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Título: Travessuras de um cupido

Autor: Irene Northan

Título original: The marriage brokers

Dados da Edição: Editora Nova Cultural 1992

Publição original: 1989


Género: Romance histórico
Digitalização e correção: Nina
Estado da Obra: Corrigida

Miranda Branscombe parecida destinada a permanecer solteira para sempre. Era uma moça excêntrica, com idéias muito avançadas para o seu tempo. E não podia ser considerada uma verdadeira beldade, pois era desajeita e alta demais... Foi então que seu irmão, Richard, decidiu arranjar-lhe um marido, e convidou o amigo Peter para ajudá-lo na difícil missão. Quando, por fim, encontraram não apenas um, mas dois candidatos à mão da jovem, Peter se sentiu enciumado. Por que lhe doía tanto a idéia de ver Miranda casada com outro homem?


CAPITULO I
— O senhor não pode estar falando a sé­rio! — Richard Branscombe encarou o pai com expressão de horror no rosto bonito. — Por favor, diga que está brincando, que falou sem pensar. Diga o que quiser, mas confesse que não está falando a sério!

  • Estou, sim! — sir Henry demonstrou uma firmeza que não lhe era habitual. — Se quiser que eu pague suas dívidas, encontre um marido para Miranda! Esta é minha condição.

  • Esta proposta não é razoável! — protestou Richard. — Farei tudo que puder, vou procurar um marido para Miranda com todo o prazer, mas a tarefa é muito difícil, papai! O senhor sabe que gosto muito de Miranda, que é ela é a melhor irmã do mundo, mas encontrar-lhe um marido, tão depressa, é pedir o im­possível!

  • Impossível ou não, é a condição que imponho para saldar os seus débitos, Richard.

Raramente sir Henry demonstrava tanta determinação, mas no presente momento estava preocupado, quase em desespero, e trans­mitia ao filho parte dessa ansiedade.

  • Por que ficou tão aflito de repente, papai? Afinal, Miranda tem frequentado a sociedade nestas últimas quatro Temporadas, e o senhor nunca demonstrou tanta preocupação com o fato de minha irmã continuar solteira. Por que está com pressa de vê-la casada, agora?

  • Foram cinco Temporadas, não quatro — corrigiu sir Henry. — E a razão da pressa, como você diz, é que percebi uma certa semelhança de Miranda com a sua tia-avó Evangeline.

  • Oh, não!

Desde pequeno Richard se assustava' com as histórias que lhe contavam sobre a íia-avó, assim como outras crianças se assusta-

vam com histórias sobre ciganos ou fantasmas.



  • Sim, é verdade. Você não conheceu Evangeline pessoalmente, meu filho, mas eu ainda tremo ao me lembrar dela — disse sir Henry Branscombe. — Ela não tinha a menor ideia do que era certo ou apropriado para uma dama. Você não pode calcular o aborrecimento que Evangeline causava à família toda com sua mania de fugir para o campo, levando pão de queijo nos bolsos, para conversar com os camponeses e distribuir panfletos religiosos. Ela possuía um pombo domesticado, desses que pousam no ombro das pessoas, você sabe. A ave se comportava muito mal, e sua presença chegava a ser, digamos, pouco higiénica. Evangeline, contudo, não se importava com isto. O pior de tudo, porém, era aquela mania horrível de usar meias amarelas! — sir Henry fechou os olhos ao recordar.

  • Que horror! — Richard espantou-se com tanta falta de gosto. — E o senhor está convencido de que Miranda está ficando parecida com ela? Não é apenas imaginação sua, papai, porque gos­taria de vê-la casada?

  • Não, não estou enganado, meu rapaz. Para começar, Miranda está com um filhote de gralha em sua sala íntima. Contou que viu a avezinha caindo do ninho e por isto a trouxe para casa. Mas seja um pombo ou uma gralha, tudo dá na mesma.

  • Sim, na tia-avó Evangeline. Começo a compreender que a situação é urgente, de fato.

  • É bom mesmo que você compreenda a gravidade do caso, porque os hábitos estranhos de Miranda podem nos arruinar so­cialmente, meu caro.

  • E o senhor acha que o casamento é o único remédio?

