Aspectos gerais da encenaçÃO, ou “a elegância do seu edgar” Original de Sávio Araújo recriado por Júnio Santos Não se pode falar em uma forma única de se fazer teatro, isto é, n



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APRESENTAÇÃO

O nosso objetivo maior é oferecer, principalmente aqueles que fazem teatro de rua no Nordeste do Brasil, pensamentos, conceitos, sonetos, poesias, manifestos, teses e estudos sobre o fazer teatral, contemplando dados relativos a sua histórias, mostrando experiência significativas de vários fazedores e pensadores do teatro, para que o mesmo venha preencher a falta de informação que permeia nossos artistas, quer seja pelo difícil acesso a livros e escritos já publicados, ou até pela falta de iniciativa e hábito da leitura e consequentemente do estudo sobre a matéria em questão.

Com esse intuito colocamos nessa apostila de estudo, vários, conhecidos e não conhecidos, pensadores do teatro, não defendendo esta ou aquela proposta e/ou forma, buscando apenas facilitar um material de estudo vivo, que deve ser lido, estudado, analisado, modificado e sobretudo discutido em conjunto, acrescentado e/ou suprimido, não devendo nunca, em hipóteses alguma, ficar morto dentro de uma gaveta, guardada como uma relíquia.

Essa é uma proposta diferente e só escambaremos com aqueles que tenham essas mesmas propostas, que se comprometam em manter uma correspondência constante e atualizada e que assumam a participação em um Seminário onde todos os que lerem e discutirem apresentarão suas forma de compreensão, seus estudos e consequentemente seus novos escritos.

Assim curtam com alma de artistas / ávidos pelo saber e não como muitos outros que pisam numa rua ou num palco, que vestem roupas, usam pinturas, vivem na mídia ou no esquecimento e não conhecem nenhum pouco as suas ferramentas de trabalho.
Júnio Santos


INTRODUÇÃO

Não se pode falar em uma forma única de se fazer teatro, isto é, não existe técnica certa ou errada, tudo depende das necessidades que a encenação requer para que se cumpra o objetivo central de uma montagem teatral: O DESEJO DE COMUNICAR ALGO A UMA PLATÉIA. Mas se o grupo deseja ter sucesso nessa comunicação com a platéia precisa pensar em todas as partes que formam o espetáculo para que o objetivo seja alcançado. Vamos pra isso fazer a coisa mais interessante e corriqueira para aqueles que querem se comunicar via o teatro, vamos imaginar uma cena, uma situação criada pelo ator e diretor de teatro potiguar, Sávio Domingos.


“A ELEGÂNCIA DO SEU EDGAR”

Edgar! Você precisa estar elegante para causar uma boa impressão no seu primeiro dia de trabalho. – diz com carinho Dona Gumercinda ao seu marido Edgar.



Não se preocupe, Gumercinda! Já estou quase pronto e aposto que nem você vai me reconhecer. – Respondeu animadamente seu Edgar que estava se arrumando no quarto há mais de uma hora. De repente, ele surge desfilando no meio da sala e pergunta:

Que tal? Estou bonito?

A mulher examina o marido de cima a baixo e, num frouxo de riso cai na gargalhada.

Edgar, você está parecendo um calouro de Sílvio Santos!

De fato, o coitado do seu Edgar, com toda sua boa intenção de parecer chique, estava mais parecido com Judas em Sábado de Aleluia. Usava um terno quadriculado, uma gravata preta com bolinhas cor de abóbora e uma calça verde – limão que não combinava nem um pouco com o tênis vermelho que ganhou de sua irmã no último Natal.

Mas Gumercinda eu estou usando o que tenho de melhor. Meu terno de casimira inglesa, minha calça de linha, a gravata de seda pura que a Tia Clotildexhhhhhhhhhhhhhh trouxe da Europa e o tênis? Você sabe quanto custa um tênis desse? É importado do Japão!

Enquanto seu Edgar tentava argumentar, Dona Gumercinda ria tanto que teve dor de barriga.

Quer saber de uma coisa, Gumercinda, você não entende nada de Moda!

E saiu batendo a porta com força. Na rua, por onde passava todo mundo reparava, mas por uma questão de respeito, só diziam:

...Bom dia, Seu Edgar! Que visual, hein!

