Autor: Miguel Sousa Tavares



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Título: Rio das flores
Autor: Miguel Sousa Tavares
Género: Romance
Digitalização: Sandra Amaral
Correccção: Sandra Amaral
Estado da obra: Corrigida
Numeração de página: Sem numeração
Este livro foi digitalizado para

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Badana da capa:

Sevilha, 1915 - Vale do Paraíba, 1945: trinta anos da história do século XX correm ao longo das páginas deste romance, com cenário no Alentejo, Espanha e Brasil.

Através da saga dos Ribera Flores, proprietários rurais alentejanos, somos transportados para os anos tumultuosos da primeira metade de um século marcado por ditaduras e confrontos sangrentos, onde o caminho que conduz à liberdade parece demasiado estreito e o preço a pagar demasiado alto. Entre o amor comum à terra que os viu nascer e o apelo pelo novo e desconhecido, entre os amores e desamores de uma vida e o confronto de ideias que os separam, dois irmãos seguem percursos diferentes, cada um deles buscando à sua maneira o lugar da coerência e da felicidade.

Rio das Flores resulta de um minucioso e exaustivo trabalho de pesquisa histórica, que serve de pano de fundo a um enredo de amores, paixões, apego à terra e às suas tradições e, simultaneamente, à vontade de mudar a ordem estabelecida das coisas.

Três gerações sucedem-se na mesma casa de família, tentando manter imutável o que a terra uniu, no meio da turbulência causada por décadas de paixões e ódios como o mundo nunca havia visto. No final, sobrevivem os que não se desviaram do seu caminho.
Badana da contracapa:

Miguel Sousa Tavares nasceu no Porto. Licenciado em Direito, abandonou a advocacia para se dedicar em exclusivo ao jornalismo. Ganhou os principais prémios de jornalismo em Portugal, tendo vencido, em 1987, o 1º Prémio de Reportagem em Televisão no FestRio (Festival de Cinema e Televisão do Rio de Janeiro), com uma reportagem sobre a Ilha do Corvo, nos Açores.

Estreou-se na edição com Sahara, A República da Areia, publicando depois os livros de crónicas políticas Um Nómada no Deserto e Anos Perdidos. Eterno viajante, relata em Sul algumas das histórias das viagens que fez durante anos à volta do mundo. Escreveu ainda um conto infantil, O Segredo do Rio, um juvenil, O Planeta Branco, e publicou um livro de pequenos textos e contos, Não te Deixarei Morrer,' David Crockett, editado no Brasil.

Em 2003 publica o seu primeiro romance, Equador, que rapidamente se transformou num dos maiores best-sellers da literatura portuguesa, tendo vendido mais de 300.000 exemplares em Portugal. Com edições na Holanda, Brasil, Espanha (espanhol e catalão), França, Alemanha, Grécia, República Checa, Sérvia, Bósnia-Herzegovina e Itália (onde venceu a 25a edição do Prémio Literário Grinzane Cavour para o melhor romance estrangeiro), tem ainda direitos vendidos para Inglaterra e Estados Unidos.



Rio das Flores é o seu segundo romance.

RIO DAS FLORES


Miguel Sousa Tavares

www.oficinadolivro.pt

© 2007, Miguel Sousa Tavares

e. Oficina do Livro — Sociedade Editorial, Lda.

Rua Bento de Jesus Caraça, 17

1495-686 Cruz Quebrada

Tel: 21 005 23 50, Fax: 21 005 23 40

E-mail: info@oficinadolivro.pt

Título: Rio das Flores

Autoria: Miguel Sousa Tavares

Revisão: Oficina do Livro

Composição: Informaster, Lda.

em caracteres Sabon, corpo 12

Capa: Oficina do Livro

Fotografia da capa: Augusto Brázio

Impressão e acabamento:

Rolo & Filhos II, S.A. e Offset Mais, Artes Gráficas, Lda.

1ª edição: Outubro, 2007 — 100 000 exemplares

ISBN 978-989-555-318-1

Depósito Legal nº 265780/07

“A loucura é viver na solidão dos outros, numa ordem que ninguém partilha. Durante muito tempo achei que escrever podia resgatar-me da dissolução e da escuridão, porque implica uma sólida ponte de comunicação com os ouros e anula, por isso, a solidão mortal.... Depois, compreendi que aqueles aquém chamamos loucos estão, muitas vezes, para além de qualquer resgate.”

