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Associação Brasileira de Psicologia Social – ABRAPSO

PSICOLOGIA & SOCIEDADE

volume 8 número 1 janeiro/junho 1996 ISSN 0102-7182


Índice
3 Entrevista com Silvia T. M. Lane

16 CAMINO, L. "Uma abordagem psicossociológica no estudo do comportamento político"

43 CROCHÍK, J.L. "Notas sobre a psicologia social de T. W. Adorno"

63 FREITAS, M.F.Q. "Contribuições da psicologia social e psicologia

política ao desenvolvimento da psicologia social comunitária"

83 GENTIL, H.S. "Individualismo e modernidade"

102 MONTERO, M. "Paradigmas, corrientes y tendencias de La psicología social finisecular"

120 OZELLA, S. "Os cursos de psicologia e os programas de psicologia social: alguns dados do Brasil e da América Latina"

144 PRADO, J.L.A. "O pódio da normalidade: considerações sobre a teoria da ação comunicativa e a psicologia social"

174 SPINK, P. K. "Organização como fenômeno psicossocial: notas para uma redefinição da psicologia do trabalho"

Capa: Arte de Roberto Temin a partir de detalhe

do quadro "Jogos infantis", de Peter Bruegel (1560)

PSICOLOGIA & SOCIEDADE

Vol. 8 n° 1 janeiro/junho de 1996
ABRAPSO

PRESIDENTE:. Zulmira Bonfim

VICE-PRESIDENTES: Cecília P. Alves, Karin E. Von Smigay, M. de Fátima Q.de Freitas, Neide P. Nóbrega, Pedrinho Guareschi.
CONSELHO EDITORIAL

Celso P. de Sá, César W. de L. Góes, Clélia M. N. Schulze, Denise Jodelet, Elizabeth M. Bonfim, Fernando Rey, Karl E. Scheibe, Leôncio Camino, Luis F. R. Bonin, M. de Fátima Q. Freitas, M. do Carmo Guedes, Marília N. da M. Machado, Mario Golder, Maritza Monteiro, Mary J. P. Spink, Pablo F. Christieb, Pedrinho Guareschi, Regina H. F. Campos, Robert Farr, Silvia T. M. Lane, Sylvia Leser de Mello.


EDITOR

Antonio da Costa Ciampa


COMISSÃO EDITORIAL

Cecília P. Alves, Helena M. R. Kolyniak, J. Leon Crochik, Marcos V. Silva, Marlito de S. Lima, Mônica L. B. Azevedo, Omar Ardans, Salvador A. M. Sandoval, Suely H. Satow.

PRODUÇÃO EDITORIAL E EDITORAÇÃO ELETRÔNICA Hacker Editores
ARTE DE CAPA AREA
IMPRESSÃO

Gráfica Circulo


JORNALISTA RESPONSÁVEL Suely Harumi Satow (MTb 14.525)
APOIO EM BIBLIOTECONOMIA

Sérgio Tadeu G. Santos

A revista Psicologia & Sociedade é editada pela Associação Brasileira de Psicologia Social - ABRAPSO. Correspondência:

Rua Ministro Godói, 969 - 4° andar - sala 415 - CEP 05015-000 São Paulo SP fone/fax: (011) 873 2385

E-mail: zupra@exatas.pucsp.br
Os artigos assinados não representam necessariamente a opinião da revista.
"P ARAR PARA PENSAR ...

E DEPOIS FAZER!"

Entrevista com Silvia Tatiana Maurer Lane
(por Antonio da Costa Ciampa, Omar Ardans e Suely Satow)

Silvia Tatiana Maurer Lane completou, em 1995, trinta anos de dedicação à psicologia social, metade dos quais postos também ao serviço da criação e consolidação da Associação Brasileira de Psicologia Social - ABRAPSO, fundada por ela e outros pesquisadores e estudiosos em 1980, associação que, desde sua origem, é um espaço privilegiado para a discussão dos grandes temas da sociedade e dos esforços teóricos e de pesquisa que contribuam para sua transformação desde a perspectiva da psicologia social.

