As agroindústrias de derivados da cana-de-açÚcar em santo antônio da patrulha-rs



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AS AGROINDÚSTRIAS DE DERIVADOS DA CANA-DE-AÇÚCAR EM SANTO ANTÔNIO DA PATRULHA-RS
Elvis Albert Robe Wandscheer1

Lillian Bastian2


RESUMO

O presente trabalho visa abordar as agroindústrias de derivados de cana-de-açúcar no município de Santo Antônio da Patrulha/RS e suas distinções no âmbito do espaço local. A metodologia utilizada na coleta de dados baseia-se na combinação dos métodos quali-quantitativos, por meio de entrevistas não estruturadas e questionários. O delineamento da análise da pesquisa caracteriza-se como analítico-descritivo, tendo as estratégias de pesquisa atuações complementares ao longo do mesmo. Os resultados apontam uma série de fatores favoráveis às agroindústrias que trabalham com derivados da cana-de-açúcar, no contexto da realidade do município em questão. Estes fatores consistem na proximidade geográfica a mercados e economias mais pujantes, no caso a região metropolitana de Porto Alegre; o dinamismo tecnológico das agroindústrias de maior porte que são capazes de investir em avanços tecnológicos e as vantagens competitivas apresentadas em função do acúmulo de experiências em seus arranjos produtivos locais; além das possibilidades visualizadas para as pequenas agroindústrias em virtude das redes de relações locais que atualmente se apresentam como mercados, onde as relações que se processam através de redes potencializam relações comerciais entre indivíduos. Observa-se que existem dicotomias entre os distintos grupos de agroindústrias, sendo um grupo voltado à ampliação de ganhos e produtividade através da redução de custos com ganhos de escala de produção e outro composto por produtores de menor porte que concentram as suas estratégias em produtos com processos produtivos tradicionais e redes de relações que representam um diferencial aos seus produtos.


Palavras-chave: Agroindústrias – Derivados da cana-de-açúcar – Santo Antônio da Patrulha
INTRODUÇÃO
O município de Santo Antônio da Patrulha é um dos quatro primeiros municípios do Rio Grande do Sul, e está localizado na Região Metropolitana do Estado. Pertencente ao Corede Delta do Jacuí, que compreende na sua maioria municípios da região metropolitana de Porto Alegre, cuja população é de cerca de 03 (três) milhões de pessoas. Possui uma população de 37. 910 habitantes sendo 41,1% na zona rural e 58,9% na zona urbana. Em sua organização está subdividido em seis distritos em uma área territorial de 1.049 km², estando sua sede a 57 metros do nível do mar.

Limita-se ao norte com Rolante, Riozinho, ao Sul com Viamão e Capivari, a Leste com Osório e Caraá. No oeste com Taquara, Glorinha e Gravataí. Distante 76 km de Porto Alegre via BR290 e RS 030 e pela RS 474 ligação com a serra gaúcha.

As características físicas do município de Santo Antônio da Patrulha são potenciais consideráveis para o cultivo da cana de açúcar, cultura esta trazida pelos povoadores do município. Inicialmente utilizava-se para beneficiar a cana, os “engenhos de açúcar”, instrumentos que pertenciam a portugueses, que chegaram no local por volta de 1770.

As primeiras moendas dos engenhos contavam com o trabalho escravo e a força das “juntas” de bois. Mais tarde, a força animal foi substituída pelo “diesel” e energia elétrica. A fama dos produtos derivados da cana de açúcar de Santo Antônio da Patrulha extrapola os limites do território gaúcho, a exemplo destaca-se que no censo do ano de 1970, quando alambiques e engenhos foram considerados empresas, por terem produtos industrializados, Santo Antônio da Patrulha foi classificado entre os municípios com maior número de indústrias do Estado.

Inicialmente a produção estava voltada à cachaça, porém ao longo dos anos outros produtos derivados foram surgindo: o melado, a rapadura, entre outros. E a diversificação na própria produção do produto foi feita, exemplo dessa realidade podem ser citados os diferentes tipos de rapadura, onde alteram-se as formas de preparo: “puxa”, “massenta”, quebra-queixo, pé de moleque, puxa-puxa e pura, dentre . O caldo de cana sempre foi apreciado, puro ou com misturas de limão e outros frutas, como jabuticaba e amora.

Contudo, cabe salientar a atual situação de queda na produção e por conseguinte, uma série de problemáticas no âmbito da produção rural e da oferta de matéria prima por parte das empresas, potencializando a queda do envolvimento da população rural com as atividades agrícolas e/ou ainda pior, ampliando o êxodo rural local e aumentando o desemprego urbano, sobretudo no município de Santo Antônio a Patrulha.

