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Título: O Vinhedo.



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Autor: Barbara Delinsky.

Título original: The Vineyard.

Dados da Edição: Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 2006.

Género: romance.

Digitalização e correcção: Dores Cunha.

Estado da Obra: Corrigida.

Numeração de página: cabeçalho.


Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente à leitura de pessoas portadoras de deficiência visual. Por força da lei de direitos de autor, este ficheiro não pode ser distribuído para outros fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente.
O Vinhedo

Barbara Delinsky

Tradução A. B. Pinheiro de Lemos

BERTRAND BRASIL, Rio de Janeiro

2ª edição, 2006

Copyright 2000 by Barbara Delínsky

Título original: The Vineyard

Capa: Leonardo Carvalho

Impresso no Brasil

Printed in Brazil

Todos os direitos reservados pela: EDITORA BERTRAND BRASIL LTDA. Rua Argentina, 171 - 1º andar - São Cristóvão

20921-380 - Rio de Janeiro - RJ Tel.: (OXX21) 2585-2070

Fax: (OXX21) 2585-2087

Não é permitida a reprodução total ou parcial desta obra, por quaisquer meios, sem a prévia autorização por escrito da Editora.

Atendemos pelo Reembolso Postal.
Agradecimentos

Fazer pesquisa para um livro tem um potencial de recompensa em vários níveis. Fui afortunada, enquanto escrevia O Vinhedo, de estar no lado que recebia informação e entusiasmo. Sem isso, O Vinhedo não seria o que é.

Pelas informações sobre o cultivo de uvas e o funcionamento de vinhedos, ao longo da costa sul da Nova Inglaterra, agradeço a Arme Samson Celander, Susan e Earl Samson e Joetta Kirk, de Sakonnet Vineyards, em Little Compton, Rhode Island. Pela ajuda com as minhas crises nos vinhedos, agradeço a Bob Russell, de Westport Rivers, em Westport, Massachusetts.

Meus agradecimentos a Cecile Selwyn, por partilhar o mais recente pensamento sobre dislexia e seu tratamento; a Carol Baggaley, por informações sobre o nascimento de gatinhos; a Daisy Starling, pelas coisas portuguesas, e a Jack Williams, por suas opiniões sobre os furacões secos.

Todos acima conhecem muito bem suas áreas. Sou a responsável por quaisquer erros cometidos ou por variações adotadas em nome da licença literária.

Por seu apoio, sua experiência e sua energia, agradeço a Amy Berkower, Jodi Reamer, Michael Korda, Chuck Adams e Wendy Page.


Como sempre, com amor, agradeço à minha família.
No que começara como apenas outro dia de junho, em Manhattan, Susanne Seebring Malloy voltou à sua casa antiga no Upper East Side, depois do almoço com as amigas, para encontrar um envelope amarelo-açafrão em sua caixa de correspondência. Sabia que era da mãe, mesmo sem o logotipo do vinhedo no canto superior esquerdo, mesmo sem a letra elegante e inconfundível no nome e endereço. Entre o carimbo postal de Asquonset, Rhode Island, e a fragrância de frésia, que era a marca registrada da mãe, não podia haver a menor dúvida.

Susanne tirou os pés dos Ferragamos e contraiu os dedos consternada. Uma carta da mãe era a última coisa de que precisava. Só a leria mais tarde. Já se sentia bastante frágil sem isso.

E de quem era a culpa?, ela perguntou a si mesma, irritada, de uma maneira irracional. A culpa era de Natalie. Afinal, Natalie sempre vivera de acordo com as convenções, faria tudo certo. Fora a esposa mais submissa que Susanne já conhecera... e também fora um modelo para Susanne. Por isso, Susanne também se tornara uma esposa submissa. Quando o movimento feminista tomara força, ela estava ocupada demais a cuidar de Mark e das crianças. Não tinha tempo para uma carreira. Agora, os filhos eram crescidos e se ressentiam de sua intromissão, e Mark contratara criadas para fazerem as pequenas coisas que ela sempre fizera antes. Ainda viajava com ele de vez em quando. Mas, embora Mark alegasse adorar sua companhia, não precisava realmente de sua presença. Ela era apenas um ornamento, nada mais.