Sem reparar na ironia dos vizinhos, seu Edgar seguia, exibindo orgulhosamente o melhor de sua elegância. “
COMENTÁRIO
Esta situação nos leva a pensar numa série de questões. Seu Edgar estava realmente elegante? Ou será que ele só queria um jeito de chamar atenção? Podemos dizer que esta história de elegância é uma questão de ponto de vista, que ele estava se sentindo bem e que a opinião dos outros era o que menos importava? Mas quando ele se propôs a sair elegante, ele não tinha um objetivo? Era o seu primeiro dia de trabalho e ele queria causar boa impressão a firma. Que tipo de impressão ele causou indo trabalhar vestido daquele jeito? Qual a reação dele com o riso irônico dos que o viam daquela forma vestido. Todas essas perguntas, só o seu Edgar poderá responder. O que posso lhes dizer é que é muito comum ver pessoas bem intencionadas querendo fazer algo, mas que, por falta de clareza em relação aos objetivos de sua proposta, o resultado pode se tornar parecido com a“ELEGÂNCIA DE SEU EDGAR”. E por falar em elegância, sabem o que aconteceu com o seu Edgar no seu primeiro dia de trabalho? Não? Eu Também não! Agora é hora de usarmos a imaginação, e cada um demonstra em uma cena como era a elegância de seu, ou melhor, do seu EDGAR.

O QUE É TEATRO
“Em seus primeiros registros nas línguas modernas, a palavra teatro refere-se ao local onde se realizavam os espetáculos teatrais na Grécia e na Roma antiga. No sentido tratado no verbete, o vocabulário é do século XVII. O termo evoluiu do latim theãtrum, empréstimo ao grego théatron, teatro, lugar para jogos público, reunião de espectadores ou ouvintes, espetáculos do verbo grego Theasthai, vem, contemplar, olhar.”

Importa nesse momento para nós, porque as pessoas escolhem fazer teatro? O que o teatro pode lhes oferecer que nenhuma outra forma de expressão artística pode? O poeta e dramaturgo espanhol GARCIA LORCA, “em 31 de janeiro de 1935, quando vários atores de teatro de Madrid solicitaram de Margarida Xirgu, a criadora genial de Yerma, que num espetáculo extraordinário interpretasse especialmente para eles o poema dramático de Lorca. Nessa oportunidade Lorca proferiu as seguintes palavras.



Queridos amigos: Fiz há tempos, a promessa firme de recusar toda espécie de homenagem; festas ou banquetes que se fizessem à minha modesta pessoa; em primeiro lugar, por entender que cada uma dessas cerimônias eqüivale à colocação de uma pedra sobre o nosso túmulo literário, e, em segundo lugar, porque notei que não há coisa mais desoladora que o discurso frio pronunciado em nossa honra, nem momento mais triste que o do aplauso, organizado, ainda que inteiramente de boa fé.

Além disso – e isto é segredo – creio que banquetes e pergaminhos trazem mau agouro para o homem que os recebe; mau agouro proveniente da atitude descansada dos amigos que, ao homenageá-lo pensam: “como já estamos quites”.

Um banquete é uma reunião de profissionais que comem junto de nós e onde se encontram, as pessoas que na vida menos gostam de nós.

Para os poetas e dramaturgos, eu organizaria, em vez de homenagens, torneios e desafios nos quais fôssemos garlhada e injuntivamente emprazados: “Aposto que não é capaz de fazer isto!” , “Aposto que não é capaz de exprimir numa personagem a angústia do mar!” “Aposto que não se atreves a contar o desespero dos soldados inimigos da guerra!” Exigência e luta com um fundo de amor severo, temperam a alma do artista, que se efemina e diminui com as soluções fáceis. Os teatro estão cheios de enganadoras sereias coroadas de rosas de estufa, e o público sente-se satisfeito e aplaude quando vê corações de serradura e escuta diálogos à flor dos dentes. Mas o poeta dramático não deve esconder esquecer, se quiser salvar-se do esquecimento, os campos de rosas molhadas pelo amanhecer, em que lavradores sofrem, e essa pomba ferida por um misterioso caçador, que agoniza entre os juncos sem que ninguém ouça os seus gemidos.

