As Bodas Alquímicas de Christian Rosenkreutz



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NOTA À SEXTA JORNADA

1- A escada, a corda ou as asas, tratam-se de três meios para alcançar o mesmo fim. Os três denotam a possibilidade de uma elevação, de uma ascensão.

2- A palavra "física" não significa originariamente quão mesmo hoje em dia. Este termo procede do grego (fisis), natureza, nascimento, produção, palavra derivada a sua vez do verbo (confio), eu nasço, eu produzo. Quando nos convencemos de que tinha saído bem a consciência, pois a virgem temia que a casca estivesse ainda um pouco branda. Estávamos tão contentes ao redor do ovo como se o tivéssemos posto nós mesmos. Mas, rapidamente a virgem fez que o levassem; logo nos deixou também e, como já era costume, fechou a porta. Não sei o que fez com o ovo atrás de sua marcha, não sei se o submeteu a uma operação secreta, embora não acredito.

3- Saúde, Neve, Lança. A lança evoca a morte, ou seja, a cor negra; a neve, a pureza, ou seja, o branco; e a saúde a vida regenerada ou seja, o vermelho. Encontramo-nos, pois, com um resumo da Obra e de suas três cores.

4- Alusão ao "Fiat" (Faça-se) bíblico da Gênese 1-3. A Gênese fala, no fundo, da Obra Hermética que, segundo os alquimistas, é comparável à Criação do mundo. (Ver A Entrada Aberta ao Palácio Fechado do Rei, cap. V-1 e nota L.) Poderia ver-se também aqui uma evocação dos quatro elementos: F=fumus, vapor de água; I= ignis, fogo; A= aer, ar; T= terra, terra.

5- O que o Fogo, o Ar, a Água, a Terra, não puderam arrancar às santas cinzas de nosso Rei e nossa Rainha, a fiel turva dos químicos.

6- 1459. Paracelso do Hohenlieim. Doutor em Medicina. Jesus é tudo para mim.

7- Numerosos som os autores herméticos que declaram que "as cinzas são a diadema do Rei".

8- Eis aqui uma operação perfeitamente resumida pelo autor da Mensagem de novo encontrado: "refaça o barro e coze-o" (XV-68).

9- A alquimia metálica é somente uma das facetas da Grande Arte, desgraçadamente a única conhecida em nível popular, mas que não pode separar-se da Obra de Regeneração. Ver a este respeito nosso artigo "A Grande Arte dos Poetas", publicado em Mundo Desconhecido, N° 6, p 41.

10- Observemos que, apesar da profundidade de seu sonho, Christian Rosacruz não pode já sonhar, chegou a um ponto no qual seus sonhos se realizariam.

SÉTIMA JORNADA

Despertei pouco depois das oito. Vesti-me com rapidez para voltar a entrar na torre, mas eram tantos os caminhos que se foram entre-cruzando na muralha que estive perdido durante bastante tempo antes de encontrar a saída. Os outros tiveram o mesmo problema, mas finalmente nos reunimos na sala inferior. Obtivemos nossos Vellocinos de Ouro e nos vestiram por completo com roupagem amarela. (1) A Virgem disse que éramos Cavaleiros da Pedra de Ouro, coisa que desconhecíamos até o momento.

Tomamos o café da manhã embelezados desta maneira; logo, o ancião deu a cada um uma medalha de ouro. Podíamos ler no anverso estas palavras:

AR. NAT. MI (2)

Enquanto que no reverso se lia:



TEM. NA. F. (3)

Pediu-nos que nunca nos comportássemos de forma distinta ao que indicavam as normas desta medalha comemorativa.

Os navios zarparam. Estavam preparados admiravelmente. Ao vê-los diria que as coisas maravilhosas que contemplávamos neles eram colocadas ali de forma expressa para nós.

