As Bodas Alquímicas de Christian Rosenkreutz



Baixar 463.61 Kb.
Página5/9
Encontro19.07.2018
Tamanho463.61 Kb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9
NOTA À TERCEIRA JORNADA

1- Quintiliano, em seu tratado da Música fala desta música "deliciosa, admirável, como não ouvira nunca em sua vida" Christian Rosacruz.

2- Como todas as plantas que permanecem verdes no inverno, o louro associa-se à idéia da imortalidade. Para os romanos era o emblema da glória. Consagrado ao deus Apolo, utilizavam-se coroas de louro para coroar aos heróis. A "Coroa de Glória" tem, entretanto, na Tradição Hebraica, um significado mais sagrado corresponde à Kether dos kabalistas, que está relacionada com uma passagem do Livro dos Provérbios (ver Prov. I-9 e 9).

3- Para o poeta latino Prudêncio, os sete pesos são o símbolo das sete virtudes. Que uma virtude não pese em nós, quer dizer que carecemos dela, por isso, necessariamente, temos o vício que lhe opõe.

4- Os Artistas são, já o vimos, os alquimistas. É, ridículo pretender ser alquimista sem gozar da bênção divina, sem ser "eleito".

5- O vermelho é a cor da vida e da encarnação; o veludo evoca um tipo de pele ou terceiro cabelo que, depois da pele e do cabelo que conhecemos, pode revestir o homem. Trata-se do "vestido de glória" de que falam o Livro de Henoch (LXII-15 e 16) e o Canto da Pérola.

6- Pedra panacéia, Lapis Spitalauficus é a falsa pedra filosofal que pretendiam fazer e vender os "Sopradores de Carvões"; prometiam-na a ingênuos aos quais enganavam em troca de grandes somas de dinheiro.

7- Número sagrado dos Templários, recordemos que a torre templária tinha oito lados, o oito possui um simbolismo apaixonante, expressa o que está além dos sete planetas, o que transcende o determinismo astral. Se no Antigo Testamento vemos que o sete aparece constantemente, no Novo o número chave é o oito, que anuncia a beatitude do sæculum venturum, do mundo que vem. Essa é a razão pela qual entre os gnósticos o oito simbolizava a ressurreição.

8- Alusão ao célebre Vellocino de Ouro da história dos Argonautas. Em outro lugar assinalamos o sentido profundamente alquímico do Vellocino ou Tosão de Ouro (ver A Entrada Aberta... op, cit., pág. 31). Ver também o Apêndice que aparece ao final desta edição das "Bodas Alquímicas".

9- O leão, através do signo astrológico de Leão, evoca a fixidez. O leão voador indica que o que era fixo foi feito volátil; é um termo bastante usual entre os alquimistas, que o identificavam ao dissolvente universal da Natureza.

10- Ver I Coríntios X-32.

11- Esta passagem concorda perfeitamente com o décimo segundo capítulo da "Confissão". Ver Apêndice.

12- Já antes do século IV as autoridades eclesiásticas condenaram as obras consideradas heréticas e proibiram sua leitura. O chamado canon Muratori, que data de finais do século II ou princípio do III, além da contagem dos livros sagrados, propõe uma lista dos livros heréticos proibidos aos fiéis. A invenção da imprensa e a Contra-reforma só acentuaram e desenvolveram estas medidas. Em 1571, pouco depois do Concílio de Trento, foi criada a Congregação do índice, com o fim de censurar corrigir as obras suspeitas. O Código de Direito Canônico proibe a leitura de versões da Escritura não passadas, livros que fomentem a irreligiosidade ou as heresias, livros contrários aos bons costumes, livros anti-católicos, livros editados sem autorização eclesiástica, livros de erotismo, etc.

O índice Expurgatório, resultado destas medidas, era um catálogo de livros cuja publicação e venda estavam proibidas provisoriamente, até que fossem corrigidos. Expurgatório, de purgar, purgar, limpar, indica que estes livros não vão ser proibidos, mas sim algumas passagens, cláusulas ou palavras vão ser apagados, limpos ou censurados.

13- Filho de Júpiter ou Juno. Vulcano era o Deus dos ferreiros, e simbolizava, para os alquimistas o Fogo dos Filósofos. Entretanto, é bastante usual dizer Vulcano em vez de fogo.

14- Aqui e ss. expõem-se o binômio de Newton e as bases do cálculo binário.

15- Trata-se da água do Leteo, o rio do esquecimento, rio dos infernos, cuja água tinham que beber os mortos esquecendo-se de todo o passado.

16- O Unicórnio, como o leão, é um dos símbolos de Mercúrio. Em francês, Unicórnio se chama Licorne, palavra formada por lion, leão e corne, corno.