Neste momento em que retomamos a edição da revista Psicologia & Sociedade, o Comitê Editorial quer homenageá-la pela longa e fecunda trajetória como cidadã, pensadora, pesquisadora e formadora de numerosas gerações de profissionais, pesquisadores e docentes no Brasil e no exterior. Ao mesmo tempo queremos, na sua pessoa, fazer extensiva essa homenagem a todos os membros fundadores da ABRAPSO cuja iniciativa e anseias fazemos nossos.
PERGUNTA: Gostaríamos que você falasse, para começar, a respeito da palavra "social" posta junto à palavra "psicologia". O que isso quer dizer para você?
SILVIA: Costuma-se dizer que toda psicologia é psicologia social. Pelo menos a psicologia que estuda o ser humano (não estou dizendo que estuda o "organismo"). Toda a psicologia que estuda o ser humano é, por natureza, histórica: o essencial do homem é social. Muitas vezes, inclusive na ABRAPSO, tem sido levantada essa questão: "então, vamos acabar com essa subdivisão da psicologia 'social'?". Eu digo não. Ela tem uma função histórica que é a de estimular a reflexão crítica da prática do psicólogo, seja onde for: seja psicólogo do desenvolvimento, no trabalho com a criança, seja o psicólogo clínico que trabalha em seu consultório, seja o psicólogo do trabalho, dentro da empresa, subordinado à empresa... Eu acho

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Entrevista com Silvia T. Maurer Lane: "Parar para pensar... E depois fazer!"

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que, simplesmente, nesse momento temos que estimular essa reflexão crítica. Quem é o psicólogo dentro de uma sociedade? O que ele está fazendo? O que ele está produzindo? O que ele faz com seu semelhante? O quanto ele é preventivo? O quanto ele é curativo? O que significa ser preventivo e ser curativo? Uma vez levantei uma questão para um grupo de estudantes do pós. Eu falei: escuta, na hora em que a gente for mais gente, mais humanos, nós nos relacionarmos melhor entre nós (seja família, amigos, seja o que for) não vai ter mais a necessidade do psicólogo clínico. Sinto muito. O clínico vai ser, assim, uma raridade dentro de uma sociedade que seja mais igualitária, mais justa e tudo o mais, porque o relacionamento entre os seres humanos será outro. Então, o psicólogo não terá que estar lá para curar. Ele terá um papel fundamental dentro da sociedade, o papel da prevenção, exatamente, de formação, de educação. É por isso que estou achando hoje, na minha visão, que a psicologia tem dois caminhos que não se excluem (ao contrário), que são o da ética e o da estética.
PERGUNTA: Poderia explicar esses dois caminhos?
SILVIA: Acho que a arte, para mim, foi algo que me aproximou do mundo como um todo. E historicamente. Acho que os valores éticos nos aproximam do mundo atual, como mundo universal. Nós somos todos irmãos, somos todos iguais, não importa raça, cor, sexo, etc. Há uma igualdade, apesar das diferenças, mas isso torna a ética um produto histórico atual. A arte, para mim, foi o momento universal histórico de eu ser capaz de entender tanto a arte do primitivo, como o abstracionismo, de me emocionar com o abstracionismo do mesmo jeito que me emocionava com o Fra Angélico, com o Da Vinci, ou com a arte primitiva. Quer dizer, a emoção que suscita é a mesma. A emoção me identifica com o resto da humanidade, de certa forma. E outra coisa: sem dúvida alguma, até concordo com Agnes Heller, acho que a grande revolução vai ser uma revolução ética. Na hora em que mudarmos nossa maneira de nos relacionarmos, gente com gente, vamos mudar esse mundo. Na hora em que eu respeitar profundamente o outro como um igual a mim, apesar das diferenças existentes, a relação será outra. É nesse sentido que eu estou vendo os caminhos da psicologia hoje. Acho que é função da psicologia social (e não abro mão do "social", por enquanto,

