As Bodas Alquímicas de Christian Rosenkreutz



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A Alquimia Cristã e o Rosacrucismo

Ao estudar as Bodas Alquímicas é imprescindível, como vimos, referir-se à Alquimia, cujos ensinos afloram ao longo de suas sete jornadas. Toda a obra escrita e a arte plástica atribuída aos membros da Rosa-Cruz goteja o saber dos alquimistas, até mesmo a idéia da "Rosa" e a "Cruz" associadas já expressa uma operação alquímica.

Os dois manifestos Rosacruces e as Bodas Alquímicas se apóiam em numerosos pontos das doutrinas alquímicas. Embora, é certo, que o hermetismo exerceu, na época, uma influência notável nos meios artísticos e literários; seu simbolismo se encontra em quase todas as manifestações do espírito humano; temos, com a trilogia rosacruz, um muito belo exemplo do que se conveio em chamar "Alquimia Cristã".

Todos os autores, herméticos e profanos, remontam à "Arte Régia" e ao Antigo Egito. Através dos gregos, cuja mitologia, aparentemente contraditória e confusa; é uma das exposições simbólicas mais precisas e completas da Arte Hermética; e dos hebreus, a Alquimia se impôs na Europa culta. Não é desdenhável, entretanto, a contribuição árabe; foi decisiva, através dos sábios instalados na Península Ibérica e os intercâmbios culturais que facilitaram as Cruzadas.

Apoiando-se em orçamentos que não estão em contradição com nenhuma das grandes religiões reveladas, a alquimia pôde florescer no Egito, Israel, Índia, Tibet, China ou Grécia. Como escrevia Emmanuel d'Hooghvorst: "a alquimia não é um dos ramos do esoterismo, é sua chave ou sua Pedra Angular". (Ver seu Ensaio sobre a Arte da Alquimia, pág. 20. - Reeditado em LA PORTA - ALQUIMIA, Ed. Obelisco.). É, portanto, lógico que a Grande Arte se encontre nas bases mesmas das doutrinas rosacruces.

Mas, acima de tudo, vejamos o que é a alquimia. Para Pierre Jean Fabre se trata de "uma ciência verdadeira e sólida que ensina a conhecer o centro de todas as coisas, chamado na Linguagem Divina "Espírito de Vida". (Ver P. J. Fabre, Abregé de Secrets Chymiques, Paris 1636, pág. 10.). Para o Roger Bacon trataria-se de "a ciência que ensina a preparar uma certa medicina ou elixir que, projetado sobre os metais imperfeitos, comunica-lhes a perfeição". (Ver Roger Bacon, Speculum Alchimiæ, septem Capitibus, Norimbergæ 1614.). O alquimista é, acima de tudo, um filósofo que conhece perfeitamente as Escrituras Sagradas e que está dotado da Sabedoria a que ama (não esqueçamos que, literalmente, filósofo significa "amante da Sabedoria"). O alquimista é capaz de elaborar a "Pedra Filosofal" que regenerará o homem e a natureza decaída. Os alquimistas árabes, que tanta importância tiveram no shiismo, eram todos muçulmanos. Os alquimistas chineses, graças aos trabalhos de Mircea Eliade, o professor Chkashige ou outros, que puderam conhecer, professavam a religião taoísta; é, pois, lógico que os adeptos europeus medievais fizessem uma alquimia cristã. A alquimia cristã floresceu ao mesmo tempo que a chamada "Kabala Cristã". Sabemos que alguns dos representantes mais notáveis desta, foram também alquimistas (pensamos especialmente em Pico de la Mirandola e Blaise de Vigenère). Em todos eles existe uma constante: seu profundo e original conhecimento das Escrituras, que interpretam sob uma hermenêutica kabalística ou alquímica.

Na trilogia rosacruz podemos apreciar também um profundo conhecimento do Livro Sagrado, assim como uma imensa cultura mitológica. O autor das "Bodas Alquímicas", por exemplo, começa seu livro inspirando-se nos evangelhos (ver nossa nota à primeira jornada), manifesta também uma certa erudição na qual a mitologia greco-romana se refere. Este mesmo autor parece também ter um grande conhecimento dos escritos dos autores herméticos, como observamos ao longo da obra.