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Tinha tempo para uma carreira agora. Tinha energia. Mas tinha cinquenta e seis anos no final das contas. E com essa idade era um pouco tarde para iniciar uma carreira.



E onde isso a deixava? Era o que especulava agora, desanimada, enquanto pegava os novos catálogos na correspondência e se acomodava na poltrona junto da janela dando para o jardim. Deixava-a com Neiman Marcus, Bloomingdale s, Hammacher, Schlemmer e a sensação de que, em algum lugar, perdera o trem da história.

Deveria interrogar a mãe sobre isso, pensou ela, sarcástica... como se Natalie pudesse se compadecer ou pelo menos compreender a inquietação. E, mesmo que isso acontecesse, Natalie não conversava sobre problemas. Conversava sobre roupas, sobre papel de parede, sobre cartas de agradecimento em papel personalizado; era uma especialista em etiqueta.

Susanne também era. Mas ela se cansara dessas coisas. Eram chatas demais. Eram insignificantes. Eram tão irrelevantes quanto a bouillabaisse que ela fizera no dia anterior, antes de lembrar que Mark tinha um compromisso para o jantar. Ou os hors d oeuvres que preparara nos últimos seis meses e congelara para convidados que não vinham mais... e, por falar em comida, se Natalie estivesse lhe enviando o cardápio para o Festival da Colheita do Outono no vinhedo, Susanne gritaria.

Ansiosa por uma briga, ela se levantou e foi pegar o envelope amarelo na mesinha do vestíbulo. A correspondência com a mãe era comum. Natalie sempre lhe enviava comentários sobre um ou outro vinho de Asquonset, ou então uma carta pessoal elogiosa de um vinhateiro da França ou da Califórnia... embora Susanne não estivesse interessada em qualquer das duas coisas. O vinhedo era o orgulho e a alegria de seus pais, não dela. Passara décadas tentando convencê-los disso. As pressões para que ela se envolvesse, como a maioria das coisas em sua vida, haviam envelhecido.

Mas aquele envelope era diferente. Era o mesmo papel encorpado que Natalie apreciava, mas a cor - um amarelo profundo, escrito com tinta azul-escura - estava muito longe do clássico marfim com tinta de cor vinho que caracterizava em geral a correspondência de

Asquonset. E não estava endereçada a Susanne apenas. Era para o Sr. e Sra. Mark Malloy, com uma letra de calígrafa, que também era um desvio do padrão de Asquonset.

Apreensiva, Susanne manteve imóvel por um momento a mão que segurava o envelope, pensando que havia alguma coisa diferente com Natalie nas últimas vezes em que haviam conversado. Suas palavras eram otimistas, ressaltava como Asquonset estava se recuperando da morte de Alexander, mas ela parecia... perturbada. Mais de uma vez, Susanne sentiu que havia alguma coisa que Natalie não estava lhe dizendo. Mas, como não queria se envolver nos negócios do vinhedo, Susanne não pressionou. Concluiu simplesmente que a atitude da mãe era parte do processo de luto. Agora, de repente, ela especulou se havia uma ligação entre aquele envelope e a tensão de Natalie. Ela abriu o envelope e tirou um cartão da mesma cor.

VENHA COMEMORAR NOSSO CASAMENTO

DIA DO TRABALHO, DOMINGO, 10 HORAS,

CASA-GRANDE DO VINHEDO E VINÍCOLA ASQUONSET

NATALIE SEEBRING E CARL BURKE

Susanne franziu o rosto. Leu de novo o convite.

Casamento?

Atordoada, ela leu pela terceira vez, mas as palavras não mudaram. Natalie casando de novo? Não fazia sentido. Natalie casando com Carl Fazia ainda menos sentido. Carl Burke fora gerente do vinhedo durante trinta e cinco anos. Era um empregado, um homem simples, de recursos escassos, que não chegava nem aos pés de Alexander Seebring - o pai de Susanne -, marido de Natalie durante cinquenta e oito anos, morto há apenas seis meses.

Susanne sabia que Carl fora uma grande ajuda para Natalie durante os últimos meses. Natalie mencionara-o com frequência... ainda mais ultimamente. Mas falar sobre o homem era uma coisa; casar com ele era outra muito diferente.

