Associação Brasileira de Psicologia Social- abrapso psicologia & sociedade



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Associação Brasileira de Psicologia Social- ABRAPSO

PSICOLOGIA & SOCIEDADE
volume 10 número 2 julho/dezembro 1998 ISSN 0102-7182

Índice
5 Entrevista com Regina Helena de Freitas Campos

19 COELHO, M. H. M. "Machado de Assis e o poder"

32 GONZÁLEZ REY, F. L "Lo cualitativo y lo cuantitativo en la investigación de la psicoIogía social"

53 LOPES, J. R. "O sujeito e seus modos de subjetivação"

76 MUNNÉ, F. "Constructivismo, construccionismo y complejidad"

95 NOVO, H. A. "A dimensão ético-afetiva das práticas sociais"

105 RAMOS, C. "Relações entre a socialização do gozo e a sustenta-

ção subjetiva da racionalidade tecnológica"

117 SAWAIA, B. "A crítica ético-epistemológica da psicologia social pela questão do sujeito"

137 WIESENFELD, E. "El construccionismo crítico: su pertinencia en la psicología social comunitaria"

Capa:Arte de Roberto Temin a partir de quadro "A intriga" (1890),

de James Ensor (1860-1949) - Museu Real de Belas Artes (Antuérpia)
PSICOLOGIA & SOCIEDADE
volume 10 number 2 january /june 1998 ISSN 0102-7182

Summary
5 Interview with Regina Helena de Freitas Campos

19 COELHO, M. H. M. "Machado de Assis and the power"

32 GONZÁLEZ REY, F. L. "The qualitative and quantitative in research on social psychology

53 LOPES, J. R. "The subject and his modes of subjectivation"

76 MUNNÉ, F. "Constructivism, constructionism and complexity"

95 NOVO, H. A. "The ethical-affective dimension of the social practices"

105 RAMOS, C. "Relations between socialization of jouissance and the subjective maintenance of the technological rationality"

117 SAWAIA, B. "The ethical and epistemological critique of the psychology by the question of subject"

137 WIESENFELD, E. "The critical construetionisms: its relevance in community social psychology"


PSICOLOGIA & SOCIEDADE

Vol. 10 número 2 julho/dezembro de 1998 ABRAPSO

PRESIDENTE: Elizabeth M. Bonfim

VICE-PRESIDENTES: Omar Ardans, Vânia Franco, M. de Fátima Q.de Freitas, Neide P. Nóbrega, M. da Graça Jacques.

CONSELHO EDITORIAL

Celso P. de Sá, César W. de L. Góis, Clélia M. N. Schulze, Denise Jodelet, Elizabeth M. Bonfim, Fernando Rey, Frederic Munné, Karl E. Scheibe, Leôncio Camino, Luis F. R. Bonin, M. de Fátima Q. Freitas, M. do Carmo Guedes, Marília N. da M. Machado, Mario Golder, Maritza Monteiro, Mary J. P. Spink, Pablo F. Christieb, Pedrinho Guareschi, Regina H. F. Campos, Robert Farr, Silvia T. M. Lane, Sylvia Leser de Mello.


EDITOR

Antonio da Costa Ciampa

EDITOR ASSISTENTE Cecília P. Alves
COMISSÃO EDITORIAL

Antonio da Costa Ciampa, Cecília P. Alves, Helena M. R. Kolyniak, J. Leon Crochik, Marcos V. Silva, Marlito de S. Lima, Mônica L. B. Azevedo, Omar Ardans, Salvador A. M. Sandoval, Suely H. Satow.

