As Bodas Alquímicas de Christian Rosenkreutz



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AS BODAS ALQUÍMICAS DE CHRISTIAN ROSENKREUTZ

Johann Valentin Andreae

Chymische Hochzeit

(1616)



SINOPSE: No decorrer de sete dias C.R.C. vivencia diversas cerimônias e provas; finalmente é sagrado Cavaleiro da Pedra Áurea. Precedendo os sete dias há um prólogo e um sonho. Depois de diversas aventuras, ocorre a pesagem das virtudes dos candidatos.

Quando, ao chegar ao final de suas provas, C.R.C. deve escrever seu nome em uma pequena capela, ele escreve: "O mais elevado saber é que nada sabemos"


ISBN: 85-85485-01-9

BIBLIOTECA UPASIKA

www.upasika.com

Coleção "Rosae Crucis" N° 26





Os segredos perdem seu valor;

a profanação destrói a graça.

assim, não arroje pérolas aos porcos

nem faça leitos de rosas para os asnos.(1)

Ver Mateus VII-6.

"Não dêem as coisas santas aos cães nem arrojem

suas pérolas aos porcos, não deixem

que as pisoteiem com seus pés e, revolvendo-se, eles destrocem".

ÍNDICE


Introdução

Origens e documentos fundamentais da Rosa-Cruz

A Fama Fraternitatis

A Confissão

As Bodas Alquímicas

A Alquimia Cristã e o Rosacrucismo

Christian Rosacruz

Jean Valentín Andreae

A Maçonaria e a Rosa-Cruz

As Bodas Alquímicas e o Tarot da Marsella

O Simbolismo da Rosacruz

Primeira jornada

Nota à Primeira Jornada

Segunda jornada

Nota à Segunda Jornada

Terceira jornada

Nota à Terceira Jornada

Quarta jornada

Nota à Quarta Jornada

Quinta jornada

Nota à Quinta Jornada

Sexta jornada

Nota à Sexta Jornada

Sétima jornada

Nota à Sétima Jornada

Apêndices

O Canto da Pérola

O Velocino de Ouro

A Alegoria do Merlín

A Confissão

Nota ao Apêndice

INTRODUÇÃO

Origens e documentos fundamentais da Rosa-Cruz

Recebe o nome de Rosa-Cruz uma irmandade oculta de buscadores espirituais que surgiu na Alemanha no século XVII; entretanto, as primeiras notícias de uns "Irmãos da Rosa-Cruz" na Europa datam do século XIV. (René Guénon, Aperçus sur l'Initiation, Paris 1976).

Por outra parte, a primeira manifestação pública da Rosa-Cruz como escola constituída parece ter tido lugar em Paris quando, em agosto de 1623, apareceram fixados em algumas paredes desta cidade uns pôsteres que diziam:

"Nós, deputados do Colégio principal dos Irmãos da Rosa Cruz, tornamos morada visível e invisível nesta cidade pela Graça do Altíssimo, para a qual volta-se o coração dos Justos. Ensinamos sem livro, nem máscara, falando em todas as línguas dos países onde queremos estar, para liberar os homens, nossos semelhantes, dos enganos da morte." (Ver Gabriel Naudé, Instruction a France sur a vérité de l'histoire dê Fréres de a Rose-Croix, Paris 1623).

"Nós, deputados do Colégio da Rosa Cruz, assessoramos a todos aqueles que desejem entrar em nossa Sociedade e Congregação ensinando-lhes o perfeito conhecimento do Altíssimo [...], advertimos ao leitor que conhecemos seus pensamentos, que se sua vontade é nos ver unicamente por curiosidade, nunca se comunicará conosco; mas se a vontade o leva realmente a inscrever-se no registro de nossa confraternidade, nós, que julgamos os pensamentos, faremo-lhe ver a verdade de nossas promessas, de tal modo que não damos a direção de nossa morada, já que os pensamentos unidos à vontade real do leitor serão capazes de fazer que nos conheça e de que lhe conheçamos." (Ver Anônimo, Efroyables pactions faites entre o Diable et os prétendus invisíveis, Paris 1623).

