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ATUALIDADES
Vários alunos solicitaram-me textos de atualidades de diversos assuntos para serem lidos nas férias de Julho. Ao selecioná-los, procurei temas que são recorrentes nos vestibulares mais concorridos do país, tais como FUVEST, FGV, UFMG e UnB. Para tanto, os artigos foram divididos em 4 temas, a saber: Economia, Geopolítica, Política e Geografia Física. No final disponibilizei alguns textos de minha autoria publicados desde 2009.
Boa leitura e boas férias!!!
Prof. Jutorides

ECONOMIA

28/06/2010



1. O Brasil e a bolsa de valores: uma aposta no crescimento chinês

Rodrigo Constantino

O crescimento econômico brasileiro ainda é muito dependente do crescimento econômico chinês, por conta do preço das principais commodities que o país exporta. As empresas brasileiras exportam quase cinco vezes mais hoje do que faziam no começo do governo Lula, e boa parte do aumento se deve aos produtos básicos. Se isso é verdade para a economia como um todo, é ainda mais verdadeiro para o desempenho da bolsa no Brasil. O Ibovespa ainda é muito concentrado em empresas diretamente ligadas ao preço das commodities.

 

Quase metade do principal índice de ações do país é formada por empresas que dependem das commodities, que são cada vez mais impactadas pela demanda chinesa. A Petrobras e a Vale, sozinhas, representam algo como 25% do Ibovespa. E a China já representa quase a totalidade do crescimento na demanda mundial de petróleo e minério de ferro. Quando comparado ao índice de outros países, o Ibovespa se destaca por essa excessiva concentração em commodities.



 

O Dow Jones americano, por exemplo, tem menos de 15% em empresas atreladas diretamente ao preço de produtos básicos, patamar semelhante ao do CAC na França. O FTSE inglês já é mais exposto às oscilações das commodities, com quase 30% em empresas que dependem desses produtos. Já o Nikkei no Japão, o Kospi na Coreia do Sul e a bolsa de Taiwan possuem menos de 10% em empresas expostas às flutuações das commodities. São países com elevada participação de empresas de tecnologia.

 

Mesmo a bolsa chinesa tem baixa exposição a empresas de commodities, cerca de 20% do total. A demanda chinesa é cada vez mais relevante para determinar o preço desses produtos, mas a bolsa de ações na China possui participação maior em setores como o financeiro, por exemplo. É o crescimento chinês que dita o preço das principais commodities, mas é o Ibovespa que acaba dependendo mais de sua flutuação.



 

Comparando o desempenho do Ibovespa em dólar com o CRB, principal índice de commodities da bolsa de Chicago, verifica-se elevada correlação ao longo do tempo. A correlação semanal desde 2009, por exemplo, está acima de 0,95. A Austrália é outro país que acaba surfando bem esta onda chinesa, apresentando enorme correlação com o Ibovespa.

 

Com as principais economias desenvolvidas sem crescimento e com taxas de juros próximas de zero, os investidores buscam alternativas para alocação de capital, tentando aproveitar o crescimento ainda acelerado na China. Mas o melhor instrumento para isso nem sempre será o próprio mercado de ações chinês. Por isso o Brasil acaba se destacando como um excelente “China play”, uma forma de os investidores internacionais apostarem no crescimento chinês indiretamente.



 

O problema disso é que o Brasil se tornou mais vulnerável a choques externos, principalmente da economia chinesa. Ninguém sabe ao certo para quanto vai o crescimento chinês. O que parece mais razoável prever é que a atual taxa não é sustentável. Existem claros sinais de espuma no setor imobiliário chinês, e até o mercado de trabalho começa a apresentar alguns problemas, pressionando os salários para cima. A inflação tem sido uma ameaça constante na China. Se o governo não for capaz de contê-la com medidas administrativas apenas, a economia poderá sofrer um baque. Não dá para descartar a hipótese de queda mais acentuada no crescimento chinês. E se isso acontecer, tanto a economia brasileira como o Ibovespa serão duramente afetados.

 

O ideal seria o governo brasileiro fazer as reformas estruturais para criar um dinamismo interno mais independente em nossa economia. Com a reforma previdenciária desarmando parcialmente a bomba-relógio do rombo na previdência, a reforma tributária reduzindo e simplificando os impostos, a reforma trabalhista flexibilizando o mercado de trabalho e a reforma política descentralizando o poder e oferecendo maior racionalidade à política nacional, a economia poderia decolar de forma sustentável.



