AvaliaçÃo comportamental de estudantes que trapaceiam em exames



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AVALIAÇÃO COMPORTAMENTAL DE ESTUDANTES QUE TRAPACEIAM EM EXAMES

SANTOS, Everton Diniz1

DINIZ, Linamar Maria2

RESUMO

“Colar” em avaliações se revela um problema educacional que incorre em efeitos deletérios ao indivíduo e ao país. Os meios para se inibir este comportamento são pouco eficientes e limitados. Este estudo propõem identificar o perfil comportamental de estudantes para auxiliar na elaboração de estratégias adequadas a redução da frequência de colas em avaliações. Realizou-se uma pesquisa popular acerca do comportamento de indivíduos que colaram, e de outros que nunca colaram em avaliações. Os resultados deste trabalho destacam a importância de conhecer a natureza dos estudantes para se estabelecer um correto processo de ensino-aprendizagem.


Palavras chave: Cola. Comportamento. Avaliações. Estudante. Ensino-aprendizagem.

ABSTRACT

Cheating in exams is a great educational problem in Brazil which cause bad effects both for the people than for the country. This behavior is usually inihibited by repression and prophylactic ways, both ineffective. This study proposes to identify the behavioral profile of students to assist in the elaboration of appropriate strategies to reduce the frequency of cheating in exams. This study was made by a popular research which inquired about the behavior of persons who cheatings or not during exams. The results highlight the importance to know who are the students in class to establish a correct teaching-learning process.


Palavras chave: Cheating in exams. Behavior. Exams. Student. Teaching-learning.

1 INTRODUÇÃO

Determinar o limite entre o certo e o errado é uma tarefa essencialmente importante na evolução das sociedades. Valores morais orientam a cognição dos indivíduos e seus julgamentos acerca dos hábitos que consideram ser corretos ou não (FORSBERG, INOUE, & INOUE, 2013; JOHANSEN, 2014). Como o tecido social se estrutura a partir da família, decisões individuais são de suma importância para determinação da ascensão ou declínio da sociedade como um todo (GIOVANNI, 1998). Aplicando-se este conceito a atividade do aluno na sala de aula, as consequências de condutas notadamente imorais como furtar ideias e respostas alheias nas situações de avaliação, ato vulgarmente conhecido como “colar”, implicam em uma série de problemas que vão desde o desperdício da oportunidade de desenvolver conhecimentos e a cognição do indivíduo, até o desperdício de recursos financeiros governamentais afetando a toda sociedade (SILVA, 2006; IOSCHPE, 2014).

A avaliação é um tema desafiador permeado por limites e avanços em que os atos de ensinar e aprender, ora se aproximam, ora se distanciam e tem como horizonte tornarem-se indissociáveis (LUCKESI, 2000). Neste interim, a problemática do ato de colar simula um efeito falacioso entre a avaliação e o aprendizado consequentemente prejudicando o planejamento escolar mais adequado aos alunos. As consequências a nível nacional deste comportamento, se constroem com base em índices erroneamente calculados e publicados pelo ministério da educação (MEC), uma vez que suas medidas se baseiam em notas escolares, número de aprovados anualmente, número de matriculados e nível de aprendizagem, as quais são alteradas expressivamente pelo viés estatístico da cola. Baseado nestes índices, o MEC direciona suas políticas públicas e recursos financeiros de modo a tornar o ambiente de ensino e aprendizagem mais eficiente (Educação, 2016). Em escala menor, a direção escolar é igualmente afetada por avaliar o cumprimento de seu projeto político pedagógico (PPP), o qual é o instrumento que reflete a proposta educacional da escola, através dos resultados nos exames escolares (EDUCAÇÃO, PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO: DIMENSÕES, 2016).

