As narrativas da memória de mulheres no protestantismo de campina grande paraíBA: a igreja evangélica congregacional (1927-1960)



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AS NARRATIVAS DA MEMÓRIA DE MULHERES NO PROTESTANTISMO DE CAMPINA GRANDE - PARAÍBA: A IGREJA EVANGÉLICA CONGREGACIONAL (1927-1960)

Cleófas Lima Alves de Freitas Júnior (Mestrando do Programa de Pós-Graduação em História da UFPB, e-mail: juniorcleofas@yahoo.com.br)

RESUMO

O nosso trabalho tem o objetivo de analisar as representações construídas nas narrativas da memória de duas mulheres idosas que começaram a participar da igreja congregacional entre as décadas de 1930 a 1960 desde a infância ou juventude. Através das entrevistas em que narraram suas vidas para pensarmos as imagens de suas práticas femininas e das outras fossem como “transgressoras” ou “obedientes” das normas congregacionais no âmbito da fé, das relações amorosas, da estética e dos divertimentos. Essas nos possibilitaram melhor conhecermos o espaço das mulheres que questionaram e desrespeitaram os códigos de condutas quebrando as normas elaboradas pela igreja congregacional. Nisso esses traços das memórias femininas congregacionais são pensadas como formas de dizer o mundo, de olhar o real, em discursos que discorrem, descrevem, explicam, interpretam e atribuem significados à realidade.



PALAVRAS-CHAVE: Mulheres Congregacionais, Narrativas e Representações.

Esses traços das memórias femininas congregacionais correspondem a formas de dizer o mundo, de olhar o real, em discursos que discorrem, descrevem, explicam, interpretam e atribuem significados à realidade. Esses discursos são portadores de imagens que tornam presentes os acontecimentos do passado através da rememoração, ou seja, o tempo transcorrido que era um tempo físico escoado e irreversível (PESAVENTO, 2006, p.2).

Nesse sentido, no uso das entrevistas, partimos do pressuposto trabalhado por Thompson (1992, p.44, 137) de que produzimos uma história em torno das pessoas, que proporciona o aparecimento de sujeitos vindos não só dentre os líderes, mas dentre a maioria desconhecida do povo, trazendo a história para dentro da comunidade e extraindo de dentro da comunidade. Contribuiu para que os menos privilegiados e em especial os idosos conquistassem dignidade e autoconfiança, dando voz e na identificação de outras identidades.

Nesse sentido partilhamos com Montenegro (1994, p.21-22) de que a produção histórica pode ser centrada em processos de rememoração, sem desprezar que o depoimento oral e as fontes escritas se complementam para a compreensão do passado. O processo de rememoração seguiu o caminho de abordagem através de um processo diversificado de relembranças em que alcançamos visões, opiniões e representações sobre o passado.

Também pensamos essas entrevistas como trata Delgado (2006, p.31, 52-53) de que estamos contribuindo para que as lembranças continuem vivas e atualizadas, sem transformar em exaltação ou crítica pura e simples do passado, mas “meio de vida” a procura de escombros que estimule o diálogo do presente com o passado. Um movimento que vincula a razão histórica à memória na produção de um saber histórico que contribui no conhecimento do passado e na projeção do futuro, na luta para diminuir o impacto do consumo diário do esquecimento e da “perda de identidades” que compõem o nosso mundo globalizado.

Todos esses artefatos encontrados e selecionados como constituintes das memórias das relações de gênero, no protestantismo congregacional em Campina Grande, que a partir das reflexões de Perrot (2006, p.33-43) nos possibilitou pensar o quanto a memória histórica tem um caráter sexuado, que forja um silêncio produzido pelo olhar masculino hegemônico. Contido nos arquivos públicos que privilegiam o público como espaço do econômico e do político destinado aos homens. Em contrapartida os arquivos privados nos fornecem “segredos” em que as mulheres aparecem como secretárias das famílias, com os livros de anotações familiares, as correspondências familiares e os diários íntimos, mas muitos foram atingidos pela autodestruição das mulheres. Destaca ainda a referida autora que as memórias das mulheres são traços ligados a sua condição, ao seu lugar na família e na sociedade, constituindo-se assim em uma memória do privado voltada para a família e para o íntimo. As entrevistas também possibilitaram que as mulheres rompessem com o silêncio e encontrassem o prazer de falar de si mesma com liberdade.



Ser uma mulher evangélica é servir por amor

Neste momento atentamos aos testemunhos e depoimentos de duas mulheres congregacionais que reconstruíram e “traduziram” o passado vivido através da evocação. Nesse processo de reconfiguração do passado essas narrativas são “portadores de uma autoridade da fala” em que as mulheres se utilizam como um “privilégio de ter a tutela do passado”. Tais reconstruções correspondem a um “laboratório de sentido” sobre a realidade através de um movimento em que passado e presente, indivíduo e social, lembrado e esquecido, silêncio e voz, lacuna e repetição se juntam, se opõem e se defrontam. Em que o passado destas mulheres foi reconstruído para o presente através de traços que produziu variados sentidos e não um significado homogêneo e único. Em seus discursos criaram imaginários de sentidos a partir da realidade como “ficções plausíveis, verossímeis, socializadas, temporalizadas, na sua feitura e na sua recepção” (PESANVENTO, 2006, p. 6-7).



A1 primeiramente respondeu sobre sua conversão ao protestantismo em que lembrou quando tinha 12 anos de idade participou de uma Escola Bíblica de Férias, de um corinho que impactou sua vida com muita emoção, estando forte em suas memórias até o presente e cantou uma parte: “Quando a aurora raiar no azul do céu/ reflexo de um clarão/mas não vê o resplendor da luz que brilhou/brilhou no meu coração.” Fez uma descrição dos seus pais como congregacionais “leigos” que não ocupavam lugar de autoridade na igreja, mas inscreveram em seus corpos as normas, o pai gostava de participar dos “cultos ao ar livre” promovidos pelos presbíteros da igreja, principalmente João Canuto e as pregações do pastor João Clímaco Ximenes (pastor da igreja congregacional de Campina Grande durante trinta e três anos e meio). Em relação à mãe lembrou que não conheceu os seus pais biológicos, mas foi acolhida por uma família evangélica. Além disso, narrou o cuidado do seu pai em educar os filhos na fé protestante através das reuniões da igreja em que “meu pai botava como se fosse um ‘rebanho’, a gente caminhava a pé por esse lado (moravam no bairro José Pinheiro) aqui do São Vicente de Paulo, o Açude Velho, era uma lama tremenda, lama não é?...”