Eram doze navios; seis dos nossos e outros seis do ancião. Este ocupou os seus com galhardos soldados e veio ao navio onde estávamos reunidos. Os músicos, dos quais o ancião tinha em grande número, ficaram à cabeça para nos deleitar. Os pavilhões hasteavam os doze signos celestes (4); o nosso levava o signo de Libra (Balança). Entre outras coisas maravilhosas que havia no navio se achava um relógio que marcava cada minuto.

Os navios navegavam com uma rapidez extraordinária; logo que viajávamos umas duas horas o capitão nos avisou que via tão grande número de navios que quase cobriam o lago. Chegamos à conclusão de que nos receberiam, e assim foi com efeito; quando entramos no lago pelo canal já mencionado, contamos em torno de quinhentas embarcações. Uma delas refulgia de ouro e pedraria; levava o Rei e a Rainha, além disso outros senhores, damas e donzelas de nobre berço.

As duas partes dispararam salvas quando estivemos próximas; o ruído produzido pelas trombetas e tambores foi tão estrondoso que os navios retumbavam. Quando finalmente estivemos junto a eles, rodearam nossos navios e pararam. O velho Atlas apresentou-se imediatamente em nome do Rei e falou brevemente, embora com elegância; além de dar-nos as boas-vindas perguntou se estávamos prontos para o presente real.

Alguns companheiros nossos surpreenderam-se ao saber que o Rei ressuscitara, já que estavam convencidos de que eram eles quem tinha que despertá-lo. Não os quisemos tirar de sua surpresa e fingimos estar nós mesmos muito saudosos. Quando Atlas terminou, foi nosso ancião quem tomou a palavra, respondendo um pouco mais extensamente; desejou felicidade e prosperidade ao Rei e à Rainha e entregou logo um formoso cofre. (5) Não sei o que continha, mas vi que se confiou sua custódia ao Cupido que brincava entre ambos.

Terminadas as saudações dispararam uma nova salva e seguimos avançando ainda bastante tempo até que atracamos à borda. Chegamos junto ao primeiro pórtico pelo qual entrei a primeira vez. Nele esperavam-nos uma grande quantidade de serventes do Rei com várias centenas de cavalos.

Ao desembarcar, o Rei e a Rainha estenderam-nos a mão muito amigáveis e tivemos que nos montar nos cavalos.

Desejaria suplicar agora ao leitor que não atribua o seguinte ao meu orgulho, nem ao desejo de me vangloriar; se não fora completamente indispensável o narrá-lo por segurança me calaria com gosto as honras com os quais me trataram, com atenção. Repartiram todos, por turno, entre os distintos senhores. Mas, nosso ancião e eu tivemos que cavalgar para lado do Rei levando uma bandeira branca como a neve, com uma cruz vermelha. Colocaram-me nesse local por causa de minha avançada idade; os dois tínhamos os cabelos cinzas e longas barbas brancas. Como tinha atadas minhas insígnias ao redor de meu chapéu, o jovem Rei as observou rapidamente e interrogou sobre se fora eu quem decifrara os signos gravados no pórtico. Respondi de modo afirmativo, demonstrando um profundo respeito. Riu de minhas maneiras indicando que em diante não havia necessidade de tanta cerimônia: que eu era seu pai. Logo, perguntou como conseguira desempoeirá-los, ao que respondi: "Com água e sal". (6) Então, surpreendeu-se por minha sutileza. Contei-lhe entusiasmado minha aventura com o pão, a pomba e o corvo, escutou-me com benevolência e afirmou que esta era a prova de que Deus me tinha destinado para uma sorte singular.

Desta forma, caminhando, chegamos ao primeiro pórtico e apresentou-nos o guardião vestido de azul. Quando me viu o lado do Rei me pediu respeitosamente que me lembrasse agora da amizade que me manifestara. Interroguei ao Rei sobre este guardião e respondeu-me que era um célebre e eminente astrólogo que gozara sempre de uma alta consideração junto ao Senhor, seu pai. Ocorreu que o guardião ofendera Vênus surpreendendo-a e olhando-a enquanto descansava em seu leito, castigaram-no encarregando o guarda da primeira porta até que alguém o libertasse. Perguntei ao Rei se isso era possível e respondeu:

"Sim; se descobrirmos a alguém que tenha cometido um pecado tão grande como o dele, poremos de guardião na porta e este será liberado." Ao ouvir estas palavras fiquei turbado profundamente já que minha consciência me dizia que era eu mesmo este delinqüente. Não obstante, nada disse e transmiti a petição.

