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Associação Brasileira de Psicologia Social - ABRAPSO

PSICOLOGIA & SOCIEDADE


volume 12 números 1/2 janeiro/dezembro 2000 ISSN 0102-7182
Sumário

5 Entrevista com Kabengele Munanga

18 ARRUDA, A. "O Brasil e sua gente: representações sociais em

500 anos"

32 BANCHS, M A. "La psicologia social como prática político-ética: reflexiones em torno a la arista subjetiva de las representaciones sociales"

5 4 BARBOZA, D. "Cooperativismo, cidadania e a dialética da exclusão/inclusão: o sofrimento ético-político dos catadores de material reciclável"

6 5 CANTELMO, F. "Estradeiros modernos ou capitalistas incondicionais? O cotidiano hippie e suas interfaces"

90 DARRAULT-HARRIS I. e GRUBITS, S. "Novos rumos para estudos da identidade em populações indígenas através da semiótica"

110 GUARESCHI, N M F "Políticas de identidade: novos enfoques e novos desafios para a psicologia social"

125 REMOR, E. A. e AREND, I. C. "Comida e saúde: representação social dos obesos. Perspectivas desde a promoção e educação para a saúde"

144 REZENDE, M. M. "Uso, abuso e dependência de drogas: delimitações sociais e científicas"

156 SPINK, M 1. P. "Contornos do risco na modernidade reflexiva: contribuições da psicologia social"

174 VERONESE, .M. V. "A noite escura e bela: um estudo sobre o trabalho noturno"

194 WIESENFELD, E. "Practicas sociales y políticas públicas: aportes de la psicologia social a la problemática residencial"

221 YAMAMOTO, O. H. "A psicologia em movimento: entre o “gattopardismo' e o neoliberalismo”

Capa: arte de Sylvio Ekman, a partir do quadro "Grupo de Músicos" (óleo s/tela 80x1l00cm, 1994), de José Sabóia

Galeria Jacques Ardies (www.ardies.com)
PSICOLOGIA & SOCIEDADE

Vol. 12 números 1/2 janeiro/dezembro de 2000 ABRAPSO

PRESIDENTE: Cecília Pescatore Alves

VICE-PRESIDENTES: Andréa F. Silveira, Cornelis Stralen, Helerina Novo, José A. Aguiar, Mariana de Castro Moreira, Omar Ardans


CONSELHO EDITORIAL

Celso P. de Sá, César W. Góis, Clélia Schulze, Denise Jodelet, Elizabeth Bonfim, Fernando Rey, Frederic Munné, Karl Scheibe, Leôncio Camino, Luis Bonin, M. de Fátima Q. Freitas, M. do Carmo Guedes, Marília Machado, Mário Golder, Maritza Monteiro, Mary J. Spink, Pablo Christieb, Pedrinho Guareschi, Regina F. Campos, Robert Farr, Silvia Lane, Sylvia Leser Mello


EDITOR

Antonio da Costa Ciampa


COMISSÃO EDITORIAL

Antonio da Costa Ciampa, Cecília P. Alves, Helena Kolyniak, J. Leon Crochik, Omar Ardans, Salvador Sandoval, Suely Satow, Vanessa Louise Batista

ADMINISTRAÇÃO

Helena Marieta Rath Kolyniak


ARTE DE CAPA

Sylvio Ekman


IMPRESSÃO

Artcolor


JORNALISTA RESPONSÁVEL

Suely Harumi Satow (MTb 14.525)

CORRESPONDÊNCIA - REDAÇÃO

Rua Ministro de Godói, 969 - 4° andar - sala 4B-03 - CEP 05015 São Paulo SP fone/fax (Oxx11) 3670-8520


E-mail para envio de artigos : artigos@psicologiaesociedade.com.br

Email doEditor:acciampa@exatas.pucsp.br

E-mail da administração:kolyniak@uol.com.Br

Aquisição: vide site www.psicologiaesociedade.com.br

© dos Autores
A revista Psicologia & Sociedade é editada pela Associação Brasileira de Psicologia Social - ABRAPSO www.abrapso.org.br
Os artigos assinados não representam necessariamente a opinião da revista
PSICOLOGIA & SOCIEDADE

volume 12 números 1/2 janeiro/dezembro 2000 ISSN 0102-7182


Summary
5 lnterview with Kabengele Munanga

18 ARRUDA, A "Brazil and its people: social representations of 500

years."

32 BANCHS, M A. "La psicologia social como prática politico ética:

reflexiones en torno a la arista subjetiva de las representaciones sociales"

54 BARBOZA, D. "Cooperativism, citizenship and the dialectic of exclusion/inclusion: the ethical-political suffering of the recyclable refuse collectors"

65 CANTELMO, F. "Modern wanderers or unconditional capitalists?

The hippie life and its interfaces"

90 DARRAULT-HARRIS I. e GRUBITS, S. "New approaches to the

study of identity in indigenous populations through the use of semiotics. "

110 GUARESCHI, N "Politics of identity: new approaches and challenges for Social Psychology"

125 REMOR, E. A e AREND, I C "The social representation of food and health by obese people - perspectives for health promotion and education"

144 REZENDE, M M "The use, abuse and addiction to drugs: social and scientific demarcations"

156 SPINK, M.J.P. "Risk and reflexive modemization: the contribution of Social Psychology"

174 VERONESE, M V "The dark and beautiful night: a study about work in night shifts"

194 WIESENFELD, E. "Prácticas sociales y políticas públicas: aportes de la psicologia social a la problemática residencial"

221 YAMAMOTO, O. H. "Psychology moving: Between the "Leopardism" and neoliberalism"
"QUAL É A EXPLICAÇÃO DESSA AUSÊNCIA E DESSE SILÊNCIO (DE NOSSA PSICOLOGIA SOCIAL) SOBRE UM TEMA QUE TOCA A VIDA DE MAIS DE 60 MILHÕES

DE BRASILEIROS DE ASCENDÊNCIA AFRICANA?"

Entrevista com Kabengele Munanga

(por Antonio da Costa Ciampa)

"A melhor mudança seria aquela que passasse pela integração racial, no sentido de viver harmoniosamente juntos, iguais e diferentes".

O que pensamos, nós psicólogos sociais brasileiros, sobre esse desejo de mudança? Que contribuições podemos oferecer para políticas públicas que viabilizem sua concretização? Estas são apenas duas reflexões críticas das muitas que nosso entrevistado suscita, tendo em vista uma práxis transformadora de nossa sociedade.

Igual e diferente, o Dr. Kabengele (pronuncia-se Kabenguelê) Munanga não é psicólogo social; é antropólogo e Professor Titular da USP. Não nasceu no Brasil, embora viva entre nós há mais de um quarto de século; nasceu na República Democrática do Congo, ex-Zaire. Sua terra natal, então recém saída de uma luta de libertação nacional para conquista da independência política, como qualquer ex-colônia, foi pro­fundamente marcada pelas desigualdades raciais e pelas perversas conseqüências do colonialismo. Obteve sua Licenciatura (equivalente ao Mestrado) em Antropologia Africana, na Universidade Oficial do Congo, em Elizabethville, atual Lubumbashi. Prosseguiu normalmente seus estudos pós graduados na Bélgica e, já na época de concluir a redação e a defesa de sua tese de doutoramento, ficou impedido por 3 anos de retornar à antiga matriz colonial. Nessa ocasião, transferiu-se para o Brasil, ten­do conquistado seu título de doutor na USP, depois de 2 anos de sua vinda para cá.