Christian Rosacruz

Segundo a Confissão e as "Bodas Alquímicas", o herói da trilogia rosacruz, o mítico personagem ao qual deve seu nome e acaso sua existência esta enigmática fraternidade, nasceu em 1376 e morreu em 1484. Para Miguel Maier, Christian Rosacruz foi contemporâneo de Raimundo Lulio, situando seu nascimento mais de um século antes do que declara a Confissão. Para algumas escolas atualmente auto-denominadas "Rosacruces", Rosacruz seria um professor, um "superior invisível", que reencarna ao longo dos séculos com nomes distintos e personalidades diferentes. Notemos, entretanto, que em nenhum dos autênticos tratados rosacruces comenta-se em momento algum sobre "reencarnação".

Seja como for, seu nome é muito revelador, Christian Rosacruz é um personagem mítico, simbólico, sem origem histórica. Mas, dizer mítico, não quer dizer irreal. A realidade de Rosacruz, como a dos avatares hindus, ou a do Kezr islâmico é trans-histórica. Embora Whittemans, (ver Fr Wittemans, Histoire de Rose-Croix, Ed Adyar Paris 1925) um autor de filiação teosofista, esforçou-se em corresponder ao protagonista da Fama Fraternitatis com um membro da família Von Roesgen Germelhausen, suas afirmações carecem de documentação adequada onde apoiar-se e estão em contradição com os dados contribuídos por rosacruces da época dos manifestos.

Pouco terá que dizer dos delírios teosofistas de madame Blavatsky ou Annie Besant, sem contribuírem com nenhum tipo de prova aceitável, afirmam que Rosacruz viveu no século XIV; reencarnando-se, sucessivamente, em Francis Bacon (1561-1626) e, posteriormente, no enigmático Conde de Saint-Germain (1696-1784). Só terá que deter-se em seu nome e seu sobrenome para adivinhar que Christian Rosacruz se refere a algo concreto, a uma realização espiritual precisa. Christian indica tratar-se da realização crística, e Rosacruz alude ao caminho que conduz a ela: a cruz. Um dos adágios rosacruces mais evocadores, que comentaremos mais adiante, per crucem ad rosam, contribui com a chave para compreender o que acabamos de afirmar. Por outra parte, as mesmas siglas C. R. podem interpretar-se como Christi Resurrectio (ressurreição do Cristo), rememorando o mistério máximo das religiões reveladas, a realização precisa a qual nos referimos. René Guénon não se cansa de repetir que o estado de Rosa-Cruz é o estado primitivo do homem, restaurado. Deduzimos disso que existiram Rosacruces autênticos em outras épocas e em outras latitudes, recebendo outras denominações. Christian Rosacruz é, em certo modo, seu arquétipo.

A Rosa-Cruz é, pois, uma gnosis no verdadeiro sentido desta palavra (Gnosis procede de gignere, engendrar e se refere à regeneração e ao conhecimento que esta permite que tenha lugar. Como ocorreu com muitas outras palavras, este termo se aplica na atualidade em um sentido abstrato muito desviado do original) tal como entendia T. Basilide, ou seja, o estado no qual se conhece "Verbo Redentor que nos faz encontrar a Palavra Perdida, sendo um dos aspectos do mistério da Cruz". (Ver T. Basilide em "O Voile d'Isis", resseco-septiembre de 1930, págs. 128 e 219). Esta gnosis, repetimos, nunca foi patrimônio de uma época ou de um lugar. Encontra-se em todos os povos e em todas as épocas.

Jean Valentin Andreae

Jean Valentin Andreae, o suposto autor das "Bodas Alquímicas" nasceu em Herrenberg em 1586; seguindo a tradição familiar, consagrou-se ardentemente ao estudo e à difusão do luteranismo, alcançando diversas dignidades eclesiásticas concedidas pelo duque Augusto de Brunswick.

Sendo seu pai abade do Königsbrom, Jean Valentin recebeu neste convento sua primeira educação, notado por sua extraordinária sensibilidade e sutil inteligência. Este episódio de sua vida recorda a de Christian Rosacruz, cuja infância também transcorreu em um convento até os dezesseis anos. Esta semelhança é tão curiosa, e não entendemos como nenhum dos especialistas no tema o assinalou, a idade em que Christian Rosacruz abandona o convento e inicia sua peregrinação para o Santo Sepulcro, é a mesma em que Jean Valentin Andreae declara ter escrito seu livro: dezesseis anos. Graças a sua inacabada autobiografia póstuma, conhecemos alguns detalhes íntimos da vida deste homem; ele confessa que sua existência foi cheia "de extravios, mudanças, tempestades, obstáculos, calúnias, perseguições, lutas, opressões, enfermidades e má sorte".