Inobstante as razões supracitadas, há problemas exclusivamente individuais relacionados ao ato de colar em provas, tais como: o estudante que cola limita sua capacidade de solucionar problemas de forma eficiente se valendo apenas de meios honestos, ou seja, meios que não prejudicam a si mesmos e nem aos demais; quanto mais uma pessoa utiliza de meios desonestos para lograr o êxito, e neste contexto se insere o ato de colar, mais tolerante a desonestidade ela se torna e isto é um problema cultural que deve ser combatido no Brasil; sua moral torna-se relativizada de modo que o conceito de certo passar a ser atribuído a tudo que lhe coloque em uma posição de vantagem em detrimento dos demais; o indivíduo que cola sucessivas vezes coloca em jogo a credibilidade que possui em seu meio escolar, pois por estar sempre proferindo e vivendo em meio a falácias, perde a confiança e a credibilidade que os colegas e professores lhe depositavam. Por intermédio da cola, sobretudo aquelas que os professores e inspetores não detectam, o estudante aprende a desonestidade intelectual e a subornar e aceitar suborno, o que confere em si a base da corrupção (VIRUES-ORTEGA & PEAR, 2015). Corrobora com todas estas informações um estudo realizado pela UNESCO em 2016 o qual revela que em países onde há mais cola nas salas de aula também há mais desonestidade (IOSCHPE, 2014).

Os meios escolares e de concursos públicos para coibir a cola se baseiam unicamente na repressão e punição quando a mesma é detectada (Silva, 2006). Contudo, indivíduos que colam têm utilizado de variados meios para tanto, como: uso de tecnologias, criação de códigos, criação de sistema de cola, e os meios clássicos como anotar em partes do corpo ou em papeis pequenos escondidos em meio a avaliação. Contudo, pouquíssimos casos são detectados pelos professores e inspetores o que torna este ato bastante atrativo para estudantes despreparados para as provas (SIQUEIRA, 2004).

A procura de maneiras para compreender as razões que levam um indivíduo a colar em avaliações escolares, universitárias e de concursos, e também de saber os impactos a longo prazo deste comportamento com relação a vida profissional, realizou-se um levantamento de dados relativos aos hábitos culturais e comportamentais de estudantes e profissionais do estado do Rio de Janeiro na busca de traçar um perfil psicológico dos indivíduos que colaram uma ou mais vezes durante o período escolar e daqueles que nunca colaram. A finalidade deste perfil é auxiliar o professor a conhecer mais adequadamente seus estudantes, sobretudo aqueles que colam, com o objetivo de lhes auxiliar mais adequadamente no processo de ensino-aprendizagem.


2 METODOLOGIA
A primeira fase deste estudo baseou-se na elaboração do questionário o qual seria utilizado para realização das entrevistas. As perguntas elaboradas no questionário visavam traçar um esboço do perfil psicológico, cultural e comportamental de indivíduos de ambos os sexo na mesma proporção. O questionário utilizado para arguição durante as entrevistas consta de perguntas sobre (1) o estado da federação em que o entrevistado reside, (2) seu gênero, (3) a quantidade de vezes em que o aluno colou, (4) em uma escala entre nenhuma e dez vezes, (5) a motivação para a cola no caso da resposta positiva, (6) a parte da sala de aula em que o entrevistado costumava se sentar, (7) a disciplina em que tinha mais dificuldade, (8) uma nota, em uma escala de 1 a 5, para o nível de popularidade do entrevistado, (9) sua religião, (10) qual o nível de seriedade com o qual encara sua religião, (11) em quais disciplinas o entrevistado colou, caso tenha colado, (12) se o entrevistado repetiu alguma série, (13) qual o seu principal gosto musical, (14) se o entrevistado tinha se matriculado em algum curso superior (e em qual curso), (15) se participou ou não de algum trote caso tenha ingressado no ensino superior, (16) o número de vezes em que o entrevistado colou durante o ensino superior, (17) se repetiu alguma disciplina na graduação, (18) se é satisfeito com o próprio salário, (19) qual é a sua faixa salarial, (20) se dorme normalmente no mesmo horário, (21) qual é o seu número máximo de escolaridade, (22) qual é a sua orientação política/ideológica e econômica.