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Aquilo era uma piada? Não era provável. Mesmo que Natalie fosse uma gozadora, o que não era o caso, jamais faria uma piada de tanto mau gosto.



Susanne virou o cartão à procura de uma explicação da mãe no verso. Mas não havia nenhuma.

Ao ler as palavras pela quarta vez, não tendo opção que não considerá-las como reais, Susanne sentiu-se profundamente magoada - Mães não faziam coisas assim, ela disse a si mesma. Não davam notícias tão importantes para suas filhas num convite formal... a não ser que estivessem apartadas por alguma desavença, o que não acontecia com Natalie e Susanne. Conversavam pelo telefone uma vez por semana. E se encontravam a cada dois meses, mais ou menos. É verdade que não faziam confidências uma para a outra. Isso não estava na natureza do relacionamento. Mas, mesmo assim, apesar disso, não fazia sentido para Susanne que Natalie não a tivesse avisado sobre Carl... a menos que o aviso tivesse sido indireto, de uma maneira evasiva, pelas frequentes referências a Carl.

Talvez Susanne não tivesse notado isso, mas com certeza não deixaria de notar qualquer alusão a casamento. Não houvera nenhuma. Para todos os propósitos externos, Natalie ainda estava de luto.

Susanne leu o convite mais uma vez. Ainda atordoada, ainda incrédula, ela pegou o telefone.

No vestíbulo da pequena casa colonial de Greg Seebring, em Woodley Park, Washington D.C., um envelope amarelo, idêntico ao que a irmã recebera, estava entre as cartas espalhadas pelo chão, por baixo da fenda para a correspondência. Ele não o viu a princípio, quando chegou em casa naquela mesma tarde. Reparou apenas no excesso, grande demais para ser a correspondência de um único dia. Ausentara-se durante três dias e calculou que a correspondência ali era de todo esse período. Mas onde sua esposa estivera?

- Jill? - chamou ele.

Greg saiu a procurá-la, afrouxando a gravata. Ela não estava na sala, na cozinha ou no escritório. Ele subiu, mas também não a encontrou

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nos dois quartos. Confuso, parou no patamar, tentando recordar se Jill planejara qualquer coisa. Se era esse o caso, ela não lhe dissera. Não se falaram durante a viagem. Greg se mantivera ocupado o tempo todo, saía do hotel cedo e voltava tarde, cansado demais para telefonar. Sentira-se feliz com a oportunidade de pegar um avião mais cedo para voltar. E pensara que Jill se sentiria satisfeita.



Satisfeita? Ela nem estava em casa!

Ele deveria ter telefonado.

Mas Jill também não telefonara.

com um súbito cansaço, ele desceu para pegar a mala. Mas largou-a um instante depois de levantá-la. Pegou apenas o laptop e recolheu a correspondência. E achou de novo que havia coisa demais.

Especulou se Jill fora visitar a mãe. Há algum tempo que ela vinha pensando nisso.

Greg largou a correspondência no balcão da cozinha. Ligou o laptop ao telefone e deu o boot. Enquanto esperava, separou a correspondência comercial e as contas. A maior parte do resto era identificada pelo endereço para devolução. Havia um envelope do comité para a eleição de Michael Bonner, um amigo que estava concorrendo ao Senado dos Estados Unidos. Era com certeza um pedido de dinheiro. Havia uma carta de uma colega de Jill na universidade e outra com o carimbo de Akron, Ohio, onde a mãe de Jill morava. Devia ter sido remetida antes da decisão de Jill de visitá-la. Havia outra com um carimbo mais familiar... e um cheiro ainda mais familiar.

Ele pegou o envelope amarelo, imaginando a mãe. Forte. Graciosa. Exuberante como um narciso, embora distante.

Mas as cores do vinhedo eram o envelope marfim com tinta de cor vinho. Ela sempre as usava. Asquonset era sua identidade.

O envelope tinha o peso de um convite. Não havia nenhuma surpresa, pois a especialidade de Natalie era dar festas. Mas também Alexander Seebring sempre amara uma festa. E quem podia culpá-lo por isso? Nunca fora o cavalheiro rural típico. Em muitos e muitos dias circulava pelo vinhedo ao lado de seu gerente, de jeans e camisa de zuarte. Se não isso, viajava para divulgar o nome Asquonset. O trabalho deu resultado. Depois de anos de luta, Asquonset passou a dar um bom lucro. E ele ganhou o direito de promover festas.