  • A menos que você encontre outra alternativa. Sei que nossa sociedade suspeita de solteironas excêntricas. Mas se a mulher for casada seu comportamento não tem importância, todos se con­tentam em ter pena do marido.

  • Compreendo o que quer dizer — Richard não escondeu sua admiração pela perspicácia do pai.

  • Alegro-me com isso, Richard.

Sir Henry se admirava do filho, tão semelhante ao que ele pró­prio tinha sido na juventude. O rapaz herdara o mesmo rosto bo­nito do pai, a mesma elegância nata. Há vinte anos atrás, sir Henry costumava ser chamado de "o cavalheiro mais atraente do con­dado", título que prazerosamente cedera ao filho. Mas não podia se queixar, a passagem dos anos não lhe tinha sido cruel; ainda conservava o corpo esbelto e ágil. Além disso, alguns fios grisa­lhos nas têmporas davam ao seu tipo castanho um ar três distin­gue. Richard era mais alto que ele, como Miranda. Sir Henry costumava marcar o crescimento dos filhos com traços a lápis na porta da sala de estudos, mas abandonara o hábito quando Mi­randa alcançara quase um metro e oitenta de altura.

  • Alegro-me que você tenha compreendido a situação — repetiu sir Henry, dando fim a seus devaneios. — Muito bem, voltemos à questão dos seus débitos. Acho duas mil libras uma soma exorbitante para você me pedir assim, tão apressadamente. Onde gastou tanto dinheiro? Andou saindo com mulheres?

  • Não, papai, apenas exagerei um pouco nas apostas durante um jogo de cartas, e Peter me emprestou o dinheiro na hora.

  • O jovem Kerswell? E agora ele está cobrando você? Pensei que era seu melhor!

  • Peter continua sendo meu melhor amigo, e não está me cobrando, é claro! Na verdade, ele nunca tocou no assunto, mas sei que está precisando de dinheiro no momento para realizar um excelente negócio. Peter vai precisar de todo o capital de que puder dispor.

  • Se conheço bem o jovem Kerswell, este "excelente negócio" tem quatro patas, o que significa que o pai não vai ajudá-lo.

  • Bem, o senhor sabe qual é a opinião de sir John a respeito de corridas de cavalos.

  • Sim, conheço as ideias dele e até simpatizo um pouco com elas. Afinal, as pessoas que frequentam as corridas se vestem mal, usam colarinhos em péssimo estado. Mas o que você acaba de me dizer muda as coisas, meu filho. Peter Kerswell o ajudou em um momento difícil, não é mesmo? Pois agora é seu dever ajudá-lo também.

  • Concordo plenamente, papai — aquiesceu Richard, es­peranço.

  • Talvez eu pague imediatamente a dívida. Mas só farei isso se você se comprometer a aceitar minha condição.

  • O senhor quer dizer que ainda preciso encontrar um mari­do para Miranda?

  • Exato.

  • Papai, torno a repetir, esta é uma tarefa impossível! Miran­da é... Quero dizer, ela não é muito bonita...

  • Pode dizer claramente, sua irmã é uma moça sem graça.

  • Mais que isto, Miranda é a moça mais desajeitada que já vi. Ficarei muito grato se o senhor pagar minha dívida, mas a con­dição que me impôs... Oh, está bem, papai, tentarei fazer o que me pede! Mas não será fácil...

Depois que Richard saiu da biblioteca, sir Henry ficou pensan­do se não teria sido exigente demais com o filho. Lembrou-se da falta de graça e da deselegância da filha e soltou um gemido. Real­mente, não seria fácil arranjar-lhe um marido. Ele mesmo havia tentado desesperadamente durante cinco anos, sem sucesso. E ago­ra Richard precisava continuar tentando, pelo menos durante mais um ano. Miranda logo completaria vinte e quatro anos, uma ida­de significativa. Passando disso, estaria fadada a ser uma segun­da tia Evangeline, uma solteirona sem possibilidade de encontrar marido.

— Apesar de ser uma moça sem graça —, sir Henry comentou em voz alta —, Miranda dará uma excelente esposa, tenho certeza. É meiga, afável, sabe tomar conta de uma casa e sabe dar or­dens à criadagem. Além disso, é inteligente, bem informada e... original!