Fugindo das sereias, das solicitações e das vozes falsas, não aceitei qualquer homenagem por ocasião da estréia de Yerma; mas experimentei a maior alegria da minha vida breve de autor quando soube que a família teatral madrilena pediu à grande Margarida Xirgu, atriz de imaculada história artística, luzeiro do teatro espanhol e criadora admirável do papel, juntamente com a companhia que tão brilhantemente a secunda, uma representação especial para a ver.

Pelo o que isto significa de curiosidade e atenção para com esforço notável de teatro, quero apresentar, agora que estamos reunidos, os melhores e mais sinceros agradecimentos a todos. Esta noite não falo como autor nem como poeta, nem sequer como simples estudante do panorama riquíssimo da vida do homem; falo como ardente apaixonado de um teatro de ação social. O teatro é um dos mais expressivos e úteis instrumentos para a edificação de um país; é o barômetro que assinala a sua grandeza ou a sua decadência. Um teatro sensível e bem orientado em todos os setores, da tragédia ao vaudeville, pode em poucos anos modificar a sensibilidade do povo; e um teatro desordenado, em que as patas substituem as asas, pode abastardar e adormecer uma nação inteira.

O teatro é uma escola de lágrimas e de riso, uma livre tribuna onde os homens podem por em evidência velhos equívocos princípios de moral e explicar, com exemplos vivos, normas eternas do coração e do sentimento do homem.

Um povo que não ajuda e não fomenta o seu teatro, se não está morto, está moribundo; do mesmo modo que o teatro que não atende à pulsação histórica, ao drama do seu povo e a genuína cor da sua paisagem e do se espírito, através do riso ou da lágrima, não tem o direito de se chamar teatro, mas antes sala de jogo ou sítio para fazer essa coisa medonha que se chama “matar o tempo”. Não me refiro a ninguém em particular nem quero ferir ninguém; não falo da realidade viva, mas do problema posto em tese.

Todos os dias ouço falar da crise do teatro, e penso sempre que o mal não está diante dos nossos olhos, e sim no mais obscuro da sua essência, não é um mal de flor atual, mas de raiz profunda, ou seja, o mal não está nas obras mas sim na própria organização. Enquanto os atores e autores estiverem nas mãos de empresas absolutamente comerciais, entregues a si próprias, e sem qualquer fiscalização literária ou estatal de nenhuma espécie, empresas carecentes de todo o critério e sem garantia de nenhuma classe, os atores, os autores e todo o teatro cada dia mais afundarão, sem salvação possível.

O delicioso teatro ligeiro de revista, o vaudeville e a comédia – bufa, gênero de que sou afeiçoado espectador, poderiam defender-se e salvar-se ainda; mas o teatro em verso, o gênero histórico e a chamada zarzuela cada dia sofrerão mais reveses, porque são gêneros muito exigentes e que comportam as autênticas inovações, e não há autoridade nem espírito de sacrifício para impô-las a um público que precisa ser dominado com elevação e em muitas ocasiões contraditado e atacado. É o teatro que deve impor-se ao público, e não público ao teatro. Para isso, atores e autores terão de reverti-se mesmo à custa de sangue, de uma grande autoridade, porque o público de teatro é como as crianças nas escolas; adora o professor grave e austero que exige e faz justiça, e espeta agulhas cruéis nas cadeiras em que se sentam os professores tímidos e complacentes, que não ensinam nem deixam ensinar.

O público pode ser ensinado – repare-se que falo em público, e não em povo - ; pode ser ensinado, porque eu vi Debussy e Ravel serem vaiados há anos, e tempos depois assisti às clamorosas ovações que um público popular dirigia às obras que antes repudiara. Estes autores foram impostos por um alto critério de autoridade superior ao público comum; o mesmo sucedeu a Wedekind na Alemanha e a Pirandello na Itália, e a tantos outros.

Há necessidade de assim proceder para bem do teatro e para glória e dignificação dos seus interpretes. Há que manter atitude digna, com a certeza de que serão recompensadas com juros. O contrário é tremer de medo nos bastidores e matar a fantasia, a imaginação e a graça do teatro, que é sempre, uma arte, e sempre há de ser uma arte excelsa, embora tenha havido uma época em que se chamava arte a tudo o que apenas servia para rebaixar a atmosfera e destruir a poesia.

