As dimensões etnicas e o futuro de angola como naçÃO



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(Leonidio Altino Hidimbwa, estudou filosofia, licenciado em Bioética, actualmente frequenta liçoes do mestrado e participa em diversos convenios internacionais em matérias de Bioética.)


leonidioalt@hotmail.com


DEPOIS DO '75

CONOTAÇÕES ÉTNICAS, DIMENSÃO DA IDENTIDADE E O FUTURO DE ANGOLA COMO NAÇÃO.

Ultimamente, como consequência das mudanças ocorridas no quadrante histórico de Angola, emergem profundas problemáticas de carácter bio-social. As raízes da problemática surgiram quando se sentiu, mais do que antes, a necessidade de reafirmar a identidade da nação angolana. O que caracteriza esta problemática são as constantes desparidades e contradições motivadas por razões de índole étnico. Pois, a identidade angolana é caracteriza e, muitas vezes, contradita pela multiplicidade étnica que forma a estrutura elementar do país. No entanto, ocorre demonstrar brevemente o conceito de etnia e o seu ponto de referimento na sociedade angolana.




  1. conceito de etnia.

Muitas vezes é mais fácil dizer o que não é etnia porque são diversos os conceitos formulados sobre ela. Porém, em termos gerais, podemos definí-la, brevemente, como uma unidade tradicional de consciência de grupo que se diferencia de outros pelo facto de partilhar laços comuns de território, cultura, valores, raça ou tradição histórica. Ultminamente o conceito de etnia sofreu alterações quando comçou a designar grupos minoritários e, em geral, marginalizados. Robert Henry Lowie foi um dos primeiros que intentaram definir a noção de etnia. O mais curioso nesta noção é que essa não pode ser confundida com a tribo. Por outro lado, falar de "unidade tradicional", principalmente no contexto angolano pode haver conotação diversa daquela que se tem no âmbito científico. O termo tradicional significa aquilo que um certo grupo detem como herança histórica. Visto que cada povo tem um passado histórico, a tradição pertence a cada etnia. O conceito de raça também entra nas categorias ou elementos de identificação de uma etnia. Por outras palavras, a etnia pode ser determinada em termos de raça ou partilha de valores idênticos de origem racial.

Analizando o conceito de etnia e as implicções que leva consigo, podemos admitir que essa, uma vez realçada e acentuada, pode levar a profundas contradições e desencontros. Um dos grandes derivados do etnicismo é o racismo. Pois, as origens históricas do racismo demonstram que os seus fundamentos encontram-se na concepção de que os homens tem diversidade. E é certo. Porém, a problemática surge quando essa diversidade vem usada como claro testemunho e razão de sentimentos de xenofobia que activa e desata conflitos raciais e tribais.




    1. o etnicismo e seus derivados negativos.

Como dissemos com a antecedência, um dos derivados mais extremos do etnicismo é o racismo. O racismo enquanto tal é considerado como uma teoria fundamentada num pré-juízo ou preconceito nos termos dos quais existem raças humanas que presentam diferenças que justificam relações de domínio entre elas, assim como comportamentos de desprezo e agressão. No entanto, o termo racismo pode aplicar-se a esta doutrina ou ao comportamento que deriva desta doutrina. O racismo tem uma longa génesis que implicaria uma outra exposição. Mas aqui propõe-se de fazer referimento às mais actuais manifestações de racismo. Assim podemos destacar a doutrina fundamental do racismo que parte da colonização que consistia sobretudo na consciência da identidade cultural própria de cada povo, a introdução de graus herárquicos nestas culturas e, em consequência, o estabelecimento de relações de domínio entre esses povos. À afirmação da superioridade de certas civilizações sobre as outras adicionou-se, nos séculos XIX e XX, as teorias que assimilam esta herarquia a um determinismo natural fundamentado no conceito de raça. Hoje em dia, existem cientistas que procuram e esperam de encontrar a genes que comprove a suposta e desejada inferioridade de umas raças em relação às outras. Mas voltando mais atrás podemos levar em consideração que o racismo científico aparece com uma profunda arbitrariedade não científica expressa em classificações de superioridades das raças através do aspecto exterior (cor da pele, origem geográfica, apartenência regional ou herança cultural) e das relativas capacidades intelectuais, prescindindo de factores psicológicos, históricos e circunstanciais. Estas classificações deram origem a teorias fundamentalistas como a do filósofo françês Gobineau. No seu Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas (1853-1855) publicado cinco anos depois da abolição da escravatura nas colónias francesas, ele afirma claramente que a raça dos germânicos que habita em Grã-bretania, França e Bélgica é a única raça pura entre aquelas que procedem da raça superior dos arianos, porque as outras estão misturadas e contaminadas pela raça negra e amarela. Esta teoria não limitou-se simplesmente a tentar justificar as atrocidades perpetradas pelo colonialismo, pela escravatura e pelo extermínio dos índios e dos aborígenes, mas também e infelizmente, estava grávida daquilo que depois se chamou de antí-semitismo e influenciou os pensadores que vieram a preparar o holocausto do povo hebraico. Esta teoria foi inteiramente demonstrada falsa pela antropologia contemporânea e, depois, pela experiência histórica post-hitleriana.

