As teorias da Notícia



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As Outras Modalidades na Imprensa Desportiva: Estudo de Casos

Introdução
Como amante e praticante de desporto, desde que me recordo da minha existência, sempre fui e sou um leitor assíduo dos jornais desportivos acompanhando por perto a sua evolução. Neste séquito, fui constatando um facto transversal nos diversos jornais em termos da sua divisão em duas secções bem distintas, cujo espaço disponibilizado é bem divergente: o futebol e as “outras modalidades”. Constata-se que o futebol preenche grande parte de qualquer exemplar de um jornal desportivo, enquanto que a secção das “outras modalidades” é bem inferior podendo haver um acréscimo em casos ocasionais de mediatização. Este acréscimo de atenção dada às outras modalidades em determinadas circunstâncias suscitou o meu interesse, e é esse mesmíssimo interesse que representa o ónus da discussão existente neste trabalho.

Assim, na minha investigação, tomei como ponto de partida a escolha de eventos de nomeada nas “outras modalidades”, de modo a compreender o tipo de perfil noticioso que tais acontecimentos ostentam para conseguirem gozar de uma invulgar notabilidade nos “jornais desportivos de referência” em Portugal, ou seja, “A Bola”, “O Jogo” e o “Record”. Sendo assim, obviamente que a escolha não foi feita aleatoriamente, tendo ainda como outro pressuposto a existência de pontos completamente divergentes nas modalidades em questão, tudo isto para tentar compreender como a notabilidade pode ser construída a partir de elementos tão dispares, tanto a nível da distinção dos desportos em si como dos seus contextos envolventes, não esquecendo a forma em que tal acontece, ou seja, o como. Optei então por averiguar dois acontecimentos relativos ao râguebi e à prestação colectiva da nossa selecção no Campeonato do Mundo de Râguebi em que coleccionou derrotas nos eventos apurados, enquanto que na rédea oposta decidi escolher dois momentos triunfantes do triatlo português partindo da análise dos feitos e glórias individuais da Vanessa Fernandes. Ou seja, foquei o meu estudo em diferentes modalidades, uma delas colectiva outra individual, mas com a similaridade da sua premente mediatização nos jornais desportivos. Na modalidade colectiva o resultado foi o oposto do geralmente esperado, resultando em derrota. Na modalidade de cariz individual o resultado esperado, a vitória, foi obtido.

Até chegar a estes pontos teve de haver um levantamento teórico para que existisse uma sustentabilidade lógica nestas propostas que me alvitrei entender de modo substantivo.

A parte inicial deste trabalho passa por fazer uma análise teórica do jornalismo e consequentemente da sua evolução, partindo das diversas teorias que ao longo do tempo novos contributos foram dando à análise do processo informativo.

Assim, aquando do surgimento do jornalismo informativo emergiu o primeiro princípio do jornalismo que resultou da primeira teoria da notícia, a teoria do espelho. Nesta teoria facto era realidade e vice-versa. O jornalista era um actor desinteressado que não impunha elementos pessoais ao longo do processo noticioso. Quer dizer, a sua intervenção era até possível mas severamente sancionada.

A partir desta teoria nasceram outras com o intuito de contrariarem este papel neutro do jornalista, os estudos da agenda-setting e as pesquisas do newsmaking.

Tanto a agenda-setting como as pesquisas do newmaking lançam indirectamente farpas à teoria do espelho dando a entender que aspectos como o papel dos media na selecção e exposição das notícias no caso da agenda-setting, e a existência de uma rotinização no processo de informar no caso do newsmaking são elementos a ter em conta quando se trata de analisar o procedimento informativo.

No seguimento, Breed e a teoria organizacional é trazida à discussão alargando o panorama teórico da produção de notícias através do seu estudo dos constrangimentos presentes dentro de uma organização jornalística e da determinação que inculcam na actividade profissional dos seus trabalhadores.

Num outro plano, surge a concepção da notícia como construção. Associam-se-lhe as abordagens estruturalista e interaccionista. Sublinha-se o carácter de notícia como produto resultante de um processo de construção, suportado na existência de um conjunto de parâmetros que dão à profissão uma referência comum sobre como construir a informação.

Os valores-notícia constituem um aspecto fundamental da cultura profissional do jornalismo. Uma das melhores maneiras de responder à pergunta: “ O que é a notícia?” é perceber o processo de selecção que os media utilizam para determinar o que merece ser noticiado, ou não. A abordagem sobre os critérios de noticiabilidade apoia-se na explanação de Mauro Wolf e Nélson Traquina sobre os valores-notícia utilizados diariamente pelos media.

Na sequência do enquadramento teórico são apresentados os procedimentos metodológicos para alcançar os objectivos propostos.

Seguem-se a recolha, retenção de informação e a análise de dados dos elementos considerados relevantes para preencher a cobertura informativa que os jornais estudados fazem das “outras modalidades”.

A apresentação dos resultados encontra-se dividida em dois momentos. O primeiro é relativo ao que se verifica no tratamento jornalístico do râguebi e posteriormente do triatlo. No segundo é debatido o tratamento e a cobertura jornalística das “outras modalidades” analisando a diferença existente nos três jornais desportivos. Esta dimensão permite replicar de forma operacional os objectivos que orientaram este trabalho.