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Entrevista com Kabengele Munanga: "Qual é a explicação dessa ausência

e desse silêncio..." Psicologia & Sociedade; 12 (1/2): 5-17; jan./dez.2000

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Seus estudos, inicialmente mais voltados para as culturas da África, ampliaram-se para um crescente aprofundamento no conhecimento da realidade brasileira, em particular da situação do negro no Brasil. Como pesquisador e professor, suas atividades se desenvolveram basicamente no Departamento de Antropologia, no Museu de Antropologia e Etnologia e no Centro de Estudos Africanos da USP. Mais recentemente - e cada vez com maior intensidade - envolve-se com a discussão sobre Políticas de Combate ao Racismo e "Ação Afirmativa". Acaba de publicar "100 Anos de Bibliografia sobre o Negro do Brasil" (2 volumes), obra de consulta obrigatória para todos os interessados, em particular, sobre o tema e, em geral, sobre a realidade brasileira.
CIAMPA - Sua excelente obra "100 Anos de Bibliografia sobre o Negro Brasileiro", publicada pela Fundação Cultural Palmares/Ministério da Cultura, em 2000, inicia-se com a observação de que neste ano "o Brasil oficial está comemorando os 500 anos de seu descobrimento pelos portugueses". Há alguma razão especial para o uso da expressão "o Brasil oficial" -. em vez de apenas "o Brasil" - nessa frase? Essa eventual distinção tem relação com o convite que faz, a seguir, para "um pro­fundo debate sobre o presente e o futuro da população negra no próximo milênio"?
KABENGELE - Além do aspecto festivo que geralmente acompanha as comemorações, penso que os 500 anos do descobrimento do Brasil oferecem um momento histórico muito oportuno, para refletir criticamente sobre o significado dessa data em relação ao presente e futuro do povo e da sociedade brasileira. Mais do que uma simples reflexão crítica, o momento deveria ser transformado politicamente para fazer reivindicações em favor dos que durante os 500 anos viveram na exclusão, como a população afro-descendente. Vejo duas orientações opostas nas manifestações comemorativas dos 500 anos. Por um lado, houve uma comemoração oficial, promovida com grandes pompas pelas autoridades do país, em sintonia com o país "descobridor", Portugal, visando principal­mente mostrar a grandeza do Brasil e vangloriar os personagens emblemáticos que, segundo dizem, descobriram e construíram a grande nação com dimensões continentais. Por outro lado, vejo as preocupações dos membros conscientes da sociedade civil, que queriam aproveitar esse raro momento histórico para promover a consciência sobre os problemas dessa sociedade de 500 anos em matéria de justiça e igualdade sociais e que pensam que se tratava de um momento oportuno para

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cobrar as mudanças e exigir uma sociedade diferente. É neste sentido que falo de dois Brasis, um oficial e outro do povo representado pela sociedade civil. O cenário dos acontecimentos de Porto Seguro ilustra bem esses dois Brasis: por um lado, havia os índios, os sem-terra e os sem-teto querendo mostrar que a festa organizada, reunindo os Presidentes de Portugal e do Brasil e outros convidados, era um grande teatro para camuflar as realidades sociais do país que Portugal "descobriu" e inventou; por outro lado, havia as autoridades, promovendo toda aquela violência por medida de segurança, para proteger as autoridades nacionais e estrangeiras e para preservar a realização dos banquetes, símbolos da grandeza do Brasil. O que os membros das sociedades indígenas tinham para comemorar, quando sabe-se que suas terras foram invadidas e expropriadas e que seus habitantes, que se contavam por milhões, são hoje numericamente reduzidos a trezentos mil e pouco? O que a população negra tinha para comemorar, quando sabemos que o descobrimento do Brasil provocou a colonização, o tráfico negreiro e a escravidão que desumanizou os africanos e seus descendentes, transformando-os em força animal e mercadoria? O que ela tinha para comemorar quando seu lugar na sociedade que ajudou a construir é ainda parcialmente definido pelo legado da escravidão, enquanto conseqüência do descobrimento? Creio que não existiria nenhum sentido para os movimentos sociais negros anti-racistas festejarem a posição inferior que ocupam na sociedade brasileira. Haveria muito sentido, sim, transformar esse momento numa plataforma política de protestos e reivindicações, de debates e reflexões críticas sobre seu presente e seu futuro na sociedade brasileira. Se situarmos, de acordo com a maioria dos historiadores, a chegada forçada ao Brasil dos primeiros africanos nos meados do século XVI, podemos deduzir que, na data da comemoração oficial do descobrimento, a presença negra no Brasil completava mais de 400 anos. Durante esses mais de 400 anos, os negros conseguiram duas grandes vitórias: o fim do tráfico (1850) e a abolição da escravidão (1888). O fim do regi­me escravista fez surgir, para manter o status que, uma ideologia racista sui generis, não institucionalizada, velada, sutil e paternalista, altamente eficaz em seus objetivos, que conseguiu prejudicar o processo de formação da identidade coletiva negra politicamente mobilizadora. Duran­te mais de 100 anos após a abolição, os negros conseguiram, às duras penas, desmascarar o mito de democracia racial brasileira e arrancar a confissão da classe dirigente sobre o racismo à moda brasileira. Os 500 anos da vida do Brasil simbolizam esta nova fase de um Brasil oficial que assume seu racismo. A questão que se coloca hoje é como passar da

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confissão e da retórica a uma verdadeira vontade política de mudança e de transformação da estrutura social. Isto só é possível pela implantação de um projeto nacional integrado, ancorado nos programas de ação em várias áreas da vida nacional, em que as exclusões se manifestam concretamente (por exemplo educação, mercado de trabalho, saúde, lazer, política etc.). É em tomo deste projeto que se desenrola o debate sobre o futuro da população negra no terceiro milênio. Este debate está apenas começando e se traduz, entre outros, pela reivindicação do multiculturalismo no sistema educativo formal, do aumento do contingente afro-descendente no ensino universitário e superior de modo geral, enfim, pela implantação de políticas compensatórias para minimizar as desigualdades acumuladas durante mais de 400 anos. Aqui está o significado profundo da reparação no sentido mais amplo e não monetário, pois não existe moeda que possa pagar os mais de 400 anos de injustiça, desumanização, violação dos direitos humanos, estupros, massacres, etc .. Uma mudança na psicologia do relacionamento é o ponto de partida de qualquer atitude reparatória. Não mudaremos essa psicologia enquanto parte importante da elite brasileira, incluída a intelligentsia, continuar a bater nas teclas de· uma questão social que diluí o racismo. A questão fundamental colocada em relação ao estudante negro não é a cota, mas sim seu ingresso e permanência na universidade. Se o Brasil na sua genialidade racista encontrar alternativas que não passem pelas cotas para não cometer injustiça com os alunos brancos pobres - o que á uma crítica sensata - ótimo! Mas que as coloque na mesa de discussão perante a sociedade e a opinião nacional. Mas, dizer simplesmente que implantar cotas é uma injustiça, sem propor outras alternativas a curto, médio e longo prazo, e é uma maneira de fugir de uma questão vital para a população negra e o próprio futuro do país. E uma maneira de reiterar o mito de democracia racial, embora ele já esteja desmistificado.
CIAMPA - Ao fazer um elenco do que deve ser objeto da reflexão crítica da população afro-descendente - a saber "o significado do tráfico, da escravidão, do movimento abolicionista, da desumanização, da exclusão social e da negação dos direitos humanos a segmento tão significativo da população brasileira" - não se está apontando para temas e questões que também podem e devem ser objeto de estudo e reflexão por parte dos outros segmentos da população brasileira, além dos afro­descendentes?