Arte acima de tudo. Arte nobilíssima; e vós, queridos atores, artistas acima de tudo. Artistas dos pés a cabeça, pois que foi por amor e por vocação que haveis ascendido ao mundo fictício e doloroso das tábuas do palco. Artistas por ocupação e preocupação. No teatro mais modesto como no mais elevado deve sempre escrever-se a palavra “ARTE” na sala e nos camarins, porque senão teremos que escrever a palavra “comércio” ou outras ainda pior que não me atrevo sequer a dizer. E hierarquia, disciplina e sacrifícios e amor.

Não quero dar-vos uma lição, porque me encontro em condições de recebê-las. O entusiasmo e a certeza ditam as minhas palavras. Não sou um iludido. Pensei a fundo – e a frio – no que digo e, como bom andaluz, possuo o segredo da frieza, porque tenho sangue antigo. Sei que a verdade não a detém aquele que repete "hoje, hoje, hoje, hoje" enquanto come o seu pão junto à lareira, mas sim o que serenamente olha à distância as primeiras luzes da alvorada no campo.

Sei que não tem razão aquele que diz: “Agora mesmo, agora, agora” com os olhos postos na garganta estreita da bilheteria, mas o que diz “amanhã, amanhã, amanhã” e sente aproximar-se a vida nova que avança sobre o mundo”. Já o dramaturgo francês ARTAUD nos diz: “O teatro é o Estado, o local, o ponto onde nós podemos nos apropriar da anatomia do homem e através dele curar e dominar a vida.”
O ESPETÁCULO TEATRAL
Sabemos que o espetáculo teatral é uma síntese de várias artes e ofícios construídas coletivamente, e que só existem em função de uma platéia, como se fosse um jogo em que cada jogador desempenha seu papel dentro de regras previamente estabelecidas pelo grupo. Será que o aspecto coletivo é a característica mais importante desta arte? Sobre isso muita coisa já foi dita e escrita, vamos apenas apontar alguns aspectos característicos da arte teatral. As manifestações coletivas sempre tiveram seu papel de destaque em todas as sociedades. Da mesma forma que as tribos primitivas se reuniam no terreiro da aldeia para dançar, contar histórias ou venerar um deus o homem contemporâneo pode ir a um teatro, um show musical, a um espetáculo livre de rua em uma praça ou a um culto religioso, exercendo assim uma atividade coletiva que reafirma sua identidade cultural. Neste sentido, o teatro é ao mesmo tempo uma forma de expressão artística e uma atividade de socialização, tanto para quem o faz quanto para quem o assiste. Além de ser essencialmente coletivo, o teatro possui outra característica bastante peculiar. Um espetáculo só existe enquanto está acontecendo. Ele não é como um filme, onde a imagem fica registrada numa película, ou como um quadro que permanece sendo apreciado mesmo após a morte do pintor. A peça teatral escrita, que ficará registrada para sempre, não é teatro, é apenas um texto, ainda sem a vida que só será dada pelo ato coletivo de criação, que é o teatro. As imagens registradas jamais poderão captar a linguagem e o vigor de uma apresentação teatral. O teatro é uma arte feita num único momento para uma única platéia, pois uma apresentação nunca conseguirá ser exatamente igual a anterior. Heráclito de Éfeso, um filósofo que viveu no Sec. IV a.c. disse uma vez que “um homem nunca se banha duas vezes num mesmo rio, pois no instante seguinte nem o homem nem o rio serão os mesmos. Podemos aplicar bem esta frase filosófica dentro do espetáculo teatral. Restam portanto, as impressões deixadas pela experiência compartilhada por atores e platéia. Tomemos ainda o cuidado de não deduzir a experiência teatral ao momento da apresentação. É preciso saber valorizar o rico processo de aprendizagem que é vivenciado por todos aqueles que participam de uma montagem. Sabedores que somos de que o teatro é um ritual, herdado dos mais puros rituais daqueles a quem chamamos de primitivos, iremos estudar calmamente um pouco sobre ritual, pensando em seguida em, de forma grupal, realizar um ato teatral ritualistico.
O RITUAL
Ato coletivo de celebração. Trata-se, nas sociedades primitivas, de uma forma de transmissão de conhecimentos, bem como de uma forma de auto-conhecimernto, podendo Exercer as seguintes funções: Através dos rituais de iniciação ser um propagador de tradições; através dos rituais propiciatórios ser um instrumento de influência e controle; pode ser ainda apenas de apelo buscando obtenção de favores a entidades sobrenaturais como também criador de mitos através da glorificação do herói; e finalmente pode ser apenas um gerador de puro e simples prazer. Nesta última função é que atuam, principalmente, os elementos formais da música, ritmo, dança, movimentação e gesticulação, ambientação e vestuário. A manifestação teatral como um todo é uma decorrência da prática de rituais religiosos. A tradição do teatro ocidental, por exemplo, aponta os ritos de celebração ao deus Dioniso como a gêneses do trágico e, por conseguinte, do próprio teatro. A lenda conta que “Dioniso, um deus filho de Zeus e da mortal Sêmele, espremeu a uva, e , juntamente com sua corte de SÁTIROS e NINFAS, bebeu o suco e assim ficou conhecendo o vinho. Bebendo-o repetidas vezes, todos começaram a dançar e a cantar vertiginosamente. Embriagado, caíram por terra desfalecidos. A partir daí, a cada VIDIMA, o povo celebrava como DIONISOS e seus companheiros haviam feitos antes: embriagando-se, cantando e dançando. A simbologia da orgia DIONISÍACA está relacionada ao teatro da seguinte maneira: “Os devotos de DIONISOS, após a dança vertiginoso (...) caíam desfalecidos. Nesse estado acreditavam sair de si pelo processo do (...) êxtase . Esse sair de si, numa superação da condição humana, implicava num mergulho em DIONISOS e este no seu adorador pelo processo de entusiasmo. O Homem, simples mortal (...) em êxtase e entusiasmo, comungando com a imortalidade, tornava-se um herói, um varão que ultrapassava a medida de cada um. (Texto de Junito de Souza Brandão, Teatro Grego, Tragédia e Comédia p. 11) O ritual e o mito são as mais sensíveis representações do universo porque refletem a percepção mais profunda de um determinado grupo cultural.

