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Resenha de Notícias Culturais

Edição nº 123

[ 31/1/2013 a 6/2/2013 ]

Sumário


CINEMA E TV 3

Estado de Minas – Moto contínuo 3

Estado de Minas – Policial: Para rir e refletir 4

O Globo – A transparência de um revolucionário 5

O Globo – ‘Maldito’ capixaba 7

Carta Capital – Um Labirinto de horrores 8

Valor Econômico - "Serra Pelada", um gângster moderno 10

Estado de Minas - Guerreira 12

Estado de Minas - Chegou a hora 13

TEATRO E DANÇA 14

O Globo – Teatro multidisciplinar 14

Folha de S. Paulo - SP Companhia de Dança vai ter assinaturas 15

Folha de S. Paulo - Festival de Teatro de Curitiba exibirá mais de 300 peças 16



ARTES PLÁSTICAS 17

Folha de S. Paulo - Mostra propõe diálogo entre Brasil e exterior 17

O Estado de S. Paulo – Luz Oriental 17

Folha de S. Paulo - Artista expõe ascensão de mercado de arte com objetos transformados 19

O Globo - TOMIE 100 19

O Estado de S. Paulo – Próximo e distante 21

Correio Braziliense - Natureza subjetiva 22

Folha de S. Paulo - Arte não era contemplação, mas sim enfrentamento Entrevista / Waltercio Caldas 23

Estado de Minas – Espaço para reflexão 24

FOTOGRAFIA 25

O Estado de S. Paulo – Imagens protagonistas 25

Estado de Minas - Conversas sobre imagens 26

MÚSICA 27

Estado de Minas – Da roça para os palcos 27

Correio Braziliense – O ano do batuque 28

Correio Braziliense – Sons fora do quadrado 29

O Globo – Memórias de um outro samba 30

O Globo – Companheiros do mangue 30

Folha de S. Paulo – "Brasil é fonte de prazer musical", diz crítico 32

Estado de Minas - As aventuras dos bambas 32

Estado de Minas - Minas dá soul 33

Estado de Minas - Preservando a tradição 34



LIVROS E LITERATURA 35

Folha de S. Paulo - Livro reúne ensaios de intelectuais sobre Brasília 35

Valor Econômico - Antes tarde do que nunca 35

Folha de S. Paulo - Coletânea resgata Álvaro Lins, autor ignorado pelo cânone 38

Estado de Minas - Desobediência saudável 38

GASTRONOMIA 39

Folha de S. Paulo - Mais uma vez, Brasil decepciona na 'Copa do Mundo' da gastronomia 39



OUTROS 40

O Globo - Mudanças na casa de Rui Barbosa 40

Folha de S. Paulo - Morre o curador e crítico Walter Zanini 40

Zero Hora - Crônica do humor louco 41





CINEMA E TV




Estado de Minas – Moto contínuo

Tema de documentário em cartaz na capital, Jorge Mautner milita na poesia, na música e na preparação do Brasil para a Copa de 2014. Aos 72 anos, o "ex-maldito" está de volta aos palcos


Jorge Mautner e seu violino se tornaram ícones para a nova geração, fã do clássico Maracatu atômico

Mariana Peixoto

(01/02/2013) Depois de uma sessão especial do documentário Jorge Mautner – O filho do Holocausto em Londres, Heitor D’Alincourt, que codirigiu o longa-metragem com Pedro Bial, ouviu de espectadores que aquele filme deveria ser ficção, pois uma pessoa como a retratada na tela não poderia existir. Aos 72 anos, Mautner se diverte com tal comentário. “Sou simultâneo. Vivo essa simultaneidade atráves da poesia, da música e da arte. É a infância que deflagra tudo, o que sou hoje é uma continuidade desse processo.” Tal afirmativa vem ao encontro da maneira como são retratadas as sete décadas de vida do poeta, escritor, violinista, compositor, cineasta, artista plástico e cantor – criador múltiplo rotulado, com certo equívoco, de “maldito”.

O filme entra em cartaz no circuito comercial – em BH, infelizmente, serão apenas duas sessões, no BH Shopping – depois de participar de festivais nacionais e estrangeiros. O documentário tradicional – com narrativa cronológica e linear alicerçada por depoimentos e imagens de arquivo – tem seu lado transgressor tirado do próprio personagem título. O título, por sinal, veio do livro O filho do Holocausto (2006), em que Mautner relata sua infância e juventude (de 1941 a 1958). Para as gerações que o conheceram a partir da regravação de Maracatu atômico feita por Chico Science e Nação Zumbi (de 1996, foi a primeira de uma série de novas versões de cantores e bandas que vêm relendo, com respeito e autoralidade, a obra de Mautner), o filme é obrigatório, pois lança luzes sobre a obra de um artista que nem sempre recebeu o reconhecimento devido.

Colocando a música em primeiro plano – a trilha sonora foi lançada no final de 2012 –, o documentário traz as principais canções de Mautner (Lágrimas negras, O vampiro, Olhar bestial e Tarado, entre outras) gravadas em pocket show com a banda formada por Pedro Sá (guitarra), Kassin (baixo), Domenico Lancelotti (bateria) e Berna Ceppas (teclados e efeitos), além de Nelson Jacobina, o parceiro de Mautner por 40 anos, que morreu em 31 de maio. Também participaram Caetano Veloso e Gilberto Gil, figuras essenciais para sua carreira e companheiros no exílio londrino durante a ditadura militar. A parte musical é intercalada com narrativa documental.

Candomblé O título O filho do Holocausto remete à origem de Mautner. Nascido no Rio de Janeiro, ele é filho de um judeu austríaco que chegou ao país para escapar da perseguição nazista. Se a primeira infância foi carioca – “A babá me colocava para dormir ouvindo tambores do candomblé”, lembra ele –, dos 7 aos 14 anos o músico viveu em São Paulo. “Minha mãe se casou de novo.  Num misto de amor e ódio com meu padrasto, que fazia bico nas rádios Record e Tupi, eu ficava ouvindo Jackson do Pandeiro e Aracy de Almeida”, relembra. Seu primeiro livro, Deus da chuva e da morte, foi escrito quando ele tinha 15 anos. Mas só em 1962 o aluno expulso de Dante Alighieri, tradicionalíssimo colégio paulistano, veria essa obra publicada (posteriormente, ela lhe renderia o Prêmio Jabuti). Naquela época, Jorge já havia dado os passos iniciais como compositor (O vampiro é dessa safra).

O músico foi parar no Partido Comunista e passou um período em Nova York até chegar a Londres. Nesse cenário, rodou o filme O demiurgo (1972) e se envolveu com os tropicalistas – Caetano e Gil se tornaram seus parceiros desde então. O filho do Holocausto acaba dialogando com outros dois documentários, também da safra de 2012, que giram em torno do Tropicalismo: Tropicália, de Marcelo Machado, já lançado, e Futuro do pretérito: Tropicalismo now!, de Francisco César Filho e Ninho F. Moraes, ainda inédito no circuito comercial.