Quando o Rei soube dela teve um sobressalto tão violento que a Rainha, que cavalgava detrás acompanhada pelas virgens e por outra rainha - a qual víramos quando da suspensão dos pesos -, deu-se conta e perguntou a propósito da carta. Nada quis responder e, estreitando a carta contra ele, falou de outra coisa até que chegamos os três ao pátio do Castelo. Desembarcamos dos cavalos e acompanhamos o Rei à sala da qual já falei. O Rei retirou-se imediatamente com Atlas a um apartamento e fez-lhe ler a demanda. Atlas apressou-se a subir ao cavalo para pedir ao guardião que completasse a informação. Logo o Rei sentou no trono e outros senhores, damas e donzelas fizeram o mesmo. Nossa virgem elogiou então a dedicação que demonstramos, nossos esforços, nossas obras; e pediu ao Rei e à Rainha que nos recompensassem sobradamente e que a deixassem desfrutar no futuro dos frutos de sua missão. O ancião levantou-se também e asseverou que seria equânime satisfazer as duas demandas. Tivemos que nos retirar um momento e foi concedido a cada um o direito de formular um desejo que seria escutado, sempre e quando fora realizável, já que se previa com certeza que o mais sábio formularia o desejo que mais lhe conviesse; nos exortaram a que pensássemos sobre a questão até passada a hora da comida.

O Rei e a Rainha, para distrair-se, decidiram jogar. O jogo era parecido ao xadrez, mas tinha outras regras. (7) As virtudes estavam a um lado e os vícios em frente; os movimentos mostravam a forma como os vícios tendem armadilhas às virtudes e como estas devem livrar-se delas. Seria interessante que nós tivéssemos um jogo parecido.

Enquanto, chegou Atlas e deu conta de sua missão em voz baixa. Ruborizei-me, pois minha consciência não me deixava em paz. O Rei estendeu-me a petição e fez que a lesse. Aproximadamente dizia o seguinte:

Em primeiro lugar o guardião expressava ao Rei seus votos de sorte e prosperidade com a esperança de que sua descendência fora muito numerosa. Logo asseverava que chegado era o dia no qual, segundo a promessa real, devia ser liberado, já que, conforme tinha sabor de ciência certa, Vênus tinha sido descoberta e contemplada por um de seus hóspedes. Pedia-lhe, pois, a Sua Majestade Real, que tivesse a bem realizar um interrogatório minucioso; assim confirmaria que estava certo, e se não, comprometia-se a permanecer na porta para toda sua vida. Pedia muito respeitosamente a Sua Majestade que lhe permitisse assistir ao banquete até com risco de sua vida, já que esperava descobrir assim ao malfeitor e obter a liberação tão ansiada.

Tudo isto se expor extensamente e com uma arte inigualável. Na verdade, eu estava em uma situação privilegiada para apreciar a perspicácia do guardião, embora era penosa para mim e preferia não conhecê-la nunca; não obstante, consolei-me ao pensar que possivelmente pudesse lhe dar uma mão. Perguntei ao Rei se não havia outro modo de lhe liberar. "Não - respondeu-me o Rei -, pois estas coisas são muito graves, embora por esta noite podemos acessar a seus desejos." portanto, fez-lhe chamar. Enquanto isso, serviram as mesas em uma sala em que nunca estivéramos; chamava-se o Completo. Estava disposta de uma maneira tão maravilhosa que me é impossível dar uma descrição. Conduziram a ela com grande pompa. Esta vez estava ausente Cupido pois, segundo me informou, a afronta feita a sua mãe o tinha indisposto; assim minha traição, origem da petição, foi causa de uma grande tristeza. Ao Rei repugnava-lhe ter que realizar um interrogatório entre seus convidados, já que teria revelado os fatos a quem ainda os ignoravam. Pelo que, fazendo o possível por parecer alegre, permitiu ao guardião - que já tinha chegado - que exercesse uma estreita vigilância.