Narrou que foi batizada quando tinha 15 anos de idade pelo pastor João Ximenes em 1945, porque necessitava fazer a profissão da sua fé como prova de que Jesus era o “Salvador”, respondeu todas as perguntas feitas pelos oficiais da igreja sobre a certeza da sua salvação. Inventou uma imagem de si como “bem extrovertida”, não era tímida, sendo uma marca fixa em sua identidade e legitimou que sua fala era “verdadeira” diante de Deus. Também que desde a adolescência participava de todas as reuniões da igreja, destacou que “nunca perdia assim a Escola Dominical na minha adolescência, ganhava até presente, né? Na, na Escola Dominical sempre, não era um só ano, era direto.”

Discursou sobre a importância do estatuto e das autoridades da igreja na produção de sua identidade. Considerou o estatuto importante em sua proibição para as mulheres não cortarem os cabelos “muitos curtos” como se fossem homens, ou seja, “muita gente corta chega a pelar mesmo e fica bem pelado”. Representou a si mesma como seguidora fiel dessa norma o seu cabelo tinha um “corte regular”, destacou que não gostava de corte feminino semelhante ao dos homens. Lembrou de que com 15 anos no dia do batismo seu cabelo “vinha até o ombro”, só cortou numa idade mais avançada e quando houve a “liberação” na igreja. O pastor João Ximenes também proibia aos “crentes” da igreja ir à praia no dia de domingo, ressaltou que o banho de praia era permitido se cumprisse o dever de participar das reuniões da igreja. Falou que a vigilância era constante para que vivessem nas normas, narrou que quando um membro faltava quatro domingos na Escola Dominical, era formada uma comissão pelos oficiais da igreja para conversar com o “transgressor” e as autoridades trilhavam os seguintes passos em obediência a Bíblia: “um tocava na ‘tecla’ daquele assunto, se a pessoa ouvisse, bem, se não ouvisse né? Aquela advertência, vinha dois ou três para não ser ouvido só por um, para testemunhar a coisa.”

Ressaltou que ela ouvia essa norma ensinada pelo pastor João Ximenes sobre o dia de domingo como o dia de servir, adorar e prestar culto somente a Deus, não sendo “o dia da pessoa ficar indo pra praia ou pra sai e ‘prá-colá’, e nem se envolver com isso nem com aquilo (...). Domingo era considerado o ‘dia do Senhor’, não podia negociar no dia de domingo.” Também lembrou “da sinceridade por parte de muitos” em que obedeciam de forma rigorosa, a vigilância abrangia a participação no culto da “Ceia do Senhor, dia da comunhão”, porque quando as autoridades da igreja enxergavam a falta de alguém, era chamado a atenção. Fez uma crítica ao tempo presente de que os membros vivem como desejam, com o exemplo na sua família de uma pessoa que durante um ano não participou do “dia da comunhão” e definiu isso como “estranho”. Nessa definição do outro como “estranho” apresentou a si mesma como fiel a norma do “dia da comunhão” por ser uma festa “santa”:

... a maior alegria, maior gozo, maior satisfação quando chega o dia da Ceia do Senhor, aquela coisa boa, saber que a gente vai, vai, quando a gente tiver lá (no céu) vai ser aquela coisa linda, aquela coisa gostosa. A gente fica recordando aquilo que tá escrito, muito bom, é uma das festas mais bonitas da igreja é o dia da Ceia do Senhor...

Nessas narrativas não tratamos da evocação literal da história vivida e sim de depoimentos, em que está contido “o tempo passado” pesquisado, “os tempos percorridos” por suas trajetórias de vida e o “tempo presente” que provocou as perguntas e respostas através de uma relação mútua entre entrevistador e depoentes. Não somos ingênuos quanto à relação dessas múltiplas temporalidades, seja na fala da “jovem do passado”, a “voz da adulta” e da “anciã do tempo presente”. As narrativas dessas mulheres idosas são pensadas como memórias com lembranças das experiências, dos sentimentos, dos testemunhos, visões, interpretações de si e dos outros que foram filtrados pelas “emoções do ontem, renovadas ou ressignificadas pelas emoções do hoje.” Nas múltiplas relações de poder entre memória coletiva e memória individual instituído como: “poder de esquecer, de lembrar, de omitir, de silenciar”, com o olhar minucioso na singularidade de cada uma dessas mulheres (DELGADO, 2006, p.15,16,18,31).

Em suas narrativas A inventou as autoridades da igreja e principalmente o pastor João Ximenes2 como modelo de pastor que ensinou com fidelidade as normas, cumpriu seu dever de coordenar a igreja com atos de constante vigilância para que todos se sujeitassem em obediência. Ressaltou que interpretava as práticas normativas da igreja como “boa”, porque mesmo tendo Deus como principal pastor era muito bom quando o líder da igreja: “é a ‘Palavra pura’ mesmo e quando fala, fala na direção e na unção, como era o caso do Reverendo Ximenes, de Raul, de Alexandre era um bom pastor... Claro e havia reverência, muita reverência.” A imagem de que o pastor João Ximenes em todas as suas práticas na igreja era um “homem de Deus”, que realizava tudo com disposição e autoridade “dentro dos princípios da Palavra mesmo, com muita autoridade e era pra valer mesmo sem ser na ‘carne’. Quando era exortação, exortação, se é consolação, consolação!...” Enquanto sua imagem do tempo presente de que os pastores, presbíteros e diáconos não estavam cumprindo o dever de conduzir os fiéis na disciplina, mas legitimou que serão julgados por Deus por todos os atos de desobediência.