“O Tropicalismo foi o apogeu do amálgama de que falou, em 1823, o José Bonifácio, sobre as diferenças entre povos e culturas no Brasil. Temos a cultura mais original do planeta, nossa história é resultante do romantismo, das culturas indígena e negra”, continua. Incansável, ele segue em plena atividade. Depois da morte de Jacobina, coautor de Maracatu atômico e Lágrimas negras, o cantor passou um período sem fazer shows, mas já voltou a se apresentar. Em formato mais intimista, Mautner empunha seu violino ao lado do maranhense Glad Azevedo; com banda, é acompanhado pela Tonno, de Bem Gil.

Para além da música, o agora consultor do Ministério dos Esportes para a cultura pretende “irradiar a ideia do amálgama de que falava José Bonifácio” para o período da Copa do Mundo. Quem assistiu à versão de Macaratu atômico apresentada pelo rapper BNegão no encerramento dos Jogos Olímpicos de Londres não tem dúvida: Jorge Mautner sabe do que está falando.

O samurai

Jacobina e Mautner em cena do documentário

“No último show dele, em Jacareí (interior de São Paulo, durante reunião dos Pontos de Cultura), demos um bis de 45 minutos. Imagine, ele estava no quarto ano de uma metástase violenta. O Nelson tomava metadona, tinha muitas dores e, durante quatro anos, participou de tudo: show, disco da Orquestra Imperial, a série Oncotô?, da TV Brasil. Participava da militância no Partido Verde, Partido Comunista, UNE, ONGs. No palco, as dores passavam, era impressionante. O Nelson morreu horas depois daquele show. No voo, durante a volta para São Paulo, no meio da dor, ele conseguia rir. Eu o provocava dizendo: ‘Vocês, verdes, vão deixar a gente sem luz’. O Nelson vai estar sempre comigo, é insubstituível, uma pessoa samurai. A música que fizemos para o disco da Orquestra (Fala chorando) diz assim: ‘Lágrimas são páginas/ Cheias de palavras que você/ Não pode mais continuar falando/ Porque a memória emudece a tua voz/ E então você fala chorando.’

É uma música também sobre a morte.”
>> Jorge Mautner, sobre o parceiro Nelson Jacobina, falecido em maio de 2012


Estado de Minas – Policial: Para rir e refletir

Estreia hoje o longa brasileiro Disparos, da diretora Juliana Reis, baseado em fatos. A cineasta diz que seu filme tem linguagem simples para atingir públicos variados


Eduardo Tristão Girão

(01/02/2013) Um fotógrafo é roubado na rua depois de um trabalho para um guia gay carioca e, em seguida, os assaltantes são atropelados por um justiceiro anônimo. Ele consegue recuperar seu equipamento, mas deixa no local o cartão de fotos da câmera. Ao voltar sozinho para pegá-lo, passa da condição de vítima à de acusado de omissão de socorro, e é levado para a delegacia. Esse é o desconcertante ponto de partida de Disparos, longa-metragem de Juliana Reis que estreia hoje em Belo Horizonte.

Vencedor dos prêmios de melhor montagem, fotografia e ator coadjuvante (Caco Ciocler) no Festival do Rio no ano passado, o filme é baseado em fatos. “Ouvi essa história em 2008, no dia seguinte ao ocorrido. Fiquei surpresa e, ao contar essa história para outras pessoas, passei a ouvir sistematicamente outras parecidas. Essa é a pedra fundamental”, lembra Juliana, que assina direção e roteiro.

Disparos foi rodado na capital fluminense entre 2010 e 2011 e, além de Ciocler, que interpreta o inspetor Freire, tem no elenco Gustavo Machado (o fotógrafo Henrique), Julio Adrião (dr. Guido) e Dedina Bernardelli (Silvana) – o público reconhecerá Babu Santana entre os atores que participaram das filmagens.

“O motor do filme é a gente não poder virar bicho sem se dar conta de que está virando bicho. Abrindo mão das instâncias que controlam a barbárie, assumimos a barbárie. Estarrece-me o fato de perdermos o pé disso e não falarmos a respeito. É claro que acontece de agirmos impulsivamente, mas fazer disso algo corriqueiro assusta. É preciso termos um filme para falar disso. Tentei não julgar, mas levar o espectador à reflexão”, analisa ela.

Competição

Aproveitando a repercussão em torno dos três prêmios que o filme recebeu no Festival do Rio, em outubro passado, a diretora se esforçou para realizar seu lançamento nacional o quanto antes. No mês seguinte, conseguiu colocá-lo em salas do Rio de Janeiro e São Paulo. O esforço não valeu a pena, acredita Juliana: “Acabei brigando com filmes como Gonzaga – De pai para filho, Os penetras, Crepúsculo e 007”.

Em Belo Horizonte, ele estará nos shoppings Boulevard (sala 1, às 13h e às 14h45) e Pátio Savassi (sala 1, às 18h30; somente terça, dia 5, e quinta, dia 7). “Foi minha ambição fazer um filme de interlocução, não um filme cabeça, para poucos. Quis falar com os outros. Pessoas que já assistiram me disseram que é um filme a que você assiste rindo e, depois, sai do cinema discutindo o tema. Meu nirvana seriam 300 mil a 400 mil espectadores”, conta.

Na televisão

Paralelamente, Juliana segue trabalhando não apenas com longas, mas também com uma série para televisão. Está negociando projeto de série de ficção com canais a cabo. “A televisão é um espaço mais generoso para investir em novas linguagens. Há uma demanda aquecida pela nova lei que obriga canais pagos a incluir produções nacionais em suas grades de programação. Vejo na possibilidade de desenvolver essa série um espaço mais promissor, o grande lugar para me divertir como criadora”, diz.




O Globo – A transparência de um revolucionário

Um dos intelectuais mais provocativos do Brasil nos anos 1960 e 70, o filósofo, dramaturgo e professor Carlos Henrique Escobar, hoje radicado em Portugal, ressurge no documentário 'Os dias com ele', premiado na recém-encerrada Mostra de Cinema de Tiradentes


Rodrigo Fonseca
(02/02/2013) Corre pelo campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) da Praia Vermelha um folclore de que toda uma ninhada de gatos abandonada lá, pelos corredores da Escola de Comunicação (ECO), hoje mora em Aveiro, Portugal, no apartamento do professor (hoje aposentado) Carlos Henrique Escobar. Pode ser que o bichano felpudo refestelado em seu colo numa sequência do documentário "Os dias com ele" - eleito melhor filme na 16ª Mostra de Cinema de Tiradentes, semana passada, em Minas Gerais - seja um dos felinos da ECO. Mas nada assegura. Sabe-se apenas que todo mundo que fala sobre Escobar, seja de sua trajetória polêmica como filósofo de orientação antistalinista, seja de sua carreira premiada como dramaturgo, ou mesmo de sua experiência como pai (por vezes ausente), traz seus gatos à tona - talvez por ele mesmo frisar sua devoção pela espécie.