Outras actuais manifestações do racismo científico encontram-se expressas na teoria do darwinismo social. Esta, partindo da teoria da evolução pela selecção natural, sustenta que as pessoas e grupos sociais, assim como os animais e as plantas competem pela sobrevivência, na qual a selecção natural resulta da "lei no mais forte". Na verdade, foi Darwin quem aplicou a selecção natural às pessoas na sua obra La descendencia humana e la seleccion sexual (1871) mas foi o sociólogo inglês Herbert Spencer quem formulou o princípio sobre a «sobrevivência dos mais aptos» seis anos antes de Darwin. Spencer na sua obra La estática social (1851) sustenta que através da competência (competitividade) a sociedade evolucionária até à prosperidade e liberdade individuais e formula uma teoria que dava a possibilidade de classificar os grupos sociais segundo as suas capacidades de dominar a natureza. Desde este ponto de vista, as pessoas que alcançavam riqueza e poder eram consideradas as mais aptas independentemente dos meios que usavam para alcançar tal riqueza e poder, enquanto que as classes socio-económicas mais baixas eram as menos aptas por natureza e, logo, destinados ao desaparecimento. Esta teoria foi utilizada filosoficamente como a base do imperialismo e capitalismo selvagem. O imperialismo aqui é entendido como prática de dominação aplicada pelas nações ou povos periodicamente poderosos com a finalidade de ampliar e manter o seu controlo ou influência sobre as nações ou povos periodicamente menos fortes. O imperialismo contemporâneo é assiduamente identificado com o neocolonialismo. O capitalismo, por sua vez, vem entendido como sistema económico em que os indivíduos privados e as empresas de negócio levam a cabo a produção e o intercâmbio de bens e serviços mediante complexas transacções em que intervêm preços e as mercadorias dando origem aquilo que denominamos mercado. O capitalismo selvagem surge quando as relações entre consumidor e produtor ou entre operários e patrões são desiquilibradas ou derivam de pressupostos prejudiciais que podem implicar questões de raças ou tribos.




  1. Angola depois do '75.

A realidade histórica de Angola depois de 1975 está intimamente ligada a realidade histórica mundial. A nossa análise histórica sobre a génesis da identidade nacional parte do '75 não porque esta data implica significativamente uma profunda ruptura histórica, mas porque exprime o advento da consciência de mudanças na maior parte da sociedade angolana e indica, por outro lado, o fim de um processo da reabilitação da idéia de independência e autoafirmação dos valores nacionais. O '75, apesar de ser o ponto mais alto do processo da decisão e da encarnação da idéia de liberdade, não trouxe grandes novidades no âmbito da indentidade nacional do povo. Em outras palavras, a independência do país não aumentou de modo igual o zelo nacionalista dos angolanos.
Porquê?

Para responder a questão é necessário salientar dois factores:



  1. A deficiente ruptura com o passado que implicava o fim do regime colonial. A grande parte da sociedade angolana não estava ideologicamente preparada para afrontar os problemas que viriam depois do colonialismo. E depois, alguns conceitos estabelecidos pela Constituição colonial, apesar de terem sido revogados nos papéis, eram ainda vigentes nas cosciências de muitos. É o caso da lei sobre o indigenato. Isto implicou uma espécie de um regime neo-colonial dos indivíduos dentro de um regime pós-colonial da sociedade. Em outros termos podemos dizer que, à primeira instância, a independência do país não significou a independência de todas as camadas sociais constituintes deste mesmo país. E isto, como demonstramos anteriormente, é a contituidade consciente ou inconsciente de um processo de colonização que, apesar do seu fim formal, era destinado a prosseguir de forma real por um certo período determinado. Admitamos ou não, devemos saber que na ausência de ideais fortes da identidade nacional, como era no amanhecer da independência, a colonização da consciência parecia a mais difícil de combater.