Rosa Montero, A Louca da Casa.
Mãe

I

Diogo Ascêncio Cortes Ribera Flores - conforme constava do seu registo de baptismo - tinha quinze anos de idade quando o pai o levou pela primeira vez a ver uma tourada. Foram a Sevilha, na abertura da Feria de San Miguel, a feira de Setembro de 1915, touros de Santa Coloma, cartaz com José Gómez Ortega, dito Joselito "El Gallo", e Juan Belmonte. A sua avó paterna, Gloria Ribera, era sevilhana, filha de pai e mãe sevilhanos. Fora em Sevilha que o pai de Diogo, Manuel Custódio Ribera Flores, vivera parte da sua infância e juventude, vinte anos atrás. Aí se habituara a regressar, em vida de sua mãe e na companhia dela, para visitar os avós, ano sim, ano não. Mas, desta vez, muitos anos depois e já nem os seus avós nem a sua mãe eram vivos, tratava-se de uma excursão de homens, para os touros e para a farra de San Miguel. Manuel Custódio escolhera viajar apenas com o filho mais velho, dois amigos de sempre, companheiros do campo, da mesa e das tertúlias no café Central de Estremoz, um moço de estrebaria que guiava a carruagem e tratava das cavalgaduras, mais o



seu criado pessoal, para se ocupar das roupas e do expediente ocasional.

A mãe ficara na quinta, a vê-los partir da entrada da casa, às primeiras horas da manhã daquela quinta-feira do final de Setembro, ainda o sol mal dispersara a névoa suspensa sobre a charca em frente ao terreiro da casa, onde o primeiro restolhar das asas dos patos afastava os gritos nocturnos das corujas e das rãs. Diogo não estava feliz por abandonar tudo aquilo que lhe era tão familiar, o seu território de intimidade e de refúgio, abandonar a mãe, que adorava, e o irmão mais novo, Pedro, que deixara ainda adormecido no quarto que ambos partilhavam, com um sentimento de inveja e de tristeza. Custava-lhe pensar que não iria passar o final daquelas férias de Verão no monte, a armadilhar a rede de pássaros para caçar tordos no olival, a explorar a ribeira que atravessava a herdade, caminhando pelo meio da água de calças arregaçadas assustando as rãs e os pequenos peixes, que não iria visitar o velho moinho de água abandonado onde uma vez matara uma cobra à pedrada, que não iria passear-se até onde o rebanho pastava, no limite da propriedade, num terreno de arribas escarpadas sobre a ribeira e de pedregulhos enormes que pareciam ter caído do céu e terem ficado para sempre enterrados na terra, onde o pai gostava de caçar perdizes rápidas como um sopro e silenciosas como um pensamento, e onde ele gostava de passar longas horas à conversa com o pastor, o Virgolino, que distinguia ao longe todos os pássaros, escutava todos os sons num raio de quilómetros, sabia as histórias de toda a gente, desde os "antigos" até aos vivos, e, enquanto falava, ia desenrolando um lenço sujo que sacava do bolso do colete e lá de dentro tirava um pedaço de queijo duro e seco de ovelha ou um resto de chouriço que cortava minuciosamente com o seu canivete sempre à mão e dividia com ele.

A mãe fizera-lhe um sinal da cruz na testa, apertara-o contra o seu xaile de lã grossa, dissera-lhe "deixa-me olhar para ti, outra vez, meu filho", e ele pousara-lhe um beijo na mão fria daquela manhã, hoje tão distante na sua memória.

Em boa verdade, nem o pai nem a mãe lhe tinham pedido a sua opinião para aquela viagem. Ninguém lhe perguntara se ele queria ir ou se preferia ficar. Um dia, estavam à mesa a jantar e o pai anunciou simplesmente que iria à Feria de Sevilha com o Joaquim da Vila, comerciante em Estremoz, e o dr. António Sacramento, latifundiário nos arredores e juiz na comarca. E, então, fixara-o como se há muito não o visse e perguntara:

E tu, Diogo, que idade tens agora?

Fiz quinze em Junho, meu pai.

- Hum, já tens idade para te fazeres homem. Vens
connosco também.

Ele olhara para a mãe em busca de auxílio, mas ela baixara os olhos, como se o pai tivesse dito alguma coisa que a envergonhasse. E assim a sua partida fora decidida, sem mais conversa.