Segundo o Talmud (Zebahim, 113 b), o Unicórnio se salvou do Dilúvio apesar de não poder entrar na Arca, por causa de seu grande tamanho, graças a seu corno, com o que fixou-se nesta. Dentro do simbolismo cristão, o Unicórnio e o leão são símbolos de Cristo.

17- Na astrologia, Leão é um signo fixo e de fogo; por isso o leão se associou sempre ao fogo, ao Sol. Como o Unicórnio, o Leão indicava entre os alquimistas um dos dois aspectos de Mercúrio dos Sábios.

18- Aqui confirma-se que o Leão simboliza o fixo, daí "imobilidade completa". Observemos que nesta passagem relaciona-lhe com a espada, símbolo alquímico do fixador.

19- Ver Gênese VIII-11.

20-Trata-se de uma alegoria ao batismo pela água, assim como às abluções purificadoras dos Mistérios ou ao dissolvente hermético.

21- O autor refere-se aqui à última cena deste terceiro dia.

22- Não se conhece nenhuma obra de Andreae consagrada especialmente à ave Fênix; entretanto. Outro rosacruz, Miguel Maier, publicou em 1622 umas Cantilenæ Spirituales de Phoenice Redivivo (Canções intelectuais a respeito da ressurreição do Fênix). De grande beleza e interesse. É, possível que existam edições anteriores desta obra que, como era costume, circulou longo tempo em forma de manuscrito antes de publicar-se.

23- Os Filósofos Herméticos utilizaram freqüentemente o termo "tumba" para alegorizar a putrefação da matéria da obra. São correntes em seus livros expressões como "agarra terra da tumba" ou "pôr nosso Rei, em sua tumba". Para outros, a tumba ou o sepulcro são o símbolo do corpo hermético. Por outra parte, misticamente falando, a tumba é um símbolo da memória profunda.

24-Referimo-nos já ao Atlas na nota 18 da segunda Jornada. Vemos que aqui lhe relaciona com o Globo terrestre e a cartografia. O simbolismo do Globo terrestre é muito misterioso e resulta curioso e significativo observar que quase todas as virgens negras têm em sua mão um destes globos. Não podendo dizer aqui mais que Christian Rosacruz, aconselhamos ao leitor que medite este parágrafo. A visita ao interior do Globo ilustra o conhecido adágio hermético que diz: "Visita o interior da terra, retificando achará a pedra oculta medicina universal" (Visita interiore teerrum retificando invenies occultum lapidem universalem medicinam): V.I.T.R.I.O.L.U.M.

25- O carbúnculo, que na Idade Média recebia o nome de "granada nobre", era uma pedra imaginária, de grande luminosidade, "capaz de iluminar uma habitação".

26- Devemos a solução deste enigma nada menos que ao Leibniz, que também foi rosacruz (ver A Entrada Aberta... op. cit., pág. 11, nota 6). Colocando o valor numérico das letras (A= 1, C=3, L=12, etcétera), este autor descobriu que se tratava de A.L.C.H.I.M.I.A.

QUARTA JORNADA

Ainda descansava na cama contemplando tranqüilamente os quadros e as admiráveis estátuas quando, de repente, escutei os acordes da música e o repico do triângulo; dir-se-ia que a procissão já estava em marcha. Meu pajem saltou do leito como um louco, com o rosto tão alterado que mais parecia morto que vivo.

Foi muita minha angústia quando me informou que naquele momento meus companheiros seriam apresentados ao Rei. Enquanto vestia-me com presteza amaldiçoei minha preguiça e chorei muito. Meu pajem preparou-se antes de mim e saiu correndo da habitação para ver como andava a coisa. Voltou imediatamente com a feliz notícia de que nada se perdera, só faltara ao café da manhã, não queria despertar devido a minha avançada idade; mas, já era o momento de seguir à fonte na qual se reunia a maior parte de meus companheiros. Esta notícia aplacou minha angústia, terminei de me vestir e segui o pajem até à fonte. Depois das devidas saudações, a virgem zombou de minha preguiça e conduziu-me à fonte pegando minha mão. Comprovei que o leão tinha uma grande laje gravada em vez da espada. Observei atentamente. Descobri que fora tirada dentre os monumentos antigos e colocada ali, expressamente, para aquela ocasião. A gravação parecia um pouco borrada por causa de sua antigüidade. Reproduzo-a para que cada qual possa meditar sobre ela.

HERMES (1) PRINCEPS, POST TOT ILLATA GENERI HUMANO DAMNA,

DO CONSILIO:

ARTISTIQUE ADMINICULO, MEDECINA SALUBRIS FACTOS;

HEIC FLUO.

BIBAT EX ME QUI POTEST;

LAVET QUI VULT;

BIBITE FATRES,

ET VIVITE. (2).