O questionário foi elaborado no software “Google Formulários”, o qual é disponibilizado online e gratuitamente a toda população no seguinte endereço eletrônico: https://docs.google.com/forms/u/0/. Este software gerou um “link” para acesso ao questionário o qual foi disseminado por intermédio de grupos em redes sociais. Ao todo foram obtidas 284 respostas distribuídas por diversos estados da União, contudo 74% das respostas vieram do estado do Rio de Janeiro o qual de fato confere o objeto deste experimento. O grupo de respostas oriundas do RJ foi divididos em 2 subgrupos de 112 indivíduos do sexo masculino e do sexo feminino. Cada subgrupo de 112 indivíduos novamente foi dividido em 2 grupo correspondentes a 56 indivíduos que colaram e que não colaram em seu último ano escolar cursado. Em outras palavras, os grupos amostrais contaram com dados fornecidos por quatro grupos de 56 indivíduos nomeados da seguinte forma: Masculino colou, Masculino não colou, Feminino colou e Feminino não colou.

Como esta pesquisa contou com uma amostragem aleatória simples sobre variáveis categóricas, o tamanho da amostra foi estimado em 195 indivíduos por intermédio da Equação 1 a qual utilizou como parâmetro populacional a população média de estudantes do ensino fundamental e médio do estado do Rio de Janeiro juntas, que são da ordem de 26000 indivíduos de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (Estatística, 2016).

Equação 1: cálculo do tamanho amostral






Onde:


n - amostra calculada

N - população

Z - variável normal padronizada associada ao nível de confiança

p - verdadeira probabilidade do evento

e - erro amostral

Como neste estudo contou-se com a participação de 224 indivíduos, as estimativas realizadas com respeito a população de estudantes cariocas são da ordem de 95% de confiança e com um erro padrão situado entre 6% e 7% exclusive.

Os dados obtidos por meio dos questionários foram organizados em tabelas de frequência simples e acumulada, ambas expressas em porcentagem. A significância das diferenças obtidas em cada variável relativa aos grupos deste estudo, foi determinada pelo ensaio estatístico não paramétrico de Kruskal-Wallis. Para revelar quais grupos diferenciaram-se entre si foi aplicado o teste não paramétrico de Dunn. Os testes não paramétricos foram escolhidos porque todas as variáveis não apresentaram distribuição normal, com exceção unicamente do nível de popularidade.


3 RESULTADOS

A figura 1 mostra por diferença de gênero, a porcentagem aproximada de indivíduos que colou durante seu último ano escolar cursado. Por intermédio deste gráfico também é possível observar o que motiva os estudantes a colarem em função de seus respectivos gêneros. Deste modo, observa-se que 36% da população masculina consultada nesta pesquisa colou uma vez e 52% colou mais de uma vez. Com relação as mulheres, 64% colou uma vez e 48% colaram mais de uma vez em seu último ano escolar cursado.

Com respeito ao que motiva o estudante a se valer deste meio para obtenção de êxito nas avaliações, 24% da população masculina e 31% da população feminina consultados atribuem a insegurança, ou seja, falta de confiança na própria capacidade no momento da avaliação, a razão de colarem. Com relação ao déficit de aprendizado, 6% dos alunos e 15% das alunas atribuem a dificuldades inerentes a sua constituição física e psicológica a razão para colarem nas avaliações. Com relação ao nível de dificuldade das avaliações, 26% dos alunos e 15% das alunas colam em avaliações as quais julgam ter um nível de dificuldade elevado. Por fim, 43% dos alunos e 40% das alunas atribuem a falta de empenho pessoal durante o preparo para as avaliações, a principal causa que os impele a colar (Figura 1):
Figura 1: Porcentagem de indivíduos que colaram e as principais motivações no decurso do último ano escolar cursado



