As ervas daninhas no jardim



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AS ERVAS DANINHAS NO JARDIM

Rosana Apolonia Harmuch

Doutoranda em Estudos Literários / UFPR

Muitas vezes, ao se tentar acompanhar as discussões sobre os caminhos da crítica literária, tem-se a impressão de déjà vu. Nem sempre separar nomes de teóricos, pensadores e tendências é uma tarefa muito fácil. Sobretudo porque determinados nomes e características aparecem como traços definidores em diversos movimentos teóricos. É claro que há o fato de que em geral os grandes expoentes da crítica só puderam ser assim denominados justamente por permanecerem atentos a mudanças no quadro cultural e conseqüentemente dispostos a admiti-las em seu modo de conceber a arte. Mesmo assim, é transparente que não há nenhuma inocência na apropriação que fazemos de determinadas correntes. Se a neutralidade é um mito, optar entre esta ou aquela tendência também revela um pouco de nós. O que difere é o resultado, o que fazemos ou deixamos de fazer com as informações de que dispomos. Toda esta introdução está sendo feita na verdade em virtude de uma certa perplexidade diante da polêmica em torno dos chamados Estudos Culturais. Por uma série de razões que tentarei aqui desenvolver, a impressão que se tem é de que a contenda já poderia estar superada. Mas, ao contrário, parece ter havido uma ressurreição, uma espécie de nova onda a conduzir muitos de nós ao debate. Apesar do azedume de alguns, dos radicalismos de outros, o saldo, creio eu, é bastante positivo.

A discussão sobre Estudos Culturais implica necessariamente um retorno a velhas e incômodas questões. A primeira delas é o que entendemos por literatura. Como se vê, a tarefa está entre as mais difíceis. Sem pretensão nenhuma de encerrá-la, vamos a alguns posicionamentos. Para Jonathan CULLER, essa não é uma discussão que mereça estar no centro das atenções da teoria literária (embora ele dedique um capítulo inteiro de sua obra Teoria literária: uma introdução para ela). Ele justifica seu posicionamento citando dois motivos. Em primeiro lugar, se a teoria faz uso da filosofia, da psicanálise, da história, da lingüística etc., para que sejam analisados tanto os textos considerados tradicionalmente literários quanto os não-literários, separar com exatidão o que seja e o que não seja literatura parece pouco relevante. O que não quer dizer que todos os textos sejam iguais, apenas podem ser estudados juntos. O segundo motivo é que características consideradas próprias da literatura são comuns a discursos e práticas não-literários. Muito apropriadamente, CULLER cita como exemplo a história: “O modelo para a explicação histórica é a lógica das histórias: a maneira como uma história mostra como algo veio a acontecer, ligando a situação inicial, o desenvolvimento e o resultado de um modo que faz sentido. O modelo para a inteligibilidade histórica, em resumo, é a narrativa literária” (1999, p.27).

Além desses dois motivos citados, há ainda a questão de que qualquer definição, seja ela de literatura ou de engenharia elétrica, precisa ser analisada do ponto de vista de sua própria história. Muitas das obras que hoje são consideradas cânones literários, foram durante muito tempo estudadas apenas como modelos de bem escrever, serviam ao ensino da gramática. Mesmo Shakespeare foi muito popular antes de ser considerado um clássico. Ou seja, o conceito moderno de literatura data de mais ou menos 1800, o que nos obriga a pensar no caráter difuso dele. Há ainda que se considerar que muitas vezes a justificativa usada para a classificação dos clássicos como tal é a universalidade. Sem dúvida há um traço de verdade nisso, mas não podemos esquecer que há um poderoso componente político aí, pois considerar determinados autores como modelares serviu (também) para firmar o conceito de nacionalidade. Nas palavras de Leyla PERRONE-MOISÉS: “No século 19, quando a literatura se tornou uma disciplina autônoma (sob a forma de história literária), seu estudo servia como cimento das nacionalidades. Foi no século 19 que as nações se constituíram e consolidaram, e as diversas guerras que se estenderam pelo século 20 tornavam conveniente o reforço dos nacionalismos” (Caderno Mais!,18/6/2000). Pode-se ir um pouco além: levar Shakespeare como modelo aos povos colonizados poderia significar (nas entrelinhas): é preciso aprender inglês para compreender essa obra magistral e para fazer parte do seleto grupo dos povos civilizados. E então, quem sabe um dia, os bárbaros poderão produzir algo pelo menos parecido com tão grandioso modelo.