Esta inscrição era fácil de ler e de entender; colocaram-na ali porque era mais fácil de decifrar que qualquer outra.

Após lavarmo-nos em primeiro lugar nesta fonte, bebemos em uma taça de ouro. (3) Depois, voltamos com a virgem à sala para colocarmos novas vestimentas. Estas vestimentas mostravam adornos dourados e bordados de flores, e além disso, cada um recebeu outro Vellocino guarnecido com brilhantes. Todos estes Vellocinos difundiam influxos segundo seu poder de operação particular. Neles pendurava uma pesada medalha de ouro em cuja face se viam o Sol e a Lua enfrentados. (4) No reverso tinha escritas estas palavras: "O resplendor da Lua igualará ao resplendor do Sol, e o resplendor do Sol se fará sete vezes mais brilhante". Nossos anteriores adornos foram depositados em caixas e confiados a cada um de nossos servidores. Depois, nossa virgem fez-nos sair em ordem.

Na porta esperavam-nos os músicos vestidos com veludo vermelho debruado de branco. A seguir abriu-se outra porta, que antes sempre vira fechada, dando à escada do Rei.

A virgem fez-nos entrar com os músicos; subimos trezentos e sessenta e cinco degraus. Nesta escada tinha reunidos muito belos trabalhos artísticos e quanto mais ascendíamos mais admiráveis eram: por fim, chegamos numa sala repleta de pinturas.

Ali aguardavam sessenta virgens, todas vestidas com opulência; inclinaram-se quando nos aproximamos e lhes devolvemos a saudação o melhor que soubemos; logo foram despedidos os músicos que tiveram que voltar a descer pela escada. Ao soar uma campainha apareceu uma formosa virgem que deu a cada um uma coroa de louro; à nossa virgem entregou-lhe um ramo. Depois elevou-se uma cortina e vi o Rei e a Rainha.

Quanto esplendor e majestade!

Se não recordasse os sábios conselhos da rainha de ontem, compararia, transbordando entusiasmo, esta inenarrável glória com o céu. Certo é que a sala resplandecia de ouro e pedrarias, mas o Rei e a Rainha eram de tal maneira, que meus olhos não podiam agüentar seu brilho. Até aquele dia admirara muitas coisas belas, mas agora as maravilhas se ultrapassavam umas a outras como umas a outras se ultrapassavam no céu as estrelas.

Ao aproximarem-se as virgens, cada companheira tomou um de nós pela mão e apresentou-nos ao Rei com uma profunda reverência; depois, a virgem falou nestes termos:

"Em honra de Suas Reais Majestades, Graciosíssimos Rei e Rainha, os senhores presentes confrontaram a morte (5) para chegar até aqui. Suas Majestades alegrar-se-ão disto com razão, pois a maior parte estão qualificados para engrandecer o reino e os domínios de Suas Majestades, com a humilde súplica de que minha missão se considere terminada e de que se conheça de como cumpri interrogando a cada um".

Depois, depositou seu ramo de louro.

Naquele instante seria conveniente, que alguém dentre nós, dissesse algo.

Mas, como estávamos muito emocionados para falar, foi o velho Atlas quem adiantou-se e disse em nome do Rei:

"Sua Majestade Real alegra-se com a chegada de todos e concede-lhes sua graça real a todos juntos e igualmente a cada um em particular. Está muito satisfeito do cumprimento da sua missão, querida virgem, e o Rei reserva um dom à você. Sua Majestade pensa, não obstante, que ainda deveria guiá-los hoje, pois não podem deixar de ter uma grande confiança em você."

A virgem recolheu com humildade seu ramo de louro e retiramo-nos, pela primeira vez, acompanhados por nossas virgens.

A sala adiante era retangular, cinco vezes mais larga do que longa, (6) mas, no outro extremo, tinha a forma de um semi-círculo e seguindo a circunferência do círculo estavam dispostos três formosos tronos; o central era um pouco mais alto. O primeiro trono estava ocupado por um ancião rei de barba cinza, a esposa ao contrário, era muito jovem e admiravelmente formosa. (7) Um rei negro em plena maturidade ocupava o terceiro trono, e a seu lado via-se uma velha mãe, velada e sem coroa.

O trono central estava ocupado por dois adolescentes coroados com louro e por cima de ambos tinha suspensa uma enorme e formosa diadema. Naquele momento não eram tão belos como imaginava, mas não sem razão.

Vários homens, a maior parte anciões, estavam colocados atrás deles em um banco circular. O que surpreendia era que ninguém levava espada, nem arma alguma.(8) Além disso, tampouco vi guardas, somente determinadas virgens as mesmas que nos acompanharam no dia anterior, que se colocaram ao longo dos dois bancos que estavam em semi-círculo.