 

Infelizmente, nenhum dos grandes partidos abraçou esta bandeira de reformas e, para agravar a situação, o governo Lula tem se mostrado muito irresponsável do ponto de vista fiscal no fim do segundo mandato. Nossa economia acaba extremamente dependente do fator China e do crédito estatal, que não pode continuar neste ritmo sem gerar mais inflação. Os gargalos internos ameaçam nossa recuperação econômica, e o Brasil acaba sendo somente uma aposta no crescimento chinês que, por sua vez, apresenta alguns sinais de esgotamento. Não é um quadro muito animador para investidores de longo prazo.

 

Fonte: Jornal “Valor Econômico” – 22/06/2010




2. China e Taiwan assinam acordo comercial histórico


Acordo traz mais vantagens econômicas para Taiwan (29/06/2010)

China e Taiwan assinaram um pacto comercial para eliminação de tarifas que está sendo visto como o mais importante acordo entre as dois desde a guerra civil que separou os governos, há 60 anos.

Centenas de produtos serão beneficiados pelo Acordo de Estrutura de Cooperação Econômica, que deverá aumentar consideravelmente o comércio bilateral, atualmente em US$ 110 bilhões por ano.

Segundo o correspondente da BBC em Xangai Chris Hogg, o acordo traz mais vantagens para Taiwan, mas a China está mais interessada em eventuais benefícios para sua longa campanha pela unificação China e Taiwan.

O acordo está sendo creditado aos esforços do presidente taiwanês, Ma Ying-jeou, eleito dois anos atrás com a promessa de diminuir a tensão com o continente.



Setor de serviços

O acordo foi assinado na cidade de Chongqing, no continente chinês. O enviado taiwanês, Chiang Pin-kung, disse que o acordo representava “um momento crucial no desenvolvimento das relações a longo prazo”.

Atualmente, Taiwan exporta cerca de US$ 80 bilhões para a China, e importa cerca de US$ 30 bilhões do continente.

Sob o novo acordo, cerca de US$ 14 bilhões em produtos taiwaneses terão suas tarifas reduzidas ou eliminadas. As empresas da ilha também vão ganhar acesso a uma série de setores de serviços no continente, entre eles o bancário e o das seguradoras.

No caso da China, apenas US$ 3 bilhões em produtos exportados terão tarifas reduzidas.

A correspondente da BBC em Taipei Cindy Sui disse que o acordo é claramente vantajoso para Taiwan, mas muitos na ilha temem que o pacto torne Taiwan economicamente dependente da China e, consequentemente, vulnerável politicamente.

Muitos também desconfiam dos motivos por trás da decisão chinesa, argumentando que Pequim espera usar a medida para conquistar o apoio das grandes empresas de Taiwan.

Houve protestos nas ruas em Taiwan contra o acordo, mas pesquisas de opinião sugerem que a maioria dos moradores da ilha são favoráveis à medida.

Segundo Chris Hogg, os chineses do continente estão entusiasmados com o acordo, que é visto como uma forma de apertar os laços com Taiwan e de conquistar corações e mentes dos taiwaneses.

O premiê chinês, Wen Jiabao, já havia dito que seu país “pode abrir mão de nossos lucros porque os compatriotas taiwaneses são nossos irmãos”.

A relação entre os dois lados esteve estremecida durante décadas.

Taiwan e a China têm governos separados desde o fim da guerra civil, em 1949.

O local da assinatura do acordo, Chongqing, tem ressonância histórica. O líder comunista Mão Tse-Tung e o presidente nacionalista Chiang Kai-shek fracassaram na tentativa de assinar um armistício na cidade. Chiang foi forçado a fugir para Taiwan em 1949.


3. Código Florestal: a comida ficará mais cara

24/06/2010



Convidado - Denis Rosenfield

Se você não leu, recomendo a leitura da apresentação do parecer do deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB-SP) ao projeto de lei nº 1.876/99, relativo ao Código Florestal. Além de um texto muito bem escrito, você poderá ficar vacinado contra as hipocrisias, que têm sido ditas a propósito dele. O deputado se insere na melhor tradição brasileira de defesa da soberania nacional.O parecer não é favorável ao “desmatamento” como tem sido veiculado, mas a favor de um desenvolvimento sustentável, baseado numa agricultura pujante, seja ela de assentados, agricultores familiares, pequenos, médios e grandes. Hoje, é como se as palavras agricultura e pecuária estivessem ganhando um sentido pejorativo. Faltaria somente explicar como os brasileiros — e os habitantes do planeta — vão comer, salvo se a opção for destinar à miséria os cidadãos do país.