Creio ser desnecessário esclarecer que não estou pondo em questão a relevância da obra de Shakespeare, sem dúvida um modelo, o questionamento aqui é com relação ao que fizeram com sua obra. Minha insistência em fazer uso do nome dele como exemplo se deve possivelmente a uma certa resistência ao posicionamento de Harold Bloom... Muitos outros exemplos poderiam ser aqui citados, afinal os ingleses não detêm o privilégio de colonizar.

E se o parágrafo anterior pareceu marxista, talvez seja um bom momento para marcar posicionamentos. Terry EAGLETON às vezes parece um pouco exagerado, mas não há dúvida de que na maioria delas é bastante pertinente. Estudar literatura, dar aulas de literatura (ou de qualquer outra coisa), refletir sobre a teoria e a crítica literárias são atos políticos. Não há como nos desvencilharmos do fato de que não existem atos isolados, mas sim condicionados por nossa história, nossa visão de mundo. Mesmo as posturas que se auto-proclamam apolíticas estão assumindo um posicionamento, o da omissão.

A questão parece ser, então, o que faz com que nós consideremos algo como literário? Com muita ironia, CULLER usa uma metáfora para nos mostrar o tamanho da complicação. Ele nos instiga a pensar na tarefa de limpar um jardim, ou seja, livrar as plantas nobres das ervas daninhas. Como se reconhecem as ervas daninhas? A única maneira parece ser conhecer a priori quais plantas são consideradas indesejáveis e quais não. Simples não é? Voltamos à pergunta: quem escolhe ou como são determinados os critérios?

Antes que tudo pareça perdido, podemos nos agarrar à salvadora consideração de que as obras literárias possuem traços ou propriedades específicas de linguagem, mas não podemos nos esquecer de que ela é também produto de convenções e recebe portanto determinado tipo de atenção. Organizando a tarefa, CULLER examina cinco traços considerados definidores da natureza da literatura: a) literatura como a ‘colocação em primeiro plano’ da linguagem; b) literatura como integração da linguagem; c) literatura como ficção; d) literatura como objeto estético e e) literatura como construção intertextual ou auto-reflexiva. Para concluir,



a ‘literariedade’ da literatura pode residir na tensão da interação entre o material lingüístico e as expectativas convencionais do leitor a respeito do que é literatura. Mas digo isso com cautela, pois a outra coisa que aprendemos com os nossos cinco casos é que cada qualidade identificada como um traço importante da literatura mostra não ser um traço definidor, já que pode ser encontrada em ação em outros usos da linguagem (CULLER, 1999, p.42).

Parece que se os teóricos, críticos e professores de literatura se preocupam tanto com o conceito do que seja literatura em boa parte isso pode significar delimitação de território. Se a partir da concepção X de literatura, posso analisá-la usando a teoria Y e, detalhe importantíssimo, consigo visibilidade para esse meu trabalho, tenho grandes chances de colaborar para que a teoria Y se torne um hit. Por outro lado, corro o risco de ser tratada como parte da ameaça que sempre paira sobre a cabeça de todos nós quando qualquer teoria ganha relevância sobre outra ou outras. Em suma, estamos de novo falando de política.

Algumas das observações de EAGLETON parecem reforçar essas afirmações. Para ele, o problema da teoria e da crítica literárias começa justamente na delimitação do objeto. Enquanto ele se mantém estável, podemos nos iludir e crer que estamos trabalhando em segurança, mas o campo cedo ou tarde se revela minado. Uma afirmação de Barthes, citada por EAGLETON, se encaixa aqui: “literatura é aquilo que é ensinado” (1997, p.272). Quem seleciona, delimita, corrige e mesmo reescreve os textos, caracterizando-os como literários ou não são os críticos. É claro que esse poder arbitrário precisa de uma força de mecanismos externos, também eles arbitrários. É por isso que EAGLETON considera tanto a literatura quanto a teoria literária uma ilusão:

É uma ilusão, primeiramente no sentido de que a teoria literária é de fato apenas um ramo das ideologias sociais, destituída de qualquer unidade ou identidade que a distinga adequadamente da filosofia, lingüística, psicologia, do pensamento cultural e sociológico. E segundo, no sentido de que a única esperança que ela tem de se distinguir – apegar-se a um objeto chamado literatura – está mal dirigida. (...) Minha opinião é que seria mais útil ver a ‘literatura’ como um nome que as pessoas dão, de tempos em tempos e por diferentes razões, a certos tipos de escrita, dentro de todo um campo daquilo que Michel Foucault chamou de ‘práticas discursivas’, e que se alguma coisa deva ser objeto de estudo, este deverá ser todo o campo de práticas, e não apenas as práticas por vezes rotuladas, de maneira um tanto obscura, de ‘literatura’ (1997, p.281, grifo meu).