A Figura 2 apresenta um sumário do perfil comportamental, educacional e cultural de indivíduos que colaram e não colaram em seu último ano escolar cursado, o qual revela informações sobre: o índice de matriculados em instituições de ensino superior (IES); o número médio de colas na escola e nas IES; os índices médios de popularidade, participação em trote de calouros universitários, repetência escolar e universitária, rotina de sono e de prática religiosa. Os alunos que colaram ao menos uma vez em seu último ano escolar cursado, apresentam um índice de matriculados em IES de aproximadamente 0,86 quando do sexo masculino, e 0,75 quando do sexo feminino. Para os indivíduos que não colaram, os índices foram de 0,8 e 0,9 respectivamente para o sexo masculino e feminino. Em média, durante o período escolar indivíduos do sexo masculino colaram ao menos 5 vezes, e no período universitário estes indivíduos colaram ao menos 3 vezes. Ao que se refere as mulheres, o número médio de colas na escola e na universidade foram, respectivamente, ao menos 4 vezes e 6 vezes. Quanto ao índice médio de popularidade escolar e universitária, os estudantes do sexo masculino que colaram apresentaram valores aproximadamente iguais a 3,3 e 3,1 respectivamente, enquanto que os estudantes do sexo masculino que não colaram apresentaram valores respectivamente iguais a 3,3 e 3,0. Com relação as mulheres, o índice médio de popularidade escolar é aproximadamente 3,2 e de popularidade universitária é 2,8, enquanto que os índices correspondentes as mulheres que não colaram na escola apresentam valores aproximadamente iguais a 3,2 e 3,1 respectivamente para as fases escolar e universitária.

Ao que se refere a trotes em calouros universitários, participaram aproximadamente 38% dos estudantes do sexo masculino que colaram no período escolar, e 26% dos que não colaram no período escolar. Com relação as mulheres no período escolar, aproximadamente 36% das que colaram e 35% das que não colaram participaram das atividades envolvidas com trotes em calouros. Os índices médio de repetência escolar respectivamente da porção masculina e feminina da amostra, as quais colaram e não colaram, apresentaram valores aproximadamente iguais a: 0,5, 0,2, 0, 7 e 0,4. Com relação a fase universitária, os índices foram respectivamente iguais a: 1,04, 1,15, 0,81 e 0,42. Por fim, com relação aos hábitos religiosos do universo amostral, homens que se declararam praticantes da religião que seguem e colaram ao menos uma vez durante o período escolar, apresentaram um índice médio igual a 0,68. Com respeito as mulheres este índice se elevou a 0,7. A leitura da mesma variável sob a perspectiva dos indivíduos que nunca colaram apresentou para o sexo masculino o valor de 0,6 e para o sexo feminino o valor de 0,9 (Figura 2).
Figura 2: Perfil comportamental, educacional e cultural de indivíduos de ambos os sexos os quais colaram ou não colaram em seu último ano de graduação cursado.

Continuando a exposição dos resultados relativos aos hábitos culturais, educacionais e comportamentais de estudantes, a Figura 3 apresenta a distribuição dos alunos em sala de aula durante o último ano letivo que cursaram. Para esta variável, aproximadamente 32% dos estudantes masculinos declararam que se sentavam na frente ou no fundo da sala de aula, enquanto que 36% sentavam nas carteiras localizadas no meio da sala de aula. Com relação as mulheres, aproximadamente 36% das alunas sentavam-se na porção frontal da sala de aula, mais próximas ao quadro, 41% sentavam-se na porção central da sala, enquanto que 23% sentavam-se ao fundo da sala de aula (Figura 3).


Figura 3: Posição dos estudantes os quais declararam ter colado ao menos uma vez no período escolar.