Nove anos antes destas manifestações públicas apareceu em Cassel um curioso opúsculo de 15 páginas que tratava da Rosa-Cruz: A Fama Fraternitatis. (O título completo desta obra é Allgemeine und geral REFORMATION. Der gantzen kreutzes Gedruet and Cassel durch Wilhelm Wesell, Anno N.DC.XIV.)

O termo latino "fama" designa um rumor público, uma voz comum, "O que no Ocidente chamaram Rosa-Cruze a partir do século XIV, e que recebeu outras denominações em outras épocas e em outros lugares, porque o nome não possui aqui mais que um valor puramente simbólico e tem ele mesmo que adaptar-se às circunstâncias, não é uma associação qualquer, é a coletividade dos seres que alcançaram um mesmo estado superior ao da humanidade ordinária, um mesmo grau de iniciação efetiva... Por esta razão, reunem-se no Templo do Espírito-Santo, que está em todas partes''.

Acredita-se, entretanto, que esse livro circulava em forma de manuscrito uns vinte anos antes de sua publicação. Uma notícia que vai de boca em boca, trata-se de uma "Comum e geral reforma de todo o vasto mundo, seguida da Fama Fraternitatis da louvável ordem da Rosa-Cruz".

Tudo o que se pôde averiguar a propósito das origens da Rosa-Cruz procede deste livro, onde se encontra a narração da vida do Christian Rosacruz.

Como veremos mais adiante, este personagem, que no fundo é simbólico, esteve em contato com o mundo islâmico. Isto levou a muitos autores, entre eles René Guénon e Emile Dantinne, a ver uma origem islâmica na fraternidade Rosa-Cruz.

A Fama Fraternitatis alude a uma fraternidade secreta fundada pelo Christian Rosacruz que, ao longo de suas viagens pelo Oriente muçulmano, obteve a revelação dos secretos de "a ciência harmônica universal". Apoiando-se nestes ensinos, concebeu um plano para reformar filosófica, religiosa, artística, científica, política e moralmente o mundo, para cuja realização se rodeou de alguns discípulos. Segundo Emile Dantinne (Ver Emile Dantinne, "Do Forigine Islamique dê Rose-Croix" na revista Innconnues, n° 4, pág. 8 e ss. Henry Corbin parece estar de acordo com este autor. Ver L'imagination créatrice dans o soufisme d'Ibn Arabi. Ed. Flammarion, pág. 20, Paris 1977), Christian Rosacruz teria entrado em contato com "Os Irmãos da Pureza", sociedade filosófica formada em Basra na primeira metade do século IV da Hégira (622). As doutrinas desta sociedade não estavam em tudo de acordo com a ortodoxia islâmica, mas sim se apoiavam em grande parte nos antigos filósofos gregos e nos neopitagóricos.

Os "Irmãos da Pureza" diferem dos sufis em alguns pontos, embora estejam de acordo em muitos outros. Ambas são "místicas que derivam da teologia alcoronista. O dogma está aqui suplantado pela fé na Realidade divina". (Ver R. A. Nicholson, Studies in Islamic mysticin, pág. 79, 1921).

Apoiando-se sobretudo em seus precursores gregos e alexandrinos, os sábios do Islã estudaram e desenvolveram a astrologia e a alquimia que, através das Cruzadas, voltariam para a Europa. Muitas das idéias principais destas duas ciências aparecem não só na Fama Fraternitatis, mas também nas "Bodas Alquímicas".

Os verdadeiros Rosa-Cruzes que, como veremos, não terá que confundir com os rosacruces do século XVII ou, menos ainda com os atuais, permaneceram sempre no anonimato. Se algum deles teve um papel importante na história, guardou-se bem de apresentar-se como Rosa-Cruz. Como os sufis no esoterismo islâmico, os Rosa-Cruzes autênticos não utilizaram nunca em público este título. Como escreve Guénon de um modo taxativo, "Se alguém se declarou a si mesmo Rosa-Cruz ou Sufi, pode-se afirmar, sem necessidade de examinar as coisas mais profundamente, que realmente não o era". (Ver René Guénon, op. cit., pág. 246). Afirmação suficientemente clara para dar-se conta do que são, no fundo, os rosacruces atuais que se anunciam na imprensa. É inegável que houve, nas origens da Rosa-Cruz, uma colaboração entre iniciados nos dois esoterismos: o cristão e o islâmico; esta colaboração continuaria realizando-se, sob outras formas, já que sua razão de ser é precisamente manter o laço entre as iniciações do Oriente e Ocidente.