Não posso omitir que o pequeno Cupido (9) revoava por ali. A grande coroa o atraía de uma forma particular e podia ver-se dando voltas preferencialmente ao seu redor. Às vezes, colocava-se entre os dois amantes acenando seu arco e sorrindo; inclusive fazia o gesto de nos apontar com seu arco. Enfim, era tão malicioso este pequeno deus que não deixava tranqüilos nem aos pássaros que, em grande número, revoavam pela sala. Era a alegria e a distração das virgens e quando o pegavam, custava-lhe grande esforço escapar. De modo que todo o regozijo e deleite vinham por este menino. Diante da Rainha havia um altar de pequenas dimensões, mas de uma beleza incomensurável; sobre ele havia um livro coberto com veludo negro, (10) realçado só com alguns singelos adornos de ouro. Ao lado do livro uma luz num castiçal de marfim. Mesmo pequena, esta luz ardia sempre sem apagar-se, com uma chama tão imóvel. Supúnhamos não ser fogo, só víamos quando o peralta Cupido soprava em cima da chama de vez em quando. Junto deste castiçal havia uma esfera celeste que girava ao redor de um eixo, depois um pequeno relógio musical, junto a uma pequena fonte de cristal da qual emanava um jorro contínuo de limpa água, de cor vermelha sangue. Ao lado, uma caveira, (11) refúgio de uma serpente branca de tal longitude que, apesar de que rodeava outros objetos, tinha a cabeça em um olho e a cauda no outro. De modo que nunca saía inteiramente da caveira. Mas, quando o Cupido vinha beliscá-la, entrava com uma velocidade enorme.

Além deste pequeno altar, observavam-se em qualquer parte na sala, maravilhosas imagens que se moviam como se estivessem vivas, com uma fantasia tão surpreendente que me é impossível descrever. Quando saíamos, elevou-se na sala um canto de tal suavidade que não saberia dizer se brotava do coração das virgens que ali estavam, ou das mesmas imagens.

Saímos da sala com as virgens, satisfeitos e contentes pelo recebimento. Os músicos esperavam-nos no patamar e descemos em sua companhia; por trás de nós fecharam a porta cuidadosamente e colocaram os ferrolhos. Quando retornamos à sala, uma das virgens exclamou:

"Irmã minha, estou admirada por se atrever a mesclar-se com tanta gente".

"Querida irmã - respondeu a presidente -, este dá mais medo como nenhum outro".

E apontou-me enquanto dizia. Estas palavras causaram-me pena pois compreendi que zombavam de minha avançada idade, pois com efeito, eu era o mais velho. Mas, não demorou para me consolar com a promessa de me desembaraçar desta condição continuar gozando a seu favor. (12) Serviram-nos a comida e cada um tomou assento ao lado de uma das virgens, cuja instrutiva conversação absorveu nossa atenção. Porém, não me é dado revelar os temas de seus bate-papos nem de seus recreios. As perguntas da maioria de meus companheiros versavam sobre as artes, e disso deduzi que a preocupação primitiva de todos, tanto anciões como jovens, era a arte. Entretanto, eu estava obcecado pelo pensamento de voltar a ser jovem e causava pena isso. A virgem o compreendeu claramente e disse:

"Sei bem o que falta a este jovem. Quem aposta que amanhã estará mais contente, se me deitar com ele esta noite?"

Estas palavras provocaram uma gargalhada geral, embora minha cara se cobriu de rubor, tive que me unir às risadas provocadas por meu infortúnio. Todavia, um de meus companheiros encarregou-se de vingar esta afronta, dizendo:

"Espero que não só os convidados, mas também as virgens que nos acompanham, não neguem em testar tal favor à nosso irmão e certifiquem-se que nossa presidente prometeu de modo formal compartilhar sua cama esta noite."

Esta resposta satisfez-me grandiosamente, entretanto, a virgem replicou:

"Sim, mas aqui também estão minhas irmãs, e nunca permitiriam-me guardar o mais belo, sem seu consentimento."

"Querida irmã - mediu uma delas -, estamos muito satisfeitas ao comprovar que suas altas funções não lhe tornaram altiva. Com sua permissão queríamos jogar na sorte os senhores que aqui há para reparti-los entre nós como companheiros de cama; mas terá, com nosso consentimento, a prerrogativa de guardar o teu".

Seguimos a conversação deixando de brincar sobre este tema.

Todavia, nossa virgem não quis nos deixar tranqüilos e insistiu:

"Meus senhores, deixemos à sorte o cuidado de escolher os que dormirão juntos hoje?"

"Bem, ­ disse -, senão houver outro remédio, não podemos rechaçar esta oferta".