A proposta do autor é na verdade um retorno à mais antiga forma de crítica, a retórica, na medida em que ela se preocupava com diversas práticas discursivas, produzidas pela sociedade toda. A idéia era tentar perceber como essas práticas se organizavam e examinar que espécies de efeitos elas provocavam, mas o que EAGLETON propõe não é simplesmente um retorno às práticas da retórica clássica. O que fica patente na proposta dele é uma espécie de amálgama de várias correntes da crítica: do formalismo, do estruturalismo e da semiótica vem o interesse pelos recursos formais da linguagem; da teoria da recepção, o foco na maneira pela qual tais recursos são realmente efetivos; a preocupação com o discurso como forma de poder e de desejo se valeriam da teoria da desconstrução e da psicanálise; a crença de que o discurso pode ser transformador tem muito em comum com a teoria liberal. Trocando em miúdos, a proposta do teórico é o que muitos (inclusive ele próprio) chamam de Estudos Culturais:



Discursos, sistemas de signos e práticas significativas de todos os tipos, do cinema e televisão à ficção e às linguagens das ciências naturais, produzem efeitos, condicionam formas de consciência e inconsciência, que estão estreitamente relacionadas com a manutenção ou transformação de nossos sistemas de poder existentes. Dessa forma, eles estão estreitamente relacionados com o que significa ser uma pessoa. (...) Não se trata de partir de certos problemas teóricos ou metodológicos, mas sim de começar com o que queremos fazer, e em seguida ver quais os métodos e teorias que melhor nos ajudarão a realizar nosso propósito (EAGLETON, 1997, p.289).

O engraçado é que um texto como esse cause tantas polêmicas, já que, pelo menos para alguns, os Estudos Culturais têm sua gênese no final da década de 50, 1957, se quisermos precisão. Nesse ano, na Inglaterra, o fundador do Birmingham Centre for Contemporary Cultural Studies, Richard Hoggart, publicou The Uses of Literacy, que, juntamente com Cultura e Sociedade, 1958, de Raymond Williams, tinham como projeto a recuperação da cultura operária popular; dito de outro modo, esclarecer as diferenças entre cultura de massas e cultura popular. Foram justamente essas reflexões que impulsionaram os Estudos Culturais. Coincidentemente, em 1957, Barthes publicava o seu Mitologias. Interessado em mostrar como muitas práticas culturais tidas como naturais são na verdade produtos históricos, Barthes realizou interpretações de propagandas, de práticas como a cerimônia de casamento, lutas livres etc., estimulando a leitura dos variados significados das imagens culturais e a análise do funcionamento social das construções da cultura.

Num texto publicado pela Folha de São Paulo, a professora Leyla Perrone-Moisés, ao fazer um balanço de um colóquio internacional sobre a obra de Barthes (Back to Barthes, 20 Years After), realizado nos Estados Unidos, em dezembro de 2000, revela um certo azedume melancólico. Parece ter havido uma preferência (parece porque as informações que possuo sobre o encontro me chegaram através dela) por um Barthes crítico cultural, em detrimento de um Barthes teórico e crítico literário, o que talvez seja sintoma de um modismo, mas não necessariamente algo tão ruim que justificasse preocupações ou reclamações tão contundentes. Ao menos não a ponto de afirmar que “ninguém comentou porque é demais evidente que ‘literatura’ é uma palavra fora de moda no discurso universitário norte-americano” (Caderno Mais!, 14/1/2001, p.17)

A saudável polêmica está na pauta do dia, com todos os possíveis exageros de ambos os lados. Para a teórica Marjorie Perloff,



os Estudos Culturais pressupõe, mesmo que não explicitamente, que um dado poema ou romance é sintoma de uma formação econômica, social e cultural específica, e os pesquisadores se atêm a características gerais em detrimento do trabalho individual. Nesse caso, como já afirmou John Guillory, os Estudos Culturais podem prescindir da literatura e concentrar sua atenção em Madonna, revistas em quadrinho e shopping centers. A literatura fica para trás (Revista Cult nº 17, p.50).