Terminamos animando e entretivemo-nos com toda classe de temas prazerosos e úteis.

Não recordarei aqui o menu e as cerimônias, pois não há necessidade disso e tampouco é de utilidade a nosso fim. Tudo era perfeito, além de qualquer mesura, por em cima de qualquer arte ou destreza humana; e não é nas bebidas nas quais penso ao escrever estas palavras. Esta comida foi a última e a mais elogiável de quantas participei.

Depois do ágape tiraram com rapidez as mesas e dispuseram em círculo uns preciosos assentos. Do mesmo modo que o Rei e a Rainha, sentamo-nos neles junto ao ancião, as damas e as virgens. Logo, um belo pajem abriu o livro admirável que já mencionara. Atlas colocou-se no centro do círculo e falou da seguinte maneira:

Sua Majestade Real não esquecera em modo algum, nem nossos méritos, nem a diligência com que desempenhamos nossas funções; para nos recompensar fazia a todos, sem exceção alguma, Cavaleiros da Pedra de Ouro. Era indispensável, pois, que não só prestássemos juramento uma vez mais a Sua Majestade Real, mas sim nos comprometêssemos, além disso, a observar os pontos seguintes. Desta forma, Sua Majestade Real poderia decidir de novo de que maneira deveria comportar-se a respeito de seus aliados. Nesse momento Atlas fez que o pajem lesse os pontos seguintes:

I. Senhores Cavaleiros, têm que jurar que não submeterão sua Ordem a nenhum espírito ou demônio, mas sim a colocarão constantemente sob a única custódia de Deus, seu criador, e de sua servidora a Natureza.

II. Devem repudiar qualquer prostituição, vício e impureza e nunca mancharão sua ordem com esta podridão.

III. Socorrerão com seus dons a todos os necessitados e dignos deles.

IV. Não desejarão lhes servir da honra de pertencer à Ordem para lhes beneficiar da consideração mundana ou o luxo.

V. Não viverão mais tempo que o que Deus disponha.

Este último artigo nos fez sorrir longamente e sem lugar a dúvidas estava para isto.

Fora o que fosse, tivemos que jurar sobre o cetro real. Depois fomos recebidos Cavaleiros com a solenidade costumeira; junto com outros privilégios concedeu-nos poder atuar contra a ignorância, a pobreza e a enfermidade, conforme acreditássemos conveniente. Estes privilégios confirmaram-nos a seguir em uma pequena capela a que nos levaram em procissão. Ali demos graças a Deus e eu pendurei meu Vellocino de Ouro e meu chapéu para glorificar ao Senhor; deixei-os ali em comemoração eterna.

E como nos pediu a assinatura de cada um de nós, escrevi:



Summa Scientia nihil scire

Fr. Christian Rosacruz,

Eques aurei Lapidis

Anno 1459. (8)

Meus companheiros escreveram outras coisas, cada qual segundo sua própria conveniência. Logo levaram-nos de novo à sala; convidando-nos a sentarmos e a decidir claramente os desejos que queríamos formular. O Rei e os seus partiram da sala; depois, cada um foi chamado a ela em separado para expor ali sua petição, por isso, desconheço as de meus companheiros. Pensava que o mais elogiável seria honrar minha Ordem dando prova de uma virtude, e pareceu-me que a melhor seria a do agradecimento. Apesar de que poderia desejar algo mais agradável, dominei meus impulsos e resolvi liberar a meu benfeitor, o guardião, embora fosse perigoso para minha integridade. Quando entrei me perguntaram se não reconhecera ou suspeitara quem era o malfeitor, já que tinha lido a petição. Então, sem nenhum medo, relatei detalhadamente o que tinha passado e de que forma tinha pecado por ignorância, declarando-me disposto a padecer a pena que por aquilo merecia.