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KABENGELE - Sempre achei errado falar do "problema negro na sociedade brasileira", pois o negro não cria - como nunca criou - problemas para a sociedade. Pelo contrário, ele ajudou a desenvolver a economia, criar riquezas, povoar o território e construir a cultura e a identidade do país. A própria sociedade brasileira é que tem uma enorme dívida histórica com o negro. Há problemas, sim, mas devemos entendê-los como problemas da sociedade brasileira em relação ao negro e não ao contrário. Visto deste ângulo, vejo o preconceito, a discriminação e o racismo anti-negros como problema da sociedade brasileira, ou seja, como problema nacional cuja solução depende da participação de todos os cidadãos. No campo da pesquisa social, da reflexão crítica e das propostas de transformação da sociedade, devemos contar com a participação de todos, sem discriminação de cor, de sexo ou religião. Não é preciso ser judeu para estudar o judeu, nem negro, branco ou índio para estudar negro, branco e índio. Na realidade, não estamos analisando nossas cores, estamos estudando problemas sociais, problemas sociais provoca­dos pela diversidade das cores. Desqualificar a reflexão dos brancos sobre os não brancos e vice versa, seria despojar alguém de seus direitos de cidadão brasileiro perante uma questão nacional. Por outro lado, não concordamos com aqueles "neopositivistas" que pensam que o negro não tem objetividade para ser "sujeito" do discurso sobre seu próprio destino, pela sua situação de vítima que provoca nele uma carga emocional e afetiva destruidora da racionalidade. A emoção e a razão devem ser vistas hoje como irmãs gêmeas em qualquer processo de produção de conhecimento e não como inimigas. Penso que o pesquisador "de fora" e o "de dentro" se completam mutuamente e que a colaboração entre ambos enriquece o desenvolvimento da pesquisa sobre a realidade do negro. Sob este ângulo, vejo que a entrada da militância na academia veio anular a separação sujeito/objeto e representa um passo significativo para desbloquear o processo de conhecimento sobre o negro, que corria o risco de ficar preso entre duas posições adversas, uma defensiva, do pesquisador branco ainda preso ao neopositivismo; outra ofensiva, do militante negro, que pensa que foi roubado e mal interpretado pelo pesquisador "de fora". Sem dúvida, acontece às vezes que o discurso, enquanto uma manifestação de tomada de consciência, fale mais alto que a análise do fenômeno social. Mesmo assim, se colocarmos o mesmo discurso na boca de um(a) pesquisador(a) branco(a). as acusações de emoção se tornam menos pesadas. Este tipo de acusação exacerbada desencoraja e desmotiva os jovens pesquisadores afro-descendentes que ingressam na academia. Todos - vítimas e não vítimas do racis-

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mo - temos o direito - e até a obrigação - de tecer nossas reflexões sobre os fenômenos sociais nacionais, independentemente de nossa origem social, racial, sexual e religiosa.
CIAMPA - Preocupa-me o fato de muitos psicólogos sociais do Brasil, aparentemente, não darem a devida importância a esse tema. No seu entender, como a Psicologia Social pode contribuir - e tem efetivamente contribuído - para o debate sobre a situação do negro brasileiro? Você nota alguma tendência de mudança em pesquisas relacionadas com a população negra produzidas por psicólogos sociais no Brasil? Que te­mas e problemas vem sendo mais estudados? Há questões importantes nessa área que são negligenciadas, tratadas de forma inadequada, ou pouco conhecidas?
KABENGELE - Tenho observado durante esses 26 anos, que vivo no Brasil, que a Psicologia Social e a Psicologia de modo geral reservam um espaço muito pequeno e quase insignificante ao negro na sua produção de conhecimento. Se olhamos a produção da Psicologia norte americana sobre os negros, vemos que não há como estabelecer quantitativamente parâmetros de comparação entre os dois países. Por que a Psicologia americana se preocupa com seus afro-descendentes e a brasileira não se preocupa? Diria, pelos meus levantamentos para construir a obra "100 anos de Bibliografia sobre o Negro no Brasil", que até a ciência da Educação, que começou a pesquisar esta temática tardia­mente, já supera quantitativamente a produção da Psicologia.

Salvo as raras crônicas dos viajantes dos séculos XVII e XVIII, como Spix e Martius, a pesquisa científica sobre o negro no Brasil começa com a obra pioneira de Raimundo Nina Rodrigues "L'animisme fétichiste des nègres de Bahia", cuja primeira publicação data de 1900 (Bahia: Rei & Comp. 150p.) Ao fazer o levantamento bibliográfico que deu nome à obra "100 Anos de Bibliografia sobre o Negro no Brasil", encontramos pouquíssimos psicólogos e psicanalistas brasileiros que se debruçaram sobre o tema. Já dentro da minha própria universidade, a USP, não cheguei a inventariar mais de 10 obras. No conjunto da produção psicológica brasileira, não consegui atingir mais de 50 trabalhos de pesquisas sobre o negro nos últimos 100 anos.

Qual é a explicação dessa ausência e desse silêncio sobre um tema que toca a vida de mais de 60 milhões de brasileiros de ascendência africana? A resposta, creio eu, deveria resultar de uma pesquisa entre

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psicólogos e psicanalistas brasileiros renomados. Teria o mito da democracia racial brasileira contribuído, direta ou indiretamente, para essa indiferença da Psicologia brasileira, seja em relação aos problemas psíquicos resultantes da desumanização do negro, seja em relação aos mecanismos de pressão psicológica que o levaram a introjetar os mitos de superioridade "branca" e de inferioridade "negra"? Seria o fato de, como nos dizem, o psíquico e o inconsciente não terem cor, que provocaria a diluição da especificidade psicológica do negro num psiquismo universal abstrato e que, conseqüentemente, desviaria a atenção dos psicólogos nacionais sobre o negro? São apenas indagações intuitivas sobre as quais podemos especular, mas que só podem ter sustentação quando corroboradas por pesquisas com os psicólogos brasileiros.

Costumo dizer que o preconceito racial, como todas as formas de preconceito, é semelhante a um iceberg. Analiticamente, a parte visível do iceberg corresponde às manifestações dos preconceitos, tais como as práticas de discriminação, segregação e exclusões, que podemos observar e inventariar. Manifestações essas que podem ser estudadas, analisa­das e interpretadas pelas ferramentas das disciplinas sociais como a Sociologia e a Antropologia, bem como pela História e outras ciências humanas. A parte submersa do iceberg é a mais profunda e a mais difícil de estudar. Ela corresponde, analogamente, aos preconceitos não manifestados, presentes invisivelmente na cabeça das pessoas, e às conseqüências dos efeitos da discriminação na estrutura psíquica das pessoas. Os desajustados e perturbados mentais, vítimas do preconceito e da discriminação racial, mereceriam a atenção de uma ciência psicológica, tanto no plano individual sob o olhar de uma psicologia clínica, como no plano coletivo sob o olhar de uma psicologia social.

Das poucas contribuições da Psicologia brasileira conhecidas, relacionadas à questão do negro, como por exemplo as de Jurandir Freire Costa, Antonio da Costa Ciampa, Izildinha Baptista Nogueira, Monique Augras, Iray Carone, Edith Pizza, Maria Aparecida Bento, etc .. , nota-se notável colaboração da Psicologia aos estudos dos fenômenos subjetivos ligados aos processos de identificação do sujeito negro individual e coletivo, e aos de construção de sua auto-estima, geralmente baixa. Mais do que isso, acho que a Psicologia, de modo geral, deveria, dentro de sua especificidade, estabelecer um diálogo interdisciplinar com outras áreas das ciências humanas que lidam com o estudo do negro e estabelecer uma ponte com a ciência da Educação, auxiliando esta na construção de uma pedagogia transformadora das relações preconceituosas no âmbito da escola e da educação do cidadão brasileiro.