"Quero ser enterrado num cemitério de animais", diz o pensador paulistano, hoje com 79 anos, numa cena de "Os dias com ele", dirigido por sua filha Maria Clara Escobar, 24.

Emocionada pelo filme, que marca o ajuste de contas de uma relação entre pai e filha em forma documental de poema-processo, Tiradentes gargalhou em coro ao ouvir a frase mórbida do autor de peças como "Caixa de cimento" (1978), famoso por ter devassado as leituras críticas sobre luta de classes com teses como "O marxismo trágico" (1992). Tiradentes riu ainda de suas tiradas sobre autoritarismo e arte, mas se inflamou com as palavras dele sobre o Estado brasileiro, com o qual se preocupa.
- Acredito que o governo Lula e Dilma esteve e está repleto de esquerdistas farsantes, que almejam poder e riqueza, como provam as alianças deploráveis que Lula fez, com Sarney, Collor, Maluf, ou os escândalos no nível da corrupção que envolveu e envolve os governos e as políticas petistas - diz Escobar, em entrevista por e-mail ao GLOBO. - Um dia, o Brasil terá caráter suficiente para ter uma esquerda. Caráter suficiente para ter uma cultura séria.
Em "Os dias com ele", assim como em suas aulas de Política da Comunicação na ECO, sobre catastrofismo, baseadas no livro "A transparência do mal", do sociólogo francês Jean Baudrillard, Escobar não se rende à desesperança. Cultiva planos para preservar sua obra de autor teatral, cujo principal trabalho é "Matei minha mulher (A paixão do marxismo: Louis Althusser)" (1983), baseado no assassinato cometido pelo filósofo francês.
- Algumas das minhas peças, sobretudo "Antígona-América", dirigida pelo Antônio Abujamra, foram censuradas pelos militares. Na verdade, o conjunto do meu teatro foi covardemente destruído pelos stalinistas. Hoje, e já é tarde, começo a publicar meu teatro escrito 30 ou 40 anos atrás. Tive oito peças montadas e tenho 15 para editar - diz o dramaturgo, que nos anos 1950 casou-se com a atriz portuguesa Ruth Escobar, com quem viveu (e fez teatro) até o início dos anos 1960.
A poesia da irreverência

Quem atuou nas peças escritas por Escobar não esconde o encanto diante da força poética de seus diálogos, que críticos teatrais como Macksen Luiz definiram nos anos 1980 como "um primado da inteligência, marcados pela necessidade de se repensar o mundo".


- A primeira peça profissional que fiz no teatro foi "Antígona-América", do Escobar - diz o ator Sérgio Mamberti, atual secretário de Políticas Culturais do Ministério da Cultura. - Percebi logo o quanto ele era questionador e irreverente. Além de excelente poeta, Escobar escrevia teatro com uma preocupação lúcida acerca da América do Sul.

Mamberti conheceu Escobar na chamada Turma da Estátua.


- Nos anos 1950, a Biblioteca Municipal de São Paulo, hoje Biblioteca Mario de Andrade, tinha uma estátua no hall de entrada em torno da qual se reuniam intelectuais como Antunes Filho, Décio Pignatari, Escobar - lembra o escritor e diretor teatral Mário de Almeida, criador do Teatro de Equipe, que revelou Paulo José e Paulo César Peréio. - Juntos, naquele ambiente, descobrimos o quanto Escobar fazia do entusiasmo e da paixão a marca de seu pensamento, sempre denso. E isso se reflete em suas peças e seus poemas.
Filósofo autodidata, autor de livros seminais para o pensamento marxista brasileiro, como "Ciência da História e ideologia", Escobar defende que ainda há uma centelha de transformação possível para o Brasil pela juventude. Deixa isso claro nos embates verbais que trava com a filha acerca do que deveria ser a narrativa de "Os dias com ele", sugerindo planos que não se limitem a uma câmera à altura do seu peito (conforme o filme é construído), sobretudo no que se refere a suas memórias sobre a tortura de que foi vítima durante os anos de chumbo.
- Grande parte do embate se dá justamente porque somos um pouco incapazes de fazer algo a quatro mãos juntos - diz Maria Clara, fruto de um romance entre Escobar e a compositora Vera Terra.
Cineasta estreante, ela admite ter tido uma relação distante com o pai, que vive há uma década em Portugal, casado com Ana Sacchetti, com quem tem um filho, Emílio, de 15 anos:
- Após o filme, o relacionamento segue um pouco mais próximo, mais tranquilo em relação a projeções e mágoas. Mais claro, talvez, porém não muito menos doloroso. O buraco segue. E seria um erro tentar tapá-lo.
Graças à ensaística de Escobar nas imagens filmadas por sua filha, o longa de Maria Clara foi aplaudido em cena aberta por centenas de espectadores em Tiradentes e, de quebra, levou o troféu Barroco dado pelo júri oficial (só de críticos) e pelo júri jovem (de estudantes) e um prêmio de R$ 50 mil, desembolsados pelo Itamaraty. Além de ter encurtado distâncias emocionais entre a documentarista e seu documentado, "Os dias com ele", ainda sem data de estreia, deixa como legado a redescoberta de um dos intelectuais mais provocativos do Brasil dos anos 1960 e 70. Responsável por radicalizar o ensino na UFRJ, combinando aforismos de Nietzsche e filmes de Ingmar Bergman, ele questionava as contradições da democracia brasileira.
- Com Escobar, no mestrado da ECO, entre 1974 e 76, aprendi a entender o que é "fazer uma pergunta"..., a natureza de uma interrogação qualquer. Aprendi a tentar questionar tudo aquilo que nos aparece como natural, dado, supostamente simples - lembra o crítico João Luiz Vieira, professor de Cinema da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Em universidades, palestras e debates, Escobar, famoso por seu porte de galã e por seus olhos azuis, chegou a ter um séquito de fãs, apelidado de escobetes, que idolatravam não apenas sua beleza, mas suas ideias e sua postura combativa. "Os dias com ele" resgata, por exemplo, uma carta em que ele desanca o poeta Ferreira Gullar por suas posições políticas em relação ao Partido Comunista Brasileiro.
- As aulas de Escobar eram performáticas, quase teatrais, típicas de uma figura controversa, que falava sem parar, mas ajudou a trazer a obra de pensadores como Gilles Deleuze para o Brasil - diz sua ex-aluna Ivana Bentes, crítica de cinema e diretora da ECO. - Escobar representava a filosofia maldita, falando de Rimbaud, de Althusser, de Nietzsche, com um ânimo que explodia a figura clássica do acadêmico, mas deixava as ideias de um pensador superprodutivo.
Barata nietzschiana
Ivana lembra que tão forte quanto as discussões filosóficas de Escobar era o folclore em torno de sua figura. E tal anedotário sempre envolveu sua obsessão por gatos. Nos anos 1980, um perfil dele publicado no "Jornal do Brasil" falava que sua antiga casa no Humaitá abrigava 20 felinos, que consumiam o equivalente a R$ 500 em carne moída por mês. Há ainda lendas na ECO sobre seu hábito alimentar recorrente: encerrar o expediente semanal num mesmo boteco, conhecido como Sujinho, tomando, numa talagada, um copo duplo de Toddy gelado.
- E, no tempo que estudei com ele, tinha a história da barata. Contam que ele, nietzschiano, ao passar por uma padaria, viu um comerciante tentando matar uma barata que andava pelo balcão. Dizem que Escobar deu uma bronca dizendo que toda forma de vida é importante - lembra Ivana. - Esses causos não mudam a importância dele para a nossa formação.
Até a sessão em Tiradentes, Escobar não havia assistido a "Os dias com ele". Agora, com a vitória do filme, Maria Clara espera ainda ajudar o pai a desencavar sua obra teatral e seu legado filosófico. Neste momento ele prepara uma coletânea de poemas e um livro, a partir de Althusser, para pensar "uma nova prática política no Brasil", já prometendo polêmica, com seu tom irreverente:
- Sinto que desagradarei aos mais vacilantes, aos que já acreditam numa posição política correta.

