As intermitências da morte



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As intermitências da morte
José Saramago

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Orelhas do livro
Orelha esquerda:

De repente, a morte suspendeu suas atividades no país. A nação

se embandeirou: tinha sido escolhida para a imortalidade, depois de

milênios de sofrimento e sujeição à "indesejada das gentes". Ano Novo,

vida eterna, porque desde 1º de janeiro ninguém mais morria nesse

estranho canto do mundo inventado por José Saramago em As intermitências

da morte - uma fábula sobre os caprichos da figura macabra e ossuda que

segura os fios da vida de cada um.

Ela pode ser fatal, mas também tem seus sentimentos. Magoada

porque os seres humanos tanto a detestam, a morte resolve mostrar como,

no fundo, eles são uns ingratos. A falta de falecimentos logo se revela

um problema, e não só para as agências funerárias. Os hospitais ficam

lotados de pacientes agonizantes impedidos de "passar desta para

melhor". E os idosos avançam na decrepitude sem esperança de descanso

(nem para eles, nem para as suas famílias), O primeiro-ministro teme uma

crise, O cardeal antevê o pior: "sem morte não há ressurreição, e sem

ressurreição não há igreja". Uma organização secreta - a máphia - surge

para tirar proveito. E em poucas páginas Saramago expõe todos os

vínculos que, normalmente, ligam a morte ao Estado, às religiões e ao

cotidiano.

Mas até quando poderia durar essa espécie de greve? Quando seria

afinal devolvido "o supremo medo ao coração dos homens"? E em que

condições? O leitor não demora a
---
Orelha direita:

perceber que o personagem principal dessa história é a própria morte,

esquelética e gelada. Mas, para o romancista, transformar a morte em

personagem acaba sendo um modo de tratar da vida, com humor e ironia.


José Saramago nasceu em 1922, de uma família de camponeses da

província do Ribatejo, em Portugal. Exerceu diversas profissões - como

serralheiro, desenhista, funcionário público e jornalista - antes de se

dedicar só à literatura. Prêmio Nobel em 1998, é autor de algumas das

obras mais relevantes do romance contemporâneo, como O Evangelho segundo

Jesus Cristo e Ensaio sobre a cegueira, ambos publicados pela Companhia

das Letras - que também lançou outros dezoito títulos do escritor.

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Obras do autor publicadas pela Companhia das Letras



JOSÉ SARAMAGO

O ano da morte de Ricardo Reis


A bagagem do viajante
Cadernos de Lanzarote
Cadernos de Lanzarote II
A caverna
O conto da ilha desconhecida
Ensaio sobre a cegueira
Ensaio sobre a lucidez
O Evangelho segundo Jesus Cristo
História do cerco de Lisboa
O homem duplicado
In Nomine Dei
As intermitências da morte
A jangada de pedra
A maior flor do mundo
Manual de pintura e caligrafia
Objecto quase
Que farei com este livro?
Todos os nomes
Viagem a Portugal

Fontes Mistas

Grupo de produtos provenientes de florestas bem manejadas e outras

fontes controladas


www.fsc.org

Cód. SW - COC - 1662


Copyright 1996 Forest Stewardship Council

GREEN PEACE


A marca vsc é a garantia de que a madeira utilizada na fabricação do

papel interno deste livro provém de florestas de origem controlada e que

foram gerenciadas de maneira ambientalmente correta, socialrnente justa

e economicamente viável. O Greenpeace - entidade amhientalista sem fins

lucrativos -.em sua campanha pela proteção das florestas no mundo todo,

recomenda às editoras e autores que utilizem papel certificado pelo FSC.


JOSÉ SARAMAGO


AS INTERMITÊNCIAS

DA MORTE

Romance

COMPANHIA DAS LETRAS

Copyright © 2005 by José Saramago


Capa:


Hélio de Almeida

sobre relevo de

Arthur Luiz Piza

Revisão:


Marise Simões Leal

Isabel Jorge Cury

Por desejo do autor,foi mantida a ortografia vigente em Portugal

Os personagens e situações desta obra são reais apenas no universo da

ficção; não se referem a pessoas natos concretos, e sobre eles não

emitent opinião


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)

(Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil)
Saramago. José. 1922-
As intermitências da morte: romance,José Saramago. - São

Paulo Companhia das Letras. 2005.


ISNB: 85-359-0725-4

1. Romance português 1. Titulo.

05-6824 CDD-869.3


Índice para catálogo sistemático:

- Romances - Literatura portuguesa 869.3


2005

Todos os direitos desta edição reservados à

EDITORA SCHWARCZ LTDA.


Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 32

04532-002 São Paulo - sp

Telefone: (11)3707-3500

Fax: (11)3707-3501

www.companhiadasletras.com.br

A Pilar, minha casa


Saberemos cada vez menos o que é um ser humano.
Livro das Previsões
Pensa por ex. mais na morte, - & seria estranho em verdade

que não tivesse de conhecer por esse facto novas

representações, novos âmbitos da linguagem.
Wittgenstem
No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente

contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação

enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos

lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da

história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter

alguma vez ocorrido fenómeno semelhante, passar-se um dia

completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre

diurnas e nocturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse

sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um

suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada. Nem

sequer um daqueles acidentes de automóvel tão frequentes em

ocasiões festivas, quando a alegre irresponsabilidade e o excesso

de álcool se desafiam mutuamente nas estradas para decidir sobre

quem vai conseguir chegar à morte em primeiro lugar. A passagem

do ano não tinha deixado atrás de si o habitual e calamitoso

regueiro de óbitos, como se a velha átropos da dentuça arreganhada

tivesse resolvido embainhar a tesoura por um dia. Sangue, porém,

houve-o, e não pouco. Desvairados, confusos, aflitos, dominando

a custo as náuseas, os bombeiros extraíam da amálgama dos

destroços míseros corpos humanos que, de acordo com a lógica

matemática das colisões, deveriam estar mortos e bem mortos, mas

que, apesar da gravidade dos ferimentos e dos traumatismos

sofridos, se mantinham vivos e assim eram transportados aos hospitais,
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ao som das dilacerantes sereias das ambulâncias. Nenhuma dessas

pessoas morreria no caminho e todas iriam desmentir os mais

pessimistas prognósticos médicos, Esse pobre diabo não tem remédio

possível, nem valia a pena perder tempo a operá-lo, dizia o

cirurgião à enfermeira enquanto esta lhe ajustava a máscara à cara.

Realmente, talvez não houvesse salvação para o coitado no dia

anterior, mas o que estava claro é que a vítima se recusava a

morrer neste. E o que acontecia aqui, acontecia em todo o país. Até à

meia-noite em ponto do último dia do ano ainda houve gente que

aceitou morrer no mais fiel acatamento às regras, quer as que se

reportavam ao fundo da questão, isto é, acabar-se a vida, quer as

que atinham às múltiplas modalidades de que ele, o referido fundo

da questão, com maior ou menor pompa e solenidade, usa

revestir-se quando chega o momento fatal. Um caso sobre todos

interessante, obviamente por se tratar de quem se tratava, foi o da

idosíssima e veneranda rainha-mãe. As vinte e três horas e cinquenta e

nove minutos daquele dia trinta e um de dezembro ninguém seria

tão ingénuo que apostasse um pau de fósforo queimado pela vida

da real senhora. Perdida qualquer esperança, rendidos os médicos

à implacável evidência, a família real, hierarquicamente disposta

ao redor do leito, esperava com resignação o derradeiro suspiro da

matriarca, talvez umas palavrinhas, uma última sentença

edificante com vista à formação moral dos amados príncipes seus netos,

talvez uma bela e arredondada frase dirigida à sempre ingrata

retentiva dos súbditos vindouros. E depois, como se o tempo

tivesse parado, não aconteceu nada. A rainha-mãe nem melhorou nem

piorou, ficou ali como suspensa, baloiçando o frágil corpo à borda

da vida, ameaçando a cada instante cair para o outro lado, mas

atada a este por um ténue fio que a morte, só podia ser ela, não se

sabe por que estranho capricho, continuava a segurar. Já tínhamos

passado ao dia seguinte, e nele, como se informou logo no

princípio deste relato, ninguém iria morrer.