Em relação ao mercado de trabalho, aproximadamente 57% dos homens que não colaram na escola encontram-se satisfeitos com o salário que ganham, enquanto que esta variável é representada por um número um pouco menor, aproximadamente 43%, com relação a satisfação salarial de indivíduos do sexo masculino os quais colaram em seu último ano escolar. Com relação as mulheres, 29% das que não colaram encontram-se satisfeitas com o salário que recebem, ao passo que a proporção de mulheres que colaram em seu último ano escolar e que são satisfeitas com o salário que recebem, são da ordem de 57%. Com respeito ao nível de estudo dos homens que não colaram, aproximadamente 27% deles são pós-graduados, 50% são graduados, 18% tem nível médio e 5% tem nível fundamental. Em relação aos homens que colaram, os valores variam respectivamente para: 25%, 61%, 11% e 4%. Em relação as mulheres que não colaram, 32% são pós-graduadas, 50% são graduadas, 18% tem nível médio e nenhuma delas detém apenas o nível fundamental. Com relação as mulheres que colaram em seu último ano escolar, os valores variam respectivamente para: 13%, 45%, 39% e 4%. Em termos de montante salarial, 30% e 21% dos homens e das mulheres respectivamente que nunca colaram, ganham salários superiores aos 4000 reais. Com relação aos homens e mulheres que colaram ao menos uma vez no período escolar, 21% dos homens e 0% das mulheres ganham salários superiores aos 4000 reais (Figura 4).


Figura 4: O gráfico em barras representa a frequência acumulada (%) de indivíduos em função do nível máximo de escolaridade medido pela ordenada a esquerda. A linha pontilhada indica a porcentagem de indivíduos que possuem salário superior a R$ 4000 por mês medida pela ordenada a esquerda, e a linha contínua indica a porcentagem de satisfação salarial destes indivíduos, a qual é mensurada pela ordenada a direita.





4 DISCUSSÃO

O ato de colar tem se demonstrado um problema epidêmico do sistema educacional brasileiro. As consequências deste comportamento causam efeitos deletérios tanto ao indivíduo quanto ao país. Os meios mais frequentemente empregados para se reprimir tal comportamento baseiam-se unicamente na detecção da cola por inspetores e professores e, em casos de concursos, na limitação do número de itens os quais os indivíduos podem portar consigo durante o decurso da avaliação. Tendo em vista a ineficiência dos métodos de repressão devido ao grande número de indivíduos que colam com êxito em avaliações, aproximadamente 8 em cada 12 alunos de acordo com as estimativas deste estudo, este trabalho propõem identificar o perfil comportamental de grande parte dos estudantes assumindo para tanto um erro de 7% e um intervalo de confiança de 95%, com objetivo de auxiliar na elaboração de estratégias adequadas para a redução da frequência de colas nas avaliações sem recorrer a repressões.

As distintas medidas observadas com relação ao gênero dos estudantes revela em analise final que o perfil de estudantes que colam se diferem significativamente em relação ao gênero. De fato, de acordo com o teste de Kruskal Wallis, esta diferença se mostra significativa para um intervalo de confiança de 95%. De acordo com os resultados expostos na Figura 1, no geral, a população masculina que cola inúmeras vezes é 4% maior que a feminina e este resultado é consistente com os achados de Silva (2006), porem quando a variável se refere ao público que colou apenas uma vez na vida escolar, a população feminina supera a masculina em 28%. Este fenômeno é explicado pela motivação das colas que é bastante distinta entre os gêneros. Enquanto homens normalmente colam por não se prepararem previamente para as avaliações e principalmente por considerarem a avaliação muito difícil, mulheres colam por não se sentirem seguras quanto ao conhecimento que possuem, mas principalmente por terem dificuldade em aprender a matéria. Naturalmente estes apontamentos se devem ao fato de estudantes de distintas culturas, gêneros e classes sociais serem submetidos a um mesmo processo de ensino e aprendizagem dentro da sala de aula. Conforme Paulo Freire aborda em seu livro educação bancária, escolas cuja identidade do aluno não é respeitada, tornam-se ambientes estressantes de opressão cujo o estresse máximo se atinge no momento em que se avalia um estudante que não crê ser capaz de aprender a uma dada matéria, ou que não vê finalidade no que estuda conforme os alunos que colam por despreparo e não se preparam porque não tem interesse (FREIRE, 1982).