ADMINISTRAÇÃO

Helena M. R. Kolyniak

EDITORAÇÃO ELETRÔNICA Hacker Editores / Fabiane Villela Marroni
ARTE DE CAPA

AREA
IMPRESSÃO

Artcolor

JORNALISTA RESPONSÁVEL Suely Harumi Satow (MTb 14.525)


Correspondência redação:

Rua Ministro Godói, 969 - 4° andar - sala 4B-03 - CEP 05015-000 São Paulo SP fone/fax: (011) 3670-8520-

E-mail: pssocial@exatas.pucsp.br

E-mail do Editor : acciampa@exatas.pucsp.br ASSINATURAS: videsite www.psicologiaesociedade.com.br

(c) dos Autores

Solicita-se permuta/exchange desired

A revista Psicologia & Sociedade é editada pela Associação Brasileira de Psicologia Social- ABRAPSO.
"A CARACTERÍSTICA CULTURAL

LATINOAMERICANA QUE TEM DESAFIADO OS ANALISTAS É PRECISAMENTE A SUA PLURALIDADE"


Entrevista com Regina Helena de Freitas Campos

(por Antonio da Costa Ciampa)


Uma visão do desenvolvimento histórico de nossa psicologia social é apresentada nesta entrevista, para permitir aos leitores uma compreensão crítica da situação em que se encontra atualmente essa área de conhecimento. Dificilmente encontraríamos pessoa mais qualificada que Regina Helena para esta difícil tarefa. Aqui, de forma clara, concisa e aprofundada, ela nos oferece instigantes respostas a questões muito complexas como, por exemplo, qual o sentido de se falar hoje em psicologia social do Brasil e da América Latina Vamos deixar aos leitores o prazer de ir descobrindo no texto outras questões que são por ela esclarecidas.

Apenas vamos falar um pouco sobre nossa entrevistada, para aqueles que ainda não a conhecem bem. Ativa e competente participante da ABRAPSO, vem cada vez mais se destacando como pesquisadora, sendo atualmente Coordenadora do Grupo de História da Psicologia da ANPEP. Dedica-se também à docência como professora de pós graduação da UFMG, em Psicologia e em Educação.

A intensa atividade que desenvolve em sua especialidade evidencia-se em dois projetos dos quais participa de forma relevante, exercendo atualmente a coordenação de ambos. Um é o projeto do Memorial Helena Antipoff, visando o resgate de um acervo histórico importantíssimo sobre aquela outra grande educadora e psicóloga. ° segundo é o projeto Arquivos UFMG de História da Psicologia no Brasil, em fase de consolidação, iniciativa que certamente promoverá grandes avanços em nossos estudos históricos.

Em breve deverá publicar, como editora, juntamente com Pedrinha Guareschi, os trabalhos apresentados no Colóquio Internacional da ABRAPSO, sobre Paradigmas em Psicologia Social para a América Latina


CIAMPA: Esta entrevista tem como objetivo oferecer aos leitores desta

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Entrevista com Regina Helena de Freitas Campos: “A característica cultural

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revista uma visão do desenvolvimento histórico de nossa psicologia social, que lhes permita uma compreensão crítica de sua realidade atual. Deliberadamente, usei a expressão "nossa psicologia social", para poder deixar como pergunta de fundo: se e quando se deve falar em psicologia social "do Brasil" ou psicologia social "no Brasil"? Talvez a resposta completa tenha que ser dada ao longo de toda a entrevista...

REGINA HELENA: É verdade, é difícil dar uma resposta completa a esta pergunta de uma só vez. Pessoalmente, acho muito simpática e apropriada a expressão "nossa psicologia social". Podemos dizer que temos uma psicologia social que é nossa: temos uma rede de pesquisadores que trabalham em perspectivas semelhantes, vários programas de pós-graduação que se dedicam ao ensino e à pesquisa em psicologia social em níveis bastante avançados e com grande competência, temos líderes de expressão internacional, temos uma bela revista, uma grande associação científica na área – a ABRAPSO, enfim, temos uma psicologia social que é nossa.