Neste sentido, o presente trabalho visa abordar as agroindústrias de derivados de cana-de-açúcar no município de Santo Antônio da Patrulha e suas distinções no âmbito do espaço local. Cabe salientar que o mesmo se encontra em andamento, havendo portanto, novas informações e pesquisas que se somarão aos resultados parciais até o presente momento encontrados e que são apresentados ao longo deste trabalho.
COLETA E ANALISE DE DADOS
A metodologia utilizada na coleta de dados baseia-se na combinação dos métodos quali-quantitativos, por meio de entrevistas não estruturadas e questionários. A etapa quantitativa foi efetuada (até o presente momento) apenas na a comunidade do Morro Agudo, porém não utilizou amostragem na coleta e seus dados, uma vez que toda a comunidade de Morro Agudo foi abordada através de questionários em suas cerca de 90 residências. A comunidade de Morro Agudo está situada no terceiro distrito do Município de Santo Antonio da Patrulha, mais precisamente a 16 km da sede municipal.

Em relação aos empreendimentos, foram visitados 18 empreendimentos agroindustriais, desde pequenos comerciantes a grandes agroindústrias com grande potencial produtivo, onde utilizaram-se instrumentos quali-quantitativos.

Foi efetuado ainda entrevistas junto ao poder público e EMATER/ASCAR, onde utilizou-se a amostra intencional. Tal escolha do entrevistado foi efetuada em função das orientações do próprio poder público e instituição de extensão rural na composição do seu quadro, visando assim obter informações do indivíduo considerado mais indicado a responder questões sobre a temática enfocada.

O instrumento qualitativo da entrevista semi-estruturada foi formulado com o intuito de abranger elementos que se fizeram necessários diante da situação, ou seja:


[...] não deseja impor sua visão da realidade, ou pressupõe que não conhece bem a população que será entrevistada, ele precisa de uma estratégia diferente, mais flexível que não apresente a rigidez de formulação da entrevista estruturada ou do questionário [...] visa obter do entrevistado o que ele considera os aspectos mais relevantes de determinado problema: as suas descrições de uma situação em estudo. Por meio de uma conversação guiada, pretende-se obter informações detalhadas que possam ser utilizadas em uma análise qualitativa. A entrevista não estruturada procura saber que, como e por que algo ocorre, em lugar de determinar a frequência de certas ocorrências [...] (RICHARDSON, 1999, p. 208).
Os questionários3, por sua vez, constituíram-se como ferramenta quantitativa da pesquisa, tendo na padronização possibilitada pelos mesmos, juntamente com a maior facilidade oferecida pela cobertura da área estabelecida (fator que possibilitou a coleta de um número maior de dados coletados no período de tempo estabelecido).

Pode-se afirmar que na presente pesquisa, “[...] os questionários cumprem, pelo menos, duas funções: descrever as características e medir determinadas variáveis de um grupo social. A informação obtida por meio de questionário permite observar as características de um indivíduo ou grupo [...] (RICHARDSON, 1999, p. 189)”.

Com a aplicação desses questionários, foram alcançados os objetivos almejados e anteriormente mencionados, possibilitando mensuração e frequência de variáveis presentes na comunidade de Santo Antônio da Patrulha/RS, possibilitando uma “leitura” das distintas realidades locais.

O delineamento da análise da pesquisa caracteriza-se como analítico-descritivo, tendo as estratégias de pesquisa atuações complementares ao longo do mesmo.

O estudo descritivo contemplou: “[...] objetivos mais precisos e explícitos em relação aos fatos observados. Descreve mais claramente as características de uma situação ou de um grupo de indivíduos [...] (ALMEIDA, 1989, p. 71)”. Ou ainda, conforme Cervo & Bervian (2002, p. 66): “busca conhecer e descrever as diversas relações que ocorrem na vida política, social, econômica que ocorrem tanto com um indivíduo, tomado separadamente ou com grupos ou comunidades mais complexas”.

O estudo analítico, por sua vez, procurou estabelecer e analisar relações entre as variáveis, uma vez que estes estudos são baseados sobre fatos e têm como ponto de partida as relações, para explicar determinados fenômenos em particular (ALMEIDA, 1989).