A tarde já ia muito adiantada quando começou a correr o

rumor de que, desde a entrada do novo ano, mais precisamente

desde as zero horas deste dia um de janeiro em que estamos, não

havia constância de se ter dado em todo o país um só falecimento

que fosse. Poderia pensar-se, por exemplo, que o boato tivesse tido

origem na surpreendente resistência da rainha-mãe a desistir da

pouca vida que ainda lhe restava, mas a verdade é que a habitual

parte médica distribuída pelo gabinete de imprensa do palácio aos

meios de comunicação social não só assegurava que o estado geral

da real enferma havia experimentado visíveis melhoras durante a

noite, como até sugeria, como até dava a entender, escolhendo

cuidadosamente as palavras, a possibilidade de um completo

restabelecimento da importantíssima saúde. Na sua primeira

manifestação o rumor também poderia ter saído com toda a naturalidade de

uma agência de enterros e trasladações, Pelos vistos ninguém

parece estar disposto a morrer no primeiro dia do ano, ou de um

hospital, Aquele tipo da cama vinte e sete não ata nem desata, ou

do porta-voz da polícia de trânsito, É um autêntico mistério que,

tendo havido tantos acidentes na estrada, não haja ao menos um

morto para exemplo. O boato, cuja fonte primigénia nunca foi

descoberta, sem que, por outro lado, à luz do que viria a suceder

depois, isso importasse muito, não tardou a chegar aos jornais, à

rádio e à televisão, e fez espevitar imediatamente as orelhas a

directores, adjuntos e chefes de redacção, pessoas não só

preparadas para farejar à distância os grandes acontecimentos da história

do mundo como treinadas no sentido de os tornar ainda maiores

sempre que tal convenha. Em poucos minutos já estavam na rua

dezenas de repórteres de investigação fazendo perguntas a todo o

bicho-careta que lhes aparecesse pela frente, ao mesmo tempo que

nas fervilhantes redacções as baterias de telefones se agitavam e

vibravam em idênticos frenesis indagadores. Fizeram-se

chamadas para os hospitais, para a cruz vermelha, para a morgue, para as

agências funerárias, para as polícias, para todas elas, com

compreensível exclusão da secreta, mas as respostas iam dar às mes-


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mas lacónicas palavras, Não há mortos. Mais sorte teria aquela

