Assim Falava Zaratustra



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Assim Falava Zaratustra


Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

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eBooksBrasil

Assim Falava Zaratustra
Frederico Nietzsche
Tradução base
José Mendes de Souza

Versão para eBook


eBooksBrasil.com

Fonte Digital


Digitalização de edição em papel

© 2002 — Frederico Nietzsche



ÍNDICE

PRIMEIRA PARTE
Preâmbulo de Zaratustra

OS DISCURSOS DE ZARATUSTRA
Das Três Transformações
Das Cátedras da Virtude
Dos Crentes em Além Mundos
Dos que Desprezam o Corpo
Das Alegrias e Paixões
Do Pálido Delinqüente
Ler e Escrever
Da Arvore da Montanha
Dos Pregadores da Morte
Da Guerra e dos Guerreiros
Do Novo Ídolo
Das Moscas da Praça Pública
Da Castidade
Do Amigo
Os Mil Objetos e o Único Objeto
Do Amor ao Próximo
Do Caminho do Criador
A Velha e a Nova
A Picada da Víbora
Do Filho do Matrimônio
Da Morte Livre
Da Virtude Dadivosa

SEGUNDA PARTE


A Criança do Espelho
Nas Ilhas Bem-Aventuradas
Dos Compassivos
Dos Sacerdotes
Dos Virtuosos
Da Canalha
Das Tarântulas
Dos Sábios Célebres
O Canto da Noite
O Canto do Baile
O Canto do Sepulcro
Da Vitória Sobre si Mesmo
Dos Homens Sublimes
Do País da Civilização
Do Imaculado Conhecimento
Dos Doutos
Dos Poetas
Dos Grandes Acontecimentos
O Adivinho
Da Redenção
Da Circunspecção Humana
A Hora Silenciosa

TERCEIRA PARTE


O Viajante
Da Visão e do Enigma
Da Beatitude Involuntária
Antes do Nascer do Sol
Da Virtude Amesquinhadora
No Monte das Oliveiras
De Passagem
Dos Trânsfugas
O Regresso
Dos Três Males
Do Espírito do Pesadume
Das Antigas e Das Novas Tábuas
O Convalescente
Do Grande Anelo
O Outro Canto do Baile
Os Sete Selos

QUARTA E ÚLTIMA PARTE


A Oferta do Mel
O Grito de Angústia
Conversação com os Reis
A Sanguessuga
O Encantador
Fora de Serviço
O Homem mais Feio
O Mendigo Voluntário
A Sombra
Ao Meio Dia
A Saudação
A Ceia
O Homem Superior
O Canto da Melancolia
Da Ciência
Entre as Filhas do Deserto
O Deserto Cresce, ai Daquele que Oculta Desertos!
O Despertar
A Festa do Burro
O Canto de Embriaguez
O Sinal

APÊNDICE I


Origem de ASSIM FALAVA ZARATUSTRA

APÊNDICE II


Histórico da Origem de ASSIM FALAVA ZARATUSTRA

ASSIM FALAVA


ZARATUSTRA


Um livro para todos e para ninguém



FREDERICO
NIETZSCHE


PRIMEIRA PARTE

PREÂMBULO DE ZARATUSTRA

I


     Aos trinta anos apartou-se Zaratustra da sua pátria e do lago da sua pátria, e foi-se até a montanha. Durante dez anos gozou por lá do seu espírito e da sua soledade sem se cansar. Variaram, porém, os seus sentimentos, e uma manhã, erguendo-se com a aurora, pôs-se em frente do sol e falou-lhe deste modo:
     “Grande astro! Que seria da tua felicidade se te faltassem aqueles a quem iluminas? Faz dez anos que te abeiras da minha caverna, e, sem mim, sem a minha águia e a minha serpente, haver-te-ias cansado da tua luz e deste caminho.
     Nós, porém, esperávamos-te todas as manhãs, tomávamos-te o supérfluo e bemdizíamos-te.
     Pois bem: já estou tão enfastiado da minha sabedoria, como a abelha que acumulasse demasiado mel. Necessito mãos que se estendam para mim.
     Quisera dar e repartir até que os sábios tornassem a gozar da sua loucura e os pobres da sua riqueza.
     Por isso devo descer às profundidades, como tu pela noite, astro exuberante de riqueza quando transpões o mar para levar a tua luz ao mundo inferior.
     Eu devo descer, como tu, segundo dizem os homens a quem me quero dirigir.
     Abençoa-me, pois, olho afável, que podes ver sem inveja até uma felicidade demasiado grande!
     Abençoa a taça que quer transbordar, para que dela manem as douradas águas, levando a todos os lábios o reflexo da tua alegria!
     Olha! Esta taça quer de novo esvaziar-se, e Zaratustra quer tornar a ser homem”.
     Assim principiou o caso de Zaratustra.