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CIAMPA - Peço-lhe que comente se a produção de conhecimento sobre o negro brasileiro tem tido algum impacto sobre as condições concretas de vida desse segmento de nossa população. Peço-lhe que comente também se há igualmente algum impacto decorrente da ação de movi­mentos negros. Há uma tendência de maior integração social, ou existe o risco de "guetização", inclusive com a assimilação de grupos apenas como segmentos do mercado consumidor - já se fala de uma "classe média negra" - mantendo-se a condição de negação dos direitos humanos a esses segmentos?
KABENGELE - Tenho dificuldade em aceitar que a produção de conhecimento sobre o negro brasileiro tem algum impacto sobre as condições concretas de vida desse segmento da população brasileira. As razões são múltiplas e complexas. Para começar, o primeiro e maior interessado em se utilizar dos resultados e conclusões da pesquisa acadêmica sobre o assunto deveria ser o poder político institucionalizado, que não o fez porque se escondeu por muito tempo atrás do manto do mito da democracia racial. Como poderia esse poder aplicar as conclusões da pesquisa em contradição com a ideologia que o sustentava? Os próprios pesquisadores, talvez por causa da divisão social do trabalho entre eles e os políticos, não se sentem seguros para "pular das janelas de seus gabinetes" e passar da análise às propostas de soluções dos problemas da sociedade. Senti muito esta dificuldade por ocasião do Primeiro Seminário Nacional Sobre o Racismo e o Multiculturalismo, organizado em Brasília, em 1996, pelo Ministério da Justiça. O Presidente da República, ao abrir esse seminário, incentivou no seu discurso a cri atividade dos estudiosos brasileiros, no sentido de apontar algumas saídas, já que o país não tem receitas prontas. Que decepção para a militância afro-descendente que, ansiosamente, estava esperando algumas propostas concretas, em vez das análises tradicionais do fenômeno, pois a maioria dos estudiosos convidados, começou de novo a repetir leituras de dezenas de anos atrás sobre o racismo à moda brasileira. Numa direção contrária, os convida­dos norte-americanos faziam análise e balanço críticos das práticas e experiências sobre políticas de ação afirmativa em aplicação em seu país ha mais de trinta anos. A passagem da teoria social às propostas de mudança exige, de meu ponto de vista, uma estreita colaboração entre a academia e a militância, entre a academia e os setores sociais interessa­dos nos resultados da pesquisa para transformar a sociedade. Por isso, acho que devemos apreender com a militância para saber como fazer a ponte entre a teoria e a práxis.

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Apesar de minhas considerações sobre a não utilização da pesquisa acadêmica pelas instituições do poder e pelas massas negras excluídas e geralmente sem acesso às pesquisas, acho que os que mais se utilizam dos resultados da pesquisa se encontram no meio da militância negra instruída e politicamente mobilizada. Nos últimos 20 anos, eu vi crescer significativamente a participação da militância negra nos debates acadêmicos. A militância universitária aspirante a intelectual e a não universitária mantêm relações diferenciadas com a academia. Apesar de algumas divergências de pontos de vista que sempre existem e deverão existir entre essa militância "esclarecida" e a academia, ambas saem enriquecidas pelo diálogo. A militância lança mão dos resultados da pesquisa para esclarecer suas dúvidas e idéias sobre o processo de conscientização e mobilização política de sua "comunidade". Por sua vez, a academia utiliza as críticas feitas pela militância para rever sua postura epistemológica e seu instrumento conceptual. Mais de uma vez, presenciamos as manifestações da militância não universitária que, ao assistir a uma dessas palestras, se decepciona, perde a paciência porque a fala tortuosa da academia não utiliza uma linguagem direta e não faz propostas capazes de apontar os caminhos de saída. A militância não universitária, me parece, fala uma linguagem direta, não conceptual, acessível às bases e capaz de traduzir os ensaios destas. É por isso que alguns de seus membros chegam até a desqualificar a comunidade acadêmica e a negar sua capacidade em falar dos problemas da "comunidade" negra.

Algumas mudanças simbólicas e não simbólicas obtidas, tais como o reconhecimento oficial do Zumbi dos Palmares como herói negro dos brasileiros, as propostas de inclusão da história do negro e do multiculturalismo nos currículos escolares que o MEC tenta contemplar nos Parâmetros Curriculares Nacionais, a inclusão do item cor no censo oficial e no sistema de saúde pública, a inclusão do racismo na nova constituição nacional como crime e não mais como uma simples contravenção penal (Lei Afonso Arinos) etc., são resultados da luta e das rei­vindicações dos movimentos negros organizados. Sem dúvida, os resultados das pesquisas engajadas tiveram suas influências, direta ou indiretamente, nessas conquistas e nos debates desencadeados em prol de uma mudança radical da sociedade.

O que a população negra quer - através de seus movimentos sociais organizados - é sua inclusão e integração em todos os setores da vida nacional. É cedo falar da maior integração social, pois o processo de integração inibido durante mais de cem anos pelo mito de democracia

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racial e de sincretismo cultural está apenas começando. Embora pareça verdade que há "guetização" de fato entre brasileiros pobres e não pobres de modo geral e também que a situação da população negra é a pior mesmo dentro do gueto de todos os pobres, é bom que se diga que o modelo da ideologia racial brasileiro não legitimou essa "guetização" pelas leis segregacionistas como aconteceu em outros países. Ninguém, na população negra, me parece, deseja uma mudança social que passe pela racialização da sociedade (igual e separado) como nos Estados Uni­dos. A melhor mudança seria aquela que passasse pela integração racial, no sentido de viver harmoniosamente juntos, iguais e diferentes. Vai o processo de formação da classe média afro-descendente criar uma fratura de classe entre ela e classe de negros pobres como está acontecendo nos Estados Unidos? Vai a classe média afro-descendente integrar-se perfeitamente na grande classe média sem distinção de cor? São algumas indagações que o próprio processo histórico brasileiro vai responder um dia. Esta classe média afro-descendente, consciente de que ela também é consumidora, dentro dos padrões globalizados definidos pelo capital transnacional, pela economia do mercado, pelas técnicas e pelas mídias, se vê também com direito de exigir um tratamento diferenciado nas publicidades referentes aos cosméticos e a outros produtos de beleza, pois sua acentuada concentração de melanina na pele, nos olhos e na textura de cabelos exige produtos diferentes dos destinados aos loiros e aloirados. Uma moda baseada somente nos cânones da estética da pele, dos olhos e cabelos mais claros contribui para a construção de uma imagem negativa dos outros, portanto para o desrespeito da diversidade que constitui a grande riqueza da humanidade.
CIAMPA - É verdadeira a impressão de que em nosso país há um crescimento do número de pesquisadores afro-descendentes? No caso afirmativo, como se localizam predominantemente? Na psicologia social e em áreas afins, como está a situação?
KABENGELE - Em primeiro lugar, é preciso se entender sobre o senti­do preciso da palavra crescimento. Creio que há uma confusão entre nascimento e crescimento, pois precisamos antes nascer para depois crescer. Eu diria que estão começando a nascer alguns "gatos pingados" de pesquisadores afro-descendentes nas universidades brasileiras. Ainda não dispomos de estatísticas anuais para saber se há realmente crescimento. Será possível sabe-lo através do número de teses e dissertações defendi-

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das e do efetivo exato de pesquisadores afro-descendentes atuando em universidades e centros de pesquisa. Essas estatísticas fazem falta para afirmar ou negar categoricamente o crescimento. Na USP, a maior universidade pública do país, diz-se que há cerca de 20 a 25 professores afro-descendentes num total de cerca de 4.500 professores e cerca de 5% de estudantes negros sobre um total de cerca de 40.000 estudantes. Como confirmar esses dados se até onde saiba nunca foi realizado um censo étnico ou racial nessa universidade? Na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, que é a maior faculdade da USP, com cerca de 8.000 estudantes e 350 professores, o número de professores e pesquisadores afro-descendentes contados pelos dedos não ultrapassa a cifra de cinco, incluindo o eminente professor Milton Santos, de renome internacional. Em outras faculdades como a Escola Politécnica, Saúde Pública, Medicina etc., contam-se também um, dois, três, se muito passa de cinco o número de pesquisadores e docentes afro-descendentes. Ignoro a realidade de outras universidades, mas pelas escassas informações que temos, a contagem não passaria dos cinco dedos da mão na maioria das instituições de pesquisa.