O Globo – ‘Maldito’ capixaba

Rodrigo Aragão, diretor de ‘Mangue negro’ e ‘A noite do Chupacabras’, vendidos para EUA, Europa e Japão, finaliza trilogia de terror com ‘Mar negro’ e reclama do preconceito contra o gênero no Brasil


RODRIGO FONSECA
(02/02/2013) Espécie de Godzilla versão capixaba, um monstro marinho apelidado de Baiacu- Sereia anda espalhando pânico por uma aldeia de pescadores do litoral do Espírito Santo chamada Perocão. Pior que ele, só o Zumbi-Caranguejo, devorador de homens. Lá, em meio a mortos-vivos e peixes canibais, um pequeno núcleo de produção de longas-metragens, quase artesanal, hoje empenhado em finalizar o thriller de horror “Mar negro”, tem atraído a atenção do cinema internacional. Até revistas especializadas de Hollywood já citaram o sucesso que os filmes do diretor Rodrigo Aragão fazem entre fãs do terror pelo mundo afora.

O cineasta, nascido em Guarapari há 36 anos, rodou mais de 30 festivais internacionais com seus dois longas, “Mangue negro” (2008) e “A noite do Chupacabras” (2011). Feitos sem incentivos fiscais, com uma verba que nunca ultrapassa R$ 200 mil, e sem atores conhecidos, ambos foram vendidos para EUA, Holanda, Bélgica, Alemanha e Japão. Mas, no Brasil...

— Aqui, o mercado não me dá espaço. Corri atrás de 20 distribuidoras, oferecendo meus filmes, topando até que fossem direto para DVD. Mas o preconceito contra quem faz cinema de gênero, sobretudo o terror, é grande. Faço filmes baratos, sem edital, e tenho reconhecimento no exterior. Mas as vias oficiais não me abrem portas — lamenta o cineasta, que vem se tornando a figura mais expressiva de um estado com pouca visibilidade no cinema nacional.

PRODUÇÃO FINANCIADA POR FÃ

Fora dirigir, Aragão ganha a vida como técnico de efeitos especiais. Daí tira seu sustento e a segurança para investir em projetos como “Mar negro”. Ataque à poluição, o longa terminou de ser rodado na semana passada e, ainda neste ano, deve ficar pronto para ser exportado. Na trama, uma mancha negra alastra-se pelas águas do Perocão, infectando humanos e animais. Daí o surgimento de seres como o Zumbi- Arraia e o Baiacu-Sereia, vigiados por um feiticeiro, o Velho do Saco (Cristian Verardi).

— É uma crítica minha ao oba-oba do petróleo sem consciência ambiental. No fundo, “Mar negro” e meus dois outros filmes compõem uma trilogia de horror sobre o desrespeito à ecologia de uma região como o Perocão e seus arredores, que abrangem praia, mangue e montanhas.

Estou tentando criar um universo aqui — diz Aragão, que filma graças ao suporte financeiro do empresário mineiro Hermann Pidner, do ramo de produção de cal.

de terror, ele viabiliza o orçamento de Aragão, que se complementa num esquema de colaboração sem ônus.

— Pidner virou produtor, consciente de que é possível fazer cinema autossustentável no Brasil, pois nossos filmes podem se rentabilizar com as vendas internacionais. E a gente filma com pouco porque atraímos muita gente que é fã e topa fazer o filme por amor. Ofereço abrigo, comida e momentos inesquecíveis. Isso só é possível porque o terror mobiliza paixões.

Em “Mar negro”, haverá ainda um monstro capaz de fazer frente a Moby Dick, mas que Aragão mantém em sigilo, confiando a salvação do Espírito Santo a Albino, herói vivido por seu ator-fetiche, Walderrama dos Santos, que viveu o Luís da Machadinha de “Mangue negro”.

— Cresci vendo filmes de Sam Raimi e Peter Jackson e, por isso, sempre sonhei com a possibilidade de o Brasil ter em seu cinema heróis capazes de enfrentar monstros. É questão de credibilidade, coisa que os EUA conseguiram com filmes onde ETs explodem coisas e criaturas assustam espectadores. E, da mesma forma como Peter Jackson retratou a beleza da Nova Zelândia a partir de um olhar fantástico, tento fazer o mesmo pelo Espírito Santo — afirma o diretor, filho do mágico Osório Aragão, dono do extinto Cine Eldorado, em Guarapari.

Aragão conta que seu pai chegava a fazer projeções na rua para atrair público, o que alimentou seu interesse por gêneros de maior apelo popular, sobretudo o terror.

— Embora seja fã de “Tubarão”, um marco realista, persigo na forma a mistura de terror e humor que Sam Raimi segue, por isso filmo usando as ferramentas e as tecnologias dos anos 1980, com o mínimo de efeitos digitais. Prefiro usar marionetes e espuma de látex para criar meus monstros — explica.

Por ter crescido rodeado pelo ofício lúdico de seu pai, a imaginação de Aragão perdeu barreiras, para a preocupação de sua mãe, Dalva.

— Hoje, ela encara meus filmes numa boa.

Mas, quando eu tinha uns 13 anos e pedi o estojo de maquiagem dela emprestado, ela ficou encucada, toda desconfiada. Não podia imaginar que eu queria a maquiagem para criar um ferimento falso numa brincadeira — diz o diretor, que viu seu “Mangue negro” ser aclamado em festivais como o Sci-Fi London, na Inglaterra, e o Buenos Aires Rojo Sangre, na Argentina. Seu “A noite do Chupacabras” chegou a ser sensação no Yubari International Fantastic Film Festival, no Japão, onde revistas estrangeiras como a francesa “Mad Movies” (a bíblia europeia do filão) classificaram Aragão como “um expoente do medo”.