Jean Valentin Andreae, assustado possivelmente pelo inesperado êxito das "Bodas Alquímicas"; pela enorme influência que teve esta obra sobre grupos esoteristas rapidamente declarando-se "Rosa-Cruz", afirmou que as "Bodas Alquímicas" não eram mais que "um divertimento de juventude" escrito aos quinze anos. (Outros autores, por exemplo Auriger - Les noces Chimiques de Christian Rosenkreutz, pág. VI - afirmam que foi aos dezesseis).

Para alguns estudiosos posteriores, isto teria que interpretar-se "quinze anos depois de sua iniciação", o qual não é tão desatinado se pensarmos na idade em que Ireneo Filaleteo escreveu seu "Entrada Aberta ao Palácio Fechado do Rei" (Ver nossa edição desta obra, publicada por Edições, Obelisco) ou, por exemplo, as idades maçônicas que são também simbólicas. Utilizando o pseudônimo do Florentius da Valentia, Andreae publicou um Convite à Fraternidade de Cristo, a Rosa Florida (Invitario ad Fraternitaten Christi Rosa Florescens, Argentorati 1617) exortando à prática da vida cristã, a simplicidade, o amor fraternal e a oração em comum.

Entre as numerosas obras deste autor se conta também uma Descrição da República de Cristianópolis (Republicae Christianopoliae Descriptio, Estrasburgo 1619) na qual descreve a cidade e a sociedade ideais, manifestando idéias muito próximas às das Fama Fraternitatis e a Confissão.

Inspirando-se em suas obras, formaram-se várias sociedades ou fraternidades que tanto por sua exaltação como por seu número, chegaram a assustar às autoridades eclesiásticas.

A Maçonaria e a Rosa-Cruz

Reconhecido em 1787 e plenamente aceito em 1804, temos, no Rito Escocês Antigo e Aceito da Maçonaria, o grau 18, chamado "Soberano Príncipe Maçom da Rosa-Cruz, Cavaleiro da Águia e do Pelicano". Segundo alguns autores, desenvolveram-se, adquiriram poder e entraram na Maçonaria os membros dos grupos rosacruces; com eles, introduziram-se seus ritos e seu simbolismo. O grau de "Cavaleiro Rosa-Cruz" foi introduzido pelo Barão de Tschoudy, famoso por seus conhecimentos relativos ao hermetismo, mais ou menos por volta de 1765.

O "Sapientíssimo", ou seja, o presidente de um capítulo que trabalha neste grau 18, recebe o nome de Athirsatha. Segundo Jean-Pierre Bayard, (Op. cit., pág. 244) Elaz Athirsatha, que em hebreu significa "fundidor de Deus", corresponderia ao Elías Artista dos Rosa-Cruzes. Este autor cita um ritual do grau 18 do Rito Escocês para o "Cavaleiro Rosa-Cruz" o qual traduzimos a seguir uma passagem muito reveladora:

O Sapientíssimo:

- Cavaleiro primeiro Guardião, que objetivo se propõem os Cavaleiros da Rosa-Cruz?

Primeiro Grande Guardião:

- Combater o orgulho, o egoísmo e a ambição, para fazer que em seu lugar reinem a abnegação e a caridade.

O Sapientíssimo:

- Quem lhes recebeu?

Primeiro Grande Guardião:

- O mais humilde de todos.

O Sapientíssimo:

- Por que era o mais humilde?

Primeiro Grande Guardião:

-Porque era o mais iluminado e sabia que toda inspiração vem de cima.