A Fama Fraternitatis

O breve texto da Fama Fraternitatis está precedido de um prefácio "ao avisado e entendido leitor" no que se expõem as idéias fundamentais da doutrina Rosa Cruz.

"A Sabedoria, sopro do poder divino e raio da magnificência do Altíssimo, é para os homens um tesouro infinito."

"Nosso pai Adão possuía em sua totalidade este tesouro antes da queda, e graças a ele pôde nomear aos animais dos campos e aos pássaros do céu que o Senhor Deus pôs diante dele. (Ver a respeito nossa introdução aos Ensinos do Jesus Cristo a seus Discípulos, Editora Obelisco). "A triste queda no pecado diminuiu esta jóia magnífica da Sabedoria e propagou a orgulhosa obscuridade e incompreensão pelo mundo. Entretanto, Deus a desvelou por instantes a seus amigos, pois o sábio rei Salomão nos dá testemunho deste fato: acessou, por sua oração aplicada a sua aspiração, a esta sabedoria, de modo a conhecer como foi criado o Mundo, a força dos elementos, o meio e o final dos tempos, como começa e acaba o dia, como se transformam as estações, como evolui o ano, etc." (Ver Sabedoria VII-7 a 21). "Todo cristão tem que ser um verdadeiro Jesuíta, ou seja, há de caminhar, viver, ser, permanecer em Jesus."

"Aqui está o verdadeiro rubi real, a nobre, brilhante pedra vermelha da qual se diz produzir nas trevas: um resplendor luminoso; é um medicamento perfeito para todos os corpos; transforma em ouro puro os metais; deixa para trás todas as enfermidades, angústias, penas e melancolias dos homens." O texto prossegue comentando o sacramento da Eucaristia, comparando os ensinos da Bíblia com os de Platão, Aristóteles e Pitágoras, atacando com fúria os "aventureiros e vadios" que inutilmente pretendem fabricar ouro. Desde os primeiros parágrafos, a Fama Fraternitatis apresenta-se como porta-voz de um cristianismo gnóstico que pretende ir mais a fundo que o catolicismo oficial de Roma. O nome do protagonista da obra que, como veremos, é Christian Rosacruz, evoca já a idéia de um "cristianismo rosacruz". Trata-se de um modo de abordar as doutrinas cristãs que gozam de uma grande falta de rigor no concernente à mitologia, o simbolismo ou a alquimia. Se esta elasticidade pôde ser causa de heresia, como freqüentemente o foi, terá que admitir, não obstante, aproximar-se com uma perspectiva mais ampla o problema do esoterismo cristão.

Na segunda parte deste opúsculo aparece o relato da vida do irmão C. R. Se acreditarmos na Confissão, o segundo livro rosacruz que apareceu ao ano seguinte da publicação da Fama Fraternitatis, trataria-se de Christian Rosacruz.

Nascido em 1378, no seio de uma família nobre, Christian perdeu a seus pais quando era ainda menino. Foi educado em um convento no qual entrou aos quatro anos e não saiu até os dezesseis (ou seja doze anos simbólicos), para realizar as viagens narradas em Fama Fraternitatis. No convento adquiriu um conhecimento bastante aceitável do latim e o grego, travando amizade com um irmão, o P. A. E., com o qual empreenderia uma peregrinação ao Santo Sepulcro. C. R. desembarcou em Damcar, onde entrou em contato com os sábios desta cidade, "capazes de grandes maravilhas". Não há como averiguar onde está esta cidade que, por outro lado, não pode estar muito longe de Jerusalém, mas que não corresponde nem a Damasco nem a nenhuma outra cidade cujo nome pareça com Damcar. Aprendeu árabe com tanta celeridade que em um ano traduziu para o latim o famoso livro M.3. que levaria com ele.

Permaneceu uns três anos em Damcar, passando pelo Egito, dirigiu-se a Fez onde ficou em contato com os iniciados desta cidade, passando logo pela Espanha antes de retornar à Alemanha, onde formaria o primeiro núcleo da confraria da Rosa-Cruz.