— Mais do que admirar José Mojica Marins, criador do Zé do Caixão, me identifico com ele por esse lado de vender filmes de terror brasileiro no exterior e pela dificuldade de driblar o preconceito no meu país. Há fãs de terror no mundo inteiro. Então, o que eu fizer, se for bem feito, vai ser visto lá fora. Mas é chato não ser lançado aqui. Não é bonito ser maldito.


Carta Capital – Um Labirinto de horrores

(03/02/2013) O SOM AO REDOR, o premiado longa-metragem de estreia de Kleber Mendonça Filho, aborda conflitos sociais a partir de um quarteirão do Recife, onde vivem famílias de classe média e média alta. Ele mostra o cotidiano de uma nação em mudança, mas herdeira da estrutura de um passado patriarcal. Mendonça diz tratar de experiências familiares à sua condição social, a mesma da maioria esmagadora dos cineastas brasileiros. Para o diretor pernambucano, os filmes nacionais têm de vasculhar temas além da favela e do sertão, espaços transformados em foco preferencial do Cinema Novo em meados do século XX. Depois de estrear comercialmente em Nova York, em agosto, O Som ao Redor, filmado na rua onde moram vidas típicas de um lugar como Recife, recebeu aclamação da critica, sendo mais tarde eleito pelo The New York Times um dos dez melhores filmes de 2012. "O Som ao Redor é o perfeito exemplo do truísmo de que os artistas com frequência encontram o universal no específico", diz a CartaCapital Dennis Lim, critico de cinema e curador do Museum of the Moving Image, no Queens. "Embora limitadas a um espaço bem particular, as questões despertadas pelo longa-metragem sobre paranóia urbana e conflito de classes são cabíveis em qualquer lugar e extremamente contemporâneas."


Crítico de cinema do The New York Times, A.O. Scott, em um texto intitulado "A classe ociosa carrega o seu fardo" também apontou para o caráter universal e singular de O Som ao Redor, atualmente em cartaz nos cinemas brasileiros. "Os apartamentos novos, com suas paredes recém--pintadas, seus aparelhos eletrônicos luminosos e seus grandes televisores de tela plana, se parecem com enclaves genéricos de privilégio. Pode-se estar em qualquer lugar. E alguns dos eventos que ocorrem no interior daquelas paredes poderiam ser episódios de uma novela global sobre banalidades domésticas em Cingapura, São Francisco, Cidade do Cabo ou Dubai." O que muda essa percepção de generalidade são os personagens, "divididos grosso modo entre senhores e escravos". "O escopo de seu filme é restrito, mas as suas ambições são enormes, e isso leva à iluminação do estado peculiar da sociedade brasileira (e não só dela)."
Em entrevista a CartaCapital durante recente visita a Nova York, onde ganhou o prémio de melhor filme do Cinema Tropical Awards, Mendonça disse ter abordado a adaptação moderna do patriarcado brasileiro. "Na verdade, não mudou muita coisa, se compararmos com Pernambuco de 150 anos atrás", afirma. "A cultura escravagista é muito forte no Recife. E também no resto do País." O início de O Som ao Redor mostra uma sequência de fotografias em preto e branco de trabalhadores rurais e casas--grandes. Essa escolha de abertura, "a base teórica e estética do filme", ele explica, é uma resposta ao descaso nacional pela história. "O Brasil só pensa no presente e no futuro. Esquece que o passado é o manual de instruções de uma sociedade."
No primeiro plano-sequência, logo após a exibição daquelas fotos, uma menina anda de patins. Ela termina sua trajetória na quadra esportiva de um prédio, onde se encontram empregadas domésticas e babás vestidas de uniforme. "Ou uma série de escravas", nas palavras do diretor. Mendonça percebe em situações cotidianas os efeitos persistentes do sistema patriarcal e escravocrata, descrito com detalhes por Gilberto Freyre (1900-1987), também pernambucano, em livros como Casa-Grande â Senzala (1933). "A subordinação da gente de cor, baseando-se na diferença de raça, era também uma subordinação de classe", escreveu o sociólogo em Sobrados e Mucambos (1936), livro citado por Mendonça como capaz de explicar o Brasil a partir das suas condições arquitetônicas. A casa era, segundo Freyre, uma fonte de modelos de comportamento, além de espaço de acomodação: "Do escravo ao senhor, do preto ao branco, do filho ao pai, da mulher ao marido".
No mês passado, quando esteve em São Paulo para um debate sobre seu filme, Mendonça testemunhou a atualidade da teoria de Freyre. "Quando estava num restaurante de Higienópolis, vi um casal de brancos com um bebé loiro e, à mesma mesa, um ser uniformizado olhando para a comida sem dizer uma palavra. Era uma mucama." A diferença em relação ao passado, cogita o diretor, é que talvez aquela babá ganhe mil reais e tenha uma carteira de trabalho assinada.
Mendonça acompanhou durante a última década uma mudança gradual na passividade brasileira. "Os papéis sociais são definidos, paralisantes. Mas, apesar do preconceito nos últimos 12 anos, houve uma evolução no modo como as classes mais baixas se vêem." Uma das explicações é o fato de Luiz Inácio Lula da Silva, que "quebrou o molde típico do presidente brasileiro", ter promovido uma maior distribuição de renda. "Hoje, ser pobre não é uma vergonha." Essa percepção afetou a representação das classes mais baixas em O Som ao Redor. "No filme, nenhum trabalhador abaixa a cabeça para o patrão.”
Mendonça deu-se conta da falta de agressividade dos desfavorecidos brasileiros quando, nos anos 1980, morou na Inglaterra. "Lá o pobre odeia o rico e vice -versa. No Brasil, o rico despreza o pobre mas o pobre quer ser o rico."
O Som ao Redor usa uma estética realista para descrever com sutileza as relações conflituosas entre as classes. Aos personagens não reserva nenhum julgamento. Em uma reunião de condomínio moradores discutem o futuro do porteiro da noite. Uma das alegações para demiti-lo é a negligência do funcionário, que dorme durante o serviço, fato filmado por um dos filhos dos condóminos. O porteiro entrega a revista Veja fora do plástico. Segundo a maioria ali reunida, esses seriam motivos suficientes para uma demissão por justa causa. "Esse momento do filme, assim como tantos outros, sintetiza um sentimento", diz Mendonça. "Na sequência da reunião, leitores da Veja poderão sentir-se representados, identificando-se com um problema semanal nos condomínios: a violação de sua revista, janela para o mundo. Os que preferem não ler a Veja podem sentir-se vingados. Tudo depende de um ponto de vista."
As mudanças na economia brasileira se refletem na paisagem urbana retratada por O Som ao Redor. Um dos barulhos mais perturbadores do longa-metragem é aquele dos bate-estacas, sinal da construção de um novo edifício. Os novos empreendimentos imobiliários do Recife, diz o diretor, seguem o padrão da maioria das cidades brasileiras. "Nada foi planejado ou pensado em conjunto. Os prédios são projetos individuais, feitos para seus responsáveis ganharem dinheiro. Não fazem nenhum sentido para a rua ou o bairro." Assim, o espaço público toma-se inóspito.
Na passagem por Nova York, onde foram exibidos seus curtas-metragens durante uma mostra do Museum of the Moving Image, Mendonça visitou o High Line, um parque suspenso no Chelsea, área de Manhattan que se desindustrializou para se transformar na meça das galerias de arte da cidade. O High Line, inaugurado há três anos e hoje um ponto turístico, reaproveitou a estrutura do viaduto usado por trens de carga entre os anos 1930 e 1980. "Com essa construção, tentaram devolver à cidade uma liberdade suprimida pelo projeto original." O cineasta refere-se ao abandono do elevado construído para evitar os atropelamentos frequentes quando os trilhos estavam no mesmo nível da rua.
Em contraste com o High Line, que valorizou o preço dos apartamentos do Chelsea, O Som ao Redor apresenta uma arquitetura desumanizadora, em que grades, cercas elétricas, arames farpados e muros altos são onipresentes. "Esse modelo urbano fracassado" ronda o património da família disfuncional de Francisco (WJ. Solha), proprietário de um anti-•go engenho. Francisco é dono da maioria dos imóveis do quarteirão onde se passa a história do filme, dividida em três seções com núcleos narrativos diferentes.
Ele se vê incomodado quando uma pequena firma de segurança privada, encabeçada por Clodoaldo (Irandhir Santos), oferece seus serviços naquela região afetada pelo medo de uma violência difusa e iminente. Dennis Lim comparou esse sentimento reproduzido pela obra de Mendonça ao de "um filme de terror em que o horror, generalizado, não tem nome, sendo incorporado ao cotidiano doméstico como uma emanação convulsiva do inconsciente coletivo". Do encontro entre Francisco e Clodoaldo resulta um conflito cujo desfecho o roteiro de O Som ao Redor deixa em aberto.
A arquitetura exibida pelo filme mostra, sobretudo, individualismo. "Ali o ser humano é feito um ratinho correndo dentro de um labirinto de laboratório." As condições urbanísticas e habitacionais os personagens de O Som ao Redor, representantes dos moradores de centros urbanos. "A gente vive o nosso dia a dia tentando driblar essa paisagem caótica", confessa. "Os momentos mais cómicos mostram a tentativa de escapar ao caos. Mas a tristeza é que a gente nunca consegue."