Esta tradicional afirmação é a "douta ignorância" de tantos místicos, parece haver sido tomada também por Enrique Cornelio Agrippa que escrevia que "Nihil scire, est veta felicísima" (Não saber nada, é a vida mais feliz). Entretanto, este "nada" que terá que saber, que conhecer, é muito importante para os Filósofos Herméticos. Para o Pernety (Op. cit.) este "nada" é "a primeira matéria de todas as coisas, relatório, como no caos antes da determinação que Deus lhe deu para que se convertesse em tal ou tal coisa existente..." Raimundo Lulio, em sua Teoria, Cap. III, escreve que "Assim terá que compreender esta matéria, como se não houvesse nada que compreender".

O Rei e outros senhores ficaram surpresos por esta inesperada confissão; pediram-me que me fora uns instantes e quando me chamaram de novo, Atlas indicou que Sua Majestade Real estava a causar pena por ver-me neste infortúnio, a mim, a quem Ele queria mais que a todos; mas que Lhe era impossível quebrantar Seu velho costume e que portanto, não encontrava outra solução que liberar o guardião e me transmitir a carga, esperando ao mesmo tempo que outro fora apressado para que eu pudesse voltar a entrar. Não obstante, não se podia esperar nenhuma liberação antes das festas nupciais de seu filho por vir.

Aniquilado com esta sentença, amaldiçoei mil vezes minha boca charlatã por não haver podido calar os fatos; por fim consegui recuperar minha valentia e, resignado à evidência, expliquei como este guardião me entregara uma insígnia e recomendando-me ao guardião seguinte; que graças a sua ajuda fui submetido à prova da balança e desta forma pude participar de todas as honras e nas alegrias; que portanto, justo era mostrar-me agradecido a meu benfeitor e que, já que não podia trocar, agradecia-lhe pela sentença. Pelo resto, faria essa tarefa desagradável em sinal de agradecimento para quem me tinha ajudado a conseguir o resultado. Mas, como ficava por formular ainda o desejo, queria voltar a entrar, com o que liberaria ao guardião e meu desejo, a sua vez, liberaria-me.

Responderam-me que este desejo não era possível, já que do contrário me houvesse bastado solicitado a liberação do guardião. Não obstante, Sua Majestade Real estava contente ao ver que tudo se resolveu com presteza; mas que Ela temia que ignorasse ainda em que miserável condição me tinha posto minha audácia. Naquele momento o bom homem foi liberado e eu tive que me retirar com tristeza. Logo foram chamados meus companheiros e todos retornaram alegres, o qual me entristeceu ainda mais se couber, já que estava convencido de que terminaria meus dias guardando a porta. Meditei sobre as ocupações que me ajudariam a passar o tempo nela; finalmente pensei que, tendo em conta minha avançada idade, não ficavam por viver mais que uns poucos anos e que a pena e a aflição acabariam com minha vida em breve espaço de tempo com o que também se terminaria logo minha guarda; não demoraria muito em poder desfrutar de um sonho prazeroso em minha tumba. Pensamentos deste tipo agitavam meu cérebro; tão logo estava irritado pensando nas formosas coisas que tinha visto e das quais seria privado, como me alegrava ter participado, em que pese a tudo, em tantas sortes antes de meu fim, assim como de não ter sido expulso de forma vergonhosa. Enquanto isso, estando eu perdido em minhas reflexões retornou da habitação do Rei o último de meus companheiros; haviam-lhe desejado uma boa noite ao Rei e aos senhores e foram conduzidos a seus aposentos.