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por isso) estimular a reflexão crítica das práticas da psicologia e das teorias psicológicas e suas consequências.
PERGUNTA: Aproveitando que ao falar de ética e estética, você fala da Heller: há um texto dela alertando para o fato de não se psicologizar a ética. Isso por um lado. Por outro lado, quando você fala da estética, há um tema dos frankfurtianos em que falam que provavelmente o Último recurso emancipatório do Homem esteja na arte. Gostaríamos que você aprofundasse um pouco mais, principalmente para não se perder o perfil do que seja psicologia social.
SILVIA: Acho que Heller tem razão quando diz que não podemos psicologizar a ética. Claro que não. Porque psicologizar seria exatamente atribuir ao indivíduo e só ao indivíduo os seus valores, quando seus valores são construídos histórica e socialmente. É gozado, agora me lembrei de um curso que fiz em Filosofia. Estudei a história das religiões, onde estudei o que vem a ser uma ética e a base religiosa dessa ética. O curso discutiu o que é o bem, a bondade, o bem que você faz para o outro, o bem que o outro te faz, até que o professor chegava à noção de bem supremo. Será que esse bem supremo é a perfeição? É Deus, acabava em Deus. Excluindo Deus dos valores éticos, começando do valor moral, individual, você ia acabar nessa idéia de perfeição, de Ser Supremo, etc. Enfim, acabava se confundindo com a religião, sem dÚvida alguma. Nessa concepção, o homem como produto histórico, social, é um ser genético, fundamentalmente; apesar de não negar jamais a filogênese, ele vai ter que enfrentar essa questão ética dos valores: o que é o bem, o que é o mau, o que é o certo e o que é errado, sem cair em nenhum extremismo, obviamente. Acho que a psicologia vai ter que enfrentar isso e, para mim, via emoção. Porque quando a gente chegou à conclusão de que a consciência não era meramente racional, mas ela era também constituída de emoções e afetos, não adiantava você trabalhar a consciência no nível da racionalidade, se você também não trabalhasse no nível da afetividade, porque a afetividade, às vezes, é até mais forte para fragmentar a consciência, do que a racionalidade. Nesse sentido, a meu ver, a arte também tem essa função. Ela pode fragmentar, mas ela pode fazer avançar a consciência.

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PERGUNTA: Como vê a estética nisso? Como poderia tornar mais clara a importância da estética nessa perspectiva?
SILVIA: Eu não sei se é um pouco a minha história. Sempre gostei muito de arte, desde a minha época de faculdade. Tive um professor, Gilles G. Granger, que mexeu comigo em dois caminhos distintos: um da lógica, outro da arte. Esse homem me deu, acho, a coisa mais bonita que há no ser humano. Estudei toda a História da Arte e senti que eu absorvia um universo muito mais amplo. A arte vai nos dando um caráter de universalidade, de não fronteiras, vamos dizer assim, onde você é capaz de apreciar uma arte grega, clássica, extremamente perfeita, mas também é capaz de vibrar com o impressionismo, que quebrava todo esse classicismo; do mesmo modo você é capaz de vibrar com um desenho numa pedra, feito por um primitivo, sem nenhuma idéia do século em que ele estava fazendo isso. Um exemplo clássico que toda hora dou é Guernica, do Picasso. Eu entendi a revolução espanhola olhando para o quadro do Picasso e todos os valores que estavam implícitos naquela revolução. Minha emoção artística, minha sensibilidade artística, a arte como algo que mexe com a gente profundamente, algo que tem, eu acho, um caráter universal, uma outra linguagem.
PERGUNTA: Voltando para a psicologia social, para juntar essas coisas, pegando um gancho da própria Agnes Heller. Quando ela fala em valores universais, fala na verdade, no bem e no belo. O belo poderia ser visto no estético, o bem na ética e a verdade na ciência. Pensando na psicologia social, como você a vê como ciência? Como fica a distinção entre fazer ciência, ética ou estética? Há uma nova maneira de fazer ciência, de fazer psicologia social considerando esses aspectos?
SILVIA: Verdade, bem e belo são produções do ser humano. Estão em nós. São produtos históricos, são produtos sociais, são produtos do homem, do homem na relação histórica com o mundo, com a natureza, com os outros homens. As noções de bem e de belo se transformaram ao longo do tempo. A ciência muitas vezes não admite que sua noção de verdade é uma noção transitiva, relativa. Não posso dizer que o que eu sei de psicologia hoje vale para o grego do seco N, V a.C., e nem que é definitivo. Como estou aprendendo que não vale para o xavante, não vale para o bororo. As nossas