Valor Econômico - "Serra Pelada", um gângster moderno

(04/02/2013) Nas mãos de Heitor Dhalia, a febre do ouro na Serra Pelada dos anos 1980 ganha uma atmosfera nervosa e violenta, característica de alguns filmes do americano Martin Scorsese ("Taxi Driver", "Gangues de Nova York"). "O sentimento de urgência que imperava naquele lugar, uma terra sem lei, me inspirou a buscar um gênero específico: o de gângster", diz Dhalia durante a filmagem de "Serra Pelada", em Paulínia, município a 118 km da capital paulista.


Filmagens de "Serra Pelada", em Paulínia (a partir do alto, em sentido horário): Julio Andrade e Juliano Casarré, o diretor Heitor Dhalia e atores que interpretam capangas, em sequência de emboscada.

"Como ocorre em produções de Scorsese, quero que o espectador se sinta circulando por dentro desse universo nocivo e cruel. Não é um olhar de fora para dentro. A ideia é proporcionar à plateia uma visão de 360 graus.''

As imagens de milhares de garimpeiros subindo e descendo as longas escadas, correndo atrás do sonho de riqueza, cobertos de lama, "são cinematográficas por natureza''. Mas nem por isso o diretor pernambucano de 43 anos escolheu "o evento pelo evento". "Registrar apenas a loucura que foi Serra Pelada, a maior concentração de trabalho manual desde as pirâmides do Egito, não me interessaria. Precisei encontrar um ponto de vista e, em especial, uma história que valesse a pena ser contada, tendo a corrida de ouro naquela imensa cava como pano de fundo."

O resultado foi um filme de gângster moderno, criado a partir de histórias de garimpeiros que Dhalia ouviu em Marabá - a cidade mais próxima da cratera cavada no sudeste do Estado do Pará. Ele escreveu o roteiro de "Serra Pelada", atualmente em pós-produção, em parceria com Vera Egito. "O filme levou três anos para sair do papel porque nós demoramos para entender o que foi realmente a maior mina de ouro a céu aberto da idade moderna. O ambiente era cheio de contradições."

Os formigas, como eram conhecidos os garimpeiros, trabalhavam em péssimas condições, sem o auxílio de máquinas. Eles faziam cerca de dez viagens por dia, subindo as encostas íngremes da cava, carregando nas costas sacos de barro de cerca de 50 quilos. Quando as encostas desabavam, muitos morriam soterrados. "Ainda assim, eles não eram escravos de ninguém. Todos se viam como ricos em potencial, como quem joga em Las Vegas ou investe na bolsa de valores", afirma o diretor. "Quando ganhavam dinheiro com o ouro, muitos deles o gastavam de um jeito extravagante. Um garimpeiro chegou a comprar um carro para cada dia da semana."

Ainda sem data de estreia definida (provavelmente no segundo semestre), "Serra Pelada'' retrata a jornada de Juliano (Juliano Cazarré) e Joaquim (Julio Andrade), dois amigos que deixam o Rio de Janeiro em busca de fortuna no garimpo - oficialmente, pelo menos 30 toneladas de ouro foram extraídas daquele buraco, nos tempos áureos.

Como tantos outros garimpeiros, Juliano acaba corrompido pela ganância e pelo poder, tornando-se um gângster na região. Ex-pugilista, ele revela seu lado mais violento em Serra Pelada, o que destrói a amizade com Joaquim - professor que só quer ganhar algum dinheiro e voltar o quanto antes para casa, onde a mulher grávida o espera.

"É um filme masculino, com muitas cenas de ação'', diz Dhalia. Este será seu quinto longa - após "Nina'' (2004), "O Cheiro do Ralo'' (2006), "À Deriva'' (2009) e "12 Horas'' (2012).

"Serra Pelada'' - orçado em R$ 10 milhões, com R$ 7 milhões já captados - teve locações no Pará e em São Paulo, incluindo filmagens em Mogi das Cruzes, onde foram reproduzidas cenas de extração de ouro na antiga cava (que chegou a uma profundidade de quase 200 metros no auge do garimpo) e em Paulínia, na fazenda São João, onde foi reconstruída a vila dos garimpeiros. Era lá que muitos deles gastavam o dinheiro que ganhavam.