Quanto a dizer que se trata de uma psicologia social do Brasil, acho mais complicado, prefiro dizer que é uma psicologia social feita no Brasil, com as marcas das preocupações e desafios enfrentados pelos cientistas sociais brasileiros. Creio que é assim mesmo que a psicologia social tem se desenvolvido em outros lugares: como resposta a questões psicossociais colocadas por cada formação social em momentos históricos determinados. Temos já uma boa literatura que trata da história da psicologia social em termos mais amplos, e que mostra precisamente essa correspondência entre a produção científica e as demandas colocadas pela sociedade, e até mesmo a influência das ideologias hegemônicas no período considerado sobre o tipo de enfoque teórico adotado pelos pesquisadores. O próprio Gordon Allport, considerado um clássico na historiografia da área, no capítulo sobre o background histórico da psicologia social publicado pela primeira vez na edição de 1954 do Handbook of Social Psychology e reeditado nas edições de 1968 e de 1985, sublinha as relações entre a produção teórica da psicologia social moderna e as questões relacionadas à sobrevivência das sociedades democráticas em um mundo dominado pela ameaça do fascismo e/ou do totalitarismo. Também Dorwin Cartwright, em sua revisão da história da psicologia social publicada em 1978, e que expressa o ponto de vista, como ele diz, de um "insider", isto é, de um pesquisador que participou do desenvolvimento da disciplina 110S Estados Unidos logo após o final da Segunda Guerra Mundial, comentou esta associação entre as opções teóricas, os temas de pesquisa e a

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problemática da época. Cartwright fez até uma brincadeira com isso, dizendo que se tivesse que nomear uma só pessoa que tivesse influenciado mais fortemente a psicologia social no século XX, ele diria que foi Adolf Hitler. Com isso ele queria dizer que foi Hitler (ou seja, o nazismo, com seus desdobramentos em termos de psicologia de mas­sa, de autoritarismo, de intolerância, de preconceito) que teria coloca­do as grandes questões que vieram a se tomar o tema central da pesquisa em psicologia social no século XX: a influência do líder sobre o comportamento das multidões, os processos de influência social em geral, a dinâmica do autoritarismo e do preconceito. Com efeito, se consultamos os manuais de psicologia social publicados nos Estados Unidos nas décadas de 60 e 70, podemos facilmente verificar a presença significativa dessas temáticas no trabalho dos pesquisadores. A propósito, vale lembrar o trabalho de Asch sobre a influência da maioria sobre a minoria (que mais tarde viria a motivar o programa de pesquisa de Moscovici sobre as minorias ativas), o trabalho de Adorno e seus colaboradores sobre a personalidade autoritária, a pesquisa de Milgran1 sobre a obediência à autoridade, para citar apenas alguns autores, mais conhecidos. Creio portanto que, assim como a psicologia social desenvolvida em outros países buscou responder às questões colocadas por aquelas sociedades, também a psicologia social desenvolvida no Brasil neste período mais profissional, ou seja, nos últimos 30 ou 40 anos, certamente buscou respostas às questões colocadas pela sociedade brasileira de maneira mais enfática, questões essas que despertaram a sensibilidade e a imaginação dos psicólogos sociais brasileiros. Também os psicólogos sociais brasileiros tiveram que tratar da questão da formação da consciência em tempos de autoritarismo, e com a dinâmica da alienação. Aqui, no entanto, diferentemente dos países do primeiro mundo, essas questões foram tratadas em uma situação de aguda crise social, com a presença de índices exagerados de exclusão social. Talvez a marca mais original dessa psicologia social brasileira (e nisso ela caminha junto com a psicologia social latino americana) seja a abordagem cultural aos processos de exclusão. Temos uma longa história de desvalorização da cultura popular em nossa região, e é a tentativa de romper com essa visão autoritária da produção cultural local que dá à nossa psicologia social uma perspectiva original.