1.As Teorias da Notícia
A indústria jornalística ganhou real peso na parte final do século XIX, altura em que a circulação dos jornais cresceu incrivelmente e consequentemente se consolidou como um sector de extrema importância na sociedade. Os jornais que até à data eram negócio de pequenos proprietários-comunicadores, muitas vezes de âmbito familiar, ganham outra dimensão a partir da sua transformação em organizações com meios mais amplos, melhor estruturadas, possuidoras de diversos títulos.

Neste contexto surge o jornalismo informativo cujo princípio básico e central é separar os factos das opiniões, sendo que em 1956 um correspondente em Washington da Agência Associated Press explanou perfeitamente tal princípio que passaria a ser o onús da nova tradição jornalística: “O meu trabalho é comunicar factos. As minhas instruções não permitem qualquer tipo de comentários sobre os factos, sejam eles quais forem”I. Aqui, o produto jornalístico teria de ser uma transmissão objectiva do acontecimento em que o jornalista no papel de comunicador neutro e fiel da realidade não poderia emitir qualquer tipo de opinião pessoal. As premissas anteriores pertencem à base da ideologia profissional do meio jornalístico que é defendida até hoje pelos seus representantes em que as notícias são o que a realidade determina. Sendo esta noção pertencente à mais antiga teoria da notícia existente que se denomina por teoria do espelho. O contexto de desenvolvimento desta teoria tentou dissipar e anular quaisquer dúvidas existentes relativamente ao princípio defendido de o jornalista ser um actor sem interesses específicos a defender, informando com indiscutível imparcialidade.

Numa altura crítica da sociedade democrática os media não poderiam ser percepcionados como um objecto político, nem os jornalistas como impulsionadores de certos ideais partidários. Esta perspectiva defende que o jornalista deve observar e transmitir fielmente e coerentemente o sucedido, estando assim em conexão íntima com o real: “ os jornalistas são simples mediadores que «reproduzem» o acontecimento na notícia.”II, sendo que o rompimento com este ditame e a apresentação de um acontecimento de modo ficcionado levaria à sanção de tal atitude. Esta teoria tem a relevância inquestionável de a sua essência legitimar o meio jornalístico e valorizar o ethos dominante assim como os valores, as normas e os procedimentos profissionais que orgulham os seus representantes. Apesar disto é extremamente limitada e postula pouco daquilo que o jornalismo representa e é hoje em dia.

Aliás, logo no início do século XX, estudos e novas ideias ganharam predominância e as noções da notícia como o espelho da realidade e do jornalista passivo e neutro deixavam de ser assim tão lineares. Tudo começou com o surgimento do conceito de objectividade nos anos 20 nos Estados Unidos. Hoje em dia esta noção representa o sublinhar da crença nos factos mas como Traquina conclui através da ideia de Michael Schudson, naquela altura não era bem assim: “o ideal da objectividade não foi a expressão final de uma convicção nos factos mas a afirmação de um método concebido em função de um mundo no qual mesmo os factos não eram merecedores de confiança devido ao surgimento das relações públicas e da tremenda eficácia da propaganda verificada na primeira guerra mundial”.IIINesta altura, a objectividade ou o que se aceitava como seu oposto, a parcialidade, eram os conceitos que grande parte dos cidadãos associava ao papel do jornalismo. Estes representavam conceptualmente os limites comportamentais dos órgãos de comunicação social consagrados na lei, algo que a nível da vida pública representava para os cidadãos uma protecção contra os possíveis abusos de poder. Os jornalistas eram objectivos porque supostamente garantiam o papel de serviço público, doesse a quem doesse, reflectindo nas suas notícias a realidade sem qualquer tipo de distorção. Entretanto tal se desvaneceu, os jornalistas deixaram de ser vistos como simples observadores passivos, ganham agora o estatuto de actores activos na construção da realidade em que a notícia, além de existir devido ao acontecimento, “ela” própria intervêm e têm a capacidade de mudar esse acontecimento através da acção e das respectivas decisões do jornalista.

Além disto, começou-se a ter em conta que a análise do processo de produção da notícia teria de ir além do novo papel do jornalista, já que a notícia é um produto que surge de um processo historicamente condicionado tanto ao nível do contexto social de produção como das relações organizacionais, económicas e culturais existentes, como descreve Walter Gieber(1960:83): “Os repórteres sabem que são empregados de uma burocracia produtora de notícias, e que respondem nas suas comunicações à estrutura social e às pressões da sala de redacção”.IV

Com o propósito de compreender a realidade social do processo jornalístico, destaco e passo a apresentar os estudos da agenda-setting e do newsmaking que são os primeiros a pôr em causa a teoria do espelho, sendo que as pesquisas do newsmaking irão proporcionar o nascimento de teorias de extrema relevância na análise do jornalismo.

A hipótese da agenda-setting veicula a ideia que as pessoas são influenciadas pelas notícias e consequentes temas tratados pelos media, acabando por determinar o seu interesse e a discussão diária ao que é mediatizado pelas meios de comunicação. Deste modo, os media fixam os temas publicamente relevantes e a discutir, sendo que os indivíduos se orientam por tal escolha, aproximando as suas preocupações à proposta dos media. Além disto, as notícias também nos dizem como pensar sobre as tais temáticas sociais em voga. Ou seja, tanto a selecção de objectos temáticos que disputam a atenção como a selecção de enquadramentos para pensar esses objectos são os poderosos papéis do agenda-setting.

As pesquisas de newsmaking têm como objectivo principal a análise do processo de produção das notícias partindo de aspectos como: a rotina, distorção e estereótipos funcionais.