Quão sábios encontrou em Fez estavam em contato com os iniciados dos outros países islâmicos e conheciam todas as chamadas "Ciências Ocultas", que C. R. estudaria com eles.

Se meditarmos nos breves extratos da Fama Fraternitatis que acabamos de ler, veremos que se trata de uma filosofia cristã profundamente ligada ao hermetismo. Falou-se de sincretismo entre os ensinos herméticos e o cristianismo. Com efeito, na Fama Fraternitatis (assim como na Confissão e nas "Bodas Alquímicas"), recolhem-se com toda naturalidade doutrinas herméticas e kabalistas. Este livro não foi encontrado embora, segundo a Fama Fraternitatis, Christian Rosacruz o teria traduzido ao latim. Tanto os historiadores como os pseudo-rosacruces do início do século quebraram a cabeça tentando identificá-lo com algum livro existente, à alguma obra de Magia ou de Alquimia conhecida. Não conseguiram esclarecer nada, pois se trata de um livro simbólico, do "Livro" por excelência, que o Adepto tem que procurar no Oriente. Não falamos aqui do Oriente situado em nossos mapas, mas sim do Oriente místico. Para mais precisões, remetemos ao leitor à toda obra do ilustre filósofo, já falecido, Henry Corbin, especialmente seu L'Homme do Lumière dans o Soufisme Iranien, Ed. Présence, Paris 1971. É o Liber Mundi, porque se trata do mundo espiritual que, segundo a feliz definição de Corbin é "a totalidade concreta que o homem alimenta com sua própria substância, acima dos limites desta vida", como se fora um livro que permanece intacto eternamente. Trata-se, sem dúvida, do Liber Mundi, o "Livro do Mundo", por oposição ao Liber Gratiæ, o "Livro da Graça". (Recordemos que esta cidade Santa de Marrocos foi, durante a Idade Média, um dos centros mais florescentes referente à prática da alquimia).

Mas o autor de Fama Fraternitatis, como ocorre com muitos dos chamados alquimistas e kabalistas cristãos da época, não tenta pôr de acordo doutrinas diferentes, nem aproveitar elementos pertencentes a culturas distintas. Como escreve Henry Corbin, "abusa-se com facilidade do emprego da palavra ''sincretismo". Quase sempre, esta palavra serve como argumento para não levar a sério algum generoso projeto que traga doutrinas convenientemente pertencentes ao "passado resolvido". Entretanto, nada há mais flutuante que esta noção de "passado"; de fato, depende de uma decisão ou de uma pré-decisão superada por outra que volte a dar futuro a este passado". (Ver Henry Corbin, L'Homme do Lumiére..., op. cit.- pág. 29).

O autor da Fama Fraternitatis utiliza a linguagem e a cultura cristãs para expor umas doutrinas encontradas em todas as tradições e em todas as épocas. Não inventa nada; não remodela nada, limita-se a dizer de novo o que já foi dito, mas esquecido. O mito da queda e a excelsitude da sabedoria não são monopólio de Roma; os livros dos kabalistas contêm alusões constantes a estes e outros temas; e mais, a chamada "filosofia hermética'' dos alquimistas se apóia em grande parte nestes pressupostos. (Ver nossa introdução a Quatro Tratados de Alquimia, pág. 11, Ed. Visão Livros, Barcelona 1979).

Mas a originalidade com as quais estas verdades universais, sem estar na maioria das vezes em contradição com a ortodoxia, são apresentadas, é enorme; algumas afirmações resultaram um pouco fortes e suscitaram o ódio nos meios eclesiásticos. Entre seus numerosos caluniadores, dois jesuítas, o padre Gaultier e o padre Goelessius, chegaram a falar de ateísmo e relacionaram a fraternidade Rosa-Cruz com o pensamento de Lutero, o qual, na época e em certos meios era quase como falar do diabo. (Ver Jean-Pierre Bayard, A Symbolique dê Rose-Croix, Payot, Paris 1976, pág.23). De qualquer modo, não esqueçamos que Juan Valentín Andreae, suposto autor de as "Bodas Alquímicas", era neto do Jacobo Andreae, conhecido por "O Lutero de Würtemberg", que foi um dos mais ardentes defensores do luteranismo.