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E Natalie sabia como cuidar de tudo. Estava em seu elemento, comandava fornecedores, floristas e músicos. Havia sempre dois festivais em Asquonset todos os anos; um para dar as boas-vindas à primavera, o outro para celebrar a colheita. A festa da primavera fora cancelada naquele ano, pois a morte de Al ainda estava recente. Aparentemente, porém, Natalie não gostava dessa situação. Ela detestava usar preto. Não tinha um único vestido preto em seu guarda-roupa. Tivera de comprar um para o funeral.



Portanto, apenas seis meses depois, ela estava voltando à forma. Greg não sabia se aprovava. Parecia errado, seu marido de tantos anos

- pai de Grey - ainda recente na sepultura, com o futuro de Asquonset ainda em suspenso.

Natalie queria que Greg assumisse a direção do vinhedo. Não chegara a dizê-lo expressamente, mas mesmo assim ele dera a resposta: Não. De jeito nenhum. Não há a menor possibilidade.

Ele pensou que a mãe poderia ter encontrado um comprador... e talvez a festa seria para apresentá-lo, quem quer que fosse. Mas ela teria avisado antes. Ou talvez não. Greg sempre deixara bem claro o que sentia em relação ao vinhedo. Era um pesquisador da opinião pública. Vivia viajando, a trabalho para os clientes, três semanas em quatro. Tinha sua empresa para dirigir e a dirigia muito bem. Produzir vinho fora a paixão de seu pai. Não era a de Greg.

Não que ele fosse um observador imparcial. Se Natalie vendesse Asquonset, receberia um bom dinheiro, metade do qual acabaria pertencendo ao filho. Nesse sentido, cabia-lhe verificar um possível comprador. Não podia deixar que a mãe vendesse o vinhedo por menos que o seu valor.

Ele largou o envelope no balcão e bateu a senha no laptop, para começar.

Mas o envelope parecia exigir sua atenção. Curioso em saber o que Natalie planejara, ele tornou a pegá-lo, abriu-o e tirou um cartão.

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POR FAVOR,



VENHA COMEMORAR NOSSO CASAMENTO

DIA DO TRABALHO, DOMINGO, 16 HORAS,

CASA-GRANDE DO

VINHEDO E VINÍCOLA ASQUONSET

NATALIE SEEBRING E CARL BURKE

Greg ficou olhando para o cartão, atordoado.

Um casamento? De sua mãe e Carl? De onde saíra essa ideia?

Natalie tinha setenta e seis anos. Talvez estivesse perdendo o juízo, pensou Greg, balançando a cabeça. E Carl? Ele devia ser ainda mais velho. O que ele estava pensando?

Carl sempre estivera no vinhedo. Alexander considerava-o um amigo. Mas um amigo não casaria com a viúva de um homem menos de seis meses depois de sua morte, assim como uma viúva não poderia casar tão depressa com alguém tão próximo.

Era compreensível que Natalie se apoiasse mais em carl agora que Alexander morrera. Greg não dera a importância ao fato de que a mãe passara a mencionar carl com mais frequência nas últimas semanas. Em retrospectiva, ele percebeu agora que as referências eram sempre elogiosas. Parecia que Greg perdera alguma coisa.

Seria romance? Sexo? Os dois não estavam um pouco velhos para isso? Greg tinha quarenta anos e vinha perdendo o interesse muito depressa. Sexo exigia esforço, se você queria fazer certo. Mas talvez os dois não fizessem como ele costumava fazer. De qualquer forma, era embaraçoso pensar em sua mãe fazendo alguma coisa. E ainda por cima com Carl? Um velho rabugento?

Talvez fosse uma manobra hábil. Talvez carl estivesse de olho no vinhedo. Não se aposentara e passara o comando ao filho? A decisão fora de Alexander, mas carl trabalhava no vinhedo há tanto tempo que não podia deixar de indicar quem assumiria em seu lugar, ou seja, talvez carl quisesse que Simon ficasse com o vinhedo. E o casamento com Natalie era um meio de conseguir o que queria.

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Greg tinha de ligar para Natalie... mas como detestava a perspectiva! O que podia dizer? Não quero o vinhedo, mas também não quero que fique com Simon?