O gatekeeping é o primeiro estudo que coloca em causa a ideia dominante no jornalismo que as notícias são como são porque a realidade assim as determina. O termo gatekeeper “nasceu” num estudo do psicólogo Kurt Lewin sobre as decisões domésticas em relação à compra de alimentos, em que o gatekeeper era a denominação dada ao elemento que durante um processo que acarretava diversas decisões tinha o poder de decisão através da rejeição ou escolha dos elementos em confrontação. O gatekeeping define-se como um processo em que as mensagens à disposição de um jornal passam por vários sectores de decisão (gates) que governados por um jornalista, ou neste caso gatekeeper, decide sobre a escolha ou não dessas mesmas mensagens até à sua possível publicação no jornal. Sobre isto Wilbur Schramm observa: “ Nenhum aspecto da comunicação é tão impressionante como o número de escolhas e rejeição que têm de ser feitas entre a formação do símbolo na mente do comunicador e o aspecto de um símbolo afim na mente do receptor”.V

No célebre estudo de White sobre Gatekeeping, nos anos 50, em que um jornalista de meia-idade dava a conhecer as razões da rejeição das notícias não-usadas, a conclusão foi que o processo de selecção é subjectivo e arbitrário, com as decisões a dependerem imenso de juízos de valor do gatekeeper que são obviamente moldadas pelas suas experiências, atitudes e perspectivas. Assim, esta perspectiva deixa de analisar e explicar a falta de coerência da informação jornalística através da razão exclusiva de existência de pressões externas, e lança na discussão teórica a possibilidade de existência de critérios de selecção baseados em rotinas de produção e na partilha e interiorização de valores sobre a forma de executar a função de informar. No seguimento desta ideia, Wolf adianta que: “As exigências organizativas e estruturais e as características técnico-expressivas próprias de cada meio de comunicação de massa são elementos fundamentais para a determinação da reprodução da realidade social fornecida pelos mass media.”VI Já Gieber concluiu que o elemento essencial no trabalho jornalístico é a estrutura burocrática da organização, premissa que valoriza a necessidade de determinar as forças sociais que gerem a produção noticiosa. Esta ideia enquadra-se perfeitamente na teoria organizacional que defende que o produto jornalístico ganha forma consoante a estrutura da organização e os constrangimentos inerentes.

Breed, referência da teoria organizacional, revolucionou a análise da produção de notícias que até à altura tinha sido feita a partir do jornalista e da sua acção, ou seja, partindo do elemento individual, estendendo a pesquisa para um nível bem mais amplo, a organização jornalística, em que teve sobretudo como referência a relevância dos constrangimentos que a organização no seu todo têm na actividade profissional dos seus elementos. Aquando da inserção de um indivíduo na organização jornalística existe basicamente um processo progressivo de socialização no meio através do uso da punição e da recompensa o que leva a uma conformidade contínua do jornalista em relação às normas da política editorial da organização, deixando de lado qualquer crença pessoal que coloque em risco a sua posição na empresa.

Desta maneira, parte do sucesso de um jornalista deve-se ao conhecimento das normas e valores da organização assim como do entendimento das obrigações do seu estatuto. Estamos perante uma cultura de tipo organizacional em que Breed identificou seis factores que sublinham o aumento da conformidade com a política editorial da organizaçãoVII:



  1. Autoridade institucional e as sanções – Breed defende que os jornalistas receiam as punições relativas ao não-seguimento da cultura organizacional existente. Várias são as punições que podem ser utilizadas: a atribuição de uma tarefa menos agradável, a alteração de uma peça ou colocação dessa peça numa página anterior ou até não-assinatura da peça;

  2. Os sentimentos de obrigação e de estima para com os superiores – Breed defende que com o tempo os jornalistas podem criar desde sentimentos de obrigação com a empresa a sentimentos de admiração e respeito para com os jornalistas mais velhos;

  3. Aspirações de mobilidade – Existe sempre a intenção de os jornalistas alcançarem posições de maior relevo, para tal a sua concordância com a política editorial é necessária para facilitar a sua ascensão.

  4. Ausência de grupos de lealdade em conflito – Breed perspectiva que há paz no local de trabalho dos jornalistas aquando da inexistência de conflitos sindicais na resolução de assuntos internos;

  5. O prazer da actividade – Os jornalistas têm prazer na realização da sua actividade, acham suas tarefas interessantes e assim têm todo o gosto de cooperarem entre si.

  6. As notícias como valor – A notícia é o expoente máximo da sua actividade diária, o objectivo do jornalista é encontrar um máximo de notícias sem desagradar a política editorial da empresa. A falta de divergências entre os diferentes membros da redacção advém de objectivos comuns relativamente às notícias a divulgar.

Apesar disto, Breed admite que a tentativa de considerar uma concepção demasiado determinista da organização e do funcionamento dos media é contra a natureza do trabalho executado neste sector e a autonomia necessária para os seus profissionais. Inclusive, uma possível obrigação no seguimento de uma determinada política por parte dos media seria um claro revés na dita independência jornalística que terá sempre que existir. Aliás, Breed dá a conhecer determinados factores que permitem ao jornalista contornar o controlo dos media como: a autonomia do jornalista na escolha da sua ronda, apresentação num media concorrente de uma notícia rejeitada na empresa a que pertence, entre outros que servem para defender a possibilidade de escape existente do jornalista relativamente ao controlo da empresa.