  2. A discontinuidade no ideal da liberdade e no conceito de independência. Em primeiro lugar, devemos ter presente que a independência de Angola foi proclamada formalmente num único momento, mas em três lugares diferentes (Luanda, Huambo e Ambriz) e com ideais e propósitos políticos profundamente contraditórios e antagônicos. Para a sociedade comúm isto significou o fim da causa original pela qual se lutou: a reabilitação da história angolana por meio da independência e a construção de uma única identidade nacional por meio da liberdade e igualdade, isto é, «um só povo, uma só nação». Aqui, a história de Angola entra em contacto com a história geral do século XX e podemos considerar Angola como uma das frentes mais quentes da «Guerra-fria». O país estava dividido ideologicamente consoante os "blocos" a que se pertencia. A divisão do modo de pensar dos angolanos implicou a divisão da identidade angolana.

Em conclusão, a identidade angolana estava divida em três categorias ou esferas: a) os conservadores da antiga ordem colonial; b) os progressistas e anti-imperialistas do bloco 2; c) os liberais e pro-capitalistas do bloco 1. E uma vez dada essa ruptura original, os valores dos movimentos políticos e concepções ideológicas passaram a ser considerados mais prioritários do que os valores da identidade nacional. Em suma, o partido político era considerado superior à nação. Ninguém estava mais em altura de pensar e de projectar o país além das categorias ideológicas exteriores que apoiavam os movimentos a que pertencia. Não havia uma entidade nacional superior aos partidos políticos. E o que é que isto implicou? Isto implicou necessáriamente que a identidade nacional fósse substituida pela identidade dos partidos políticos.


  1. E depois?

Depois verificou-se uma grande mudança no quadrante da concepção histórica de Angola. Em 2002 concretizou alguma coisa que tinha sido adiada em 1975. Surgiu a oportunidade de pensar o futuro, duma maneira, diferente do passado. A necessidade de reabilitar, de uma vez por todas, a identidade do angolano torna-se uma questão de urgência ao confrontar-se com o processo da globalização. No entanto, para afirmar a identidade angolana depois de 2002 ocorre, em primeira instância, rectificar um passado não superado, ocorre resolver a problemática dos antagonismos étnicos que fazem parte da herança histórica do país.
Mas, a que antagonismos nos referimos concretamente? Para falar do antagonismo étnico, em primeiro lugar, devemos admitir que Angola é um país multi-étnico. Este multi-etnicismo exprime específicamente a idéia da existência de etnias diversificadas desde diversos pontos de vista (cor da pele, raça, proveniência tribal, partilha de valores sociais, situação geográfica). Como já demonstramos antecedentemente, estas diversidades foram violentemente realçadas com tamanha dramaticidade nos últimos anos devido ao contexto historico-político. Quando, depois dos conflitos armados, os angolanos tentam reencontrar-se, sobressaem estas problemáticas. As contradições étnicas, ocasionadas pela luta de libertação que compreendia um conflito radical entre raças de proveniências acidentalmente diferentes, foram levadas ao extremo pela guerra civíl que portava profundas conotações de índole tribal. Os princípios de referência de cidadãos comuns, em numerosos casos, abandonaram as impostações de ordem nacional para converterem-se em auto-exaltação de valores tribais, regionais ou raciais. Mas a verdadeira problemática não consiste no facto de cada um reconhecer a sua identidade étnica dentro dos confins nacionais, o problema surge quanto essa identidade é entendida e usada como razão natural e determinística para recusar ou refutar o "diverso". E isto, directa ou indirectamente, dá origem a uma espécie de sub-nações dentro de uma nação ou mini-indentidades que substituem a identidade nacional. Quando, dentro de uma colectiva identidade nacional, os indivíduos se sentem diversos e tentam de opôr-se àquilo que não representa os seus modos de ser e de fazer (agir), vem mais à superfície, nas relações entre eles, as diferenças que os separam do que as afinidades que os unem. Dissemos que a consideração de base consiste próprio no facto de Angola ser um país naturalmente multi-étnico e, com o início da paz, esta multi-etnicidade tende a aumentar. As constantes notícias sobre o retorno dos da «diáspora» e o constante aumento dos «angolófilos», os que amam ser angolanos, é um dos sinais mais evidentes que anunciam este advento.
Qual é a origem das descrepâncias étnicas? É difícil identificar e definir as causas dos conflitos e divisões étnicos em Angola, mas, em primeiro lugar, devemos salientar alguns acontecimentos que marcaram, consciente ou inconscientemente, a dinámica histórica da identidade dos angolanos. Sem nenhum pretexto de ordem ideológica ou política, devemos analisar o problema actual a partir da "proclamação (ões) da indepedência". Mas mesmo assim, a raíz da questão remonta a um período anterior à data de "1961" (relativo início da luta armada) com a entreda em jogo das ideologias que intentavam justificar e legitimar o regime do colonialismo e, depois, com as que sustentavam o "regime do indigenato" nas vesperas do famoso "11 de Novembro". A) Em diversos âmbitos dos três movimentos de libertação de Angola, o «inimigo», contra o qual devia se combater, não só se identificava com um regime político ou uma ideologia difinida, mas também com uma certa raça concreta, uma certa etnia. Como podem analizar, sublinhei a expressão "em diversos âmbitos", isto significa que, em maior parte da situação, este não foi o dilema comúm. Sabemos que em certos contextos políticos o etnicismo não funcionou. Na luta pela independência, em numerosos casos, havia ideais nacionalistas muito superiores e que a «solidariedade, coragem, tolerância e equilíbrio foram considerados como a chave da independência». No entanto, naqueles poucos casos da identificação do inimigo político com uma raça é um facto que deu consequências negativas no quadro actual do pós-guerra nas relações sociais. B) Por outro lado, a reação aos movimentos da legítima libertação, isto é, a repressão massiça em defesa do status quo do regime colonial chegou ao ponto de realçar prejuízos «étnicos» cada vez mais dramáticos, como se pode ver no estatuto do indigenato, ou seja, na divisão da população entre colonos (izadores), assimilados e indígenas. Estes são os primeiros passos que marcam e constituem indícios da primeira discrepância étnica. Mas outra pergunta permanece.
Porquê as discrepâncias étnicas não terminaram com a proclamação da independência? Em primeiro lugar, descobrimos que proclamação da indepedência não significou a mesma coisa para todos. A independência foi interpretada como uma derrota, para uns, e como vitória, para outros. A) Com a indepedência, as etnias que se consideravam (ou eram consideradas) derrotadas, iam formando uma espécie de "guetos" onde tentavam, a todo o custo, levar avante as antigas concepções ideológicas e sublinhavam as fronteiras étnicas com os sentimentos de derrota e insucesso e, ao mesmo tempo, com as saudades de uma prosperidade e futuro perdidos. B) Com a independência, as etnias, que se consideravam (ou eram consideradas) vitoriosas interpretaram essa ocasião como uma oportunidade de estabelecer uma ruptura radical com o passado, de superar os limites que as oprimiam e reivindicar, a todo o custo, todos os privilégios que até ao momento eram ausentes. C) Havia também a terceira categoria que tornou-se indiferente à Independência porque essa não lhes trouxe as condições que prometia nem iliminou completamente aquelas que lhes ameaçava. A maioria desses foram na diáspora.
Como reforjar a identidade angolana?