Sir Henry sentiu-se triunfante ao encontrar o adjetivo certo para descrever o maior atributo da filha.

Richard atravessou o grande parque da propriedade paterna, Branscombe Hall, com a ordem de pagamento de duas mil libras que o pai lhe dera no bolso. Estava aliviado por poder pagar o que devia a Peter, mas a condição imposta por sir Henry o preo­cupava. Como não era particularamente inteligente, ficava tenso diante de um problema e, como sempre fazia quando estava em dificuldade, ia pedir conselho a seu melhor amigo, Peter Kerswell.

Os Kerswell moravam na mansão vizinha, New Park, e eram considerados nouveaux riches, graças à grande habilidade de sir John como banqueiro. Sendo muito discreto, ele se contentara com um simples baronato, título que já lhe permitia frequentar a alta sociedade. A família Kerswell possuía tanto bom gosto e elegân­cia que sir Henry Branscombe não hesitara em permitir que seus filhos fizessem amizade com os vizinhos. Peter, Richard e Miran­da logo haviam se tonado íntimos.

Por essa razão, Richard Branscombe pegou um atalho que en­curtava o trajeto entre as duas propriedades, como fazia desde

criança. Aproximou-se da residência dos Kerswell e nem precisou entrar e pedir ao mordomo que chamasse o amigo, porque logo viu Peter debruçado sobre a mureta do terraço observando algo.


  • Bom dia, Peter!

  • Bom dia, Richard. Está muito elegante, como sempre. — O amigo sorriu-lhe. — Foi bom você chegar agora. Quer fazer uma aposta? O Raio de New Park contra a Bela de Branscombe?

  • Que aposta? Você andou comprando novos cavalos?

  • Não, desta vez descobri um negócio em menor escala. Corrida de lagartixas. Vai entrar na moda, tenho certeza. — Ele indi­cou duas lagartixas tomando sol sobre a mureta.

  • Ora, você está brincando! — Richard, às vezes, achava difícil saber quando o amigo fazia graça. — Ouça, eu vim aqui por causa de um assunto sério.

  • Algum problema?

Peter endireitou o corpo. Era mais alto que Richard, e poderia ser igualmente elegante se tivesse qualquer preocupação com a pró­pria aparência, pois tinha ombros largos e pernas musculosas. Pre­feria, porém, usar roupas mais simples, embora de boa qualidade.

—Então, diga, o que há de errado? — ele insistiu.


Richard entregou-lhe a ordem de pagamento de sir Henry e Pe­ter corou.

  • Ora, não havia tanta apressa! — ele exclamou. — Eu podia ter esperado, você sabe.

  • Não, você não podia! Emprestou-me boa parte de suas eco­nomias e me ajudou muito, mas agora está precisando do dinhei­ro. Eu não deixaria que perdesse esta boa oportunidade com os cavalos e fosse prejudicado por minha causa.

  • Bem, devo admitir que o dinheiro chega em boa hora. Não é todo dia que aparece uma chance como esta, um belo lote de cavalos que podem disputar as corridas de Newmarket. Mas não quero causar nenhum problema entre você e seu pai. Sir Henry não ficou irritado?

  • Sim... e não.

  • Que resposta esclarecedora!

  • Quero dizer, ele não ralhou muito comigo, mas impôs uma condição em troca do pagamento da dívida que contraí.

Mandou você ficar longe das mesas de jogo por trinta anos?
Excelente! Pode acreditar, é para o seu bem. Ouça o que eu lhe digo, você não tem sangue de jogador, tanto que acabou caindo nas mãos daquele bando de espertalhões. Não percebeu que os homens não prestavam? Faziam mais sinais entre eles que o telé­grafo da marinha! Evidentemente, estavam à espera do primeiro pato que aparecesse para depená-lo...

  • Papai não me proibiu de nada — Richard irritou-se por ser descrito como um pato. — Trata-se de Miranda.

  • Miranda?

  • Sim. Prometi que vou achar um marido para ela o quanto antes. Peter, você precisa me ajudar! Nem sei por onde devo começar!