Mas eu, pobre de mim, não tinha ninguém que me acompanhasse; inclusive riram de mim e, para que não ficasse dúvida alguma de que sua função me tinha sido atribuída, puseram-me no dedo o anel que antes levava o guardião. Por fim, e já que não devia vê-lo mais em sua forma atual, o Rei insistiu a conformar-me com a minha vocação e a não atuar contra minha Ordem.

Logo, abraçou-me e beijou-me, com o que acreditei entender que a guarda devia começar no dia seguinte.

Não obstante, quando todos se dirigiram a mim com algumas palavras amigáveis e estenderam a mão, recomendando-me ao amparo de Deus, fui conduzido por dois anciões, Atlas e o senhor da torre, a um alojamento maravilhoso (1), ali, esperavam-nos três leitos e descansamos. Passamos ainda quase dois...

Faltam aqui aproximadamente dois fólios in-4°; acreditando ser guardião da porta no dia seguinte, ele (o Autor disto) entrou em sua casa. Ver II Coríntios ­V- 1.



NOTA À SÉTIMA JORNADA

1- Notemos que a cor amarela corresponde simbolicamente ao Ouro e ao Sol, ou seja, a incorruptibilidade. O amarelo é a cor da eternidade em seu aspecto abstrato, como o ouro é o metal da eternidade em seu aspecto mais concreto.

2- Ars Nature Ministra. A Arte é Servidor da Natureza. Esta máxima hermética aparece em quase todos os autores. O trabalho da Arte é prosseguir o da Natureza, ir mais além dos limites que esta alcançou e que por si só não poderia superar. Recordemos somente a Dom Belin que em seu Apologie du Grand Oeuvre escreve: "A Grande Obra dos Sábios ocupa o primeiro lugar entre as coisas belas; a Natureza sem a Arte não pode acabá-la; a Arte sem a Natureza não as compreende..."

3- Tempore Natura Ficha. A Natureza é filha do tempo. Alguns autores atribuem este adágio a Enrique Cornelio Agrippa. Como todos os filhos de Saturno-Cronos, o Tempo, também a natureza é devorada por este; isto o vemos em que todas suas produções estão submetidas à corrupção e não são eternas. Tal parece ser o significado deste dito que, à luz do anterior, recorda-nos que para transcender o tempo, ou seja, entrar no sobrenatural, o natural precisa da Arte e, portanto da

Graça. Entretanto, cabe outra interpretação um pouco mais livre. A Natureza, além disso, do conjunto de produções naturais que conhecemos e a força ou inteligência que as forma, era, no Hermetismo, o que se conhece por "O Sol do Coração". "O Guia pessoal supra-sensível" ou "A Natureza Perfeita". Um muito belo tratado místico iraniano declara que "o primeiro que tem que fazer para ti mesmo, é meditar com atenção sua entidade espiritual que te governa e que está associada a teu astro, ou seja, sua Natureza Perfeita, aquela que o sábio Hermes menciona em seu livro quando diz: quando o microcosmos que é o homem volta-se perfeito de natureza, sua alma se encontra então homologada ao sol fixo no Céu, e por seus raios ilumina todos os horizontes" (Chamado pelo Henry Corbin. L'Homme do Lumiére... op. Cit., pág. 34).

4- O simbolismo dos doze signos zodiacais e dos sete planetas referia-se originariamente, a Grande Obra de regeneração. Dom Pernety, em seu Dicionário Mito hermético (Paris 1787) associa as doze fases da Obra aos doze signos do Zodíaco. Não é casual que no estandarte de Christian Rosacruz apareça o signo de Libra. Regido por Vênus que, como vimos, é a deusa do Amor, este signo é o do Matrimônio, ou seja, o das "Bodas Alquímicas". Libra recebe em francês o nome de "O Balanço", a Balança; recordemos a curiosa cerimônia que aparece na terceira jornada na qual os assistentes às Bodas são pesados em uma balança.

5- Para muitos autores o "Tesouro Hermético" está em um cofre que, em certo modo é seu aspecto exterior. Tratar-se-ia da "cajita" com que nos encontramos em um grande número de tratados, assim como em muitos contos populares.