Havia mercearias, açougue, barbearia, "biroscas'' (que vendiam bebidas alcoólicas) e os prostíbulos, frequentados em sua maioria por homossexuais chamados de "Marias" - já que a entrada de mulheres era proibida no garimpo. "A vila cenográfica foi meticulosamente reproduzida de acordo com a pesquisa histórica'', diz a produtora Tatiana Quintella, sócia de Heitor Dhalia na empresa Paranoid e produtora de filmes como "A Mulher Invisível" e "Homem do Futuro", ambos de Cláudio Torres.

Foi nessa vila que a equipe construiu a casa de madeira dos protagonistas Juliano e Joaquim. Na época, poucos podiam se dar a esse luxo. A maioria dos garimpeiros dormia em barracas de lona preta. No dia em que a reportagem visitou o set em Paulínia, Dhalia rodou nessa casa uma cena de desentendimento entre os dois amigos.

Pronto para voltar ao Rio, Joaquim é roubado (perdendo tudo o que acumulou com tanto esforço), acusando imediatamente o amigo Juliano. Depois de insultos e agressões físicas, Juliano revela que o autor do crime é Lindo Rico (Wagner Moura, também coprodutor do filme), um tipo ambicioso que semeia a desconfiança entre os amigos para tomar o lugar de Juliano. Na saída da casa, Joaquim é baleado pelos capangas de Lindo Rico.

"O método de filmar de Heitor é muito eficaz. Ele começa registrando a cena de longe e depois aproxima a câmera dos atores, evocando mais o nosso lado emocional'', diz o ator Julio Andrade. Para Juliano Casarré, "Serra Pelada'' é "um filme de macho, mas sem perder o coração''.

"O trabalho exige densidade dramática, principalmente nas cenas de confronto entre os amigos'', diz. Além de Andrade, Casarré e Moura, completam o elenco principal a atriz Sophie Charlotte, no papel de Tereza, a mulher que vira a cabeça de Juliano, e o ator Matheus Nachtergaele, que vive Carvalho, o fazendeiro rico e poderoso que é noivo de Tereza.

A intenção de Dhalia é cruzar fronteiras com a obra, graças ao apelo internacional de um "momento histórico muito particular e genuinamente brasileiro". De preferência, culminar com a seleção do filme no Festival de Cannes, em maio deste ano.

"Vou fazer o possível para que o filme fique pronto até lá. Quando um diretor fala que não sonha com Cannes, certamente está mentindo. Mas não posso pensar muito no festival francês por enquanto. O filme só vai para Cannes se ficar bom. É nisso que preciso me concentrar agora.''

Depois da experiência em Hollywood, com "12 Horas'', onde Dhalia sentiu na pele que o produtor é quem comanda o processo criativo, o diretor procurava um filme com a cara do Brasil, no qual ele pudesse imprimir a sua marca. "É maravilhoso voltar a rodar em casa, apesar de a nossa indústria não estar preparada para filmes do porte de 'Serra Pelada' e apenas para filmes de arte. Muitas vezes, o tamanho da produção pode definir o resultado.''

O cineasta acredita no potencial comercial do título, que já garantiu a sua distribuição no Brasil pela Warner. "É um filme difícil de fazer, pois se trata de uma história humana no gênero de gângster.''

Um dos pontos altos da obra, segundo Dhalia, é a sua dramaturgia. "É o que mais falta ao cinema brasileiro. As tramas não desenvolvem bem os personagens, fazendo com que eles soem falsos. É preciso entender que, sem dramaticidade, a cena não existe", afirma o diretor.


Estado de Minas - Guerreira

Estrelado pela índia Wiranu Tembé, Tainá 2013 A origem é a primeira série do cinema nacional a chegar ao terceiro episódio. Longa ganhou prêmio nos EUA antes mesmo de estrear no Brasil


Walter Sebastião
Wiranu Tembé começou a filmar Tainá 2013 A origem aos 4 anos, antes de aprender a falar português.
(05/02/2013) A indiazinha Tainá, cujo sonho é se tornar guerreira e defender a floresta, deixa para trás as “grifes” famosas e crava a marca de estrelar a primeira franquia do cinema brasileiro a chegar ao terceiro episódio.
A estreia nacional de Tainá – A origem está marcada para sexta-feira, véspera de carnaval. O filme conta o início da trajetória da órfã adotada pelo “vô” Tigê (Gracindo Júnior), que não desiste de sua importante missão. Rejeitada por ser menina, ela vai à luta com a ajuda de Laurinha (Beatriz Noskoski), amiguinha da cidade, e de Gobi (Igor Ozzy), um índio meio nerd, que adora eletrônica.
Rodado no Amazonas, no Pará e no Acre, o longa brasileiro traz tudo o que a região oferece: florestas, árvores gigantescas e rios que parecem mar, além de onças, macacos, preguiças e araras. A heroína ganhou novo rosto: o papel coube a Wiranu Tembé, de 5 anos, descoberta na aldeia paraense de Tekohaw e selecionada entre 2,2 mil meninas da região amazônica.
O roteiro previa uma atriz de 7 anos, mas a indiazinha se saiu tão bem que os planos foram adequados à idade dela. “Quando vi a Wiranu, não consegui tirar mais os olhos. É uma Tainá muito especial”, afirma a diretora Rosane Svartman. A pequena atriz tinha 4 anos quando o longa-metragem começou a ser rodado. Nem sequer falava português. Mas as brincadeiras daquela menina em sua tribo encheram os olhos de Rosane. E entraram no filme. Tainá-Wiranu escala um pé de açaí de mais de 10 metros. “Quando a vi fazendo aquilo, pedi ao roteirista para criar a cena sem cortes, para mostrar que é tudo verdade”, revela a diretora.
Tainá – A origem busca, sobretudo, a emoção. “Mostramos como a protagonista se tornou a guerreira que conhecemos de outros filmes, e também como uma menina se transforma a partir de aventuras, desafios e do convívio com amigos”, explica Rosane Svartman. O fascínio por essa personagem vem da mistura de dois elementos: a heroína da floresta e a pequena guerreira, ingênua e sábia. Palavra de origem tupi-guarani, tainá quer dizer estrela, raio de luz, luz da manhã.
Trabalhar com atores mirins foi um desafio e tanto para a diretora. O mais importante é levar para a tela o frescor que a criança transmite na vida real. “O que aparece fluente, espontâneo, leve e simples no filme é produto de muito trabalho”, avisa Rosane. Isso significa planejar ensaios que tratem as situações da trama como brincadeira, além de evitar que as tensões do set afetem a criançada.
Filmar na Amazônia é complicado. “Chove, faz sol, tem lama, chão arenoso, muito bicho, mosquito. Você tem de pegar barco, van, avião. Mas a região é belíssima, chegamos a locais que estão entre os mais bonitos do mundo”, garante a diretora. Em resumo, Tainá – A origem buscou retratar toda a magia, grandiosidade, beleza e diversidade da floresta.
Outro desafio: filmar bichos selvagens, que não podem ser adestrados. “O macaco ia de um lado para o outro. A equipe, pacientemente, era obrigada a esperar o momento em que a onça decidia se levantar”, relembra Rosane. Foi necessário criar unidade apenas para captar as cenas da fauna.
Tanto esforço valeu a pena: Tainá – A origem já estreia com um prêmio: o de melhor filme, na opinião do público, concedido pelo International Children’s Film, realizado na Califórnia (EUA).
Pai coruja

A história da série Tainá começou quando Pedro Rovai integrava a equipe que filmava documentário sobre populações ribeirinhas da Amazônia. Encantado em ver as crianças se divertindo sem ter brinquedo algum, o produtor propôs a franceses um filme sobre esse aspecto da vida amazônica.