Em outros rituais dos Cavaleiros da Rosa-Cruz recolhidos por Forestier (A F. M. Templière et Occultiste au XVIIIème et XIXème siècles. Prefaciado por Antoine Faivre. Ed. Aubier Montaigne, Paris 1970) encontramos alguns detalhes extremamente curiosos, relacionados todos eles com a Paixão e Ressurreição de Jesus Cristo. Um dos mais significativos é uma cruz com um letreiro escrito I.N.R.I., na qual penduram um pano e uma rosa. Na mesma sala há também três colunas nas quais constam os nomes das três virtudes teológicas. O recipiendário, o qual tem que encontrar a Palavra Perdida, é conduzido sucessivamente ante cada uma destas três colunas fazendo-o ler em voz alta as inscrições: "Fé, Esperança, Caridade" até chegar à Palavra Perdida: I.N.R.I. Se alguns autores compararam a cruz ao crisol dos alquimistas, (Crisol procede do latim crucibulum, da mesma raiz que crux-cis) para outros a rosa seria o fogo renovador, interpretando a divisa I.N.R.I. como Igne Natura Renovatur Integra (Pelo Fogo a Natureza se renova integralmente).

Conforme evoca outro ritual maçônico, influenciado pelo rosacrucismo, durante o qual iluminam-se sete velas (não esqueçamos que as "Bodas Alquímicas" compõem-se de sete jornadas), ao acender a última o Sapientíssimo exclama:

- "A Palavra da Vida, a Palavra da Regeneração foi reencontrada, saibamos, como o Mestre , proclamar o perigo de nossas vidas!".

Não deixa de ser casual que esta cerimônia tivesse lugar no domingo de Páscoa, depois da cerimônia da Ceia, ou seja, na mesma época do ano em que começam as Bodas Alquímicas. Autores como Paul Naudon, que tanto investigaram sobre a origem deste grau 18 do Rito Escocês Antigo e Aceito, opinam que com ele "saem do desenvolvimento do simbolismo maçônico no sentido estrito para alcançar outra forma de tradição, esta síntese da vasta corrente hermética". (Paul Naudon,Histoire et Rituels de Hauts Grades Maçoniques,Dervy-Livres,Paris 1966, pág. 50).

Este mesmo autor, que soube ver na franco-maçonaria uma via iniciática que ensina a ascensão do homem ao plano divino, afirma que houvera interferências importantes entre os grupos rosacruces e maçons. "Terá que pensar que houve, por ambas as partes, mútuos intercâmbios rituais, já que os dois simbolismos estão ligados entre si por estreitas afinidades mútuas com o hermetismo e a alquimia mística... entre a Franco-maçonaria e a Rosa-Cruz as fontes e as vias iniciáticas eram muito próximas para que ocorresse de outro modo". (Paul Naudon, A Franc-Maçonerie Chrétienne, Dervy-Livres, Paris 1970, págs. 64 e 65).

Como iremos assinalando no texto das "Bodas Alquímicas" mediante nota no rodapé da página, os símbolos que aparecem com uma profusão surpreendente ao longo de toda a obra, freqüentemente estão relacionados com a maçonaria. Não esqueçamos que em suas origens esta Ordem perseguia fins espirituais, sendo seu objetivo a "edificação do Templo" que não é, no fundo, mais que uma alegoria da edificação do homem interior a partir da "Pedra Bruta", que tem que ser esculpida para contribuir a tão nobre fim. Se na atualidade seus objetivos e trabalhos estão mais orientados para o mundo profano e a política, temos que pensar tratar-se, no fundo, do mesmo dessagrar, ou secularização pela qual passa a Igreja. Não deixa de ser curioso que estas duas entidades, a Igreja de Pedro e a Igreja de João, tão criticadas entre si, cometam o mesmo engano. Trata-se, sem dúvida, de um "sinal dos tempos" e como tal terá que vê-lo.