Talvez devesse ligar primeiro para Susanne. Ela falava com Natalie com mais frequência. Era bem possível que soubesse o que estava acontecendo.

Oh, Deus, como ele detestava isso também! Susanne era dezesseis anos mais velha. Tinham a mesma mãe, mas nunca haviam sido muito ligados.

Greg desabotoou o colarinho, resmungando baixinho. Precisava tirar férias. Até já planejara. Uma viagem a Asquonset, no fim de semana do Dia do Trabalho, no início de setembro, seria impossível. Iria para o norte, até Ontário, numa viagem de pescaria. Já reservara tudo.

Não que Jill estivesse satisfeita. Se pudesse escolher, ela iria para Asquonset. Gostava do vinhedo. Ou pelo menos era essa a impressão de Greg. Mas era difícil saber qualquer coisa da mulher nos últimos tempos. Havia algo acontecendo. Ela se mantinha mais retraída do que o normal. Poderia estar passando por uma crise de meia-idade? Aos trinta e oito anos?

Greg não queria pensar na possibilidade da esposa desmoronar. Era pior que pensar em um casamento de Natalie com Greg. Lidaria com isso mais tarde. Ele atravessou a cozinha e abriu a porta da garagem. O carro de Jill não estava ali, o que significava que devia estar estacionado no aeroporto. Jill fora mesmo visitar a mãe, com toda certeza. E foi então que ele teve uma ideia. Na expectativa de entender o que afligia a esposa, pensando que a carta da mãe poderia oferecer uma indicação - sabendo que sempre poderia dizer que abrira por acaso, com o resto da correspondência -, ele a abriu. Tirou a folha dobrada.

Querido Greg...

Querido Greg? Não era da sogra para Jill. Era para ele. Greg deu uma olhada no envelope. A carta não estava endereçada a Jill. Tinha o seu nome. Enviada por Jill.

com um súbito presságio, ele começou a ler.

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Num estúdio montado na garagem, por trás de uma velha casa vitoriana, pintada de branco, numa rua transversal estreita de Cambridge, Massachusetts, Olivia Jones sonhava enquanto trabalhava. Fazia isso com frequência. Era uma das vantagens de seu trabalho.



Ela restaurava fotos antigas, uma habilidade que exigia paciência, olhos aguçados e mão firme. Tinha todas as três coisas, além de uma imaginação capaz de levá-la ao mundo de quase qualquer foto. Mesmo agora, enquanto usava várias tonalidades de tinta cinza para restaurar um rosto esmaecido, ela podia se situar dentro da foto, com uma família de trabalhadores migrantes que vivia na Califórnia, no início dos anos 30. A Depressão prevalecia. A vida era difícil, a comida, escassa. As crianças trabalhavam junto com os pais e avós, hora após hora, onde houvesse uma colheita. Começavam o dia sujas e terminavam ainda mais sujas. As expressões eram sombrias, as faces encovadas, os olhos enormes e angustiados.

Sentavam juntas na varanda de um barraco avariado pelo tempo. Olivia contornou-as para entrar. O lugar era pequeno, mas funcional. Havia catres encostados em quase todo o espaço de parede, um fogão de lenha e algumas cadeiras no centro. O ar recendia a poeira e suor de trabalho. Numa mesa quase na porta havia um pão que acabara de sair do forno, cheiroso e quente. Um ensopado borbulhava no fogão. Uma prateleira continha um sortimento variado de louça lascada, canecas e pratos de estanho. Estariam retinindo quando a família comesse. Ela já podia ouvir os sons agora.

De volta à varanda, tornou a se ligar ao grupo. Todos ali se tocavam... na mão, no braço, no ombro, no rosto. Eram nove pessoas, de três gerações, sobrevivendo a desolação de suas vidas pelo conforto que encontravam na família. Não tinham bens materiais, apenas uns aos outros.

Olivia estava com trinta e cinco anos. Tinha uma filha de dez anos, um trabalho, um apartamento com TV e videocassete, um computador, uma lavadora e uma secadora de roupas. Tinha um carro. Tinha um colete da Patagônia e sandálias da L.L. Bean. Tinha uma Nikon que era bastante velha e antiga para valer uma nota.