CIAMPA: Vou acrescentar logo a seguir uma questão mais específica. É cabível considerar a criação da ABRAPSO, no início da década de 70, um marco decisivo para discutir essa distinção (psicologia so-

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cial "do Brasil" e "no Brasil"? Recordo que numa reunião preparatória para criação de nossa entidade houve uma forte discordância entre dois grupos - um mais identificado com o Aroldo Rodrigues e outro mais com a Sílvia Lane - em que o primeiro afirmava que o que se pretendia fazer era política e não ciência (refletindo talvez uma visão que na época era considerada como "norte-americana"), enquanto o segundo defendia uma maior preocupação com os problemas próprios de cada país ou povo (considerada como "latinoamericana")?
REGINA HELENA: Sem dúvida a criação da ABRAPSO foi um marco decisivo na orientação da psicologia social brasileira em direção à problemática local. Sílvia Lane tem nos lembrado sempre que não se pode dissociar o desenvolvimento de uma psicologia social mais voltada para o estudo dos problemas que afetam as populações oprimidas, no Brasil, das questões colocadas pelos anos de autoritarismo vividos com a instalação da ditadura militar em 1964. Penso que a criação da ABRAPSO, em 1980, foi o resultado de um debate que se instalou entre os psicólogos brasileiros desde o final dos anos 60, e significou uma tomada de posição no sentido de aliar a produção científica a uma perspectiva crítica sobre a sociedade brasileira, e a uma proposta de atuação visando a transformação social. Naquela época, todos nós que atuávamos no campo da psicologia, e especialmente da psicologia social, víamos claramente que era preciso tomar essa posição, se quiséssemos assumir o compromisso de não compactuar com a opressão a que vinha sendo submetida a maioria da população brasileira, e foi nesse contexto que foi acolhida com grande esperança, entre nós, a proposta de criação de uma sociedade científica que expressava esse ideal. A rejeição à chamada "psicologia social norte-americana", na época, significava" a rejeição a modelos de análise da realidade brasileira insuficientes para caracterizar com clareza as questões da opressão e da dominação que nos preocupavam. Ao mesmo tempo, o contato com a literatura sociológica de orientação mais crítica que circulava no país, principalmente com a literatura sociológica baseada no materialismo dialético, trazia instrumentos de análise mais apropriados para a compreensão da realidade que pretendíamos transformar. Nessa época, como professora de psicologia social no Curso de Formação de Psicólogos da Universidade Federal de Minas Gerais, lembro-me de ter sido uma das primeiras a incluir, nos programas de curso, o estudo do conceito de ideologia, visando exatamente encontrar um referencial

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de análise que permitisse desvelar as contradições vividas pela sociedade brasileira, e realizar uma análise psicossocial dos processos de manipulação das consciências que percebíamos em nossa vivência cotidiana.

Creio que essa busca de uma postura crítica nos aproximava de um processo histórico que, olhando hoje a partir de uma certa distância, invadiu o trabalho acadêmico também em outros países (inclusive nos Estados Unidos). Esse processo, conhecido como a "crise" na psicologia social, refletia essa preocupação ao mesmo tempo com a adequação dos referenciais de análise da psicologia social aos problemas a serem compreendidos, e com a relevância social do conhecimento produzido. Era patente, na época, para uma significativa parcela dos psicólogos sociais, mesmo nos países do Primeiro Mundo, que a psicologia social, embora houvesse avançado muito na metodologia da pesquisa e estivesse produzindo experimentos cada vez mais elegantes, do ponto de vista do desenho experimental, vinha contribuindo muito pouco para esclarecer a dinâmica dos fenômenos estudados, e para produzir conhecimentos realmente relevantes para contribuir para a transformação social. Em 1970 Moscovici publicava, na França, o prefácio a uma obra de referência sobre o desenvolvimento da psicologia social experimental organizada por Denise Jodelet e outros (Jodelet, D. et al. La psychologie sociale: une discipline en mouvement. Paris:

École Pratique des Hautes Études & Mouton, 1970). Nesse prefácio, os problemas da psicologia social eram colocados com clareza: embora sendo uma disciplina que estudava questões de grande impacto para ~ vida cotidiana nas sociedades modernas, a produção teórica em psicologia social evidenciava algumas tensões que tomavam os dados de que se dispunha pouco claros e relevantes. Em primeiro lugar, havia o problema da experimentação: como garantir que os fenômenos submetidos ao tratamento experimental no laboratório eram os mesmos observados em situação natural? Em segundo lugar, como interpretar os resultados da pesquisa psicossociológica, se não se dispunha de teorias abrangentes, na área? Na época Moscovici já apontava a necessidade de se adotar um enfoque mais sociológico na interpretação dos fenômenos psicossociais, e chamava a atenção para a busca de teorias explicativas que dessem conta da relação entre o indivíduo e o grupo social. Também Gergen publicou, nessa época, o seu conhecido ensaio "Social psychology as history", em que defendia o ponto

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de vista de que os fenômenos psicossociais são registros de situações historicamente determinadas, e não de estruturas invariantes. Assim, era preciso prestar atenção, na pesquisa, aos processos de transformação das estruturas, e considerar os dados obtidos como evidências provisórias. A publicação no Brasil em 1984 da coletânea Psicologia social: o homem em movimento, editada por Sílvia Lane e Wanderley Codo, refletia essa mudança de orientação na psicologia social, e elegia o paradigma da dialética como mais apropriado para a análise dos fenômenos que nos preocupavam: as questões da formação da consciência social e da alienação, o enfoque sociológico trazido pela teoria das representações sociais, a identidade como metamorfose, na feliz formulação proposta por Ciampa. A partir dessa definições, da busca de referenciais mais abrangentes e que dessem conta da análise do concreto, e da criação da ABRAPSO, que proporcionou a oportunidade do intercâmbio entre os grupos de psicólogos sociais que trabalhavam em diferentes instituições e a criação de um sistema de trocas e de descobertas comuns, creio eu, é que se formou essa rede de pesquisadores e de psicólogos sociais orientados para o conhecimento do real na sociedade brasileira e para a prática da trans­formação social que tem tido uma forte influência na formação nessa área em nosso país. Creio que, ao mesmo tempo, pudemos nos encontrar a nós próprios, falar de nossas preocupações mais genuínas, e ao mesmo tempo dialogarem condições de igualdade com a produção internacional na área. Pudemos, enfim, falar de uma psicologia social brasileira.
CIAMPA: Obviamente, nossa psicologia social tem uma história mais antiga que a ABRAPSO. Que contribuições anteriores à década de 70 você destaca como relevantes para a formação atual de nossa área?
REGINA HELENA: É bom lembrar essa história mais antiga, para não ficarmos eternamente inventando e reinventando as mesmas teorias. Os historiadores costumam chamar a nossa atenção para a chamada longa duração. Com isso querem dizer que os processos históricos ocorrem em eixos de continuidade mais longos que uma vida humana singular. Braudel, o mestre da nova história, dizia que para perceber as transformações teríamos que trabalhar com períodos de pelo me­nos 400 anos. No caso do Brasil, um país com uma história tão curta, poderíamos dizer que ainda estamos na mesma longa duração... e tal­vez seja verdade. A tensão que atravessa a sociedade brasileira atual -

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o conflito entre os chamados dois brasis, o moderno e o arcaico, o incluído e o excluído - provavelmente nasceu com a própria dinâmica da colonização portuguesa em conflito com a população indígena local. A dominação da cultura endógena, a imposição dos padrões exógenos, a exploração do trabalho da população excluída são fenômenos que podem ser observados já na época da colonização, e que ao mesmo tempo se transformam e se repetem ao longo da história brasileira, em um processo marcado por continuidades profundas e rupturas superficiais. É como se a sociedade brasileira estivesse sempre sendo reinventada. Marina Massimi tem contribuído para documentar esse processo em seus estudos sobre a história das idéias psicológicas no Brasil ao tempo da colônia e do império. Para ela, as idéias sobre os fenômenos .psicológicos desenvolvidas aqui ao longo desse 500 anos de história documentada refletem essa tensão entre uma tendência à criação de formas de expressão e de desenvolvimento da cultura local e a imposição, muitas vezes violenta, dos padrões culturais europeus. A expulsão dos jesuítas, por exemplo, no século XVIII, teria sido já uma forma de eliminar uma experiência de desenvolvimento de uma cultura local promovida por eles através das instituições educativas que criaram, ou mesmo do trabalho de registro da cultura indígena.