“Mas eles vieram com catástrofe e drama social, enquanto eu imaginava algo otimista, para cima. Ou seja: um filme sobre a alegria das crianças destinado aos pequenos – não aos adultos. E com uma visão encantadora, mas não idílica, da Amazônia. Algo diferente do que vemos todos os dias sobre aquela região”, conta Rovai.
Em 2000, surgiu a primeira incursão de Tainá no cinema: Um aventura na Amazônia, dirigido por Tânia Lamarca e Sérgio Bloch. O segundo longa, de Mauro Lima, foi lançado em 2004: A aventura continua. Esses trabalhos caíram nas graças de ambientalistas, escolas e de festivais de cinema. Conquistaram 22 prêmios em eventos internacionais dedicados à produção infantil.
“Tainá é algo raro: uma personagem de cinema que não veio da literatura ou da televisão”, afirma, vaidoso, Pedro Rovai. Aspecto fundamental do sucesso da série, ressalta ele, é o carisma das Tainás: a pioneira Eunice Bahia, hoje com 21 anos, e agora Wiranu Tembé. Ambas foram descobertas pelo produtor de elenco Cláudio Barros.
A satisfação com o bom resultado não apaga um problema. Produções dessa natureza são caras. “Falta-nos estrutura, como a dos norte-americanos, para fazer filmes assim”, observa Rovai. Por enquanto, A origem encerra o ciclo, acredita o “pai” de Tainá. “Vai ficar na história do nosso cinema o fato de, um dia, um sujeito corajoso ter feito essa trilogia”, orgulha-se.
Os novos planos para a indiazinha, por enquanto, são apenas sonho. Rovai torce para que Tainá seja a estrela de outra série. Desta vez, em animação produzida para a TV.
Pluft vem aí

Rosane Svartman é formada em cinema pela Universidade Federal Fluminense. Diretora e roteirista, ela trabalha também na TV: atualmente, integra a equipe de Malhação (Rede Globo). Lançou dois livros para jovens: Melhores amigas e Onde os porquês têm resposta; dirigiu os longas Como ser solteiro (1998), Mais uma vez amor (2005) e Desenrola (2001). Atualmente, ela desenvolve projeto para adaptar Pluft, o fantasminha, clássico teatral de Maria Clara Machado, para o cinema. “Saio da floresta diretamente para o mundo dos fantasmas”, brinca ela.




Estado de Minas - Chegou a hora

Em abril estreia o primeiro longa-metragem de aventura brasileiro rodado em 3D. O cineasta Paulo Fontenelle quer disputar espaço com produtores estrangeiros que dominam o mercado


Mariana Peixoto
(06/02/2013) Pai divorciado e ausente, manobrista de estacionamento resolve preparar um dia inesquecível para o filho. Pega o carro da cliente para sair com o garoto, mas se envolve numa série de confusões e tem que arrumar um jeito de devolver o veículo inteiro, sem que a dona saiba o que ocorreu. Essa era a ideia do diretor Paulo Fontenelle para o roteiro de um longa-metragem que misturasse aventura e ação, até o projeto sofrer mudança radical. Em vez de filme 2D, como tantos outros, a história seria filmada em 3D. Dessa maneira, Se puder... dirija!, com estreia prevista para 5 de abril, tornou-se o primeiro longa nacional em live action do gênero.
“Como a tecnologia está cada vez mais acessível, a gente viu que falta ao cinema brasileiro ocupar esse espaço no mercado, hoje monopolizado pelos estrangeiros”, afirma Fontenelle. Produzido pela Total Filmes (de Assalto ao Banco Central, Avassaladoras e Divã) e distribuído pela Disney/Buena Vista, o filme traz no elenco Luís Fernando Guimarães, Leandro Hassum e Bárbara Paz.
Outra decisão da produtora foi filmar em 3D com equipe brasileira, experiência quase inédita até então. O primeiro longa do país nesse formato estreou há dois anos: Brasil animado (2011), de Mariana Caltabiano. Mas, como o próprio título indica, trata-se de animação. Se puder... dirija! será o único brasileiro em 3D a chegar aos cinemas em 2013. Para 2014 estão previstas as animações Tarsilinha e Peixonauta.
Fontenelle, que dirige sua segunda ficção – a anterior é o thriller Intruso (2009) –, teve que passar por um processo de aprendizado para trabalhar com as três dimensões. “Para entender a matemática”, explica. Como a tecnologia ainda engatinha no país, a equipe técnica contou com dois nomes experientes: o estenógrafo (que regula o 3D) Pedro Guimarães (brasileiro radicado nos EUA, que traz no currículo Part of me, filme em 3D da cantora Katy Perry), que acabou assumindo a direção de fotografia; e o norte-americano Bobby Settlemire (a série Piratas do Caribe é um dos trabalhos em que esteve envolvido). Ele é foquista, profissional responsável pelos focos, pois para filmar em 3D são necessárias duas câmeras simultâneas.
“O filme foi pensado, planejado e filmado em 3D. Reescrevi o roteiro para que a história tivesse elementos que justificassem o emprego dessa tecnologia”, explica Fontenelle. Como boa parte da narrativa se passa dentro de um carro, a ideia era fazer o espectador se sentir como passageiro. Piadas que só fazem sentido em 3D foram outro artifício. “Em certo momento, um jato d’água ‘molha’ o espectador justamente depois de o personagem do Leandro Hassum fazer piada sobre isso”, revela.
Filmar em três dimensões demanda uma série de precauções. “Não se pode jogar tudo para fora da tela. Quando as pessoas saem do cinema com dor de cabeça, é porque o 3D foi mal usado. Ele mexe com a distância interocular, então você deve ser cuidadoso com o espectador, pois não pode ter um elemento pipocando para fora da tela o tempo todo. As imagens têm que ser vistas de forma equilibrada”, explica o cineasta.
Como foi a primeira experiência do diretor nesse formato, Se puder... dirija! teve suas especificidades. “O fato de filmar com duas câmeras, que devem ser medidas o tempo todo, faz com que o processo demore mais. Além disso, tivemos que nos lembrar sempre de que o filme precisaria funcionar em 2D também. Ou seja, independentemente de qualquer coisa, o foco é sempre a história”, conclui Fontenelle.




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