II

     Zaratustra desceu sozinho das montanhas sem encontrar ninguém. Ao chegar aos bosques deparou-se-lhe de repente um velho de cabelos brancos que saíra da sua santa cabana para procurar raízes na selva. E o velho falou a Zaratustra desta maneira:


     “Este viandante não me é desconhecido: passou por aqui há anos. Chamava-se Zaratustra, mas mudou.
     Nesse tempo levava as suas cinzas para a montanha. Quererá levar hoje o seu fogo para os vales? Não terá medo do castigo que se reserva aos incendiários?
     Sim; reconheço Zaratustra. O seu olhar, porém, e a sua boca não revelam nenhum enfado. Parece que se dirige para aqui como um bailarino!
     Zaratustra mudou, Zaratustra tornou-se menino, Zaratustra está acordado. Que vais fazer agora entre os que dormem?
     Como no mar vivias, no isolamento, e o mar te levava. Desgraçado! Queres saltar em terra? Desgraçado! Queres tornar a arrastar tu mesmo o teu corpo?”
     Zaratustra respondeu: “Amo os homens”.
     “Pois por que — disse o santo — vim eu para a solidão? Não foi por amar demasiadamente os homens?
     Agora, amo a Deus; não amo os homens.
     O homem é, para mim, coisa sobremaneira incompleta. O amor pelo homem matar-me-ia”.
     Zaratustra respondeu: “Falei de amor! Trago uma dádiva aos homens”.
     “Nada lhes dês — disse o santo. — Pelo contrário, tira-lhes qualquer coisa e eles logo te ajudarão a levá-la. Nada lhes convirá melhor, de que quanto a ti te convenha.
     E se queres dar não lhes dês mais do que uma esmola, e ainda assim espera que tá peçam”.
     “Não — respondeu Zaratustra; — eu não dou esmolas. Não sou bastante pobre para isso”.
     O santo pôs-se a rir de Zaratustra e falou assim: “Então vê lá como te arranjas para te aceitarem os tesouros. Eles desconfiam dos solitários e não acreditam que tenhamos força para dar.
     As nossas passadas soam solitariamente demais nas ruas. E, ao ouvi-las perguntam assim como de noite, quando, deitados nas suas camas, ouvem passar um homem muito antes do alvorecer: Aonde irá o ladrão?
     Não vás para os homens! Fica no bosque!
     Prefere à deles a companhia dos animais! Por que não queres ser como eu, urso entre os ursos, ave entre as aves?”.
     “E que faz o santo no bosque?” — perguntou Zaratustra.
     O santo respondeu: “Faço cânticos e canto-os, e quando faço cânticos rio, choro e murmuro.
     Assim louvo a Deus.
     Com cânticos, lágrimas, risos e murmúrios louvo ao Deus que é meu Deus. Mas, deixa ver: que presente nos trazes?”.
     Ao ouvir estas palavras, Zaratustra cumprimentou o santo e disse-lhe: “Que teria eu para vos dar? O que tens a fazer é deixar-me caminhar, correndo, para vos não tirar coisa nenhuma”.
     E assim se separaram um do outro, o velho e o homem, rindo como riem duas criaturas.
     Quando, porém, Zaratustra se viu só, falou assim, ao seu coração: “Será possível que este santo ancião ainda não ouvisse no seu bosque que Deus já morreu?”

III

     Chegando à cidade mais próxima, enterrada nos bosques, Zaratustra encontrou uma grande multidão na praça pública, porque estava anunciado o espetáculo de um bailarino de corda.