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psicologias são diferentes. A ciência psicológica pode ser uma verdade hoje, aqui, agora, localizada e ela tem que assumir isso.
PERGUNTA: Isso dá alguma especificidade para a psicologia social? Dá para responder à pergunta: qual o papel fundamental do psicólogo social hoje, na academia?
SILVIA: Você não é professor à toa. Você tem que influenciar a realidade social na qual você está inserido. Intelectual orgânico? Adoro! Intelectual orgânico do Gramsci. Mas eu acho que tudo é fruto de uma reflexão crítica que você faz em cima da realidade. Acho que a academia não tem feito isso; vejo na Psicologia Social, principalmente na ação da ABRAPSO, esse potencial, de realmente democratizar a academia, democratizar o saber antes de qualquer coisa. Dar o saber a quem de direito.
PERGUNTA: No fundo você está querendo dizer que a academia, mais que mero transmissor de informação, deveria fazer com que as pessoas que compartilham seu saber, se tomem capazes de refletir sobre si mesmas e sua própria realidade? Em Última análise, desenvolver a capacidade de reflexão para que o indivíduo se torne autônomo?
SILVIA: Exatamente. Por exemplo, veja aquela discussão de que na sociedade capitalista, todo cidadão é alienado. Você se considera alienado? Você não é capaz de dizer que você é alienado. Eu não sou capaz de dizer. Eu não me considero alienada. Por que não me considero alienada? Porque adquiri um conhecimento, adquiri uma visão, uma reflexão critica, que me permite ter uma outra dimensão do mundo em que vivo. Então eu quero isso para todo mundo. Grupo é importantíssimo para mim por causa disso. Porque um se encontra no outro. Somos iguais, na medida em que somos grupo. Diferente, mas somos iguais. Historicamente, temos determinações iguais. Extrapolo do meu individualismo e chego a uma visão universalista, que é isso que Habermas quer, que Heller quer, a maioria dos neomarxistas acho que procura isso, essa visão mais universal do ser humano. Sem discriminações. Martin Baró foi a meu ver a grande reflexão dentro de um pequeno país como El Salvador, maltratado, explorado, explorado não só por uma ditadura, explorado pelo mundo inteiro, de fato. Esse homem estava lá naquele