6- A Água e o Sal poderiam simbolizar dois aspectos da Matéria prima da Grande Obra. Em certo modo, a Água, de origem celeste, corresponde à Rosa (recordemos a "Rosa dos Ventos") e o Sal, cujo ideograma alquímico é uma cruz dentro de um círculo, corresponde à cruz. Notemos como na vida de cada dia o sal comum fica impregnada pela umidade do meio ambiente. Antigamente, tanto a água como as cinzas, que contêm sais, serviam para lavar.

7- O sentido iniciático deste jogo é pouco conhecido. Assinalemos unicamente que nele aparecem os mesmos elementos que nas "Bodas": Rei, Rainha, Cavaleiros, Soldados, Loucos (em francês o Bispo recebe o nome de Louco).

8- A CIÊNCIA SUPREMA É NÃO SABER NADA.



Irmano Christian Rosacruz.

Cavaleiro da Pedra de Ouro.

Ano 1459.

APÊNDICES

O CANTO DA PÉROLA

Ao longo de todo este livro, tanto na introdução como nas notas, fomos obrigados a fazer alusão ao "Canto da Pérola". Este muito belo ode é um fragmento que parece ter sido acrescentado, aos Atos de Tomás, um texto cristão do século IV, sendo uma história independente do resto da obra. Conhecem-se duas versões dos Atos de Tomás, uma síria e outra grega. A tradução que oferecemos ao leitor procede da versão grega, cuja tradução publicou Bonnet (Ata Apostolarum Apocrypha) em 1883. O leitor não deixará de relacionar tanto a pérola que guarda o dragão devorador com o manto de ouro com o Vellocino da lenda dos Argonautas.

Quando eu era menino, no palácio de meu Pai, vivendo na riqueza e o luxo os quais me alimentavam, do Oriente, minha pátria, meus pais abasteceram de provisões e enviaram-me. Impuseram-me um fardo tirado das riquezas de seus tesouros, precioso, mas ligeiro e que só eu podia levar.

Fardo composto de ouro e do que está no céu, prata de grandes tesouros, gemas, calcedônias da Índia, pérolas do Kushan. Armaram-me com diamante, deram-me uma vestimenta de malha de ouro e constelado de pedras preciosas que fizeram para mim porque me amavam e um adorno dourado a minha medida.

Concluíram um acordo comigo e o inscreveram em meu coração para que não o esquecesse. Disseram-me:

"Se baixas ao Egito e traz dali a pérola que se encontra nesta terra junto a um dragão devorador, revestirá de novo os vestidos de pedras preciosas e o adorno que os acompanha. E estará com seu irmão, o herdeiro de nosso reino que Vive junto a nós".

Vim do Oriente com dois guias por um caminho difícil e temível, E não fui posto a prova enquanto o percorria.

Passei pelas fronteiras do Mosani onde situam-se os mercados do Oriente, e alcancei o país dos Babilônios.

Mas quando entrei no Egito os guias que caminhavam comigo me abandonaram, fui para o dragão pelo caminho mais rápido e o expulsei de seu antro, e como estava sozinho, troquei meu aspecto e apareci a meu povo como um estrangeiro. Ali vi um parente do oriente, livre, menino cheio de graça e de beleza, filho de príncipes.

Veio para mim e habitou comigo.

Fiz dele meu companheiro, meu amigo, anunciando-lhe minha viagem. Adverti-lhe que se guardasse dos egípcios e que não tomasse parte nas coisas impuras.

Vesti-me como eles para não parecer um estrangeiro vindo de outra parte e dar procuração da pérola sem que os egípcios despertassem o dragão para me combater. Mas ignoro como souberam que não era de seu país.

Tenderam-me uma armadilha com malícia e gostei de seu alimento. Após esqueci que era filho do rei e fui escravo de seu rei. Esqueci a pérola em busca da qual meus pais me enviaram, e embrutecido por sua comida caí em um profundo sonho.