Ou seja, Breed advoga que a parte editorial de uma empresa jornalística não gera divergências sobretudo porque as dinâmicas socioculturais existentes internamente acabam por instituir uma conformidade nos seus jornalistas. Estes elementos acabam por redefinir os seus valores para o modo mais similar possível com a redacção onde trabalham, tentando inclusive antecipar as expectativas dos seus superiores para que o seu trabalho seja sempre reconhecido positivamente.

O contributo final da teoria organizacional é a importância dada à disposição de meios existentes em que o jornalismo começa a ser entendido como um negócio cujas receitas provêm essencialmente das vendas e ganhos publicitários, e a notícia, um produto orientado para a satisfação do desejo do “público-cliente”, que deve ser recente, e se possível uma novidade que bata a concorrência.

Nos anos 70 emerge novo paradigma: a noção de notícia como construção. O plano cultural das notícias ganha aqui a relevância que o sociólogo Michael Schudson enfatiza através da caracterização da acção dos jornalistas no seu meio: “ Pessoas que operam, inconscientemente, num sistema cultural, um depósito de significados culturais armazenados e de padrões de discursos.”VIII O mesmo autor adianta ainda que as notícias englobam em si as noções culturais relativas ao relevante, sobre que é importante no contexto em questão e os prismas societais que devem ser tidos em consideração. Ou seja, este paradigma defende a impossibilidade de distinguir radicalmente a realidade e os media, já que os próprios media passam a ser participantes na construção da realidade e a própria linguagem não consegue funcionar como transmissora directa de significado.

A abordagem etnometodológica proveniente deste paradigma permitiu uma análise teoricamente mais informada sobre as práticas de produção de notícias e as ideologias implícitas em que a dimensão mecanicista do trabalho do jornalista emerge finalmente como importante. Esta dimensão poderia satisfazer a ideia de distorção intencional das notícias, tantas vezes sugerida por críticos do jornalismo e teóricos defensores da teoria de acção políticaIX, mas não o faz, sublinha sobretudo a essência rotineira do trabalho dos media que é assumida como uma estratégia organizacional valiosa.

No quadro do paradigma das notícias como construção social advém duas teorias, a estruturalista e a interaccionista, que apesar de divergirem em certos pontos, são sobretudo complementares e será esta complementaridade que irei aproveitar no desenrolar do meu trabalho (apesar da preferência dada à teoria estruturalista) na análise que farei das notícias pré-seleccionadas.

Voltando ao essencial, a teoria interaccionista defende que as notícias provêm de um processo de produção que modifica determinada matéria-prima (acontecimentos) num produto bastante específico e singular (notícias). Na evolução deste trabalho e consequente avaliação de inúmeros acontecimentos acabam por ficar “retidos” aqueles eventos cujos valores são interessantes o suficiente para se tornarem noticiáveis dentro do tempo existente e da cultura dos profissionais da informação. Aqui, o trabalho jornalístico é crucial que seja autónomo pois os jornalistas necessitam da autoridade e legitimidade de seleccionar que acontecimentos e temáticas são noticiáveis ou não. Ou seja, esta teoria sugere que os media determinam os critérios e factores que darão noticiabilidade aos acontecimentos.X

Esta teorização caracteriza os acontecimentos como um imenso universo de matéria-prima jornalística. Atendendo a que estes podem surgir de qualquer parte e a qualquer momento, tal sugere a necessidade de as empresas imporem a si mesmas ordem no espaço e no tempo. No seguimento desta ideia Gaye Tuchman, referência desta abordagem, concebem uma espécie de rede noticiosa utilizada pelos media para “deter” os acontecimentos através do uso conjugado de três estratégias colocando uma dita ordem no espaço: territorialidade geográfica – dividem o mundo em regiões de responsabilidade territorial; especialização organizacional – tornam determinadas organizações como prioritárias tendo em conta os valores-notícia que produzem acontecimentos julgados com noticiabilidade e finalmente a especialização temática – auto divisão por secções com inúmeras chancelas que preenchem o jornal.XI

Além disto, Gaye Tuchman conjuga a esta ordem no espaço, uma estrutura feita sobre o tempo que permite a execução do trabalho diário, em que a empresa jornalística emana um biorritmo próprio no qual os acontecimentos com valor notícia se espera que aconteçam em determinadas instituições e nas horas normais do trabalho. Inclusivamente é feito um agendamento e planeamento de possíveis acontecimentos que permitam a organização do trabalho com uma certa antecedência. Finalmente, neste contexto é ainda dado um largo ênfase aos acontecimentos, e não, em problemáticas devido à importância do imediatismo no jornalismo actual. Assim fica formada a rede noticiosa, teoria de Gaye Tuchman, que encara o processo de produção das notícias como um processo interactivo em que vários agentes sociais possuem um papel activo num decurso negocial constante.

A forma desta rede noticiosa e o modo como os jornalistas nela estão posicionados marca de forma vincada o modo como a empresa jornalística lida com a noticiabilidade, pois a extensão da rede noticiosa origina a concentração dos recursos da empresa jornalística num número relativamente pequeno de agentes cuja posição em certas organizações particulares valorizam ao máximo a informação que recebem. Esta rede de fontes é destacada por Mauro Wolf como instrumento fundamental para o seu funcionamento, já que, por um lado, transpira a estrutura social e poder existente, e por outro garante as exigências produtivas. Para compreender a lógica de uma rede noticiosa é necessário compreender a seriedade existente na relação entre jornalistas e fontes, o investimento feito no cultivo das respectivas fontes e finalmente os critérios avaliativos utilizados pelos jornalistas na interacção com os vários agentes sociais.