Por meio desses estudos buscou-se abranger a etapa posterior e final do trabalho, pois:
Terminando o trabalho de campo, o pesquisador tem a sua disposição um grande volume de dados colhidos através do emprego de várias técnicas. Inicia-se, então, o trabalho de análise e, para fins de análise, os dados precisam ser organizados de maneira coerente e ordenada [...] A interpretação desses dados deverá ser feita levando-se em consideração os objetivos e as hipóteses formuladas no início do trabalho. Este conjunto de etapas de uma investigação científica é conhecido como processamento de dados, que inclui, portanto, a organização, a codificação, a tabulação e a interpretação dos dados (ALMEIDA, 1989, p. 159).
A primeira etapa da análise consistiu na tabulação dos dados e informações coletadas, a partir da transcrição das entrevistas, fazendo-se uso da análise de conteúdo. “As diversas definições coincidem em que a análise de conteúdo é uma técnica de pesquisa e, como tal, tem determinadas características metodológicas: objetividade, sistematização e inferência (RICHARDSON, 1999, p. 223)”.

Foram criadas sete categorias de análise, buscando-se estruturá-las de forma integrada (comunidade, poder público, instituição de extensão rural e iniciativa privada). Os questionários, por sua vez, cumpriram a etapa quantitativa do presente estudo, através dos quais os mesmos apresentam os quesitos de perguntas fechadas, ou seja: “[...] instrumentos em que as perguntas ou afirmações apresentam categorias ou alternativas de respostas fixas e preestabelecidas. O entrevistado deve responder à alternativa que mais se ajusta às suas características, idéias ou sentimentos (RICHARDSON, 1999, p. 191)”.

Nesta etapa do trabalho, com o intuito de tabular e interpretar os dados coletados nos questionários utilizou-se o software SPSS 12 que auxiliou na tarefa de organizar, sistematizar e correlacionar as variáveis, de acordo com as categorias pré-estabelecidas no questionário. A tabulação dos dados permitiu a elaboração de gráficos e tabelas que se encontram apresentados no corpo do texto e/ou que auxiliaram na descrição da realidade aqui trabalhada e alvo de análise e reflexões ao longo do mesmo.

REVISÃO DE LITERATURA
As mudanças pelas quais a economia mundial passou, a partir do marco da primeira revolução industrial no final do século XVIII, situação esta acelerada nos séculos XIX e XX, forjou uma cenário intensamente transformado pela industrialização, que modificou a dinâmica das relações sociais e econômicas. Este processo manteve a “crença generalizada” na economia de mercado, apostando que o mercado por si só poderia seria capaz de se auto-regular.

A transformação implica uma mudança na motivação da ação por parte dos membros da sociedade: a motivação do lucro passa a substituir a motivação da subsistência. Todas as transações se transformam em transações monetárias e estas, por sua vez, exigem que seja introduzido um meio de intercâmbio em cada articulação da vida industrial. Todas as rendas devem derivar da venda de alguma coisa e, qualquer que seja a verdadeira fonte de renda de uma pessoa, ela deve ser vista como resultante de uma venda. É isso que significa o simples termo ‘sistema de mercado’ pelo qual designamos o padrão institucional descrito. Mas a peculiaridade mais surpreendente do sistema repousa no fato de que, uma vez estabelecido, tem que lhe permitir funcionar sem qualquer interferência externa. Os lucros não são mais garantidos e o mercador tem que auferir seus lucros no mercado. Os preços devem ter a liberdade de se auto-regularem (POLANYI, 1980, p. 60).


Além desse processo histórico que contextualiza o cenário econômico mundial, cabe destacar outros aspectos a serem considerados na esfera econômica, pois a economia é também determinada pelas relações sociais que existem entre os diferentes agentes em determinadas redes, dentre as quais pode-se determinar os tipos de relações entre as pessoas conforme os seus diferentes laços. Segundo Granovetter (1974) os laços a que diferentes pessoas podem estar vinculadas dependem da proximidade das suas relações. O autor define como laços fortes aqueles em que as pessoas se relacionam vinculadas por algum tipo parentesco (pai e filho, por exemplo) ou entre amigos muito próximos. Já os laços fracos são definidos como os contatos que uma pessoa pode ter com conhecidos ou colegas de trabalho, por exemplo.

Dessa forma, no intuito de contemplar as diversidades existentes nas agroindústrias de Santo Antônio da Patrulha/RS e suas distinções no âmbito do espaço local, procurou-se efetuar dois enfoques distintos: um viés voltado à perspectiva da Nova Sociologia Econômica e outra que visa a abordagem das agroindústrias de maior porte no espaço local, utilizando-se para tanto uma abordagem da Economia Industrial.