Temos hoje algumas teses e dissertações concluídas e em andamento, em algumas universidades públicas e privadas que produzem o conheci­mento sobre o negro, como a PUCSP e tantas outras. Mas, nem por isso devemos dar crédito às pessoas que dizem que todos os jovens pesquisa­dores negros estão pesquisando o "negro". Na minha experiência de 21 anos como docente e orientador de pós-graduação no Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, orientei 12 teses de doutorado e 4 dissertações de mestrado defendidas, entre as quais apenas 3 teses de doutorado de­fendidas por pesquisadores negros, entre eles um belga de mãe africana e dois afro-descendentes. Não sei se meus colegas brancos orientaram mais negros que brancos. Embora desconheça a realidade das outras universidades, vejo como um fantasma essa afirmação de que "os pesquisadores negros só querem estudar negros". Mesmo se fosse, qual é o problema? Vão os pesquisadores negros ameaçar o pesquisador branco em sua "torre de marfim", pelo simples fato de se tornarem eles sujeitos do discurso sobre sua realidade? Alguém se queixou uma vez pelo fato da maioria dos pesquisadores brancos estudarem fenômenos sociais que envolvem mais brancos do que negros? Acho que esse medo exagerado não corresponde ao número de pesquisadores afro-descendentes que se propõem a estudar o "negro".

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CIAMPA - o que significa negar a existência de racismo no Brasil? Ignorância? Falta de crítica? Má fé? Essa negação ainda é feita por pessoas que ocupam posições intelectuais de destaque?


KABENGELE - Atribuir a negação da existência do racismo no Brasil a ignorância, falta de crítica ou má fé, não seria urna alternativa certa. Os naturalistas e filósofos dos séculos XVIII e XIX que inventaram a Ciência das Raças, a Raciologia, que classificou a diversidade humana em "raças" desiguais, seriam dificilmente considerados como ignorantes. Arthur de Gobineau, Adolf Hitler, S. Chamberlain e, no caso brasileiro, Nina Rodrigues. Oliveira Viana etc., jamais serão considerados como ignorantes. A consciência de sentir-se discriminado e de discriminar não depende necessariamente da formação intelectual. E uma questão mais ideológica e cultural do que de educação ou formação intelectual. Numa sociedade em que preconceitos raciais são introjetados consciente e/ou inconscientemente através dos mecanismos educativos formais e informais, a tendência a formar cidadãos preconceituosos é maior que em sociedades nas quais o sistema educativo, através de uma educação multicultural, tenta inculcar a riqueza da diversidade. Nos países que conviveram com as leis racistas, como no regime do apartheid da África do Sul e do sul dos Estados Unidos, o racismo é urna questão ligada à estrutura do poder e portanto ideologicamente consentida e deliberada. No Brasil, ideologicamente, o mito da democracia racial encobriu com seu silêncio e paternalismo as práticas racistas que até hoje permeiam o tecido social e todos os setores da vida nacional. Intelectuais da direta acham ainda que é uma questão econômica que os não brancos estejam discriminados, ou seja, bastaria terem uma ascensão econômica para afastar a fumaça dos preconceitos e seus corolários. Intelectuais da esquerda pensam ainda que é apenas uma questão da existência de classes sociais, ou seja, basta nivelar economicamente todas as classes pela trans­formação da estrutura da sociedade e automaticamente a fumaça desaparecerá.

Vê-se que tanto na esquerda como na direita, a ideologia constitui um bloqueio para captar as especificidades do racismo, independente­mente da existência das classes e da ascensão econômica. Nos Estados Unidos, negros burgueses e brancos burgueses continuam a se estranhar apesar do poder econômico que os reúne. Na África do Sul da época do apartheid, os operários brancos do partido comunista nunca aceitaram caminhar junto com os operários negros. Nossos colegas intelectuais da esquerda universitária continuam a dizer que o racismo anti-negro no

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Brasil é uma questão social, esquecendo-se de que todos os problemas da humanidade, no que tange às desigualdades (racismo, machismo, preconceitos contra pobres, contra portadores de deficiências, contra homossexuais, etc.), são sociais, e que esses "sociais' não devem ser diluídos numa generalidade abstrata sem nome, sem cor, sem sexo e sem religião e que as soluções também devem contemplar a especificidade de cada problema social. Muitos intelectuais brasileiros não conseguem enfrentar uma discussão sobre a possibilidade de implantar políticas de ação afirmativa, para resolver o problema do ingresso e da permanência dos estudantes negros na universidade. Logo, para eles, a questão se resume em "cotas" e "reservas" de vagas em favor dos negros, e isso constituiria uma injustiça para com os estudantes brancos pobres. Embora concordemos todos que as melhores propostas seriam aquelas que englobassem a eliminação de todas as formas de exclusão, o que me surpreende é esse bloqueio ideológico que impede de fazer um esforço intelectual de grande fôlego para entender que não se trata de injustiça contra brancos pobres, mas apenas de medidas compensatórias para minimizar coletivamente as perdas provocadas durante mais de 400 anos pelo escravismo e pela ideologia racista. Os efeitos perversos que resultas'­sem dessas medidas deveriam ser previamente corrigidos. Por isso, não vejo projeto sério que não seja acompanhado de mecanismos corretivos.

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O BRASIL E SUA GENTE:

REPRESENTAÇÕES SOCIAIS EM 500 ANOS

AngelaArruda

RESUMO: Este trabalho reflete sobre a presença da psicologia social no debate sobre o Brasil e sua gente, que se renova com os 500 anos do Brasil, e visa a contribuir para ele. A cada modificação do projeto de nação, com as novas diretrizes do modelo, modificam-se práticas e representações sociais, como parte da instituição imaginária da sociedade. Foi assim com o surgimento do Brasil-nação, com o nascimento da República e, mais tarde, nos anos 30, com o varguismo. Um estudo anterior acompanhou as repercussões destas modificações sobre as representações do Brasil e do ser brasileiro/a na literatura e nas explicações das ciências sociais até os anos 30, indicando a dança entre identidades e alteridades que compõem este quadro de representações hegemônicas, sempre baseadas na natureza e nas etnias que compuseram a nação em seus primórdios. A permanência e a transformação de componentes de base destas representações se comprovam numa pesquisa recente entre lideranças ambientalistas a respeito das características culturais brasileiras que facilitariam ou dificultariam o avanço da consciência ambiental.
PALAVRAS-CHAVE: representações sociais, imaginário, pensamento brasileiro
O OLHAR DA PSICOLOGIA SOCIAL SOBRE O BRASIL E SUA GENTE
Ao propor o simpósio Brasil 500 anos: O olhar da Psicologia Social ao X Encontro da Abrapso (USP, 8-12 de outubro 1999), pretendi focalizar o interesse da Psicologia Social pelo tema, e acredito que ele foi atestado pelas falas dos participantes. Este texto integra esta reflexão e parte de uma afirmação banal: o Brasil foi sendo e vendo o Brasil de maneiras diferentes ao longo da sua história, que abre a porta ao olhar da psicologia social, como tentarei explicitar. As explicações sobre o país e sua gente concentraram o interesse de historiadores (Holanda, 1992 ; Carvalho, 1990), historiadores da arte (Coli, 1998), do pensa­mento brasileiro (Mota, 1977), da literatura (Cândido, 1964), de antro-

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pólogos (Da Matta, 1997) e de psicólogos como Dante Moreira Leite (1964) e Luís Cláudio Figueiredo (1996).