Em relação ao pastor João Ximenes legitimou que o seu ensino era muito claro, como a divisão do espaço físico do templo da seguinte forma: de um lado os bancos só para as mulheres e do outro para os homens, a sua leitura dessa norma era de que o pastor cuidava para que a “maldade” das pessoas não resultasse em pecado. Sua critica que no tempo presente os “crentes” dizem “o tempo é moderno” e transformam as normas para se adaptar a sociedade. Instituiu a imagem fixa dessa sua leitura da norma como “correta” e “certa”, como de que não tinha “maldade” quando sentava ao lado de um homem. Falou que no passado existia “um melhor comportamento” entre os homens, mulheres e jovens, na sua narrativa teve o cuidado de não produzir uma imagem das autoridades da igreja como “autoritárias” e “rígidas”, citou o exemplo de que “toleravam” aos noivos sentar juntos na igreja. Interessante a sua imagem dos oficiais como os vigilantes das normas em que tinham o seu horário de trabalho, e a montagem de uma estratégia para que o olhar alcançasse a todos com um presbítero do lado direito do templo, outro no lado esquerdo e outro na entrada do templo. Em que durante os cultos ficavam andando de um lado ao outro e quando enxergavam o “anormal” se aproximavam para manter a ordem.

Pensamos que estas narrativas não são uma construção homogênea e sim múltiplas de sentidos sobre a realidade através de uma releitura espontânea e induzida, de si e dos outros (os pais, marido e as autoridades da igreja) em seus comportamentos, valores, experiências e tradições. Estabelecem relações entre o presente e as experiências vividas através das reminiscências e lembranças. Também afirmam identidades nas relações de pluralidade e atualização no presente, no movimento de seleção e tensão, entre o lembrar e o esquecer. Em imagens idealizadas dos pais, do pastor, dos presbíteros, diáconos da igreja e de si como seguidores fiéis das normas. Através de lembranças selecionadas para legitimar uma identidade fixa, homogênea, como também o ocultamento e condenação da pluralidade feminina em suas práticas: a submissão aos discursos masculinos hegemônicos das autoridades da igreja (DELGADO, 2006, p.39).

São importantes as narrativas de A sobre suas relações amorosas durante o namoro, noivado, casamento e separação. Como também as relações fora do casamento do pai, suas transgressões e nessas evocações as construções de si e dos outros. Primeiramente teve uma relação amorosa normatizada com um rapaz, em que cantavam no Coral da Igreja e noivou, ele almoçava todo domingo em sua casa e participavam dos ensaios à tarde. Sua fala foi de que acabou com o noivado e se casou com um vizinho que lhe conhecia desde criança, o representou como um homem que “conhecia a verdade mais não era crente”. A leitura do seu casamento como um ato de “desobediência” a Deus e aos pais, porque seus pais não aprovaram e “se revoltaram contra mim”, representou que para eles foi um “grande desgosto”, ressaltou que continuou sendo “querida pelos pais”. Aprovou a disciplina que recebeu de imediato da igreja quando confessou as autoridades o namoro e depois o casamento, estamos diante de uma ruptura e descontinuidade na identidade que buscou legitimar como homogênea. Até que um dia se arrependeu com o ato de “ajustamento” que compreendia da seguinte forma: “Se ajustar é pedir perdão e tem mais uma coisa, naquele tempo tinha que pedir perdão perante toda igreja. Podia ser numa assembléia de membros e podia ser também no culto solene do domingo à noite”. A imagem de que chorou muito por “vergonha” porque transgrediu a educação protestante recebida dos pais:

... nos caminhos do Senhor e uma pessoa que se chamava crente e depois vir uma artimanha dessa e ser lubridiada e cair numa dessas e envergonhar tanto a igreja, primeiramente Deus, não é, mas ainda bem que Ele não é vingativo, é perdoador e os meus pais, também envergonhei.

Nessa imagem de que sua transgressão lhe envergonhou porque rompeu a norma de seus amores: Deus, a Igreja, os pais e um marido que fosse protestante. Mas com a idéia de que Deus lhe perdoou ela continuou participando da igreja, mesmo com os olhares de desconfiança e reconstruiu sua identidade com o olhar fixo “para o autor e consumador da nossa fé (Deus)”. Narrou que sua tristeza foi porque rompeu com a forma de vida baseada na Bíblia, de que ela como “luz” não podia ter união com as “trevas” que era ele, concluiu de que tanto no passado como o presente a “serva de Deus” não deve: “você como uma serva do Senhor tá deitada lá com um ímpio e muitas vezes...”.

Suas lembranças suscitam imagens do esposo como um não convertido a fé, “ímpio” e “muito adúltero”, apresentou como prova de tal identidade a questão que ele morreu assassinato quando morava na Bahia. Evocou a si mesma como “a esposa legítima” que teve um filho, mas ele construiu três famílias fora do casamento como: de uma mulher baiana nasceu um filho, de outra teve três filhos e uma mulher de Campina Grande teve um filho. Ressaltou que o fim do casamento foi culpa dele porque “ele me abandonou, ele foi quem deixou a casa, o motivo era as mulheres que ele arranjou várias vezes (risos).” Narrou que essas traições do marido e a separação resultaram em revolta “porque eu amava muito a ele, eu tive muita revolta...”, sendo este amor maior para que subvertesse a educação recebida dos pais e da igreja.

Mas falou que foi consolada pela presença divina porque “quem ama mesmo, ama mesmo, ama de verdade mesmo, mas o verdadeiro amor é o amor de Deus e isso me preencheu...”, destacou a superioridade do amor divino como base para superar a tristeza com o fim do casamento e na reconstrução de si. Também o apoio e acolhimento dos pais como se ela fosse uma “moça” e o fim do casamento para ela se deu quando tinha 40 anos com a morte dele, narrou que mesmo com a possibilidade de um novo casamento teve a decisão de dedicar sua vida somente os pais e a igreja: “Aí eu vou só cuidar dos meus pais aqui nessa casa mesmo, só cuidando dos meus pais, dando assistência e trabalhando para Jesus.” Inventou outra masculinidade com a lembrança de que seu pai viveu uma relação amorosa fora do casamento, mas destacou a imagem dele como um homem bom que seguiu o ritual exigido pelas autoridades da igreja para os “transgressores”, com o pedido de perdão numa reunião de culto da igreja. E, além disso, narrou que seu pai não abandonou a mãe porque era fiel no cumprimento dos deveres: “... ele era cumpridor dos seus deveres, muito responsável, muito bom dono de casa, muito mesmo.”