  • Richard, não é minha intenção criticar Miranda, é claro. Na verdade, gostaria que qualquer uma de minhas irmãs fosse tão agradável quanto ela. Sua irmã é uma ótima moça. Mas encontrar-lhe um marido... Com todos os diabos! Ela já está no mercadode casamentos há algum tempo, não é?

  • Sim. Oh, se ao menos papai houvesse se casado novamente depois que mamãe morreu! Uma madrasta cuidaria melhor deste assunto. Mas papai insiste que eu preciso encontrar alguém, em troca do pagamento da dívida. O que devo fazer agora? Terei de passar o resto de meus dias procurando um marido para Miranda? Oh, como eu gostaria de nunca ter chegado perto de um ba­ralho! Nunca mais vou jogo de novo...

  • Não fique assim — Peter consolou-o, vendo que o amigo estava à beira do desespero. — Vou fazer tudo o que puder para ajudá-lo, e juntos encontraremos uma saída. Primeiro, vamos estudar o assunto de um modo prático. Podemos começar fazendo uma lista das qualidades de sua irmã. Ela é bem-nascida, bem-educada, tem mais juízo que a maioria das moças que conheço.

  • É também meiga, gentil e carinhosa, não se esqueça disso— Richard atalhou rapidamente.

  • É verdade, Miranda é a melhor moça que conheço. E qual é a situação financeira dela?

  • No momento, papai lhe dá três mil libras por ano, mas sei que seria muito generoso na hora de estipular o dote.

  • Ótimo! Agora, quanto ao marido, em si...

  • Ele precisa ser um homem decente! — exigiu Richard. — Você sabe, Miranda é minha irmã e gosto muito dela. O sujeito precisa ser... um cavalheiro.

  • Claro que precisa! Eu também gosto muito de Miranda. Acha que eu a magoaria, deixando-a cair nas mãos do primeiro desconhecido que aparecesse? Não, Miranda precisa ter o melhor marido que pudermos arranjar. Devo conhecer pelo menos uma dúzia de candidatos com excelentes qualidades, em idade de ca­sar. O único problema na vida deles é a falta de dinheiro.

  • Para evitar enganos —, disse Richard, que não confiava muito nas "excelentes qualidades" dos amigos de Peter —, vamos fazer uma lista dos atributos que o futuro marido de Miranda deve ter enquanto procuramos o candidato. Para começar, já concor­damos que precisa ser um cavalheiro.

  • Certamente. Depois... Ora, veja, não é Miranda que vem chegando pelo bosque?

Os dois rapazes, que haviam deixado o terraço e começado a caminhar enquanto conversavam, tinham chegado à divisa da pro­priedade; da direção de Branscombe Hall se aproximava uma moça alta e desajeitada.

— É ela mesma — Richard suspirou. — O que será que veio fazer por aqui?

Apesar do ar puro e do exercício, Miranda Branscombe conti­nuava pálida como sempre. Além disso, o vento que soprava do mar lhe deixara úmidos e despenteados os cabelos castanhos. Ao ver os dois rapazes, os olhos castanhos de Miranda brilharam de alegria. Ela sorriu.

Richard não reparou na expressão inteligente no rosto da irmã, notou apenas uma ponta da blusa escapando de debaixo do casa­co de montaria que ela usava e a saia suja em razão do passeio pelo bosque. Ela lutava para afastar os dois cachorros que a acom­panhavam.

— Céus, nossa tarefa será impossível! — Richard murmurou.
Peter não o ouviu porque correra para controlar os cães.


  • O que você tem no bolso para causar tanto interesse nestes selvagens? — ele perguntou, rindo.

  • Vou mostrar, assim que Richard chegar mais perto. Quero me divertir com o espanto dele — respondeu Miranda, protegen­do o bolso grande do casaco com as mãos.

  • Realmente, Miranda —, Richard comentou ao aproximar-se —, não vê como está desarrumada?

  • Ora, esqueça minha aparência, irmãozinho!

  • Mas você está horrível!

  • Não se preocupe com isso, querido. Você sabe que ninguém presta atenção em mim. Garanto que os vizinhos têm mais o que fazer do que se preocupar com minha aparência.