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meio, naquele foguetório todo, procurando exatamente aceitar até o mais universal do ser humano, ajudando o guerrilheiro a refletir um pouco mais para lutar, não por si mas para o pequeno país deles ou por uma humanidade melhor, sem dúvida alguma.
PERGUNTA: Como você responderia à eventual crítica de que essa sua perspectiva de levar as pessoas a se tornarem mais gente, desenvolvendo esta reflexão, é uma utopia irrealizável, diante do poder do Capital, da influência da tecnologia, do mundo sistêmico?
SILVIA: Estou me lembrando do nÚcleo de psicologia comunitária, de um grupinho de meninas de famílias tradicionais se chocando horrivelmente ao entrar em contato com a pobreza de Osasco, a favela em Osasco e em outros lugares. Foi um conflito de valores violento. Então elas me perguntaram: "mas, afinal, então todo psicólogo tem que ir para a periferia, trabalhar na periferia?" Eu não tive dÚvida: "gente, o que eu estou fazendo dentro dessa sala de aula? Eu não estou na periferia, eu estou trabalhando com vocês!, classe média alta, então, o que é que eu estou fazendo? Que significa isso?" O mal-estar das meninas desse grupo era o choque de valores. Estavam se deparando coma diferença de valores em classes sociais diversas e era muito natural pararem para pensar um pouquinho. Por que esta diferença de valores? Havia um aluno que chegava e dizia "bom, Sílvia, então você está propondo a revolução?" Respondia: "Não. Estou propondo que cada um reflita sobre a realidade que está vivendo - o seu dia-a-dia, o que é o país, o que é o Brasil, o que nós somos, o que é história - e opte por uma ação política que ache que deve optar. Se a grande maioria decidir por uma revolução, a revolução vai acontecer. Se a grande maioria decidir pela não revolução, a revolução não vai acontecer. E é por aí que nós vamos". Foi isso mesmo que eu respondi na época dura da repressão. É por isso que eu acredito no indivíduo. E, se o psicólogo lida com o indivíduo, a grande responsabilidade dele é essa, sem dúvida alguma. Dar a esse indivíduo exatamente a recuperação· de sua individualidade integral, universal. Há mais alguém que lida com o indivíduo dentro das ciências humanas? Com o indivíduo, com a pessoa humana? É só o psicólogo, o que lhe dá uma grande obrigação. Por isso venho me preocupando com a comunicabilidade científica. Temos que falar uma linguagem simples, simples e verdadeira. Você tem de ser capaz de comunicar esse

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conhecimento e comunicar para todo mundo. Não é só entre nós na academia, não. No mundo todo somos muito semelhantes. Nós falamos a mesma língua, seja inglês, português, francês, nós falamos a mesma língua. Agora, quando é que nós vamos conseguir falar, transmitir todo nosso conhecimento a quem de direito? A grande obrigação nossa como cientistas, antes de mais nada, principalmente como cientistas sociais, é com o grosso da população e não com a academia. Quanto eu posso ajudar uma população a ter conhecimento de si mesma? E assumir!
PERGUNTA: Como evitar o risco de transformar esta posição na afirmação de um discurso hegemônico da academia? Ela é a fonte do conhecimento? É isso?
SILVIA: Calma. Uma vez na França falei para o Moscovici: "escuta, vocês fizeram a Revolução Francesa contra a Monarquia, mas eu acho que vocês não fizeram, não. A Monarquia está presente na academia. Os donos da verdade são os cientistas, são os que estão dentro da academia, são os nobres atuais. Vou num outro pólo que é o Martin Baró. A autoridade, o poder é um fato, existe, está aí. Desde a era primitiva até hoje, sempre a sociedade se organizou em torno do poder. A grande questão é o que eu faço com minha autoridade e meu poder. Se eu estou na academia, tenho que dividir meu poder com o restante da população. Enquanto eu mantiver esse poder só para mim, ou só restrito, estou sendo autoritária, estou explorando o outro, estou explorando o sujeito que eu pesquiso. Então, a academia deve se tornar democrática abrindo esse espaço para todo mundo, para quem quiser aprender e mais: fazendo o esforço de falar a linguagem de todo o mundo. Transmitir nosso saber numa linguagem do cotidiano. É um desafio. Mas é uma briga entre o poder autoritário e o poder democrático. Acho que esta é a questão fundamental da academia.
PERGUNTA: A reflexão para a emancipação e o poder democrático na academia, então, são essenciais no trabalho científico?
SILVIA: Às vezes corremos o risco de sermos filósofos demais, com uma visão ampla demais. No trabalho científico o importante é o conhecimento que você adquire, que você corrobora e que você transmite. Às vezes digo: "gente, estamos falando em afetividade

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como categoria, mas cuidado!· Isso é uma idéia que está na nossa cabeça; vamos pesquisar e vamos ver como isso emerge." Para mim, como psicóloga social, a coisa fundamental é a pesquisa, não é o saber filosófico. Cabe a nós, como pesquisadores, mostrarmos por a + b, demonstrarmos claramente uma realidade que está aí. Elaboramos a teoria a partir da demonstração. Partir para o empírico para fazer a análise do concreto. É pesquisar. É nisso que acho que está o trabalho científico.