     E Zaratustra falou assim ao povo:
     “Eu vos anuncio o Super-homem”. (1)
     “O homem é superável. Que fizestes para o superar?
     Até agora todos os seres têm apresentado alguma coisa superior a si mesmos; e vós, quereis o refluxo desse grande fluxo, preferís tornar ao animal, em vez de superar o homem?
     Que é o macaco para o homem? Uma irrisão ou uma dolorosa vergonha. Pois é o mesmo que deve ser o homem para Super-homem: uma irrisão ou uma dolorosa vergonha.
     Percorrestes o caminho que medeia do verme ao homem, e ainda em vós resta muito do verme. Noutro tempo fostes macaco, e hoje o homem é ainda mais macaco do que todos os macacos.
     Mesmo o mais sábio de todos vós não passa de uma mistura híbrida de planta e de fantasma. Acaso vos disse eu que vos torneis planta ou fantasma?
     Eu anuncio-vos o Super-homem!
     O Super-homem é o sentido da terra. Diga a vossa vontade: seja o Super-homem, o sentido da terra.
     Exorto-vos, meus irmãos, a permanecer fiéis à terra e a não acreditar naqueles que vos falam de esperanças supra-terrestres.
     São envenenadores, quer o saibam ou não.
     São menosprezadores da vida, moribundos que estão, por sua vez, envenenados, seres de quem a terra se encontra fatigada; vão-se por uma vez!
     Noutros tempos, blasfemar contra Deus era a maior das blasfêmias; mas Deus morreu, e com ele morreram tais blasfêmias. Agora, o mais espantoso é blasfemar da terra, e ter em maior conta as entranhas do impenetrável do que o sentido da terra.
     Noutros tempos a alma olhava o corpo com desdém, e então nada havia superior a esse desdém: queria a alma um corpo fraco, horrível, consumido de fome! Julgava deste modo libertar-se dele e da terra.
     Ó! Essa mesma alma era uma alma fraca, horrivel e consumida, e para ela era um deleite a crueldade!
     Irmãos meus, dizei-me: que diz o vosso corpo da vossa alma? Não é a vossa alma, pobreza, imundície e conformidade lastimosa?
     O homem é um rio turvo. É preciso ser um mar para, sem se toldar, receber um rio turvo.
     Pois bem; eu vos anuncio o Super-homem; é ele esse mar; nele se pode abismar o vosso grande menosprezo.
     Qual é a maior coisa que vos pode acontecer? Que chegue a hora do grande menosprezo, a hora em que vos enfastie a vossa própria felicidade, de igual forma que a vossa razão e a vossa virtude.
     A hora em que digais: “Que importa a minha felicidade! É pobreza, imundície e conformidade lastimosa.
     A minha felicidade, porém, deveria justificar a própria existência!”
     A hora em que digais: “Que importa minha razão! Anda atrás do saber como o leão atrás do alimento. A minha razão é pobreza, imundície e conformidade lastimosa!”
     A hora em que digais: “Que importa a minha virtude? Ainda me não enervou. Como estou farto do meu bem e do meu mal. Tudo isso é pobreza, imundície e conformidade lastimosa!”
     A hora em que digais: “Que importa a minha justiça?! Não vejo que eu seja fogo e carvão! O justo, porém, é fogo e carvão!”
     A hora em que digais: “Que importa a minha piedade? Não é a piedade a cruz onde se crava aquele que ama os homens? Pois a minha pieda,de é uma crucificação”.
     Já falaste assim? Já gritaste assim? Ah! Não vos ter eu ouvido a falar assim!
     Não são os vossos pecados, é a vossa parcimônia que clama ao céu! A vossa mesquinhez até no pecado, isso é que clama ao céu!
     Onde está, pois, o raio que vos lamba com a sua língua? Onde está o delírio que é mister inocular-vos?
     Vede; eu anuncio-vos o Super-homem: “É ele esse raio! É ele esse delírio!”
     Assim que Zaratustra disse isto, um da multidão exclamou: “Já ouvimos falar demasiado do que dança na corda; mostrá-no-lo agora”. E toda a gente se riu de Zaratustra. Mas o dançarino da corda, julgando que tais palavras eram com ele, pôs-se a trabalhar.

IV

     Entretanto, Zaratustra olhava a multidão, e assombrava-se. Depois falava assim:


     “O homem é corda estendida entre o animal e o Super-homem: uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar, perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar.
     O grande do homem é ele ser uma ponte, e não uma meta; o que se pode amar no homem é ele ser uma passagem e um acabamento (1).
     Eu só amo aqueles que sabem viver como que se extinguindo, porque são esses os que atravessam de um para outro lado.
     Amo os grandes desdenhosos, porque são os grandes adoradores, as setas do desejo ansiosas pela outra margem.
     Amo os que não procuram por detrás das estrelas uma razão para morrer e oferecer-se em sacrifício, mas se sacrificam pela terra, para que a terra pertença um dia ao Super-homem.
     Amo o que vive para conhecer, e que quer conhecer, para que um dia viva o Super-homem, porque assim quer o seu acabamento.
     Amo o que trabalha e inventa, a fim de exigir uma morada ao Super-homem e preparar para ele a terra, os animais e as plantas, porque assim quer o seu acabamento.
     Amo o que ama a sua virtude, porque a virtude é vontade de extinção e uma seta do desejo.
     Amo o que não reserva para si uma gota do seu espírito, mas que quer ser inteiramente o espírito da sua virtude, porque assim atravessa a ponte como espírito.
     Amo o que faz da sua virtude a sua tendência e o seu destino, pois assim, por sua virtude, quererá viver ainda e deixar de viver.
     Amo o que não quer ter demasiadas virtudes. Uma virtude é mais virtude do que duas, porque é mais um nó a que se aferra o destino.
     Amo o que prodigaliza a sua alma, o que não quer receber agradecimentos nem restitui, porque dá sempre e se não quer preservar.
     Amo o que se envergonha de ver cair o dado a seu favor e que pergunta ao ver tal: “Serei um jogador fraudulento?” porque quer submergir-se.
     Amo o que solta palavras de ouro perante as suas obras e cumpre sempre com usura o que promete, porque quer perecer.
     Amo o que justifica os vindouros e redime os passados, porque quer que o combatam os presentes.
     Amo o que castiga o seu Deus, porque ama o seu Deus, pois a cólera do seu Deus o confundirá.
     Amo aquele cuja alma é profunda, mesmo na ferida, e ao que pode aniquilar um leve acidente, porque assim de bom grado passará a ponte.
     Amo aquele cuja alma transborda, a ponto de se esquecer de si mesmo e quanto esteja nele, porque assim todas as coisas se farão para sua ruína.
     Amo o que tem o espírito e o coração livres, porque assim a sua cabeça apenas serve de entranhas ao seu coração, mas o seu coração, o leva a sucumbir.
     Amo todos os que são como gotas pesadas que caem uma a uma da sombria nuvem suspensa sobre os homens, anunciam o relâmpago próximo e desaparecem como anunciadores.
     Vede: eu sou um anúncio do raio e uma pesada gota procedente da nuvem; mas este raio chama-se o Super-homem”.

V

     Pronunciadas estas palavras, Zaratustra tornou a olhar o povo, e calou-se. “Riem-se — disse o seu coração. — Não me compreendem; a minha boca não é a boca que estes ouvidos necessitam.


     Terei que principiar por lhes destruir os ouvidos para que aprendam a ouvir com os olhos? Terei que atroar à maneira de timbales ou de pregadores de Quaresma? Ou só acreditarão nos gagos?
     De qualquer coisa se sentem orgulhosos. Como se chama então, isso de que estão orgulhosos? Chama-se civilização: é o que se distingue dos cabreiros.
     Isto, porém, não gostam eles de ouvir, porque os ofende a palavra “desdém”.
     Falar-lhes-ei, portanto, ao orgulho.
     Falar-lhes-ei do mais desprezível que existe, do último homem.
     E Zaratustra falava assim ao povo:
     “É tempo que o homem tenha um objetivo.
     É tempo que o homem cultive o germe da sua mais elevada esperança.
     O seu solo é ainda bastante rico, mas será pobre, e nele já não poderá medrar nenhuma árvore alta.
     Ai! aproxima-se o tempo em que o homem já não lançará por sobre o homem a seta do seu ardente desejo e em que as cordas do seu arco já não poderão vibrar.
     Eu vo-lo digo: é preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante.
     Eu vo-lo digo: tendes ainda um caos dentro de vós outros.
     Ai! Aproxima-se o tempo em que o homem já não dará a luz às estrelas; aproxima-se o tempo do mais desprezível dos homens, do que já se não pode desprezar a si mesmo.
     Olhai! Eu vos mostro o último homem.
     Que vem a ser isso de amor, de criação, de ardente desejo, de estrela? — pergunta o último homem, revirando os olhos.
     A terra tornar-se-á então mais pequena, e sobre ela andará aos pulos o último homem, que tudo apouca. A sua raça é indestrutível como a da pulga; o último homem é o que vive mais tempo.
     “Descobrimos a felicidade” — dizem os últimos homens, e piscam os olhos.
     Abandonaram as comarcas onde a vida era rigorosa, porque uma pessoa necessita calor. Ainda se quer ao vizinho e se roçam pelo outro, porque uma pessoa necessita calor.
     Enfraquecer e desconfiar parece-lhes pecaminoso; anda-se com cautela. Insensato aquele que ainda tropeça com as pedras e com os homens!
     Algum veneno uma vez por outra, é coisa que proporciona agradáveis sonhos. E muitos venenos no fim para morrer agradavelmente.
     Trabalha-se ainda porque o trabalho é uma distração; mas faz-se de modo que a distração não debilite.
     Já uma pessoa se não torna nem pobre nem rica; são duas coisas demasiado difíceis. Quem quererá ainda governar? Quem quererá ainda obedecer? São duas coisas demasiado custosas.
     Nenhum pastor, e só um rebanho! Todos querem o mesmo, todos são iguais: o que pensa de outro modo vai por seu pé para o manicômio.
     “Noutro tempo toda a gente era doida” — dizem os perspicazes, e reviram os olhos.
     É-se prudente, e está-se a par do que acontece: desta maneira pode-se zombar sem cessar. Questiona-se ainda, mas logo se fazem as pazes; o contrário altera a digestão.
     Não falta um pouco de prazer para o dia e um pouco de prazer para a noite; mas respeita-se a saúde.
     “Descobrimos a felicidade” — dizem os últimos homens — e reviram os olhos”.
     Aqui acabou o primeiro discurso de Zaratustra, — que também se chama preâmbulo — porque neste ponto foi interrompido pelos gritos e pelo alvoroço da multidão. “Dá-nos esse último homem, Zaratustra — exclamaram — torna-nos semelhantes a esses últimos homens! perdoar-te-emos o Super-homem”.
     E todo o povo era alegria. Zaratustra entristeceu e disse consigo:
     “Não me compreendem; não. Não é da minha boca que estes ouvidos necessitam.
     Vivi demais nas montanhas, escutei demais os arroios e as árvores, e agora falo-lhes como um pastor.
     A minha alma é sossegada e luminosa como o monte pela manhã; mas eles julgam que sou um frio e astuto chocareiro.
     Ei-los olhando-me e rindo-se, e enquanto se riem, continuam a odiar-me. Há gelo nos seus risos”.