Na primeira situação, ou seja, na abordagem da Nova Sociologia Econômica, a abordagem analisa a ação econômica sob o ponto de vista da imersão em uma rede de relações sociais. Neste contexto, a atividade econômica enraizada na estrutura social considera a história das relações sociais e a posição que ocupam perante outras relações (GRANOVETTER, 1985).

No segundo caso, procurou-se estabelecer relações com a abordagem da Economia Industrial. Este enfoque se dá com o objetivo de contemplar as estratégias de mercado das grandes agroindústrias locais, que a exemplo de outras grandes agroindústrias visam:


...alcançar maiores níveis de competitividade, foralecem-se as formas de flexibilização da força de trabalho constatadas nos diversos estudos realizados nas indústrias que se destacam pelo nível de evolução tecnológica. Os resultados apontam uma heterogeneidade de práticas de produção, que se iniciam pela incorporação de um novo padrão tecnológico e se refletem sobre a parte institucional e laboral de organização (PICCININI; OLIVEIRA; FONTOURA, 2006, p, 358).
Através destes dois enfoques, pode-se traçar um paralelo no âmbito municipal no que tange a especificidades e estratégias das agroindústrias de derivados da cana-de açúcar e, por conseguinte como as mesmas perfazem as estratégias de desenvolvimento econômico local existentes no município de Santo Antônio da Patrulha/RS.
A Nova Sociologia Econômica
A sociologia econômica remete seu aparecimento enquanto uma nova vertente para o estudo da economia com consideração de aspectos sociais na virada do século XIX para o século XX. Os principais autores que se situam no início da sociologia econômica são Durkheim, Pareto e Weber. Durante a década de 1930 a sociologia econômica começou progressivamente a se esvair. Em período que se seguiu há esta década os direcionamentos da economia indicavam estudos baseados em ações racionais e os seguimentos das pesquisas nas ciências sociais remetiam a atitudes não compreendidas racionalmente. Estas atitudes estudadas pela sociologia principalmente denotam a constatação de que nem todas as ações humanas podem ser compreendidas a partir da consideração estritamente racional (STEINER, 2006).

Recentemente após a década de 1970 a sociologia econômica teve o seu retorno marcado com os trabalhos de Mark Granovetter principalmente. Este autor reinventou o uso do termo embeddedness (imersão) cunhado primeiramente por Karl Paul Polanyi no livro A grande Transformação publicado em 1944 e o emprego da análise de redes, agenda que vem sendo trabalhada por Granovetter desde suas publicações em sociologia econômica.

Mais recentemente os trabalhos uma série de pesquisadores tem se interessado pelo tema da sociologia econômica. Conforme Steiner (2006), a sociologia econômica se debruça sobre o terreno predileto dos economistas, qual seja, os mercados. Segundo economistas contemporâneos os mercados se caracterizariam por uma curva de oferta e uma curva de demanda que determina os preços dos produtos. Os agentes que participam da curva de oferta e de demanda são considerados como munidos de informações suficientes para realizar as melhores trocas mercantis e consequentemente determinam os preços dos diferentes produtos. Esta caracterização do mercado pelos economistas é abstrata no sentido que considera os agentes motivados a agir somente por racionalidades. Segundo a teoria econômica, a sociedade se encontra concentrada em duas hipóteses: os indivíduos conhecem as qualidades e quantidades dos bens disponíveis e são conhecedores do cenário futuro do mundo. Nessa vertente as relações sociais que as pessoas podem ter são consideradas desnecessárias e sem importância para o cenário econômico. Estas relações seriam insignificantes no momento de um indivíduo decidir pela melhor maneira conforme seus interesses e preços de produtos.

Diferente das noções mais econômicas trazidas acima, a perspectiva da sociologia econômica que emergiu na década de 1970 analisa as trocas mercantis a partir de uma abordagem que considera a perspectiva sociológica e economicista, conjuntamente. Apesar da abordagem economicista já analisar os fenômenos mercantis, a sociologia econômica os analisa a partir da consideração de demais esferas determinantes do comportamento econômico, diferenciando-se principalmente pela metodologia e pela abordagem (STEINER, 2006).

A sociologia econômica contribui para que as trocas mercantis possam ser compreendidas nos termos de uma definição por uma posição entre ambas as partes dispostas a negociar para que se estabeleça o que é pertinente e o que pode ser desconsiderado nestas trocas. Os mercados se caracterizam por um ponto de encontro em que as interações dos indivíduos estão no centro de suas iniciativas. De outro modo, contribui para que as transações de mercados possam ser compreendidas através de proposições teóricas, para além de uma descrição diferente dos fatos econômicos (STEINER, 2006).