A teoria estruturalista propõe uma explicação das notícias centrada na premissa que elas são um produto construído socialmente reproduzindo a ideologia dominante, apesar de não excluir a autonomia (reduzida) dos jornalistas em relação a um controlo económico directo. Nesta teoria, as rotinas produtivas dos media resultam do controlo existente da classe dominante que dão constantemente uma primeira definição aos diversos acontecimentos o que acaba por influenciar de forma irrefutável o sentido dado aos acontecimentos. Isto acaba por sustentar ao longo do tempo uma sociedade consensual envolta das ideias hegemónicas e dominantes. Esta hegemonia resulta também da pressão imposta a qualquer jornalista de desempenhar bem o seu trabalho ou seja da necessidade de “objectividade” e imparcialidade, aspectos centrais nesta profissão, que resultam da tal opção rotineira de aceder às figuras mais privilegiadas da sociedade. Assim, tempo e rotina interligam-se num mesmo objectivo e postulam a mesma consequência.

Além disto, esta perspectiva é suportada pela existência de uma estrutura de valores de notícia que dá à profissão o conhecimento “indubitável” do que é uma boa notícia, algo que curiosamente surge da sua posição subordinada na sua própria produção jornalística e é este aspecto que marca de maneira particular o papel ideológico dos media na sociedade. E o que são estes valores de notícia? São elementos que: “fornecem critérios nas práticas de rotina do jornalismo que permitem aos jornalistas, directores e agentes noticiosos decidir rotineira e regularmente sobre quais as que são ou não “noticiáveis”, quais as que são para publicar e quais as que são para eliminar”XII.

A notícia deve ser reconhecida e contextualizada pelo público, por isso, os jornalistas têm de saber o que singulariza a cultura da sociedade e o que ela deseja de forma a que suas notícias sejam um reforço dos valores e significados comuns existentes, valores-notícia como o fora do normal, o negativo e as pessoas de elite vão ao encontro dos desejos sociais. Sobre isto, Stuart Hall refere que o papel dos media na referida uniformização de valores e conhecimentos culturais é bem abrangente, os seus mapas de significados utilizados diariamente nas suas notícias incorporam e reflectem os valores comuns que formam a base dos tais conhecimentos culturais mobilizados num processo cujo objectivo é tornar inteligível o acontecimento: “ Os media definem para a maioria da população quais os acontecimentos significativos que ocorrem, mas também oferecem poderosas interpretações de como compreender esses acontecimentos.”XIII

Para Stuart Hall e os seus colegas, estas definições e interpretações delineadas pelos media são estabelecidas primariamente pelos definidores institucionais primários que exercem sua primazia no exercício do poder. Este é o ponto-chave da teoria estruturalista que subsiste como indiscutível. No entanto, o autor Stuart Hall dá a conhecer determinadas possíveis contrariedades que, apesar de terem uma saliência mínima, acho interessante revelar pois não fogem da realidade existente no presente:



  1. Os media são institucionalmente distintos das outras agências do estado;

  2. Os media possuem os seus próprios motivos e lógicas que podem levar a entrar em conflito com os “primary definers”;

  3. As instituições que compõem as estruturas do poder podem estar frequentemente em disputas.XIV

Estes factores por muito pouco salientes que sejam podem dar a entender que até nesta teoria a posição do poder vigente pode ser colocado em causa ou contrariado na escolha dos acontecimentos a revelar e possivelmente da interpretação que daí surge.


2. O Conceito de Notícia
Quando falamos em teorias do jornalismo, falamos em teorias da notícia. A notícia é o objectivo pretendido no processo jornalístico de produção de informação. Como em qualquer outra teoria científica, na teoria do jornalismo existe um fenómeno a explicar e a prever e ele é a notícia, aliás, como nas teorias já referenciadas, o conceito de notícia é o elemento-chave das diferentes interpretações teóricas da produção jornalística. Há cerca de quinhentos anos atrás, as notícias apareceram e postulavam a capacidade de conectar comunitariamente os sujeitos, pondo-os a comunicar entre eles e usando consequentemente a informação imanente em decisões e juízos a fazer, vestindo o fato de cidadãos informados.

Mas o que são as notícias? Em qualquer momento da história, as notícias devem ser definidas a partir do que os jornalistas expõem dentro do tempo disponível como relevante e interessante, daquilo que os media escolhem, narram e empacotam em formatos informativos e finalmente do que as pessoas consomem. Além disto, as notícias são autênticos artefactos linguísticos porque resultam de uma construção baseada na linguagem, seja ela verbal ou de natureza imagética, ocupando-se das aparências dos acontecimentos que ocorrem na realidade social, não espelhando a realidade porque as limitações dos seres humanos e as insuficiências da linguagem o impedem ou seja citando Jorge Pedro Sousa:”…a notícia contenta-se em representar parcelas de realidade, independentemente da vontade do jornalista, da sua intenção de verdade e de factualidade”XV.