Dante Moreira Leite desfia para nós, no primeiro clássico brasileiro da psicologia social a ser reconhecido pelas demais ciências sociais! , o rol de pensadores que vão recorrer à psicologia para pensar o Brasil. Entre eles estão Oliveira Viana, Artur Ramos e Paulo Prado. O fato de pensarem o país e sua gente como produto de características psicológicas típicas de um povo - o caráter nacional - será o alvo da sua crítica. Leite registra, desta forma, a presença da psicologia social na discussão sobre o Brasil e sua gente. Ela nem sempre é feliz, mas não fica devendo ao que era produzido por outros saberes sacramentados na época. Manoel Bonfim (1993, 1997) desponta como o primeiro expoente que, sem abandonar uma abordagem de psicologia social, a emoldura num contexto mais amplo e a enraíza no território da realidade concreta que provoca as marcas psicológicas.

Leite vai criticar este percurso de aplicação da disciplina e apontar a superação da ideologia do caráter nacional "no momento em que as condições objetivas da vida econômica de certo modo impuseram a necessidade de um novo nacionalismo" (Leite, op.cit.:327): na década de 50, com a industrialização e o otimismo da sua afirmação nacionalista. Esta fase se conjugaria com uma mudança de atitude do intelectual brasileiro frente às classes mais pobres e às 'raças' não brancas.

Esta apreciação está em consonância com o que outros estudiosos dirão, indicando que as modificações de projeto do país se fazem acompanhar de modificação na visão do Brasil (Cândido, op. cit.; Mota, op. cit.; Carvalho, op. cit.; Figueiredo, op. cit.). Apesar de conter as marcas do seu tempo, a obra de Leite inaugura uma funda crítica à aplicação da psicologia social no pensar o Brasil e sua gente, que ele denomina de ideológica, e atesta que ela pode lançar seu olhar sobre esta processual idade de outra forma. Assim, ela pode participar desta discussão na atualidade, embora depois de seu livro observemos um largo hiato quanto à presença da disciplina neste debate, que volta à tona com os 500 anos do Brasil.

Com este trabalho, desejo me aproximar da linhagem do pensar o Brasil e sua gente no âmbito da psicologia social contemporânea e de sua perspectiva crítica. Proponho fazê-lo por meio do trânsito entre o imaginário e o projeto, recorrendo às representações sociais. Parto, então, de um primeiro pressuposto já enunciado, que é o de que cada modificação de projeto para este país implica modificação de práticas e representações sociais, no sentido do que Castoriadis (1982) denominou de instituição imaginária da sociedade. Tratar este trânsito me leva a

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recorrer às noções de representações hegemônicas e polêmicas (Moscovici, 1988). As primeiras são aquelas compartilhadas por todos os membros de grupos "altamente estruturados", como partidos ou nações. Elas predominariam implicitamente nas práticas simbólicas ou afetivas; parecem uniformes e coercitivas, mostrando grande parentesco com as representações coletivas de Durkheim. As últimas surgem no conflito e na controvérsia social, não criam unanimidade na sociedade. N a verdade, elas são produto de relações antagônicas entre grupos, excluindo-se mutuamente.

Num trabalho sobre o imaginário brasileiro relativo à natureza e aos povos que aqui criaram uma nova nacionalidade (Arruda, 1998), discuti como algumas representações hegemônicas foram se transformando ao longo do tempo. Tais representações são constitutivas de um campo de forças e de um território de lutas identitárias, disputas por espaço e pela afirmação de determinados projetos e interesses, como nos ensina Bourdieu (1982, 1983). Embora sob aparente letargia e homogeneidade, elas sofrem lentas transformações sob a influência de circunstâncias históricas, sociais, políticas e culturais. Tais modificações passam então, muitas vezes, por disputas entre representações polêmicas de grupos antagônicos bem como pelo trabalho permanente das representações "emancipadas"2 para metabolizar o real e tomá-lo matéria da comunicação.

Aqui reside um segundo pressuposto desta análise: o de que o imaginário é também, uma arena de disputa, território no qual se constróem ao mesmo tempo identidade e alteridade, já que elas são mutuamente fecundantes. Um terceiro pressuposto seria, então, que imaginário e realidade, ação e construção ideal são indissociáveis. Passo, em seguida, a declinar de maneira breve a reflexão que se apóia nestes pressupostos.
A MODIFICAÇÃO DO BRASIL E A INSTITUIÇÃO IMAGINÁRIA DA SOCIEDADE BRASILEIRA
Três momentos em que a sociedade institui no Brasil um imaginário a respeito de si e da sua gente foram analisados previamente (Arruda, op. cit.). Trata-se de três situações profícuas para o surgimento de novas representações hegemônicas, marcadas por uma negociação com outras representações que as constróem e desconstróem: a colonização, o mo­mento da construção do Brasil-nação e o advento da República. Vou apresentar dois deles de forma resumida e insinuar alguns pontos referentes ao século XX para ilustrar a reflexão.

Segundo os historiadores, o "maravilhamento" inicial (Greenblatt,

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1996) diante da paisagem exuberante, dos povos e costumes tão contrastantes com os da Europa, fez reviver o velho acervo medieval para aproximar a nova terra das imagens do Paraíso Terreal (Holanda, 1994). Após esse primeiro momento, a visão do português tendeu a fixar-se numa aproximação entre a natureza luxuriante dos trópicos e os mitos de um Paraíso Terrestre: quase sempre edenizou-se a natureza. Com efeito, ela se constitui na marca deste país, seja na forma da fauna e flora, seja na do exotismo das populações humanas.

Da mesma maneira, diante do estranhamento provocado pelos indígenas, alçaram-se velhas fantasmagorias; logo prevaleceu a "demonização" (Souza, 1986), que também iria colar à pele dos negros. O mecanismo de ancoragem (Jodelet, 1984) é muito bem descrito pelos nossos historiadores; Sérgio Buarque de Holanda (1994) lembra que os motivos edênicos se inspiram na Idade Feliz cantada pelos poetas gregos, e Laura de Mello e Souza explicita (1986:35):

Ação divina, o descobrimento do Brasil desvendou aos portugueses a natureza paradisíaca que tantos aproximariam do Paraíso Terrestre: buscavam, assim, no acervo imaginário, os elementos de identificação da nova terra. Associar a fertilidade, a vegetação luxuriante, a amenidade do clima às descrições tradicionais do Paraíso Terrestre tornava mais próxima e familiar para os europeus a terra tão distante e desconhecida.

Juntamente com a invenção do Brasil, estava em gestação no imaginário europeu um novo senso comum diante da chegada ao novo Mundo, do encontro com humanidades e naturezas outras. A maneira do colonizador lidar com a natureza, contudo, entrava em contradição com a representação e a forma de relacionar-se com o meio natural dos nativos, indicando que uma representação hegemônica pode encobrir outras ali presentes, como num jogo de figura e fundo. Da mesma forma, a índia vista como lasciva e disponível sexualmente fará sua conversão de cunhã em cristã, vindo a constituir a pedra de toque da família brasileira, e o índio passará da imagem de senhor da floresta, forte e vigoroso, a de um trabalhador "banzeiro e moleirão" (Freyre, 1978) ao sofrer a fixação à terra imposta pelo colonizador.