Neste sentido, a sociologia econômica trata o social como parte importante a ser considerada no momento em que se pesquisam as ações econômicas. Para Granovetter (1985) os atores da ação econômica estão imbricados em uma teia de interações sociais. Deste modo


...não se comportam nem tomam decisões como átomos fora de um contexto social, e nem adotam de forma servil um roteiro escrito para eles pela intersecção específica de categorias sociais que eles porventura ocupem. Em vez disso, suas tentativas de realizar ações com propósito estão imersas em sistemas concretos e contínuos de relações sociais (GRANOVETTER, 1985, p. 9).

O que o autor tenta demonstrar é que estes atores sociais não se encontram nem totalmente fora de seu contexto social no momento em que executam uma ação econômica, nem estão presos de tal maneira aos ditames da sociedade que tenham suas atitudes na ação econômica pré-determinadas. Sendo assim, desconsidera a visão subsocializada onde a estrutura social e as relações sociais não têm nenhuma influência na decisão econômica dos atores, e a visão supersocializada que considera as pessoas extremamente sensíveis as opiniões de outras pessoas, bem como julga obediência a diretrizes construídas consensualmente e que estão de tal forma interiorizadas como normas e costumes que as próprias pessoas não as percebem como um peso. Para o autor a imersão do social na ação econômica está situada entre a abordagem sub e supersocializada.

Deste modo, as trocas mercantis estão imersas em relações pessoais. Estas relações pessoais determinam a confiança de um agente econômico em realizar trocas com outro agente econômico. Isto porque, no momento de optar pela troca o agente avalia quais as informações que tem e a partir disto opta por realizar ou não a ação econômica. Estas informações podem ser originárias de experiências de troca anteriores com outros agentes ou com este próprio agente com o qual planeja negociar, ou ainda ser fundamentada nas percepções e conhecimento de outros agentes.

Em casos de relações de confiança em que pode ocorrer o interesse em trair a confiança de agentes, segundo Granovetter (1985) os agentes econômicos podem sentir-se desmotivados a trair esta confiança em determinadas situações. Esta situação pode ser percebida nos casos em que é identificada pelo agente com interesse na traição a necessidade de trocas futuras. Se um determinado agente necessita que demais transações possam ser realizadas futuramente com o agente no qual está realizando a troca, provavelmente vai optar por não quebrar os acordos estabelecidos. De outro lado, um agente aderido a um determinado grupo de negociantes com os quais já tem confiança em negociar, pensará melhor em trair seus companheiros, pois isso poderá implicar na impossibilidade de realização de trocas futuras. Além de ser identificado pelas pessoas sabedoras do caso como não confiável para os negócios, podendo incorrer em dificuldades para encontrar novos agentes com os quais possa negociar.

Apesar de Granovetter (1985) reconhecer que a confiança nas trocas econômicas não seja suficiente para que não ocorra a má-fé, sua perspectiva segue no sentido de que o problema da imersão para a questão da confiança e de uma ordem no sistema econômico esta fundamentado em padrões concretos de relações sociais. Neste sentido uma transação econômica terá suas qualidades determinadas pelas particularidades do contexto social em que se insere.

A abordagem da imersão enfatiza que a relação social entre os agentes está ancorada em uma rede. As redes permitem dar um incentivo à idéia da inserção social do comportamento econômico. Quando se considera que os agentes econômicos não estão livres das relações sociais e que é necessário estabelecer um ambiente de entendimento para as trocas entre ambos o conceito de redes passa a descrever e formalizar as ações entre os indivíduos (STEINER, 2006).

Segundo Wasserman e Faust (1994 apud STEINER, 2006), uma rede se caracteriza por ser um grupo de atores ligados por uma relação social. Os vínculos podem ser diretos ou indiretos. Deste modo, uma pessoa pode estar vinculada a diferentes redes. As interações que uma rede pressupõe podem estar ligadas a transações ligadas em um mercado ou de grupos de estudantes, por exemplo.