O duplo processo de identificação e contextualização é fundamental para os media tornarem um acontecimento significativo. Isto sugere que um acontecimento somente faz sentido se se conseguir colocá-lo num campo de conhecidas identificações sociais e culturais. Tal imputa a necessidade rotineira de os jornalistas disporem de mapas culturais do mundo social que darão clareza perceptiva aos acontecimentos invulgares, inesperados e imprevisíveis que constituem os ditames básicos da noticiabilidade. Esta identificação social, classificação e contextualização dos acontecimentos noticiosos partindo de quadros de referência de fundo são aspectos fundamentais para os media tornarem o mundo uma referência inteligível. Tudo isto deriva de práticas jornalísticas próprias que resultam de pressupostos sobre o que é a sociedade e como ela funciona ou melhor dizendo de «mapas de significados» que agregam e reflectem interesses, valores e preocupações fundamentais comuns a todos os sujeitos na sociedade já que como diz Nelson Traquina: “Todos nós queremos manter basicamente a mesma perspectiva acerca dos acontecimentos. Neste ponto de vista, o que nos une, como uma sociedade e cultura – o seu lado consensual – ultrapassa em muito o que nos divide e distingue como grupos ou classe de grupos.”XVI

E mais, as notícias são apresentadas ao público através da conjugação deste processo que espelha o contexto social e cultural com determinadas correlações nas organizações profissionais que são usadas para escolher determinada informação como postulando maior valor noticioso que outra, algo que, como diz Lynette Burns: “…está estruturado à volta do interesse público e da idealização dos media relativa a dar aos cidadãos a informação necessária para participarem na sociedade. As escolhas não são objectivas mas são resultado do balanço entre valores comerciais, éticos e competição profissional”.XVII

A premissa anterior lança a discussão sobre a forma utilizada pelas empresas jornalísticas na selecção dos acontecimentos a noticiar, daqui emerge o tal conceito de noticiabilidade já referido que Mauro Wolf define como: “ O conjunto de elementos através dos quais o órgão informativo controla e gere a quantidade e o tipo de acontecimentos de entre os quais há que seleccionar as notícias, podemos definir os valores/notícia(news values) como uma componente da noticiabilidade”.XVIII

Os valores-notícia que Wolf referencia são então os elementos essenciais e definidores do que é interessante e relevante em vários acontecimentos ao ponto de os poder transformar em notícias. De forma constante, tais valores mobilizam-se em conjunto combinando-se ao ponto de fazer submergir a selecção de um certo facto e consequente mediatização. E não é só na selecção que os valores-notícia deixam sua marca, estão deveras espalhados por todo o processo de produção já que: “ funcionam como linhas-guia para a apresentação do material, sugerindo o que deve ser realçado, o que deve ser omitido, o que deve ser prioritário na preparação das notícias a apresentar ao público. Os valores-notícia são, portanto, regras práticas que abrangem um corpus de conhecimento profissionais, que, implicitamente, e, muitas vezes, explicitamente, explicam e guiam os procedimentos operativos redactoriais.”XIX

Deste modo, existe um clara «distorção involuntária» que percorre as diversas fases do trabalho jornalístico pois está intimamente ligada à rotinização da produção onde os valores-notícia servem para tornar este trabalho possível, e a uma definição da tomada de decisão que torna possível o cumprimento de prazos estabelecidos. Estes valores servem para modelizar o processo jornalístico de modo a atingir os fins práticos através de uma programação composta por procedimentos bem específicos que gera uma selecção do material feita de modo quase inconsciente.

Relativamente à evolução dos valores-notícia, desde o século XVII em que os jornais apareceram na Inglaterra tem existido uma mutabilidade relacionada com mudanças sociais. Mas questões como o insólito, a polémica, os conflitos políticos e a guerra são alguns dos exemplos dos temas que ao longo de séculos ocuparam e continuam a ocupar as páginas dos jornais. Stephens escreve sobre esta particularidade dizendo: “É surpreendente que a essência das notícias pareça ter mudado tão pouco? A que outros assuntos se poderiam as notícias ter dedicado? Podemos imaginar um sistema de notícias que desdenhasse o insólito em favor do típico, que ignorasse o proeminente, que dedicasse tanta atenção ao datado como ao actual, ao legal como ao ilegal, à paz como à guerra, ao bem-estar como à calamidade e à morte”.XX



Resumindo, os valores-notícia assumem determinadas características que tornam mais clara a sua operacionalidade, mas também, o seu significado no conjunto de actividades na produção de informaçãoXXI:

  1. Funcionam não isoladamente mas de forma complementar e conjunta. As diferentes relações e combinações estabelecidas entre si resultam de uma forma negociada, específica a cada caso, dos critérios de relevância dos diferentes acontecimentos. Fernando Correia expressa bem esta característica: “Quanto mais um acontecimento exiba essas qualidades, maiores são as suas possibilidades de ser incluído.”XXII

  2. Aplicam-se em todas as fases do processo de produção informativa incluindo a preparação, redacção e apresentação dos materiais e não só durante as fases de recolha e selecção.

  3. Estão presentes na cultura profissional dos jornalistas, constituindo um quadro de avaliação racionalizado e interiorizado pelos jornalistas que utilizam tais critérios quase inconscientemente com maior ou menor flexibilidade.

  4. A sua utilização visa garantir uma ordem mínima e permitir a operacionalidade necessária no tratamento da imensa informação que a redacção tem acesso.

  5. Evoluem no tempo, não são factores imutáveis de tal maneira que devido a razões externas aquilo que é noticiável hoje, pode não o ser amanhã apesar de existirem alguns critérios que garantem a certeza do interesse social.