O Código Florestal de 1965, elaborado durante o regime militar, obedeceu a um ritual próprio da democracia, através de um projeto de lei e de discussões no Congresso Nacional. No entanto, desde então, ele foi objeto, no dizer do deputado, de “absurdas alterações”, que o desfiguraram completamente. “É paradoxal que em plena democracia ele tenha sido completamente alterado por decretos, portarias, resoluções, instruções normativas e até por uma medida provisória que virou lei sem nunca ter sido votada.” Em regime autoritário, procedimentos democráticos, legislativos, foram observados, enquanto em regime democrático aprofundou-se a tendência, de cunho autoritário, de impor regulamentações através de atos administrativos emanados do Poder Executivo. A pauta ambientalista avançou por atos administrativos, graças a uma legislação infralegal que deformou a lei existente.

Nesta perspectiva, os modernos ambientalistas preferem não seguir os ritos democráticos, advogando por legislar através de atos administrativos, à revelia do Poder Legislativo.

Graças a essas medidas, a “legislação põe na ilegalidade mais de 90% do universo de 5,2 milhões de propriedades rurais no país”. A situação é tanto mais grave do ponto de vista constitucional devido ao fato de esses atos administrativos terem efeito retroativo. Nunca está demais lembrar que só no nazismo as leis tiveram efeito retroativo. Quem plantou no passado, de acordo com legislação vigente, legalmente portanto, torna-se, por um ato administrativo, ilegal! Potencialmente, senão efetivamente, um “criminoso”. “Homens do campo, cumpridores da lei, que nunca haviam frequentado os tribunais ou as delegacias de polícia, viram-se, de repente, arrastados em processos, acusações e delitos que não sabiam ter praticado.

Houve casos de suicídio, de abandono das propriedades por aqueles que não suportaram a situação em que foram colhidos.” O país tem sido objeto de espetáculos midiáticos globais, protagonizados por diretores de cinema, atores e atrizes, que tornam a natureza brasileira, em especial a Amazônia, objeto de seu maior apreço. Cabe aqui a pergunta, suscitada pelo deputado, citando o padre Antônio Vieira: “Estão aqui em busca do nosso bem ou dos nossos bens?” Se fossem minimamente coerentes, deveriam lutar pela recomposição das florestas nativas em seus respectivos países. O diagnóstico do parecer é preciso.

Os EUA destruíram “quase completamente” as suas florestas nativas, enquanto na Europa a destruição foi completa. O Brasil, por sua vez, responde por quase 30% do que restou de toda a cobertura vegetal original do planeta.

Logo, os ambientalistas deveriam lutar pela recomposição das florestas nativas nos EUA, no Reino Unido, na Holanda, na França, na Alemanha, na Itália. Por que não o fazem? Será por que os interesses da agricultura desses países seriam contrariados? Poderiam retirar os subsídios agrícolas das pecuárias europeia e americana e, portanto, diminuir a produção de gases produzidos pelos rebanhos. Por que se imiscuem na pecuária brasileira, deixando as europeia e americana intactas? Poderiam não produzir mais tanta uva, com incentivos para a produção de vinhos.

Diminuiriam o problema das encostas e poderiam ver florescer florestas nativas, com a sua flora e a fauna originárias. Não deveria valer a criação de “florestas”, que são verdadeiros bosques e parques para os cidadãos fazerem piqueniques nos finais de semana! Vamos tomar a sério a reconstituição das florestas nativas! O resto é mero exercício de hipocrisia.