A crítica desconsidera o fato de que não há, entre os defensores dos Estudos Culturais, esse consenso tão claro, essas definições tão específicas de método de trabalho como ela sugere. Quanto aos três exemplos escolhidos, colocados como prioridade em detrimento da literatura, não creio que seja impossível a hipótese de que interesses aparentemente tão díspares possam colaborar mutuamente para uma melhor compreensão do que somos e do modo como vivemos.

Talvez a grande questão seja, tanto quanto possível, evitar a apropriação pura e simples, do ponto de vista político e mercadológico, do discurso de determinados grupos defensores das chamadas disciplinas particularistas. Tarefa nada fácil, pois movimentos como o feminista, o gay e o multiculturalista, por exemplo, podem significar um número nada desprezível de votos e uma fatia de mercado que se firma a cada dia. Por outro lado, também não me parece nada fácil evitar que os departamentos literários das universidades sofram alterações, até porque isso já está sacramentado em muitas delas. O que nos resta? Participar da polêmica, evitando os exageros de ambos os lados. Por exemplo, entre os defensores dos estudos culturais, há os que acreditam que o texto literário não tem nenhuma especificidade e é apenas um discurso ideológico entre outros, portanto todos os departamentos literários poderiam ser abolidos. Entre os opositores, há os que afirmam que a hegemonia dos estudos culturais tornou politicamente incorreto o estudo da literatura como arte.

As mudanças iniciadas no final da década de 50 parecem estar sendo levadas a efeito, de modo sistemático, nos últimos anos, o que desestabilizou a ordem em territórios já conquistados, assim, talvez eu não devesse me surpreender tanto diante do fato de que poucos parecem ter se lembrado de que ler, interpretar práticas não-literárias não implica necessariamente que elas serão alçadas, como por mágica, à categoria de objetos estéticos. Na outra ponta, fazer uso de recursos de análise que não os tradicionalmente consagrados como ‘literários’, para analisar obras literárias não significa que elas perderão seu estatuto, seu reconhecimento como obras de arte. E se, entre uma análise e outra, encontrarmos o estético onde não esperávamos ou vice-versa, que bom.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ANTELO, Raúl. Guerra cultural. Revista Cult nº 17, dezembro/98, p.46-49. (Texto de abertura do VI Congresso da Abralic).

BLOOM, Harold. O cânone ocidental. Os livros e a Escola do Tempo. Tradução: Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995.

BONVICINO, Régis. O efeito multicultural. Entrevista feita por e-mail com Marjorie Perloff. Tradução: Jayme Alberto da Costa Pinto Jr. Revista Cult nº 17, dezembro/98, p.50-51.

CANCLINI, Néstor García. Culturas híbridas. Estratégias para entrar e sair da modernidade. Tradução: Ana Regina Lessa e Heloísa Pezza Cintrão. São Paulo: Edusp.

CEVASCO, Maria Elisa. Dez lições sobre Estudos Culturais. São Paulo: Boitempo Editorial, 2003.

CULLER, Jonathan. Teoria literária: uma introdução. Tradução: Sandra Vasconcelos. São Paulo: Beca produções Culturais, 1999.

EAGLETON, Terry. Teoria da literatura: uma introdução. Tradução: Waltensir Dutra. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

ENZENSBERGER, Hans Magnus. Crepúsculo dos resenhistas. In: Mediocridade e loucura e outros ensaios. Tradução: Rodolfo Krestan. São Paulo: Ática.

GIROUX, Henry A. Atos impuros: a prática dos estudos culturais. Tradução: Ronaldo Cataldo Costa. Porto Alegre: Artmed, 2003.

MEDEIROS, Sérgio. Politeísmo crítico. Revista Cult nº 17, dezembro/98, p.44-45.

PERRONE-MOISÉS, Leyla. Um retorno a Roland Barthes. Caderno Mais! Folha de São Paulo, 14/1/2001, p.16-17.

----- . Em defesa da literatura. Caderno Mais! Folha de São Paulo, 18/06/2000.



SANTIAGO, Silviano. Democratização no Brasil – 1979-1981 (Cultura versus Arte). Anais da Abralic, Florianópolis, 1998.

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