3. Critérios Noticiosos
Passo agora a expor uma abordagem dos critérios noticiosos utilizados pelos meios de comunicação apoiada nas formulações de Nélson Traquina e Mauro Wolf. Para Mauro Wolf, os valores-notícia resultam de noções ou considerações relativas: ao conteúdo das notícias, isto provém da análise do acontecimento que se deve tornar notícia, à disponibilidade do material e aos critérios relativos ao produto informativo; ao público; à concorrência. Sobre o conteúdo das notícias, o que está em discussão são os critérios substantivos do acontecimento que estão conectados a dois factores: a importância e o interesse da notícia. A determinação destes factores provém das seguintes premissasXXIII:

  1. Grau e nível hierárquico dos indivíduos envolvidos no acontecimento noticiável. Galtung e Ruge justificam estes dois princípios interligados (grau e nível hierárquico) da seguinte forma: “ que as notícias sejam centradas na elite, em termos de nações ou termos de pessoas, não é muito estranho. As acções de elite são, pelo menos geralmente e na perspectiva a curto prazo, mais importantes do que as actividades dos outros: isto aplica-se tanto às nações de elite como às pessoas de elite.”XXIV

  2. Impacto sobre a nação e o interesse nacional. A relevância de um acontecimento é medida pela sua capacidade de ir ao encontro dos interesses da nação. A noção de proximidade é crucial pois os habitantes de um certo país preferem obviamente tomar conhecimento dos acontecimentos que se passam internamente do que os existentes em países distintos;

  3. Quantidade de pessoas envolvidas num acontecimento, ou seja, quanto mais pessoas estiverem envolvidas num acontecimento e mais notórias elas forem, maior a visibilidade desse acontecimento;

  4. Relevância do acontecimento em termos da evolução futura da situação. A importância de uma notícia pode ser demarcada de um modo distinto dependendo da informação obtida pela concorrência, do produto em questão e das características técnicas do material a utilizar.

Relativamente aos critérios do produto, os aspectos vinculados são a disponibilidade dos materiais e as características específicos do produto. Na disponibilidade dos materiais está em causa o enquadramento do acontecimento no formato produtivo da empresa sem a necessidade de gastos exagerados. Em termos dos critérios inerentes ao produto, o ideal é a concordância entre a produção, possibilidades técnicas, organizativas e financeiras de um meio de comunicação. Assim, neste âmbito, inclui-se o critério de brevidade que postula a máxima objectividade, clareza e temporalidade mínima na exposição de uma notícia. Além disto, a ideologia dos meios de comunicação comprova que o negativo e o fora do habitual são os géneros de produto mais procurado e ansiado pelos jornalistas. Finalmente, outro valor-notícia relativo ao produto é a actualidade que se baseia na necessidade de as notícias representarem acontecimentos o mais “frescos” possíveis já que o contrário leva ao desinteresse e consequente falta de reconhecimento público.

Quanto aos critérios relativos ao meio de comunicação, estes critérios estão ligados à escolha de notícias consumada dentro de uma redacção, sendo eles: bom material visual ou seja a noticiabilidade de um acontecimento encontra-se relacionada com a possibilidade efectiva de os jornalistas disporem de imagens que relevem de forma clara, o acontecido; frequência, critério definido por Galtung e Ruge como:” a frequência de um acontecimento refere-se ao lapso de tempo necessário para que esse acontecimento tome forma e adquira significado…quanto mais a frequência do acontecimento se assemelhar à frequência do meio de informação, mais provável será a sua selecção como notícia por esse meio de informação”XXV . Formato que é um critério arrolado aos limites do produto informativo tanto a nível de tempo como espaço. Consiste numa espécie de pré-selecção, sendo utilizado antes de qualquer acontecimento ser avaliado nos restantes valores-notícia.

Finalmente, temos os critérios relativos à concorrência que, na concepção de Gans convergem a partir de três diferentes tendências que geram distintos valores-notícia. A primeira tendência foca-se na ideia de os meios de comunicação tentarem apresentar exclusivos, autênticas novidades que a concorrência não conseguiu garantir, sendo que esta predisposição existe desde o acontecimento mais complexo ao mais básico. Algo que origina a centralização da informação em personalidades de elite e consequente fragmentação e distorção da informação. A segunda tendência leva a que os media seleccionem determinada notícia por saberem a priori que a concorrência fará o mesmo.

A terceira tendência está intimamente relacionada com as anteriores já que defende que “expectativas recíprocas transformam-se num laço comum: desencorajam as inovações na selecção das notícias, que poderiam suscitar objecções por parte dos níveis hierárquicos superiores, o que, por sua vez, contribui para a semelhança das coberturas informativas entre noticiários ou jornais concorrentes”.XXVI

Já a óptica de Nélson Traquina baseia-se em vários contributos de Galtung e Ruge, aproveitando a forma como eles responderam à questão de como os acontecimentos se tornam notícia, em que expuseram diversos valores-notícia como a continuidade e a significância, entre outros. A partir de Baranek, Chan e Ericson formulou a distinção de dois tipos de valores-notícia: de selecção e de construção. Tal distinção baseia-se na perspectiva de Mauro Wolf atinente à sua ideia que os valores estão presentes em todo o desenvolvimento do decurso da criação jornalística, tanto na triagem como na elaboração das notícias. Deste modo, nasce a perspectiva dos valores-notícia de selecção dos acontecimentos divididos em dois subgrupos: critérios substantivos que estão inventariados na relevância da notícia partindo de uma avaliação concreta dos acontecimentos e os critérios contextuais que advém do contexto de produção da notícia. Além disto, a vertente da elaboração da notícia é tida em conta na base de os valores-notícia de construção representarem as características imanentes da construção da notícia resultando em omissões ou realce de elementos dados como prioritários.

