As Horas Nuas



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As Horas Nuas

Lygia Fagundes Telles
Edição integral

Círculo do Livro

Digitalizado, revisado e formatado por SusanaCap

www.portaldetonando.com.br/forumnovo/


Para o meu filho Goffredo

***

"Abrirei em parábolas minha boca

e dela farei sair com ímpeto

coisas ocultas desde a criação do mundo."

S. Matheus 13, 35

***

"De tudo fica um pouco. Não muito."

Carlos Drummond de Andrade

***

1


Entro no quarto escuro, não acendo a luz, quero o escuro. Tropeço no macio, desabo em cima dessa coisa, ah! meu Pai. A mania da Dionísia largar as trouxas de roupa suja no meio do caminho. Está bem, querida, roupa que eu sujei e que você vai lavar, reconheço, você trabalha muito, não existe devoção igual mas agora dá licença? eu queria ficar assim quietinha com a minha garrafa, ô! delícia beber sem testemunhas, algodoada no chão feito o astronauta no espaço, a nave desligada, tudo desligado. Invisível. O que já é uma proeza num planeta habi­tado por gente visível demais, gente tão solicitante, olha meu cabelo! olha o meu sapato! olha aqui o meu rabo! E pode acon­tecer que às vezes a gente não tem vontade de ver rabo ne­nhum.

Licença, Diú, não leve a mal mas vou ficar um pouco por aqui mesmo, bestando no espaço. Seguindo leve nessa órbita espiralada até pousar de novo no planeta azul. Acho mansa essa palavra, pousar. Mas tem que ser espaçonave, imagine se aquele avião pousou, está claro que comecei a gritar, Estamos caindo! Por favor, minha senhora, fique calma, pediu a comissária de bordo me agarrando com seus dedinhos de ferro e fazendo aquela cara suave. Tenho ódio de comissária de bordo, todas fingidas, Me larga! Já estava em prantos quando ela me entregou suavíssima nas mãos da amiguinha fotógrafa, clique! clique! Pouso pés­simo, pose pior ainda, clique!



A atriz Rosa Ambrósio é carregada para fora do avião com­pletamente embriagada. Primeira página. Ou segunda, enfim, não interessa. Um jornal que só se referia ao meu nome com pala­vras maravilhosas, ele me amava. O Douglas. Pai desse chefete rancoroso que herdou a empresa. O querido Douglas. Éramos jovens e só os jovens se encaram com o riso secreto que ninguém entende, testemunhas um do outro, é apenas isso, me via nele como num espelho. Posso começar assim as minhas me­mórias: Quando nos olhávamos eu via minha beleza refletida nos seus olhos.

Bebo devagar. O pano baixa devagar. Desconfio que essa idéia narcisista já andou numa peça, eu sabia o nome da peça, enfim, milhares de pessoas banais já falaram nessa banalidade. Um dia eu fico na praia. Mas fui verdadeira. Assumi minhas curtas verdades, assumi as mentiras compridíssimas, assumi fan­tasias, sonhos — como sonhei e como sonho ainda! Principal­mente assumi o meu medo. Tudo somado, um longo plano de evasão fragmentado em fugas miúdas. Diárias. Que foram se multiplicando, não leio mais jornais, desliguei a TV com suas desgraças em primeiríssima mão, crimes humanos e desumanos, catástrofes e calamidades naturais e provocadas, ah! um cansa­ço. Por que ficar sabendo tudo se não posso fazer nada? Posso dar água aos flagelados ressequidos? dar uma toalha de rosto aos inundados? Hem?!... As tragédias se enredando sem trégua. Não tenho culpa se tomei horror pelo horror conformado. A miséria paciente. Minha mulher, doutor, mais o meu filho com barraco e tudo. Nem o cachorro salvou, sumiu no meio da água, do barro... A Dinamarca envia caixotes de vacinas, o Papa pede a Deus em português. Lá do alto do palanque os políticos filhos-da-puta exigem providências, Meus irmãos, meus irmãozinhos! E os irmãozinhos continuam morrendo como moscas, ah! que­rido Gregório, perdão, mas não suporto mais tanta miséria, mer­da! Fui batizada, catequizada, conscientizada e tudo isso para ter a certeza de que não sou Deus e mesmo que fosse. Estou ciente, e daí? Não, não adianta se revoltar, Gregório se revol­tou, partiu para o confronto e acabou cassado, dependurado, torturado. Sua linda cabeça pensante levando choque, porrada. Atingido no que tinha de mais precioso. Ferido para sempre.