Vamos encontrar outra variação entre as representações a respeito destas mesmas populações nos outros dois período históricos menciona­dos, quando os projetos e interesses relativos ao Brasil eram outros. O estabelecimento do Brasil nação e mais tarde, a busca de uma essência do Brasil, que passava sempre pela cor da pele - expressão ora mais ora menos radical da natureza - vai elevar os ambíguos atributos da negra ­fonte de produtividade e perdição, uma força da natureza dócil e fogosa

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ao mesmo tempo - à marca da "brasilidade", e a mulata é de exportação porque simboliza algo que desejamos apresentar aos estrangeiros como parte da nossa substância mais funda: beleza, sedução e exotismo. Como apontam os estudiosos (Bosi, 1992), porém, a figura do negro não cons­ta dos registros criados pela literatura para forjar os mitos fundadores da nacionalidade: o indianismo o desconhece (vide O Guarani e Iracema). Isto não significa que tanto a figura do índio quanto a do negro, como se vê na obra de Gonçalves Dias e na de Castro Alves, não despertassem outras visadas.

Na virada do século, almejando a modernidade, D. Pedro II nos lega como símbolos da nação figuras de um imperador e efígies do Império que foram analisadas por Lilia Moritz Schwarcz (1999): nelas, a cor local vem associada à realeza. O Museu Imperial de Petrópolis expõe um manto de D. Pedro II recoberto de penas de aves tropicais e não faltam as plantas e frutas no cenário dos retratos da família e na moldura das efígies, consignando a incorporação da alteridade como marcador da singularidade de um império nos trópicos. A presença de índios também é constante nas pinturas de D. Pedro. Já a de negros, é quase inexistente. O Imperador, que se comprazia no papel de mecenas das artes e das ciências, pensador liberal, não desejava associar a imagem do seu reinado à perspectiva escravocrata.

O movimento modernista, a obra de Gilberto Freyre são marcos que registram, no século XX, uma mudança de diapasão. No primeiro caso, temos representações polêmicas da interpretação do Brasil e sua gente: o canibalismo é a proposta de valorização do potencial assimilador e transformador, transmutando o que era execrado em valor. No segundo caso, temos uma contribuição para novas representações hegemônicas que fundem as três raças num perfil de brasileiro/a restaurado: a nação miscigenada.

Vargas vai trazer um novo projeto que será acompanhado pela difusão das imagens correspondentes. Com a sua máquina de propaganda, ele propõe mais um "redescobrimento" do Brasil (Mota, op. cit.). O cinema de Humberto Mauro, situado neste quadro, expressa a tensão entre representações hegemônicas e polêmicas. O filme "Descobrimento do Brasil" é exemplar neste sentido. Ele segue o roteiro da carta de Pero Vaz de Caminha de forma aparentemente fiel, introduzindo, contudo, aspectos peculiares à visão de Mauro (Arruda & Vannini, 1999): índios e portugueses terminam aparecendo como se estivessem em pé de igualdade. Apesar da cordialidade de parte a parte, cada um mantém­se permanentemente na defensiva, e as trocas de presentes mostram ob-

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jetos que servem às mesmas funções. Os índios são menos folclóricos do que se poderia esperar: expressam uma ordem que lhes é própria, têm liderança e reagem diante de ações que ofendem seus costumes (o corte da árvore que servirá para fazer a cruz da primeira missa), enquanto os portugueses são menos atrasados do que se costuma retratar: dominam a técnica da navegação, não chegam ao Brasil por acaso, e manifestam generosidade com os indígenas. O Brasil ingressava na era industrial e desejava se ver sob a égide da modernidade, redourando suas origens uma vez mais.

Essas propostas, vale salientar, não são respostas insulares de um país exótico e longínquo. Elas se inscrevem numa dinâmica mais ampla, internacional, que dá pautas para o redesenhar do perfil, e cada país as filtra e recompõe à sua moda. Foi assim com a colonização,3 com a independência, com a industrialização. Agora de novo, com a aceleração da globalização, repete-se certamente o processo de modificação na forma de vermos e pensarmos o Brasil e sua gente - da mesma maneira que está sucedendo com tantos outros países "emergentes" e "submergentes".

Temos aqui, então, o último pressuposto desta reflexão: o de que conjunturas internacionais, ao provocar novas práticas e mudanças de mentalidade, incidem sobre o projeto e sobre a instituição imaginária da sociedade brasileira.

Segundo Viola (1998), como a grande maioria dos países, o Brasil se encontra no meio de um processo de grandes transformações produzi­das por vários fatores: o enfraquecimento da capacidade regulatória do Estado; o declínio das ideologias coletivistas frente às individualistas; a desintegração do pacto social corporativo estruturado na década de 30; a erosão das estruturas de poder político patrimonial-clientelista herda­das da sociedade pré-industrial; o novo paradigma produtivo, intensivo em capital e tecnologia e poupador de mão de obra e matérias primas; a mudança de mentalidade dos sistemas produtivos e dos modos de vida; por último, a expansão da violência e do crime organizado internacional. O Brasil enfrentaria, assim, dilemas cruciais, cuja resolução ele avalia que teria que dar-se num período curto, de uma década.

Esta grande modificação, como já foi o caso no passado, transforma o perfil do país entre as demais nações, sua imagem de si mesmo.

Tendo em vista o peso da natureza nas nossas diversas definições do Brasil e sua gente ao longo do tempo e a insistência com que a crise ambiental vem obrigando a uma reengenharia da relação humana com o ambiente natural, escolhi para dar prosseguimento a esta reflexão a ques-

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tão ambiental como marcador de transformações que estão ocorrendo na nossa instituição imaginária.


HERANÇA CULTURAL E CONSCIÊNCIA AMBIENTAL NOS ANOS 90
O projeto que serviu de base às reflexões que desenvolverei foi leva­do a cabo pelo Ministério do Meio Ambiente, Museu de Astronomia! CNPq e ISER. Propunha estabelecer uma série de pesquisas que se repetirão periodicamente para mapear o pensamento ambientalista brasileiro. Até agora, foram levadas a cabo duas destas pesquisas, com metodologia e universos semelhantes, uma em 1992, por ocasião do Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvi­mento (Crespo e Leitão, 1992), e outra, sobre a qual voltarei mais adiante, no período do balanço de cinco anos daquela conferência, reunião denominada Rio Mais 5 (Crespo, Arruda, Serrão, Marinho, Layrargues, 1998), em 1997. Nas duas ocasiões foram feitas entrevistas semi­estruturadas com 12 expoentes de seis segmentos sociais (ambientalistas, empresários, cientistas, técnicos ou gestores governamentais, movimentos sociais, parlamentares), constituindo uma amostra reputacional de 72 entrevistas, submetidas a uma análise de conteúdo temática. Na última pesquisa,4 pude perceber aspectos interessantes para serem aborda­dos pelo foco das representações sociais, que passarei a relatar.

Os grupos e ativistas do ambientalismo elaboram um conjunto de representações sociais a respeito da relação humana com o meio ambiente que se contrapõe às perspectivas hegemônicas. Com efeito, em pesquisa anterior a esta (Arruda, 1995 e 1998), observei que no interior de quatro grupos ecologistas e ecofeministas havia uma forte afirmação da inexistência de qualquer diferença entre os seres humanos e o mundo natural. Agora, dos 12 ambientalistas5 entrevistados pelo Projeto Brasil 21 em 19976, 5 também negam qualquer diferença entre nós e o mundo natural; 3 estabelecem diferenças apenas de escala, situadas na capacidade de intervenção sobre a natureza; 2 vêem os humanos como predadores. Ou seja, com a mudança de valores, deslocou-se tanto o lugar da humanidade quanto o ângulo de enfoque com relação à natureza, nas atuais circunstâncias.