jovem repórter de televisão a quem um transeunte, olhando

alternadamente para ela e para a câmara, contou um caso vivido em

pessoa e que era a exacta cópia do já citado episódio da rainha-

mãe, Estavajustamente a dar ameia-noite, disse ele, quando o meu

avô, que parecia mesmo a ponto de finar-se, abriu de repente os

olhos antes que soasse a última badalada no relógio da torre, como

se se tivesse arrependido do passo que ia dar, e não morreu. A

repórter ficou a tal ponto excitada com o que tinha acabado de

ouvir que, sem atender a protestos nem súplicas, Ó minha

senhora, por favor, não posso, tenho de ir à farmácia, o avô está lá à

espera do remédio, empurrou o homem para dentro do carro da

reportagem, Venha, venha comigo, o seu avô já não precisa de remédios,

gritou, e logo mandou arrancar para o estúdio da televisão, onde

nesse preciso momento tudo estava a preparar-se para um debate

entre três especialistas em fenómenos paranormais, a saber, dois

bruxos conceituados e uma famosa vidente, convocados a toda a

pressa para analisarem e darem a sua opinião sobre o que já

começava a ser chamado por alguns graciosos, desses que nada

respeitam, a greve da morte. A confiada repórter laborava no mais grave

dos enganos, porquanto havia interpretado as palavras da sua

fonte informativa como significando que o moribundo, em

sentido literal, se tinha arrependido do passo que estava prestes a dar,

isto é, morrer, defuntar, esticar o pernil, e portanto resolvera fazer

marcha atrás. Ora, as palavras que o feliz neto havia efectivamente

pronunciado, Como se se tivesse arrependido, eram

radicalmente diferentes de um peremptório Arrependeu-se. Umas

quantas luzes de sintaxe elementar e uma maior familiaridade com as

elásticas subtilezas dos tempos verbais teriam evitado o

quiproquó e a consequente descompostura que a pobre moça, rubra de

vergonha e humilhação, teve de suportar do seu chefe directo. Mal

podiam imaginar, porém, ele e ela, que a tal frase, repetida em

directo pelo entrevistado e novamente escutada em gravação no

telejornal da noite, iria ser compreendida da mesma equivocada

maneira por milhões de pessoas, o que virá a ter como

desconcertante consequência, num futuro muito próximo, a criação de um

movimento de cidadãos firmemente convencidos de que pela

simples acção da vontade será possível vencer a morte e que, por

conseguinte, o imerecido desaparecimento de tanta gente no passado

só se tinha devido a uma censurável debilidade de volição das

gerações anteriores. Mas as cousas não ficarão por aqui. Uma vez

que as pessoas, sem que para tal tenham de cometer qualquer

esforço perceptível, irão continuar a não morrer, um outro

movimento popular de massas, dotado de uma visão prospectiva mais

ambiciosa, proclamará que o maior sonho da humanidade desde o

princípio dos tempos, isto é, o gozo feliz de uma vida eterna cá na

terra, se havia tornado em um bem para todos, como o sol que

nasce todos os dias e o ar que respiramos. Apesar de disputarem,

por assim dizer, o mesmo eleitorado, houve um ponto em que os

dois movimentos souberam pôr-se de acordo, e foi terem

nomeado para a presidência honorária, dada a sua eminente qualidade de

precursor, o corajoso veterano que, no instante supremo, havia

desafiado e derrotado a morte. Tanto quanto se sabe, não virá a ser

atribuída particular importância ao facto de o avôzinho se

encontrar em estado de coma profundo e, segundo todos os indícios,

irreversível.

Embora a palavra crise não seja certamente a mais apropriada

para caracterizar os singularíssimos sucessos que temos vindo a

narrar, porquanto seria absurdo, incongruente e atentatório da

lógica mais ordinária falar-se de crise numa situação existencial

justamente privilegiada pela ausência da morte, compreende-se

que alguns cidadãos, zelosos do seu direito a uma informação

veraz, andem a perguntar-se a si mesmos, e uns aos outros, que

diabo se passa com o governo, que até agora não deu o menor sinal

de vida. É certo que o ministro da saúde, interpelado à passagem

no breve intervalo entre duas reuniões, havia explicado aos jorna-


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listas que, tendo em consideração a falta de elementos suficientes

de juízo, qualquer declaração oficial seria forçosamente

prematura, Estamos a coligir as informações que nos chegam de todo o

país, acrescentou, e realmente em nenhuma delas há menção de

falecimentos, mas é fácil imaginar que, colhidos de surpresa como

toda a gente, ainda não estejamos preparados para enunciar uma

primeira ideia sobre as origens do fenómeno e sobre as suas

implicações, tanto as imediatas como as futuras. Poderia ter-se deixado

ficar por aqui, o que, levando em conta as dificuldades da situação,

já seria motivo para agradecer, mas o conhecido impulso de

recomendar tranquilidade às pessoas a propósito de tudo e de nada, de

as manter sossegadas no redil seja como for, esse tropismo que nós

políticos, em particular se são governo, se tornou numa segunda

natureza, para não dizer automatismo, movimento mecânico,

levou-o a rematar a conversa da pior maneira, Como responsável

pela pasta da saúde, asseguro a todos quantos me escutam que não

existe qualquer motivo para alarme, Se bem entendi o que acabo

de escutar, observou um jornalista em tom que não queria parecer

demasiado irónico, na opinião do senhor ministro não é alarmante

o facto de ninguém estar a morrer, Exacto, embora por outras

palavras, foi isso mesmo o que eu disse, Senhor ministro,

permita-me que lhe recorde que ainda ontem havia pessoas que morriam

e a ninguém lhe passaria pela cabeça que isso fosse alarmante. É

natural, o costume é morrer, e morrer só se torna alarmante

quando as mortes se multiplicam, uma guerra, uma epidemia, por

exemplo. Isto é, quando saem da rotina, Poder-se-á dizer assim,

Mas, agora que não se encontra quem esteja disposto a morrer, é

quando o senhor ministro nos vem pedir que não nos alarmemos,

convirá comigo que, pelo menos, é bastante paradoxal, Foi a força

do hábito, reconheço que o termo alarme não deveria ter sido

chamado a este caso, Que outra palavra usaria então o senhor

ministro, faço a pergunta porque, como jornalista consciente das

minhas obrigações que me prezo de ser, me preocupa empregar o

termo exacto sempre que possível. Ligeiramente enfadado com a

insistência, o ministro respondeu secamente, Não uma, mas

quatro, Quais, senhor ministro, Não alimentemos falsas esperanças.

Teria sido, sem dúvida, uma boa e honesta manchete para o jornal

do dia seguinte, mas o director, após consultar com o seu redactor-

chefe, considerou desaconselhável, também do ponto de vista

empresarial, lançar esse balde de água gelada sobre o entusiasmo

popular, Ponha-lhe o mesmo de sempre, Ano Novo, Vida Nova,

disse.