Atentamos as suas narrativas de que o espaço das mulheres nas atividades da igreja congregacional eram nos cultos promovidos pela União Feminina Auxiliadora (ou Sociedade das Senhoras), destacou algo bem forte em suas recordações desde a juventude com o trabalho da “Auxiliadora” em visitar aos enfermos, formavam grupos de três mediante convocação da diretoria. Acredita que esse trabalho reservado para as mulheres pelas autoridades da igreja no passado era mais forte do que no presente, porque no hoje a iniciativa das visitas são atos particulares e destacou o quanto construiu sua identidade na vivência desse espaço de ser uma auxiliadora na igreja e da família:

Hoje se alguém visita, eu pelo menos gosto muito de visitar, e dependendo da ocasião e do momento, porque só na minha família mesmo, minha família é muito grande (...). E adoece muita gente e eu dessa idade procuro dá um pouco de assistência a família, não só ‘família sangue’ como família de Deus.

Ressaltou que enxergava o quanto as pregações eram realizadas pelos homens e no presente a mulher tem um maior espaço para pregação. Mas também existiram mulheres com dons divinos fosse de dedicação a oração, ao canto e as curas, assim sua reminiscência apresenta uma descontinuidade em relação a norma da igreja no período em que considerava como heresia essas práticas que eram ligadas ao “pentecostismo” . Uma mulher que tinha o “dom de cura”, Marta Fernandes com o poder de orar pelos doentes e serem curados, destacou que várias pessoas a criticavam com a idéia de que desejava ocupar o lugar de Deus, mas as autoridades da igreja aprovavam: “Porque talvez achasse que ela quisesse ser uma ‘deusa’, interpretava totalmente diferente.” Sobre Dona Morena (esposa do pastor João Clímaco Ximenes) legitimou imagens de ícone feminino congregacional: “Ela era muito viva, muito ativa, muito humilde, muito humilde, ela era muito atenciosa. Aquela família me marcou, me marca.” 3

As lembranças da sua participação nas diversões consideradas “mundanas” pelas normas, ressaltou que não participava de festas como o Carnaval “que muita gente gostava de olhar” e as danças nos clubes da cidade. Em relação ao cinema falou que quando estava disciplinada participou três vezes no Capitólio e Babilônia, mas assistiu filmes religiosos. A imagem de si não como “transgressora” e narrou com alegria: “Mas eu já tava disciplinada da igreja, eu aproveitei, né? (risos). Eu aproveitei e participei.” Por último, falou que o ideal de ser mulher evangélica era viver nas seguintes representações: serva obediente a vontade divina, servir por amor, transcender as circunstâncias, disposta a fazer a obra de evangelização. Através do espírito divino não ceder a tentação das obras da “carne, a prostituição e tudo que não presta”, enquanto viver nos frutos divinos do “amor, bondade, humildade, benignidade, mansidão, humildade e domínio próprio.” A aceitação da Bíblia como palavra divina e fonte inesgotável desde a infância em casa com os pais através do culto doméstico em que aprendeu a orar, cantar os hinos e ler o livro “santo”, mesmo com pais “analfabetos”. Fez questão de destacar que até na velhice o livro sagrado na ordena seu cotidiano: “Antes de sair para o médico eu faço minha primeira oração logo cedinho e faço também a minha leitura nem que seja um ou dois versículos, contanto que eu não saia sem lê a Palavra...”.



As moças andavam muito bem vestidas, mas tudo decentemente

A entrevistada B4 considerou o início da sua conversão ao protestantismo congregacional desde sua infância, evocou lembranças de que morava com os pais num sítio distante num povoado chamado Marinho, sem energia elétrica e em pobreza. Representou os pais como congregacionais batizados pelo pastor João Clímaco Ximenes, cantavam no Coral da Congregação do Marinho sob a liderança da Igreja de Campina Grande, ressaltou que nasceu num “lar evangélico” com uma educação efetivada pelos pais de que antes de dormir todos os dias as crianças aprendiam da fé. Narrou que sua família era muito “crente” e desejavam ouvir as pregações, com a lembrança de que o pastor João Ximenes chegava ao Marinho na caminhonete da Igreja de Campina Grande com alto-falante ligado em músicas protestantes, descreveu que iam andando entre os “matos” para participar dos cultos. Falou que a mãe morreu quando moravam em Recife, depois voltaram para o Marinho e produziu uma imagem do pai como “cigano que vive no meio do mundo”, ele era barbeiro que durante a semana trabalhava longe de casa. Também era um protestante que não participava da igreja porque foi eliminado da comunhão da igreja, mas falou que era “crente” e cantava os hinos diariamente. Narrou que caminhava muito para ir vê o Coral da Igreja do Marinho, uma vez por mês no “dia da comunhão”, sentava no primeiro banco, trazia o “tamanquinho” no dedo e quando chegava ao povoado lavava os pés no rio, colocando-os nos pés. Com emoção descreveu que quando o Coral cantava, fechava os olhos e sonhava um dia cantar no Coral, mas dizia isso consigo mesma porque criança naquele tempo não falava com os mais velhos:

... eu fechava os olhos e falava: quando eu crescer, eu canto no Coral. Era o meu sonho, eu dizia comigo mesmo, não podia dizer, porque nesse tempo, menino não coisava com os mais velhos, não. Não era tudo escutando e calado, e eu ficava assim: quando eu crescer eu canto nesse Coral.

Tais narrativas produzidas na relação entre memória individual e coletiva é formada por alguns elementos: primeiro, “os acontecimentos vividos pessoalmente”, ou seja, experimentados e conservados na individualidade de cada entrevistada; segundo, os “acontecimentos vividos por tabela”, vivenciados pelos outros (a igreja, família e sociedade) sem participação direta, mas se sente participante através do imaginário que foi construído. Terceiro, a multiplicidade das “pessoas e personagens”, com aqueles que realmente participaram no decorrer da vida e os que tiveram uma participação indireta ao seu espaço-tempo. Quarto, os “lugares da memória”, como relacionados às lembranças pessoais sem o apoio de um tempo cronológico (POLLAK, 1992, p.201-202).