As Bodas Alquímicas e o Tarot da Marsella

Ao estudar o simbolismo das "Bodas Alquímicas" é importante, quase imprescindível, referir-se ao Tarot. À alguns chocará a comparação aqui destes dois livros; até a data, além de algumas notas pouco convincentes de Auriger, manifestando tanta boa vontade como incompreensão. Acreditam que ninguém publicou nenhum estudo mais ou menos acertado e documentado no qual fique frente a frente o Tarot e as "Bodas Alquímicas". Nós não o faremos aqui, estaria tão fora de nossas possibilidades como dos objetivos habituais de uma introdução, mas sim, vamos adiantar algumas constatações, que acreditamos, serão úteis na hora de ler as "Bodas Alquímicas". Assinalemos também que nos apoiamos no Tarot de Marsella, o único a nosso parecer que conserva em quase sua totalidade os nomes, cores e detalhes do Tarot autêntico. As "Bodas Alquímicas" começam uma noite em que Christian Rosacruz está sentado ante sua mesa, depois de realizar suas orações. O mesmo texto indica-nos a época do ano na qual ocorre isto: na primavera. Esta cena tem sua contrapartida na carta N° 1 do Tarot, "O Bateleur" ou "O Mago"; estando também atrás de uma mesa. A cor verde do interior de seu chapéu e de um arbusto entre suas pernas (o que está acima é como o que está abaixo), evocam também o verdor primaveril. O chapéu em questão mais parece um recipiente indicando que o Mago recolhe a virtude da primavera, que lhe permitirá começar seu trabalho. Notemos que na mesa do Tarot há exatamente doze objetos, o número dos apóstolos que assistiram à Santa Ceia e dos doze signos do Zodíaco.

Esta primeira carta interpreta-se em cartomancia como o princípio de algo, denotando as idéias de originalidade, de criatividade. Trata-se do começo da Obra da Criação, que tem que restituir ao homem a sua origem divina. A obra que tem que realizar-se, a viagem que tem que empreender-se, ou o livro que é preciso abrir e ler é, no fundo, o mesmo: aquilo que conduz à celebração das Bodas Reais. O simbolismo da mesa, lugar no qual o Mago realiza seu trabalho, pode associar-se a do espelho ou a da tábua (em latim tabula é ao mesmo tempo mesa e tábua) O Corão (Sura 85, 19 a 22) fala da "Tábua Preservada", a Tábua de Allah, como num espelho no qual está escrito todo o Livro Sagrado. Observemos que o 85 precede o famoso Sura do "Visitador Noturno". Este é "uma estrela fulgurante", que atravessa as trevas, guardião da alma. Não é, pois, desatinado relacionar à estrela, que voltará a aparecer no Tarot, com o anjo feminino, hierofante de sua própria alma, que aparece ao Christian Rosacruz.

O famoso Liber Mundi do qual falamos, aparece em várias ocasiões ao longo das "Bodas Alquímicas", recorda-nos o que sustenta a Papisa do segundo naipe do Tarot. Assinalemos unicamente que este livro está aberto, descoberto e a Papisa pode lê-lo. Já realizou-se a famosa união da Rosa com a Cruz, pois a cor vermelha do vestido da Papisa (ver nossa segunda nota às "Bodas Alquímicas") une-se aos suspensórios dourados em forma de cruz. Recordemos que ao iniciar suas aventuras, antes de penetrar no Palácio, Christian Rosacruz tem que colocar em seu peito uma cinta vermelha em forma de cruz e pôr em seu chapéu quatro rosas vermelhas, sendo a verdadeira cruz. A cruz de ressurreição, é uma cruz de luz, uma cruz dourada. Como escrevíamos em um sucinto estudo sobre a alquimia (ver Mundo Desconhecido, N.° 6, pág. 46.) "Isis, mãe natureza, contempla-se a si mesmo no livro da natureza..." Mas, ninguém pensou que possivelmente este enigmático livro é igual ao da misteriosa tábua da qual falamos?

O Imperador e a Imperatriz (Cartas números III e IV) recordam-nos o Rei e a Rainha das Bodas.

As duas colunas que podemos ver no naipe N.° V do Tarot, apareciam no segundo dia das "Bodas Alquímicas" (Ver notas 27 e 28 às "Bodas Alquímicas"). Trata-se das duas colunas do Templo. O Cupido, que com seus afiados dardos está sempre à espreita dos mortais, encontramo-lo com freqüência ao longo das "Bodas"; não é, pois, estranho vê-lo também no Tarot, no oculto N.° VI, onde se dispõe a disparar, precisamente na mão, de um dos personagens que nele aparece. Ao ler o quinto Dia das "Bodas Alquímicas", veremos que Christian Rosacruz também feriu a mão, "por surpreender-se ao ver sua mãe", Vênus.