VI

     Sucedeu, porém, qualquer coisa que fez emudecer todas as bocas e atraiu todos os olhares.


     Entrementes pusera-se a trabalhar o volteador; saíra de uma pequena porta e andava pela maroma presa a duas torres sobre a praça pública e a multidão.
     Quando estava justamente na metade do caminho abriu-se outra vez a portinhola, donde saltou o segundo acrobata que parecia um palhaço com as suas mil cores, o qual seguiu rapidamente o primeiro. “Depressa, bailarino! — gritou a sua horrível voz. — “Depressa, mandrião, manhoso, cara deslavada! Olha que te piso os calcanhares!
     Que fazes aqui entre estas torres? Na torre devias tu estar metido; obstrues o caminho a outro mais ágil do que tu!” E a cada palavra se aproximava mais, mas, quando se encontrou a um passo, sucedeu essa coisa terrível que fez calar todas as bocas e atraiu todos os Olhares; lançou um grito diabólico e saltou por cima do que lhe interceptava o caminho.
     Este, ao ver o rival vitorioso, perdeu a cabeça e a maroma, largou o balancim e precipitou-se no abismo como um remoinho de braços e pernas. A praça pública e a multidão pareciam o mar quando se desencadeia a tormenta. Todos fugiram atropeladamente, em especial do sítio onde deveria cair o corpo.
     Zaratustra permaneceu imóvel, e junto dele caiu justamente o corpo, destroçado, mas vivo ainda. Passado um momento o ferido recuperou os sentidos e viu Zaratustra ajoelhado junto de si. “Que fazes aqui? — lhe disse. Já há tempo que eu sabia que o diabo me havia de derrubar. Agora arrasta-me para o inferno. Queres impedi-lo?”
     “Amigo — respondeu Zaratustra — palavra de honra que tudo isso de que falas não existe, não há diabo nem inferno. A tua alma ainda há de morrer mais depressa do que o teu corpo; nada temas”.
     O homem olhou receioso. “Se dizes a verdade — respondeu — nada perco ao perder a vida. Não passo de uma besta que foi ensinada a dançar a poder de pancadas e de fome”.
     “Não — disse Zaratustra — fizeste do perigo o teu ofício, coisa que não é para desprezar.
     Agora por causa do teu ofício sucumbes e atendendo a isso vou enterrar-te por minha própria mão”.
     O moribundo já não respondeu, mas moveu a mão como se procurasse a de Zaratustra para lhe agradecer.