PERGUNTA: Além dos já mencionados, você vê outros desafios para a psicologia social?
SILVIA: A criatividade. Criatividade sempre foi um tema que muitos psicólogos tentaram estudar, tentaram entender. É uma condição essencialmente individual, num certo sentido. E da qual nunca deram conta: Acho que pelo caminho que estamos trilhando agora, com a questão da estética, vamos conseguir jogar alguma luz nesse processo que leva alguém a criar alguma coisa. Por exemplo, no meu curso de emoção e linguagem temos entrevistado artistas. Não só, mas principalmente artistas; está ficando claro o que Vigotski tinha dito sobre a percepção estética como um processo catártico, quando você se depara com a contradição entre forma e conteúdo na obra de arte. Então haveria uma catarse diante dessa contradição. E pelo que tenho visto na produção artística, está parecendo isso também. Vários exemplos estão aparecendo. É um processo que ocorre no indivíduo. Então, por que a psicologia não dá conta disso? É um desafio que está aí e que a psicologia tem que dar conta. Agente está começando com artistas, porque a gente acha que o artista fala mais facilmente das emoções.
PERGUNTA: O que impede a psicologia de dar conta disso?
SILVIA: Eu acho que é a velha fragmentação do ser humano. Sabe, você vê o ser humano como percepção, então você tinha todo um estudo da percepção estética, você tinha todo um estudo da criação artística. Então, você fragmentou o ser humano de tal forma que não juntava emoção com percepção. Você não juntava o fazer algo com a percepção ou com a emoção de qualquer coisa. À medida que nós estamos captando o homem como totalidade histórica, social, biológica, essas coisas estão emergindo como coisas

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que pertencem a esse ser humano, que tem suas raízes em processos psíquicos fundamentais. Por exemplo, a emoção passa a ser algo que tinha que estar presente, por exemplo, não só nos valores estéticos, mas também nos valores éticos.
PERGUNTA: Haveria uma criatividade no sentido mais geral ou a estética sempre seria uma forma de, escamoteadamente, colocar uma questão de poder?
SILVIA: Não, ao contrário. Eu acho que a criatividade surge quando ela recusa o poder estabelecido. Volto a lembrar de Bachelard. Bachelard falando do cientista. Ele diz que o cientista só dá um salto quando ele questiona: "por que não o contrário?" Igualmente, o artista vai criar uma nova forma na hora que ele rejeita a imposição do existente e quer inventar algo de novo ou quer criar um objeto novo.
PERGUNTA: Quando você diz criar algo novo, dar um salto e não aceitar o estabelecido, significa que a estética estaria sempre nessa coisa de vanguarda, criando um novo e instituindo um novo poder, ou a gente pode pensar numa beleza...
SILVIA: Universal?
PERGUNTA: Não universal. Existe uma beleza de dominação e existe uma beleza de emancipação?
SILVIA: Existe uma beleza de emancipação, mas acho que a beleza é histórica. Quer dizer, na medida em que você compreende o ser humano historicamente inserido, você é capaz de compreender a obra de arte deste e se sensibilizar com a obra de arte. Pela beleza de conseguir transpor todo um movimento de dentro de uma deter­minada época para uma pedra, por exemplo. É a impressão daquele momento histórico. A criação artística é sempre um processo histórico, um produto histórico. Vigotski chega a falar nisso. Que o artista não cria do nada, ele cria daquilo que o momento histórico está lhe oferecendo. Mas ele tem que criar algo de novo. O desafio da arte é o novo, tanto que quem reproduz não faz arte, não é considerado artista.



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