Tive homens, até que não foram muitos mas tive. Tudo so­mado, ficaram esses dois, Gregório. E Diogo. Sem falar naque­la lembrança tão esgarçada, verdade ou invenção? Miguel.

Naquela altura não sei o que podia fazer senão beber, Gre­gório já tinha ido embora, acho mórbido dizer que ele morreu, ele foi embora e pronto. Diogo, esse foi embora andando. E de mal comigo, é tão antiquado dizer, ficou de mal. Ficou de bem. O cravo brigou com a Rosa, eu cantava na escola. Preciso aproveitar essa idéia nas minhas memórias, acho deslumbrante ver o Bem e o Mal — com letra maiúscula — confundidos nu­ma coisa só, cozinhando no mesmo caldeirão. Quando deviam estar como o inocente par de bibelôs gêmeos na vitrine da ma­mãe, lembra? Dois gordos menininhos de cabelo encaracolado, cada qual na sua pedra, o cestinho de morangos no colo e o sor­riso. Enfeitando a mesma prateleira, Deus do lado direito e o Diabo por perto com sua sedução sem intenção. Sem malícia. Quando falei com Diogo sobre o que representavam para mim os bibelôs gêmeos, ele me respondeu aos berros — ouvia jazz, o som altíssimo — que o menininho era um só, dois eram os chifres apontando por entre os caracóis.

Diogo, meu amor, fico me perguntando por onde você an­dará, onde? Jovem e lúcido, uma lucidez assim causticante, eu me embrulhava em tanta coisa e não sabia como sair dos em­brulhos, O que eu devo fazer? perguntei tantas vezes. Ele fica­va me olhando com aquela sua ironia meio divertida e, ao mesmo tempo, afetuosa. Okey, falei no tempo e vejo agora que com ele eu tinha o tempo diante de mim. O tempo diante de mim. Dizia que eu era uma burguesa alienada. Poderia ter dito, uma burguesa assumida porque nunca neguei minha condição. Tan­tos espelhos. Mas só agora me vejo, uma frágil mulher cheia de carências e aparências, dobrando o cabo da Boa Esperança, já nem sei que cabo é esse, era a mamãe que falava nisso mas deve ter alguma relação com a velhice, ô! meu Pai, que palavra ignóbil.

Prefiro falar em madureza. Idade da madureza. Enfim, não tem importância, cumpri minha vocação, fiz o que pude. Ao contrário de Cordélia, pobrezinha. Minha filha, minha filha!, eu gritei do alto do penhasco, era uma tragédia grega e meus vestidos despedaçados na ventania. Queriam que eu descesse do pedestal, pronto, desci, estou aqui no chão. Fecho os olhos e vejo minha filha passar boiando no rio do supérfluo, da espu­ma, cheguei a pensar que fosse ficar uma tenista, ganhou aí umas taças. E não aconteceu nada, zero. Depois se ligou em astrono­mia, Gregório e ela falavam horas seguidas sobre os astros, fi­quei radiante, a mesma vocação do pai, mecânica celeste! Zero. Mas não é hipócrita como o Diogo que usa belos ternos de tweed, o melhor uísque, o melhor carro e tudo com aquele ar desleixa­do de quem não dá a menor atenção a essas frivolidades. O Diogo dos blues e dos sapatos italianos. Depois do sexo, me emprenhava pelo ouvido com suas fumaças intelectuais, oh! la busca de nuestra identidad cultural

Bebo em homenagem a la busca. Diogo, Diogo. Diante da morte, ficou mais convencional do que eu e chamou correndo um padre progressista, por que aquele padre? Gregório não acre­ditava em padres e vem um padre de jeans. Encomendou o cor­po do meu amado, amado, sim! com tanta pressa. Deixou a moto lá fora, devia estar com medo que a levassem, uma tristeza. Quem teve a idéia de chamar esse padre?, eu perguntei e o Dio­go desconversou, também não acredita em nada e de repente.

Lembro da noite em que ficamos juntos e livres porque Gre­gório viajou com Cordélia, os feriados numa chácara. Bebemos, fizemos um amor lindo, dormi em estado de felicidade para acor­dar num susto, com Diogo em prantos e me pedindo que lesse os Mandamentos da Igreja. Era madrugada, eu estava no apar­tamento dele, mas onde ia achar agora um Catecismo com os Mandamentos da Igreja? Tentei dizer isso e ele chorando sem parar, era porre, tudo bem. Mas já vi que a antiga fé ressurge inteira quando ele fica criança de novo. Fácil de entender, a mãe­zinha levava o menino para os preparatórios da Primeira Co­munhão, mas com que força essa coisa da infância às vezes reaparece. Diogo Torquato Nave, meu secretário, eu apresen­tava. E os homens e as mulheres olhavam para ele com respeito porque a beleza exige respeito.

Bombons, gracejos, flores. Foi me conquistando sem pres­sa, encomendação do corpo e conquista de mulher madura tem que ser devagar, ouviu, padre? Se possível, com certo romantis­mo, ele sentiu meu constrangimento, esta brutal diferença de idade, eu disse brutal?

Abro os braços, crucificada na roupa suja que espalhei pelo chão. O braço direito é o do Bem mas o outro, o pobre braço gaúche. Os bibelôs gêmeos com seus morangos. Ou cerejas? Ah! que lúcida eu fico quando bebo, encho a boca, encho o peito e digo que a confusão vem de longe, Sodoma e Gomorra, hem?! Com o Anjo fugindo espavorido da população desenfreada, ati­rando pedras nele. E o Papa-Anjo lá em San Francisco tentan­do explicar aos gays. Aids? E daí? A delícia da vida sem delícias, também esta você quer me tirar? Eu ficaria com os que atira­ram pedras ou com os outros que se ajoelharam? Não sei. Sem­pre que tenho que escolher me vem esta aflição, detesto escolher.

Ah! se a gente pudesse se organizar com o equilíbrio das estrelas tão exatas nas suas constelações. Mas parece que a graça está na meia-luz. Na ambigüidade. E até as estrelas, pobrezinhas, equilibradas mas tremendo tanto na solidão. Enfim, não tem importância, estou exausta. Exausta. Nuestra identidad naquela altura? As nuvens negras e o avião pinoteando feito louco. Tur­bulências. Não sei o que me restava fazer senão beber, gosto de nuvens mas daquelas bem branquinhas, não sou passarinho nem nada, me larga!

Procuro com a boca a boca da garrafa. Com a ponta da lín­gua vou contornando o círculo de vidro amolecido — ou foi a minha língua que amoleceu? Assim viciosa eu o percorria in­teiro, fala, Diogo, onde é que você está? Eu te amo. Agora que te perdi é que sei o quanto eu te amei — mas por que tinha que acontecer outra vez?

Clichê, eu sei, mas só damos valor às coisas depois que as perdemos, foi assim com Gregório. Foi assim com Diogo, é um lugar-comum mas sou uma mulher comum. Com as mesmas inquietações e os mesmos problemas — perdão, Gregório! com os mesmos teoremas daquela outra perguntando pelo amado das pernas de coluna, está na Bíblia. Mármore em base de ouro, ou­ro? Não sei, faz tempo.

Ele dizia teorema ao invés de problema, teorema é mais le­ve. E tem Deus na raiz, Teo. Tão estranho isso, o Gregório não acreditava em Deus mas parecia completamente impregnado De­le, eu o encarava às vezes e de repente sentia que Deus estava ali presente. Diogo também resistia mas era com Deus que ele se encontrava no auge da resistência. Uma resistência bem-humorada, diferente da resistência silenciosa de Gregório. Dio­go esbravejava, fazia piadas, era irreverente até consigo mesmo, Veja que bonita a minha fantasia!, disse e me mostrou um dia o retrato de um menino comprido e magrinho, de colante com enviesados coloridos e chapéu de dois bicos. Um Arlequim de meia-máscara preta, elegante, não fossem os velhos sapatões de lona. Mas por que esses sapatões?, lamentei e ele começou a rir. A minha mãe comprou sapatilhas apertadíssimas, eu saía com elas mas levava as chuteiras escondidas no saco de confete, che­gando na festa já fazia a troca. Até que esse retrato me flagrou, olha aí.



Arlequim polido pelo amor, eu disse e ele ficou me inter­rogando com aquele olhar dourado, dependendo da luz, apareci­am palhetas de ouro em suas pupilas. E o nome de uma peça de Marivaux, da escola francesa do século dezoito, ensinei e ele ficou balançando a cabeça perplexa, Ahhh... Do século dezoi­to? Finíssimo. Que cultura, Rosa Ambrósio, fala mais, por acaso você trabalhou nessa peça?, perguntou e se ajoelhou rapidamente num só joelho, com mesuras de um pajem medieval para me beijar os pés.

Bati a cinza do cigarro em seus cabelos e rolamos em segui­da pelo chão brincando de nos molhar com uísque e nos lam­ber depressa, não perder nenhuma gota. Aqui, minha velha!

Minha velha. Era brincadeira e não é brincadeira. Quero se­gurar a garrafa que me escapa por entre as roupas feito um peixe-enguia, ah! peguei, digo e distendo o corpo num espreguiçamento que não acaba mais. Restou-me este prazer. E a pequena Ananta, essa analista idiota. Técnica do silêncio mas quando ela fala é para descobrir que o mel é doce. Entendi, minha querida, mas não en­tendo por que você quer tirar a minha única alegria.

Eis aí uma boa pergunta, dizem os políticos nojentos e não sabem responder a essa boa pergunta. Para ganhar tempo, fa­zem aquelas caras, disfarçam e falam em outra coisa. Nem a mi­nha pequena analista sabe a resposta. Não tem importância, paro quando quiser, desintoxicação. Ginástica. Nem preciso de ou­tra plástica, de novo o palco, aplausos. A glória. Amo a glória, sou um poço de vaidade mas digo que estou me lixando com essas futilidades, poso de artista solitária, me deixa em paz! Até que a vontade da luta me sacode e então saio desencadeada, de elmo aceso feito Joana d'Arc, tanta certeza de vitória, tanta coragem.

Acho deslumbrante essa coragem de abrir o peito e as veias, Cavalgar triunfante sobre todos os azares! Okey, mister Shake­speare, mas agora eu queria ficar deitada aqui no chão. O escu­ro. A trégua. Não ver e não ser vista. Nas guerras antigas tinha essa hora de trégua e não eram bonitas? Hem?!... Aquelas guer­ras. Lentas e sentimentais com os violinos no fundo. Fáceis, a gente entendia tudo quando via no cinema, o sangue não esgui­chava com violência das feridas mas empapava as fardas deva­gar, quase delicadamente. Muita bandeira. Muita ambulância com a enfermeira loura de uniforme sem nódoas, eu não enten­dia tanta limpeza em meio de tanto sangue e lama. Tempo de muita roupa, o Gregório até riu porque não acabava nunca de desabotoar os botõezinhos cobertos de cetim do meu vestido de noiva. Vestido de Noiva, a peça foi um sucesso. Brilhei. Fé­rias, vinho branco e ostras, Café Voltaire. Paris na Primavera.

— A senhora chamou? Escutei um chamado. Cubro a garrafa que ela já viu, enxerga no escuro como os gatos.

— O Rahul estava miando tão triste...

— Já tomou leite. A senhora chamou?

— Não, Dionísia, faz um ano que não chamo ninguém. Mas não acenda a luz, peço e cubro a cara com um pano. Trapos, querida.

— Não é trapo não, é a roupa que juntei e esqueci de levar. Desse jeito a senhora não vai se agüentar de pé. É já avisei que não posso mais levantar peso.

Levantar peso, Diú?, repito me sacudindo de rir. Diú, eu te quero tanto mas agora me deixa aqui quietinha, hem? Obrigada.

Sinto que ela me pulou quando passou para o outro lado, não me respeita mais, ninguém me respeita, não tem importân­cia. Quando saiu me pulou ainda uma vez, Eu lavo as mãos.

— Adeus, meu amor!, fico sussurrando. Sou a jovem enfer­meira apaixonada pelo soldado que saltou dentro da trincheira do inimigo num corpo-a-corpo que só arrefeceu quando o ou­tro usou a baioneta, haaá!... Então o meu menino-soldado foi tombando de costas, o olhar tão espantado, nessas guerras to­dos morriam de olhos abertos, no auge do espanto. Estou no hospital recebendo um ferido na padiola quando me veio o pres­sentimento, temor e tremor. Desfaleço.

Tantos pressentimentos no ar. Vozes. A voz da mamãe vem numa aragem de cinzas, A fita é de guerra, Rosa? O cinema lo­tado. Na tela, lama, piolhos e bombas. Aqui embaixo tinha chei­ro de pé. Alguém não lavou o pé, avisou mamãe. Era uma vidente com olfato de vidente, eu empalidecia quando ela son­dava o ar pesado de mensagens sempre dramáticas: o céu podia estar azul, sem nuvens mas se ela sentia o cheiro de chuva, cedo ou tarde a chuva caía fatal. O cheiro quente de vela anunciava no ar alguma morte, quem? Podia não dizer mas intuía qual seria o futuro morto e não se enganava. O adocicado cheiro de casamento a fazia sorrir, gostava de festas. Uma tarde nos per­demos num bairro afastado enquanto ela procurava o endereço da costureira que ia fazer o meu uniforme de escola. Entramos numa rua de casario modesto, subimos por acaso uma ladeira e antes de lermos a placa com o nome da rua, ela parou. Dila­tou as narinas. Estamos perto de um cemitério, avisou. Quase desmaiei de susto assim que dobramos a esquina e topamos com o muro cinzento debruado de ciprestes.

— Fomos felizes, hem, mamãe?, pergunto e estendo a mão para apertar a sua.

Prendas-domésticas, a pequena Ananta anotaria na sua fi­cha, a analista gosta dos rótulos. Mulher-Goiabada. E daí? Me­xia tão contente o seu doce no fundo do tacho. Morta, não me pareceu triste mas apreensiva, na iminência de alguma desco­berta. Os cheiros. Fui buscar correndo o vidro de água-de-lavanda que ela usava, espremi o algodão encharcado em redor da sua face, acendi o incenso perfumado, ah, mamãe!... A mi­nha única amiga. Mulher detesta mulher. Detesta. A pequena Ananta me fulminou com seu olhar terapêutico: Rosa, a que mulheres você está se referindo?, perguntou. Ficou um instan­te limpando os óculos com o lencinho que tirou do bolso do avental. Quando me encarou novamente foi com expressão pe­nalizada. Sim, Ananta, é claro que sou eu que me detesto. Co­mo posso julgar as modernas comunidades de mulheres eman­cipadas, as deslumbrantes mulheres tão conscientes na virada deste século de merda, hem?!... Ela não me respondeu. Devia estar pensando que a burguesia não tem mesmo jeito. Concor­do mas mulher detesta mulher, ainda aquele clima de competi­ção com o rei reinando entre as odaliscas. Só essa história de mãe com filha é que funciona. Às vezes.

Enfim, não interessa, bobagem. Sei que eu tinha verdadeira paixão pela retrospectiva no cinema tão modesto com a fita do soldado-menino fumando na trincheira. O sol. O silêncio, tu­do parecia tão calmo. Então veio a borboleta toda alegrinha, Olha a borboleta na cerca de arame farpado! A guerra era anti­ga, usava esse arame. Agarrei a mão da mamãe quando o solda­do estendeu a dele, quis pegar a borboleta pelas asas, uma brincadeirinha. Abro a garrafa e encho a boca porque o inimi­go enche o fuzil, o olho azul viu o mocinho levantar o corpo até alcançar a borboleta, quase gritei, abaixa! mas o olho fez a pontaria e pum! acertou em cheio.

Apalpo a trouxa de roupa, quero uma peça de algodão por­que detesto enxugar a cara com seda e estou chorando feito uma vaca. Velharias. A Lili disse que não é bom sinal chorar por velharias, depois de uma certa idade a gente só deve chorar por coisas recentes. A partida de Gregório foi recente? Não sei, mas ele ainda estava por aqui quando Cordélia começou a andar com esses velhos, a gente conversava tanto sobre isso. E ele achando natural que a filha única, uma mocinha! A escolha é dela, dizia com aquela cara impassível, o cachimbo no canto da boca. As baforadas curtas. As respostas curtas, ah! vontade de esmurrar cara e cachimbo, mas então?... Permitir que uma neurótica — ora, neurótica sou eu, permitir que uma psicopata incapaz de escolher sua pasta de dentes, escolha o seu próprio destino. Eu quis dizer seu próprio amante mas tenho uma queda pelo estilo dramático, herança da mamãe. Ele esboçou o sorriso pa­ra dentro, odeio esse sorriso interior de sábio da montanha ten­do que tratar com a formiguinha — ah, não, espera, o que estou dizendo?... Gregório, meu amor, me perdoa, sou uma bêba­da podre num mundo podre, você sabe, o mundo apodreceu completamente. Até o mar, lembra? também talhou. As pes­soas chafurdam no lixo e parecem contentes, não sentem o lixo aqui fora, o lixo no particular, pisam nele e não se importam. Os homens da limpeza não dão mais conta ou entraram em gre­ve, a greve é geral.

A rua suja, o teatro sujo. A televisão. Começaram agora a usar crianças nos anúncios de máquinas, sorvetes, refrigerantes. As menininhas fazendo gestos e esgares sensuais de putas. Não tenho nada contra as putas mas não é um exagero tanta lição de putaria? O reino da vulgaridade. Nem quinze anos tinha Cor­délia, nem quinze anos! e já começou a sair com a homenzarra­da. Tudo velho. O sexo livre, abaixo as calcinhas! O louco livre, abaixo as grades! Aceito, nenhuma censura, longe de mim, hem?! Sou uma artista. Meu nome é Liberdade! bradei numa peça com a roupa da própria. Mas tenho uma modesta pergunta a fazer, será conveniente que a loucura e o sexo fiquem assim soltos na praça? O adolescente sem estrutura, o velho sem estrutura, o povo inteiro, meu Pai. O país da imaturidade. Gregório me olha­va como se olha uma criança doente, lamentando mas manten­do uma certa distância, não interferia. Diogo interferiu até demais, dava opinião em tudo, me agredia sem a menor ceri­mônia, Sua puritana, sua reacionária!

Parece que está na moda esse tratamento de choque e foi assim que Diogo me tratou, trouxe até livros de Nietzsche. O poder da vontade, garota! Tentei convencê-lo de que já conhe­cia Nietzsche mas me desmascarou na hora, Conhece nada, faz como todo mundo que cita Proust, Guimarães Rosa e na reali­dade. Na realidade eu tinha que neutralizar o medo recusando a dor que desfibra e vampiriza. Vai, mulher, reaja! ele ordena­va. Reagi atirando-me ao trabalho, aos esportes, fiz natação, pedalação, comecei a estudar papéis dentro da minha faixa etária, outra expressão ignóbil. Até que um dia nós dois caímos na ri­sada quando descobrimos que Nietzsche, também ele, tinha medo.

A vaidade. A soberba. Só vaidade, montei no meu carro de nuvens e desfechei meus raios. Rua, eu disse. Ele foi. Fiquei so­zinha com minha agregada negra. Com meu gato. Tenho mi­nha filha mas é como se não tivesse, parece aquela poesia que o papai gostava de ler, Nunca está onde nós a pomos e nunca a pomos onde nós estamos. No caso, era a felicidade. E esse pai, por onde anda? Se é que ele ainda anda. Paradeiro desconheci­do. Só se fala na decadência dos usos, decadência dos costumes, está na moda a decadência. Sou uma atriz decadente, logo, es­tou no auge. Não me mato porque sou covarde mas se calhar ainda me matam.

Cinqüenta anos presumíveis, anotaria o solerte repórter po­licial. A vítima estava descalça, portava uma camisola de seda lilás e apresentava no corpo escoriações e manchas violáceas de­correntes das quedas, ela bebia e não acendia as luzes, preferia a penumbra. Enforcada na própria echarpe. As perfurações à faca foram encontradas no elemento de cor parda, vinte anos presumíveis. Trinta e cinco anos presumíveis tinha o elemento da Baixada Santista com cinco perfurações no peito feitas por arma de fogo. Era preto. Tinha dezessete anos presumíveis o elemento de cor branca portando calção de banho azul, o cor­po em adiantado estado de decomposição apresentando quarenta e duas perfurações feitas com um objeto contundente. Terceiro Mundo. Presumivelmente.

Todo processo é lento, diz a pequena Ananta. Mas com o tempo as coisas vão se ajustando. A fase inicial de agressividade já passou, as mulheres agora estão evoluindo para um entendi­mento mais profundo no trabalho. No amor, prossegue ela to­mando seu chá de jasmim.

Ananta, a Esperançosa. Aposta no futuro em geral e na te­levisão em particular quando aprova os programas educativos com o sexólogo de avental e bastão na mão apontando para o quadro com os grandes e pequenos lábios. Em cores. Para a ale­gria das crianças iniciadas que desmaiam no banheiro de tanto se masturbar. Quer dizer que é preciso começar com crianci­nhas? Ananta ajusta no pequeno nariz os pequenos óculos que escorregam, Sem dúvida, a iniciação sexual deve começar logo. Ursa Maior e Ursa Menor na constelação gregoriana.

A educação pelo rabo. Estimular os peitinhos liberados, os jeans tão colados que o fundilho se entranha na fenda e reparte o montículo lanhado ao meio, ai, ai, ai!... E quando o macho vem e esgana e estupra fazem então aquele beicinho, Eu não queria e ele enfiou o pepinão em mim! No plantão da delegacia do mulherio, a pequena Ananta está vigilante. A carinha seve­ra, a caneta severa enchendo rapidamente as fichas, ela tem pai­xão por fichas. Já começou a última, Sua idade? A menininha disse o nome mas agora vacila na idade enquanto examina as unhas sob a crosta de esmalte rosa-choque. Algum sinal do há­bito da escrita nos dedinhos? Nenhum sinal, zero. Fica anota­do na ficha, Treze anos presumíveis. Diz ter feito o curso primário mas provavelmente não passou do primeiro ano, acres­centa a letrinha miúda. Oferece o lenço de papel para a presu­mível vítima enxugar o olhinho vidrado de maconha, ah! meu Pai! Chega, estou exausta, não interessa.

Bebo sem vontade, por que estou assim amarga? Vai ver é inveja, estou ficando velha e me ralo de inveja dos jovens que vêm cobrindo tudo feito um caudal espumejante, o ralador da inveja rala mais fundo do que o ralador de queijo. Inveja de Ananta, inveja de Cordélia — também de Cordélia? É claro, in­veja de minha filha. Sou um monstro, digo e me cubro com uma blusa. Espera, não é tão simples assim, a verdade é que eu queria apenas uma filha normal — será pedir muito? Podia ser livre, podia morar longe com sua tropa de amantes, aceito. Mas não precisava ser uma tropa de velhos. Diogo tem trinta e qua­tro anos presumíveis, Cordélia é mais moça. Faz diferença por­que sou mulher, hem?!... Nenhuma diferença, ela responde. Essa analista idiota aí em cima.

Fiquei uma esponja pingando fel e não queria isso, ah! mas o que fazem esses mortos que não ajudam? Mamãe, Miguel, tia Ana e mais aquele monte de parentes. Meu avô Júlio sabia tan­ta coisa e sua sabedoria se perdeu, morreu e ninguém aprovei­tou nada, há de ver que nem os mortos ficam sabendo do que acontece aqui, já puxei meu pai fujão pela manga, se você mor­reu, me dê um sinal! Gostava de assobiar, o pobrezinho. Tinha um amigo dentista que se matou com um tiro na boca, sabia fazer mágicas. Era terrível quando brincava de cumprimentar estendendo a falsa mão de borracha que largava na mão da gen­te, eu gritava e jogava a mão longe. Melhor não mexer com ele, pode repetir a brincadeira. Mas e os outros? Gregório podia me ajudar in memoriam pelo tempo que me amou, sabia latim. Até grego. Mecânica celeste. Acho que andava triste comigo mas quem aprendeu tanto devia perdoar quem sabe tão pouco.

Sonhei, eu estava num castelo vazio dando para o mar. A noite negra. O vento. Me debrucei arquejante na janela com o mar embaixo todo encrespado, as ondas se atirando furiosa­mente contra os penhascos. Na crista da onda que estourou apa­receu um peixe vermelho fumando cachimbo, gritei, Gregório! e despenquei no abismo, a onda me cobrindo inteira, Gregó­rio! Me agarrei numa pedra e dali fui subindo pela encosta, per­seguida pelo caçador que eu não podia ver mas que estava me vendo. O sangue gotejava dos meus joelhos, das minhas mãos e ia caindo nas pedras, marcando as pedras. Não, não adiantava fugir porque se o caçador que vinha logo atrás unisse com a pon­ta do dedo essas gotas, teria o meu rastro. Então o Diogo colou a boca no meu ouvido e disse, Segura a chave. Fechei a mão cheia d'água e acordei.




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