Mas quando isso me ocorreu, meus pais penaram por mim e se inquietaram. Uma proclama publicou-se em nosso reino para que todos pudessem vê-la sobre as portas.

E então o rei dos partos, os funcionários e os personagens de alta classe lá no Oriente, tomaram uma decisão a meu respeito, para que não fora abandonado no Egito. Os príncipes escreveram revelando-me isto:

De parte de seu Pai, Rei dos Reis, e de sua mãe que reina no Oriente e de você irmão, o segundo entre nós, a nosso Filho que está no Egito, paz; acordada de você sonho e te levante, escuta o conteúdo de nossa carta; você que aceitaste o jugo da escravidão, recorda que é filho de reis, recorda a pérola pela que foste enviado ao Egito, recorda seu vestido tecido em ouro. O nome que recebeste em nosso reino está inscrito no livro da vida junto com o de seu irmão.

O rei selou a carta com a mão direita, por causa dos inimigos, filhos de Babilônia e dos demônios tirânicos do Labirinto.

E eu, escutando o que me dizia esta voz, despertei de meu sonho.

Agarrei a carta, beijei-a e a li.

O que ali estava escrito era o que estava gravado em meu coração; recordei de repente que era filho de reis, que meu berço exigia que estivesse em liberdade.

Recordei também a pérola pela qual tinha sido enviado ao Egito.

Fui com dons mágicos para o terrível dragão.

E o abalo pronunciado sobre o nome de meu Pai, e o nome de que é o segundo, e o nome de minha mãe, reina no Oriente. Dei procuração da pérola e fui para levá-la a meus pais. Despojei-me do vestido imundo e o deixei em seu país, e tomei rápido o caminho do Oriente luminoso, minha pátria. No caminho encontrei a carta que me despertara. Como se tivesse voz, ela me elevava quando dormia, e me guiava com a luz que dela emanava.

O real vestido de seda brilhava às vezes ante meus olhos.

Arrebatado e empurrado por seu amor atravessei o Labirinto. Deixei a minha esquerda Babilônia e cheguei ao Maishan, a grande, junto as bordas do mar.

Sendo ainda um menino perdera a lembrança de seu esplendor quando a deixei, no reino de meu Pai.

Como se fora um espelho, vi de repente o vestido sobre mim, vi-o inteiramente sobre mim, vi-me e me reconheci através dele; tínhamos estado separados, de novo éramos o mesmo. Vi que os intendentes que me traziam o vestido eram dois, mas tinham o mesmo aspecto e uma só insígnia real os cobria. O vestido maravilhoso estalava de cores distintos, constelados de ouro, de pedras preciosas e das mais belas pérolas do Oriente. A imagem do Rei de Reis refletia-se em todo ele, suas cores diferentes recordavam a safira.

De novo vi que dariam moções para a conhecer (1) a quem foram falar. Escutei que se dizia: "Venho daquele que é mais valente que todos os homens, em interesse de quem fui enviado pelo mesmo Pai". Vi que crescia minha estatura em concordância com o que ele dizia, e que em seu real movimento se aproximava de mim, se precipitava, estendendo a mão para quem queria aferrar-se dela, e meu desejo me lançou a seu encontro para tomá-la.

Aqui jaz para recebê-la e ser embelezado com esplêndidas cores, e me cobri inteiramente com meu vestido real que supera qualquer beleza.

Quando o tive revestido me encontrei em lugar de adoração e salvação, inclinei a cabeça e prosternei ante o esplendor do Pai que me enviara para isso, conforme suas promessas, porque eu completara seus mandamentos. E introduzi-me nas portas do palácio que existe desde o começo. Ele alegrou-se por mim e acolheu-me com ele em seu palácio, onde todos seus servidores o elogiam com vozes melodiosas, prometeu-me que serei enviado com ele à porta do rei, para aparecer ante o rei com meus presentes e minha pérola.





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