Partiram ainda antes das oito da manhã, numa longa estirada que os levou, quase noite, até à fronteira de Ficalho, ficando hospedados numa estalagem onde o pai reservara antecipadamente cama e comida para todos e mudas para os animais. Levavam quatro cavalos de sela e dois de tiro atrelados no landau coberto do pai, além do novo cão

de caça de Manuel Custódio, um cachorro braque chamado Campeão, e o Estremoz, perdigueiro do Joaquim da Vila. Alternavam os cavalos com a carruagem, mas Diogo passou a maior parte do tempo sentado à frente, junto ao Azevinho, o condutor. A certa altura, o pai, o dr. Sacramento e o Joaquim da Vila apearam-se dos cavalos e seguiram à frente da caravana, com os cães e as espingardas, a caçar de salto pelas bordas do caminho. Duas horas depois, tinham caçado quatro perdizes, uma lebre e uma codorniz, que ficaram penduradas de fora da carruagem, a faisander, para serem comidas daí a dois dias, ao jantar.

A partir do segundo dia de viagem, passada a fronteira, embrenharam-se na difícil subida da serra de Ara-cena, mata espessa de sobreiros, azinheiras e ocasionais eucaliptais, com esteva e silvados cobrindo o solo até quase à altura de um homem. Esparsas casas e minúsculos povoados eram atravessados por vezes, mas pareciam habitados apenas por velhos ou crianças de colo, ou até mesmo abandonados de toda a gente. Os poucos que cruzavam olhavam-nos com curiosidade mas desconfiança, que só se desfazia um pouco quando eles se aproximavam e os habitantes podiam ver, pelas suas roupas, pelos cavalos e pela carruagem, que se tratava de fidalgos portugueses de posses, em viagem para Sevilha. Dizia-se, por fé de alguns, que aquele era território de bandidos fugidos à justiça e de assaltos, e a maior parte do tempo o pai obrigou Diogo a viajar dentro da carruagem, onde sempre estava algum dos adultos, de arma pousada no banco e carregada com os cartuchos.

Ao alto da mais íngreme das encostas, chegaram, ao cair da tarde, à aldeia de Aracena, povoado de umas

duzentas casas e encavalitado no topo da serra, onde se albergaram numa estalagem já de qualidade superior. Tiveram direito, à vez, a um banho quente, com a água trazida em grandes bacias e despejada numa banheira de zinco, com um bom naco de sabão azul e branco pousado na borda para desentranhar a poeira e sujidade do caminho. Os criados jantaram na cozinha e eles numa mesa junto ao grande fogão de sala, aquecendo-se num lume forte de sobro e entretendo-se, enquanto esperavam pelo jantar, com umas lascas de excelente presunto da serra curado à lareira e vinho do planalto andaluz. Sevilha estava agora só a um dia de marcha e a disposição dos homens era francamente alegre, contando histórias e anedotas e antecipando os quatro dias de festa que os esperavam na capital da Andaluzia. Veio a sopa de legumes com grão e batatas, as perdizes caçadas de antevéspera, estufadas com enchidos, azeitonas e toucinho, e um assado de perna de porco com salada de alface. Vários jarros de vinho vieram e regressaram vazios e Diogo também teve direito a um copo cerimonial, que definitivamente lhe amoleceu o corpo e o espírito e o fez daí a pouco cair adormecido em cima do próprio tampo da mesa. E foi assim, numa modorra reconfortante, entre o consciente e o inconsciente, que foi ouvindo, como se à distância, as vozes dos homens à conversa e o som da lenha estralejando na lareira, até que, meio adormecido, sentiu que o pai lhe pegava ao colo, subia com ele as escadas até ao quarto e, mesmo sem o despir, o enfiava entre os lençóis da cama. Essa foi a última, a primeira, a única vez que mais tarde se lembraria de o pai lhe ter pegado ao colo.

Partira com o pai para Sevilha com quinze anos e três meses de idade e regressara, treze dias depois, feito um homem. A mãe notou-o logo, assim que o viu descer do cavalo, ambos ensopados em suor e requebrados de cansaço, mas o rosto do filho com um brilho novo, um brilho de descoberta no mais fundo do castanho escuro dos seus olhos. Notou até como ele lhe falava agora de forma diferente, como se qualquer coisa de intransponível se tivesse vindo interpor entre eles, e como respondia com uma sobranceria ridícula, e até aí desconhecida, às perguntas insistentes do irmão, olhando-o de cima a baixo, muito para além dos escassos cinco anos de idade que os separavam.