Achamos mais conveniente fazer a experiência imediatamente depois da comida, e ninguém querendo atrasar-se por mais tempo, levantamo-nos dispostos da mesa, sendo imitados por nossas virgens. Porém, a presidente nos disse:

"Não, ainda não chegou o momento. Vejamos, não obstante, como nos unirá a sorte." Abandonamos nossas companheiras para discutir a maneira de realizar tal projeto, mas foi inútil porque as virgens nos separaram delas ex-professo. Em seguida, a presidente nos propôs colocarmo-nos em círculo, sem ordem certa; contaríamo-nos, começando por ela mesma, e o sétimo deveria unir-se com o sétimo seguinte, fosse quem fosse. Não suspeitamos nenhuma armadilha, porém as virgens eram tão espertas que ocuparam locais determinados, enquanto nós estávamos misturados ao azar. A virgem começou a contar; depois dela a sétima pessoa foi uma virgem, em terceiro lugar outra virgem, e assim seguiu a coisa até que, com grande admiração de nossa parte, saíram todas as virgens sem que nenhum de nós pudesse deixar o círculo. Ficamos, pois, sozinhos, expostos às risadas das virgens e tivemos que admitir que nos enganaram de forma muito hábil. Com segurança, qualquer um que nos visse na ordem em que estávamos, apostaria que desabaria o céu, se não fossemos eliminados. Assim terminou o jogo, e deixamos as virgens zombarem por nossa conta. Entretanto, o pequeno Cupido veio unir-se a nós de parte de Sua Majestade Real, cuja ordem circulou entre nós uma taça; pediu a nossa virgem que se apresentasse ao Rei e declarou logo que não podia ficar entre nós mais tempo para distrairmos. Como a alegria é contagiosa, meus companheiros organizaram em seguida um baile, com a aprovação das virgens. Preferi ficar à parte e tive o grato prazer de olhá-los, pois vendo meus mercurialistas mover-se com tanta cadência, tomar-lhes-ia por professores consumados nesta arte.

Logo retornou nossa presidente e nos anunciou que os artistas e os estudantes puseram-se a disposição de Sua Majestade Real para representar, antes de que se partisse, uma alegre comédia em Sua honra e recreação; seria do agrado de Sua Majestade Real e estaria graciosamente reconhecida se assistíamos à representação e acompanhávamos a Sua Majestade à Casa Solar.(13) Agradecendo respeitosamente a honra que nos conferia, oferecemos humildemente nossos serviços, não só neste caso como em qualquer circunstância. A virgem transladou esta resposta e retornou com a ordem de que nos colocássemos no caminho de Sua Majestade Real. Levaram-nos e não tivemos que esperar a procissão real pois já se encontrava ali, embora sem os músicos.

À frente do cortejo avançava a desconhecida Rainha que esteve ontem entre nós, levando uma preciosa coroa pequena, forrada de cetim branco; só tinha uma minúscula cruz feita com uma pérola que seria colocada hoje mesmo entre o jovem Rei e sua prometida. Seguiam a rainha as seis virgens nomeadas antes que avançavam em duas filas levando as jóias reais que vimos expostas sobre o pequeno altar. Depois vinham os três reis, com o noivo no meio. Iam mal vestidos, de cetim negro à moda italiana, usavam um pequeno chapéu "redondo e negro" adornado com uma pluma negra e bicuda. Para mostrar-nos sua benevolência tiraram o chapéu amigavelmente ante nós, que, como antes, inclinamo-nos. Os três reis foram seguidos por três rainhas duas das quais foram ricamente embelezadas; ao contrário da terceira, que ia no meio das outras, vestida de negro e o Cupido levava-lhe a cauda do vestido. Disseram-nos que devíamos seguir nós. Detrás vinham as virgens e, finalmente, o velho Atlas fechava a procissão. Assim chegamos, atravessando muitos lugares admiráveis, à Casa Solar onde tomamos assento para assistir à representação em um estrado precioso não longe do Rei e da Rainha. Estávamos situados a direita dos Reis, embora separados deles, e as virgens a nossa direita, salvo aquelas a quem a Rainha dera insígnias. Estas tinham lugares reservados acima, enquanto os restantes servidores contentaram-se com lugares entre as colunas, totalmente abaixo.

A comédia sugere muitas reflexões particulares, de modo que não posso omitir contar aqui o argumento embora em brevidade: (14)

PRIMEIRO ATO:

Aparece um rei ancião rodeado de seus servidores; entregam-no um cofrinho dizendo que o encontraram sobre as águas. (15) Ao abri-lo descobrem uma formosa menina, a seu lado umas jóias e uma carta em pergaminho dirigida ao rei. Este rompe o selo e uma vez lida a carta põe-se a chorar. Logo diz à seus cortesãos que o rei dos negros invadiu e devastou o reino de sua prima e que exterminou toda a descendência real, exceto a menina.