A novidade trazida pela crise ambiental, com a propalada ameaça do fim dos recursos naturais renováveis e o perigo de extinção das espécies - inclusive a humana - seria o motor de um movimento que não se acantona apenas entre as minorias ativas ambientalistas. Estas, contudo, abraçam novos valores e seriam formuladoras de propostas de entendi-

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mento, de interpretação da situação. Mas o que nos interessa aqui é observar que, por um lado, estamos diante de uma daquelas conjunturas que obrigam o reajuste do projeto (não só de nação mas também planetário, embora aqui focalizemos apenas o Brasil). Por outro, temos representações sociais de grupos diversificados em pugna com as representações hegemônicas e que vão difundindo sua interpretação, sua compreensão dos fatos. Estas propostas, que poderão servir de chão para um novo senso comum, se difundem ao grande público por meios diversos, propondo novas subjetividades, rearrumando o jogo da alteridentidade.

Ajustando o foco um pouco mais, miremos numa parte da pesquisa que revela aspectos interessantes para o que estou discutindo.

Em ambas as pesquisas perguntou-se aos entrevistados quais se­riam os fatores culturais que emperram ou facilitam a formação de uma consciência ambiental na sociedade brasileira. Na mais recente, os fatores relacionados com as raízes históricas e a condição geográfica do Brasil foram mais freqüentes, e os fatores positivos predominaram: a alegria, o gosto pela vida, a criatividade, a miscigenação, que fazem parte de uma representação a respeito de uma "natureza tropical".

Tais fatores parecem resquícios do debate que se desemolou do início de século até o estabelecimento de novos marcos fundacionais pela Semana de Arte Moderna de 1922, com seus manifestos, e obras como Casa Grande e Senzala, RaÍzes do Brasil e outras. Redesenhava-se a nacionalidade, enfocada a partir das suas bases materiais, suas características culturais, e a mistura das raças passava a ser vista como fator de adaptação aos trópicos (Mota, op. cit.; Boaventura, 1991). Nossa mestiçagem tornava-se, assim, positiva, incorporávamos "o outro", ainda que só na retórica. O discurso de nossos atores ambientalistas aponta características bem próximas a estas, que foram reunidas sob a categoria de "tropicalidade", encaradas como uma grande vantagem para avançar em direção a uma maior consciência ambienta!. Elas chegam a mais de 2/5 das menções.

O brasileiro gosta da vida saudável, coisa bonita, tudo que é gostoso. Tudo isso é meio ambiente, meio ambiente é coisa gostosa, saudável - água, sol... Esse lado lúdico do brasileiro, de festa, eu acho que é um aspecto que a gente tinha que trabalhar melhor (Representante de rede de entidades, 32 anos).

A celebração da natureza, com a visão da sua grandiosidade e abundância, os mitos indígenas e africanos, fazem parte da nossa

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herança cultural e histórica, e são outro fator favorável a uma cons­ciência ambiental, concentrando quase 113 das menções: .


(...) a nossa mitologia (...) A água (e a roça, no campo das sociedades tribais) são nichos amorosos, onde os homens se encontram com suas mulheres para se amar. Se a água estraga, se a floresta acaba, os homens não vão mais fazer amor. Então é grave (Cientista, filósofo/teólogo, 40 anos).
O outro fator positivo mais citado, com 1/5 das menções, foi a abertura do brasileiro, sua permeabilidade diante do novo. Embora permanecendo naquele quadro de maleabilidade que as teorizações da miscigenação indicavam, ressalta a capacidade de incorporar as novidades vindas de fora dando-lhes cara própria, o que Oswald de Andrade recupera sob a égide positivante da antropofagia. Por isso a denominamos como "antropofagia cultural":
O próprio espírito do brasileiro, o jeito aberto, facilita discutir questões e assimilar. O brasileiro é permeável (...), aberto às mudanças, colabora (...) se solicitado para uma campanha, ele é muito solidário, (...) o próprio rodízio [de carros] em São Paulo mostra isso (u.) (Técnico, ecóloga, 30 anos).
No outro prato da balança estão os fatores que emperram a consciência ambiental. Os mais citados são, de novo, aspectos da nossa herança, desta vez pelo lado da tradição colonialista: uma relação predatória com a natureza, a distância entre o discurso e a prática, e a cultura da abundância, que encara a natureza como inesgotável (mais de 113 das menções).
(..) Tem muita coisa, muita abundância e acha que nunca vai acabar. Esse é um problema geral. "Nossa, quanta floresta, derrubar um pouquinho não tem problema" (...) (Representante de rede de organizações sociais, 32 anos).
O segundo fator negativo é a falta de espírito associativo, de cooperação, de amor ao bem público, características do individualismo presentes em quase 1/5 das menções. O brasileiro seria displicente, sem respeito ao outro, razão pela qual não tem "consciência do seu papel na conservação do meio ambiente", como afirma uma cientista social.

Em seguida, foram arroladas lacunas da cidadania, como a educação desde a infância para "colocar na criança a importância do meio ambiente". Falta "interesse do governo em fazer essa educação" segundo um

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representante de movimento popular, de 40 anos. Isto redundaria na falta de espírito coletivo, a qual também se reflete no descaso pelo espaço público, porém desta vez como parte da estrutura social: a falta de educação cívica. "Jogar lixo pelas ruas da cidade", desfilando "em carros importados último modelo", por exemplo, é "um problema grave (...) que independe da classe social" segundo um cientista/engenheiro.

A ambigüidade da cultura brasileira, já detectada em trabalhos como os de Da Matta (1991, 1997 entre outros), se expressa aqui repetidamente. A herança cultural é considerada de duas formas. Positivamente quando é relacionada às raízes indígenas e africanas da nossa sociedade. Os mitos e as crenças herdados dessas culturas, presentes no nosso imaginário social, estimulariam a consciência ambiental pois aproximam homem e natureza.
(...) existem muitos mitos, folclores protetores que de certo modo passaram para o caboclo. Como o mito do Curupira ou da Cai para, que protege a caça. Essa mitologia conservacionista é muito ligada à sustentabilidade. O índio tem um espírito protetor da caça (...) porque se ela acabar ele vai morrer. (...) Existe diferença na mentalidade, o branco chega lá e destrói tudo; o índio não (...) (Cientista, médico, 63 anos).
Em oposição, muitos dos nossos "maus hábitos" para com a natureza são relacionados a uma herança européia:
(...) Temos uma tradição colonial, não indígena; é uma tradição do colonizador. Você viaja nos barcos da Amazônia, tudo que se come, se bebe, joga-se no rio. Isto não é um valor da cultura indígena, ou cabocla. É um predicativo da cultura colonial que nós assimilamos. Toda a nossa arquitetura dá as costas para o rio. Nossas necessidades são feitas no rio. Construir uma cidade canalizando toda sua tubulação de esgoto para os igarapés (...) (Cientista, filósofo/teólogo, 40 anos)
As falas aqui parecem indicar a busca de uma nova resposta ao resultado das práticas seculares de uso dos recursos naturais no país ao analisarem a tradição e o imaginário que as orientaram.

Quanto aos hábitos e comportamentos dos brasileiros também se repetiram as características positivas e negativas. A tropicalidade, por exemplo, apesar de ser o fator positivo mais citado, também tem um lado negativo: as características do individualismo e "anarquismo", como falta de responsabilidade, de tenacidade, de mobilização social e de disciplina.

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ARRUDA, A. "O Brasil e sua gente: representações sociais em

500 anos" Psicologia & Sociedade; 12 (1/2): 18-31; jan./dez.2000

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o aspecto negativo é que o brasileiro é muito anarquista, individualista e desorganizado. Até para criar uma ONG não consegue. A média dos militantes em meio ambiente corresponde a vinte por organização, [então] temos INGs [indivíduos não-governamentais]. É um país que não tem tradição organizacional e possui baixa capacidade de trabalho em grupo (...) (Técnica, socióloga, 49 anos).


O quadro abaixo tenta sistematizar este conjunto de fatores positivos e negativos segundo grandes temas e suas categorias, evidenciando a ambigüidade que permeia a visão de nossos entrevistados.

FATORES POSITIVOS FATORES NEGATIVOS



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