Sobre sua conversão continuou a narrativa de que aos 15 anos de idade veio morar em Campina Grande para trabalhar na casa do pai de Evandro Sabino e cuidar de uma criança com o “salário” de ter o “comer” e o “vestir”, considerou essa mudança boa porque ficou perto da igreja congregacional. Pois, durante três anos apenas ia para a Igreja sem pedir o seu batismo, nesse período participava das casas de dança da cidade como: o “Paulistano” e a “Associação dos Artistas”. Na noite de São João do “Forró da Mulata” apenas para olhar as pessoas que dançavam. No Carnaval na Rua Maciel Pinheiro também com os óculos para se proteger do “lança-perfume” e passeava nas ruas centrais da cidade, em seguida ia para o culto na igreja “cheia de confete”. Mas destacou que sua participação era passiva em tais lugares de diversão, pois seu objetivo era apenas olhar aos casais dançando, ficava impressionada com a beleza dos passos e recusava o convite dos rapazes para dançar.

Nessas caminhadas pelas diversões da cidade consideradas “mundanas” na leitura das normas, B fez questão de narrar que não cedeu a tentação do pecado fosse através da dança, uso de cigarro e bebidas alcoólicas. Mas somente apreciava a beleza dos casais dançando com a idéia de que nasceu para ser “ruim”: “... eu nunca fiz, nunca arrastei o pé pra nada, nunca coloquei um cigarro, nunca botei uma bebida na minha boca (...). Eu nunca fui pra farra, eu acho que Deus me guardou, eu não tinha que ser ruim, sei lá...”. Depois de três anos de caminhadas em que foi preservada pelo poder divino, falou que necessitava ter “responsabilidade”. Para tanto, pediu ao presbítero João Canuto para ser batizada, que lhe conduziu para entrevista com o pastor Ximenes, e respondeu que desejava ser batizada “porque eu quero adquirir responsabilidade”. Assim realizou o sonho de cantar no Coral.

Essas palavras ditas correspondem a uma forma de dizer sobre a cidade de Campina Grande em que nesses testemunhos as experiências vividas foram recuperadas através da reminiscência, para os que vivem no tempo presente e não experimentaram aquele tempo passado da cidade. Na evocação de mortos, lugares que não existem mais, sociabilidades e ritos que foram transformados no presente e valores desnaturalizados. Na constituição de uma “história em fragmentos” que formam um mosaico, sendo a cidade tecida de forma contínua. Isto porque as entrevistadas atuam como “senhoras do tempo” em que recriam o que falam sobre o passado da cidade cada vez que produzem suas falas. Portanto, nesses testemunhos encontramos variados discursos sobre a cidade constituindo-se em “cidade falada, cidade imaginada e cidade sensível” (PESAVENTO, 2008, p.7-8).

Suas narrativas sobre as autoridades da igreja na sua tríade formada pelo pastor, os presbíteros e os diáconos, produziram uma idealização mais intensa do que em A. Com imagens desses como homens santos que possuíam o poder de “zelar” e “vigiar” as mulheres para que cumprissem as normas, nisso B buscou construir sua identidade através de um amor obediente e submisso a esses homens. A imagem do presbítero João Canuto como “patriarca” da igreja porque era o mais velho, essa era a ordem estabelecida pelo pastor João Ximenes de que os mais velhos eram os primeiros e mereciam respeito. Por causa disto João Canuto era autoridade de confiança do pastor e o “assessorava” em todas as questões. Mas destacou que esse respeito e reverência “divina” era um dever em relação aos outros oficiais da igreja, em que “nós tiamos um temor a eles tão grande, todo jovem, todo mundo...”

Em sua invenção dos oficiais como homens que possuíam um estilo de vida diferenciado porque pregavam a “Palavra de Deus e os membros da igreja o respeitavam “como se fosse um ‘general’, uma autoridade de Deus mesmo...” Os oficiais ensinavam o estatuto, toda semana os fiéis participavam do “culto de doutrina” para aprender as normas e as autoridades iam “tudo engravatado, de uniforme, não, ninguém de blusa como vai vender banana na feira...” Ressaltou que na sua igreja estes cuidavam para que as mulheres obedecessem às normas como: “namoro com incrédulo” (homem não convertido ao protestantismo) era recebida uma carta de que estava em disciplina e se “não obedecesse era eliminado”, proibido corte de cabelo, uso de pintura, “roupa ‘certinha’ ninguém usava, usava roupa até a ‘canela’ assim.” Para tanto, tinha um oficial chamado Manoel Vieira com a função de “vigia das moças”, falou da facilidade em que descobria os namoros desviantes e ela legitimou tal prática como o “correto”. Fez uma crítica ao tempo presente em que as autoridades tornaram “leve” a vigilância com as jovens que engravidam: “Hoje em dia as moças se perdem, arranja ‘bucho’ e vai consagrar a criança na igreja.” Enquanto o pastor Ximenes só consagrava uma criança na igreja acompanhada do pai, definiu isso como “direito” e no presente enxergava o “povo” pensando que Deus transformou suas normas, por isso, a igreja tornou-se “um santuário profanado”.

Nesses discursos nos detemos as suas imagens idealizadas e a recriação feita sobre suas práticas femininas na reafirmação de uma forma particular de viver no mundo. A partir das reflexões de Soihet (1989) sobre as formas de violência femininas na cidade do Rio de Janeiro buscamos também um repensar dos discursos em relação às mulheres como seres comandados pela natureza, a maternidade sendo a centralidade do ser, fragilidade e inferioridade quanto ao homem. No entanto, as mulheres em suas práticas cotidianas romperam ao silêncio e conformação na construção de uma identidade fluída, diversa, em que utilizaram dessas formas de violência na forma de morar, caminhar, trabalhar e se divertir.