  • Você está totalmente enganada, os vizinhos... Miranda! Seu bolso! — o irmão exclamou alarmado.

  • O que há de errado com meu bolso?

  • Ele se mexeu!

  • Que bobagem! Bolsos não se mexem. O conteúdo deles po­de se mexer, mas os bolsos, nunca!

  • Miranda, o que você tem aí dentro? — Richard perguntou quase gritando, porque os cachorros latiam.

  • Você quer mesmo ver o que é? Não teme levar uma mordida? — ela brincou.

  • Miranda!

— Está bem, mas ajude Peter a segurar estes cães horríveis.
Ela abriu o bolso com cuidado e os dois rapazes viram um par de olhos escuros numa carinha peluda e duas grandes orelhas.

— Um filhote de coelho! Que belezinha! — Peter sorriu.



  • Oh, como você pode ter uma coisa destas no bolso? — Richard disse em tom de desaprovação. — O animal está sujo! O que pretende fazer com ele, pelo amor de Deus?

  • Foi Joe Townson quem me deu o bichinho. Ele o encontrou perto da mãe morta e não teve coragem de matá-lo para comê-lo.

  • Se Townson é tão sentimental, por que não ficou ele mes­mo com o coelho?

  • Ora, você conhece os Townson. Moram em uma casinha muito pequena, cheia de crianças e cachorros. O coelhinho não sobreviveria muito tempo no meio deles. Mas eu lhe arrumarei uma caixa quentinha, perto da lareira, em minha sala íntima.

  • Miranda, você não pode fazer isso! Não conheço nenhuma lady que crie um coelho em seu boudoir. O que irão pensar de você? Vão considerá-la uma excêntrica!

Richard não disfarçava o desespero, lembrando-se da tia-avó Evangeline. E ela só tinha um pombo de estimação! Miranda, por sua vez, tinha uma gralha, além de vários cães e, agora, um coe­lho. Era demais!

  • Pois eu acho que um coelhinho de estimação é uma graça! — Peter exclamou, rindo muito. — Quero vê-lo quando estiver correndo pela casa.

  • Se o aguentarmos até lá — Richard comentou amargamente. — Oh, céus, aconteceu o que eu temia! Veja sua saia, Miran­da. O animal fez uma coisa muito desagradável.

Não foi o coelho — ela respondeu calmamente. — Foi o bebé .dos Townson. Eu carreguei a criança no colo.

Richard, mortificado, soltou um suspiro. Peter riu ainda mais.



  • Por favor, vá para casa, Miranda — disse Richard. — Tro­que de roupa antes que alguém a veja.

  • Se isto o aborrece tanto, eu vou. Mas preciso me apressar, porque prometi ir à casa do velho Cummings. Ele recebeu um panfleto contra as iniquidades da nova Lei do Jogo e da Caça. Preciso ler o panfleto para o coitado, porque ele está quase cego.

  • Miranda e suas ideias estranhas! — o irmão comentou, escandalizado, acrescentando quando ela se afastou: — Nunca en­contraremos um marido para Miranda! É impossível!

  • Não pense em fracassar antes mesmo de começarmos a procurar o candidato ideal. — Peter argumentou com ar pensativo.
    — Ser casado com Miranda teria lá algumas vantagens. Por exemplo, a vida doméstica nunca cairia na rotina... Mas do que é que estávamos falando, mesmo, quando ela chegou?

  • Estávamos decidindo quais seriam os atributos necessários ao futuro marido de minha irmã. Contudo, como podemos exigir que o candidato tenha qualidades se Miranda é uma moça sem graça, cria em sua sala íntima bichos estranhos, não se incomoda com a própria aparência e ainda se propõe a ler panfletos com ideias radicais para velhos cegos? — Richard encarava a situação com pessimismo.

Peter preferiu simplificar a situação ao máximo:

—Na verdade, meu amigo, o candidato precisará ter uma úni­ca qualidade: tolerância!