O QUE O GRUPO DESEJA COMUNICAR
O primeiro passo é a escolha daquilo que se irá representar. É preciso conhecer bem o tema que se deseja abordar. A falta de conhecimento a cerca de uma determinada questão invariavelmente acaba resultando numa visão superficial e até equivocada que em vez de enriquecer a visão da platéia e envolve-la na trama, poderá reforçar preconceitos e falsas idéias. Este é um trabalho de pesquisa que envolve tanto a experiência de vida dos atores, quanto as Informações fornecidas por livros e reportagens que tratem dos temas que a peça irá abordar.

A PEÇA
Se o tema central já está claro para o grupo, o próximo passo é escolher uma peça que esteja adequada às suas necessidades. A riqueza da dramaturgia universal nos oferece uma lista infindável de autores e textos. Se o grupo não se sente identificado com nenhum deles, a alternativa é escrever o seu próprio texto. Escrever em grupo não é fácil, é tão difícil quanto caminhar juntos, por isso necessário uma boa dose de paciência para conseguir juntar todas opiniões e pontos de vista de cada elemento do grupo. Uma maneira divertida de se conseguir chegar ao texto é tentar improvisar as situações e em seguida ir escrevendo os diálogos- que forem surgindo no exercício. Neste processo os atores devem soltar a criatividade sem se preocupar com o resultado. É na avaliação do que foi feito e criado pelo grupo que irá se discutir se o objetivo foi ou não foi atingido. Não devemos ter medo do ridículo, pois este tipo de censura não ajuda em nada o processo de criação.

O grupo deverá se preocupar apenas com a comunicação teatral e durante o processo de criação deve levar em consideração- que toda peça de teatro existe para ser encenada, ser apresentada a um público. Se a peça só funciona quando é lida não é teatro: é literatura. Não esqueça que o teatro é AÇÃO e as falas existem para dar sentido à vida dos personagens. No nosso caso o TEATRO DE RUA, os textos devem ser flexíveis a participação da platéia, abertos para ser incorporados as suas piadas, suas dúvidas e em algumas horas até o seu silêncio, desprezo e crítica.