As lembranças de B sobre as normas promovidas pelas autoridades da igreja foram evocadas na relação entre passado e presente de forma diversa, em que apresentou pastor João Ximenes como homem com uma voz fraca. Mas usado como instrumento divino em suas pregações que duravam 15 minutos e no apelo final as pessoas se convertiam do “pecado” e “inferno” para o “reino da luz” da fé protestante, ela cantou a música que era utilizada pelo pastor nesse momento: “O seu tempo passa como a folha quando cai/Que na tem Jesus quando morre para onde vai? Vai para um lugar onde não existe mais luz/ só porque não creu no Evangelho de Jesus/ E ali o choro e o fogo e o clamor e a consciência acusando o pecador.”

Em que ele ensinava as normas aos membros em que “lia aquelas coisas no livro e ensinava tudinho”, através de variadas reuniões realizadas durante a semana na igreja como: na segunda, terça e quarta era o ensaio do Coral, na quinta-feira culto de doutrina, na sexta-feira reunião de oração e o domingo era o “dia de trabalhar pra o Senhor”. Recordou que no sábado à noite a reunião era para os jovens sob a direção de um presbítero escolhido, destacou um importante que foi Sebastião Lima. O currículo básico das reuniões eram estudos sobre “os homens da Bíblia” como modelos que os jovens deveriam seguir de obediência e respeito ao temor divino, para que resistissem as tentações do pecado. Para ela uma das histórias que lhe impactou de forma significativa foi a de José do Egito com a norma do jovem resistir às tentações do “mundo mau” sem pecar.

Em sua narrativa produziu uma realidade de que as mulheres nesse período usavam roupas com “beleza” e “decência” em seus vestidos longos, criticou o tempo presente em que as mulheres usam “calça comprida” e comparou com o passado que quem usava esse tipo de roupa eram as prostitutas, as mulheres da zona do meretrício da cidade chamada de “Mandchúria”. O uso de pinturas era com “decência” e ressaltou que as primeiras mulheres a cortarem os cabelos na igreja foram as filhas do pastor João Ximenes e B interpretou que esses atos das filhas do pastor contribuíram para sua morte tão cedo: “Quem primeiramente cortou cabelos foi as filhas dele, quem cortou cabelo foi Junia, a filha fugiu e casou com ‘incrédulo’, aquilo contribuiu pra ele morrer, ele era pra tá vivo. Foi melhor morrer do que ficar sofrendo dentro de casa. Então tudo isso aconteceu.”

Outra questão interessante corresponde a lembrança de como o pastor Ximenes ensinava sobre o “pentecostismo” e a forma de “batismo” da Igreja Batista, de que aqueles que desejavam seguir essas doutrinas a “porta da igreja” estava aberta para que modelassem suas vidas com esses caminhos. Ela afirmou que aprendeu na sua igreja (como sua casa) a obrigação de preservá-la bem e não viver na “casa” dos outros: “Eu me acostumei na minha igreja que cada um tem a obrigação de cuidar de sua ‘casa’, deixar a sua ‘casa’ para ir pra ‘casa’ dos outros, eu aprendi na minha igreja.” Ressaltou que a autoridade do pastor Ximenes também abrangia o Coral da Igreja em sua programação feita somente com sua autorização e a obediência as suas ordens eram praticadas por todos em “silêncio”: “porque quem manda no Coral é o pastor da igreja”. Os discursos construídos por B em suas imagens de exaltação ao poder do pastor Ximenes e dos oficiais da igreja como divinos no adestramento das mulheres as normas, ressaltou em tom amoroso a imagem de sua submissão e resignação na modelagem da sua identidade a partir desses poderes masculinos.

Em relação à Dona Morena não legitimou o “enquadramento da memória” de que era um ícone congregacional normatizado, para tanto recorreu a sua própria experiência e a de outros como sua avó. Narrou que não conheceu Dona Morena na sua juventude, mas somente em sua velhice e conviveu com ela. Para tanto, recorreu as histórias contadas por sua avó em que inventou imagens dela como “braba” e “ciumenta” que fez o pastor Ximenes sofrer porque produzia histórias imaginárias: “ele sofreu muito na mão dela.” Ressaltou que ela só se tornou modelo depois de “velhinha”, mas na juventude a imagem era de “ciumenta” e narrou qual foi o motivo da disciplina de Dona Morena na igreja efetivada pelo esposo que discutimos no capítulo anterior sobre o silêncio produzido nas atas da igreja de sua prática desviante. Para B, ela foi eliminada da igreja porque tratou com violência a empregada da sua casa, porque esta derramou água quente sobre seu filho que morreu, destacou que todos sabiam dessa história e justificou tal prática por causa do seu jeito “brabo” de ser.

Em sua invenção de Dona Morena como “braba” recorreu a lembrança de que ela não aprovou o casamento de uma das filhas pelo noivo ser “pobre”, mas narrou que o mesmo foi realizado porque o: “amor não faz diferença, né? Quem quer bem não faz diferença.” Destacou de que ela morou com essa filha e quando o casal dormia a tarde depois do almoço, Dona Morena chamava todo tipo de “palavrão” e B diz que ouviu isso da própria filha, fez uma avaliação desses atos: “Não pode entrar nem no quarto, mas era o marido dela, não podia nem descansar um pouquinho lá. E ela ficava lá ‘esculhabando’ com ela (...). Não era pra dá surra na empregada, o marido dela a eliminou por isso. Era mansa?” Com essas imagens B promoveu uma desconstrução nas representações sacralizadoras sobre Dona Morena como ícone feminino congregacional com uma identidade fixa e homogênea, mas criou imagem desta em desviante e transgressora das normas. Através de atos de uma identidade fluída a medida de cada momento através de golpes que rompiam com a passividade e submissão exigida.

São importantes as narrativas de B sobre suas relações amorosas em que buscou legitimar seus atos transgressivos na construção de si como um corpo “santo” e “sagrado”, com um discurso de que concordava com a idéia da “luz” (protestante) não se unia com as “trevas” (não-protestante). Narrou que sofreu porque casou com um homem não convertido, mas destacou como melhor para se livrar de uma tentação do “pecado” de maior intensidade, não foi um casamento por amor e paixão. A imagem de si como uma mulher com o temor divino, o conhecimento da Palavra de Deus e que estava diante de uma situação em que o resultado: “ia fazer mal a minha igreja ou a alguém da minha igreja”. Para tanto, por causa desse seu modo de ser e estar no mundo que rompeu uma norma da igreja para não transgredir outra muito “pior”.