Ademais, no Brasil, vieram a ser de uso corrente conceitos como os de “reserva legal” (áreas que deveriam ser preservadas, nas propriedades, para a conservação da natureza, de 20% no Sul e Sudeste, 35% no Centro-Oeste e 80% na Amazônia) e APPs (áreas de preservação permanente como encostas de morros e margens de rios). A norma da “reserva legal” não existe em nenhum outro país, principalmente os desenvolvidos, que financiam, “paradoxalmente”, as ONGs internacionais. A legislação das APPs deles é muito menos rigorosa do que a nossa. Cabe novamente a pergunta: por que essas ONGs que tanto dizem prezar a natureza não fazem os mesmos movimentos nos EUA e nos países europeus, lutando pela criação da reserva legal e por uma aplicação muito mais ampla e rigorosa das APPs? Vale aqui e não vale lá? A quais interesses respondem? No país, se toda a legislação atual for aplicada, como querem essas ONGs nacionais e internacionais, várias áreas de cultivo como a banana e o café no Sudeste, o arroz, a uva e o tabaco no Sul, a pecuária no Pantanal e na Amazônia Legal, a soja no Cerrado, as florestas plantadas e a cana de açúcar, entre outras, ficarão inviabilizadas.

Áreas já consolidadas, há décadas, senão séculos, deverão ser desativadas, com reflexos evidentes na mesa dos brasileiros e na economia nacional. A comida ficará mais cara e o país, de exportador, se tornará importador de alimentos e produtos agrícolas. Os países patrocinadores dessas ONGs ficarão muito agradecidos. E os “ambientalistas” gritarão vitória. Vitória de quem?

Fonte: Jornal “O Globo” – 21/06/10


4. Entenda o projeto que flexibiliza o Código Florestal da década de 60
Projeto reduz preservação em margem de rios e amplia área para desmatamento

Pelo projeto de Aldo Rebelo, há possibilidade de anistia completa aos desmatadores

08 de junho de 2010 | 18h 29

Marta Salomon, de O Estado de S. Paulo

Dedicado aos “agricultores brasileiros”, o projeto com mudanças no Código Florestal apresentado em comissão especial da Câmara reduz de 30 metros para 7,5 metros a área mínima de preservação ambiental às margens dos rios.

A medida faz parte de um pacote de flexibilização das atuais regras de proteção do meio ambiente estabelecidas desde os anos 60. Essas regras vêm sendo descumpridas pela maioria dos 5,2 milhões de produtores rurais do País.

Caso a proposta do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) vire lei, caberá aos Estados definir quais áreas desmatadas devem ser recuperadas, inclusive com espécies exóticas.

Na Amazônia, onde a proteção é maior, leis estaduais poderão reduzir para até 20% o porcentual de preservação das propriedades com vegetação de cerrado.

Por um período de cinco anos a partir da entrada em vigor da lei, ficam suspensos novos desmatamentos, com exceção daqueles autorizados até essa data.

Em compensação, nesse período da moratória antecipada pelo Estado, fica liberado o uso de áreas desmatadas até 22 de julho de 2008, sem risco de embargo. Essa é a data do decreto editado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na sua primeira tentativa de fazer valer as regras do Código Florestal.

Em decorrência de pressão dos ruralistas, a aplicação de multas pela falta de registro das áreas de reserva legal e desmatamento das áreas de preservação permanente já havia sido suspensa até junho de 2011.

Pelo projeto de Aldo Rebelo, há possibilidade de anistia completa aos desmatadores. As condições de recomposição das áreas onde a vegetação nativa foi abatida serão definidas em planos estaduais em até cinco anos. Ou seja, as eventuais punições ficarão suspensas provavelmente até depois do fim do mandato do sucessor de Lula.

Em seu relatório, Aldo Rebelo classifica a legislação atual de “impraticável” e se alinha entre os céticos, aqueles que desconfiam dos efeitos das mudanças climáticas. O deputado critica abertamente ONGs ambientalistas, a quem atribui uma espécie de conspiração contra o agronegócio no País. Os agricultores , segundo ele, são vítimas da legislação que pretende mudar.

Entre as mudanças mais relevantes, o projeto dispensa da exigência de reserva legal as propriedades com até quatro módulos.

Essa medida varia de município para município. Mas a maioria das propriedades do Sul e Sudeste deverá ficar isenta da preservação ambiental.

O porcentual mínimo de 20% de proteção ambiental só seria exigido das parcelas das propriedades que ultrapassarem os quatro módulos, segundo o projeto.

Entre as brechas abertas, o projeto prevê a possibilidade de uso do solo em encostas por recomendação de órgãos de pesquisa agropecuária.

O projeto propõe ainda estímulos aos produtores rurais que preservarem suas propriedades além das exigências na nova lei.