Como já comentaremos em uma nota de página à segunda jornada, o naipe N.° VII ou "O Carro" tem também sua relação com as "Bodas Alquímicas", já que as misteriosas siglas S. M. aparecem no centro desta carta. A cerimônia mais misteriosa das "Bodas Alquímicas", narrada no terceiro dia, é aquela na qual os convidados serão pesados. O ato justiceiro terá lugar no Tarot recebendo o nome de «A Justiça», através do oculto N.° VIII no qual apreciamos a espada e a balança. A figura que aparece, bem poderia ser Astrea, deusa da justiça na mitologia grega. O oculto N.° XIII do Tarot, "A Morte", é muito evocador quanto ao mistério que este se refere. Vemos nele as cabeças do Rei e da Rainha, que acabam de ser cortadas pela mortífera foice; trata-se da separação do princípio masculino do feminino.

O anjo alado do naipe N.° XIV do Tarot, que recebe o nome de "A Temperança", bem poderia ser o mesmo que apareceu ao Christian Rosacruz ao princípio das Bodas e que voltou a ver no interior do Palácio.

Uma das passagens mais curiosas do primeiro dia das "Bodas Alquímicas" é aquele no qual Christian Rosacruz se encontra, junto com outros personagens, no interior de uma torre. Todo o relato transcorrido no interior da torre é extremamente simbólico. Não esqueçamos que nas litanias se relaciona à Virgem com a Torre: "Turris Davídica", "Turris Ebumea"... Recordemos também a torre em que, encadeada, estava prisioneira Danae. Não pôde sair dela até que caiu a chuva fecundadora e liberadora de Zeus.

A Dama ordenando que lancem as cordas liberadoras aos prisioneiros da torre e que, sob outra aparência, é no fundo a mesma que apareceu ao Christian Rosacruz ao princípio das "Bodas", está representada no Tarot por "A Estrela" do naipe N.° XVII. No XVI, "A Casa de Deus", aparecia uma torre cujo teto se abre como veremos ocorre também nas "Bodas Alquímicas". E deixou sair dois personagens que saltam e dançam de alegria. Como teremos ocasião de ver no texto das "Bodas", Christian Rosacruz "implorou a misericórdia divina" para que lhe tirasse da torre. As marcas que podem apreciar-se nos joelhos da calça dos personagens do naipe N.° XVI confirmam o desgaste pela prece, que no fundo é quem faz descender a graça liberadora, em que imploraram sua liberação.

O personagem feminino que aparecia no oculto N.° XVII bem poderia ser Isis, a Mãe das Águas, Mãe Natureza enchendo de bens os homens se "suas ambições não fossem tão desmesuradas", como indica um dos poemas que aparecem na primeira Jornada.

O oculto N.° XX do Tarot, "O Julgamento", não está tampouco sem relação com nosso livro. A trombeta que tange o anjo que nele aparece assim como a mensagem que sustenta em

sua mão esquerda, são os mesmos dos quais nos falará a primeira jornada das "Bodas Alquímicas". Esta mensagem não está tampouco sem relação com a recebida pelo protagonista do "Canto da pérola", cujo conteúdo lhe é extremamente familiar, pois se trata das palavras já escritas em seu coração. Na Quinta Jornada (Ver nota 88 às "Bodas Alquímicas") faremos alusão a esta sugestiva carta que é "O Mundo". Como assinalaremos em outra nota, (Ver nota 100 às "Bodas Alquímicas") a Gênese fala, no fundo, da Obra Hermética que, segundo os alquimistas era comparável à Criação do Mundo. O primeiro capítulo da Bíblia ensina mais a gênese do microcosmos filosófico que o do mundo que nos rodeia. Se considerarmos, e esta é a posição do esoterista, que este mundo é um véu, a Bíblia ou qualquer outro livro revelado nos falarão daquilo que está detrás dele.

Algo parecido ocorre com o Tarot e as "Bodas Alquímicas", que não colocaremos na categoria dos livros revelados, mas cujo objetivo é despertar em nós a nostalgia do Mundo de Luz que nosso mundo de trevas recobre e oculta, e indicamos o caminho que se dirige a ele.

Não podíamos deixar de citar, uma vez feitas estas modestas apreciações sobre o Tarot, dois inspirados artigos que sobre o tema apareceram nos números 8 e 9 da revista belga O Fil d'Ariane, e que teremos ocasião de referirmos (tais artigos foram publicados em LA PORTA - MAGIA Ed. Obelisco, Barcelona).