Em seu discurso um homem da igreja com poder econômico, uma “paixão cega”, bonito, casado e com filhos, destacou que necessitava fugir da tentação de experimentar uma relação amorosa fora do casamento e resultaria em “escândalo”, assim aproveitou a oportunidade dada pelo poder divino: “... e eu tive que fugir disso aí pra poder sair dessa situação, um escândalo é muito ‘feio’ no evangelho. Pra não escandalizar o evangelho eu casei com ‘incrédulo’.” A lembrança de um dia em que ele a convidou para entrar no seu carro e perguntou se não desejava estudar no Seminário Teológico Betel Brasileiro para ser missionária, pois estava disposto a manter - lá com todas as despesas, mas diz que não cedeu esse convite porque viveria na dependência dele: “... Subiu assim um ‘negócio’ em mim, eu disse: vou não, para fugir da situação porque eu ficava a mercê dele. ‘Caba’ dava tudo, enxoval de dentro e fora, aí eu chegava não me casaria e ficava a mercê dele, não era não?”

Atentamos nessas lembranças a legitimação dos discursos ideais de que ser mãe e dona-de-casa era o destino natural das mulheres, com uma masculinidade hegemônica definida em ter iniciativa, sustento da casa com o trabalho, a força e o espírito de aventura. Nas relações amorosas as mulheres idealizadas como “moças de família” tinham que impor respeito por causa da “indecência” e o cuidado com as conversas ou piadas “picantes”. Assim não priorizavam “os desejos ou vontade de agir espontaneamente”, mas as aparências e as regras (DEL PRIORE, 2006, p.284).

Em sua narrativa discursou que o seu casamento com um homem não protestante foi um ato de fuga de uma “tentação” considerada de maior “pecaminosidade”, argumentou que não se arrependeu porque finalmente teve sua casa e acabou com um sofrimento de viver “nas cozinhas dos outros”. Representou o esposo como um homem que no início do casamento lhe proibiu de participar das reuniões da igreja, mas ela resistiu porque “ele me achou dentro da igreja”. Narrou que ele no namoro participava da igreja para lhe levar presentes e detalhou uma conversa em que o argumento dele era: “eu queria pegar o ‘peixe’, no entanto, a fala dela foi: “pegou o ‘peixe’, mas o ‘peixe’ não vai sair não”. Também um homem que a “crucificava” através de uma relação amorosa fora do casamento e que ele morou com uma jovem, no entanto, depois de dois meses foi abandonado com dois filhos e voltou a viver com ela.

Interessante atentarmos para a leitura construída pela entrevistada de que sofria o resultado da sua escolha de viver com um homem considerado “incrédulo” que não “tem o que dá” e dizia consigo mesma: “... quando ele judiava comigo, estou pagando o meu ‘preço’.” Na tessitura de um sentido para sua situação de disciplina se fundamentou na fala do presbítero da igreja Sebastião Lima que ela admirava muito, no discurso de que o “crente” mesmo quando disciplinado estava melhor do que os que viviam nas práticas do “mundo”, e reconstruiu uma fala dele: “minha filha é o seguinte, o pior ‘crente’ é melhor que o melhor ‘incrédulo’, porque o pior ‘crente’ tem o temor de Deus que o ‘incrédulo’ não tem.”

Por último, B em suas narrativas legitimou perfis femininos e masculinos congregacionais idealizados e condenou as práticas consideradas “anormais”. O perfil feminino no período do pastor João Ximenes era cumprir o dever de ser ajudadora do marido, na igreja o seu espaço de trabalho consistia em ser professora em várias classes e na União Auxiliadora Feminina em que as mais “velhas” ensinavam as mais “novas” com base na Bíblia. Criticou o seu tempo presente em que as mulheres já casam com uma vida de trabalho intensa, com saída de casa pela manhã e chegada somente à noite, fez uma leitura dessa prática como abandono dos filhos que não lhes conhecem e os “jogam” para as “drogas” porque a mãe não cumpriu sua missão de educá-los. Argumentou que por causa do trabalho algumas mulheres maltratam os maridos através da humilhação cotidiana porque os seus salários são maiores, recorreu a um exemplo de uma colega da classe na Escola Bíblica Dominical com o resultado de que o marido “só vive assim, não pode levantar a cabeça mais de tanta humilhação que passa...”.

Para B o problema disto consiste na “muita liberdade” que foi concedida as mulheres pelos homens e assim não cumprem o seu dever de ser uma boa dona de casa, reafirmou essa idealização feminina: “A mulher era pra ser boa dona de casa, não tem isso escrito na Palavra, ser boa dona de casa.” Para tanto, representou a si mesma como corpo “santo e “puro” de uma dona de casa que trabalhava no cuidado da casa para que tudo ficasse “limpinho” e em “ordem”, dos seis filhos e do marido. Inventou o marido como um trabalhador que cumpria o dever de sustentar a casa e a família, mesmo com suas práticas “malvadas”, destacou que ele não lhe permitia outro trabalho além do cuidar da casa. Mas teve que trabalhar quando o marido adoeceu e ficou impossibilitado de sozinho sustentar a família, destacou que foi por necessidade e isto não lhe trouxe tristeza: “Mas quando ele adoeceu, tive que trabalhar, porque fui obrigada, porque o dinheiro que ele ganhava não dava pra os filhos comer (...). Senti tristeza não, porque tava sabendo que ali foi necessidade.”

Na sua narrativa sobre o trabalho das mulheres exaltou um lugar que tem sido reservado às mulheres nas sociedades ocidentais desde uma longa duração, um trabalho na ordem do doméstico, da reprodução, sem valorização e remuneração. No exercício de ofícios circunscritos como ajudantes dos maridos como no artesanato, na feira ou na loja. Assim condenou o tempo presente com suas transformações quanto à maior liberdade das mulheres e como romperam ao lugar de reclusão como companheira submissa do marido. B desprezou os variados movimentos de lutas femininas para que exercesse diversos tipos de trabalhos com dignidade e liberdade como: os domésticos, as operárias nas fábricas, as profissões do setor terciário de vendedoras, secretárias, enfermeiras, professoras e nas artes (PERROT, 2008, p.109-128).