Essas terras seriam convertidas em Cotas de Reserva Ambiental, um título público que poderá ser comercializado para compensar a reserva legal no mesmo bioma.
5. Imposto menor, mais para você

21/06/2010



Alberto Carlos Almeida

Termômetro: Precisamos lançar uma caravana da redução de tributos para pressionar os legisladores a tirar menos dinheiro do nosso bolso.

Precisamos deixar de falar o termo carga tributária e passar a falar simplesmente imposto. Precisamos esquecer a ideia de reforma tributária e passar a defender a redução dos impostos. Não devemos mais tocar no assunto fiscal, mas sim no tema dos impostos. O nome do problema é imposto. Não é problema fiscal, carga tributária, repartição entre municípios, Estados e União.Aliás, o tema da repartição é típico da chamada reforma fiscal, tema que diz respeito diretamente aos políticos e muito indiretamente aos cidadãos. O que nós, cidadãos, queremos é a pura e simples redução dos impostos que pagamos. Não a redução do número de impostos, mas a redução de quanto pagamos. Não importa como venha essa redução, se por meio da diminuição linear de todos os impostos, se por meio da diminuição do número de impostos que pagamos, o importante é que nós, cidadãos, tenhamos mais dinheiro no bolso.

É isso que os brasileiros querem. É assim que a nossa elite dirigente, e neste momento endereço estas palavras especificamente para empresários e executivos dedicados à militância pela redução de impostos, é assim que nossa elite deveria se dirigir à população. Chega de discurso empolado do tipo: “É preciso uma forte redução de nossa carga tributária de tal maneira que o Brasil ganhe competitividade global”. Esse discurso é tecnicamente correto, mas não sensibiliza aqueles que têm o voto nas mãos.

Acabo de lançar novo livro, “O Dedo na Ferida: Menos Imposto, Mais Consumo”. Ele é resultado de um ano de pesquisas acerca do que o brasileiro pensa dos impostos. A conclusão é muito clara: os brasileiros de todas as classes sociais sabem que pagam impostos, consideram que pagam muito, acham que somente os pobres é que os pagam e gostariam que os impostos fossem reduzidos. Esse mesmo brasileiro acredita que com a redução dos impostos ele poderia comprar mais e os empregos de carteira assinada seriam melhores e mais numerosos.

Além disso, há também a crença de que a redução de impostos não prejudica o funcionamento dos serviços públicos. Antes pelo contrário, o brasileiro médio crê que é possível reduzir impostos e melhorar os serviços públicos, bastando para isso combater a corrupção e o desperdício. Com a redução de impostos, a economia iria girar mais e o governo acabaria aumentando a arrecadação.

É esse o discurso perfeito para quem quer ter milhares de votos, a qualquer cargo, na eleição de 2010. Defender a redução de impostos é popular. É esse discurso que as nossas elites empresariais deveriam adotar de agora em diante. O já batido discurso técnico e empolado serve para persuadir racionalmente nossos supostos representantes de que a redução de impostos é algo relevante. Escrevem-se vários documentos técnicos, inúmeras teses de mestrado e doutorado e um sem-número de outras publicações que há anos vêm sendo enviadas aos senadores e deputados para lhes mostrar que a redução de impostos seria benéfica para todos, inclusive para eles. Nossos legisladores leem tais documentos e respondem: vocês estão certos, precisamos realmente reduzir os impostos. Nenhuma ação se segue a essa resposta.

A sociedade já convenceu seus representantes de que a redução de impostos é necessária. Já os convenceu racionalmente. Porém, vivemos no mundo real, não no mundo ideal de Platão, o mundo do rei-filósofo. Em política não são os argumentos racionais que contam, mas os incentivos reais. É por isso que nossos representantes não baixam os impostos. Porque, apesar de racionalmente convencidos, eles não têm incentivos para fazê-lo. O incentivo virá quando a grande massa que tem os votos disser: voto em quem reduzir imposto. É por isso que nossos empresários precisam abandonar quanto antes o discurso técnico, o discurso endereçado para eles próprios, empresários, e para os políticos e passar a falar com toda a sociedade. É preciso fazer o discurso de mobilização, o discurso que está em meu livro sobre os impostos.