O simbolismo da Rosa-Cruz

Uma análise rigorosa e completa do simbolismo Rosacruz exigiria de antemão o estudo de um grande número de documentos, gravações, textos, etc, muitos dos quais nunca foram publicados. Com estas linhas finais só desejamos colocar algumas apreciações relativas aos dois elementos principais deste simbolismo: a Rosa e a Cruz, que acreditamos, servirão de apoio na hora de interpretar outros símbolos menos fundamentais.

Todo simbolismo é duplo, e isto se verifica ainda mais no caso de uma "Bodas" nas quais, logicamente, casam-se dois elementos. As letras C. R. que apareciam na Fama Fraternitatis e que são verossímeis quão mesmo R. C., siglas da Rosa-Cruz, parecem indicar os dois elementos principais deste simbolismo. C. R., já o assinalamos, designa tanto o protagonista da trilogia rosacruz, Christian Rosacruz, como o mistério da Ressurreição de Cristo: (Christo Resurrectio) ou a Cruz e a Rosa (Crux-cis; Rosa-Æ).

Encontramos o motivo da rosa em quase todos os escritos esotéricos, especialmente os de procedência muçulmana. Recordemos somente a Rosa Cândida, a Rosa da Jerusalém Celeste de La Divina Comédia, obra que, conforme demonstrou Asín Palácios, manifesta uma profunda meditação e inspiração em fontes árabes. Na mística iraniana, a rosa se associava à Daena, o anjo feminino hierofante da alma do místico que, acreditam, aparece também representado na primeira jornada das "Bodas Alquímicas".

Respirar o perfume embriagador desta "Rosa mística", era uma das maneiras de descrever metaforicamente o arrebatamento místico ou o despertar espiritual. (Respeito ao simbolismo da rosa aconselhamos a leitura do excelente artigo de Raimón Arola publicado no N.° 27 de La Puerta).

Na iconografia cristã, a rosa aparece algumas vezes como a taça que recolhe o sangue de Cristo, o Graal, e em outras como a transfiguração destas gotas de sangue.

Segundo Frederic du Portal (De couleurs symboliques,Paris 1837,págs 218 e ss) "a rosa e sua cor eram símbolos do primeiro grau da regeneração e da iniciação aos mistérios". Recordemos que a etimologia de rosa-Æ procede de ros-ris, rocio, chuva, um dos símbolos da bênção que dá entrada aos Santos Mistérios. Trata-se da Torah dos hebreus, como nos deixa entrever o Zohar em suas primeiras páginas.

Como a Daena iraniano, perfeitamente evocada no traje luminoso do Canto da Pérola, a Rosa procura encarnar-se, notar-se no mundo da matéria, reunir-se com seu contrapartida terrestre: a Cruz.

Anterior ao cristianismo, o simbolismo da Cruz enriqueceu-se prodigiosamente com ele. Se estudarmos um pouco a fundo, o cristianismo primitivo conheceremos o sugestivo tema da "cruz luminosa", especialmente em "Os Atos de João". Nele narra-se a experiência que este apóstolo teve na montanha "para ouvir o que um discípulo tem que aprender de seu Mestre e um homem de seu Deus"; onde gozou da visão da cruz luminosa e pôde escutar as seguintes palavras: "João, é necessário que algum homem ouça de mim estas coisas; necessito que um homem me entenda. Por culpa sua chamei esta cruz de luz: ora palavra, ora inteligência, ora Jesus, ora Cristo, ora porta, ora caminho, ora pão, ora semente, ora ressurreição, ora Filho, ora Pai, ora Espírito, ora vida, ora verdade, ora fé, ora graça. Recebe todos estes nomes por culpa dos homens. Em realidade, concebida por si mesmo e expressa exteriormente para vós, é a marca que distingue a todas as coisas, a força que mantém as coisas fixas... "Esta cruz, pois, reúne todas as coisas nela por uma palavra e as separa das coisas inferiores e, sendo única, devolve todas as coisas à unidade. Mas não é a cruz de madeira que verá indo daqui..." (Atos de João XCVIII-XCIX).