Corroborando com o posicionamento de Paulo Freire, pesquisas realizadas em 2015 relativas a psicologia comportamental de estudantes que colam, atribuem a causa deste fenômeno a níveis elevados de hormônios sexuais como a testosterona e o estrógeno, e de cortisol, hormônio relacionado a situações de estresse. De acordo com tais pesquisas, hormônios sexuais animam o indivíduo a transgredir regras enquanto que o cortisol elevado, devido ao estresse associado a prova, o anima a buscar tão logo o possa a solução mais fácil para seu problema, ainda que o seja através da cola (LEE, 2015). Neste contexto, o ato de colar seria inevitável a menos que o ambiente escolar se torne mais acolhedor aos estudantes ou que os estudantes se tornem mais resistentes ao estresse. Para boa parte dos alunos, fracassar em uma avaliação conota inferioridade aos que obtiveram sucesso, baixando portanto a sua autoestima e o apreço dos colegas, especialmente com relação as mulheres. De fato, de acordo com a análise de popularidade dos estudantes, um dos itens expressos na Figura 2, o índice médio de popularidade universitária de estudantes do sexo feminino as quais colaram em seu último ano escolar é 12,5% inferior ao das estudantes que não colaram na escola. Para os homens contudo está regra não se confirma pois não houve alteração significativa associada a esta variável, muito provavelmente porque estudantes do sexo masculino que colam se empenham mais em atividades sociais do que os que não colam. Tomando por base para esta afirmação apenas o índice de participação em trotes, estudantes masculinos que colam são 12% mais frequentes nestes eventos do que os que não colam. Em relação as mulheres esta frequência equivale a 1%.

Ainda de acordo com resultados expressos na Figura 2, em média durante o período escolar indivíduos do sexo masculino colam 40% mais vezes que no período universitário. No entanto, com relação as mulheres o efeito foi inverso pois no período universitário elas colaram 50% mais do que no período escolar. Estas medidas são consistentes com o índice de repetência escolar onde estudantes do sexo masculino, os quais colam mais frequentemente na escola que na universidade, repetem em 60% dos casos e com relação as mulheres, que atuam de maneira inversa aos homens, esta frequência se reduz a 43%.

A análise do perfil comportamental dos estudantes que colam, sob a perspectiva das crenças religiosas, demonstrou que a proporção de indivíduos que colam por gênero é afetada por esta variável. Possivelmente este efeito se dê pois, os hábitos religiosos como um todo influenciam no discernimento entre o certo e o errado por parte daqueles que seguem a alguma religião. Com relação a variável "cola na escola", indivíduos do sexo masculino que se declararam religiosos colaram em média 12% mais que os indivíduos sem religião. Em relação as mulheres as quais declararam seguir alguma religião, o efeito foi inverso pois houve uma redução de aproximadamente 29% na frequência simples do hábito de colar. Este resultado corrobora parcialmente com o trabalho de Guerra (2012) o qual demonstrou, indistintamente com relação ao genero, que estudantes que não seguem religião apresentam pior desempenho escolar e portanto estão mais susceptíveis a colar.

A análise da variável “cola” no cenário em que se considera o posicionamento do aluno em sala de aula, se mostra um importante fator o qual o professor deve estar atento no momento da avaliação. De acordo com os resultados relativos ao sexo masculino, 36 a cada 100 alunos que pretendem colar sentam no meio da sala de aula. As demais porções se dividem igualmente entre a frente e o fundo da sala. Em relação as mulheres esta proporção é um pouco maior, pois 41 a cada 100 alunas que pretendem colar sentam-se no meio da sala de aula e 77 a cada 100 estudantes sentam no meio ou na frente da sala de aula. De acordo com Terra (2011), alunos que sentam no fundo da sala são visados como individuos que colam nos exames, portanto os mesmos ficam em evidência caso queiram realmente colar. Neste caso a melhor posição é se ocultar em meio a todos sentando na porção central da sala de aula, ou até mesmo na frente uma vez que as figuras de autoridade usualmente vigiam menos os alunos das primeiras fileiras. Em todo caso, alunos que sentam ao fundo da sala de aula devem receber especial atenção durante o curso, pois de acordo com Miranda (2014) o desempenho acadêmico dos mesmos é inferior ao dos demais.