Passarei agora a expor os vários critérios substantivos propostos por Nélson Traquina: XXVII a morte, valor-notícia fundamental que explica a face negra que algum jornalismo aprecia tanto apresentar (se a morte for de alguém reconhecido popularmente no cinema ou na política, mais relevância a noticia terá); a notoriedade do agente principal no acontecimento, ou seja, o nome e a posição do sujeito são deveras relevantes como condição de noticiabilidade; a proximidade do acontecimento (em termos geográficos como culturais); a relevância, valor-notícia relacionado com a deliberação dos media sobre o impacto de um determinado acontecimento na vida das pessoas e igualmente na importância que tal terá no desenvolver do seu dia-a-dia; a novidade que tanto pode ser algo de realmente novo e nunca noticiado ou algo “fresco” sobre um determinado assunto tratado no passado; o factor tempo, que pode adoptar diferentes modalidades – como actualidade em que a existência de um determinada ocorrência pode servir para enaltecer outro acontecimento conectado pela proximidade do assunto, ou como efeméride, em que é utilizado para apoiar a noticiabilidade evocativa de um dado assunto (por exemplo, depois do massacre de Santa Cruz todos os assuntos ligados a Timor ganharam valor próprio); a notabilidade, que diz respeito à capacidade “de ser visível” ou “tangível” ou seja um acontecimento necessita de ter imanente um aspecto notório. Dentro deste critério existem diversos registos que dão a um determinado acontecimento, uma superior ou inferior notabilidade relativamente a outros. São eles: a quantidade de pessoas envolvidas, a inversão, ou seja, o contrário do normal; o insólito; a falha, uma insuficiência normal e regular; um excesso ou escassez. Outro valor-notícia é o inesperado, ou seja, uma coisa que surpreende todos os media como a morte da Princesa Diana; finalmente temos o conflito ou a controvérsia, este valor-notícia apreende a existência de violência física ou simbólica ou então de uma determinada violação/infracção das regras da sociedade.


Passando agora a apresentar os critérios contextuais, relembrando que, são aqueles que estão ligados ao contexto do processo de produção das notícias, temos a disponibilidade, relacionado com a comodidade existente na cobertura de um acontecimento; o equilíbrio, aqui a noticiabilidade de um evento é definida pelo número de vezes que um evento foi noticiado ou não por determinado media e o tempo que passou entretanto; a visualidade que está ligado à existência ou não de elementos visuais; concorrência que resulta na procura constante de uma notícia que a concorrência não disponha; o dia noticioso, aqui a “guerra” é entre acontecimentos, em que a ocorrência de determinado evento tirará importância a outro (ex: por mais interessante acontecimento que tenha havido no 11 de Setembro, dia dos atentados…tudo perdeu importância a partir do momento dos ataques).

Finalmente temos os outros valores-notícia relativos à construção da notícia. São critérios que levam à escolha de elementos que terão a utilidade desejada para serem contidos na estruturação da notícia. Tendo em conta, os contributos de Ericson,Baranek,Chan, Galtung e Ruge passo a enunciar os valores-notícia de construção: simplificação, que se baseia no fácil entendimento e percepção de um acontecimento que tornará mais acessível a notícia de ser notada e compreendida; amplificação, a lógica aqui advém de que quanto maior for o engrandecimento de um acontecimento mais possibilidades a notícia do mesmo terá de ser notada seja através do próprio acto, suas consequências ou do interveniente; a relevância, preceito que está relacionado com o sentido dado à notícia, os jornalistas devem comprovar francamente na notícia o autêntico significado do acontecimento; personalização, critério ligado à identificação de um acontecimento através de um determinado indivíduo, algo que facilita a identificação do leitor à negatividade ou positividade do mesmo pois no fundo é uma das melhores formas de captar o interesse das pessoas, “ligando-as” afectivamente a outras como Galtung e Ruge defendem: “A personificação é uma consequência da necessidade de significado e consequentemente de identificação; as pessoas podem servir mais facilmente como objecto de identificação positiva e negativa através de uma combinação de projecção e simpatia”XXVIII; a dramatização, neste ponto existe uma enfatização do lado emocional e da essência sensacionalista do acontecimento; finalmente a consonância, quanto mais a notícia associa um determinado facto a uma certa temática já desenvolvida anteriormente mais possibilidades a notícia tem de ser considerada – a notícia tem de estar sempre ligada a um teor conhecido que o receptor não tem dificuldade em perceber.

A partir destes dois modelos sintetizei uma estrutura de valores-notícia que conseguisse abranger da melhor forma possível a produção informativa:
Tabela 1– Critérios Noticiosos e Valores-Notícia


Critérios Substantivos

Critérios Contextuais

Critérios de Construção

Morte

Disponibilidade

Simplificação

Proximidade

Equilíbrio

Amplificação

Relevância do acontecimento

Visualidade


Relevância no Jornal



Novidade

Dia noticioso

Personalização

Factor Tempo

Concorrência (dias tratados)

Dramatização

Notoriedade




Consonância

Inesperado







Conflito/Controvérsia










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