A reconstrução de um homem-angolano não dependerá simplesmente da posta em jogo de uma história comúm partilhada pelos angolanos. A primeira razão é que, desde '75 até 2002, os angolanos tiveram diversas histórias. Os sonhos cultivados durante o período pré-Independência foram neutralizados nos anos sucessivos. O facto que unia os movimentos de luta pela independência foi o mesmo que os separou, isto é, a interpretação da natureza social da liberdade. A lição histórica mais evidente que resultou da dura guerra civíl que o país travou é que o amor pelo partido político não deve estar a cima do amor à paz, igualdade de oportunidade e identidade nacional, isto é, à pátria.

Não ocorre, porém, ocultar o passado enquanto parte constituinte da realidade histórica, mesmo que este passado não signifique a mesma coisa para todos, mas a afirmação da identidade nacional devia contrastar as discriminações étnicas, mais concretamente, o racismo e o tribalismo.


REFERIMENTO BIBLIOGRÁFICO

Enciclopédia Microsoft, Encarta 2002, 1993-2001 Microsoft Corporation.


HARDET, M. e NEGRI, A. Moltitudine, Guerra e democazia nel nuovo ordine imperiale, Edizione Mondolibri, Milano 2004.
HANTINGTON, Samuel, La nuova América, Le sfide della società molticulturale, Garzanti Libri, Milano 2005.
CHOMSKY, Noam, Capire il potere, Marco Tropea Editore, Milano 2002.
IMBAMBA, José Manuel, Uma nova cultura para Homens e Mulheres novos, Um projecto filosófico para Angola do 3º milénio à Luz da Filosofia de Battista Mondin, Edições de Angola, Luanda 2003.

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