A Confissão

No ano seguinte à publicação de Fama Fraternitatis, aparece, ao mesmo tempo em Cassel e em Frankfurt a Confissão, o segundo livro básico da literatura Rosa-Cruz. Anônimo como o anterior, este livro exala a mesma exaltação mística e apocalíptica apreciada em Fama Fraternitatis, apoiando-se freqüentemente na Astrologia e apresentando alguns elos evidentes com a Kabala. Uma das idéias mais curiosas encontrada nele, denotando profundo conhecimento do esoterismo kabalístico, é que os caracteres ou letras que Deus incorporou na Santa Bíblia, estão também nitidamente impressos na maravilhosa criatura que são os céus e a terra. Adivinhamos aqui que a Bíblia é um símbolo, um arquétipo do Liber Mundi ao qual aludia a Fama Fraternitatis. As referências a este misterioso livro dentro da literatura esotérica, kabalística ou alquímica são constantes, poderíamos dizer que só falam dele, mas são terrivelmente tão obscuras que esperou quatro séculos para encontrar-se com esta idéia claramente expressa em "A Mensagem de novo Encontrada": "O livro onde Deus tem escrito seu segredo é o céu e a terra. Por isso o homem santo e sábio estuda a Ciência do Senhor na paz do Jardim de Éden." (Ver Louis Cattiaux, A Mensagem de novo Encontrada, Ed. Sírio, Málaga 1987, X. Vers. 64).

Não estendemos aqui a propósito deste libero no qual a letra e o espírito estão unidos, no qual o Sol e a Lua estão casados, mas não duvidamos em afirmar que é o Livro das Eternas Bodas perfeitamente simbolizado por "As Bodas Alquímicas".

Segundo seu autor, o objetivo da Confissão é completar Fama Fraternitatis, "preencher suas lacunas", "formular em melhores termos as passagens insondáveis". Devemos, pois, considerar esta obra como um complemento da anterior. O aspecto apocalíptico da Fama Fraternitatis se encontra também na Confissão, que oferece a felicidade de um século (Trata-se de Olam Habá, ou "mundo que vem", por oposição ao Olam Hatsé, "este mundo"; o termo latino sæculum é a tradução exata de Olam. Ver nossa introdução ao Apocalipse de Esdrás, publicado por Edições Obelisco) que goza da intervenção divina, opondo-se ao atual que se caracteriza pela falsidade, a mentira e as trevas. Trata-se do fim do mundo cantado nas diferentes evocações apocalípticas, (O Fim do Mundo, tal como o entendiam os antigos, não é nem o fim do planeta, nem o fim do Cosmos. Freqüentemente se refere ao final de uma civilização; quase sempre se trata do fim do mundo que cada homem se criou e viveu, e o advento de que levava dentro dele.) mas aqui não aparece tão terrível como no Apocalipse de São João, trata-se de "uma nova manhã".

O autor da Confissão induz apaixonadamente seus discípulos à "leitura aplicada e permanente da Santa Bíblia", já que o verdadeiro Rosacruz faz do Livro Sagrado "a regra de ouro de sua existência"; "o objetivo e término de seus estudos"; "o resumo e quintaessência do mundo inteiro" (Cap. X). Estas breves apreciações serão suficientes para o leitor explicar o êxito da Rosa-Cruz em uma época em que a Igreja manifestava tanta dureza e intolerância. O ódio que chegou a ter dos Rosa-Cruz é, entretanto, completamente lícito se pensarmos que, frente a algum adepto verdadeiro que professasse estas doutrinas, encontramo-nos com um sem-fim de grupos, mais ou menos isolados que, movidos por sua fantasia, orgulhosamente se acreditavam Rosa-Cruz, sem sê-lo em realidade.

Os três livros fundamentais do Rosacrucismo ofereciam, como tentamos demonstrar, um amontoado de doutrinas e idéias permitindo, aos ávidos de esoterismo, formarem, apoiando-se nestas, grupos de estudo e de busca que, mais tarde, deram lugar às associações e fraternidades de buscadores que se auto-intitularam Rosacruces. Estas pessoas, em sua imensa maioria bons cristãos, que desejaram aprofundar no aspecto oculto de sua religião, não seriam nunca bem vistas pelas autoridades eclesiásticas. Com a aparição dos manifestos nas paredes de Paris, a situação só se complicou.