CRIAÇÃO DE UMA PEÇA A PARTIR DA IMPROVISAÇÃO
Buscando clarear os caminhos para a criação de um texto teatral através do improviso, os autores John Hodgson e Ernest Richards chegaram a alguns princípios que entendemos serem bastante importantes para aqueles que estão tentando se iniciar na difícil, árdua a gostosa tarefa de escrever para o teatro, iniciando esse ato de forma coletiva. As principais abordagens relacionadas são:
1. QUANDO O ENREDO É PREDOMINANTE.
O grupo escolhe para montar uma história já acontecida, um conto, um fato conhecido por todos e procura dessa forma interferir no seu conteúdo mudando sua história - a narrativa indireta - ou mantendo tudo da forma já estabelecida - a narrativa direta. Outros pontos de partida para peças baseadas em enredo podem provir simplesmente de uma palavra ou de uma frase, como “independência”, “perdido”, “falta de sorte”, acusação, traição e muitas outras. Um exercício interessante é iniciar dando ao grupo uma palavra ou frase e pedindo-lhes que tomem nota ou digam qualquer coisa que lhes venham à mente em resultado a esse estímulo. Então, algumas dessas palavras podem ter um seguimento. Duas ou mais idéias podem ser combinadas até que uma estória linear apareça. Essa então, pode ser desenvolvida de acordo com os exemplos já dados, até se chegar a uma peça acabada.

2. O PERSONAGEM COMO FOCO PRINCIPAL
Há diferentes modos de se criar um personagem, e na construção de peças improvisadas, pode-se começar exatamente com a construção de um personagem. Após criado desenvolver o conflito desse personagem com os diversos personagens que estão ao seu redor e que de uma forma ou outra possam influir ou vir a ser influenciado por ele. Como exemplo podemos dar um personagem já existente, um vulto histórico, e a partir de um estudo sobre o mesmo desenvolver um “plot” à luz de conhecimentos psicológicos. Todos os tipos de personagens históricos podem ser fonte de criação e inspiração para a confecção de uma peça teatral, e muitos já são bastantes usados, principalmente por grupos de jovens, como é o caso de Jesus (nascimento e morte), São Francisco de Assis, Pe. Cícero e outros. Porém uma forma interessante e gostosa de criação pode ser desenvolvida através de observação do dia-a-dia de alguma pessoa do nosso meio e mundo, que pode muito bem virar um personagem teatral, ou então através de matérias de jornais, que podem muito bem esconder um personagem, que após descoberto, desvendado será integrado ao mundo da imaginação de todos e passará a ser um personagem teatral.
3. QUANDO O DIALOGO MOLDA A PEÇA:
Hoje mais do que nunca, estamos descobrindo a importância do diálogo, e partindo de uma conversa entreouvida em um supermercado, num ponto de ônibus, na saída do teatro ou em qualquer outro lugar onde as pessoas se encontrem e conversem, pode-se desenvolver uma peça baseada no ritmo das falas e silêncios. Inicialmente, pode-se dar aos grupos umas poucas falas e pedir-lhes que desenvolvam uma cena a partir delas.

Um grande exercício é colocar o grupo na rua como observador, escutando alguns diálogos proferidos por populares sobre temas previamente escolhidos, ou mesmo os de forma espontânea, e depois desenvolve-lo na oficina ou processo de criação.



4. TEMA COMO PONTO DE PARTIDA.
Um espetáculo pode ser desenvolvido todo em cima de um tema, precisando a pesquisa através de matérias de jornais, revistas e outros escritos, selecionando as diversas formas de abordagens, classificando os tipos que são a favor os que são contra, e os que não estão preocupados com discussão, os dos “tanto faz,” que estão, e quem sabe, viverão sempre em cima do muro. Se for possível o grupo deverá visitar e entrevistar um assentamento dos Sem-Terras, como também, deve conversa e colher informação daqueles que estão do outro lado a. Por exemplo, se o tema for a REFORMA AGRÁRIA, o grupo poderá começar colhendo, juntando e discutindo as matérias já publicadas em são contra a reforma agrária, no nosso caso a UDR. Há ainda a possibilidade de usar vários tema interligando as cenas com comentários e/ou posicionamentos enfatizando as suas relações no conflito, destacando aquelas que porventura o grupo queira enfatizar com mais presença e postura. Assim pode ser feito com qualquer tema, ao teatro não existe tema impossível de ser representado, até prestação de conta, balancete contábil, pode ser com ludicidade apresentado.

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