Além de a economia ser determinada pelas relações sociais que existem entre os diferentes agentes em determinada rede, pode-se determinar os tipos de relações entre as pessoas conforme os diferentes laços. Segundo Granovetter (1974) os laços a que diferentes pessoas podem estar vinculadas dependem da proximidade das suas relações. Portanto, fica expressa a definição das manifestações de laços fortes através de relações interpessoais de laços próximos, tais como parentescos ou relações que configurem uma aproximação muito particular, ao passo que os laços fracos ainda que também expresso por relações sociais, configuram contatos (ainda que também relevantes) menos intensos e não raro, menos duradouros.

Segundo o autor, as pessoas que tem laços fracos com um contingente de pessoas que circula por diferentes redes podem dispor de melhores oportunidades de trabalho e emprego, por exemplo. Estas pessoas que tem mais circularidade são conhecedoras de informações dos variados “ambientes” e podem garantir as pessoas que fazem parte dos seus relacionamentos dados sobre novas oportunidades. De outro modo, estas pessoas também podem garantir uma aproximação entre dois diferentes “ambientes”. Sendo que as motivações para utilizar estes tipos de informações consistiriam em:

A preferência dominante em fazer transações com indivíduos de reputação conhecida implica que poucos estão realmente dispostos a confiar na moralidade generalizada ou nos dispositivos institucionais para evitar problemas. Os economistas notaram que um incentivo para não enganar o outro é o custo dos danos infligidos à reputação pessoal; mas essa concepção da reputação como uma commodity generalizada, um cálculo entre as vantagens e as oportunidades de enganar, representa uma concepção subsocializada. Na prática, recorremos a essas informações generalizadas quando nada melhor está disponível, mas normalmente buscamos melhores informações. Melhor que a afirmação de que alguém é conhecido pela sua honestidade é a informação de um informante confiável que já lidou com esse indivíduo e o considerou honesto. Ainda melhor é a informação das próprias transações que foram feitas com essa pessoa no passado. Esta última informação é melhor por quatro razões: (1) é barata; (2) uma pessoa confia mais na informação que colheu pessoalmente – ela é mais rica, mais detalhada, e sabe-se que é precisa; (3) os indivíduos com os quais se tem uma relação duradoura têm uma motivação econômica para ser dignos de confiança, para não desencorajar transações futuras; e (4) diferentemente de motivos puramente econômicos, as relações econômicas contínuas tendem a revestirse de conteúdo social carregado de grandes expectativas de confiança e abstenção de oportunismo (GRANOVETTER, 2007, p. 12).


Porém, cabe salientar que, apesar de as relações sociais apresentarem em muitas oportunidades condições eficazes para a confiança e o comportamento honesto, elas não constituem garantia suficiente e podem até possibilitar a ocasião e fornecer recursos para a ação de má-fé. Há motivações para essa realidade: A confiança forjada pelas relações pessoais apresenta, por sua própria existência, uma oportunidade maior para a má-fé; e o fato de que a estrutura desses grupos requer um nível de confiança interna obedece a lógicas preexistentes de relacionamento (GRANOVETTER, 2007). Assim, em valoração as relações pessoais, Granovetter (2007, p. 14) afirma que:
Assim, as relações pessoais podem originar tanto grande confiança quanto grande má-fé. Yoram Ben-Porath, no estilo funcionalista da nova economia institucional, enfatiza o lado positivo, observando que “a continuidade dos relacionamentos pode gerar comportamentos da parte de indivíduos perspicazes, individualistas e até inescrupulosos, que de outra forma poderiam ser interpretados como idiotas ou puramente altruístas. Diamantes preciosos passam de uma pessoa a outra no comércio de diamantes em acordos selados por um aperto de mãos” (1980, p. 6).
Dessa forma, cabe salientar que cada lugar apresenta um determinado arranjo, de forma que as instituições na qual os atores se espelham e atuam no âmbito da sociedade impacta diretamente a economia desta sociedade, seja negativa ou positivamente. Tão logo, um ambiente rico em cultura associativa e em diversidade institucional é propício às trocas econômicas, às transformações, inovações e desenvolvimento. Salienta-se, portanto, que os atores locais, as especificidades positivas da região e suas instituições perfazem ambientes propícios para ações no campo econômico, uma vez que aumentam as capacidades de geração de relações comerciais, podendo vir a acarretar crescimento econômico local.

A Economia Industrial


A indústria se refere ao conjunto de atividades produtivas que se caracterizam pela transformação de matérias-primas, de modo manual ou com auxílio de máquinas e ferramentas, no sentido de fabricar mercadorias, neste sentido constituem-se nos agentes produtores/vendedores de um dado produto (bem/serviço) com determinadas proximidades técnica-produtivas (Base técnica) ou características de bens substitutos próximos, ou então, conjunto de firmas que elaboram produtos idênticos ou semelhantes na constituição física, na matéria-prima, ou ainda no modo de serem tratadas analiticamente em conjunto (SANDRONI, 1994).