Mas como invejava a intimidade daquela família de trabalhadores migrantes!

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- Eram tempos difíceis - comentou uma voz rouca por trás de seu ombro.



Ela levantou os olhos para ver o patrão, Otis Thurman, olhando para a foto com o rosto franzido. Era uma das várias fotos recém-descobertas e, ao que tudo indicava, eram de Dorothea Lange. O Metropolitan Museum, de Nova York, incumbira-o de restaurar as fotos. Olivia estava fazendo o trabalho.

- Eram tempos mais simples - comentou ela. Otis soltou um grunhido.

- Prefere aqueles tempos? Não é o meu caso. vou embora agora. Tranque o estúdio quando sair.

Ele se afastou, os passos mais firmes e ágeis do que se poderia esperar de um homem aos setenta e cinco anos. Mas Otis tinha os seus acessos para mantê-lo em forma. Passara o dia inteiro na maior irritação. Mas, depois de cinco anos trabalhando com ele, Olivia sabia que não era pessoal. Otis era um Picasso frustrado, um pintor em potencial que não seria tão bom na criação quanto era na restauração. Mas a esperança resistia à morte, mesmo na sua idade. Ele voltaria para suas telas e tintas em tempo integral... pois faltavam apenas sete semanas para sua aposentadoria.

Ele aguardava ansioso por isso. O que já não acontecia com Olivia.

Otis sempre anunciava os dias e horas que faltavam, numa contagem regressiva. Olivia tentava não escutar.

Formamos uma boa equipe, argumentava ela. Estou velho demais, respondia Otis.

E era isso que a fascinava naquela família de migrantes. O velho na foto era bastante encanecido para fazer Otis parecer um jovem, mas ainda estava ali, ainda era produtivo, ainda integrava o grupo.

As coisas eram diferentes hoje em dia. As pessoas se consumiam mais cedo, o que não era de admirar. Andaram sozinhas pela corda bamba da vida, sem rede protetora.

Olivia preocupava-se com a aposentadoria de Otis. Imaginava-o sentado sozinho, dia após dia, com os instrumentos de arte que não conseguia usar para atender a seus elevados padrões, sem ninguém para perturbar, pressionar e exigir. Ele não seria feliz.

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Está enganada, Olivia. Otis tinha muitos amigos na comunidade artística e bastante dinheiro poupado. Levaria uma vida das mais satisfatórias. Ela é que teria problemas.



Finalmente encontrara seu lugar. Restaurar fotos antigas era natural para alguém com conhecimento de câmeras e olho para a arte... e ela tinha as duas coisas, embora tenha demorado algum tempo para perceber. Tentativas e erros contavam a história de sua vida. Fora garçonete. Trabalhara em telemarketing. Vendera roupas. Vender câmeras viera muito depois, junto com a descoberta de que adorava tirar fotos. Depois, viera Tess. Breves períodos de aprendizado com um fotógrafo profissional e o trabalho de freelance para um museu que queria fotos de suas exposições. Até que Otis aparecera.

Pela primeira vez em sua vida, Olivia amava realmente seu trabalho. Era melhor em restauração de fotos do que fora em qualquer outra coisa. Podia ficar mergulhada horas a fio nas fotos do passado, recendendo a idade, revelando grandeza. Para Olivia, o mundo de ontem era mais romântico que o de hoje. Ela gostaria de viver naquele tempo.

Como não podia, gostava de trabalhar para Otis. O sentimento era recíproco. Poucas pessoas em sua vida haviam-na aturado por cinco anos. Era verdade que ela aguentava os acessos de mau humor de Otis. Por outro lado, ele reconhecia que Olivia fazia o trabalho melhor do que uma longa sucessão de assistentes.

Apesar de tudo, Otis gostava mesmo dela. A foto de 20x24 na parede demonstrava isso. Ele a tirara na semana passada, quando Olivia aparecera no trabalho com os cabelos curtos demais. Ela mesma o cortara, num acesso de raiva, pois os cabelos compridos eram incómodos demais no calor sufocante. Arrependera-se no instante seguinte. Um cabeleireiro aparou as pontas, melhorou um pouco a aparência. Ainda assim, ela fora trabalhar com um enorme chapéu de palha... que Otis se apressara em tirar.



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