As etimologias



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Muito além do “Parabéns”

(Língua Portuguesa Especial Etimologias, maio 2011, pp. 38-39)

Jean Lauand

Prof. Titular da Feusp e das Faculdades Integradas “Campos Salles”


“O caminho que sobe e o que desce são um mesmo e único caminho” (Heráclito)

Uma das metáforas mais frequentes nos meios culturais é "resgatar". Fala-se em resgatar não só reféns ou vítimas de enchentes, mas também as raízes culturais, a auto-estima etc. Modismos à parte, parece-nos oportuno esse uso do "resgatar" quando se descreve algo que ocorre no filosofar. Pois a tarefa de filosofar é, em boa medida, um resgatar.

Pelo menos essa é a posição de tantos filósofos, que de Platão a Heidegger, voltam-se para a linguagem comum, procurando recuperar as grandes experiências humanas que “desceram” a ela e nela acabaram por se depositar.

Pois essas experiências, vívidas intuições que o homem tem sobre si mesmo e o mundo, brilham por um momento na consciência e depois vão se desvanecendo, desaparecem. Ficam invisíveis, como que escondidas num depósito: são "raptadas" pela linguagem, a linguagem comum: essa que falamos e ouvimos todos os dias.

Assim, frequentemente, as palavras têm um potencial expressivo muito maior do que supomos à primeira vista, tão familiar e quase automático é o uso que delas fazemos. Daí a atenção do filósofo para os modos de dizer, as sutilezas da linguagem comum e, em particular, a etimologia, como caminho “de volta”, de ascensão para o sentido originário das experiência, que em linguagem se depositou.

Como é bem sabido, é nessa linha – a de buscar “o que dizem as palavras na experiência originária de pensamento”, levando ao extremo as análises etimológicas (entre outras) – que se situam as análises de Heidegger, que chega a afirmar: “o acesso à essência de uma coisa nos advém da linguagem”. (Ensaios e Conferências, Petrópolis, Vozes, 2001, p. 126).

Veremos a seguir o potencial expressivo oculto em formas quotidianas de convivência como “parabéns”.

Quando transcendemos o âmbito protocolar das formalidades e da praxe, os votos de felicitação: "Parabéns!" (e seus irmãos em outras línguas: o espanhol Enhorabuena!, o inglês Congratulations!, o italiano Auguri!), vemos que eles trazem em si diferentes e complementares indicações sobre o mistério do ser e o do coração humano. O que significam exatamente essas formulações? O que realmente queremos dizer, quando dizemos "parabéns" ou "congratulations" etc.? Todas essas expressões trazem em si um profundo significado, por assim dizer, "invisível a olho nu".

Comecemos pela fórmula castelhana: Enhorabuena!, literalmente "em boa hora". Enhorabuena indica que um determinado caminho (os anos de estudo que desembocaram numa formatura, o árduo trabalho de montar uma empresa que se inaugura etc.) chega, nesta hora, em que se dão as felicitações, a seu termo: esta é que é a hora boa, enhorabuena! Precisamente o fato de ser a hora da conclusão é que a torna uma boa hora. A sabedoria dos antigos fala-nos da "hora de cada um", de horas boas e más. Mas a hora boa, a hora melhor é a da conclusão, a da consumação da obra, a do bom termo do caminho, a hora do fim, que é melhor do que a do começo: "Melior est finis quam principium" (Ecl. 7,8), diz a Bíblia.

Já a formulação inglesa, também presente no alemão e em outras línguas, congratulations, expressa a alegria compartilhada pelo bem do outro, com quem nos con-gratulamos, isto é, nos co-alegramos. Essa comunhão na alegria é sugerida também pela forma depoente dos verbos latinos gratulor e congratulor. A forma depoente está a indicar que a ação descrita no verbo não é ativa nem passiva: mas uma ação que, exercida pelo sujeito, repercute nele mesmo. Ou seja, no caso, que a alegria que externamos ao felicitar tal pessoa é também, a título próprio, muito nossa.

O árabe mabruk lembra o caráter de bênção daquele dom pelo qual felicitamos alguém. O italiano, auguri, auguri tanti!, anuncia (ou enseja) que este bem celebrado é só prenúncio, prefiguração, augúrio de outros ainda maiores que estão por vir. E o mesmo se dá com a forma americana mais recente: Way to go!

Com a encantadora forma nossa, "Parabéns!", estamos expressando precisamente isto: que o bem conquistado, que a meta atingida seja usada "para bens". Em nossa herança cultural do cristianismo medieval (em séculos de acirradas disputas sobre o tema do mal), o mal não tem existência própria, por si; ele é antes uma distorção do bem. Pois, qualquer bem obtido pode, como todo mundo sabe, ser empregado para o bem ou para o mal, para a auto-realização ou para autodestruição: pensemos no caso de um amigo que ganha a medalha de ouro de tiro ao alvo, ou se elege deputado, ou tira a carta de motorista, ou obtém o diploma de advogado. É evidente que essas conquistas – em si boas – podem também ocasionar-lhe muito mal, podem ser para males.



Uma carta de motorista – como no caso do atropelador de ciclistas de Porto Alegre – pode ser “para males”...



Como também, o dom fundamental da vida (que pode muito bem ser pervertido em oprimir, explorar e prejudicar o próximo...) e que é precisamente celebrado com votos de para-béns...

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