Ao que se refere ao sucesso profissional, o qual está atrelado a formação acadêmica no contexto deste estudo, indivíduos do sexo masculino que colaram ou não colaram apresentam empate técnico quanto ao índice de matriculados em IES. Enquanto que a análise do mesmo índice com relação as mulheres aponta que aquelas que não colaram na escola superam em 20% o índice de matriculadas das que colaram.  Embora inicialmente não seja perceptível a diferença entre indivíduos que colam ou não com relação ao sexo masculino, em relação a satisfação salarial homens que nunca colaram são aproximadamente 14% mais satisfeitos com seus rendimentos do que homens que colaram. Os níveis de formação acadêmica e salarial de homens que não colam são respectivamente 4% e 9% superior ao dos homens que colaram. Em relação as mulheres, as que não colaram são 28% menos satisfeitas com seus salários do que as que colaram, porem têm um nível máximo de estudo 12% superior ao das mulheres que colaram no período escolar. Este resultado sugere que a insatisfação salarial das mulheres que não colaram se deve ao fato delas almejarem salários cada vez maiores em detrimento das mulheres que colaram que se contentam com o salário que recebem. Em termos de proporção salarial, 21% das mulheres que nunca colaram ganham salários superiores aos 4000 reais, enquanto que nenhuma das que colaram apresentou salário superior a este montante. Com relação aos homens, 30% dos que nunca colaram possuem salários superiores aos R$ 4000 e com relação aos que colaram, a proporção se reduz a 21%.


5 CONCLUSÃO
Colar em avaliações tem sido um problema histórico bastante frequente no Brasil. As medidas de repressão a este comportamento são pouco eficientes até mesmo com relação a grandes concursos. Deste modo, este estudo objetivou auxiliar o professor a conhecer melhor o perfil dos estudantes que colam de modo a poder conhece-los melhor e assim educa-los mais eficientemente, solucionando as causas deste comportamento. De acordo com os resultados deste trabalho, conclui-se que há distinções significativas com relação ao perfil de estudantes do sexo masculino e feminino em relação ao habito de colar, porém, no geral, indivíduos que colam apresentam rendimento escolar inferior aos que não colam, assim como um futuro profissional menos prolifico.

Portanto, um posicionamento correto da escola para fazer frente a este problema, certamente se baseia em aulas que privilegiam o preparo psicológico e não apenas intelectual, para as avaliações vindouras. Além do domínio dos conteúdos programáticos os quais as escolas já se incumbem de prepara-los, os estudante também precisam diariamente ter seu psicológico trabalhado para suportarem o estresse do exame sem recorrer a cola. Por fim, indivíduos que colam comprometem seu desenvolvimento cognitivo, psicológico e social, ficam presos a uma postura subalterna sempre dependente do conhecimento alheio. Assim sendo, é imperativo que se ponha fim a este comportamento elaborando estratégias mais adequadas buscando conhecer a natureza dos estudantes que são vítimas neste processo.



REFERÊNCIAS

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1 Bacharel em Biomedicina e licenciado em matemática, especialista em metodologia da docência no ensino superior, mestre em ciências biológicas e Doutor em Engenharia Biomédica. Centro Universitário Internacional (UNINTER), Faculdade de Educação, Departamento de Pós-graduação, Curitiba, PR, Brasil, E-mail ediniz@id.uff.br.

2 Centro de Educação a Distância do Estado do Rio de Janeiro (CEDERJ-UNIRIO), Departamento de História, Resende, RJ, Brasil, E-mail lmdiniz5@hotmail.com.




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