No comunicado oficial, finalmente difundido já a noite ia

adiantada, o chefe do governo ratificava que não se haviam

registado quaisquer defunções em todo o país desde o início do novo

ano, pedia comedimento e sentido de responsabilidade nas

avaliações e interpretações que do estranho facto viessem a ser

elaboradas, lembrava que não deveria excluir-se a hipótese de se tratar de

uma casualidade fortuita, de uma alteração cósmica meramente

acidental e sem continuidade, de uma conjunção excepcional de

coincidências intrusas na equação espaço-tempo, mas que, pelo

sim, pelo não, já se haviam iniciado contactos exploratórios com

os organismos internacionais competentes em ordem a habilitar o

governo a uma acção que seria tanto mais eficaz quanto mais

concertada pudesse ser. Enunciadas estas vaguidades pseudocientíficas,

destinadas, também elas, a tranquilizar, pelo incompreensível,

o alvoroço que reinava no país, o primeiro-ministro terminava

afirmando que o governo se encontrava preparado para todas as

eventualidades humanamente imagináveis. decidido a enfrentar

com coragem e com o indispensável apoio da população os

complexos problemas sociais, económicos, políticos e morais que a

extinção definitiva da morte inevitavelmente suscitaria, no caso,

que tudo parece indicar como previsível, de se vir a confirmar.

Aceitaremos o repto da imortalidade do corpo, exclamou em tom

arrebatado, se essa for a vontade de deus, a quem para todo o

sempre agradeceremos, com as nossas orações, haver escolhido o bom


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povo deste país para seu instrumento. Significa isto, pensou o

chefe do governo ao terminar a leitura, que estamos metidos até

aos gorgomilos numa camisa-de-onze-varas. Não podia ele

imaginar até que ponto o colarinho lhe iria apertar. Ainda meia hora

não tinha passado quando, já no automóvel oficial que o levava a

casa, recebeu uma chamada do cardeal, Boas noites, senhor

primeiro-ministro, Boas noites, eminência, Telefono-lhe para lhe

dizer que me sinto profundamente chocado, Também eu, eminência,

a situação é muito grave, a mais grave de quantas o país teve

de viver até hoje. Não se trata disso. Deque se trata então, eminência.

É a todos os respeitos deplorável que, ao redigir a declaração

que acabei de escutar, o senhor primeiro-ministro não se tenha

lembrado daquilo que constitui o alicerce, a viga mestra, a pedra

angular, a chave de abóbada da nossa santa religião, Eminência,

perdoe-me, temo não compreender aonde quer chegar. Sem

morte, ouça-me bem, senhor primeiro-ministro, sem morte não há

ressurreição, e sem ressurreição não há igreja, O diabo, Não

percebi o que acaba de dizer, repita, por favor. Estava calado,

eminência, provavelmente terá sido alguma interferência causada pela

electricidade atmosférica, pela estática, ou mesmo um problema

de cobertura, o satélite às vezes falha, dizia vossa eminência que,

Dizia o que qualquer católico, e o senhor não é uma excepção, tem

obrigação de saber, que sem ressurreição não há igreja, além disso,

como lhe veio à cabeça que deus poderá querer o seu próprio fim,

afirmá-lo é uma ideia absolutamente sacrílega, talvez a pior das

blasfémias, Eminência, eu não disse que deus queria o seu próprio

fim, De facto, por essas exactas palavras, não, mas admitiu a

possibilidade de que a imortalidade do corpo resultasse da vontade de

deus, não será preciso ser-se doutorado em lógica transcendental

para perceber que quem diz uma cousa, diz a outra, Eminência, por

favor, creia-me, foi uma simples frase de efeito destinada a

impressionar, um remate de discurso, nada mais, bem sabe que a

política tem destas necessidades, Também a igreja as tem, senhor

primeirO-ministro, mas nós ponderamos muito antes de abrir a

boca, não falamos por falar, calculamos os efeitos à distância, a

nossa especialidade, se quer que lhe dê uma imagem para

compreender melhor, é a balística, Estou desolado, eminência, No seu

lugar também o estaria. Como se estivesse a avaliar o tempo que a

granada levaria a cair, o cardeal fez uma pausa, depois, em tom

mais suave, mais cordial, continuou, Gostaria de saber se o senhor

primeiro-ministro levou a declaração ao conhecimento de sua

majestade antes de a ler aos meios de comunicação social,

Naturalmente, eminência, tratando-se de um assunto de tanto

melindre, E que disse orei, se não é segredo de estado, Pareceu-lhe bem,

Fez algum comentário ao terminar, Estupendo, Estupendo, quê,

Foi o que sua majestade me disse, estupendo, Quer dizer que

também blasfemou, Não sou competente para formular juízos dessa



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