Conforme a abordagem de Berni (1990) existem diferentes escolas que procuram enfatizar os diferentes vieses que caracterizam o funcionamento de indústrias e mercados sob o sistema capitalista de produção. O mesmo autor chama a atenção para duas vertentes que contemplam diferentes paradigmas, uma mais preocupada com a alocação de recursos e outra voltada à questão dos conflitos de poder. Quanto à questão da organização industrial, de forma sintética o mesmo autor aponta que: “Os estudos da organização industrial tomam como unidade de análise não a firma individual ou todo o setor empresarial, mas sim a situação das empresas, investigando como estas se comportam enquanto vendedoras e compradoras de certos bens e serviços (1980, p. 131)”.

Um dos aspectos comumente frisados nas abordagens que enfocam a economia industrial se referem às condutas de concentração que são logicamente danosas à concorrência, porém também são capazes de gerar ganhos de eficiência, motivo pelo qual muitos autores defendem enquanto justificativa de sua existência. Um exemplo desta realidade pode ser verificada na redução de custo associados a economias de escala e escopo, aumento produtividade ou qualidade, aperfeiçoamentos tecnológicos, economias de custos de transação.

Dessa forma, as concentrações podem ser compensadas por eficiências, de forma que se proibidas acabariam por gerar ineficiências nos mercados e resultariam em contrariedade ao interesse social. Tem-se, portanto, que pesar os efeitos restritivos, mas também geradores de eficiência, uma dualidade que norteia as análises neste campo.

Outro aspecto relevante na abordagem da economia industrial e relevante no contexto do presente trabalho se refere à questão da avaliação da dimensão do produto, esta que perpassa pela identificação dos produtos que concorrem entre si, não somente os idênticos, mas também os substitutos próximos, ou seja, devem englobar todos aqueles produtos que efetivamente concorrem entre si dentro de um dado mercado, excluindo-se por completo aqueles que não atuam no mercado em questão. No caso do presente estudo, os produtos derivados da cana-de-açúcar, mesmo que diferentes em seu processo produtivo (seja pelos seus ingredientes, seja pela manipulação destes) representam produtos similares, por exemplo, o mais típico deles, a rapadura.

Por fim e não menos importante, salienta-se a questão da dimensão geográfica, o que entra na análise é se os consumidores podem ou não comprar esse produto em outras localidades ou então, se concorrentes de outras localidades podem direcionar suas vendas para essa região a custos acessíveis havendo, porém, neste viés de análise uma diferenciação que configura diferentes cenários as agroindústrias em Santo Antônio da Patrulha, uma vez que as grandes agroindústrias conseguem acessar mercados distantes e inserir a sua produção a preços concorrenciais com quaisquer produtos produzidos em espaços mais próximos, realidade proporcionada pela sua escala de produção que possibilita a redução do custo unitário do produto derivado da cana.

Assim, as pequenas agroindústrias apresentam outras estratégias de comercialização de seus produtos, visam a diferenciação de seus produtos, mantendo a tradição em seu processo produtivo e a fidelização dos consumidores como principais estratégias comerciais.

O Desenvolvimento Econômico Local


O novo cenário vislumbrado em função da globalização e de uma nova ordem mundial tem encaminhado empresas inovadoras a uma posição de destaque. Cabe salientar que o fenômeno consiste num processo de abertura simultânea das economias nacionais, porém, a forma como a mesma se apresenta em diferentes espaços mundiais é seletiva, dado que apenas determinadas regiões são integradas mundialmente, desta forma: “... enquanto certas áreas e grupos são integrados globalmente, outros são excluídos desta gigantesca transformação...” (VIZENTINI, 1999, p. 27).

A concorrência entre empresas de todo o mundo, no contexto deste panorama global, possibilitou avanços no que concerne à produção, avanços estes ainda mais expressivos que aqueles obtidos com a revolução tecnológica no pós segunda guerra mundial. Em todas as esferas da sociedade, a disputa por mercado ocorre numa escala muito maior, para além das fronteiras do lugar e do país, com isso exigindo consideráveis transformações em diferentes as esferas da sociedade. Tais transformações fazem emergir problemáticas concernentes ao desenvolvimento e, mais especificamente, o desenvolvimento ocorrido no âmago da própria comunidade ou região, o chamado desenvolvimento endógeno, assim como todas as características que o diferenciam dos demais tipos de desenvolvimento. Assim, a concepção de desenvolvimento local caracteriza-se como:

[...] um processo endógeno registrado em pequenas unidades territoriais e agrupamentos humanos capaz de promover o dinamismo econômico e a melhoria da qualidade de vida da população. Representa uma singular transformação nas bases econômicas e na organização social em nível local, resultante da mobilização das energias da sociedade, explorando as suas capacidades e potencialidades específicas (BUARQUE, 1999, p. 23).