Jesus Cristo, neste parágrafo tão poético como revelador, deixa bem claro que sua cruz não é a de madeira, aquela idolatrada há vinte séculos, e sim uma uma mais real, que transcende as noções de espaço e tempo às quais nos condicionamos. O sentido profundo da religião cristã, sua originalidade mais genuína baseia-se, a nosso entender, na compreensão profunda e a realização do mistério desta cruz luminosa.

Outros textos, entre eles a Epístola de Barnabé (IX-9) relacionam a cruz com a letra Tau que, em grego tem esta forma: T. Barnabé comenta uma curiosa passagem da Gênese fazendo alarde de uma perspicácia própria de um kabalista: "E circuncidou Abraham, em sua casa trezentos e dezoito homens". Barnabé destaca que o texto "põe primeiro os dezoito e, fazendo uma pausa, os trezentos". (Recordemos que este autor se apoiava em uma tradução grega das Escrituras. Ver Gênese XVII). Isto se deve, segundo ele, a que dezoito se compõe de 1 e que vale 10 e de H, que vale 8, logo: IH (óï õæ) (O nome de Jesus). O T, que vale 300 representa a cruz. Por outra parte, o 18 ou 14 correspondem, como a Rosa, ao aspecto volátil ou celeste, enquanto que T, a Cruz, ou o 300 correspondem ao terrestre, ou que está fixo. Assim como dissemos que a Rosa procura fixar-se, encarnar-se, a IH a que alude Barnabé seria o que os kabalistas chamariam a Sabedoria, que busca quem a receba, quem a acolha e fixe-a. É a bênção errante que grita aos homens, mas estes não a escutam; não esqueçamos a oração hebraica das 18 Bênçãos. Nisto baseia-se todo o sentido profundo da hospitalidade, tão importante nas civilizações tradicionais.

Como acabamos de ver na magnífica passagem dos Atos do João, a Cruz é a "força que mantém todas as coisas fixas"; não sem razão era, entre os alquimistas, o símbolo do sal, capaz de fixar o orvalho celeste. Na Rosa, recordemos sua etimologia, e a Cruz consiste, pois, todo o segredo das "Bodas"... Mas não só a Rosa procura à Cruz... O ser humano, nostálgico de suas origens de luz, deseja unir-se e comungar com esta rosa mística, e o único caminho para chegar a isso é através de sua vida encarnada, de sua Cruz.

Como afirma um texto muçulmano opondo-se àqueles que acreditam cegamente em uma

liberação post mortem: "OH Amigo!, tenha esperança nele enquanto viva, pois na vida reside a liberação". Uma das obras mais divertidas e edificantes da antigüidade, O Asno de ouro ou A Metamorfose de Apuleyo nos relatam a história de um homem, Lucius, passando por uma série de desventuras sob a forma de um asno, até que consegue comer uma rosa vermelha, consagrada à Isis. É a história da Queda e da Redenção. Esta história seria a melhor explicação do adágio rosacruz: Per Crucem ad Rosam. Lucius, como seu nome indica, é a luz prisioneira no ser humano, o homem interior cansado que tem que comungar com a Rosa para desfazer-se de sua pele de besta e recuperar sua dignidade perdida. Mas, qual é o papel do asno? Tudo depende de onde nos situemos. Este animal, símbolo de Tufão entre os egípcios, representa o homem exterior, à pele de besta que nos recobre e nos oprime. (Ver nossa introdução ao Apocalipse de Esdrás, obra publicada nesta mesma coleção. Como Adão e Eva, Lucius peca por curiosidade, mas do mesmo modo, tal e como o afirmam vários santos padres, sem o Adão, Cristo não seria possível, se Lucas não tivesse pecado, nunca chegaria a comungar com Isis). Entretanto, se considerarmos de um ponto de vista mais elevado, veremos que em suas costas se desenha a forma de uma cruz. É, pois, através dele, por mais horroroso que nos pareça, como podemos chegar até Isis e comer a Rosa. Esta "pele de besta", cruz dolorosa, resultado da Queda, será, indiretamente, quem nos permita alcançar a regeneração; por isso, temos que cantar, como o tem feito durante muitos séculos a Igreja: Felix Culpa! Feliz Culpa!



Aquele que não leve sua cruz e não me siga, não poderá ser meu discípulo. Lucas X-28

Juli Peradejordi



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