Sevilha deslumbrara-o, assim que passara a ponte sobre o Guadalquivir e avistara ao longe a cúpula da Giralda elevando-se acima dos telhados da cidade. Tinha atravessado como num sonho a Calle de Alcalá, a avenida fronteira ao palácio real de Afonso XIII, a catedral, a Plaza Mayor e o extenso Parque de Maria Luisa, sob cujas árvores frondosas, algumas trazidas das Américas, os sevilhanos vinham abrigar-se do calor assassino dos meses de Verão, os namorados vinham ajustar casamentos e os amantes traições a cumprir.

Tivera direito a um quarto só para si, no Hotel de Inglaterra, onde se hospedaram. Ele nunca tinha estado num hotel, só ouvira falar aos adultos, e passou um tempo infinito a explorar as gavetas da mesa-de-cabeceira, da cómoda e do armário do quarto em busca de segredos

esquecidos por algum hóspede anterior, uma eternidade a experimentar a cama, a cheirar os lençóis, a abrir e fechar as torneiras da casa de banho e a escutar a animação crescente que vinha das ruas estreitas do centro e que ele espiava, de janela aberta. Desceu até ao piso térreo para esperar pelo pai e o seu séquito e, enquanto esperava, perdeu-se pelos extensos salões do hotel, espreitando em todas as salas e através de todas as portas, passando a mão pelos azulejos árabes das paredes para se certificar de que eram reais, tão excessiva lhe parecia a sua beleza, atordoou-se de olhar os tectos altíssimos de caixotões de madeira escura trabalhados em arabescos, frisos e flores, deliciou-se ao contacto do veludo gasto e suave dos sofás da sala grande e caminhou como um sonâmbulo sobre os espessos tapetes orientais dos corredores. Parecia-lhe flutuar dentro de um sonho, como nos livros de fadas que lera na infância: princesas deslizantes, lindas de morrer, desembarcavam dos elevadores ou atravessavam o átrio e os salões parecendo não pisar o chão, apenas o afagar, um leve roçar dos seus vestidos de seda interrompendo as conversas à sua passagem, suspensas e etéreas nos braços de cavalheiros que ele diria reis ou senhores do mundo. Esmagado por tanta grandeza, tanto esplendor, afundara-se num canto de uma poltrona, sem ousar olhar a direito para coisa nenhuma, ouvindo o som das rolhas de garrafas de champagne saltarem no bar, vozes alegres que riam e falavam altíssimo, às vezes até no francês que a mãe lhe ensinava, fósforos riscados na penumbra ambiente dos candeeiros de petróleo que acendiam longos charutos de cintas douradas, e um cheiro a tabaco de homem e a perfume de senhoras que aos poucos tomava conta do salão

e o deixava prostrado, inebriado de um prazer novo que não sabia identificar.

O pai e os amigos desceram dos quartos e todos eles saíram para jantar. Parecia que Sevilha inteira flutuava como ele dentro de um carrossel de sensações, de excitação, rumo a um ponto qualquer onde tudo aquilo teria forçosamente de explodir num apocalipse. As pessoas acotovelavam-se nas ruas estreitas, senhoras e cavalheiros cruzavam-se com olhares noutras circunstâncias tidos como indiscretos, casais passeavam filhos absurdamente vestidos de marujos, amas passeavam berços de crianças sobre rodas, mendigos estendiam a mão aos passantes, ciganas rolavam os olhos negros nos olhos assustados dos que cruzavam, agarrando-lhes a mão e prometendo-lhes uma sina sem sombras, angariadores de clientes dos hotéis e restaurantes interpelavam todos os bem-postos, e jovens moços, vestidos pobremente de toureiros sem quadrilha, caminhavam em grupos de dois ou três, com um olhar que suplicava a glória de uma tarde ou mesmo a glória de uma morte numa tarde de arena.