O rei pretendia unir seu filho à filha de sua prima; jura ódio eterno ao rei negro, a seus cúmplices e decide vingar-se. Então ordena que se eduque à menina com esmero e que se façam preparativos de guerra contra o negro. Estes preparativos, assim como a educação da menina - uma vez crescida um pouco, confiou sua educação a um preceptor – terminam o primeiro ato desenvolvido de modo muito agradável e com grande finura.

ENTREATO:

Houve um combate entre um leão e um grifo; (16) vimos perfeitamente como venceu o leão.

SEGUNDO ATO:

Transcorre em casa do negro. Este pérfido acaba de saber, raivoso, que o assassinato foi descoberto e que, além disso, astutamente, escapou-lhe uma menina. Medita sobre as artimanhas que poderá empregar contra seu capitalista inimigo, escuta seus conselheiros, gente acossada pela fome, refugiados junto dele. Inesperadamente, a menina cai de novo em suas mãos e mata-la-ia imediatamente senão fosse enganado de modo singular por seus próprios cortesãos. Este ato termina, pois, com o triunfo do negro.

TERCEIRO ATO:

O rei reúne um poderoso exército e o põe às Ordens de um velho e valoroso Cavaleiro, quem irrompe no reino do negro, libera a jovem de sua prisão e veste-a ricamente. (17) Ato seguido constroem rapidamente um estrado admirável onde colocam a virgem. Chegam doze enviados do rei. (18) Então, o ancião Cavaleiro toma a palavra e diz à virgem que seu gracioso Senhor, o Rei, não só a via como filha do Faraó (ver Êxodo II) como também simbolizando o mesmo. Não se trata da eterna história do homem abandonado a mercê das ondas do mundo cansado que, graças ao amor de uma deusa ou um adepto, volta a recuperar seu estado real?

Liberada pela segunda vez da morte, depois de dar-lhe régia educação; e apesar disso, ela não se comportar sempre como deveria; mesmo assim, Sua Majestade Real, escolhera-a como esposa para seu jovem senhor e filho, ao qual dera ordem de preparar os esponsais. Depois, faz a leitura de umas condições que mereceriam ser contadas aqui, caso não fosse por sua longa extensão. A virgem jura observá-las com fidelidade, manifestando graciosamente seu reconhecimento pela ajuda e os favores que lhe foram outorgados. Este terceiro ato acaba com cantos do Rei e da virgem, elogiando a Deus.

ENTREATO:

Mostram-nos os quatro animais de Daniel (19) como lhe apareceram em sua visão e do modo como os descreve detalhadamente. Tudo isto tem um significado muito preciso.

QUARTO ATO:

A virgem recuperou seu perdido reino; coroam-na e aparece no lugar em todo seu esplendor, entre gritos de alegria. A seguir entram muitos embaixadores para lhe transmitir suas congratulações e para admirar seu excelsitude. Mas ela não persevera muito tempo na piedade e começa a dirigir olhares desavergonhados ao seu redor, a fazer gestos aos embaixadores e aos senhores, não mostrando, certamente, discrição alguma.

O negro, sabedor dos costumes da princesa, habilmente tira partido desta situação. A princesa, burlando a vigilância de seus conselheiros, facilmente se deixa cegar por uma falaciosa promessa e, desconfiando de seu Rei, entrega-se pouco a pouco secretamente ao negro. Este acode e, quando ela consente em reconhecer seu domínio, subjuga todo o reino por meio da princesa. Na terceira cena deste ato o negro a leva, nua por completo, ata-a ao pelourinho de um grosseiro patíbulo e açoita-a. Finalmente, condena-a a morte.

Era tão penoso ver tais coisas que as lágrimas fluíam dos olhos de muitos de nós.

Continuando, a virgem é arrojada totalmente nua a um calabouço aguardando que a matem envenenando-a. Entretanto, o veneno não a mata, produzindo nela a lepra. (20)

Este ato tem acontecimentos lamentáveis.

ENTREATO:

Expõe-se um quadro representando Nabucodonosor levando emblemas de toda classe, na cabeça, no peito, no ventre, nas pernas, nos pés, etc. Voltaremos a falar dele mais adiante.

QUINTO ATO:

Explicam ao jovem rei o ocorrido entre sua futura esposa e o negro. Dirige-se a seu pai rogando-lhe que não lhe abandone nesta aflição. O pai atendeu ao seu pedido. Enviam-se embaixadores para consolar à doente em sua prisão e para repreendê-la por seu comportamento. Todavia, ela nega-se a recebê-los e consente, em troca, transformar-se na concubina do negro, tudo isso é transmitido ao rei.