Outro processo recorrente na história latino-americana (e que tal­vez estivesse refletido, mais uma vez, no conflito recente que acaba­mos de comentar entre a psicologia social norte-americana e a brasileira, nos anos 70), é essa tendência a pensarmos nossos países em uma perspectiva evolutiva, a partir da qual os países do primeiro mundo estariam sempre mais avançados, e a América Latina sempre mais atrasada. É a partir desse enfoque, sem dúvida, que se pensava que a psicologia social norte-americana estaria mais adiantada que a nossa, e que era preciso copiar seus modelos para atingir (de maneira sempre atrasada, é claro) os níveis de desenvolvimento científico desejáveis. Este é um erro historiográfico grave, que se traduz em uma perspectiva histórica chamada "presentista": trata-se da tendência em avaliar o passado seja como uma preparação para um presente sempre melhor, por­quanto mais desenvolvido, mais adiantado, seja como um estágio evolutivo inferior. Historiadores como Richard Morse (Cultura e Idéias nas Américas, 1995), por exemplo, têm procurado romper com essa perspectiva continuísta, evolucionista, através da demonstração de que a maneira como as sociedades latino americanas lidaram com alguns dos dilemas mais importantes da modernidade são originais e especí-

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ficas, e podem, em determinados casos, sugerir soluções mais adequadas para problemas que se tornaram muito mais graves em sociedades ditas "adiantadas" -por exemplo a questão das identidades étnicas.

Nessa linha de investigação, e seguindo ainda as sugestões de Massimi e de Morse, vale lembrar ainda outras contribuições à elaboração de uma psicologia social brasileira, ocorridas tanto no século XIX quanto na primeira metade do século XX. A propósito, em texto apresentado no Colóquio Internacional "Paradigmas em Psicologia Social para a América Latina" que promovemos por ocasião do Encontro Nacional da ABRAPSO realizado na Universidade Federal de Minas Gerais em 1997, Massimi lembrava que a característica cultural latinoamericana que tem desafiado os analistas é precisamente a sua pluralidade: pluralidade de raças, etnias, práticas culturais. As maneiras como a intelectualidade brasileira tem trabalhado com essa pluralidade, ao longo de nossa história, constituem, portanto, documentos do desenvolvimento das idéias psicossociais em nossa região, e devem ser lembradas como parte do desenvolvimento dessa disciplina entre nós.

Já no século XX, e a partir da criação das primeiras universidades no Brasil, a área de estudos da psicologia social se instalou também em torno dessa tensão trazida pela análise da pluralidade cultural local; Encontramos então obras como as de Nina Rodrigues, Lourenço Filho ou Oliveira Viana, nas quais a questão cultural é concebida mais uma vez como uma dinâmica entre inferiores· e superiores, ou obras como as de Gilberto Freyre e Artur Ramos, nas quais a especificidade da cultura brasileira é analisada em sua singularidade e originalidade. Em Lourenço Filho, por exemplo, é patente a patologização das manifestações da religiosidade popular no movimento que· se organizou em torno da liderança do Padre Cícero, no Ceará. No conhecido ensaio intitulado Juazeiro do Padre Cícero, publicado em 1924, e que foi inclusive premiado pela Academia Brasileira de Letras, o autor não esconde sua irritação com o atraso dos habitantes do interior do país, considerado por ele um país dividido entre uma elite esclarecida e moderna e uma população dominada por padrões culturais arcaicos .. Já Gilberto Freyre, apesar da visão senhorial expressa em suas obras, propõe um ponto de vista bem mais abrangente em relação à complexidade do sincretismo cultural que marca a sociedade brasileira.



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