A custo, abriram caminho até ao restaurante que procuravam, na Plaza de América. Instalaram-nos numa mesa ao fundo da sala, uma sala que parecia uma antevisão do caos, com um barulho ensurdecedor das conversas misturado com o lamento de um cântico flamenco que uma cigana entoava do outro extremo do restaurante, acompanhada à guitarra por dois facínoras de cicatrizes talhadas à navalha na cara escura, uma nuvem de fumo pairando como nevoeiro acima da luz trémula dos candeeiros a petróleo, as correrias afogueadas de um batalhão de criados de casaco branco, levantando bem ao alto e misterio-

sãmente em equilíbrio bandejas de copos de cerveja e de vinho, tapas e pratos fumegantes de comidas estranhas, e uma espécie de sussurro geral, que era o sopro dos leques agitados pelas senhoras, sorrindo, como se nada fosse, a cavalheiros encharcados em suor escorrendo pelos colarinhos de goma das camisas e pelas lapelas dos casacos.

Em toda a sua curta vida, nunca Diogo tinha imaginado um tal ambiente de orgia, de festa a tresandar a vinho, a fumo, a excesso, a tentação de mulher e a perdição de homem. Era como um catálogo vivo de todos os vícios possíveis de um homem, não faltando sequer, junto ao corredor de passagem para a cozinha, uma mesa onde quatro fregueses, de rosto silencioso e fechado, jogavam cartas, alheios ao ruído ensurdecedor e à confusão reinantes. Pela primeira vez na vida, Diogo entreabria a porta de um mundo onde os homens deitavam as cartas e se perdiam, como crianças, numa licenciosidade irresponsável. E soube, então, que pertencia a esse mundo, soube por que razão o pai o trouxera naquela viagem.

Saíram do restaurante duas horas depois, o dr. Sacramento de colarinho já desabotoado e rosto afogueado, o Joaquim da Vila trocando o passo e insistindo em contar histórias sem nexo, e apenas o pai, aparentemente imperturbável, composto como sempre, alto, de passo firme e o olhar, que pareceu a Diogo perpassado por uma indizível tristeza ou desprendimento, fixo num ponto longínquo, para além da algarraza das ruas, agora percorridas por caleches com os cavalos de crinas e caudas enfeitadas de papéis coloridos e jovens senhoras de cabelos, chapéus e olhos negros como carvão montando à amazona, ao lado de uma silenciosa escolta de cavaleiros andaluzes de mortífero olhar de nobres bandidos, apertados nos seus coletes de botões de madrepérola. E, sobre tudo isso que passava, num desfile agora ornamentado e ensaiado, uma poeira fina suspensa no ar, que tudo parecia cobrir com um púdico manto de apagamento.

Uma cigana, belíssima nos seus já vinte e muitos anos, um filho ao colo que mamava de um peito perfeito e descoberto sem pudor, saltou-lhes de repente ao caminho e agarrou a mão de Diogo, antes que este a pudesse retirar ou que algum dos outros conseguisse fazer um gesto para o proteger. Ajoelhou-se aos seus pés, o peito completamente fora do vestido e exposto ao olhar extasiado de Diogo, e lançou-se numa lengalenga indecifrável de que ele não alcançou uma só palavra. Então, o pai sorriu, estendeu uma moeda à cigana e ela agarrou mais firmemente na mão de Diogo e começou:

- Nino, amor mio, dulzura mia, jcómo eres guapo!
Vas a vivir dos vidas, no una sola. Te vas a casar, harás
hijos... pêro distintos. Vas a viajar... muy lejos. Vas a amar,
muchísimo, vas a sufrir y harás sufrir. Al final, te perde
rás, te encontrarás, no sabría decirlo, pêro la decisión será
tuya. El camino lo harás tú.

Levantou-se, fez uma espécie de vénia de despedida, sempre com a criança presa ao bico do peito, e desapareceu entre a poeira e a semiescuridão da rua. Todos se riram, mas Diogo ficou sem jeito, sem estar seguro de ter percebido bem a leitura da cigana, sem saber se aquilo era importante ou não. O pai passou-lhe um braço pelos ombros, um gesto tão raro nele, e sorriu-lhe:

- Bem, Diogo, meu filho. O teu destino parece que está
traçado, pelo menos a parte amorosa. Chegou a altura de

começarmos a tratar de transformar as profecias em realidades. Estás pronto para começar a ser um homenzinho e a guardar segredos de homem?

O Joaquim da Vila e o dr. Sacramento riram-se, com ar de entendidos, mas ele não estava igualmente certo de ter percebido o que o pai lhe queria dizer. Tudo lhe estava a acontecer demasiado depressa e atordoadamente, como num sonho que não conseguia decifrar. Como quer que fosse, já tinha decidido, assim que entrara por Sevilha adentro, que estava pronto para o que quer que viesse.