Aparece agora um coro de loucos, todos eles providos de fortificações. Com estes se constrói uma grande esfera terrestre e derrubam-na a seguir. Foi uma representação fina e graciosa.

SEXTO ATO:

O jovem rei desafia o negro ao combate. O negro morre, o rei é deste modo dado por morto. Entretanto, recupera o sentido, libera a sua prometida e retorna para preparar as bodas; enquanto isso, confia-a a seu intendente e a seu capelão. Em primeiro lugar, o intendente a atormenta muito; depois, chega a vez do monge, voltando-se tão arrogante, que pretende dominar o mundo inteiro. Quando o jovem rei se inteira disto manda com toda rapidez um enviado que quebra o poder do empregado e começa a preparar a noiva para as bodas.

ENTREATO:

Apresenta-se um enorme elefante artificial que transporta uma grande torre cheia de músicos, tal coisa olhamos com agrado.

SÉTIMO E ÚLTIMO ATO:

O noivo aparece com uma magnificência inenarrável -pergunto-me como haverão podido realizá-lo-. A noiva vai a seu encontro com a mesma solenidade. A seu redor o povo grita: Vivat Sponsus, Vivat Sponsa. (21)

E assim, com esta comédia, os artistas festejavam soberbos ao Rei e à Rainha que, facilmente dava-me conta disso, foram muito sensíveis a seu desenvolvimento. Para finalizar, os artistas deram várias vezes a volta ao cenário em uma apoteose e, por último, cantaram em coro.

I

Este dia nos traz uma imensa alegria com as bodas do Rei: cantem todos, pois,



para que ressone: Felicidade a quem nos dá isso.

II

A formosa noiva que aguardamos tanto tempo está unida agora com ele.

Lutamos mas chegamos ao fim. Ditoso o que olhe adiante.

III

Agora, recebam nossos parabéns. Que sua união seja próspera; por longo tempo esteja em tutela. Multiplique-lhes nesta leal união para que milhares de rebentos nasçam de seu sangue.

E a comédia acabou entre aclamações e alegria geral, assim como, com a satisfação particular das pessoas reais.

Finalizava o dia quando nos retiramos na mesma ordem na qual chegamos. Mas, longe de abandonar o cortejo, tivemos que seguir pela escada às pessoas reais até a sala na qual fomos apresentados. As mesas pareciam já servidas com arte e, pela primeira vez, fomos convidados à mesa real. No centro da sala encontrava-se o pequeno altar com as seis insígnias reais que já víramos antes.

O jovem rei mostrou-se, todo momento, muito afável conosco. Não obstante, não lhe via alegre em modo algum, pois, apesar de nos falar de vez em quando, não podia reter os suspiros, por isso o pequeno Cupido zombava dele. Os anciões reis e as anciãs rainhas mostravam-se com muita gravidade; só a esposa de um deles era certamente vivaz, comportamento que eu ignorava a causa. As pessoas reais sentaram-se à primeira mesa, nós o fizemos na segunda; na terceira vimos algumas damas da nobreza. Os demais, homens e donzelas, asseguravam o serviço. E tudo transcorreu com grande correção; de modo muito sossegado e sério, de modo que duvidava em falar por temor a dizer demais. Entretanto, devo declarar que as pessoas reais vestiam roupas de um branco deslumbrante como a neve e que se sentaram à mesa com tais vestidos. A grande coroa de ouro estava pendurada em cima da mesa e o brilho das pedras que a adornavam bastaria para iluminar a sala sem precisar de outra luz.

Todas as luzes prenderam na chama colocada em cima do altar, sem que compreendesse a causa. Além disso, observei com atenção como o jovem rei cuidou de que várias vezes levassem mantimentos à serpente branca, e isso me fez refletir muito. Quase toda conversação no banquete quem fez foi o pequeno Cupido; não deixou ninguém tranqüilo, especialmente a mim. A cada instante surpreendia com alguma novidade.

Todavia, tudo acontecia com a maior calma; não se via nenhuma alegria aparente. Intuí um grave perigo; a ausência de música aumentou minha apreensão; aguçada mais ainda quando nos deram a ordem de responder clara e brevemente se nos perguntasse algo. Em resumo, tudo aquilo tinha um ar tão estranho que o suor impregnou meu corpo; acredito que até ao mais audaz dos homens teria faltado o valor. Terminava a comida quando o jovem rei ordenou que lhe trouxessem o livro colocado sobre o altar. Abriu-o e logo perguntou-nos uma vez mais, por meio de um ancião, se certamente estávamos firmemente decididos a lhe acompanhar acontecesse o que acontecesse. E quando, trêmulos, respondemos afirmativos, voltou-nos a perguntar com certa tristeza se estávamos dispostos a nos comprometer por escrito. Negar-se não era possível. Além disso, assim devia ser. Então, levantamo-nos por turno e cada um estampou sua assinatura no livro.