O presidente Lula acabou de afirmar que um país que paga somente 10% de impostos não tem Estado. A resposta é simples: um país que paga 36% de impostos, como é o caso do Brasil, não tem sociedade. Ou melhor, tem sim, mas é aquela sociedade folclórica que já conhecemos do futebol, cerveja, mulher e carnaval. Falta-nos a sociedade pujante economicamente na qual os cidadãos têm oportunidades na vida suficientes para se afastar do crime e da ilegalidade. A sociedade na qual todos têm carros, e não apenas 33%, todos viajam de avião, e não somente 20%, todos podem ter acesso aos principais e mais desejados itens de consumo. Já que não temos, sobra-nos realmente o carnaval e o futebol. A propósito, tomara que o Brasil seja campeão na África do Sul.

Não é mais necessária no Brasil nenhuma campanha de conscientização acerca dos impostos, é isso que o meu livro mostra. O que precisamos agora é mobilizar a população. Precisamos lançar no Brasil uma espécie de caravana da redução de impostos que percorra todo o país recolhendo assinaturas para pressionar os legisladores a tirar menos dinheiro de nossos bolsos.

Infelizmente, a Constituição veda a iniciativa popular em matéria tributária. Vejam como nossos políticos são hábeis. A iniciativa popular pode existir, como de fato foi o caso, para o projeto Ficha Limpa. Porém, o mesmo não pode ser feito quando o assunto são os impostos. Essa matéria é de iniciativa exclusiva de deputados, senadores e do presidente da República. Antes da Constituição de 1988, nem o Poder Legislativo podia tratar desse assunto. Note, leitor, que isso demonstra de forma cabal que ao tocar no tema dos impostos estaremos realmente pondo o dedo na ferida.

Esqueçamos por um momento o combate à corrupção. Se houver redução de impostos, eles terão que combater efetivamente a corrupção. Não somente ela, mas também o desperdício. Quantas ruas de nossas cidades são asfaltadas e reasfaltadas em menos de quatro ou oito anos? E quantas outras são ruas de barro, sem calçamento algum? Isso é desperdício. Os políticos dizem que são necessários mais recursos para que todas as ruas sejam asfaltadas, a população afirma que basta utilizar melhor os recursos existentes que já seria possível fazer isso. A população pensa o mesmo da saúde, da educação e da segurança pública. Nas campanhas eleitorais os políticos insistem em dizer que vão colocar mais dinheiro em tais áreas. Não é o que a população quer ouvir. Ela quer ouvir que os recursos existentes serão mais bem usados.

José Serra já caiu nessa armadilha. Ele prometeu criar dois ministérios, o da Segurança Pública e outro para tratar das pessoas desassistidas, tais como os portadores de deficiência. Isso significa que sairíamos dos atuais 37 ministérios para 39.

É isso mesmo que Serra vem prometendo? Aumentar o número de ministérios? Nós é que vamos pagar a conta. A defesa de mais gastos por parte de Serra me causa estranheza. No dia em que Lula foi eleito pela primeira vez, tive a chance de dar uma entrevista ao vivo comentando o resultado e o que se deveria esperar do novo governo. Disse que em muita coisa ele seria parecido com o governo anterior em termos de política econômica, incluindo no que tange ao aumento de impostos. Completei afirmando que governos de esquerda aumentam impostos não porque se trata de uma necessidade, mas porque está no DNA da esquerda. A recente declaração de Lula acerca da carga tributária de 10% é a prova desse DNA.

O que se espera de um opositor, mesmo que se declare de esquerda (não há direita declarada no Brasil em razão da nossa enorme desigualdade de renda), o que se espera desse opositor é que diga o contrário: que os impostos não serão aumentados. Serão, isso sim, reduzidos. Quem nos representará nesse tema? O brasileiro não tem a ideologia americana da redução de impostos. Mas tem o pragmatismo. O brasileiro médio quer comprar mais, quer dinheiro no bolso. A redução temporária do IPI mostrou a ele de forma eloquente que menos imposto resulta imediatamente em mais consumo.

Está aí um bom lema de campanha para qualquer candidato a deputado no Brasil de hoje: menos imposto, mais para você. A adoção da CMPF, seguida de sua revogação, demonstrou à população que mais imposto não melhora a saúde. Aliás, não melhora a saúde, não melhora a educação, não melhora a segurança pública. Contudo, menos imposto melhora a capacidade de compra. É isso que o povo quer, é isso que o meu livro mostra.

Fonte: Jornal “Valor econômico” – 11/06/2010



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