VII

     Abeirava-se a noite, e a praça sumia-se nas trevas. Então a multidão dispersou-se porque até a curiosidade e o pavor se cansam. Sentado ao pé do cadáver, Zaratustra encontrava-se tão abismado nas suas reflexões que se esqueceu do tempo. Fez-se noite e sobre o solitário soprou um vento frio. Zaratustra ergueu-se então, e disse consigo:


     “Na verdade, Zaratustra fez hoje uma boa pesca! Não alcançou um homem, mas um cadáver!
     Coisa para nos preocupar é a vida humana, e sempre vazia de sentido: um trovão lhe pode ser fatal!
     Quero ensinar aos homens o sentido da sua existência, que é o Super-homem, o relâmpago que brota da sombria nuvem homem.
     Estou, porém, longe deles, e o meu sentido nada diz aos seus sentidos. Para os homens sou uma coisa intermediária entre o doido e o cadáver.
     Escura é a noite, escuros são os caminhos de Zaratustra. Vem, companheiro frio e rigido! Levar-te-ei ao sítio onde por minha mão te enterrarei”.

VIII

     Dito isto ao seu coração, Zaratustra deitou o cadáver às costas e pôs-se a caminho. Ainda não andara cem passos quando se lhe acercou furtivamente um homem e lhe falou baixinho ao ouvido. O que falava era o palhaço da torre. Eis o que lhe dizia: — “Sai desta cidade, Zaratustra, — há aqui demasiada gente que te odeia. Os bons e os justos odeiam-te e chamam-te seu inimigo e desprezador; os fiéis da verdadeira crença odeiam-te e dizem que és o perigo da multidão. Ainda tiveste sorte em zombarem de ti, e na verdade falavas como um truão. Tiveste sorte em te associar a esse vilão desse morto; rebaixando-te, por essa forma salvaste-te por hoje; mas sai desta cidade, ou amanhã salto eu por cima de ti, um vivo por cima de um morto”. E o homem desapareceu, e Zaratustra seguiu o seu caminho pelas escuras ruas.


     À porta da cidade encontrou os coveiros.
     Estes aproximaram-lhe da cara as enxadas, e conheceram Zaratustra e troçaram muito dele. “Zaratustra leva o indigno morto! Bravo! Zaratustra tornou-se coveiro! As nossas mãos são puras demais para tocar nessa peça! Com que então Zaratustra quer roubar o pitéu ao demônio! Apre! Bom proveito! Isto se o diabo não for melhor ladrão que Zaratustra e os não roubar aos dois!” E riam entre si, cochichando.
     Zaratustra não respondeu palavra e seguiu seu caminho. Passadas duas horas a andar à beira de bosques e de lagoas; já ouvira latir os lobos esfomeados, e também a ele o atormentava a fome. Por esse motivo parou diante de uma casa isolada onde brilhava uma luz.
     “Apodera-se de mim a fome como um salteador — disse Zaratustra: — no meio dos bosques e das lagoas e na escura noite me surpreende.
     A minha fome tem estranhos caprichos. Em geral só me aparece depois de comer, e hoje em todo o dia não me apareceu. Onde se entreteria então?”.
     Assim dizendo, Zaratustra bateu à porta da casa. Logo apareceu um velho com uma luz e perguntou: “Quem se abeira de mim e do meu fraco sono?”
     “Um vivo e um morto — respondeu Zaratustra. — Dá-me de comer e de beber; esqueci-me de o fazer durante o dia. Quem dá de comer ao faminto reconforta a sua própria alma: assim falava a sabedoria”.
     O velho retirou-se; mas tornou no mesmo instante e ofereceu a Zaratustra pão e vinho. “Ruim terra é esta para os que têm fome — disse ele — por isso eu habito nela. Homens e animais de mim se aproximam, de mim, o solitário. Mas chama também o teu companheiro para comer e beber; está mais cansado do que tu”. Zaratustra respondeu: “O meu companheiro está morto; não é fácil decidi-lo a comer”. “Nada tenho com isto — resmungou o velho. — O que bate à minha porta deve receber o que lhe ofereço. Come, e passa bem”.
     Zaratustra tornou a andar outras duas horas, confiando-se ao caminho e à luz das estrelas, porque estava acostumado às caminhadas noturnas e gostava de contemplar tudo quanto dorme. Quando principiou a raiar a aurora encontrava-se num espesso bosque e já não via nenhum caminho. Então colocou o cadáver no côncavo de uma árvore à altura da sua cabeça — pois queria livrá-lo dos lobos — e deitou-se no solo sobre a relva. No mesmo instante adormeceu cansado de corpo, mas com a alma tranqüila.


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