CAPITULO II
Se Richard esperava que o amigo começasse a procurar um marido para Miranda de imedia­to, deve ter ficado desapontado. Em vez de se dedicar a esta ta­refa urgente, Peter partiu no início da tarde, tendo arrumado as valises apressadamente, contrariando os criados de quarto. Foi a Berkshire concluir a compra dos cavalos de corrida, o que Ri­chard considerou uma frivolidade, já que ele tinha um assunto mais sério a tratar.

Na ausência de Peter, Richard não teve outra opção a não ser começar a procurar o candidato a marido por conta própria. Fez uma lista dos solteiros e viúvos que moravam por perto, mas de­pois de eliminar os que não eram ricos, os bêbados e os que já haviam demonstrado que não queriam casar com Mirando, so­brou apenas um. Era um viúvo de meia idade, com muitos filhos e uma pequena propriedade.

— O coronel Marks? Nunca! — explodiu sir Henry quando o filho sugeriu o único candidato. — Ele é um homem doentio, duvido que compre um casaco novo por ano! Eu não poderia chamá-lo de meu filho! E o que é pior, ele pode querer me cha­mar de "pai". Não, ele não serve. Pense em outra pessoa.

O pobre Richard riscou o nome do coronel e suspirou, ansioso pela volta de Peter. Cabisbaixo, foi até a sala. Entrando no apo­sento, Miranda reparou na expressão preocupada do irmão.



  • Você está aflito com alguma coisa, querido? Passou o dia todo de cenho franzido, está até com a testa marcada.

  • Não, isso não! — Richard, muito alarmado, correu para o espelho mais próximo e esfregou a testa. — Está melhor agora?

  • Muito. Você está tão lindo como sempre — Miranda garantiu. — Mas não respondeu minha pergunta. Alguma coisa o aflige? Está devendo dinheiro ou, meteu-se em alguma enrascada? Se for isto, sabe que sempre pode contar comigo.

— Eu sei, mas não é este o caso. Tudo está bem, eu garanto.
Richard sentiu-se pouco à vontade com as perguntas da irmã. Ela sempre percebia quando ele estava com problemas ou enfren­tava alguma dificuldade mais séria. Miranda o ajudava desde criança, apesar de ser uma ano mais nova.

  • Tem certeza? — ela não parecia convencida. — Fui convidada para tomar chá com os Crawford, mas terei prazer em não ir se você preferir que eu fique.

  • Ora, não há nada errado. Vá, e divirta-se!

  • Está bem, se é o que deseja... Acho melhor eu sair logo, assim posso passar pela casa de Jem Price, que fica no caminho. O telhado está com goteiras e alguma coisa precisa ser feita.

Quando Miranda partiu, Richard lembrou-se de um fato que o preocupou. Se ela se casasse, quem cuidaria da propriedade e dos criados? Na verdade, os problemas eram apresentados a sir Henry, mas todos sabiam que quem resolvia tudo era a srta. Branscombe. Richard ficou ainda mais perturbado. Teria de en­frentar sozinho os problemas de contabilidade e administração das terras? Não poderia, não era esperto e capaz como Miranda!

Sentindo-se entre a cruz e a caldeirinha, Richard pensou nas dificuldades durante uma semana, sem reparar que a irmã o ob­servava em silenciosa ansiedade. Ele sentiu um grande alívio quan­do Peter finalmente voltou e foi visitá-lo.



  • Meu querido amigo, pensei que você tinha partido para sempre!

  • Que recepção! — Peter riu. — Eu fui só até Berkshire, não dei a volta ao mundo.

  • Seja qual for o lugar, você parece muito bem — Miranda comentou.

  • E tenho motivos — Peter estendeu as pernas depois de sentar-se e aceitou o copo de vinho que Miranda lhe ofereceu.
    — Não é todo dia que um homem tem uma chance de ouro, o melhor negócio do mundo.

  • Na última vez que ouvi uma história parecida você se deu mal — disse Miranda.

Foi falta de sorte, pode acontecer com qualquer um — argumentou Peter. — Mas agora o cavalo tem cor diferente, se posso usar uma metáfora. Só que não é um cavalo pequeno, é todo um lote. Comprei uma parte dele.

  • Trata-se, realmente, de uma aventura arriscada. Quantos animais você tem? — Miranda perguntou, demonstrando interesse.


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