As suas imagens de que a identidade ideal da mulher congregacional era ser exemplo de fidelidade a Deus, diferente do “mundo”, sábia na construção de um lar feliz e firmeza nas normas da “Palavra de Deus”. Mais uma vez criticou o tempo presente de que não consegue enxergar mais a diferença entre “as mulheres do mundo” e as da “igreja”, considera o problema na conversão que não promoveu mudança em suas práticas “mundanas”. Destacou que esse problema consistia nas mulheres que não se vestem “decentemente” durante as reuniões da igreja, que representa o “santuário de Deus” conforme norma da Bíblia: “uma mulher bem vestida é muito bonita, com uma roupa bem vestida, não precisa tá lá nos pés não, nem as moças até aqui não. É bem bonito uma mulher bem arrumada, é bem bonito.”

Lembrou do pastor Raul de Souza Costa, que substituiu o pastor João Ximenes na direção da igreja, de que eles não permitiam as mulheres o uso de calça comprida, em que evocou uma fala do pastor Raul de que a mulher era considerada “símbolo sexual” e quando usava esses tipos de roupa expressava aos homens o desejo de mostrar os membros íntimos do corpo. Mais uma vez inventou a si mesma como uma mulher evangélica que andava bem vestida em todos os lugares (na rua, ônibus e consultório médico), em que as pessoas perguntavam se ela era “crente” porque enxergavam nela “diferença” e um “brilho”. Ressaltou que aprendeu tudo isto na Bíblia e construiu sua identidade com “alicerce”, em relação ao tempo presente sente tristeza porque as mulheres não cumprem seus deveres.

Nesses testemunhos discutimos uma multiplicidade de práticas e imagens das relações de gênero. Com o olhar atento de que a invenção desses perfis de comportamento feminino e masculino foi definida um em função do outro, em que se constituíram social, cultural e historicamente num tempo, espaço e cultura determinados. Em tais relações de gênero encontramos uma forma primária de relações de poder na particularidade da igreja congregacional em Campina Grande, porque as relações sociais são baseadas nas diferenças hierárquicas que distinguem os sexos (MATOS, 2006b, p.288).

Portanto, neste trabalho analisamos as representações femininas construídas nas narrativas de memória dessas duas mulheres idosas em que construíram e desconstruíram imagens das autoridades da igreja, de Dona Morena, das suas relações amorosas frustradas e bem-sucedidas, das diversões e no cuidado do seu corpo. Através de um movimento em que criaram e recriaram diversos femininos como masculinos numa diversidade das relações de gênero e na multiplicidade dos tempos.



Referências Bibliográficas

  • DELGADO, Lucília de Almeida Neves. História oral – memória, tempo, identidades. Belo Horizonte, MG: Autêntica, 2006.

  • DEL PRIORE, Mary. História do amor no Brasil. São Paulo, SP: Contexto, 2006.

  • MATOS, Maria Izilda Santos de. História das Mulheres e Gênero: usos e perspectivas. In:MELO,Hildete Pereira de; PISCITELLI, Adriana et. al. Olhares feministas. Brasília: Ministério da Educação: UNESCO, 2006b, p.281-294.

  • PERROT, Michelle. Os excluídos da história: operários, mulheres e prisioneiros. Trad. Denise Bottmann. Rio de Janeiro, RJ Paz e Terra, 1988. Coleção Oficinas da História.

  • _______________. As mulheres ou os silêncios da história. Trad. Viviane Ribeiro. Bauru, SP: EDUSC, 2006.

  • _______________. Minha história das mulheres. Trad. Angela M. S. Corrêa. São Paulo, SP: Contexto, 2008.

  • PESAVENTO, Sandra Jatahy. Palavras para crer. Imaginários de sentido que falam do passado. Nuevo Mundo Mundos Nuevos. Debates, 2006.

  • _________________________. Espacios, palabras, sensibilidades. Nuevo Mundo Mundos Nuevos. Colóquios, 2008.

  • POLLAK, Michael. Memória e identidade social. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, v. 5, n. 10, 1992, p.200-212.

  • SOIHET, Rachel. Condição feminina e formas de violência: mulheres pobres e ordem urbana, 1890-1920. Rio de Janeiro, RJ: Forense Universitária, 1989.

  • THOMPSON, Paul. A voz do passado: história oral. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.



1 Para manter o sigilo não utilizaremos os nomes das entrevistadas e sim as letras A, B. Entrevista concedida em 23 de setembro de 2009, aos seus 80 anos de idade, para CJR.

2 A nossa preocupação remete a necessidade de transformamos o olhar tradicionalmente edificado sobre o pastor João Clímaco Ximenes e sobre a igreja congregacional de Campina Grande. Um saber histórico de cunho dogmático e triunfalista, que exaltou o seu trabalho na igreja durante trinta e três anos e meio, na fabricação de práticas normativas que alcançaram vários lugares através das congregações como: Serra Verde, Ingá, Marinho, Santa Terezinha, Lagoa Nova, Esperança, Areia, Patos, Marisópolis, Aroeiras, Alagoa Grande, João Pessoa, Jatobá, Guarabira – na Paraíba, Timbaúba e Tamarinheira em Pernambuco.


3 Luiza Barbosa Monteiro quando se casou com o pastor João Clímaco Ximenes ficou conhecida como Dona Morena em que foram produzidas imagens legitimadoras pelas narrativas oficiais dela como ícone feminino congregacional com dedicação abnegada a Deus, ao marido, aos filhos e a igreja. Com funções de organista da igreja, cantora do Coral Robert Kalley, professora de crianças na escola bíblica dominical e companheira do pastor João Clímaco Ximenes no ministério de evangelização durante trinta e três anos e meio na direção da igreja congregacional em Campina Grande.


4 Entrevista concedida 28 de setembro de 2009 aos seus 74 anos de idade, para CJR.


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