- Estou, pai. Estou pronto.

A casa de meninas era toda em veludos, cor de pêssego, vermelhos, negros, alcatifas espessas onde elas andavam descalças, luz ténue de castiçais de velas em todos os cantos e mesinhas de apoio, de novo o fumo e o cheiro dos charutos dos homens e agora o perfume barato de mulheres da vida. Elas iam dos quinze até aos trinta anos, eles dos trinta até ao infinito. E, no meio, havia ele, sentado numa ponta de um sofá, de pernas cruzadas, estarrecido de pavor, fingindo não ver coisa alguma, nem sequer o pai, que passava as suas longas mãos com que outrora o castigava pelas coxas de uma jovem ninfa que lhe segredava ao ouvido coisas que o faziam sorrir, de um sorriso que Diogo nunca vira antes e que não sabia interpretar. Uma senhora mais velha, arrastando um longo vestido bordado até ao chão e um majestoso passo de imperatriz do lugar, entrou no salão e o pai levantou-se para lhe beijar a mão e manter com ela um diálogo sussurrado,

entremeado por olhares lançados a ele. Ela assentiu com a cabeça ao que o pai lhe dizia e veio buscá-lo, estendendo-lhe a mão, que ele beijou também, fazendo-a soltar uma gargalhada surpreendentemente jovem para a idade madura que aparentava. Foi falando com ele baixinho, dizendo qualquer coisa que ele nem escutou, atordoado que estava, conduzindo-o pela mão através de um corredor até um quarto no fundo, onde o introduziu, fazen-do-lhe sinal para que esperasse ali. E ele assim fez: viu um quarto iluminado por dois castiçais de velas, uma única janela fechada, uma larga cama de lençóis postos como se fosse ali que ele ia dormir, e uma cómoda com uma bacia, um jarro de água e duas toalhas cor-de-rosa pousadas. A alcatifa do chão era azul-celeste e havia um inesperado quadro do Sagrado Coração de Jesus na parede por cima da cómoda.

Diogo tinha feito rapidamente toda a inspecção do quarto, jurando a si próprio nunca mais esquecer cada pormenor daquela noite em que, pela primeira vez, iria conhecer o corpo inteiro de uma mulher, vê-la nua sem ter de se esconder, poder mexer nela à vontade, sentir o que era penetrá-la, como tinha ouvido ao Virgolino contar nas lonjuras do monte, ou como ouvira uma vez contar a uma criada da cozinha, sem que ela percebesse que ele estava à escuta. E deu por si a rezar para que a primeira mulher que lhe estava destinada na sua vida de homem não fosse aquela intimidante senhora que o conduzira até ao quarto.

E não foi. Foi uma rapariga dos seus vinte anos, que se fazia tratar por Jolie, que tinha um sorriso rasgado e ainda de menina, um corpo magro, onde as ancas e as

costelas eram bem marcadas, um peito pequenino mas de bicos grandes e escuros, uma teia de aranha entre as pernas e umas pernas compridas, como uma centopeia. Pousou-lhe um beijo ao de leve na boca e começou calmamente a despi-lo, enquanto lhe fazia a tão temida pergunta:

- Então, é a tua primeira vez?

Ele viu-a descer-lhe as calças pelas pernas abaixo e espreitou também, a medo, para se certificar de que estava à altura das circunstâncias.

- Não... é a segunda - respondeu, sem grande ânimo.

Mas, apesar do empenho aparente dela e da sua própria falta de conhecimento na matéria, não se deixou enganar pelos seus suspiros e gritinhos de suposto prazer. Soube que tinha sido um fiasco, mas, não obstante, desfrutou de todo o prazer de a ver nua, uma mulher completamente nua ao seu dispor, de mexer nela, de perceber a consistência gelatinosa de um peito, a sensação quente e húmida de entrar dentro dela e, sobretudo, a força de saber que tinha possuído uma mulher e que doravante podia falar de igual para igual com qualquer homem, podia voltar à escola, entrar no café da vila com outra aura, entrar na igreja como um pecador e não apenas como um suplicante. Depois de tudo rapidamente acabado, apeteceu-lhe que ela desaparecesse dali, sentiu-se um pouco sujo na sua presença e demasiado inchado de orgulho para partilhar com ela essa sensação. "Cest fini, Jolie", murmurou para si mesmo.



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