As análises da dimensão política de desenvolvimento local contemporâneo, para Barquero (2001), apontam para manifestações do fenômeno na forma pela qual o mesmo é pensado, projetado, operacionalizado e colocado em ação por um ou mais agentes públicos, assim como em muitos casos colocado em ação juntamente a setores privados do espaço em questão, articulados com o mesmo ou com as ações do poder público.

No decorrer das últimas décadas, ocorreu uma significativa mudança na política de desenvolvimento regional. De forma progressiva, vêm perdendo foco as assim chamadas políticas de “cima para baixo”, seguidas pelas administrações centrais do Estado e que buscam promover a redistribuição espacial da atividade econômica e a redução das diferenças regionais nos níveis de renda per capita. Ao mesmo tempo, vem ganhando ímpeto a abordagem conhecida como de “baixo para cima”, formada por políticas propostas e administradas pelos governos locais e regionais e que procuram assegurar o desenvolvimento econômico de cidades e regiões (BARQUERO, 2001, p. 181).
De acordo com Chaves e Simões (2007, p. 190), através da sua acepção quanto às políticas de desenvolvimento local: “... uma boa política de desenvolvimento local e regional deve considerar as vantagens... Deve trabalhar em busca da definição das relações intersetoriais no espaço...”

É essencial, neste sentido, a ênfase na distinção entre os termos desenvolvimento econômico local e desenvolvimento local endógeno, visto que:


O desenvolvimento econômico local pode ser definido como um processo de crescimento e mudança estrutural que ocorre em razão da transferência de recursos das atividades tradicionais para as modernas, bem como pelo aproveitamento das economias externas e pela introdução de inovações, determinando a elevação do bem-estar da população de uma cidade ou região. Quando a comunidade local é capaz de utilizar o potencial de desenvolvimento e liderar o processo de mudança estrutural, pode-se falar de desenvolvimento local endógeno ou, simplesmente, de desenvolvimento endógeno (BARQUERO, 2001, p. 57).
O desenvolvimento econômico local fundamenta sua distinção com relação ao desenvolvimento local endógeno na garantia de que a condução do processo esteja centrada nas mãos da comunidade organizada, havendo melhorias no que diz respeito à qualidade da comunidade.

Tendo em vista as dificuldades impostas pela globalização e as demandas urgentes por reestruturação produtiva e organizacional, na década de 80 surge a política de desenvolvimento endógeno como resposta das próprias comunidades afetadas. Neste momento crítico de crise das empresas e o desemprego crescente, a apatia do Estado influiu no seio de várias comunidades em distintas regiões, onde emergiram atitudes de cooperação institucional e planos estratégicos de sobrevivência no mercado mundial. Barquero (2001, p. 26) chama a atenção para a questão estratégica, uma vez que,

Esta deve ser instrumentada através de ações que procurem realizar os objetivos de aumento de produtividade e da competitividade do sistema produtivo, de melhoria de distribuição de renda e de conservação dos recursos naturais e do patrimônio histórico e cultural.

Estas articulações entre os atores locais são capazes de proporcionar especificidades positivas da região e suas instituições, de forma a gerar um ambiente propício para atrair mais investidores interessados em aumentar suas capacidades de poupança e, consequentemente, o crescimento econômico local, porém com proeminência destes atores locais. Assim, a política de desenvolvimento local endógeno, diferentemente das políticas neoclássicas, “...está associada a uma abordagem de baixo para cima da política de desenvolvimento, na qual são os atores locais que desempenham o papel central em sua definição, execução e controle” (BARQUERO, 2001, p. 29).

O desenvolvimento endógeno, neste contexto de realidade, se realiza como resposta das comunidades aos desafios da competitividade impostos pela globalização. O desenvolvimento endógeno apresenta as relações de cada fator no conjunto de fatores determinantes de um determinado espaço, bem como na sua relação com o entorno no qual tomam forma uma série de processos de transformação e de desenvolvimento que apresentam grande potencial nas economias locais/regionais.



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