulhar o olhar no azul profundo da minha janela ou nos olhos do meu filho e encontrá-la outra vez lá, bonita e divertida, de vison e guarda-chuva com cabo de osso, a encher-me de bolos com creme a seguir a uma sessão no S. Jorge, onde, tal como ela, as heroínas eram sempre boas, novas e bonitas e, tal como ela, nunca se esqueciam de pôr bâton, calçar umas luvas e arranjar o cabelo antes de sair de casa, antes de partir a bacia, antes de acontecer aquele momento que é tocado pela irreversibilidade e que serve para nos lembrar que tudo pode mudar num golpe.



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