Quando o último assinou, trouxeram uma fonte e um cubículo, ambos de cristal.

Todas as pessoas reais beberam nele segundo sua hierarquia. Depois apresentaram a nós e, por fim, ao resto dos presentes, e isso foi haustus silentii. (22)

Continuando, todas as pessoas reais estenderam-nos a mão declarando que, posto que dali pra frente não dependeríamos mais delas, não a veríamos nunca mais; estas palavras provocaram-nos o pranto, mas nosso presidente protestou em nosso nome, e as pessoas reais deram-se por satisfeitas com isso. De repente tocou uma campainha e nossas hóspedes reais empalideceram de um modo tão horrível que por pouco perdemos o sentido de medo. Trocaram seus vestidos brancos por roupas inteiramente negras; logo, a sala inteira estava forrada com veludo negro e de idêntico modo a tribuna. Tudo isto preparam de antemão.

Retiraram as mesas e os presentes tomaram assento no banco. Também nós vestimo-nos com roupa negra. Nossa presidente, que acabava de sair, retornou com seis cintas de tafetá negro e com elas enfaixou os olhos das seis pessoas reais.

Uma vez privadas da vista, os servidores trouxeram rapidamente seis ataúdes cobertos e os depositaram na sala. No centro dispuseram um tronco negro e baixo.

Finalmente, entrou na sala um gigante, negro como o carvão, que levava em suas mãos uma afiada tocha. O velho rei foi o primeiro a ser conduzido ao talho; rapidamente cortaram-lhe a cabeça e envolveram-na em um lençol negro. Recolheram seu sangue num grande pote de ouro que deixaram no ataúde a seu lado. Fecharam o ataúde e deixaram-no à parte.

Outros sofreram a mesma sorte e estremeci ao pensar que do mesmo modo chegaria meu turno. Porém, não foi assim, pois o gigante negro retirou-se uma vez decapitadas as seis pessoas. Alguém seguiu-o para cortar a sua cabeça bem diante da porta, retornando com a tocha e a cabeça que foram ambas depositadas em uma caixa.

Certamente, foram umas bodas sangrentas. Mas, como ignorava o que teria que acontecer ainda, dominei minhas impressões e reservei-me emitir um julgamento sobre tudo aquilo. Além disso, nossa virgem, vendo que vários de nós perdíamos a fé e chorávamos, convidou-nos a acalmarmos, acrescentando:

"A vida destes está agora em suas mãos, acreditem-me e obedeçam-me; assim sua morte dará vida a muitos". (23) Depois pediu-nos que repousássemos e desvencilhássemo-nos de qualquer preocupação, pois, o ocorrido era para o bem. Desejou-nos boa noite e anunciou-nos que ela velaria aos mortos. De acordo com seus desejos, seguimos nossos pajens aos aposentos de cada um.

Meu pajem falou-me extensamente de muitos assuntos que me lembro bem. Sua inteligência surpreendeu-me muito, mas acabei dando conta que tratava de que dormisse. Simulei que dormia profundamente. Estava muito acordado, pois, era impossível esquecer-me dos decapitados. A habitação dava ao lago de modo que da cama, colocada junto à janela, podia facilmente percorrer com a vista toda sua extensão. A meia-noite, justo ao sonar as doze badaladas, vi de repente um grande fogo no lago e morto de medo abri rapidamente a janela. Ao longe vi aproximar-se sete naves cheias de luz. Por cima de cada uma delas brilhava uma chama que revoava em qualquer parte, descendo inclusive de quando em quando. Facilmente compreendi que eram os espíritos dos decapitados.

Os navios aproximaram-se lentamente à borda com seu único piloto. Quando abordaram vi que nossa virgem se aproximou deles levando uma tocha; detrás dela traziam os sete ataúdes fechados e a caixa, que foram depositados nos sete navios.

Despertei ao pajem, que me agradeceu isso vivamente; andara muito durante o dia, inclusive prevenindo-se, que poderia dormir enquanto se davam estes acontecimentos.

Uma vez os ataúdes depositados nos navios, apagaram-se todas as luzes. As seis chamas navegaram mais à frente do lago e em cada navio só se via uma pequena luz vigilante. Então, instalaram-se junto ao lago uns cem guardiães que enviaram a virgem ao castelo. Esta passou os ferrolhos cuidadosamente, pelo que inferi que não haveria mais acontecimentos antes de amanhecer. Assim, tratamos de descansar.

De todos meus companheiros, nenhum, salvo eu, tinha o aposento sobre o lago e eu era o único que presenciara a cena; estando tão fatigado, dormi mesmo com as grandes precauções tomadas para não fazê-lo.





Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal