As imagens das galeras funk na imprensa* micael herschmann



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As imagens das galeras funk na imprensa* MICAEL HERSCHMANN

A mídia constitui uma arena na qual não só diferentes narrati­vas concorrem engendrando diferentes sentidos, como também cada discurso em si mesmo abriga perspectivas diversas e, muitas vezes, posições até contraditórias. Se, por um lado, é nos meios de comunicação de massa que se desenvolve grande parte dos processos de estigmatização/criminalização das cul­turas minoritárias (na medida em que ali acontecimentos, fatos, rituais e, de forma geral, a "realidade social" ganham sentido), por outro, vale lembrar que, como sugere Mikhail Bakthin, cada discurso comporta uma polissemia não "controlada" com­pletamente pelo sujeito do discurso. Assim, o discurso nem sempre traduz-se em um "projeto ideológico" claro de quem o produz'! Como pude constatar ao longo da pesquisa que reali­zei sobre o funk,2 o mesmo discurso que demoniza o funk é aquele que vai assentar as bases para a sua glamourização.

'~ Desta forma, nem tudo tem caminhado no sentido de colo-

car os funkeiros como simples "agentes da desordem e do caos". Na realidade, nem a rrúdia é homogênea e muito menos a sociedade, os políticos, os jovens o são. A mesma mídia que demoniza, é aquela que também abre espaços nos jornais e prqgramas de televisão. A produção jomalística, por exemplo, implica diversos modos específicos de ver e relatar o "real", os

* Parte deste artigo foi publicado no texto "Mídia e culturas juvenis: o caso da glamouri­zação do funk nos jornais cariocas". ln: Menezes. Philadelpho. Signos plurais. Mídia, arte, cotidiano na globalização. São Paulo: Experimento, 1997.

As imagens das galeras funk na imprensa 163

quais diferem de um veículo para o outro (ou mesmo varia dentro de um mesmo veÍCulo), o que pode resultar na constru­ção de diferentes acontecimentos dentro dos media, tendo assim em conta apenas as múltiplas possibilidades de suas construções discursivas.3 Ou seja, os acontecimentos são for­mados também por elementos exteriores e são, grande medida, condicionados pelo sujeito que vai reconhecê-Ios, relatá-los e construÍ-los.4 É neste sentido que inúmeros autores postulam que o acontecimento seria resultado de um "processo de inter­textualidade", da associação de um evento com outros, ante­riormente isolados, unidos por meio da informação.5 Busca-se aqui, portanto, repensar e relativizar o papel da mÍdia na elabo­ração dos sentidos dos acontecimentos e discursos produzidos por algumas culturas juvenis urbanas "proscritas" como, por exemplo, o funk e o hip-hop. Ou melhor, trabalhando com a hipótese da agenda-setting,6 o objetivo é avaliar em que medi­da a "capacidade espantosa" dos media em "dizer aos seus lei­tores sobre que ternas devem refletir" contribuiu para "leituras negativas", para a interdição parcial de festas, colocou obstá­culos para a organização de espaços de socialização, mas tam­bém facilitou a integração ao mercado e popularização dessas culturas juvenis. Daí a necessidade de rever os enunciados jor­naIísticos veiculados no período em questão.

A violência com que temos contato e que discutiremos aqui - a partir do estudo de caso do funk -, constantemente associada aos grupos juvenis dos centros urbanos, é na verda­de uma interpretação, um relato visto, quase sempre, do ângu­lo da enunciação jornaIística. Com isso, não se pretende afir­mar aqui que os funkeiros não sejam violentos, mas repensar de que forma suas falas e atitudes se diferenciam daquelas pro­duzidas por outros jovens aparentemente mais "integrados na estrutura social", ao ponto de a opinião pública carioca inseri­los na galeria dos principais "inimigos públicos" da cidade.

As manifestações destes grupos juvenis e sua difusão nas redes mediáticas têm resultado não só em um processo de cri­minalização dos agentes e grupos envolvidos em tais atos,

mas, eventualmente, na institucionalização de um locus no qual se expressariam diferenças capazes de configurar novos territórios e espaços sociais. Deste modo, os sentidos veicula­dos nos meios de comunicação de massa têm, não só reforçado e legitimado um quadro autoritário marcado pela exclusão social, mas também delineado novas possibilidades de identi­ficações e de construção de subjetividades, corroborando para a instauração de novas formas de solidariedade social e novas relações de poder.

Nesse quadro, as grandes cidades constituem hoje o espa­ço privilegiado da diversidade sociocultural e, conseqüente­mente, são territórios de recorrentes disputas e conflitos - bem como no grande espaço de "negociação", exemplificada pela intensidade dos debates em torno da formulação de políticas públicas. Por sua vez, nas grandes cidades contemporâneas, as ações dos grupos juvenis, as intervenções ilegais/violentas dos agentes de segurança pública, a atuação de representantes do comércio informal e de outros tipos de microorganizações (algumas criminosas) evidenciam, até o momento, a incapaci­dade das macropolíticas sociais e culturais (especialmente nos países de Terceiro Mundo) de oferecer respostas satisfatórias.7

CIDADE MARAVILHOSA OU VIOLENTA?

No caso do Rio de Janeiro, a idéia geral de que vivemos em uma cidade marcada por conflitos e crimes parece amplificar­se, na medida em que se distancia da imagem mais tradicional de "cidade maravilhosa" que, em geral, representa a metáfora da ordem urbana. Estado, intelectuais e sociedade civil passam a se perguntar o que jazer diante deste quadro, perguntam-se se a cidade "outrora maravilhosa", "sem violência", é hoje a cida­de "cindida", "partida" que aparece estampada nos jornais e nas telas das televisões.

Entretanto, "maravilhosa" ou "partida", o importante a observar neste debate é que a emergência no imaginário social

de um Rio de Janeiro (e provavelmente também de um Brasil) fragmentário coincide com o contexto em que a violência tem sido mais exibida, isto é, tem estado mais presente nos media. Salvo algumas exceções, a grande imprensa tem incrementado uma visão mais sombria do tecido social e vem atribuindo um nome a esse tipo de fragmentação quando associada à juventu­de: tribos urbanas.8 Este rótulo, geralmente veiculado nos enunciados jornalísticos, sugere uma "cidade polifônica", isto é, um território em que vozes e ações corroboram no sentido de configurar um espaço marcado pela "instabilidade social".

"Os grupos que dividem a cidade em territórios minados cul­tuam fanática paixão pelas suas idéias e raiva mortal de seus opositores. Assim, shows de rock, bailes e bares por toda a cida­de viraram endereços de verdadeiras batalhas campais."9

É óbvio que este tipo de fenômeno não é exclusividade da dinâmica cultural local, seja ela "carioca" ou "nacional"; ele faz parte do conjunto de desafios que vem sendo apresentado pelo multiculturalismo às sociedades contemporâneas. Entretanto, acredito que este estudo de caso possa sugerir novas interpretações para essa intricada relação entre culturas juvenis, especialmente as desenvolvidas pelos jovens oriundos dos setores menos privilegiados da população, e os meios de comunicação de massa.

PAPEL CULTURAL DA VIOLÊNCIA

Mesmo levando-se em conta a sua amplificação nos meios de comunicação, é possível identificar, neste contexto, a impor­tância gradativa que não só a cultura funk, mas todo um con­junto de grupos urbanos associados a estilos musicais vêm desempenhando junto aos jovens. Os jovens vêm encontrando, sem dúvida, nas representações associadas a estes universos musicais e à sociabilidade que eles promovem, o estabeleci-

mento de novas formas de representação social que lhes permi­tem expressar seu descontentamento, sua insatisfação. Assistimos ao crescente interesse dos jovens por práticas cul­turais que parecem se contrapor (ou que pelo menos se colo­cam em tensão) a um certo paradigma da "não-violênCia" - representações e modelos que tinham até há bem pouco tempo grande, e quase exclusiva, repercussão no imaginário social brasileiro -, o qual afirmava que todas as classes sociais e raças conviviam em um clima de razoável harmonia. 10

Ao invés de reforçarem a imagem de um "país libertá~ rio/malandro", 11 as representações promovidas pelos funkeiros sugerem um Brasil hierarquizado e autoritário. Revelam assim os conflitos diários enfrentados pelas camadas menos privile­giadas da população, como: a repressão e os massacres poli­ciais, a dura realidade dos morros, favelas e subúrbios, a preca­riedade e ineficiência dos meios de transporte coletivo, o racis­mo e assim por diante.

"( ... ) Na hora de voltar para casa É o maior sufoco pegar condução

E de repente pinta até um arrastão ( ... ) Esconde a grana, o relógio e o cordão Cuidado, vai passar o arrastão ( ... ) Batalho todo dia dando um duro danado

Mas no fim de semana sempre fico na mão, escondendo Minha grana para entrar na condução."

(D1 Marlboro, A. Lemos e Nirto, Rap do arrastão)

É como se, de certa forma, a antiga imagem que tínhamos do Brasil cedesse espaço, no imaginário social, a um novo retrato mais fragmentário e plural da "nação".J2 Na realidade, o fenômeno da fragmentação e pluralização tem atingido, de modo geral, a grande maioria dos países do Ocidente e poder­se-ia afirmar que é resultado, em parte, da dinâmica do proces­so de modernização e de globalização desencadeado pelo capi­talismo transnacional e, em parte, da impossibilidade de reali-

zação das utopias modernas. Entretanto, esse cenário não pare­ce implicar o "fim do social", como afirmam as teses mais pes­simistas, mas a construção de um outro contexto em que as diferenças e os processos de homogeneização se encontrem em negociação permanente.

Ao contrário do que ocorre em países com uma tradição democrática mais consolidada, no Brasil, o reconhecimento cada vez mais constante das inúmeras diferenças sociais, quan­do não reifica privilégios, está submetido a uma lógica de dis­criminações e preconceito que não aponta na direção da nego­ciação e da justiça como balizadoras da estrutura social. A argumentação mais recorrente é que as fissuras sociais são pro­fundas e isso parece ser determinante na obstrução da possibi­lidade de uma interlocução e de um debate consistente em torno de questões pertinentes. Essa sociedade tão heterogênea quanto desigual nas formas de distribuição e acesso a bens e recursos, em que as diferenças são também ou sobretudo dese­nhadas pela ordem das carências acumuladas no decorrer dos anos, vem dando lugar à visibilidade de uma conflituosidade inédita que atravessa todas as dimensões da vida social. 13 Esta conflituosidade é em geral avaliada a partir de análises indife­renciadas, hoje alimentadas pela proliferação de dados sobre crimes ou pela abundância estatística que baliza as projeções tão caras aos órgãos de segurança pública e que vai tenninar por associar invariavelmente a "violência" à pobreza e à crimi­nalidade.14

Este trabalho, aliás, busca se afastar da visão hegemônica bastante mecanicista que encara a violência como uma "situa­ção de exceção", uma "anomia", e que toma a "pacificação da sociedade" como fato consumado. Ao contrário do que fre­qüentemente se postula, os acontecimentos violentos não seriam resquícios de um "barbarismo" em vias de extinção, mas uma prática recorrente e fundamental para a dinâmica social sempre presente em distintas sociedades e diferentes contex­tos.l5 A violência, em última instância, é um importante recur­so que vem garantindo a perpetuação e/ou a renovação social. 16

Não busquei aqui definir a violência ou enfatizar apenas seus aspectos funcionais/normativos, mas destacar o importan­te papel que ela desempenha na dinâmica social, explorando a ambivalência da violência, seus possíveis aspectos desestrutu­radores e fundadores)? Volto-me para as representaçõe~ da violência, sublinhando o modo pelo qual ela ganha visibilidade e repercussão no imaginário social, buscando com isso, sem descartar o potencial irruptivo da violência, enfatizar seu papel fundador/estruturador, seus aspectos culturais. Em outras pa­lavras, longe de aparecer apenas como evidência de dissidência ou de "caos" social, ela passa a ser vista no cenário intelectual, cada vez mais claramente, como tendo um papel constitutivo, capaz de fecundar novas expressões do social, ela abre a possi­bilidade de construção de novos sentidos (capazes de a)terar nosso ponto de vista ou mesmo "visão de mundo") e se apre­senta cada vez menos passível de avaliações apenas regulado­ras e/ou moralizantes. É bem verdade que a violência gerada por grupos sociais ou, de modo geral, pela sociedade é vista co­mo ilegítima, como a patte "maldita" do cotidiano. Entretanto, na medida em que o aparato estatal evidencia-se corno um dos grandes "geradores" de violência (urna violência, geralmente naturalizada) - devido às denúncias que apontam "abusos" e casos de "corrupção", e colocam em xeque sua incapacidade de cumprir o papel de promotor/orquestrador do bem-estar social18 -, vem crescendo, especialmente em países marcados por um passado autoritário/ditatorial recente, o número de pes­quisadores e membros de ONGs (especialmente as dedicadas à defesa dos direitos humanos) que buscam repensar o fenômeno da violência de um ângulo não apenas criminalizante.

Poder-se-ia considerar, portanto, a violência não apenas corno expressão de dissidências ou forma de perpetuação, mas também como fonte de "renovação" e de vida. A violência é urna das peças fundamentais no dinamismo das sociedades. É urna forma de linguagem/comunicação, estando relacionada às diferenças, à heterogeneidade presente em cada sociedade. As sociedades são em certa proporção harmonia e discórdia, asso-

ciação e competição. A violência possui uma centralidade sub­terrânea, isto é, apesar de não ser freqüentemente visível, sem­pre esteve presente em qualquer coletividade, pois, como lem­bra Weber, a "luta é o fundamento de qualquer relação social" .19

Neste trabalho parte-se da hipótese de que a dinâmica cul­tural no mundo contemporâneo evidencia que a violência, tal como ela se apresenta, constitui uma forma de expressar con­flitos e interesses diferenciados. Esses conflitos, por vezes, emergem na forma de manifestações socioculturais que encon­tram no consumo, na produção cultural e na afirmação de "estilos de vida" um importante canal de articulação, negocia­ção de sentidos e significados. Para tais expressões culturais, a violência é tanto um recurso de expressão quanto uma estraté­gia de obtenção de visibilidade. No quadro atual, marcado crescentemente pela "experiência mediática", pela "crise do Estado" e pela fragilidade dos canais de representação política, é possível afirmar que a mídia se apresenta como um espaço fundamental de "negociação". Apesar de sua limitação e for­mato, ela não só constitui o espaço de exibição e produção desta "realidade violenta" de grande impacto sobre nosso ima­ginário - de representações que reificam e/ou amplificam a condição ilegítima de certos atos e discursos associados à sociedade, especialmente aqueles promovidos pelos segmen­tos populares -, como permite que a violência exibida nos meios de comunicação de massa, por sua enorme capacidade de mobilização, abra a possibilidade do reconhecimento de novos sentidos, de diferenças e até alteridades.2o

Alguns estudiosos dos veÍCulos de comunicação de massa, especialmente os partidários de uma visão que aposta no "fim do social", afirmariam, e talvez com certa razão, que tal situa­ção não ocorre, pois a violência propriamente não é mais aces­sada e sim ressimbolizada, banalizada e simulada. Apesar de reconhecer essa possibilidade, e de atestar que muitas vezes o outro que emerge nos meios de comunicação de massa é demonizado/criminalizado, é preciso ressaltar também o poder de convocação e de agendamento da rnídia e a possível emer-

gência do outro na polissemia dos enunciados veiculados, ou seja, as possíveis "frestas" abertas através das quais emergem as diferenças, as "fissuras sociais" que muitas vezes tomam conta do debate político-intelectuaJ.21

A questão da violência, tal como se apresenta nos espàços urbanos brasileiros, deixa entrever, por trás de suas manifesta­ções freqüentes, se não uma reivindicação por ordenamentos sociais mais justos, pelo menos uma denúncia da impotência do Estado em cumprir o antigo projeto de unificação e equilí­brio. Em outras palavras, neste contexto marcado pelo desca­so, podemos considerar a violência desencadeada pela socie­dade, no Brasil, não s6 como indícios de uma "desordem urba­na", mas também, em certo sentido, como uma forma de expor a insatisfação perante uma estrutura autoritária e clientelista que promove sistematicamente a exclusão social. Em um país no qual o modelo político tradicional está saturado e o aparato jurídico-legal, na "prática", s6 é capaz de punir as camadas menos favorecidas da população, podemos conceber a violên­cia como uma forma de ruptura da ordem jurídico-social e como uma "resposta" concreta da sociedade,22

Um exemplo claro disso são os arrastões de outubro de 1992 e 1993, no Rio de Janeiro. É importante reconhecer que os jovens que participam dessas manifestações culturais com suas representações (que falam das questões específicas do seu cotidiano e refletem suas insatisfações) e atitudes s6 ganham espaço efetivamente na mídia no Brasil e, posteriormente, junto ao Estado, através do conflito, ou seja, na medida em que se tomam uma possível "ameaça à ordem". Os arrastões, por exemplo, motivaram a criação do Projeto RIOFUNK, geren­ciado pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (6rgão da Prefeitura do Rio de Janeiro). Este projeto buscava principalmente incentivar e promover o lazer e a vida cultural desse segmento social. Além disso, oferecia cursos para for­mação de DJ, atores, dançarinos etc. No entanto, cabe ressaltar que "se tomar uma ameaça" não é parte de uma estratégia de lideranças do mundo funk carioca. Como veremos mais adian-

te, esses arrastões são muito mais tentativas de (re)produzir o "ritual" de embate das galeras que se realiza em alguns bailes funk do que propriamente atos que visam trazer pânico ou mesmo assaltar banhistas. Entretanto, como outras manifesta­ções que ocorrem no espaço urbano promovidas pelos segmen­tos populares - como no caso dos "quebra-quebras" -, elas possuem quase sempre uma conotação catártica. A respeito dos resultados desse tipo de conflitos· no Brasil, Roberto DaMatta, em seu artigo "Os discursos da violência no Brasil", levanta a seguinte hipótese:

"( ... ) quando são os pequenos (ou estruturalmente fracos) que clamam por seus direitos, esse clamor assumirá sempre a forma de uma violência pessoalizada e 'pré-política' - isto é, um estilo de violência que se manifesta por grupos de interesses difusos através de grupos ad /zoe e sem nenhuma planificação. Realmente, seu estilo espontâneo é que legitima, como um bom desfile carnavalesco, o protesto destrutivo que promovem"))

Ao representar uma "ameaça à ordem", os grupos de fun­keiros tendem também a ser qualificados como mais um tipo de gangue juvenil urbana. Mesmo reconhecendo que essas galeras funk eventualmente cometem pequenos delitos ao sabor das oportunidades, alguns pesquisadores que vêm traba­lhando com criminalidade e violência, como, por exemplo, Alba Zaluar, opõem-se à tese defendida com grande freqüência pelos meios de comunicação de massa.24 A autora não só defende que as galeras não são gangues como afirma também que tal tipo de organização social inexiste no país:

"No Brasil, as quadrilhas tampouco têm a sua vinculação com a cultura jovem notada em outras partes do mundo, especialmente nos Estados Unidos e no México. Não há adesão especial a um estilo musical ou de vestimenta, ou do modo de pentear-se. Seus nomes não são metafóricos que simbolizem sua identidade de marginalizados ou desviantes da sociedade como nas gangues norte-americanas ou nas bandas da Cidade do México. Os

nomes das quadrilhas daqui são referentes ao espaço geográfico ocupado e controlado pela quadrilha no exercício de sua ativida­de comercial ou recebem apenas o nome de seus chefes."25

Presentes ou não no país o fato é que inúmeros grupos, dentre eles os de funkeiros, têm sido rotulados como gangues. Ao trabalharmos com essa temática, portanto, toma-se crucial repensar em que medida esses grupos jovens oriundos dos seg­mentos populares constituem "galeras" e não "gangues", como tão freqüentemente encontramos na maioria das manchetes de jornais e TV.26

Apesar de reconhecer algumas similaridades e a possibili­dade de alguns membros das galeras27 fazerem parte também de gangues (e até de trabalharem no tráfico), é preciso atentar para o fato de que: a) as galeras ao contrário das gangues estão estruturadas fundamentalmente sobre atividades ligadas ao lazer, como ir à praia, dançar, cantar, beber, namorar; b) movimentam-se com maior desenvoltura na vizinhança, mas não possuem uma delimitação clara de um território de atuação (podem pertencer a vários telTitórios); c) apesar de possuírem lideranças internas, ninguém ostenta a condição absoluta de chefe; d) e não têm exclusivamente na violência a forma prin­cipal de demarcação de áreas de atuação nas ruas.

Pode-se afirmar que o funk, na medida em que alcançou destaque inusitado no "cenário" mediático, foi imediatamente identificado como uma atividade criminosa, uma "atividade de gangue" que teve nos alTastões e na "biografia suspeita" dos seus integrantes a "contraprova" que confirmaria este tipo de acusação. Ora, mesmo que se levem em conta os conflitos e os delitos produzidos efetivamente pelas galeras funk, seja em maior ou em menor intensidade, e até a necessidade de cada grupo de se identificar com "protetores locais" do crime orga­nizado, poder-se-ia afirmar que os cenários de representação da violência urbana se encontram associados de forma redu­cionista a esse grupo social. Os seus integrantes são persona­gens típicos das áreas carentes da cidade, espaços que com-

põem o cenário tradicionalmente identificado à criminalidade e à violência e, sendo assim, é muito comum que a mídia acabe produzindo uma imagem monolítica desse cenário, no qual todos os personagens aparecem mais ou menos envolvidos com a crirninalidade. Fica no ar a seguinte pergunta: quando parte da sociedade e os órgãos de segurança pública clamam pela interdição dos bailes ou quando se estigmatiza o funkeiro nos meios de comunicação de massa, o que se combate real­mente: o funk ou o segmento social que o toma como impor­tante forma de expressão social? É preciso repensar as repre­sentações da violência correlacionando à maneira como tem sido representada a juventude hoje, especialmente aquela oriunda dos segmentos menos privilegiados da população.

CRIMINALIZAÇÃO DO FUNK - EM DOIS ATOS

Hermano Vianna, em artigo recente no qual discute a crimina­lização do funk no Rio de Janeiro, recorda que, na ocasião da defesa de sua t~se e do lançamento deste trabalho na forma de li'vro; ifi'ituladó:-O niff;ldo funk carioca, no final dos anos 80, nem pesquisadores, nem mesmo a grande imprensa considerou esta manifestação cultural - que poucos na Zona Sul sabiam que existia no Rio há mais de uma década e com um número tão grande de adeptos - como sendo ameaçadora à ordem pública. Na verdade, foi definida na ocasião como sendo mais uma forma de lazer de jovens do subúrbio e das favelas da cidade. Tendo em vista as inúmeras acusações que têm sido feitas aos funkeiros nos últimos anos, pergunta-se o que, quan­do e por que mudou. Teria mudado a mídia impressa, a socie­dade ou os funkeiros? O fato é que, entre inúmeras hipóteses e sugestões, pode-se identificar um marco na projeção e crirni­nalização do funk no RJ: os "arrastões de 92", nas praias da Zona Sul da cidade.

A partir da análise de 125 mtigos, como demonstra a tabela abaixo, pode-se afirmar que: a) o funk praticamente inexiste no



cenário mediático antes de 1992; b) entre 1992 e 1996 é possí­vel identificar um duplo processo que, aliás, é o ponto de parti­da da análise realizada neste capítulo: b.1) por um lado, um pro­cesso de crirninalização dividido em duas etapas (o primeiro ao longo do verão de 92/93 e outro que se inicia no final de 94 e que se estende por 95); b.2) e, por outro, um processo de afir­mação e reconhecimento do funk como uma importante expres­são cultural e como um segmento de mercado significativo.


o Globo, Jornal

1990/

1992

1993

1994

1995

1996

Total

do Brasil, O Dia e

1991



















Folha de S. Paulo






















Cadernos Policiais

-

94,8%

66,6%

58%

65%

47,1%

56%

e Cidade






















Cadernos Cullurais

100%

5,2%

33,4%

42%

35%

52,9%

44%

W de artigos (levantados

03

19

15

31

40

17

125

e analisados no período)






















* Artigos sobre o funk veiculados nos principais jornais do país.

SôDia Missagia Manos

10 ATO - O FUNK EM CENA

Qualquer estudo que se proponha a analisar os processos de crirninalização e de popularização do funk e, indiretamente, do hip-hop, se deparará com um acontecimento crucial: os arras­tões e tumultos de outubro de 1992 no Rio de Janeiro. Esses arrastões tornaram-se uma espécie de marco no imaginário coletivo da história recente do funk e da vida social da cidade, fortemente identificada com conflitos urbanos onipresentes.

O incidente foi noticiado histericamente pelos jornais e telejornais nacionais e internacionais, como se fosse um distúr­bio de grandes proporções que colocava em xeque a "ordem urbana", De fato, as rápidas imagens televisivas mostrando crianças e adolescentes brigando em bandos, correndo desarvo­radamente pela praia e dependurando-se em janelas de ônibus

superlotados apresentaram esta manifestação cultural à classe média mas também geraram um forte temor por parte deste seg­mento social e do Estado. Na realidade, pesquisadores, alguns transeuntes que testemunharam o ocorrido (dentre os quais me incluo) e até agentes de segurança pública indagam-se se aqui­lo que assistiram no Arpoador, naquele dia 18 de outubro, foi mesmo um aITastão. Isto é, alguns se perguntam: sendo aquela uma das praias preferidas pelos funkeiros, aquilo não só parecia não ter acontecido ali pela primeira vez, como também consti­tuía uma tentativa frustrada das galeras de diferentes morros cariocas, dentre eles os funkeiros, de encenar o "ritual de emba­te"28 que esses jovens inventaram nas pistas de dança dos inú­meros bailes realizados semanalmente no Rio.

Arrastões ou não, o fato é que as imagens exibidas pelos jornais e TV ficaram impregnadas na memória urbana carioca, sendo mostradas no exterior e corroborando decisivamente, segundo os empresários da indústria turística, para o esvazia­mento da cidade naquele verão. Os cadernos Cidade dos prin­cipais jornais do Rio de Janeiro e do país - O Globo, Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil, O Dia - analisados na pesquisa pas­saram a dedicar espaços expressivos (em alguns momentos atingindo quase a totalidade dos cadernos) à tematizaçãodo funk, surgindo em profusão matérias com títulos bastante sugestivos como "Arrastões aterrorizam Zona Sul", "Hordas na praia", "Galeras do funk criaram pânico nas praias", "Pâni­co no paraíso", "Movimento funk leva a desesperança", que incrementavam o clima de terror.

"O que aconteceu no domingo em praias da Zona Sul não foi simples perturbação da ordem, e seria temeridade considerá-Io episódio isolado. As hordas que se derramaram em corrida alu­cinada por toda a extensão da areia não roubaram apenas bolsas e relógios; principalmente arrancaram do cidadão carioca e dos visitantes da cidade o bem precioso da paz dominical. Ir à praia é direito inalienável e histórico do morador do Rio ( ... ) Tudo isso foi espezinhado nos acontecimentos afrontosos de domingo ( ... ). Vamos agora aceitar passivamente que o prazer de ir à praia seja substituído pelo medo de ir à praia? As fanu1ias serão obrigadas

a se fecharem em casa nas manhãs de sol - porque a praia tem novos donos? Os turistas serão mais uma vez afugentados, desta vez definitivamente? As cenas mostradas pela televisão não per­mitem dúvidas quanto ao caráter organizado dos 'arrastões'. Apenas grupos com estrutura de comando e planos bem traçad.os são capazes de tal concentração, infiltração, ação simultânea e dispersão - e tudo isso se viu, nas praias, domingo."29

o lamal do Brasil também anunciava assim o ocorrido:

"A Zona Sul do Rio transformou-se ontem em uma praça de guerra, com arrastões promovidos por gangues de adolescentes vindos de bairros do subúrbio e da Baixada Fluminense, arma­dos com pedaços de madeira. A Polícia Militar, com 110 ho­mens munidos de revólveres, metralhadoras e escopetas, teve dificuldade em reprimir a violência dos diversos grupos de assalto. Até uma polícia paralela, formada pelos Anjos da Guar­da - grupo voluntário que se propõe a defender a população -, entrou em ação.

"Banhistas e moradores em pânico tiveram que procurar refúgio em bares, padarias e embaixo das lonas dos camelôs. A ação dos assaltantes começou por volta do meio-dia, na praça do Arpoador, onde várias linhas de ônibus da periferia fazem ponto final. À medida que desembarcavam, as gangues iam formando os arrastões, cuja ação se espalhou por Copacabana, Ipanema e Leblon. Revoltados, moradores pediram pena de morte e a pre­sença do Exército nas ruas." 30

Como podemos observar pelas narrativas jornalísticas apresentadas, não levou muito tempo até que os principais infratores pudessem ser identificados como galeras ou grupos de funkeiros que promovem uma violência muito similar àque­la promovida pelas torcidas organizadas nos estádios de fute­bol, '''gangues urbanas" ou mesmo como jovens desajustados que habitam as favelas e as zonas Norte e Oeste da cidade e que nos finais de semana freqüentam os bailes funk, cuja músi­ca, até então, era trazida na sua maioria dos EUA. Entretanto, a acusação mais grave que vem sendo feita ao funk nestes anos

já se esboçava nessas primeiras matérias veiculadas pela imprensa: sua associação ao narcotráfico e, em geral, às orga­nizações criminosas.

"Como a maioria dos dois milhões defunkeiros vive em favelas, eles ficam em consonância com a liderança criminosa. Por influência apenas filosófica,· os funkeiros tiram a diferença na mão na rivalidade entre galeras ligadas ao Comando Vermelho e ao Terceiro Comando."31

Na realidade, este quadro em que o funk alcançou "noto­riedade" marcou também um momento de polarização de pro­postas de políticas públicas para o país. O crescimento de seg­mentos marginalizados/excluídos, a comoção social promovi­da por chacinas como a de Carandiru, Candelária e Vigário Geral, e a presença desafiadora dos narcotraficantes nos "bol­sões de miséria", os crimes/seqüestros cada vez mais espetacu­lares exibidos pela mídia e por conseguinte a crescente sensa­ção de insegurança nas grandes cidades, são alguns dos ele­mentos que compõem este "cenário" em que a questão da segurança pública tem sido encarada de forma um tanto Íme­diatista, pragmática e muitas vezes radical. Duas correntes têm se destacado na grande imprensa: uma primeira, representada pelas ONGs e pelas comissões de Direitos Humanos, acredita que o caminho para se resolver a criminalidade passa pela resolução das chamadas "injustiças sociais" e, uma segunda, representada por parte do empresariado e pelos setores mais conservadores da sociedade, que considera os órgãos de segu­rança pública e da justiça atuais incapazes de resolver os gra­ves "problemas sociais" e, por isso, clamam por "medidas", "reformas" de impacto que visam aumentar o contingente poli­cial (com a colaboração do Exército) e/ou reaparelhar estas instituições etc. Essas medidas possibilitariam, segundo seus defensores, um "combate mais eficiente e eficaz do crime" e uma mediação melhor da vida social.

Pode-se afirmar que o conjunto de preconceitos e proces­sos de estereotipação que vem sendo intensamente associado

aos funkeiros nos últimos anos produz um estigma capaz de relacionar o segmento pobre e não-branco da população (ao qual está identificada) à turba, à promiscuidade e à desordem urbana. Por conseguinte, pode-se afirmar também que o estig­ma do funk não se dirige exatamente contra o baile (apesar de ele ser o objeto central do debate entre Estado, sociedade e órgãos de segurança), mas contra o setor social que o assumiu como forte referencial identitário. De uma hora para outra o funk passou a ser visto como um dos alicerces de uma "visão de mundo/ideologia" que vem alimentando o crescimento da violência urbana.

ENTREATO - O ASFALTO VAI VIRAR MORRO

Se, no que se refere aos conteúdos apresentados pela mídia em um primeiro momento, contendo raramente depoimentos pró­funk, rótulos como "terror", "gangues", "hordas", "medo" e "pânico" parecem dar o tom à "descoberta" do funk pela clas­se média da Zona Sul da cidade, no que se refere à forma dos relatos/narrativas, destacam-se na enunciação jomalística as formas não-verbais de tratar os referidos acontecimentos. Ganham destaques nas matérias dos jornais as fotografias e imagens que dão mais credibilidade aos enunciados e espeta­cularizam os acontecimentos, sendo mais contundentes para atingir o lado emocional do leitor.

"( ... ) por trás de toda informação, seja ela a mais 'objetiva' pos­sível, há um sujeito modal dotado de uma certa competência especialmente sensível às estratégias visuais (espacialização, títulação, ilustrações) dos grandes diários ( ... )",32

Além das imagens já mencionadas (de crianças/jovens cor­rendo, brigando entre si e com banhistas ou fugindo da polícia e fazendo bagunça em ônibus latadas na Zona Sul do Rio), chamou-me a atenção, nos dias que se seguiram àquele suposto

"arrastão fundador/inaugural",33 a freqüente fabricação de mapas da cidade (e especialmente das praias da Zona Sul) que propunham identificar os locais de proveniência desses jovens e alertar os leitores sobre quais eram as "áreas de risco" nas praias ou mesmo na cidade. Fracassada a tentativa dos setores mais conservadores de impedir a circulação dos ônibus que fazem o trajeto norte e oeste em direção à Zona Sul nos fins de semana (proposta que é freqüentemente colocada em debate nos days afier de qualquer ocorrência de tensãolconflito entre a população "descamisada" e a de classe média) e enfatizada a proximidade do local de moradia de um número considerável desses rapazes - grande parte é moradora das favelas "encrava­das" na "zona nobre" da cidade -, este tipo de estratégia jorna­lística teve como um dos resultados o incremento da sensação de pânico naquele e nos verões que se seguiram. Matérias inti­tuladas "A divisão da areia", "Polícia define operação de fim de semana" e "Funkeiros sem os bailes ameaçam ir brigar nas praias"34 sugerem uma cidade sitiada, dividida em territórios e à mercê das "galeras", pois os órgãos de segurança são conside­rados de modo geral incapazes de protegê-Ia.

Tornou-se bastante freqüente a utilização de tabelas e grá­ficos contendo dados estatísticos que reportavam tanto índices de criminalidade confirmando a "vocação criminal" desses jovens, quanto pesquisas de opinião que "fundamentavam" o medo entre a população. Não só isso: nos anos que se seguiram a esse acontecimento, os artigos apresentados nos principais jornais do país, constantemente ao relatar, mesmo nos "cader­nos de cultura" (não só nos Policiais ou Cidade), qualquer informação sobre o funk, utilizaram a diagramação como recurso conceitual, trazendo informações em boxes, que inva­riavelmente lembravam aos leitores a origem social do funk (e muitas vezes supostamente "criminal" dos seus integrantes), isto é, apresentaram um "perfil do funkeiro" e do seu mundo que nada lembra a juventude cara-pintada ou roqueira da Zona Sul da cidade. Cada vez mais o funkeiro vai sendo apresentado à opinião pública como um personagem "maligno/endemoni-

nhado" e, ao mesmo tempo, paradigmático da juventude da favela em geral, vista como "revoltada" e "desesperançada". Nos artigos dos principais jornais, nas seções de "cartas dos leitores" e nos depoimentos colhidos na pesquisa, a constante presença de adjetivos como "bestas", "hordas", "animais", "monstros" indica que tanto no enunciado jornalístico quanto no imaginário coletivo certas atitudes dos funkeiros são trata­das quase como expressão de um "mal absoluto" que deve ser "reprimido" e "extirpado". A mídia problematiza até um certo nível e aponta as "causas" de fenômenos sociais dessa nature­za, mas o que fica na cabeça da população é a espetaculariza­ção, o "encantamento" de práticas e discursos, produzindo um clima de pânico e histeria.35

Hermano Vianna sugere que o fato de, até então, não exis­tir uma familiaridade com o funk facilitou a sua "demoniza­ção": "conendo o risco de fazer uma generalização precipita­da, acho plausível afirmar que o grau de 'exotismo' de um fenômeno social é uma função quase direta da possibilidade de vê-Io transformado em estereótipo por grupos para os quais esse fenômeno é considerado exótico."36 Este processo de estigmatização/criminalização, segundo o autor, agrava-se à medida que o fenômeno "exótico", por assim dizer, vai se "familiarizando", isto é, conforme vai expandindo suas fron­teiras sociais e vai constituindo um segmento importante de mercado.

2° ATO - ARAUTOS DO NARCOTRÁFICO?

Quando começou a segunda campanha de criminalização do funk na imprensa, as camadas médias da cidade o "conhe­ciam" e ao mesmo tempo o desconheciam. Os boatos, rumo­res3? e o nível de familiaridade dos "formadores de opinião", entre eles, jornalistas, autoridades e personalidades de grande destaque, tinham como ponto de partida as imagens "impac­tantes" dos anastões (freqüentemente reexibidas), as notícias

de tiroteios nas saídas de bailes, o preconceito e o medo em relação aos grupos dejovens (em geral negros) que circulavam de bonés, tênis e bermudões pela cidade e o barulho que os "bailes de comunidade" realizados nas favelas dos morros da Zona Sul produziam crescentemente, à proporção que foram se popularizando. Neles, durante o período de 1993 a 1995 se produziu aquilo que muitos freqüentadores e simpatizantes consideravam um "novo armistício cultural", mas que os seto­res conservadores consideravam uma "perigosa" aproximação de classes, uma "promiscuidade" entre segmentos sociais. Para desespero destes setores e de muitos pais, um grande número de jovens das camadas médias passou a adotar os bailes funk destes morros como forma de lazer. Este fenômeno era assim retratado na imprensa:

"Sexta-feira à noite. O garotão se despede da mãe e avisa que está indo para um baile funk. Para onde? A mãe fica de cabelo em pé s6 de imaginar o filho subindo o morro e gritando uh! tererê! Começa aquela discussão em casa. Situações como esta já se tornaram corriqueiras nos apartamentos de classe média. ( ... ) a aparição cada vez mais freqüente destes bailes nas páginas policiais - sobretudo pelas 'mensagens' passadas pelo Comando Vermelho nas letras de muitas canções - está levando pânico às famílias de classe média e transformando o funkeiro em uma espécie de versão maldita do roqueiro dos anos 50")8

É curioso notar que justamente a segunda intensa campa­nha de criminalização do funk na mídia teve como alvo os bai­les funk de modo geral, mas atingiu de forma mais contunden­te esses "bailes de comunidade". A campanha culminou com as chamadas Operações Rio I e II (1995/1996), com a interdi­ção definitiva deste tipo de evento. Os enunciados jornalísti­cos, desde 1992, mais precisamente de setembro de 1994 até novembro de 1995, quando surge uma campanha pela pacifi­cação/integração social orquestrada pelas ONGs da cidade com apoio de empresários do mundo funk carioca (A Cami­nhada da Paz), identificavam nesta forma de lazcr um pretexto

para uma "explosiva guerra entre galeras" que freqüentam os bailes, ligando tais ocorrências ao tráfico de drogas e aos comandos do crime organizado. Artigos como aqueles que relatam chacinas como a do morro de Turano, envolvendo uma "briga de traficantes" na saída do baile local,39 seqüestros (inclusive de filhos de políticos e pessoas influentes da cida­de),40 brigas violentas entre galeras em ônibus lotados no retorno dos bailes ou praias41 e outras que relacionam a violên­cia das torcidas organizadas nos estádios de futebol à presença de galeras funk ligadas ao tráfico.42

Apoiando-se freqüentemente em dados estatísticos, "evi­dências", o enunciado jornalístico pretende dar conta do "real" em sua totalidade. Como observa Nelson Traquina, "o aparato jornalístico, com suas sucursais e especialistas, visa acima de tudo impor ordem no espaço e no tempo."43 Assim, em função dessa disposição em dar conta do tempo e do espaço, pode-se afirmar que há uma espécie de ubiqüidade, "onipotência" que regula o funcionamento dos rituais discursivos jornalísticos.44

Claramente, a imprensa e os setores mais conservadores da população reconhecem na proibição dos bailes a solução para o fim desses "atos de selvageria", Na realidade, esteve em curso naquele período um processo que colocou os funkeiros ao lado de criminosos, que os transformou em uma espécie de "bodes expiatórios" .45 Assim, as "evidências" que balizaram o fechamento dos "bailes de comunidade" - principal "coquelu­che da cidade" (em 1994/1995), que promovia o encontro entre jovens de diferentes segmentos sociais -, especialmente os realizados nos morros da Zona Sul, foram as acusações de "perturbação da ordem", motivadas pelo incômodo gerado pelos altos decibéis junto à vizinhança, e de ligação com o trá­fico. A campanha na mídia que levou ao fechamento daquele que era considerado por muitos como o "baile da paz", símbo­lo do novo "armistício cultural" da cidade46 - o do morro Chapéu Mangueira, no Leme -, talvez exemplifique melhor esta intensa campanha antifunk.

"Não é de hoje que os moradores do Leme reclamam da zoeira dos bailes funk do Morro do Chapéu Mangueira. Há anos o lugar é recordista de reclamações aos dois órgãos responsáveis pela medição de barulho na cidade. A delegacia foi até lá e constatou a violação da Lei do Silêncio. O baile foi impedido de funcionar por alguns fins de semana."47

Apesar de o problema do barulho provocado pelos bailes ter sido amplamente noticiado, este não foi o fator decisivo para o fechamento do "Baile do Chapéu" e de outros realiza­dos nos morros da cidade.48 No próprio Chapéu Mangueira, durante algum tempo, propôs-se como solução para a convi­vência do baile com seus "vizinhos" a construção de uma concha acústica no local da quadra. O elemento que deflagrou de vez a campanha de criminalização do funk e o interdito dos bailes foram certas "evidências" sugerindo que o funk fazia parte do crime organizado. Primeiramente, as associações de moradores nunca conseguiam provar plenamente quem eram os responsáveis pelo pagamento das equipes de som que rea­lizavam os bailes e, em segundo, a apreensão pela polícia e divulgação na mídia de alguns gangsta raps, conhecidos no interior da favela como "raps do contexto", que fazem apolo­gia do mundo do crime e ridicularizam a polícia. Fracassada a tentativa da Operação Rio de combater o narcotráfico e o crime organizado, nos meses de junho a agosto de 1995, pude constatar a profusão de artigos veiculados com este tipo de acusação: "Rap exalta lema do Comando", "O medo do funk", "Rap é a nova arma do Comando", "Versão Clandestina elogia traficantes", "Gravações mostram que trá­fico busca 'soldados' em bailes funk", "DI: traficantes pagam bailes funk", entre outros.49

"Uma apologia ao Comando Vermelho é o sucesso funk do momento. Usando como refrão o lema da organização criminosa - 'paz, justiça e liberdade' -, os MCs Junior e Leonardo estoura­ram nos bailes ( ... ) com o Rap das armas ( ... ). O Comando Vermelho vem arregimentando menores nos bailes funk se valen-

do dos 'raps da galera' - versões de música conhecidas nas quais as letras, modificadas, exaltam crimes e bandidos".5o

Raps de "denúncia" e os funk melody que fazem grande sucesso nos bailes e nos programas especializados de TV e rádio parecem ter sido esquecidos temporariamente pela gran­de imprensa. Na realidade, a referência às armas, a infantiliza­ção do "clima de terror" (expressa no tipo de personagem e no uso de cantigas de roda como "bases" dos raps), pedidos de liberdade e justiça em um discurso vitimizante que faz referên­cia ainda à geografia do morro, mortes, miséria e pobreza, são temáticas sociais constantes que aparecem ao lado de outras igualmente banais e cotidianas, mas fundamentais, que falam de paz e de "encontros" e "desencontros" amorosos. Depoi­mentos como o do rapper William, detido pela polícia e acusa­do, ao lado de seu parceiro Duda, de possuir também uma ver­são do "contexto" do superbem-sucedido Rap do Borel (regra­vado, inclusive, pelo cantor Lulu Santos no CD Eu e Memê & Memê e Eu), são bastante sugestivos:

"Cantamos, sim, mas foi coisa de criança. Na favela, se a gente não demonstra ser esperto, acaba apanhando dos mais velhos. Naquela época tínhamos 16, 17 anos e achávamos maneiro ( ... )"51

Talvez esses jovens, como sugere o depoimento, sejam intimidados pelas "forças locais" ou mesmo se sintam atraídos e cultuem, como outros grupos urbanos (inclusive, os de clas­se média), imagens e símbolos de violência. Quantos jovens não são valentões por "farra", pura performance ou exibicio­nismo? Talvez eles não imaginassem que fossem acreditar nessa imagem ou mesmo divulgá-Ia ... O fato é que reverter essa, situação é muito difícil. Basta ver a quantidade de raps, manifestações e até uma CPI municipal já realizada, que tenta­ram provar que o funk não faz parte do crime organizado.

GLAMOURIZAÇÃO DO FUNK

Ao mesmo tempo que o funk consolidava sua presença nos cadernos cidades/policiais, ganhava também espaço nas seções culturais dos grandes jornais do país e, de modo geral, na dinâ­mica do mercado. Manifestou-se, gradativamente, uma deman­da por uma melhor compreensão desse fenômeno e suas pecu­liaridades, urna vez que ele parecia seduzir cada vez mais não só os jovens dos setores menos carentes da população, mas também das camadas médias. Na realidade, o funk encontrou na sua versão melody um "caminho para o sucesso" e o espa­ço/palco para a construção/exibição de um conjunto de "traços identitários", isto é, encontrou urna forma romântica e bem­humorada de dar visibilidade às suas expectativas e frustrações.

Pude constatar, no levantamento realizado em diversos veículos de comunicação de massa, um incremento do espaço nas estações radiofônicas e alguns de seus membros mais ilus­tres - os Mcs e os DJs - ascenderam à televisão, obtendo gran­de êxito na indústria fonográfica. Discos de cantores como Latino e Bob Rum, de grupos corno Copacabana Beat, You Can Dance e coletâneas como Funk Brasil e Furacão 2000 têm alcançado nos últimos anos ótimos índices de vendagem. Na realidade, o funk tem desenvolvido seus próprios veículos de divulgação. Só nos últimos anos surgiram diversos fanzines (vários de vida efêmera) corno Furacão 2000, Só Funk, Pan­cadão, Riofunk, 100% Funk, entre outros, alguns de excelente qualidade gráfica.

"Habitual trilha sonora das favelas da periferia do Rio; o funk se instalou de vez na Zona Sul. Pais se espantam diante da prefe­rência dos filhos pela música que antes só se ouvia nas depen­dências de empregados. Não há dúvida, o funk abalou. Se antes de sua ipanemização o ritmo já era uma próspera indústria musi­cal, capaz de promover pelo menos 300 bailes por fim de sema­na, agora apresenta-se como um filão ainda mais tentador.

Uma indústria que mobiliza um público estimado em mais de 1,5 milhão de consumidores tem nuances que não se expres-



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