Acredita-se, e nisto estamos completamente de acordo com o Guénon, que a aparição pública dos Rosacruces coincidiu, em certo modo, com seu desaparecimento. "O que se faz público se envilece", sábia máxima do hermetismo, poderia aplicar-se aqui à famosa fraternidade.

As Bodas Alquímicas

Em 1616 aparecia em Estrasburgo uma das obras mais relevantes da literatura esotérica européia, "As Bodas Químicas de Christian Rosacruz". Advirtamos que, na época, nada "químico" era sinônimo de "alquímico", portanto falamos aqui de umas "Bodas Alquímicas", e inclusive consideramos este livro como um tratado de alquimia. "As Bodas Alquímicas de Christian Rosacruz" são algo mais que um simples tratado hermético, trata-se de uma obra multidimensional, em que as noções correntes de espaço e tempo se encontram transcendidas das primeiras linhas. A trama tem lugar em um espaço e em um tempo reais, mas distintos aos que normalmente conhecemos. Desenvolve-se no sugestivo plano do símbolo, que está em um nível de consciência superior ao nosso, e não inferior como acreditam alguns psicólogos.

Este livro contém a descrição simbólica, não poderia sê-lo de outro modo, do processo de Iniciação. Aborda-o com uma beleza e uma precisão tais, que cativou à maioria de esoteristas posteriores. Aos sentidos alquímico e iniciático tem que acrescentar-se o místico. O equivocado termo de místico não possui aqui, entretanto, o significado inadequado e desencarnado que lhe atribui há alguns séculos. Ao investigarmos a raiz mystikos, veremos que o místico é o "Iniciado aos Mistérios". Esse mistério é o do homem mesmo, o do homem interior, ora prisioneiro em uma torre, ora cativo com uma serpente, ou réu de um feroz dragão. As "Bodas Alquímicas", divididas em sete dias são, pois, uma delicada e formosa alegoria das Sete Portas que o místico tem que atravessar; os sete órgãos sutis do homem, que segundo o sufismo, despertam progressivamente ao longo de sua ascensão espiritual; ou dos sete dias da Criação do Homem Perfeito, o Adam Kadmón dos kabalistas. Sete dias porque sete são as jornadas nas quais se divide este livro, evocando sem dúvida as sete pétalas da rosa mística. Entre os egípcios o sete era o número da vida eterna, e esta vida eterna é igual a que acontece à ressurreição, o grande mistério para o qual, como veremos, se dirige a trama das "Bodas Alquímicas".

Fazemos estas comparações porque acreditam que as "Bodas" apareceram em um momento histórico-cultural muito especial, abrangendo e, em certo modo, conjugando os conhecimentos esotéricos anteriores. Nelas encontramos a sabedoria ancestral dos egípcios, caldeus e gregos; junto à perspicácia dos kabalistas; e a simbólica poética do Islã. Tudo isso, evidentemente, na linguagem típica dos esoteristas da época, alimentado principalmente no espírito cristão e a revelação hermética; evocador de uma gnosis não desprovida de humor e de poesia. O protagonista, Christian Rosacruz, relata sua maravilhosa viagem ao "Palácio Fechado do Rei", onde tem que assistir às Bodas Reais. Uma ou várias aventuras particulares ocupam cada uma das sete jornadas que compõem o relato. A primeira começa a véspera de Páscoa quando, durante sua meditação e suas orações, Christian Rosacruz recebe a visita de uma mulher alada de extraordinária beleza que lhe entrega uma carta lhe convidando às Bodas Reais. Esta idéia, exposta de outro modo, aparecia já no Evangelho, ou em um muito belo escrito do cristianismo primitivo chamado "O Canto da Pérola". Para assistir a tão magno acontecimento, Christian veste-se com uma túnica de linho branco, coloca em seu peito uma cinta vermelha em forma de cruz e fixa quatro rosas vermelhas em seu chapéu. Assim empreende a fantástica viagem cuja leitura apaixonará a mais de um leitor, despertando possivelmente nele uma nostalgia misteriosa e cativante, a do Banquete das Bodas ao qual muitos são chamados, mas cujo caminho poucos são eleitos. (Ver Mateus, XXII-9).





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